FACULDADE DE DIREITO CURSO DE DIREITO
JOÃO EDSON SOUZA ARAUJO
A AMPLIAÇÃO DA COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA MILITAR: A LEI Nº 13.491/17 E SEUS RELEXOS PENAIS E PROCESSUAIS PENAIS MILITARES E OS DESAFIOS NA ATUAÇÃO DO ESCABINATO DAS ESPADAS, ESTRELAS E
TOGAS A SERVIÇO DE DIKÉ
FORTALEZA 2019
A AMPLIAÇÃO DA COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA MILITAR: A LEI Nº 13.491/17 E SEUS RELEXOS PENAIS E PROCESSUAIS PENAIS MILITARES E OS DESAFIOS NA ATUAÇÃO DO ESCABINATO DAS ESPADAS, ESTRELAS E
TOGAS A SERVIÇO DE DIKÉ
Monografia apresentada ao Curso de Direito da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientador: Prof. Dr. Sidney Guerra Reginaldo
FORTALEZA 2019
Biblioteca Universitária
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A689a Araujo, João Edson Souza.
A ampliação da competência da Justiça Militar: a Lei nº 13.491/17 e seus reflexos penais e processuais penais militares e os desafios na atuação do escabinato das espadas, estrelas e togas a serviço de Diké / João Edson Souza Araujo. – 2019.
50 f.
Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Direito, Curso de Direito, Fortaleza, 2019.
Orientação: Prof. Dr. Sidney Guerra Reginado.
1. Direito Militar. 2. Competência. 3. Crime. 4. Processo. 5. Forças Armadas. I. Título.
A AMPLIAÇÃO DA COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA MILITAR: A LEI Nº 13.491/17 E SEUS RELEXOS PENAIS E PROCESSUAIS PENAIS MILITARES E OS DESAFIOS NA ATUAÇÃO DO ESCABINATO DAS ESPADAS, ESTRELAS E
TOGAS A SERVIÇO DE DIKÉ
Monografia apresentada ao Curso de Direito da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito.
Aprovada em / / .
BANCA EXAMINADORA
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Prof. Dr. Sidney Guerra Reginaldo (Orientador)
Universidade Federal do Ceará (UFC)
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Jéssica Maria Rodrigues de Lima (mestranda)
Universidade Federal do Ceará (UFC)
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Francisca Sandrelle Jorge Lima (mestranda)
Aos menininhos de minha vida, Edson Wilkson, João William e Francisco Dennys (in memorian)
À Deus, entidade sobre-humana na qual acredito e que independe de religião. Ao meu pai Wilton, realizei mais um sonho que tanto desejares para a minha e tua vida.
À minha mãe Célia, a mulher que mais amo nessa vida.
Aos meus irmãos Juninho, Celline e Welton, verdadeiros amigos com os quais posso contar sempre.
Aos meus avôs, pelo exemplo de honestidade e amor ao Fortaleza Esporte Clube.
Às minhas avós, pela preocupação extremada com a minha segurança mundo afora.
A todos os policiais militares do estado do Ceará, pois tudo que estudo na área de penal militar é sempre pensando em aplicar esse conhecimento para o bem de vocês. O Soldado de estrelas sempre estará junto à tropa.
Ao Major Ferreira, Major J. Wilson, Major Saraiva, Major Abreu, Major Giorgio, pela compreensão e apoio na conciliação de horários da faculdade e dos estudos com a Polícia Militar, desde os tempos de Soldado até hoje, como 1º Tenente. Graças a pessoas que nem os senhores, a polícia é lugar de quem estuda sim!
Ao Professor Sidney Guerra, por todo o apoio acadêmico. Exemplo de humanismo.
À Jessica Rodrigues (referência de feminismo racional) e Sandrelle Lima, pela disponibilidade em contribuírem para este momento.
Aos colegas de curso, os quais foram fundamentais para a aquisição, ainda embrionária do conhecimento jurídico. Ainda temos muito a aprender.
Aos meninos da Xerox, Marcelo, Xuxu e Caio por terem me feito sorrir tantas vezes mesmo eu estando passando por dificuldades.
Aos amigos Berg e Madson, funcionários da faculade. Dois amigos que a vida me deu.
A todos os amigos e amigas que de uma forma ou de outra me ergueram nos momentos de dificuldade, mas nunca de desânimo.
“Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem, ou que seus planos nunca vão dar certo, ou que você nunca vai ser alguém.”
Flávio Venturini / Renato Russo
“Seja você quem for, seja qual for a posição social que você tenha na vida, a mais alta ou a mais baixa, tenha sempre como meta muita força, muita determinação e sempre faça tudo com muito amor e com muita fé em Deus, que um dia você chega lá. De alguma maneira você chega lá.”
No ano de 2017, surgiu para o ordenamento jurídico brasileiro a Lei nº 13.491/17, que veio para ampliar o rol de crimes militares, bem como ampliar a competência das Justiças Militares da União, dos estados e do Distrito Federal. Uma pequena norma de apenas três artigos que teve o poder de afetar todo um ramo do direito, no caso, o Direito Penal e Processual Penal Militar. Ao longo dos últimos dois anos, os debates no mundo jurídico foram recrudescendo e trataram dos mais vaiados temas relacionados a nova legislação. Desde a possibilidade de sua inconstitucionalidade, onde muito se argumentou durante sua discussão e votação no Congresso Nacional sobre o fato de a vindoura legislação afrontar normas de direito internacional ratificadas pela República Federativa do Brasil, até a aplicabilidade de institutos de direito penal e processual penal nas ações em curso no âmbito das Justiças Militares da União e dos estados e Distrito Federal, passando pelos aspectos materiais e formais de sua natureza híbrida ou não. Também são tratados temas relativos à nova conceituação dos denominados “novos crimes militares” por parte da Doutrina. O deslocamento da competência para processo e julgamento de crimes dolosos praticados por militares das Forças Armadas em determinadas situações de atividade militar. O presente estudo tem como objetivo apresentar ao caro leitor a nova legislação e os aspectos processuais penais e panais militares que já afetam a atuação do escabinato, seja a nível federal, estadual ou distrital. Todos estes temas são tratados no presente estudo. A metodologia utilizada foi a análise bibliográfica dos mais variados aspectos inerentes ao advento da Lei nº 13.491/17 e suas consequências.
In 2017, Law No. 13,491 / 17 came to the Brazilian legal system, which came to broaden the list of military crimes, as well as broaden the competence of the Military Justice of the Union, the states and the Federal District. A small norm of only three articles that had the power to affect a whole branch of law, in this case, Criminal Law and Military Criminal Procedure. Over the past two years, debates in the legal world have been raging and have dealt with the hottest topics related to new legislation. From the possibility of its unconstitutionality, where much has been argued during its discussion and vote in the National Congress on the fact that the coming legislation violates norms of international law ratified by the Federative Republic of Brazil, until the applicability of institutes of criminal law and criminal procedure in the ongoing actions in the scope of the Military Justice of the Union and the states and the Federal District, passing through the material and formal aspects of its hybrid nature or not. Also discussed are issues related to the new conceptualization of the so-called “new military crimes” by the Doctrine. Displacement of competence to prosecute and prosecute malicious crimes committed by military personnel in certain situations of military activity. The present study aims to present to the dear reader the new legislation and the criminal procedural and criminal aspects that already affect the performance of the scabinate, whether at federal, state or district level.All of these themes are addressed in the present study. The methodology used was the bibliographical analysis of the most varied aspects inherent to the advent of Law 13.491 / 17 and its consequences.
1. INTRODUÇAO ... 09
2. A JUSTIÇA MILITAR DA UNIÃO E DOS ESTADOS E DISTRITO FEDERAL .... 11
2.1. A Justiça Militar da União ... 13
2.2. A estrutura da Justiça Militar da União ... 14
2.3. A Justiça Militar Estadual ... 15
2.4. A estrutura da Justiça Militar Estadual do Ceará ... 15
3. CRIME MILITAR (CONCEITOS LEGAIS E CLASSIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA) . 16 3.1. O Conceito Legal de Crime Militar Anterior à sanção da Lei nº 13.491/17 ... 18
3.2. A classificação doutrinária dos crimes Militares (anterior à sanção da Lei nº 13.491/17). ... 20
3.3. O Conceito Legal de Crime Militar após a sanção da Lei nº 13.491/17 ... 21
3.4. A classificação doutrinária dos crimes Militares (posterior à sanção da Lei nº 13.491/17). ... 26
4. A LEI Nº 13.491, DE 13 DE OUTUBRO DE 2017 ... 27
4.1. Histórico da Lei (do projeto à sanção) ... 29
4.2. Uma norma híbrida (Lei nº 13.491/17) ... 32
5. ALGUMAS QUESTÕES PROCESSUAIS PENAIS MILITARES NO TOCANTE AOS NOVOS CRIMES MILITARES... 35
6. A LEI Nº 13.491/17 É (IN) CONSTITUCIONAL? ... 36
6.1. As Ações Diretas de inconstitucionalidade em face da Lei nº 13.491/17 ... 37
6.1.1. ADI nº 5.804/RJ (ADEPOL) ... 37
6.1.2. ADI nº 5.901/DF (PSOL)... 38
6.2. O Veto presidencial e a desnaturação da Lei ... 39
7. CONCLUSÃO ... 42
1. INTRODUÇÃO
Uma norma de apenas três artigos (um vetado), mas que foi capaz de causar uma profunda alteração no estado de coisas do direito penal militar. Essa é a Lei nº 13.4911, de 13 de outubro de 2017, que alterou o Decreto-Lei nº 1.001, de 21
de outubro de 1969 - Código Penal Militar.
Com a sanção da Lei nº 13.491/17 pelo então Presidente Michel Temer, a competência da Justiça Militar (da União e dos Estados) veio a recrudescer, uma vez que houve uma ampliação no conceito de crime militar, e nesse diapasão deslocou a competência do processo e julgamento de crimes dolosos contra a vida da Justiça Comum para a Justiça Militar da União , desde que cometidos por militares da União nas situações elencadas no art. 9º, § 2º do Código de Processo Penal Militar (incluído pela Lei 13.491, de 2017).
1 LEI Nº 13.491, DE 13 DE OUTUBRO DE 2017.
Mensagem de veto Altera o Decreto-Lei nº 1.001, de 21 de outubro de 1969 - Código Penal Militar.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º O art. 9º do Decreto-Lei nº 1.001, de 21 de outubro de 1969 - Código Penal Militar, passa a vigorar com as seguintes alterações:
“Art. 9º ... ...
II – os crimes previstos neste Código e os previstos na legislação penal, quando praticados: ...
§ 1º Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares contra civil, serão da competência do Tribunal do Júri.
§ 2º Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares das Forças Armadas contra civil, serão da competência da Justiça Militar da União, se praticados no contexto:
I – do cumprimento de atribuições que lhes forem estabelecidas pelo Presidente da República ou pelo Ministro de Estado da Defesa;
II – de ação que envolva a segurança de instituição militar ou de missão militar, mesmo que não beligerante; ou
III – de atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem ou de atribuição subsidiária, realizadas em conformidade com o disposto no art. 142 da Constituição Federal e na forma dos seguintes diplomas legais:
a) Lei nº 7.565, de 19 de dezembro de 1986 - Código Brasileiro de Aeronáutica; b) Lei Complementar nº 97, de 9 de junho de 1999 ;
c) Decreto-Lei nº 1.002, de 21 de outubro de 1969 - Código de Processo Penal Militar; e d) Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965 - Código Eleitoral. ” (NR)
Art. 2º (VETADO).
Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 13 de outubro de 2017; 196º da Independência e 129º da República.
MICHEL TEMER
Raul Jungmann
Estudar as inovações trazidas pela Lei nº 13.491, de 13 de outubro de 2017 é de suma importância, uma vez que se trata de uma norma polêmica sob vários aspectos, chegando a ter sido suscitada sua inconstitucionalidade por meio da Ação Direta de inconstitucionalidade nº 5901, de 26 de fevereiro de 2018.
Além disso, em tempos onde a Segurança Pública é temática central nos debates, sejam político-partidários, seja nos quartéis ou nas Universidades, as alterações trazidas pela novel legislação afetam institutos jurídicos de nível constitucional, como por exemplo, o Tribunal do Júri. O próprio uso cotidiano das Forças Armadas em operações não relacionadas à guerra é polêmico, uma vez que nos termos do art. 144, § 6º da Carta Política de 1988 nos informa que “as polícias militares e corpos de bombeiros militares, forças auxiliares e reservas do exército...” (BRASIL, 1988), mas o que vemos na prática é exatamente o contrário: as Forças Armadas, acentuadamente o Exército, sendo acionados para reforçar a segurança pública em nosso país.
E a ação das Forças Armadas e território e população não conhecida pode acarretar atos que geram consequências jurídicas graves, como ocorreu no início de abril de 2019, onde militares do Exército atiraram oitenta vezes e um veículo suspeito2,
sendo o processo e julgamento a ser realizado na Justiça Militar da União, e não no Tribunal do Júri, exatamente por conta da inovação trazida pela Lei nº 13.491/17.
Desta feita, faz-se necessário o conhecimento da novel legislação, uma vez que sua aplicação afeta, como dito anteriormente, não somente o mundo jurídico, mas também a opinião pública sobre o tema.
Na segunda seção, será apresentada a estrutura da Justiça Militar da União e dos Estados e Distrito Federal, especialmente no que diz respeito às suas competências constitucionais e à existência do escabinato.
Na terceira seção, o foco será concentrado no conceito legal e doutrinário de “crime militar” anterior e posterior ao advento da Lei nº 13.491/17.
Na quarta seção, será esmiuçado o trajeto percorrido pela novel legislação, desde o projeto de Lei que a originou até sua sanção e inserção no ordenamento
2 Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2019/04/07/interna-brasil,748035/militares-do-exercito-atiram-contra-automovel-e-matam-homem-no-rio.shtml. Acesso em 11 de junho de 2019.
jurídico pátrio, bem como seu aspecto híbrido, com elementos penais e processuais penais.
Na seção seguinte, a quinta, o tema abordado será voltado para análise dos reflexos penais e processuais penais militares decorrentes da Lei nº 13.491/17, com foco em temas como a ação penal, a fiança, a possibilidade de existência de crime hediondo militar, bem como aplicação de medidas protetivas da Lei nº 11.340/06 no âmbito da polícia judiciária militar.
Na sexta e última seção, serão esmiuçados aspectos relativos à (in) constitucionalidade da Lei nº 13.491/17, desde Ações Diretas de Inconstitucionalidade que já vergastam a novel Lei, bem com a polêmica do veto presidencial ao artigo 2º da norma.
Finalizando, a relevância acadêmica para o estudo da Lei nº 13.491/17 é indiscutível, mesmo que o Direito Militar seja tão pouco estudado nas Universidades Brasil afora, pois pequenas alterações na legislação castrense podem acarretar consequências que vão de uma simples nova redação em uma norma até uma reviravolta de conceitos consolidados, revolvendo a Doutrina especializada, bem como podendo afetar a própria estrutura do Poder Judiciário, como veremos no desenvolver da presente Monografia.
2. A JUSTIÇA MILITAR DA UNIÃO E DOS ESTADOS E DISTRITO FEDERAL
Iniciando o estudo, faz-se primordial, que conheçamos um pouco sobre a Justiça Militar no Brasil, visto ter sido o poder estatal mais afetado com a inovação legislativa da Lei nº 13.491/17.
Nos termos do artigo 122 da Constituição de 1988, são órgãos da Justiça Militar o Superior Tribunal Militar e Tribunais e Juízes Militares instituídos por lei, sendo que o Superior Tribunal Militar compor-se-á de quinze Ministros vitalícios, tendo a Justiça Militar competência para processar e julgar os crimes militares definidos em lei. (BRASIL, 1988).
Quando se trata da Justiça Militar dos estados, estabelece o artigo 125, § 3º, da Carta Magna, que a lei estadual poderá criar, mediante proposta do Tribunal de
Justiça, a Justiça Militar estadual, constituída, em primeiro grau, pelos juízes de direito e pelos Conselhos de Justiça e, em segundo grau, pelo próprio Tribunal de Justiça, ou por Tribunal de Justiça Militar nos Estados em que o efetivo militar seja superior a vinte mil integrantes.
Além disso, compete à Justiça Militar estadual processar e julgar os militares dos Estados, nos crimes militares definidos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a competência do júri quando a vítima for civil, cabendo ao tribunal competente decidir sobre a perda do posto e da patente dos oficiais e da graduação das praças e na esteira, estabelece que compete aos juízes de direito do juízo militar processar e julgar, singularmente, os crimes militares cometidos contra civis e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, cabendo ao Conselho de Justiça, sob a presidência de juiz de direito, processar e julgar os demais crimes militares. (BRASIL, 1988)
Uma das características mais marcantes das Justiças Militares da União, dos estados e do Distrito Federal é no que diz respeito à primeira instância, que é formada pelos Conselhos de Justiça Especial e Permanente, mais conhecido como “escabinato”.
O escabinato é um órgão colegiado, onde o conhecimento jurídico alia-se ao conhecimento da caserna (militar), tornando este colegiado fator diferenciador entre a primeira instância da Justiça Militar das demais Justiças do Brasil.
Roth, de forma sucinta, esclarece a composição destes Conselhos de Justiça, tanto no âmbito da Justiça Militar da União, quanto na Justiça Militar Estadual e do Distrito Federal:
A Justiça Militar desde que foi oficializada no Brasil, em 1808, tem em sua estrutura de primeiro grau a existência do Colegiado denominado Conselho de Justiça, o qual é constituído de um Juiz togado – denominado Juiz Auditor no âmbito da Justiça Militar da União [JMU], e Juiz de Direito no âmbito da Justiça Militar Estadual [JME], além de mais quatro Juízes Militares, estes últimos juízes temporários (ROTH, 2018)
Sendo assim, o escabinato, ou Conselho de Justiça (especial e permanente) é o órgão colegiado que julga, em primeira instância, os crimes militares definidos em lei. Como visto, é composto por civis e militares e se constitui da seguinte forma:
a) CONSELHO ESPECIAL DE JUSTIÇA: Constituído pelo juiz federal da Justiça Militar ou juiz federal substituto da Justiça Militar, que o presidirá, e por 4 (quatro) juízes militares, dentre os quais 1 (um) oficial-general ou oficial superior, sendo este o de maior nível hierárquico dentre os juízes ou o mais antigo, em caso de igualdade de posto;
b) CONSELHO PERMANENTE DE JUSTIÇA: constituído pelo juiz federal da Justiça Militar ou juiz federal substituto da Justiça Militar, que o presidirá, e por 4 (quatro) juízes militares, dentre os quais pelo menos 1 (um) oficial superior.
A diferença básica entre ambos é que o Conselho Especial de Justiça tem competência para processar e julgar oficiais, exceto oficiais-generais, nos delitos previstos na legislação penal militar, enquanto o Conselho Permanente de Justiça processa e julga militares que não sejam oficiais, bem como os civis (no caso somente da Justiça Militar da União).
Não poderia deixar de registrar as palavras do ex-ministro do STF José Moreira Alves, citado por Roth:
Sempre haverá uma Justiça Militar, pois o juiz singular, por mais competente que seja, não pode conhecer das idiossincrasias da carreira das armas, não estando pois em condições de ponderar a influência de determinados ilícitos na hierarquia e disciplina das Forças Armadas. (1998, p. 3-6, apud ROTH, 2018)
2.1. A Justiça Militar da União
A Justiça Militar da União é o órgão mais antigo do Poder Judiciário Brasileiro. Sua história remonta ao início do século XIX, quando D. João VI veio ao Brasil fugindo das tropas napoleônicas que marchavam em direção ao Reino português. Foi criada pelo Alvará de 1º de abril de 1808, nos seguintes termos:
todas as materias que pertencião ao Conselho de Guerra, ao do Almirantado, e ao do Ultramar na parte militar somente, quese comporá dos Offlciaes Generaes do meu Exercito e Armada Real, que já são Conselheiros de Guerra, e do Almirantado, e que se achão nesta Capital, e dos outros Orflcíaes de uma e outra Arma, que eu houver por bem nomear. (BRASIL, 1891, p. 7)
Ao longo de sua trajetória jurídica e histórica, a Justiça Militar da União passou por várias transformações, tanto em sua estrutura, quanto na sua competência. Hoje é tida no meio jurídico como a justiça mais especializada, visto ter jurisdição sobre um grupo específico de servidores públicos: os militares das Forças Armadas (Marinha do Brasil, Exército Brasileiro e Força Aérea Brasileira).
2.2. A estrutura da Justiça Militar da União
A Justiça Militar da União tem jurisdição sobre todo o território nacional e está estruturada conforme disposto na Lei 8.457/92, sendo composta pelos seguintes órgãos: o Superior Tribunal Militar; a Corregedoria da Justiça Militar; o Juiz-Corregedor Auxiliar; os Conselhos de Justiça; os juízes federais da Justiça Militar e os juízes federais substitutos da Justiça Militar.
Sua divisão territorial para efeitos de administração, está estabelecida em 12 Circunscrições Judiciárias Militares (CJM), onde, via de regra, cada CJM terá uma Auditoria (quatro CJM possuem mais de uma Auditoria), sendo estas o órgão de primeira instância da Justiça Militar da União.
Já o órgão de segunda instância é o Superior Tribunal Militar, o qual tem suas competências elencadas no rol do art. 6º da Lei 8.457/92, como por exemplo, processar e julgar originariamente: os oficiais generais das Forças Armadas, nos crimes militares definidos em lei; os pedidos de habeas corpus e habeas data contra ato de juiz federal da Justiça Militar, de juiz federal substituto da Justiça Militar, do Conselho de Justiça e de oficial-general; o mandado de segurança contra seus atos, os do Presidente do Tribunal e de outras autoridades da Justiça Militar; a representação para decretação de indignidade de oficial ou sua incompatibilidade para com o oficialato, dentre outras. (BRASIL, 1992)
2.3. A Justiça Militar Estadual
Conforme já relatado, à Justiça Militar estadual compete processar e julgar os militares dos Estados (e somente), nos crimes militares definidos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a competência do júri quando a vítima for civil, cabendo ao tribunal competente decidir sobre a perda do posto e da patente dos oficiais e da graduação das praças.
2.4. A estrutura da Justiça Militar Estadual do Ceará
A Justiça Militar estadual do Ceará está talhada na Lei estadual nº 16.397, de 14 de novembro de 2017, que dispõe sobre a organização judiciária do estado do Ceará. O artigo 21 da referida norma é expresso ao afirmar que, dentre outros, são órgãos do Poder Judiciário: a Auditoria Militar (CEARÁ, 2017).
Enquanto a Constituição Federal trata de Justiça Militar estadual, a Lei de organização judiciária do Ceará manteve a nomenclatura utilizada no âmbito da Justiça Militar da União.
Sua competência é bem restrita, limitando-se a processar o julgar os militares estaduais que cometerem crimes militares definidos em Lei, bem como as ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a competência do Júri no caso de cometimento de crimes dolosos contra a vida de civil praticados por policiais ou bombeiros militares.
A Auditoria Militar do Ceará é órgão da Justiça de primeiro grau, sendo composta por um colegiado, tal e qual nos moldes da Justiça Militar da União, ou seja, por um Juiz togado e pelos Conselhos de Justiça Especial e Permanente.
Já o Tribunal de Justiça do Ceará o órgão de segundo grau. Vejamos o que dizem as poucas linhas dedicadas, em apenas quatro artigos3, à Justiça Militar
castrense alencarina (cearense):
3 Art. 46. A Justiça Militar Estadual, em primeiro grau, é composta por um colegiado denominado Auditoria Militar, formado por um Juiz de Direito que o presidirá, e pelos Conselhos de Justiça Militar,
A ressalva do parágrafo único do artigo 49 da Lei estadual nº 16.397 é oportuna, uma vez que cumpre o que já foi estipulado pelas normas internacionais ratificadas pelo Brasil e já mencionadas neste estudo, como por exemplo, o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos.
Finalizando a abordagem dos principais aspectos da Justiça Militar dos estados, em especial, do Ceará, urge lembrar que o efetivo total da Polícia Militar do Ceará, somado ao efetivo do Corpo de Bombeiros do Ceará já ultrapassou a quantidade de vinte mil cargos, o que já pode ser corolário para a criação de um Tribunal de Justiça Militar do Estado do Ceará.
3. CRIME MILITAR (CONCEITOS LEGAIS E CLASSIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA)
A definição de crime militar já estava atribuída ao legislador ordinário pela Constituição de 1967, em seu Art. 122 e foi delineada pelo Código Penal Militar (art. 9º e art. 10º), que apesar de ser um Decreto-Lei editado ainda no Governo de Exceção Civil-militar (1964-1984), foi recepcionado pela atual Carta Magna. Na esteira da Constituição de 1988, seria crime militar aquele definido em Lei (sentido estrito), nos termos do art. 124, caput e 125, § 4º.
A conceituação de crime militar não é tarefa das mais fáceis, uma vez que há uma gama de critérios para se definir a natureza do delito como sendo crime militar. Resumidamente, nos termos do artigo 9º (crimes militares em tempo de paz) e 10º (crimes militares em tempo de guerra), ambos do Código Penal Militar,
com jurisdição em todo o Estado.
Art. 47. Em segundo grau, as funções afetas à Justiça Militar serão exercidas pelo Tribunal de Justiça. Art. 48. Na composição dos Conselhos de Justiça Militar, observar-se-á, no que couber, o disposto na legislação da Justiça Militar da União.
Art. 49. Compete à Justiça Militar do Estado processar e julgar os policiais militares e bombeiros militares por crimes militares definidos em lei, bem como as ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a competência do Tribunal do Júri quando a vítima for civil, cabendo ao Tribunal de Justiça decidir sobre a perda do posto e da patente dos oficiais e da graduação das praças. Parágrafo único. Compete aos juízes de direito do juízo militar processar e julgar, singularmente,
os crimes militares cometidos contra civis e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, cabendo ao Conselho de Justiça, sob a presidência de juiz de direito, processar e julgar os demais crimes militares. (CEARÁ, 2017, grifo nosso)
se crimes militares aqueles cometidos nas circunstâncias, lugares e tempo, por pessoas, sejam militares ou não, e tipificados na legislação penal, seja militar ou não.
Nas sábias palavras de Jorge César de Assis, crime militar é:
Crime Militar – é toda a violação acentuada ao dever militar e aos valores das instituições militares. Distingue-se da transgressão disciplinar porque esta é a mesma violação, porém na sua manifestação elementar e simples. A relação entre crime militar e transgressão disciplinar é a mesma que existe entre crime e contravenção penal. (ASSIS, 2006, p. 37)
Seguindo a lição do mestre Assis, há pelo menos quatro critérios para se definir um crime militar. São eles: ratione materiae, ratione personae, ratione loci,
ratione temporis e ratione legis. Vejamos sucintamente cada um dos critérios.
Conforme o critério ratione materiae, configurar-se-á militar aquele crime “cujo cerne principal da infração seja matéria própria de caserna, intestinamente ligada à vida militar.”. (NEVES & STREIFINGER, 2013, p. 114). Um bom exemplo seria o crime tipificado no art. 202 (embriaguez em serviço) do Código Penal Militar.
Já no caso do critério ratione personae, é fator central a qualidade de militar do sujeito, seja ativo ou passivo4.
Dando continuidade, o terceiro critério é o ratione loci, o aspecto central a ser levado em consideração para a configuração do crime militar é o local onde o delito foi cometido, no caso, em local sob administração militar, nos termos do art. 9º, II, b, III, b, do Código Penal Militar. Exemplo de crime militar que leva em consideração tal critério é o tipificado no art. 156 (Apologia de fato criminoso ou do seu autor) do Código Penal Militar. Frise-se que o julgamento anteriormente transcrito também faz alusão ao critério em análise.
No tocante ao critério ratione temporis, basicamente tratará o crime militar como sendo em tempo de paz e em tempo de guerra. Este último, terá eficácia após
4 HABEAS CORPUS. FURTO. MILITAR. SUBTRAÇÃO DE CARTÃO BANCÁRIO E SENHA DE COLEGA DE FARDA NO INTERIOR DE UNIDADE MILITAR. SAQUE DE CONTA BANCÁRIA EM LOCAL ESTRANHO À ADMINISTRAÇÃO MILITAR. AUSÊNCIA DE LIAME COM A FUNÇÃO MILITAR E ATRIBUIÇÕES LEGAIS. INCOMPETÊNCIA DA JUSTIÇA MILITAR. MILITARES ENVOLVIDOS EM SITUAÇÃO DE ATIVIDADE. ATRAÇÃO DO FORO CASTRENSE. CRITÉRIO DE COMPETÊNCIA RATIONE PERSONAE. ORDEM DENEGADA. Tratando-se de furto envolvendo militar da ativa
contra miliciano na mesma situação, a tese de incompetência da JMU para julgar o feito em face de
o delito se consumar em local fora da administração militar e de não haver liame com a função militar e suas atribuições legais não encontram ressonância na previsão legal insculpida no artigo 124 da Constituição Federal, c/c o artigo 9º, inciso II, alínea "a", da lei substantiva penal castrense. [...] (STM – HC 0000182-03.2017.7.00.0000 - Relator: FRANCISCO JOSELI PARENTE CAMELO. Data de Autuação: 22/08/2017. Data de Julgamento: 26/09/2017. Data de Publicação: 05/10/2017. (Grifo nosso)
o Presidente da República declarar guerra, nos termos do art. 84, XIX da Carta de 1988. Interessante destacar que é em tempo de guerra que a pena de morte é admitida no ordenamento jurídico pátrio, como por exemplo, no caso de cometimento do crime tipificado no art. 355 do diploma penal castrense.
Finalizando o estudo dos critérios para se verificar a natureza militar do crime, temos o critério ratione legis, o qual presta as mais sinceras continências ao texto constitucional, em seu art. 124, onde expressamente declara que à Justiça Militar compete processar e julgar os crimes militares definidos em lei.
Tais crimes militares são definidos pelo Decreto Lei nº 1.001, de 21 de outubro de 1969, Código Penal Militar (CPM), mais especificamente nos artigos 9º e 10º. Nunca é tarde para lembrar ao nobre leitor que a Lei nº 13.491/17 alterou substancialmente o art. 9º do diploma penal castrense, como estamos estudando nessa breve exposição.
3.1. O Conceito Legal de Crime Militar Anterior à sanção da Lei nº 13.491/17
Conforme já relatado, o art. 124, caput e 125, § 4º, da Constituição de 1988 atribuiu ao legislador ordinário a tarefa de definir quais são os crimes militares. O CPM dividiu os crimes militares em dois períodos: aqueles praticados em tempo de paz e aqueles praticados somente em tempo de guerra.
Iremos focar a definição somente nos crimes militares em tempo de paz e anteriores5 à sanção da Lei nº 13.491/17, bem como somente aos dispositivos que
vieram a sofrer alterações legislativas.
Estes foram os dois dispositivos alterados pela Lei nº 13.491/17, no dia 13 de outubro de 2017, e que causaram um debate ainda sem término no ambiente acadêmico militar.
5 Art. 9º Consideram-se crimes militares, em tempo de paz:
II - os crimes previstos neste Código, embora também o sejam com igual definição na lei penal comum, quando praticados: [...]
Parágrafo único. Os crimes de que trata este artigo quando dolosos contra a vida e cometidos contra civil serão da competência da justiça comum, salvo quando praticados no contexto de ação militar realizada na forma do art.303, da Lei nº 7.565, de 19 de dezembro de 1986 (Código Brasileiro de Aeronáutica).
O inciso II do art. 9º dispunha que era crime militar o delito que estivesse previsto tanto no CP (excetuava-se aqui a legislação penal extravagante, como por exemplo, a Lei 11.343/06, a Lei 4.898/65, dentre outras) quanto no CPM, independentemente de a definição legal ser igual ou não.
Já o então em vigor parágrafo único, determinava que seria de competência da Justiça Comum os crimes dolosos contra a vida de civil, praticados por militares, exceto na situação de ação de natureza militar realizada nos termos do art. 303 do Código Brasileiro de Aeronáutica, que trata das medidas necessárias para detenção, interdição e apreensão de aeronave, mais conhecido no senso comum como o tiro de “abate” (destruição)6.
Em caso de autorização, por parte do Presidente da República, do “tiro de abate” os militares envolvidos responderiam por seus atos perante a Justiça Militar, e não na Justiça Comum.
No período que antecedeu a sanção da Lei nº 13.491/17, a doutrina dividia, basicamente, os crimes militares em duas espécies: os próprios e os impróprios. Já outros autores, como veremos adiante, subdividiam o gênero crime militar em propriamente militar e impropriamente militar.
A natureza das espécies de crimes militares era a mesma, apenas diferindo no tocante à nomenclatura, conforme será visto adiante.
6 Art. 303. A aeronave poderá ser detida por autoridades aeronáuticas, fazendárias ou da Polícia Federal, nos seguintes casos:
I - se voar no espaço aéreo brasileiro com infração das convenções ou atos internacionais, ou das autorizações para tal fim;
II - se, entrando no espaço aéreo brasileiro, desrespeitar a obrigatoriedade de pouso em aeroporto internacional;
III - para exame dos certificados e outros documentos indispensáveis;
IV - para verificação de sua carga no caso de restrição legal (artigo 21) ou de porte proibido de equipamento (parágrafo único do artigo 21);
V - para averiguação de ilícito.
§ 1° A autoridade aeronáutica poderá empregar os meios que julgar necessários para compelir a aeronave a efetuar o pouso no aeródromo que lhe for indicado. (Regulamento)
§ 2° Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos, a aeronave será classificada como hostil, ficando sujeita à medida de destruição, nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. (Incluído pela Lei nº 9.614, de 1998) (Regulamento) (Vide Decreto nº 8.265, de 2014)
§ 3° A autoridade mencionada no § 1° responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório. (Renumerado do § 2° para § 3º com nova redação pela Lei nº 9.614, de 1998) (Regulamento). (BRASIL, 1986)
3.2. A classificação doutrinária dos crimes militares (anterior à sanção da Lei nº 13.491/17)
Para Guilherme de Souza Nucci, é crime militar próprio e impróprio:
[...]consideram-se delitos militares próprios (autenticamente militares) os que possuem previsão única e tão somente no Código Penal Militar, sem correspondência em qualquer outra lei, particularmente no Código Penal, destinado à sociedade civil. Além disso, somente podem ser cometidos por militares – jamais por civis. Denominam-se crimes militares impróprios os que possuem dupla previsão, vale dizer, tanto no Código Penal Militar quanto no Código Penal comum, ou legislação similar, com ou sem divergência de definição. (NUCCI, 2014, p. 46, grifo nosso)
No entendimento do renomado autor, os crimes militares próprios seriam somente aqueles tipificados somente na legislação penal castrense codificada no Decreto-Lei nº 1.001/69), sem similares em qualquer outra legislação, independentemente de o sujeito ativo ser militar ou não. Constituem exemplos de Crimes Militares Próprios: a Conspiração (art. 152), a Violência Contra Superior (art. 157), a Insubmissão (art. 183), a Deserção (art. 187), dentre outros.
Já os crimes militares impróprios, também independentemente de serem cometidos por civis ou militares, seriam aqueles tipificados tanto no Código Penal Militar, quanto no Código Penal Comum, independentemente de serem definidos de modo diverso ou não. São exemplos de Crimes Militares Impróprios: o Homicídio (art. 121 do CP e art. 205 do CPM), Lesão (art. 129 no CP e 209 do CPM).
Acrescentando à lição de NUCCI, Renato Brasileiro de Lima identifica mais dois tipos de crimes militares: os propriamente militares e os impropriamente militares. Jorge Alberto Romeiro (1994, p. 12, apud LIMA, 2017, p. 364), seriam Crimes propriamente militares, aqueles que seguem o critério ratione personae, onde exige-se do sujeito ativo a qualidade de ser militar, sendo tal aspecto relevante para a caracterização deste tipo de crime militar. São Exemplos de crimes propriamente militares: a Embriaguez em Serviço (art. 202 do CPM), dormir em serviço (art. 203 do CPM), a Pederastia ou outro ato de libidinagem (art. 235 do CPM) e outros.
Na esteira, seriam crimes impropriamente militares aqueles cujo sujeito ativo pode também ser um civil, e não somente um militar. São exemplos de Crimes
Impropriamente Militares: ingresso clandestino (art. 302), desacato a militar (art. 299), furto (art. 240), todos do CPM.
De toda sorte, o que fica evidenciado é que tal classificação é originada na Doutrina, mas a Constituição de 1988 determina que será crime militar aquele definido em Lei (sentido estrito), onde o critério ratione legis prepondera.
3.3. O Conceito Legal de Crime Militar após a sanção da Lei nº 13.491/17
Com o advento da Lei nº 13.491/2017, o inciso II do art. 9º foi alterado e o parágrafo único foi revogado, sendo acrescidos dois parágrafos ao referido dispositivo legal. Assim como no tópico anterior, abordamos sucintamente as normas que seriam alteradas, aqui iremos proceder com o mesmo tratamento.
O art. 9º, em seu inciso II foi alterado7 no sentido de se ampliar o rol de
crimes militares, que antes se restringiam apenas àqueles tipificados no CP e no CPM, independentemente de definição legal semelhante ou não. Se anteriormente o rol era bem restrito a ambos os códigos, desde 13 de outubro de 2017, todo e qualquer crime cometido por militar nas situações elencadas no referido inciso II.
7 Art. 9º Consideram-se crimes militares, em tempo de paz:
II – os crimes previstos neste Código e os previstos na legislação penal, quando praticados: (Redação dada pela Lei nº 13.491, de 2017)
§ 1o Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares contra civil, serão da competência do Tribunal do Júri. (Redação dada pela Lei nº 13.491, de 2017)
§ 2o Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares das Forças Armadas contra civil, serão da competência da Justiça Militar da União, se praticados no contexto: (Incluído pela Lei nº 13.491, de 2017)
I – do cumprimento de atribuições que lhes forem estabelecidas pelo Presidente da República ou pelo Ministro de Estado da Defesa; (Incluído pela Lei nº 13.491, de 2017)
II – de ação que envolva a segurança de instituição militar ou de missão militar, mesmo que não beligerante; ou (Incluído pela Lei nº 13.491, de 2017)
III – de atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem ou de atribuição subsidiária, realizadas em conformidade com o disposto no art. 142 da Constituição Federal e na forma dos seguintes diplomas legais: (Incluído pela Lei nº 13.491, de 2017)
a) Lei no 7.565, de 19 de dezembro de 1986 - Código Brasileiro de Aeronáutica; (Incluída pela Lei nº 13.491, de 2017)
b) Lei Complementar no 97, de 9 de junho de 1999; (Incluída pela Lei nº 13.491, de 2017)
c) Decreto-Lei no 1.002, de 21 de outubro de 1969 - Código de Processo Penal Militar; e (Incluída pela Lei nº 13.491, de 2017)
Desta feita, crimes que antes não eram considerados militares, agora passaram a o ser, desde que cometidos em uma das situações do art. 9º (sempre é bom lembrar) como por exemplo, abuso de autoridade (Lei nº 4.898/65), tortura (Lei 94.55/97), dentre tantos outros que serão elencados mais adiante.
Nesse diapasão, os crimes que antes eram de competência da justiça comum para processo e julgamento agora com a sanção da Lei nº 13.491/2017 passaram a ser de competência da Justiça Militar, seja da União, seja dos Estados ou do Distrito Federal.
A segunda alteração se deu com a revogação do parágrafo único, sendo o mesmo substituído por dois parágrafos. O parágrafo primeiro estabeleceu que no caso de crimes dolosos contra a vida de civil praticados por militares, a competência para processo e julgamento será do Tribunal do Júri, quando no revogado parágrafo único, falava-se em Justiça Comum.
Já o parágrafo segundo (o motivo maior dos poucos debates dos legisladores, como vimos anteriormente) foi direcionado exclusivamente aos militares das Forças Armadas (Marinha, Exército e Aeronáutica), onde estes militares, em caso de cometimento de crime doloso contra a vida de civil, nas situações elencadas, serão processados e julgados no âmbito da Justiça Militar da União.
Analisemos que situações são essas.
No inciso I, temos um dispositivo de natureza ampla e que necessita de outra norma para ter aplicabilidade. Os militares federais, para serem processados e julgados pela Justiça Militar da União, nos termos do parágrafo segundo, deverão estar no pleno exercício de atribuições estabelecidas pelo Chefe do Executivo Federal ou pelo próprio Ministro da Defesa.
Jorge César de Assis lembra que no tocante a atribuições estabelecidas pelo Presidente da República, chefe supremo das Forças Armadas, temos como exemplo a decretação do Estado de Defesa (art. 136 da CF) e do Estado de Sítio (art. 137 da CF), bem como na decretação da Intervenção Federal (artigos 34 a 36 da CF) onde as Forças Armadas seriam utilizadas de forma nullam controversiam recipit. (ASSIS, 2018, p. 95).
Já no tocante às atribuições estabelecidas pelo Ministro da Defesa, este exerce a direção superior das Forças Armadas, assessorando o Presidente da República no emprego da Marinha, Exército e Aeronáutica no campo operacional, na
função de Presidente do Conselho Militar de Defesa, e nos demais assuntos pertinentes à área militar, individualmente (BRASIL, 1999).
O inciso II estabelece que em atividades que envolvam defesa de instituição militar (grandes comandos, batalhões, companhias, pelotões, destacamentos) ou da própria missão militar, independentemente de ser beligerante ou não, também será de competência da Justiça Militar da União o processo e julgamento de militares das Forças Armadas que, nessas circunstâncias, cometam crime doloso contra a vida de civil. Um bom exemplo de contexto não beligerante é a situação em que a Sentinela, em defesa do prédio do quartel efetua um disparo contra pessoa que tenta invadi-lo, vindo a cometer o crime de homicídio (art. 205 do CPM c/c art. 9º, §2º, II).
Um exemplo de defesa de missão militar não beligerante seria o caso de militares do Exército que são incumbidos de fazer uma viagem para outro estado do Brasil para realizarem palestras sobre prevenção ao suicídio e em uma discussão entre os debatedores, um deles saca de sua arma e mata o outro militar (art. 205 do CPM c/c art. 9º, §2º, II).
Já no caso do inciso III e suas quatro alíneas, o militar das Forças armadas que cometa crime doloso contra a vida de civil, em atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem ou em atribuição subsidiária, em conformidade com o art. 142 – que trata das Forças Armadas – da Constituição Federal e na forma dos seguintes diplomas legais:
a) Lei nº 7.565, de 19 de dezembro de 1986;
b) Lei Complementar nº 97, de 9 de junho de 1999; c) Decreto-Lei nº 1.002, de 21 de outubro de 1969; d) Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965.
Em relação ao Código Brasileiro de Aeronáutica (Lei nº 7.565, de 19 de dezembro de 1986), o antigo parágrafo único do art. 9º do CPM especificava a situação do art. 303 (tiro de destruição) como ensejadora da competência da Justiça Militar da União em caso de cometimento de crimes dolosos contra a vida de civil por parte dos militares federais. Na nova redação, essa competência foi ampliada para
toda e qualquer situação especificada no Código Brasileiro de Aeronáutica, não mais se restringindo somente ao art. 303.
Interessante ideia de Jorge César de Assis, analogicamente aplicando tal dispositivo legal ao caso de uma Patrulha Naval da Marinha do Brasil se deparar com uma embarcação a ser inspecionada que não obedecer à ordem de parada da Patrulha Naval, nos seguintes termos:
O ponto a se destacar, no art. 4º do referido Decreto, é que o meio empregado em Patrulha Naval, ao se aproximar de navios ou embarcações para realizar inspeção, deverá ostentar a Bandeira Nacional e as insígnias, e tê-las iluminadas se, à noite, transmitindo a ordem de “parar”, disseminada por meio de sinais de rádio, visuais e auditivos, nas distâncias compatíveis (ASSIS, 2018, p. 105).
Muito semelhante à situação do “tiro de destruição” (art. 303 da Lei nº 7.565/86) temos o “tiro direto” contra uma embarcação, com e sem carga explosiva, nos termos do art. 4º, § 3º, III do Decreto 5.129/048.
Já na situação da Lei Complementar nº 97/99, que trata das normas gerais para a organização, o preparo e o emprego das Forças Armadas, chegamos ao ponto crucial do emprego mais comum da Marinha, Exército e Aeronáutica em atividades militares internas não voltadas para a guerra, mas sim para a garantia da lei e da ordem (GLO), bem como na principal motivação da sanção da Lei nº 13.491/17
Reguladas pela Constituição Federal, em seu artigo 142, pela Lei Complementar nº 97/99, e pelo Decreto 3.897, de 2001, as operações de GLO concedem provisoriamente aos militares federais a faculdade de atuar, em situações críticas, com poder de polícia até o restabelecimento da normalidade. Ou seja, é a utilização das Forças Armadas em apoio aos órgãos elencados no art. 144 da Constituição Federal, de forma temporária. O artigo 15 da Lei Complementar nº 97/99 regula este emprego das Forças Armadas na garantia da lei e da ordem9.
8 III - poderão ser utilizados projetis com carga explosiva nos casos em que o infrator responder ao fogo ou encetar qualquer manobra que coloque em risco o meio naval em patrulha, suas embarcações ou aeronaves orgânicas, ou a sua tripulação.
9 § 1o Compete ao Presidente da República a decisão do emprego das Forças Armadas, por iniciativa própria ou em atendimento a pedido manifestado por quaisquer dos poderes constitucionais, por intermédio dos Presidentes do Supremo Tribunal Federal, do Senado Federal ou da Câmara dos Deputados.
§ 2o A atuação das Forças Armadas, na garantia da lei e da ordem, por iniciativa de quaisquer dos poderes constitucionais, ocorrerá de acordo com as diretrizes baixadas em ato do Presidente da República, após esgotados os instrumentos destinados à preservação da ordem pública e da
Resumidamente, em operações de garantia da lei e da ordem, com o emprego das Forças Armadas, estas assumiram o controle das operações e dos órgãos de segurança pública elencados no artigo 144 da Constituição Federal, em tempo e lugar limitados, tendo em vista o “esgotamento” (indisponibilidade, inexistência, insuficiência) dos referidos órgãos até que a normalidade seja restabelecida, sento tais operações consideradas de natureza militar, o que faz aderir à competência da Justiça Militar da União para o processamento e julgamento de eventuais crimes cometidos nessas circunstâncias de operações de garantia da lei e da ordem.
Pari passu, a penúltima circunstância em que um militar federal responderá
por seus atos perante a Justiça Militar da União, em caso de cometer crime doloso contra a vida de civil, será quando atuando em conformidade com o que preceitua o Código de Processo Penal Militar (Decreto-Lei nº 1.002/69), como por exemplo em uma oitiva do investigado (art. 13, c do CPPM), em sede de Inquérito Policial Militar, onde no interrogatório, o investigado tenta sacar uma arma de fogo e o Encarregado do IPM revida a agressão iminente e acaba matando o militar investigado.
Finalmente, a última situação do parágrafo segundo que puxa para a competência da Justiça Militar da União seria quando os militares federais estivessem atuando no contexto do Código Eleitoral (Lei nº 4.737/65). Exemplo bom seria a situação em que um Soldado do Exército cometesse o crime de homicídio contra
§ 3o Consideram-se esgotados os instrumentos relacionados no art. 144 da Constituição Federal quando, em determinado momento, forem eles formalmente reconhecidos pelo respectivo Chefe do Poder Executivo Federal ou Estadual como indisponíveis, inexistentes ou insuficientes
ao desempenho regular de sua missão constitucional. (Incluído pela Lei Complementar nº 117, de
2004)
§ 4o Na hipótese de emprego nas condições previstas no § 3o deste artigo, após mensagem do Presidente da República, serão ativados os órgãos operacionais das Forças Armadas, que
desenvolverão, de forma episódica, em área previamente estabelecida e por tempo limitado, as
ações de caráter preventivo e repressivo necessárias para assegurar o resultado das operações na garantia da lei e da ordem. (Incluído pela Lei Complementar nº 117, de 2004)
§ 5o Determinado o emprego das Forças Armadas na garantia da lei e da ordem, caberá à autoridade competente, mediante ato formal, transferir o controle operacional dos órgãos de segurança pública necessários ao desenvolvimento das ações para a autoridade encarregada das operações, a qual deverá constituir um centro de coordenação de operações, composto por representantes dos órgãos públicos sob seu controle operacional ou com interesses afins.(Incluído pela Lei Complementar nº 117, de 2004)
§ 7o A atuação do militar nos casos previstos nos arts. 13, 14, 15, 16-A, nos incisos IV e V do art. 17, no inciso III do art. 17-A, nos incisos VI e VII do art. 18, nas atividades de defesa civil a que se refere o art. 16 desta Lei Complementar e no inciso XIV do art. 23 da Lei no 4.737, de 15 de julho de 1965 (Código Eleitoral), é considerada atividade militar para os fins do art. 124 da Constituição Federal. (Redação dada pela Lei Complementar nº 136, de 2010). (Grifo nosso)
alguém que, durante a noite, estivesse tentando invadir o local de armazenamento das urnas eletrônicas.
3.4. A classificação doutrinária dos crimes militares (posterior à sanção da Lei nº 13.491/17)
Outro aspecto a ser levado em consideração com a ampliação do rol de crimes militares, é a nova conceituação trazida pela Doutrina. Autores renomados do Direito Penal Militar, tão logo após a sanção da Lei nº 13.491/17, trataram de “batizar” os “novos crimes militares”
Ronaldo João Roth, definindo os novos crimes militares “por extensão”, em artigo publicado na Revista da Associação dos Magistrados das Justiças Militares Estaduais, afirmou que:
É na regra contida no inciso II do art. 9º do CPM que reside a maior alteração da novel Lei, pois a redação do aludido dispositivo é expressa ao prever que, além dos crimes definidos no próprio CPM, todos os demais crimes previstos na legislação penal comum – ressalvada a competência do Júri nos crimes dolosos praticados contra vida de civil (§1º) -, se praticados numa das hipóteses taxativas previstas nas alíneas do inciso II do art. 9º do CPM, são considerados crimes militares e, portanto, de competência da Justiça Militar. Destarte, com a novel Lei, haverá possibilidade de outros tipos penais, estranhos ao CPM, serem de competência da JMU e da JME... (ROTH, 2017, p. 32)
Ele acrescenta que não é ínfima a lista desses novos crimes militares previstos na legislação comum, listando um rol desses crimes que passaram a ter natureza militar (tipicidade indireta) e se transformaram em “delitos militares por extensão”:
[...] o crime de abuso de autoridade (Lei 4.898/65); os crimes de tortura (Lei 9.455/97), os crimes Lei Ambiental (arts. 29/69-A); os crimes do Estatuto do Desarmamento (Lei 10.826/03, arts. 12/21); os crimes do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90, arts. 228/244-B); os crimes do Estatuto do Idoso (Lei 10.741/03, arts. 95/110); o crime de organização criminosa (Lei 12.850/13, art. 2º) e o os crimes de trânsito (Lei 9.503/97) etc.; bem como os delitos do Código Penal Comum não previstos no CPM, como por exemplo: tráfico de pessoas (art. 149-A); receptação de animal (art. 180-A); assédio sexual (art. 216-A); associação criminosa (art. 288); constituição de milícia
privada (art. 288-A); estupro de vulnerável (art. 217-A); inserção de dados falsos em sistema de informações (art. 313-A); modificação ou alteração não autorizada no sistema de informações (art. 313-B); fraude processual (art. 347) etc. (ROTH, 2017, p. 32)
Já Cícero Robson Coimbra Neves, em seu artigo “Inquietações na investigação criminal militar após a entrada em vigor da Lei nº 13.491, de 13 de outubro de 2017”, denominou esses novos crimes militares (art. 9º, II e alíneas, do CPM) de “crimes militares extravagantes”, motivando com as seguintes palavras:
Tratam-se de novos crimes militares, aos quais se dará a designação, doravante, de crimes militares extravagantes, por estarem tipificados fora do Código Penal Militar[...] (NEVES, 2017, p. 24, grifo nosso)
Já o Professor Vladmir Aras segue o pensamento da maioria da Doutrina ao dispensar o mesmo tratamento dos crimes impropriamente militares aos novos crimes militares trazidos pelo art. 9º, II e alíneas, chamando-os de “crimes acidentalmente militares”. (ARAS, 2017).
Independentemente de cada doutrinador definir ao seu modo o conceito destes novos crimes militares, o que se observa é que todos continuam de tipificação indireta, uma vez que além do tipo penal incriminador, o mesmo deverá ser praticado em uma das hipóteses previstas no art. 9º do Código Penal Militar.
Roth é bem didático ao lecionar que:
Como a novel Lei 13.491/17 temos agora três categorias de crimes
militares: 1) crimes militares próprios, que são previstos exclusivamente
no CPM; 2) crimes militares impróprios, aqueles que encontram-se dispostos dentro do CPM mas também estão previstos com igual definição na lei penal comum; 3) crimes militares por extensão [crimes militares
extravagantes ou crimes acidentalmente militares], que estão previstos
fora do CPM, ou seja, exclusivamente na legislação penal comum, mas que se caracterizam como de natureza militar pela tipicidade indireta construída pela conjugação do tipo penal comum com uma das hipóteses do inciso II do art. 9º do CPM. (ROTH, 2017, p. 33, grifo nosso).
4. A LEI Nº 13.491, DE 13 DE OUTUBRO DE 2017
Com a sanção da Lei nº 13.491, de 13 de outubro de 2017, a competência da Justiça Militar (da União, Estados e DF) veio a recrudescer, uma vez que houve
uma ampliação do conceito de crime militar com a alteração do art. 9º, II do Código de Processo Penal Militar desde que praticados nas situações elencadas em suas alíneas, onde os critérios de definição ratione loci e ratione personae são requisitos essenciais. E isso independe se o crime foi praticado por militares das Forças Armadas, ou por militares estaduais ou distritais (policiais militares e bombeiros militares)10.
Nesse diapasão, a novel legislação castrense também deslocou do Tribunal do Júri para a Justiça Militar da União11, e somente, a competência do
processo e julgamento de crimes dolosos contra a vida de civil, desde que cometidos por militares da União (Marinha, Exército e Aeronáutica) nas situações elencadas no art. 9º, § 2º do Código de Processo Penal Militar, o que tem gerado severas críticas, como veremos mais adiante, um vez que vai de encontro ao insculpido no art. 5º, XXXVIII, d, da Carta Política de 1988, sendo reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurada a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida (BRASIL, 1988).
10 Crimes militares em tempo de paz
Art. 9º Consideram-se crimes militares, em tempo de paz:
I - os crimes de que trata êste Código, quando definidos de modo diverso na lei penal comum, ou nela não previstos, qualquer que seja o agente, salvo disposição especial;
II – os crimes previstos neste Código e os previstos na legislação penal, quando praticados: (Redação dada pela Lei nº 13.491, de 2017). (Grifo nosso)
11 Crimes militares em tempo de paz
Art. 9º Consideram-se crimes militares, em tempo de paz: (...)
§ 1o Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares contra civil, serão da competência do Tribunal do Júri. (Redação dada pela Lei nº 13.491, de 2017)
§ 2o Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares das Forças Armadas contra civil, serão da competência da Justiça Militar da União, se praticados no contexto: (Incluído pela Lei nº 13.491, de 2017)
I – do cumprimento de atribuições que lhes forem estabelecidas pelo Presidente da República ou pelo Ministro de Estado da Defesa; (Incluído pela Lei nº 13.491, de 2017)
II – de ação que envolva a segurança de instituição militar ou de missão militar, mesmo que não beligerante; ou (Incluído pela Lei nº 13.491, de 2017)
III – de atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem ou de atribuição subsidiária, realizadas em conformidade com o disposto no art. 142 da Constituição Federal e na forma dos seguintes diplomas legais: (Incluído pela Lei nº 13.491, de 2017)
a) Lei no 7.565, de 19 de dezembro de 1986 - Código Brasileiro de Aeronáutica; (Incluída pela Lei nº 13.491, de 2017)
b) Lei Complementar no 97, de 9 de junho de 1999; (Incluída pela Lei nº 13.491, de 2017)
c) Decreto-Lei no 1.002, de 21 de outubro de 1969 - Código de Processo Penal Militar; e (Incluída pela Lei nº 13.491, de 2017)
d) Lei no 4.737, de 15 de julho de 1965 - Código Eleitoral. (Incluída pela Lei nº 13.491, de 2017). (Grigo nosso).
4.1. Histórico da Lei (do projeto à sanção)
A Lei nº 13.491/17 é resultado da aprovação do Projeto de Lei da Câmara nº 44, do ano de 2016, tendo como autor do projeto original (PL 5.768/16, de 6 de julho de 2016) o Deputado Federal Esperidião Amin (PP/SC), cujo objetivo era alterar o Decreto-lei nº 1.001, de 21 de outubro de 1969 (Código Penal Militar) para dispor sobre a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra vida cometidos por militares das Forças Armadas, bem como proceder a outras alterações legislativas
Em sua justificativa, no projeto original (PL 5.768/16), o Deputado Federal Esperidião Amin (PP/SC), ao tratar especificamente dos militares federais, justificou seu projeto da seguinte maneira:
Quanto à alteração a ser procedida no inciso III do § 2º almeja-se consignar, de forma expressa, a competência da Justiça Militar da União no processamento e julgamento de militares que, no contexto de atuação em
operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), venham a praticar crimes
dolosos contra a vida de civil. Embora a atual redação faça menção à Lei Complementar nº 97, de 1999, e tal lei venha a tratar justamente da atuação do militar na faixa de fronteira e em operações de garantia, da lei e da ordem, não há alusão expressa à atuação do militar em ações de GLO, somente sendo mencionada a atuação do militar em ação militar, operações de paz e ação subsidiária, que podem não compreender a atuação do militar em GLO, pois não há consenso, no âmbito jurídico, acerca da natureza dessas ações. Assim, não havendo expressa alusão a atuação dos militares no
contexto de operações de GLO, e não havendo um consenso acerca da natureza dessas ações, corre-se o risco de não ser-lhes assegurada a proteção e a segurança jurídica que o diploma legal busca conferir.
(CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2016, grifo nosso)
Ainda na Câmara dos Deputados, o Relator, Deputado Júlio Lopes (PP-RJ) apresentou um substitutivo, uma espécie de emenda que altera a proposta em seu conjunto, substancial ou formalmente. Recebe esse nome porque substitui o projeto. O substitutivo é apresentado pelo relator e tem preferência na votação, mas pode ser rejeitado em favor do projeto original (CÂMARA DOOS DEPUTADOS, 2019).
Tal Substitutivo alterou o texto original do PL nº 5.768/16, ficando o mesmo prejudicado, seguindo o novo texto para o Senado Federal, no dia 07de julho de 2016, impressionantes dois dias após a apresentação em plenário.
Na chegada do PL nº 5.768/16 (agora PLC nº 44/2016) no Senado Federal, em 7 de julho de 2016, o mesmo sofreu apenas uma tentativa de emenda (Emenda
nº 1-Peln.), de autoria da Senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), numa tentativa de não desnaturar a futura lei, no que diz respeito à sua vigência, já que o período de vigência da lei, conforme o projeto original, deveria ser até o dia 31 de dezembro de 2016 e tal projeto ainda tramitava no Senado Federal no ano de 2017. Eis a justificativa apresentada pela Senadora Vanessa Grazziotin em sua Emenda:
O Projeto de Lei da Câmara Nº 44 de 2016 prevê a vigência da Lei até o dia 31 de dezembro de 2016 e, após essa data, a repristinação da legislação por ela modificada. A presente emenda visa retomar a intenção original do autor do projeto em estabelecer um período razoável de vigência para os efeitos da nova Lei. A atualização da data se faz necessário considerando que o tempo de tramitação da matéria extrapolou a expectativa original. (SENADO FEDERAL, 2017)
A Senadora propôs que a data da vigência da norma fosse alterada para 31 de dezembro de 2017 e assim sanar o problema da vigência, já que “o tempo de tramitação da matéria extrapolou a expectativa original” (SENADO FEDERAL, 2017). Outro ponto latente que marcou a tramitação do PL nº 44/2016 foi o posicionamento do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o qual, em Carta, de 15 de setembro de 2017, encaminhada ao Presidente do Senado Federal, demonstrou profunda preocupação com a possível aprovação do referido projeto.
Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o projeto afrontaria instrumentos internacionais assinados e ratificados pela República Federativa do Brasil, como por exemplo, o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, em seus artigos 14.1 e 8.1, respectivamente, in verbis:
Todas las personas son iguales ante los tribunales y cortes de justicia. Toda persona tendrá derecho a ser oída públicamente y con las debidas garantías por un tribunal competente, independiente e imparcial, esta blecido por
la ley, en la substanciación de cualquier acusación de carácter penal formulada contra ella o para la determinación de sus derechos u obligaciones de carácter civil. La prensa y el público podrán ser excluidos
de la totalidad o parte de los juicios por consideraciones de moral, orden público o seguridad nacional en una sociedad democrática, o cuando lo exija el interés de la vida privada de las partes o, en la medida estrictamente necesaria en opinión del tribunal, cuando por circunstancias especiales del asunto la publicidad pudiera perjudicar los intereses de la justicia; pero toda sentencia en materia penal o contenciosa será pública, excepto en los casos en que el interés de menores de edad exija lo contrario, o en las acusaciones referentes a pleitos matrimoniales o a la tutela de menores. (Pacto
Internacional de Derechos Civiles y Políticos, 1966, grifo nosso) Artigo 8. Garantias judiciais
1. Toda pessoa tem direito a ser ouvida, com as devidas garantias e
dentro de um prazo razoável, por um juiz ou tribunal competente, independente e imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na
apuração de qualquer acusação penal formulada contra ela, ou para que se determinem seus direitos ou obrigações de natureza civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer outra natureza.(Convenção Americana sobre Direitos Humans, 1969, grifo nosso)
O que se observa é que em ambos os instrumentos internacionais, o foco reside no fato de que aquele que tiver de ser processado e julgado, o deve ser perante um tribunal competente, independente e imparcial.
Nesse sentido, o Alto Comissariado das Nações Unidas rechaçou veementemente a aprovação do PL nº 44/2016, uma vez que alegou, como dissemos anteriormente, ser uma alteração legislativa que ampliaria a competência da justiça militar e, por consequência, mais militares passariam a ser processados e julgados por tribunais militares, sejam da União, seja dos Estados ou Distrito Federa, o que na ótica do Alto Comissariado, deixaria a imparcialidade dos julgamentos comprometida. Arrematou o Representante Regional do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Amerigo Incalcaterra, ponderando que:
Dessa forma, vê-se que a proposta de ampliação da jurisdição militar promovida pelo Projeto de Lei em questão, vai em direção contrária ao que as normas internacionais e as recomendações que os mecanismos de proteção de direitos humanos têm reiterado e, portanto, deve ser desde já rechaçada.
A especialidade e excepcionalidade da Justiça Militar mostra-se essencial para a garantia de julgamentos justos e imparciais, o respeito aos direitos humanos e às obrigações internacionais contraídas pelo Estado brasileiro (INCALCATERRA, 2017)
Entretanto, mesmo com a propositura de uma única emenda, a qual foi rejeitada pelo Relator, o Senador Pedro Chaves, e o posicionamento contrário à aprovação do PL nº 44/2016 por parte dos órgãos internacionais de direitos humanos, o projeto seguiu para votação em Plenário, sendo aprovado no dia 10 de outubro de 2019, com 48 votos favoráveis, seguindo para sanção presidencial, a qual ocorreu em 13 de outubro de 2017.
Rodrigo Foureaux assim criticou a rápida sanção e ausência de debates mais profundos: