UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
LINHA DE PESQUISA: EDUCAÇÃO, POLÍTICA E PRÁXIS EDUCATIVAS
CHRISTOMYSLLEY ROMEIRO DA SILVA
AS RELAÇÕES DE PODER NO PROCESSO DE IMPLEMENTAÇÃO DOS CONSELHOS ESCOLARES NA REDE PÚBLICA MUNICIPAL DE ENSINO DE
CAICÓ/RN
NATAL/RN 2019
CHRISTOMYSLLEY ROMEIRO DA SILVA
AS RELAÇÕES DE PODER NO PROCESSO DE IMPLEMENTAÇÃO DOS CONSELHOS ESCOLARES NA REDE PÚBLICA MUNICIPAL DE ENSINO DE
CAICÓ/RN
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial a obtenção do grau de Mestre em Educação.
Orientadora: Prof. ª Dr. ª Luciane Terra
dos Santos Garcia
NATAL/RN 2019
CHRISTOMYSLLEY ROMEIRO DA SILVA
AS RELAÇÕES DE PODER NO PROCESSO DE IMPLEMENTAÇÃO DOS CONSELHOS ESCOLARES NA REDE PÚBLICA MUNICIPAL DE ENSINO DE
CAICÓ/RN
Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Educação do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Educação.
BANCA EXAMINADORA
Prof. ª Dr. ª Luciane Terra dos Santos Garcia – Orientadora – UFRN
Prof. ª Dr. ª Andrezza Maria Batista do Nascimento Tavares – Examinadora externa – IFRN
Prof. Dr. Gilmar Barbosa Guedes – Examinador interno – UFRN
Prof. Dr. José Mateus do Nascimento – Suplente externo – IFRN
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI
Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial Moacyr de Góes - CE
Silva, Christomyslley Romeiro da.
As relações de poder no processo de implementação dos Conselhos Escolares na rede pública municipal de ensino de Caicó/RN / Christomyslley Romeiro da Silva. - Natal, 2019. 150 f.: il.
Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação. Orientador: Profª. Drª. Luciane Terra dos Santos Garcia. 1. Relações de poder - Dissertação. 2. Gestão pública - Dissertação. 3. Gestão democrática escolar - Dissertação. 4. Conselho escolar - Dissertação. I. Garcia, Luciane Terra dos Santos. II. Título.
RN/UF/BS - Centro de Educação CDU 37.014.621
AGRADECIMENTOS
Era uma vez um garoto que morava em uma vila no interior do Japão. Ressentido desde a infância por questões familiares, cresceu convivendo com a solidão e o desprezo por parte de seu círculo social. Motivo: carregava um demônio interior que ninguém queria suportar. Se Friedrich Nietzsche estivesse vivo, insistiria na ideia de que, com medo de sentir-se só no mundo e com a necessidade de ter alguém olhando e cuidando, o homem criou Deus. A figura do divino aparece, então, como estratégia de solução para ressentimentos humanos. Sigmund Freud vincularia a ideia de ressentimento ao narcisismo...Talvez dissesse que tentamos, o tempo todo, pendurar o nosso eu frágil em alguma coisa/alguém... Esse garoto japonês tinha a necessidade de resolver seus ressentimentos obtendo o reconhecimento de sua existência por parte dos outros... Nisso colocou seu eu frágil!
Na escola, empreendia todo esforço possível para aprender e tornar-se um bom aluno. Era o mais ignorante da turma, destemperado, possuía dificuldades para concentrar-se, era mega cinestésico – não importava o esforço empreendido. A sensação era de que as coisas não avançavam e estava, sempre, a margem do padrão de discente exigido por sua instituição de ensino. Um dia, durante um intenso treinamento conheceu um grande professor, um mestre, um sábio, alguém que, pela primeira vez, reconheceu sua existência e esforço (Prof. Luciane Terra).
Após estreitar laços com o docente, o pequeno rapaz foi inserido em um grupo com outros 2 companheiros (Pedro e Girliany). O primeiro colega de time seria seu eterno rival. Diferente dele, o amigo era um gênio nato, com imensa capacidade de análise, síntese e dedução. Mas, o motivo por trás da rivalidade era a necessidade de ser reconhecido pelo par, além de saber que o parceiro conhecia a mesma dor que ele (solidão, ressentimento)... “Não é possível estabelecer laços sem conhecer a dor do outro”... Talvez essa seja a necessidade do milênio! Enfim, a moça que integrava a equipe era forte emocionalmente e mega disciplinada, além de uma gigante capacidade de concentração. Juntos eles formaram o time 7 e vários eventos e ações foram realizadas por meio do esforço coletivo. Na escola, para além de conviver com os colegas de time, o garoto conheceu vários outros professores (Alda Duarte, Antonio
Cabral Neto, Dante Moura, Magna França, Goretti Cabral, Andréia Quintanilha, Walter Pinheiro, Gilmar Guedes...) e amigos (Marcos Torres, Naelly Carla, Edilza Alves...) poderosos! Todos serviram de inspiração para o rapaz que tanto almejava reconhecimento.
Um dia, o ressentido garoto encontrou-se com um Eremita (Maria Aparecida de Queiroz/Cidinha)... O sujeito era descontraído, forte e inteligente.... Estava aposentado... Levava a vida na boa e estava sempre a procura de fatos para escrever em seus livros. O aluno, ao descobrir que aquele mestre era um dos sujeitos mais fortes e preparados da vila, resolve tornar-se seu discípulo. Consolidava, então, a relação entre um lendário professor e um aluno ignorante e tolo. Após inúmeras aulas, parcerias, atividades, o professor percebeu que o pupilo tinha demônios guardados dentro de si – demônios que nem todos sabiam bem do que se tratava. Mas, havia um que atrapalhava demais o rapaz... Era parecido com Edward Hyde que habitava no Dr. Henry Jekyll (O médico e o monstro – Robert Stevenson) ou mesmo O Lobo da Estepe, que habitava em Harry Haller (O Lobo da Estepe – Herman Hesse).... Bom, não será possível explicar agora o demônio interior do rapaz... Quem sabe na Tese!
O sábio eremita, então, entende que, para o aluno avançar será preciso que ele conheça seu demônio interior, compreenda sua existência, conviva com ele e tire bom proveito... Aos poucos e em meio a uma parceria sólida, ambos foram trabalhando juntos, de treino em treino, de aula em aula, no controle dos demônios que habitavam no interior do aluno... Anos depois, em meio a conflitos e batalhas na vila... Aquele aluno, que outrora era um fracasso, tornou-se alguém reconhecido pelos colegas e amigos que o cercavam.... Seus feitos (Não perdia nas lutas, excelente capacidade de montar estratégias, o trato com pessoas diferentes e etc.) o notabilizaram como alguém que buscava harmonia entre as pessoas...! Os treinamentos, às aulas com o sábio, fizeram com que o rapaz aprendesse a tirar bom proveito dos dilemas morais e das sombras que habitavam nele. Pouco a pouco, aquilo que o perturbava, que o atrapalhava, impedia de se desenvolver e fazer amigos, que impedia o reconhecimento de sua existência, tornou-se sua melhor companhia...!
Nesse percurso de amadurecimento pessoal, estava alguém que constantemente o observava e torcia pelo seu sucesso: Livia Susanne Fritschi. O que o jovem não
sabia era que a moça calma, atenciosa, doce, de família nobre, com seu tom suave de voz e gestos, seria sua principal parceira!
Um dia, questionado pelos pares na escola, amigos que fez com o tempo, professores, os motivos que o levavam a sempre seguir em frente, para além dos ressentimentos, o rapaz respondeu: “Dentro de mim existem 4 sóis! São grandes! Preenchem o coração e iluminam a vida! O Divino, Francisco Caninde, Celia Barbosa e Ellen Edith. Eles me deram a fé necessária para sempre seguir em frente”.
RESUMO
O processo de democratização da gestão escolar é defendido enquanto condição de melhoria na qualidade das escolas públicas brasileiras. Com respaldo na legislação brasileira, Constituição Federal de 1988, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9.394/96, um dos instrumentos desse processo é o conselho escolar, compreendido como instância colegiada, constituído por intermédio da participação da comunidade escolar e local. Nesse sentido, este trabalho objetivou analisar as relações de poder no processo de implementação dos conselhos escolares na rede pública municipal de ensino de Caicó/RN. Partindo de uma revisão de literatura, a fundamentação teórico-metodológica baseou-se em autores que discutem as relações de poder, a gestão pública, gestão escolar pública e os conselhos escolares numa perspectiva crítico-dialética, dentre os quais: Poulantzas (2000), Bourdieu (2004), Guedes (2002), Marques (2012), Paro (2006), Peroni (2010), Silva (2009), Werle (2003). Procurou-se entender as relações de poder configuradas nos diversos modelos de gestão e suas implicações na implementação da organização colegiada nas instituições públicas de ensino. A matriz teórico-metodológico fundamentou-se por meio da revisão de literatura, análise documental, entrevistas semiestruturadas realizadas com quatro integrantes do processo de implementação dos conselhos na rede. Constatou-se que as relações de poder configuradas são marcadas pelas mudanças ocorridas na gestão pública, nacional e local, ao longo dos anos. Nesse sentido, evidenciam-se contradições entre o modelo patrimonial, devido à rotatividade de colaboradores e servidores por critérios pessoais da administração local; a gestão burocrática, pautada pela impessoalidade, formalidade e na legalidade; a matriz gerencial, imbuída pela lógica de mercado, pautada pela eficiência, eficácia e responsabilização; e a gestão democrática, subsidiada pelos movimentos sociais e aparatos legais nacional e local. Constatou-se que o conselho escolar encontra dificuldades de se consolidar como instrumento de democratização da gestão escolar devido à permanência das relações de poder centralizadas e verticais, que obstaculizam a consolidação da matriz democrática. Conclui-se, ainda, que o conselho escolar da rede pública municipal de ensino de Caicó/RN ainda possui muitos desafios a serem superados e que se faz necessário propiciar mecanismos de mobilização popular, visando tornar os sujeitos mais atuantes na luta por uma educação justa e igualitária para todos, com vistas à transformação da própria sociedade.
Palavras-Chave: Relações de poder. Gestão pública. Gestão democrática escolar.
ABSTRACT
The democratization process of school education is defended as a condition of improvement in the quality of Brazilian public schools. Based on Brazilian legislation, the Federal Constitution of 1988, the Law of Directives and Bases of National Education 9.394/96, one of the instruments of this process is the school council, understood as the collegiate body, constituted through the school and local community participation. In this sense, this work aimed to analyze the practices of power in the process of implementation of school boards in the municipal public school of Caicó/RN. A review of the literature, a theoretical-methodological foundation was based on authors who discussed power relations, public administration, school management and school councils in a critical-dialectical perspective, among them: Poulantzas (2000), Bourdieu (2004), Guedes (2002), Marques (2012), Paro (2006), Peroni (2010), Silva (2009), Werle (2003). We sought to understand how the relations of power were configured in examples of management of actions in the implementation of the organization in the public educational institutions. The theoretical-methodological matrix was based on literature review, documentary analysis, semi-structured interviews with four members of the network implementation process. It was verified that the power relations configured in the process are marked by changes in public, national and local management, over the years. In this sense, there are contradictions between the patrimonial model, due to the turnover of employees and servers by personal criteria of the local administration, bureaucratic management, guided by impersonality, formality and legality, the managerial matrix, imbued by market logic, guided by efficiency, accountability and democratic management, subsidized by social movements and national and local legal apparatus. It was found that the school council finds it difficult to consolidate itself as an instrument of school management democratization due to the permanence of centralized and vertical power relations, which hinder the consolidation of the democratic matrix. It is concluded that the school council of municipal public school of Caicó/RN still has many challenges to be overcome and that it is necessary to provide mechanisms for popular mobilization, because it is believed that it is possible to make the subjects more active in the struggle for a just and egalitarian education for all, with transformation of society itself.
Keywords: Power relations. Public administration. School democratic management.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO……… 9
1.1 Percurso teórico-metodológico do estudo……….. 14 1.2 Campo empírico, instrumentos e sujeitos da pesquisa……… 18
2 DIMENSÃO CONCEITUAL DO PODER: ESTADO E A CONSTITUIÇÃO
DAS RELAÇÕES DE PODER NA SOCIEDADE CAPITALISTA………… 21 2.1 As relações de poder, o Estado e o conceito de hegemonia………….. 23 2.2 O poder representado no uso de mecanismos simbólicos………. 37 2.3 Nicos Poulantzas e Pierre Bourdieu: aproximações e
distanciamentos ……… 46
3 AS RELAÇÕES DE PODER E AS MUDANÇAS DOS MODELOS DE
GESTÃO PÚBLICA NO ESTADO BRASILEIRO………..……….. 51 3.1 O modelo patrimonial: as relações de poder na perspectiva da
dominação tradicional……… 52 3.2 O modelo burocrático: as relações de poder na perspectiva da
dominação racional-legal……….. 62
3.3 A Reforma do Estado brasileiro no contexto da Nova Gestão
Pública: o gerencialismo na administração……….. 70
4 O CONSELHO ESCOLAR NO CONTEXTO DA GESTÃO
DEMOCRÁTICA DA EDUCAÇÃO PÚBLICA………. 85 4.1 O conselho escolar como mecanismo de democratização da gestão
escolar pública……… 85 4.2 As relações de poder no processo de implementação dos conselhos
escolares na rede pública municipal de ensino de Caicó/RN…………. 104
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS………. 132
REFERÊNCIAS……….. 138 ANEXOS……….. 146
1 INTRODUÇÃO
O processo de democratização da gestão escolar, desencadeado em meados da década de 1980 é defendido por movimentos sociais e de classes, enquanto possibilidade de melhoria na participação e da qualidade social das escolas públicas brasileiras. Com respaldo na legislação – Constituição Federal de 1988 e Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 – um dos instrumentos previstos nesse processo é o conselho escolar, compreendido como instância colegiada, constituída a partir de princípios democráticos, por intermédio da participação da comunidade escolar e local.
Nesse sentido, esta pesquisa tem como escopo analisar as articulações entre dois técnicos da Secretaria Municipal de Educação, sendo ambos docentes permanentes do quadro de servidores. Um deles, professor da rede pública municipal, atualmente gestor escolar, e o outro representante discente, pois pesquisas teóricas e empíricas consideram as instâncias colegiadas na esfera educacional. Em âmbito nacional, Marques (2012), Paro (2006), Werle (2003), evidenciaram a necessidade de explorar o envolvimento dos sujeitos sociais nos órgãos colegiados, visto que, faz-se necessário o desenvolvimento de mecanismos de participação engajada que possibilitem a inserção dos diversos sujeitos sociais nos processos decisórios institucionais. Tais autores evidenciaram que as instâncias da sociedade, por vezes, permanecem inoperantes frente aos processos decisórios e nas tomadas de decisão nas instituições de ensino, uma vez que os detentores do poder, nas organizações colegiadas, se utilizam de práticas e mecanismos que garantem a concentração do poder nas mãos de poucos.
Na esfera local, consideramos os teóricos Cabral Neto (2009) e Guedes (2002) que consolidaram pesquisas sobre as instâncias colegiadas, especificamente, os Conselhos Escolares, elucidaram as atribuições desses órgãos em consonância com os aparatos legais normativos e o envolvimento com os integrantes da comunidade local. O intuito de tais investigações visa possibilitar um arcabouço teórico e empírico no que se refere à horizontalidade das relações e o compartilhamento do poder entre os diversos sujeitos integrantes das unidades
colegiadas como forma de democratizar a gestão das instituições públicas por meio da participação. A partir da atuação como professor da Educação Básica municipal, foi possível compreender a relevância do conselho escolar para o processo de democratização da gestão escolar pública, considerando as relações de poder dos segmentos representativos. Assim, esta pesquisa se diferencia das demais por considerar as relações de poder configuradas na construção de diferentes modelos de gestão pública constituídos no país, bem como suas implicações nas organizações colegiadas.
No contexto da atuação como docente da rede pública de ensino de Parnamirim/RN, foi perceptível que diversos integrantes procuravam o órgão colegiado de uma escola específica interesses distintos. Alguns buscavam atender às demandas da rede educacional e interesses pessoais; outros, objetivavam o atendimento das necessidades sociais. Nessas disputas, percebe-se que os sujeitos se utilizavam dos espaços de poder que ocupavam na instituição escolar (cargos de diretor, coordenador, dentre outros) em prol de interesses do poder local – a priori, esse foi o motor que impulsionou o interesse pela pesquisa. Em meio às discussões com outros pesquisadores sobre a temática, foi indicado que esta pesquisa fosse realizada no contexto da rede pública municipal de ensino, já que nesse âmbito as relações de poder se configuram e se manifestam, com maior clareza, de acordo com os interesses dos sujeitos que o integram e suas relações com os demais integrantes do poder público local.
A princípio, a pesquisa seria realizada no município de Parnamirim/RN e sofreu significativa mudança, pois, o pesquisador, por questões de trabalho, precisou fixar-se na cidade de Caicó/RN, situada na região do Seridó Potiguar. Tal distanciamento do município que, inicialmente, seria o lócus da pesquisa inviabilizou que o plano original fosse realizado.
Assim, por meio de observações preliminares no âmbito da Rede Pública Municipal de Ensino de Caicó/RN, convivência com funcionários e servidores locais, notou-se que estava em curso o processo de implementação dos conselhos escolares nas escolas públicas da cidade, ocorrido, prioritariamente, a partir da promulgação do Decreto Nº 068 de 20 de Novembro de 2003, que institui os conselhos escolares das escolas municipais e da Lei complementar Nº 4042 de 02 de Dezembro de 2003, que
dispõe sobre o processo de eleições diretas de diretores e vice-diretores das escolas públicas municipais. Nesse sentido, tornou-se viável e pertinente analisar as relações de poder dos diversos sujeitos no processo de implementação do conselho escolar, por considerar uma temática que pode ser discutida e debatida por óticas diversas e que poderá contribuir com outros estudos, no sentido de ampliar as discussões sobre as relações de poder configuradas nos variados modelos de gestão pública, suas implicações na organização e a estruturação dos conselhos escolares. Além disso, entende-se que os diferentes sujeitos reproduzem e incorporam as estruturas discursivas cristalizadas na organização da rede pública de ensino, e da própria sociedade, como forma de perpetuação dos grupos dominantes nos espaços de poder.
A partir disso, o problema de pesquisa se estrutura a medida em que se fez necessário entender a atuação de dois técnicos da Secretaria Municipal de Educação, ambos professores da rede, a saber: um docente na condição de gestor escolar; e, o outro, representante discente. Sendo assim, procurou-se antever as articulações consolidadas no processo de implementação dos conselhos escolares na rede educacional, considerando as relações de poder configuradas.
No que se refere ao problema de pesquisa, Para Laville e Dionne (1999, p. 85):
Um problema de pesquisa é um problema! Pois a mente humana e, em geral, bastante sabia para não se inquietar inutilmente. Ninguém, com razão, tem vontade de dedicar muito tempo para saber se a chuva molha, se os homens e as mulheres são de sexos diferentes, se as zebras são listradas de preto ou branco [...] O que mobiliza a mente humana são problemas, ou seja, a busca de um maior entendimento de questões postas pelo real, ou ainda a busca de soluções para problemas nele existentes, tendo em vista a sua modificação para melhor. Para aí chegar, a pesquisa é um excelente meio.
Ainda sobre o problema de pesquisa, os autores evidenciam:
Um problema de pesquisa não é, portanto, um problema que se pode resolver pela intuição, pela tradição, pelo senso comum ou até pela simples especulação. Um problema de pesquisa supõe que informações suplementares podem ser obtidas a fim de cerca-lo, compreende-lo, resolve-lo ou eventualmente contribuir para a sua resolução. Finalmente, um problema não merece uma pesquisa se não for um ‘verdadeiro’ problema — um problema cuja compreensão forneça novos
conhecimentos para o tratamento, de questões a ele relacionadas (LAVILLE; DIONNE, 1999, p. 88, grifo dos autores)
Em relação ao exposto, entende-se a pertinência em problematizar as relações de poder configuradas nos modelos de gestão pública do Brasil, mais precisamente, as implicações no processo de implementação dos conselhos escolares, uma vez que viabiliza a compreensão do envolvimento dos sujeitos sociais nos processos decisórios da rede pública municipal de ensino frente a tal processo. Além disso, indivíduos possuem a chance de reconhecer de que forma as respectivas atuações podem influenciar o envolvimento de outros sujeitos. Para tanto, foi fundamental a compreensão sobre as dimensões do poder. Sabe-se que os conselhos escolares, enquanto instâncias colegiadas, são espaços de poder, logo, propiciam relações conflituosas e, também, contraditórias, já que grupos de sujeitos podem utilizar os recursos do poder que possuem, mediante os espaços que ocupam, para influenciar a atuação dos demais indivíduos, por vezes, de acordo com a vontade particular.
A forma como a rede pública municipal de ensino de Caicó/RN procura estruturar-se e organizar-se possui implicações nas unidades de ensino, nos permite levantar questionamentos de pesquisa, a saber: 1) De que forma as relações de poder estão configuradas no processo de implementação dos conselhos escolares da rede pública municipal de ensino? 2) Como os modelos de gestão pública, experimentados ao longo dos anos em âmbito nacional e local, influenciaram as relações de poder configuradas no processo de implementação dos conselhos escolares?
Diante de tais questionamentos, a dissertação pressupõe que as relações de poder configuradas no processo de implementação dos conselhos escolares da rede pública municipal de ensino de Caicó/RN são, a priori, influenciadas pelos modelos de gestão pública no Brasil, sendo eles: o patrimonial, o burocrático, o gerencial e a democrática, marcados por inúmeras contradições. No que se refere a matriz democrática, sua efetivação possui respaldo nos aparatos legais normativos, sendo, inclusive, almejada por diversos grupos sociais desde os anos de 1980.
Nesse sentido, as instâncias colegiadas instituídas por meio de instrumentos legais e que servem de mecanismos para a democratização da gestão escolar pública, consistem em estratégias de contestação do poder verticalizado, característico dos modelos patrimonial, burocrático e gerencial. Na perspectiva da matriz democrática,
as organizações colegiadas devem possibilitar a construção de relações de poder que possibilitem mudanças na realidade escolar por meio do compartilhamento do poder e horizontalização das relações. Assim, os indivíduos que integram as instâncias colegiadas têm chance de trabalhar visando a emancipação dos sujeitos sociais e o desenvolvimento de movimentos, em prol de uma educação mais justa e igualitária para todos. Para tanto, os conselhos escolares, como mecanismo de gestão democrática, indicado por vasta literatura da área educacional e por aparatos normativos legais, devem ter como objetivo a democratização das instituições públicas educacionais.
Por outro lado, existem processos decisórios assentados na rede pública municipal de ensino que se viabilizam por intermédio de atuações centralizadas e tradicionais, que dificultam a democratização das relações entre os grupos representativos inseridos na realidade educacional, já que podem visar atender interesses dominantes e específicos.
Mediante o exposto, a dissertação estruturou-se a partir dos seguintes objetivos:
Objetivo Geral:
Analisar as relações de poder configuradas por diferentes concepções de gestão pública no Brasil e seus desdobramentos no processo de implementação dos conselhos escolares na rede pública municipal de ensino de Caicó/RN.
Objetivos Específicos:
Problematizar como as relações de poder se configuram conforme as concepções de gestão presentes na administração pública brasileira;
Investigar as relações de poder identificadas no processo de implementação dos conselhos escolares na rede pública municipal de Caicó/RN;
A partir do exposto, faremos a apresentação e a discussão do percurso metodológico desenvolvido na pesquisa.
1.1 Percurso teórico-metodológico do estudo
A pertinência que possui a temática dos conselhos escolares na área educacional exige do pesquisador uma postura crítica, reflexiva e rigorosa. Para tal, optou-se pela perspectiva crítico-dialética na condução da investigação. Esse construto, segundo Marx e Engels (1984), evidencia um conjunto de concepções e valores ideológicos que orientam os movimentos da substância como integrantes de qualquer ser, elemento ou fato no universo. Marx e Engels (1984) conclamam que os procedimentos analíticos desenvolvidos ao longo da história para a formulação da crítica da economia política, no contexto atual, servem para que possamos evidenciar as contradições existentes no sistema capitalista de produção. Nesse sentido, é substancial realizar o que o autor denomina de caminho inverso, no que diz respeito às formulações científicas de conhecimento da realidade e dos objetos a serem investigados. Esse movimento permite que os diferentes indivíduos e grupos sociais compreendam as diversas representações em uma perspectiva de totalidade e de relações múltiplas.
Sobre o Estado capitalista, a partir da perspectiva crítico-dialética, Vásquez (1977) elucida que o Estado ao se organizar sob a lógica do modo de produção capitalista, fundamentalmente, reproduz a prática da exploração. Esta, por sua vez, a partir da lógica da sociedade de mercado, associada ao Estado burguês-opressor, procura garantir todas as formas de alienação do trabalho humano. Para tanto, não requer participação nas tomadas de decisões políticas e sociais. Na lógica do capital, “participar” é aceitar e legitimar as decisões organizadas e implementadas por aqueles que ocupam os espaços de poder na sociedade e em diferentes instituições. Logo, o modelo de Estado capitalista, procura esvaziar e minimizar a participação dos diferentes sujeitos nas tomadas de decisão e do compartilhamento do poder. Por isso, as relações sociais tornam-se centralizadas e verticalizadas por parte do poder central em relação às demais instâncias.
Compreender o Estado e o modo como funciona em sociedades capitalistas é uma premissa substancial para problematizarmos a atuação da educação, consequentemente, perceberemos as relações de poder envolvidas, tendo em vista que as instituições sociais são perpassadas pela mediação do Estado. Ainda na discussão do Estado capitalista e da institucionalização de sua materialidade, Poulantzas (2000) elucida que os aparelhos que constituem a formação do Estado não possuem poder in nature, ou seja, poder como categoria existencial, e, que este, não é inerente às relações hierárquicas. Ao contrário, para o autor, o Estado cristaliza e mantém as relações de classe, as quais são definidas pelo conceito de poder. O Estado não assume uma identidade definida por ser uma entidade em si, com uma natureza instrumental, mas configura-se, em si, como consolidação de uma relação das diversas frações de classes existentes na sociedade. Portanto, não são as hierarquias que criam as classes sociais, mas elas configuram, de modo peculiar, o poder no aparelho do Estado. Em concomitância, esse mesmo aparelho está inexoravelmente, marcado pelas lutas existentes entre as classes. Para Poulantzas (2000), a luta de classes e o aparelho do Estado não podem ser separados.
Nesse sentido, em meio as muitas possibilidades de compreender e apreender o objeto de estudo, faz-se necessário considerar suas múltiplas determinações, as contradições intrínsecas e sua dinâmica com a realidade social. Sendo assim, leva-se em consideração para esta pesquisa o tempo proposto e as condições de acesso para a consolidação da pesquisa. Embasa-se a investigação sobre as relações de poder em uma perspectiva crítico-dialética, buscando entender como estão configuradas no processo de implementação dos conselhos escolares da rede pública municipal de ensino de Caicó/RN, bem como as implicações nos processos decisórios. Em uma perspectiva ampla, tenta-se compreender as mediações que norteiam as diversas relações de poder que possibilitam mudanças nas práticas cotidianas, na medida em que revelam as contradições nas ações dos sujeitos.
Do ponto de vista metodológico, tem-se a ideia de que indagar as práticas científicas, ultrapassando regras pré-estabelecidas pelos cientistas clássicos, significa o questionamento dos próprios objetos, os quais devem ser conquistados, construídos e constatados (BOURDIEU, 2004). Para o autor francês, o conhecimento é
substancial para a superação do saber meramente prático, do senso comum. Nesse sentido, o cientista crítico deve atentar-se para a realidade concreta, romper com os elementos aparentes e trabalhar na perspectiva de uma lógica de relações entre os elementos interligados, isto é, uma conjuntura de relações objetivas que permitam ao pesquisador conhecer o objeto investigado o mais próximo de sua totalidade.
Assim, para compreender o objeto torna-se crucial o rompimento com os preconceitos. Uma vez que se trata de um processo complexo que se sustenta no discurso científico, em uma concepção pragmática e utilitária da realidade, cujos pressupostos são assumidos inconscientemente e vinculados a mensuração dos fenômenos. Ultrapassar os preconceitos implica no rompimento com a aparência fenomênica, exigindo, dessa forma, o questionamento da relação pesquisador com o objeto, suas motivações e interesses acerca do estudo que pretende empreender.
Para Bourdieu (2004), o conhecimento sociológico é uma construção intelectual primordial que estabelece compreensões opostas ao saber espontâneo, em face de que as limitações ao se abandonar ideias pré-concebidas é diretamente proporcional ao risco de se cair no profetismo social. Diversamente, a sociologia deve ter o compromisso de revelar as diferentes formas de atuação dos sujeitos no universo da pesquisa, seus campos de atuação, suas estratégias, as diferentes concepções metodológicas, a fim de desvendar as muitas formas de dominação escondidas nos diversos mundos sociais. É substancial, também, voltar-se contra a teoria tradicional, posto que estas, pretensamente universais, tiram da lógica do senso-comum seu projeto fundamental. Bourdieu (2004) preconiza a existência de uma teoria do conhecimento sociológico capaz de superar as estratégias e mecanismos do objetivismo, determinismo sociológico, do subjetivismo e voluntarismo individualista.
De acordo com o teórico francês, após a construção do objeto, este deve ser posto à verificação sistemática. A averiguação do objeto consolida o papel de pôr à prova o seu valor científico e sua consistência, levando em consideração se os pressupostos epistemológicos de suplantação e construção atenderam ao objetivo de superação da sociologia voluntarista, esquivando-se das aproximações com o senso-comum. Vale salientar que os fatos devem corresponder àquilo que é questionado pelo pesquisador. Assim, se questionados sobre as ideias pré-concebidas e seus
receituários metodológicos, os fatos, que não possuem o devido valor, não oferecerão nada que valha a pena ser dito (BOURDIEU, 2004).
Em face das considerações acima, desenvolveu-se esta pesquisa a partir da abordagem crítica. Segundo Bourdieu (2004) esta abordagem não se vale de princípios de extrema precisão, pautados em fórmulas concretas para entendimento da realidade. Por esse viés, há a necessidade de um aprofundamento das distintas relações sociais e seus respectivos grupos, pois preconiza-se certo relativismo para a construção e formulação do conhecimento científico, bem como para a análise e interpretação de diferentes áreas da ciência.
Na mesma linha de raciocínio, Minayo (2001) menciona que o pesquisador, inserido nesta abordagem, busca compreender o porquê dos fenômenos, colocando-se como sujeito e objeto das próprias pesquisas, tendo, por isso, que considerar que este conhecimento projetado é parcial e limitado. Para a autora, o objetivo da pesquisa é revelar informações aprofundadas, por se preocupar com os elementos constituintes da realidade, os quais não passam única e exclusivamente pela quantificação. Ou seja, são condições de representação, valores, concepções políticas que ocorrem em um determinado tempo e espaço profundo de relações e que não podem passar pelo reducionismo de variáveis.
Partindo das considerações expostas, analisa-se o processo de implementação dos conselhos escolares na rede pública municipal de ensino de Caicó/RN, considerando-se as relações de poder, em face dos modelos de gestão pública incorporados na dinâmica da rede e da política educacional brasileira a partir dos anos de 1980. Nesse sentido, escolheu-se a referida rede municipal de ensino, levando em consideração o acesso territorial, documental e disponibilidade dos sujeitos, que viabilizaram o percurso da pesquisa. Dessa forma, tem-se, como lócus empírico, a atuação de dois técnicos da Secretaria Municipal de Educação, um gestor escolar e um responsável discente da rede municipal de ensino de Caicó/RN.
No que se refere aos percursos teórico-metodológicos, procedimentos fundamentais para a coleta e análise dos dados foram utilizados ao longo da pesquisa, são eles: análise documental, revisão de literatura e entrevistas semiestruturadas. De acordo com Bourdieu (2007), na construção do objeto de investigação os procedimentos teóricos e técnicos são indissolúveis e necessário para uma melhor
compreensão do que está sendo pesquisado. Segundo o teórico, o uso de diversas fontes é crucial para viabilizar uma significativa apreensão do objeto, uma vez que a revisão de literatura aparece com a necessidade de se embasar no conhecimento historicamente produzido e acumulado. Por fim, será explicitado o lócus em que a pesquisa efetivou-se, os mecanismos utilizados para a coleta de dados e os participantes que contribuíram com a investigação.
1.2 Campo empírico, instrumentos e sujeitos da pesquisa
Em um primeiro momento, no campo empírico, foi realizada uma entrevista exploratória com dois técnicos integrantes da rede, sujeitos da pesquisa, na perspectiva de conhecer a forma como a rede pública municipal de ensino de Caicó/RN se estrutura e organiza. As entrevistas são fundamentais para um melhor entendimento do objeto de estudo, pois, possibilita revelar o que não se evidencia de forma clara e nítida em registros documentais, questionários, etc. Nesse sentido, elaborou-se um roteiro para a organização das perguntas, apresentada nos anexos. Buscou-se, mediante tal instrumento, conhecer a organização da rede, os conselhos escolares e os mecanismos viabilizados nas relações de poder na instância colegiada que implicaram na luta pela efetivação da gestão democrática.
Nesse processo, tentou-se conhecer o contexto social em que os representantes escolhidos se inserem, considerando as experiências explicitadas, mediante a percepção dos sujeitos partícipes. Os autores Bogdan e Biklen (1994) explicam que a forma como é conduzida uma investigação em uma perspectiva crítico-dialética, implica no diálogo entre os indivíduos participantes e os pesquisadores, tendo em vista que não há neutralidade na abordagem do investigador para com o sujeito da pesquisa. Nesse intercâmbio de experiências, torna-se viável o entendimento histórico do objeto de estudo das relações de poder no processo de implementação dos conselhos escolares na rede pública municipal de ensino de Caicó/RN. Após isso, tem-se construído a análise dos documentos recebidos junto a secretaria municipal de educação de Caicó/RN, sendo esses os aparatos legais normativos que instituíram os conselhos escolares e a gestão democrática escolar.
No que se refere à revisão de literatura, Minayo (2001) argumenta que tal procedimento é substancial para a compreensão do conhecimento historicamente acumulado sobre o objeto a ser investigado. Nesse raciocínio, é vital estabelecer, de forma adequada, a relação entre o que foi apreendido em relação ao objeto na dimensão empírica e os aspectos teóricos que o fundamenta. Para a autora, a investigação que reconhece a complexidade dos objetos que se inserem nas ciências humanas e sociais busca contextualizar seu conceitos, temas e assuntos a partir de fontes bem fundamentadas.
Nesse sentido, as discussões feitas sobre as relações de poder encontram-se subsidiadas em teóricos como: Poulantzas (1971; 1977; 1980) e Bourdieu (1986; 1989; 2001; 2007). Sobre os modelos de gestão pública, foram consultados teóricos como: Weber (1999), Faoro (1975), Jessé de Souza (2000). No que se refere a gestão educacional, autores como Cabral Neto (2009), Bresser-Pereira (1999), Abrucio (1997) foram consultados. Sobre a gestão democrática, teóricos como Paro (2006), Peroni (2010), Silva (2009) e a respeito dos conselhos escolares, autores como Marques (2012), Guedes (2002) e Werle (2003).
Por análise documental, conforme Cellard (2008) compreende-se o uso de documentos que viabilize, por intermédio de contextualização histórica, o entendimento da história vivenciada por sujeitos ou objetos. Para o teórico, o documento, em inúmeras situações, permanece como único testemunho de um momento histórico específico que o pesquisador deseja conhecer. Nesse sentido, os documentos nacionais utilizados, em âmbito nacional, foram a Constituição Federal de 1998, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9.394/96, o Plano Nacional de Educação (2001-2011), Plano Nacional de Educação (2014-2024). Em esfera local, foram consultados o Plano Municipal de Educação (2015-2025), a Lei Complementar 4.042/2003, que institui a gestão democrática na rede educacional e o Decreto 98/2003 que institui sobre os conselhos escolares.
Com base nas informações coletadas, iniciou-se a análise e a interpretação dos dados por meio das mediações com a fundamentação teórica, selecionada previamente. De acordo com Lakatos e Marconi (2003) analisar é a tentativa de elucidar que relações existem entre o que fenômeno pesquisado e demais fatores ou situações. A etapa da interpretação, segundo os autores, consiste na atividade
intelectual que tem por escopo atribuir significado às informações obtidas, relacionando-as a outros conhecimentos científicos. Ao optar pelo contexto social da pesquisa, procurou-se visualizar as diversas contradições que foram configuradas historicamente, inclusive, no recorte do objeto investigado. Para Minayo (2001), ao se consolidar uma pesquisa social na esfera educacional, desenvolveu-se uma aproximação sistemática da realidade que é inesgotável, possibilitando diferentes combinações entre a teoria e a prática.
De forma a nos apropriar da realidade empírica, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com quatro participantes, sendo eles: um responsável de discente, um professor do quadro de servidores na condição de gestor escolar e dois técnicos vinculados a Secretaria Municipal de Educação, sendo estes escolhidos por terem participado, diretamente, do processo de implementação dos conselhos escolares. Vale salientar que os sujeitos concordaram em participar da pesquisa, por meio do preenchimento de formulário de consentimento esclarecido com a finalidade de publicação, após a conclusão da investigação.
Os indivíduos participantes da pesquisa serão identificados por meio de pseudônimos, de forma a preservar a integridade das fontes. São eles: REPRESENTANTE DOS PAIS, TÉCNICO DA SECRETARIA, REPRESENTANTE DOS PROFESSORES e GESTOR ESCOLAR. As entrevistas foram gravadas com o intuito de viabilizar o entendimento das estratégias que orientaram a implementação dos conselhos escolares, as relações de poder configuradas nesse processo e as implicações do mesmo na efetivação da gestão democrática. Após as transcrições, as informações foram analisadas considerando os questionamentos norteadores do estudo, como o envolvimento dos sujeitos no processo de implementação dos conselhos na rede, as relações de poder configuradas no percurso, as implicações desse processo na efetivação da gestão democrática. Para Bogdan e Biklen (1994), a escolha das categorias é fundamental enquanto etapa da análise dos dados, pois permite a classificação das informações coletadas, viabilizando a interpretação dos dados, sendo elas: relações de poder, descentralização, responsabilização.
Por fim, vale ressaltar que tais procedimentos foram fundamentais para a coleta das informações, sendo possível a compreensão das relações de poder no processo de implementação dos conselhos escolares na rede educacional pública de
Caicó/RN. Na perspectiva de organizar a investigação do objeto de estudo informado, dividiu-se a dissertação nos seguintes capítulos.
No primeiro, aborda-se a temática das relações de poder configuradas nas estruturas sociais e nas relações cotidianas. Nesse sentido, evidencia-se o processo de consolidação do poder, por intermédio das lutas existentes entre as frações de classes nas estruturas do Estado e, também, nos demais espaços sociais, tendo os indivíduos como mecanismos de difusão do poder.
No segundo, discute-se as mudanças ocorridas nos diversos modelos de gestão pública no Estado brasileiro e suas implicações nas políticas educacionais, bem como nas relações de poder que se configuraram no processo de implementação dos conselhos escolares na rede educacional selecionada.
No terceiro, analisa-se as matrizes socioeconômicas e políticas que alicerçaram o modelo de gestão democrática nas esferas nacional e local. Tentou-se entender os mecanismos fundamentais para a efetivação da lógica democrática, uma vez que esse modelo viabiliza o envolvimento dos sujeitos integrantes da comunidade escolar nas tomadas de decisão. Das diversas estratégias de consolidação da gestão democrática, evidencia-se a necessidade dos conselhos escolares, instâncias relevantes das unidades de ensino e substanciais para a horizontalização das relações e compartilhamento do poder. É nesse momento da pesquisa que ocorre a análise do campo empírico, dos aparatos normativos, bem como as relações de poder no processo de implementação dos conselhos escolares na rede.
Por fim, serão feitas as considerações finais, apresentando os as potencialidades e fragilidades da pesquisa.
2 DIMENSÃO CONCEITUAL DO PODER: ESTADO E A CONSTITUIÇÃO DAS RELAÇÕES DE PODER NA SOCIEDADE CAPITALISTA
Neste capítulo, discute-se a temática do poder considerando que os processos decisórios são consolidados por intermédio das relações de forças entre as frações de classes existentes no seio do Estado e suas implicações nas diversas relações sociais, bem como pela utilização dos mecanismos simbólicos, que viabilizam a atuação dos sujeitos. Desta maneira, tem-se por escopo analisar a concepção de
poder abordado por Poulantzas (1971; 1977; 1980) e do poder simbólico desenvolvido nos estudos de Bourdieu (1986; 1989; 2001; 2007). Esses teóricos não abordam o poder, apenas como mecanismo repressor, mas também o analisam no interior de uma lógica social mais complexa. Este capítulo estrutura-se por meio de três seções: A primeira seção aborda a concepção de poder em dois momentos teóricos distintos do autor Nicos Poulantzas. Em uma etapa inicial, o contexto histórico dos anos de 1960, em que os estudos nas Ciências Sociais efetivaram uma série de construções teóricas que passaram a interrogar a validade das concepções sobre as lutas de classes focadas nas relações de poder entre as classes sociais.
É nesse momento que Poder Político e Classes Sociais foi publicado, obra que ressalta a centralidade das classes sociais para melhor compreensão das diversas formas de organização social, ações coletivas e atuação do Estado, enquanto estrutura. Nessa obra, Poulantzas (1977) deixa claro suas influências oriundas dos estudos althusserianos.
A posteriori, já nos anos de 1970, o marxista grego diverge com o marxismo estruturalista e evidencia suas mudanças na obra O Estado, O Poder, o Socialismo, tendo por vista que, na segunda, o Estado passa a ser narrado como a condensação material entre as frações de classes da sociedade. Observa-se nesta segunda obra, tentativas de aproximações com as concepções de Antonio Gramsci. O marxista grego compreende a indispensabilidade de concessões estatais em benefício das classes proletárias. Essas concessões são substanciais para a consolidação da conformação popular, estratégia fundamental para a legitimação da hegemonia de uma classe social.
A segunda seção discute o processo de consolidação do poder simbólico, a partir das obras de Pierre Bourdieu: O Poder Simbólico, Meditações Pascalinas,
Questões de Sociologia, etc., entre outros. Bourdieu (1989) elucida que a efetivação
do poder, para além da esfera concreta da realidade, se realiza igualmente pela dimensão simbólica, pelo conhecimento, pelos diferentes signos e elementos semióticos que perpassam as diferentes instituições e organizações. Para o autor, os instrumentos concretos produzidos pelo homem possuem uma ligação específica com o campo simbólico, pois, o ser humano, a partir da produção da cultura, desenvolvida
em relações histórico-sociais, associa o objeto concreto com sua representação com o intuito de compreender a realidade na qual se insere.
Em seguida, Bourdieu (1989), aborda o processo de dominação, que se manifesta de forma implícita nas relações sociais. Para o teórico, isso ocorre porque a classe dominante possui um capital simbólico a sua disposição e as diversas práticas culturais e sociais, reproduzidas e difundidas por meio das instituições e nas instituições, resultam no exercício do poder da classe burguesa sobre a trabalhadora, legitimando sua dominação.
A terceira seção aborda as aproximações e distanciamentos entre as concepções de poder em Nicos Poulantzas e Pierre Bourdieu. Na obra O Marxismo
encontra Bourdieu, publicada em 2010 pelo autor Michael Burawoy, sociólogo
norte-americano, busca entender relações entre a teoria social e a prática política, a partir de conceitos vinculados a ambos os autores, tais como: poder, hegemonia e dominação.
Por fim, serão apresentadas notas conclusivas sobre as discussões feitas neste capítulo e suas implicações para a temática das relações de poder e suas configurações nos diferentes modelos de gestão do Estado.
2.1 As relações de poder, o Estado e o conceito de hegemonia
A finalidade desta seção consiste na análise das relações de poder no Estado Capitalista em Poder Político e Classes Sociais e O Estado, o Poder, o Socialismo, obras do teórico político Nicos Poulantzas1. Faz-se necessário evidenciar que as
abordagens vinculadas as duas obras permitem estabelecer compreensões acerca das influências teóricas que marcaram as duas fases do pensamento do teórico grego. Inicialmente, o autor fora, intensamente, influenciado por Louis Althusser2, como
evidenciado em Poder Político e Classes Sociais. Nesse contexto, o Estado é
1Nicos Poulantzas (1936-1979), marxista e membro do Partido Comunista da Grécia, nasceu em Atenas. Transferiu-se para Paris em 1960. Lecionou no departamento de sociologia da Universidade de Vincennes e depois na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais.
2 Louis Althusser (1918 – 1990) marxista e membro do Partido Comunista Francês, nasceu Birmandreis, Argélia. Foi professor na École Normale Supérieure (ENS), França.
entendido como uma estrutura vinculada ao modo de produção capitalista, com o objetivo de organizar os diferentes níveis de uma composição social.
Em Althusser (1979), o sistema capitalista se configura como um complexo de dominação organizado por diferentes estruturas (ideológico, político, econômico) e, pode ser identificado pela divisão das suas dimensões e pela atuação principal da esfera econômica. Para Poulantzas (1977), essas considerações sobre as formações capitalistas a partir de estruturas, com a preponderância da esfera econômica na organização social, estavam presentes nas obras de Karl Marx3, em especial, em O
Capital, que demonstraria o domínio da instância econômica no modo de produção
capitalista.
Mediante a esse legado teórico e intelectual, Poulantzas, em Poder Político e
Classes Sociais, elucida seu interesse em construir uma abordagem marxista a partir
da esfera política. A discussão sobre a instância do político reside no interesse de localizar, na centralidade do modo de produção capitalista, o espaço e as funções do Estado, enquanto nível específico de uma organização social.
Em Poder Político e Classes Sociais, Poulantzas (1977) delineia o conceito de Estado por intermédio de suas funções. O autor entende o Estado como uma estrutura objetiva que possui a função primordial de organizar o fator de coesão dos diversos níveis de uma organização social. Nesse sentido, o Estado consiste no promotor da ordem, o eixo de organização e principal elemento regulador de equilíbrio do sistema. Essas atribuições peculiares do Estado se norteiam por uma perspectiva política, que objetiva a manutenção da lógica de produção capitalista e, assim, a formação e funcionamento da sociedade orientada para a dominação de classe.
No que se refere a essa dominação, Poulantzas (1977) afirma que, na sociedade capitalista, a relação capital e trabalho, explorador e explorado, ou, poderes de classe, configuram-se na medida em que os detentores de propriedade, por meio do poder econômico, orientam o uso dos meios de produção, os espaços em que serão utilizados, quais produtos serão obtidos (mercadorias), a capacidade de gerenciar o uso dos meios de produção e a coordenação do processo de trabalho. Dessa forma, o poder se manifesta em diferentes dimensões do processo produtivo,
3Karl Marx (1818 – 1883), foi um filósofo, sociólogo, jornalista e revolucionário alemão. Nasceu em Tréveris, Prússia. Autor de O manifesto comunista (1848) e O capital (1867 – 1894).
situando-se nas relações existentes entre os que compram a força de trabalho e os que a vendem. Ou seja, o poder está dimensionado em uma lógica de relações de classe. Torna-se necessário, portanto, considerar que as relações econômicas e de produção, são entrelaçamentos de poderes e que estão ligadas às dimensões políticas e econômicas.
Na esfera da luta de classes, o poder se manifesta na divisão do trabalho e determina a capacidade de as classes atingirem a objetivos próprios. Assim, as relações de poder estão ancoradas na extração da mais-valia e, como instituições-aparelhos, cristalizados nas indústrias, nas empresas, nas unidades de produção e em outros lugares de extração da mais-valia4, nas quais manifestam suas concepções
político-ideológicas.
Ainda na discussão sobre a função primordial do Estado, Poulantzas (1977) afirma que, se por um aspecto, a atuação do Estado visa garantir a autonomia da esfera política dentro do modo de produção capitalista, tendo em vista que o equilíbrio do sistema não pode ser assegurado pela esfera econômica, por outro, o Estado passa a organizar a estrutura em que se condensam as contradições existentes dentro dos níveis de composição social. De tal forma que, segundo Codato (2008), o Estado viabiliza-se como a região do todo social onde se revela a unidade e as formas de articulação das estruturas da sociedade.
Em síntese, a atribuição geral do Estado, para Poulantzans (1977), pode ser entendida a partir de diferentes dimensões referentes aos variados níveis nos quais uma formação social se articula. O Estado é o articulador do processo de trabalho, a partir de suas atribuições na esfera econômica. É, também, conforme o teórico grego: o coordenador de todo aparato jurídico e da organização das barganhas capitalistas; na esfera ideológica, torna-se o promotor da educação; no âmbito político, visa garantir a ordem política.
Para Codato (2008), todos os níveis de atuação do Estado são influenciados pela sua função política com o intuito de viabilizar a unidade social. Mediante as
4É o termo usado para designar a disparidade entre o salário pago e o valor do trabalho produzido. A partir da análise dialética, Marx argumentou que o modo de produção capitalista retrata a própria exploração do proletariado por parte dos detentores dos meios de produção, uma vez que, no embate antagônico entre capital e trabalhador, o primeiro triunfa.Nessa lógica, o salário pago simboliza uma pequena porcentagem do trabalho final realizado. Essa discrepância evidencia a chamada mais-valia, que possibilita maiores margens de lucro ao capitalista (MARX, 1984).
proposições do autor, podemos destacar um aspecto orgânico em relação ao Estado Capitalista que explica sua atuação: a superestrutura político-jurídica objetiva perpetuar a reprodução da ordem na unidade social e, por consequente, resulta em dois efeitos ideológicos: efeito de isolamento e a ideia de representação do povo-nação.
O primeiro, o efeito de isolamento, consiste na privação de liberdades e igualdades entre os diferentes indivíduos, por intermédio de um forte aparato jurídico-normativo, que transforma uma classe social em indivíduos particulares. O escopo do efeito de isolamento é velar a divisão existente entre diversos grupos sociais, por meio das relações econômicas e sociais que formam as classes sociais.
O segundo, a ideia de representação da unidade do povo-nação, o Estado capitalista traz para si a capacidade de solução dos problemas existentes entre as classes, assumindo a capacidade única da unicidade social. Na realidade, o Estado acaba por disfarçar o atendimento aos interesses de um grupo social, de frações de classes existentes na sociedade. Ainda em Codato (2008), os desdobramentos dos efeitos de unicidade social e isolamento são decorrentes dos aparatos jurídicos vinculados ao direito burguês e da burocratização existente na administração do Estado Capitalista.
Esses dois efeitos vinculados e em plena atuação causam a divisão entre a luta econômica e a luta política de classes. No primeiro caso, Poulantzas (1971) destaca que, nas relações de poder, o efeito do isolamento existente nas relações econômicas e sociais, velam dos agentes da produção, as relações de classe que existem na sociedade. Por não vivenciarem a luta econômica a partir da lógica da luta de classes, as diferentes frações de classes acabam por entrarem em conflito mútuo, tais como: capitalistas e capitalistas, trabalhadores e trabalhadores. No segundo caso, o autor evidencia a organização das classes presente na luta política, pois, um dos elementos dessa luta reside na situação de que se deve construir a unidade social de classe desde o isolamento da luta econômica.
Poulantzas (1977) entende como crucial as lutas políticas de classes. No que se refere à classe trabalhadora, as ações políticas desse grupo teriam de orientar-se nas estratégias utilizadas pelos revolucionários russos na conquista bolchevique de Estado, tais como: a conquista do poder político pelo proletariado e a instauração de
um governo operário. Sendo o Estado capitalista o instrumento agregador de ordem da unicidade social, as diversas contradições existentes nos níveis estruturais condensam-se nessa esfera. O Estado, portanto, seria o espaço em que, por situação concreta, pode-se desvelar a unidade da estrutura e atuar sobre ela objetivando as significativas mudanças sociais. Nessa lógica, as lutas de classes focam no esforço da garantia do Estado e da lógica capitalista vigente, esse ideal comum viabiliza a formação, na esfera política, da unicidade entre as diferentes frações de classes capitalistas, mesmo que sejam forças opositoras na esfera econômica.
Na obra Poder Político e Classes Sociais, Poulantzas (1977) mostra como a organização dos níveis estruturais do modo de produção capitalista possui atuação fundamental sobre as lutas de classes entre burgueses e trabalhadores. Destaca que os aparatos jurídicos-normativos do Estado possibilitam o efeito de isolamento, que possuirá papel substancial no cerceamento das lutas econômicas, bem como na formação da unicidade de classe, por intermédio da luta política.
Mediante ao exposto, o teórico marxista grego nos chama atenção, mais uma vez, para o fato de que as classes dominantes se orientam para um objetivo em comum: a manutenção do Estado capitalista e a reprodução das relações sociais vigentes. Dessa forma, as ações políticas das classes burguesas terão, não só de organizar a unicidade das classes mediante o isolamento econômico, mas, também, a formação dos interesses políticos próprios como representação da vontade geral do povo-nação.
Nessa lógica, Poulantzas (1971) toma emprestado de Antônio Gramsci5, o
conceito de hegemonia. Para o marxista grego, esse conceito pode ser compreendido como a luta política das classes em uma organização capitalista, de forma peculiar, as ações políticas das classes dominantes sobre as dominadas. Para Poulantzas (1971), a concepção de hegemonia pode ser apresentada a partir de duas variáveis:
A primeira, remete a formação dos objetivos políticos das classes burguesas, na interação que possuem com o Estado, como tradução da vontade geral do povo-nação. Segundo Poulantzas (1971), esse entendimento orienta-se nas obras de Antonio Gramsci. Para o teórico italiano, o Estado possui uma configuração orientada 5Antônio Gramsci (1891 – 1937), foi filósofo marxista, jornalista e político italiano. Membro do Partido Comunista da Itália. Nasceu na Sardenha, Itália. Seus escritos permeiam áreas como: teoria política, sociologia, antropologia e linguística.
a maximizar a supremacia de um grupo social específico. Na ótica de Poulantzas (1971), Gramsci entenderia essa motivação e capacidade de transformação dos objetivos políticos individuais em objetivos universais como a hegemonia de uma classe social sobre as classes trabalhadora/operárias.
A segunda, as estruturas do Estado capitalista viabilizam a operacionalização do bloco de poder, organizado por várias frações de classe dominantes politicamente. Dentre as frações, uma assume o que o autor chama de “papel dominante particular”, conhecido como papel hegemônico. Nessa lógica, o conceito de hegemonia explica a dominação peculiar de uma classe social ou frações dominantes sobre as demais classes na organização social, política e econômica capitalista (POULANTZAS, 1971). Em linhas gerais, a classe social ou fração de classe hegemônica é a que acumula consigo, na esfera política, a função dupla de representar a vontade geral do povo-nação e de garantir a dominância, apenas, entre as frações dominantes. Ou seja, na sua relação com o Estado capitalista.
Poulantzas (1971) evidencia que a primeira variável sobre o conceito de hegemonia encontra-se ancoradas nas ideias de Gramsci. Deve-se destacar, no entanto, que existem pontos de divergência entre os teóricos sobre como a classe dominada, por meio do consentimento, acaba por atender aos interesses da classe dominante. Conforme o teórico italiano, o Estado é constituído tanto por intermédio da sociedade política, composta pelas instituições políticas, tais como: aparelhos burocráticos, policial-militar, judicial; quanto por grupos sociais privados (escola, sindicatos, igreja, etc). Enquanto as instituições políticas exercem a dominação por meio da coerção e da força, os grupos sociais privados reproduzem a dominação por meio do consentimento dos grupos dominados.
Em Gramsci, o Estado é configurado como uma estrutura destinada a maximizar a expansão dos grupos dominantes. Para que este fenômeno de expansão ocorra, Bianchi (2008) diz que esse processo não pode ser evidente a ponto de relevar os interesses dos grupos dominantes. Ao contrário, deve apresentar-se em escala universal, como a vontade de todos, por intermédio da agregação à vida estatal das lutas e vontades dos dominados. Entretanto, Gramsci (1999) considera que as concessões feitas para classe trabalhadora em relação aos burgueses, revelam um aspecto positivo da constituição do Estado, devido a concessão de benefícios a classe
subalterna que propicia a classe burguesa a diminuição dos conflitos ocasionando aparente conciliação entre as classes. As concessões concretas, mostram o desfecho contraditório de lutas das classes dominadas e a subsequente configuração das forças estabelecidas. Gramsci (1999) qualifica como hegemonia da classe dominante sobre os dominados o processo de conquista do entendimento popular, via consentimento.
A partir das concepções de Gramsci, Poulantzas (1971) igualmente considera a capacidade do Estado de pôr em prática concessões a favor da classe trabalhadora, a fim de obter o consentimento desses grupos. Para o marxista grego, a divisão das esferas políticas e econômicas no modo de produção capitalista guia a cisão entre interesses econômicos das classes e os interesses políticos de classes. Esse mecanismo viabiliza ao Estado capitalista atender a demandas econômicas oriundas das lutas de classes dominadas, que são contrárias aos interesses políticos do grupo social dominante. Para o autor, esse é o momento em que a dominação política-hegemônica se fortalece, pois, a consolidação de algumas vontades dos trabalhadores, visa a desagregação política desses grupos subalternos, sendo a forma substancial para a efetivação dos dominantes no poder.
Dessa forma, a consolidação de interesses econômicos dos trabalhadores não só coloca em evidência a relação política de luta de classes, mas resulta em um constituinte dessa relação. Nessa lógica, Poulantzas (1977), em Poder Político e
Classes Sociais, diferencia-se de Gramsci no que diz respeito ao caráter positivo do
Estado, que para o teórico italiano significa a concessão de benefícios a classe trabalhadora proporcionando uma aquietação da luta de classes, já que o Estado capitalista procura desorganizar a classe dominada, perpetuando a dominação política dos dominantes. Assim, percebe-se que, na sociedade organizada sob a lógica capitalista, as relações de poder são verticalizadas e as frações das classes burguesas visam se manter nos espaços de poder.
Na retomada da discussão sobre os blocos no poder, Poulantzas (1977) se remete à convergência das diversas frações de classes dominantes na esfera da dominação política. Para ele, essa convergência, repercute, fundamentalmente, nos seguintes fatores: a essência das relações capitalistas de produção propicia a divisão da classe burguesa em conformidade com o espaço ocupado pelas frações do capital na esfera da produção (burguesia industrial, comercial e financeira); os latifundiários,
que possuem certa autonomia relativa em relação as demais frações da classe burguesia; e a organização dessas frações de classes no Estado capitalista que possibilita a atuação, na esfera política, de diferentes classes sociais. Em síntese, não sendo o Estado uma entidade monolítica, as frações de classes burguesas atuam em diferentes espaços buscando a hegemonia política sobre a classe trabalhadora.
As associações entre as frações, politicamente, dominantes são transpassadas por antagonismos econômicos. Os embates que essas classes estabelecem entre si, no sentido de maximizar os lucros, inviabilizam que as relações de poder no bloco de poder sejam orientadas na perspectiva da divisão do poder político de forma equivalente. Para o teórico grego, a classe hegemônica se configura como componente dominante do bloco de poder. Esse grupo divide as vontades contrastantes peculiares das diferentes classes, organizando seus interesses econômicos em interesses políticos, buscando exploração econômica e dominação política.
Fica evidente, portanto, que determinados grupos burgueses tornam-se mandatários sobre as demais frações do bloco, pois, seus interesses econômicos são atendidos, prioritariamente, pelo Estado. Logo, para o autor de Poder Político e
Classes Sociais, a ligação entre Estado e interesses estritos da classe hegemônica é
tão forte e íntima, que, em instância maior, essa fração se mostra detentora do poder de Estado.
Nesse raciocínio, Poulantzas (1977) elucida a necessidade de uma interpretação para além de compreensão pragmática do Estado. Para o marxista grego, a relação de convergência entre as frações de classe não é resultante da subordinação do Estado em relação ao agrupamento hegemônico, ao contrário, o Estado possui independência relativa em relação a essa agremiação e desfruta de uma atuação direta e substancial na formação, tanto desse bloco de poder, como na garantia da dominação vinculada a seus integrantes.
Segundo Poulantzas (1977), os grupos detentores do poder, também, são perpassados pelo efeito de isolamento, mas são reunidos pelo escopo da exploração econômica. Todavia, esse agrupamento não chega ao ponto de asfixiar a intensa luta que eles travam entre si pela maximização de seu capital na divisão da mais valia. A
propagação das organizações sociais capitalistas não elimina os conflitos econômicos que existem entre as classes hegemônicas.
Se deixadas à auto regulação, essas agremiações dominantes se consumiriam em embates internos que as tornariam incapazes de manter o controle político e administrar os próprios interesses. Nesse contexto de possível incapacidade administrativa e política, convém ao Estado colocar-se como elemento organizador hegemônico dessas frações de classe, no intuito de que seus interesses possam reunir os das outras classes do bloco no poder. Assim, o Estado capitalista legitima a sua autonomia relativa no que se refere ao bloco no poder e à fração hegemônica.
Para Poulantzas (1977), a autonomia relativa é viabilizada por diferentes mecanismos, tais como: mostrar-se como endossador político das vontades dos grupos no bloco de poder; intermediar, a depender do contexto, o conflito das diversas frações das classes trabalhadoras contra as frações de classes hegemônica. De acordo com Poulantzas (1977), o conceito de autonomia relativa pode ser compreendido pelo acesso de frações de classes a uma parcela de poder nas estruturas do Estado, mecanismo passível de ser controlado pela burguesia.
Conforme discutido anteriormente, o conceito de hegemonia em Poder Político
e Classes Sociais possui duas variáveis: a formação dos objetivos políticos das
classes burguesas, na interação que possuem com o Estado, como tradutor da vontade geral do povo-nação; as estruturas do Estado capitalista viabilizam a operacionalização do bloco de poder, organizado por várias frações de classe dominantes politicamente. É mister destacar que, as duas variáveis fundamentam-se em uma concepção comum: a atuação decisiva das estruturas do Estado capitalista em relação as lutas de classes. Na primeira variável do conceito de hegemonia, a mudança dos objetivos das agremiações dominantes em vontades universais tem como essência o efeito do isolamento econômico dos grupos dominados, efeito proporcionado pelo Estado. Na segunda variável, são as próprias estruturas do Estado que propiciam o aparecimento do bloco no poder. Assim, cabe ao Estado capitalista organizar os interesses dos grupos hegemônicos que se manifestam na exploração econômica e dominação política, além de coordenar a hegemonia de um dos integrantes do bloco no poder.