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(2) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO PÓS – GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA DA SAÚDE. A DETECÇÃO DE SINAIS E SINTOMAS DA VIOLÊNCIA NA FASE DIAGNÓSTICA DA PSICOTERAPIA BREVE. SÍLVIA SUELY DE SOUZA MAIA ORIENTADOR: PROF. DR JOSÉ TOLENTINO ROSA. Dissertação apresentada como exigência parcial para obtenção do título de Mestre do curso de Pós-Graduação em Psicologia da Saúde, à Comissão Examinadora da Universidade Metodista de São Paulo.. São Paulo 2007.
(3) COMISSÃO EXAMINADORA ______________________________ ______________________________ ______________________________.
(4) À minha mãe, pela lição de vida e pela força desmedida com que sempre enfrentou e venceu os obstáculos.. Ao meu pai, amigo tão especial, que nunca se deixou abater pela desesperança e sempre teve uma palavra de apoio nos momentos mais difíceis..
(5) AGRADECIMENTOS. Para a realização de um trabalho como este necessitamos, antes de tudo, do carinho das pessoas que nos querem bem. Deste modo, quero registrar a minha mais profunda gratidão por todos aqueles que, de alguma forma, contribuíram para que este trabalho pudesse ser realizado.. Aos meus filhos, Juliana, Fernando e Guilherme que puderam, com carinho e paciência, compreender meus longos períodos de ausência. Ao meu marido, pelo constante apoio, compreensão e incentivo, tanto em minha vida pessoal quanto profissional.. Aos meus irmãos, amigos tão leais, pelo carinho, união, pelo apoio incondicional, pela confiança que sempre em mim depositaram e pelo amor que sempre me dedicaram.. Ao meu orientador, Professor Doutor José Tolentino Rosa, pela orientação segura, pela disponibilidade constante e pela inegável riqueza de conhecimentos, que me conduziram à realização deste trabalho. Aos professores e amigos Armando Rocha Júnior e Paulo Francisco de Castro, que na convivência acadêmica e amizade sincera, sempre me incentivaram para a concretização deste estudo. À Professora Doutora Jumara Sílvia Van de Velde Vieira, pelo incentivo para realização deste trabalho e pelo apoio profissional a mim concedido.. Às professoras e amigas Eliana Ferrante Pires, Regina Célia Duarte e Solange Rodrigues Martins Camargo Santos, pela companhia sempre prazerosa, amizade e apoio constantes no período da realização do Mestrado..
(6) À funcionária e estagiária de Psicologia da Universidade Guarulhos, Christiane Ribeiro Rodrigues pelo carinho, amizade e por compreender este momento de minha vida.. Aos pacientes atendidos em Psicoterapia Breve Infantil, durante o ano de 2006, na clínica-escola de Psicologia da Universidade Guarulhos, que possibilitaram, através de seus tratamentos, a realização do presente estudo..
(7) RESUMO Investiga as interferências da violência doméstica na fase diagnóstica, que antecede a Psicoterapia Breve, sua importância no quadro clínico apresentado pelo paciente, se a violência foi verbalizada pelo paciente e a forma como ela foi captada pelo terapeuta e levada em consideração na fase diagnóstica da Psicoterapia Breve Infantil. Foram investigados sinais e sintomas de 29 pacientes de Psicoterapia Breve Infantil. A avaliação das entrevistas iniciais que compõem a fase diagnóstica da Psicoterapia Breve, foi realizada por dois juizes independentes, com índice de concordância igual a 0,87. Foram detectados sinais e sintomas de violência doméstica em 24 dos 29 casos analisados, o que corresponde a 83% do total de pacientes. A violência doméstica foi considerada significativa para uma situação-problema a ser trabalhada em análise em 54% dos casos, o que mostra que é uma situação de limiar, em que 50% das percepções são verdadeiras e a outra metade são falsas. Dos 13 casos em que a violência doméstica foi significativa pelos juízes, apenas 54% estavam incluídas na compreensão psicodinâmica da queixa, pelo terapeuta. A inclusão da violência doméstica no foco da Psicoterapia Breve foi observada somente em 2 casos, o que corresponde a 07% da amostra geral, muito perto da incidência de mecanismos psicóticos que prejudicam a socialização (08%). Os resultados obtidos foram discutidos segundo a literatura psicanalítica, que considera a violência como a parte agressiva do self que ainda não está integrada ao self, permanecendo dissociada do conluio da família e às vezes do próprio psicoterapeuta. Tais resistências em lidar com a violência não permitem que a agressividade seja usada de forma construtiva pelo self, promovendo a socialização da criança pelo fortalecimento dos sentimentos de amizade e favorecendo o desenvolvimento de vínculos emocionais saudáveis na dupla criança e psioterapeuta.. Descritores: Psicoterapia Breve Infantil, violência doméstica, fase diagnóstica..
(8) ABSTRACT. The present work seeks to investigate, the interferences of domestic violence in the diagnostic phase that precedes the brief psychotherapy, and her importance in the clinical image showed for the patient, if the violence was verbalize by the patient and the conditions how it was captivate for therapist and to lead in consideration in the diagnostic diagnostic phase of Childish Brief Psychotherapy. The sample of the present investigation to consist of 29 patient of Childish Brief Psychotherapy. The work consist from one Analysis of 03 or 04 initials interviews with constitute the diagnostic phase of the Brief Psychotherapy,. accomplished for two. judges. It was prove the presence of domestic violence into 24 of the 29 cases analyzed, that corresponds at 83% of the whole of patient. The domestic violence was considered significant into 13, of the 24 cases that was to evidence occurrence of domestic violence, that correspond to 54% of the whole cases of domestic violence. Of the 13 cases that the domestic violence was significant, about 54% it was include in the psychodynamic comprehension of the protest, by the therapist. The insert og domestic violence in the focus was observed in only 2 cases, that correspond to 15% of the cases that the domestic violence was significant. The results obtained were debate on the shine of the biography and was related with the question of the collusion of the family and the proper therapist. This collusion dificult the inclusion of violence in the protest by family, and otherwise, her investigation in the comprehension of the psychodynsmic of the protest, from the therapist. Such resistences to struggle with violence have hers refex in the evolution of the process psychotherapeutic.. Descriptors: Childish Brief Psychotherapy, domestic violence, diagnostic phase..
(9) SUMÁRIO Introdução .................................................................................................. 11. Capítulo I – Entrevista Psicológica................................................... 17. Capítulo II – Considerações sobre Psicoterapia Breve ........... 1.1. Escorço histórico................................................................... 1.2. Princípios e conceitos básicos .......................................... 1.3. Critérios de indicação e contra-indicação para Psicoterapia Breve................................................................. 22 22 29 39. Capítulo III – Psicoterapia Breve Infantil......................................... 41. Capítulo IV – Violência: problemas relativos ao seu conceito e à sua abrangência. 55. Capítulo V – Violência Doméstica....................................................... 5.1. Conceito e abrangência de violência doméstica ....... 5.2. Raízes da violência doméstica ............................................ 5.3. Classificação da violência doméstica ............................ 5.4. Repercussões para a criança: efeitos do pacto do silêncio sobre a violência na família .............................. 5.5. Uma proposta de classificação para os tipos de violência doméstica................................................................. 63 63 71 79 86. Problema e objetivos da presente pesquisa Problema Objetivos Capítulo VI – A clínica-escola onde foi realizada a pesquisa 6.1. Linha de trabalho ..................................................................... 6.2. Variáveis sócio demográficas dos participantes...... 6.3. Os atendimentos em psicoterapia breve infantil realizados em 2006 .................................................................... 89. 92 92 92 93 93 94 95. Capítulo VII – Método............................................................................. 96 7.1. Características demográficas dos participantes... 96 7.2. Critérios utilizados na análise da ocorrência da violência e da 98 forma como ela foi abordada no tratamento clínico................................................................. 7.3 Protocolo para a classificação da violência doméstica 100 7.4. Providencias éticas................................................................. 102 Capítulo VIII – Apresentação e analise dos dados......................... 103.
(10) Capitulo IX – Discussão dos resultados........................................... 113. Capítulo X – Considerações finais e Conclusões.............................................. 118. Referências Bibliográficas .................................................................. 123. Apêndices............................................................................................................ 135.
(11) Introdução Quando assumi a Coordenação da Clínica-escola de Psicologia da Universidade Guarulhos, em 1982, deparei-me com a utilização da técnica de Psicoterapia Breve que, com características bem definidas, incluindo o tempo limitado, a delimitação do foco e planejamento estratégico, atendia as necessidades de um trabalho de clínica-escola em curso de graduação. Por essa técnica pretendia-se atender um número maior de pessoas, num menor espaço de tempo. Criar uma técnica menos elitista, mais condizente com a realidade brasileira era prioridade do trabalho proposto, o que possibilitaria a formação de profissionais que utilizariam recursos para comungar suas experiências com a necessidade da comunidade. Meu interesse pela técnica intensificava-se. O trabalho parecia inovador, ao menos a realidade de que dispúnhamos, de como eram realizados os atendimentos em clínicas-escola. Nessa mesma época tomei conhecimento do trabalho instituído pelo Dr Ryad Simon, junto à Sociedade de Psicologia Clínica Preventiva. Durante dois anos, no intuito de adquirir conhecimentos teórico-práticos acerca da técnica de Psicoterapia Breve, realizei o curso proposto nesta Sociedade, que tinha a Psicoterapia Breve como linha de atuação, num trabalho realizado no próprio domicílio do paciente. Tive a oportunidade de conciliar a teoria com a atividade prática de atendimento, conduzindo-me, cada vez mais, para o aprimoramento e reconhecimento da técnica como instrumento sólido daquilo que se propunha e pretendia desenvolver. Anos mais tarde, ainda na Universidade Guarulhos, assumi a função de supervisora de estágio em Psicologia Clínica, estando cada vez mais envolvida, imbuída e certa de que a técnica atendia, com adequação, as necessidades da clientela e do alunado. Deparei-me com resultados satisfatórios, desde que os casos concluídos fossem passíveis de serem atendidos em Psicoterapia Breve, já que se tratava de técnica muito específica, com restrições e contra-indicações que precisavam ser consideradas. A partir de 1982 venho realizando entrevistas de triagem na Clínica Psicológica da Universidade Guarulhos. Em média, cerca de sessenta entrevistas são por mim realizadas mensalmente. Este mesmo serviço também comecei desenvolver.
(12) na Clínica Psicológica da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a partir de 1993, além de supervisionar, nesta instituição, entrevistas de triagem no Estágio Eletivo de Técnicas de Triagem em Psicologia Clínica. Ao longo desta experiência, nestes últimos anos, embora sem nenhum levantamento sistemático, venho observando rápidas e intensas transformações, com mudanças significativas nas funções e relações dentro da família, especialmente sinais de violência, nem sempre pontuados como queixa central, nem tampouco trazidos de forma manifesta pelo entrevistado (a figura materna, no geral). Através da realização das entrevistas de triagem pude perceber que, embora as queixas não estivessem diretamente relacionadas a situações de violência, estas estiveram presentes nas relações familiares, ainda que, muitas vezes, não fossem claramente mencionadas. Constatei que os membros da família detectavam que algo impossibilitava o bom funcionamento da organização familiar, o que provavelmente os conduzia a realizar inscrição para atendimento psicológico, para um dos elementos daquela família, tornando-o responsável pelo desequilíbrio e desordem emocional da mesma, quando, na verdade, não conseguiam enxergar, nem lidar com a violência, já inerente no contexto familiar. Tive também a oportunidade de realizar, em 1996, um estudo sobre o Perfil de Dez Famílias atendidas em Psicoterapia Breve Infantil. Neste estudo verificou-se que indícios de violência surgiam com relativa freqüência nos relatos efetuados pelos pacientes no trabalho de acompanhamento psicológico, embora os referidos pacientes não se queixavam da violência propriamente dita. A violência doméstica é um dos mais graves problemas a serem enfrentados pela sociedade contemporânea. É uma forma de violência que não obedece fronteiras, princípios ou leis. Ocorre diariamente no Brasil e em outros países apesar de existirem inúmeros mecanismos constitucionais de proteção aos direitos humanos. Por essa razão, em 17 de junho de 2004, foi sancionada a lei n. 10.886/04, acrescentando um novo tipo ao artigo 129 do Código Penal, a violência doméstica, como meio de conter o avanço dessa manifestação de violência na família. A situação de violência doméstica demonstra estar mascarada pelo complô familiar. Ninguém evidencia o conflito. O silêncio se faz presente e necessário, deixando.
(13) evidente a existência da relação de poder que está sendo instituída. (Guerra e Azevedo, 1993). Quando o agressor é um membro da família, a criança fica mais desamparada do que se fosse uma pessoa desconhecida à unidade familiar. Quando a criança, de alguma forma, é agredida por uma pessoa que não faz parte do meio no qual está inserida, pode contar com a proteção e o apoio dos familiares, que buscam todo tipo de ajuda necessária, incluindo a psicoterapia, para fazer com que a situação traumática possa ser ao menos minimizada. Quando o agressor é um membro da família, ou alguém bem próximo, de inteira confiança do grupo familiar, a criança não tem a quem recorrer, além de se sentir muito confusa, posto que aquele que deveria constituir um porto seguro é o que acaba por direcioná-la à insegurança e instabilidade nas relações. (Guerra e Azevedo, 1993). Quando atacada por desconhecido, a criança tem melhores condições de superar o trauma, o que dificilmente ocorre quando atacada em casa. No caso de ser atacada pelo membro da família a criança acaba sendo envolvida pelo agressor e, enquanto vítima, nunca mais será a mesma pessoa. (Guerra e Azevedo, 1993). Estes dados podem ser mais facilmente entendidos diante do que postulam os terapeutas familiares que garantem que “a violência doméstica contra as crianças tem como objetivo manter as famílias unidas enquanto um meio de solução de seus problemas emocionais, já que a rotina da violência contra a criança tem sido a forma mais efetiva encontrada pela sociedade em termos de manter a sua homeostase emocional coletiva”. (Guerra e Azevedo, 1993). As pessoas sofrem constantes atos de violência e estão expostas a diferentes formas e ações da mesma, o que os conduz à frustração. As humilhações a que se submetem pelas desigualdades sociais, as relações patrão–empregado, o temor de não poderem suprir as necessidades básicas de seus familiares, etc., fazem com que dificilmente consigam externalizar fidedignamente o que se instituiu de maneira inadequada dentro de si, de forma a não propiciar–lhes plena adaptabilidade em termos das respostas que um organismo vivo apresentaria, se pudesse agir com maior autenticidade. De algum modo, o que foi incorporado pelo indivíduo que antes sofrera pressão pela forma da violência, surgirá. Na maioria das vezes deslocadas para.
(14) situações ou pessoas que não partilharam do movimento violento. (Azevedo e Guerra, 1995). Em geral, o único lugar em que este indivíduo é detentor de algum poder é dentro da dinâmica de sua própria família, e é aqui que ele começa agir, numa relação de abuso de poder, de domínio pela força, onde as relações do agressor com os filhos vítimas, caracteriza-se por ser uma relação sujeito–objeto, sendo que os filhos devem satisfazer as necessidades dos pais. (Azevedo e Guerra, 1995). Estes filhos, vítimas das mais variadas formas de violência, aprendem que são “responsáveis” por estes quadros de violência, ou seja, as causas dos problemas são individuais e jamais as questões são remetidas de forma que se interliguem a problemas familiares, ou seja, as crianças buscam os erros em si mesmas. O trabalho do psicólogo deveria se constituir de maneira profilática, discutindo e orientando os pais acerca da importância de serem estabelecidos limites para os filhos, de forma a levá-los à conscientização e à cidadania, e não à violência. Ao espancar os filhos os pais ensinam a reproduzir a violência. (Azevedo e Guerra, 1995). A violência é, segundo Guerra e Azevedo (1993), um tabu, um dos “temas malditos”, porque se tenta desvendar uma questão que a família tem todo interesse de manter oculta, na lutas pela preservação do mito, de que ela representa um lugar de proteção para a criança, mito este que não só a família como a sociedade tem-se esforçado em perpetuar. Vivemos em uma sociedade que aceita, com naturalidade, imagens de violência. Estamos acostumados a ver pessoas serem humilhadas, a ouvir gritos abafados através das paredes, sem dizer nada. (Azevedo e Guerra, 1995). As camadas mais pobres da população parecem não ter perdido totalmente o contato com alguns dos valores fundamentais da vida; a compaixão e a solidariedade, por exemplo. Portanto, a grande maioria de registros de denúncias de espancamentos ou outros maus–tratos com crianças é constituída por pessoas das classes sociais– econômicas mais baixas. Isso cria a falsa impressão de que, especialmente, o pobre maltrata seu filho. (Guerra e Azevedo, 1993). As mudanças nas funções e relações familiares, a meu ver, sofreram influência das transformações sócio-econômicas e culturais, que vêm colaborando para.
(15) uma maior incidência da violência na dinâmica familiar. Além disso, provocam, entre outras coisas, uma crescente incorporação da mulher no mercado de trabalho que decorre, fundamentalmente, da necessidade da mulher contribuir para o sustento financeiro da família. A mulher, então, passa a fazer parte integrante do orçamento familiar, fora os cuidados com a casa, filhos, educação e saúde. (Azevedo e Guerra, 1995). Neste contexto, torna-se inevitável à ocorrência das referidas transformações sócio-econômicas, que certamente alteram a estrutura familiar, com diminuição no número de seus elementos, um maior distanciamento físico e psicológico entre os membros da família. Estas transformações fazem com que a família busque alternativas para conciliar a formação e educação de suas crianças, nem sempre gerando adequação nas formas das pessoas de um mesmo grupo familiar lidarem entre si, possibilitando com isso o surgimento de sinais de violência na dinâmica familiar. (Azevedo e Guerra, 1995). Diante do contexto da realidade sócio-econômica e cultural brasileira, para Azevedo e Guerra (1995), não consideram viável um processo de atendimento de duração indeterminada. Estabelece-se uma situação muito complexa. De um lado, a necessidade de ajuda psíquica, de outro, uma realidade que impede que a população se beneficie com o acompanhamento psicológico. Há de se pensar em conciliar a necessidade da população e a carência de recursos econômicos e sociais. Não podemos buscar uma formação de terapeutas para uma realidade distante da nossa. O treinamento oferecido ao psicólogo clínico deve estar voltado às condições atuais reais da sociedade. BENKÖ (1970) faz uma crítica severa ao se referir a um preparo inadequado do profissional psicólogo, contestando ironicamente o modo como este profissional lida com sua atuação. Afirma ele que: ”pelo menos no Rio de Janeiro começa a fixar-se uma imagem esteriotipada do psicólogo clínico que, sem muita ironia, pode ser descrita como a de uma senhorita (ou senhora, raramente um senhor), doutora, à espera dos clientes com o Rorschach debaixo do braço, ou com um sofá para fazer sessão de Psicoterapia duas ou três vezes por semana. E, se por acaso, (mas um acaso que ocorre talvez em 50 ou 95% dos casos), aquele grupo de adolescentes desajustados que moram na encosta do morro não têm recursos, nem tempo, nem estrutura mental para vir três vezes por semana ao consultório, quem irá atende-los? Ela não sabe responder!” (p.29)..
(16) “Somente queremos que ele (o futuro psicólogo clínico) não fique preso a uma concepção já bastante ultrapassada das atribuições da Psicologia Clínica. Desejamos que ele receba uma formação correspondente à nossa realidade social, às necessidades verdadeiras das pessoas”. (Benko, p.30).. Estamos diante da interligação entre a técnica de Psicoterapia Breve e a Violência Doméstica, o que parece ser o ponto culminante dentro da proposta deste trabalho. É possível dizer que com o objetivo de aumentar a eficiência das psicoterapias e ainda o de se atingir um número maior de pacientes em processo psicoterápico, notase que há um movimento crescente ao redor da utilização e da eficácia do trabalho de Psicoterapia Breve, que surge como uma forma segura de prestar ajuda a quem procura um psicólogo. Face aos dados acima referidos, que vêm sendo constatados, passei a me interessar em investigar como a violência que ocorre na dinâmica familiar, é trazida pelo paciente na fase diagnóstica da Psicoterapia Breve e como ela é trabalhada. A violência está presente na queixa? De que forma ela é observada e incluída na psicodinâmica da queixa? A violência foi incluída no foco? Como foi trabalhada no processo psicoterápico? À medida que não foi incluída no processo, a violência cria um obstáculo para o bom encaminhamento da Psicoterapia Breve? Com base nos questionamentos descritos acima, o problema desta pesquisa refere-se às interferências da violência doméstica na fase diagnóstica que antecede a Psicoterapia Breve. O objetivo geral da pesquisa visa investigar a presença de dados inferidos sobre a violência doméstica na fase diagnóstica da Psicoterapia Breve Infantil. Além do objetivo geral, a pesquisa tem objetivos específicos, apresentados no capítulo VI..
(17) Capítulo I A ENTREVISTA PSICOLÓGICA Com o propósito de investigar a presença de dados inferidos sobre a Violência Doméstica na fase diagnóstica da Psicoterapia Breve Infantil, para a realização do presente estudo, faz-se necessário conhecer os aspectos essenciais desta fase e sua importância para a compreensão do quadro clínico da criança e do funcionamento da dinâmica familiar, na qual está inserida. Segundo Mito e Oliveira (1997), duas fases complementam a Psicoterapia Breve: a fase inicial, denominada diagnóstica, e a fase terapêutica. A fase diagnóstica é constituída por algumas entrevistas com os pais e contato com a criança, (de dois a três encontros) através das horas lúdicas e, se necessário, com a utilização de material lúdico ou de testes psicológicos específicos. Antes de abordar os aspectos específicos da entrevista, na fase diagnóstica da Psicoterapia Breve, torna-se imprescindível que se apresente uma compreensão sobre entrevista psicológica, já que é o recurso técnico mais utilizado nesta importante etapa da Psicoterapia Breve Infantil. Para Nahoum (1978), a entrevista psicológica pode ser compreendida em dois sentidos diferentes; entrevista conduzida psicologicamente, que visa resolver um problema de ordem emocional ; a entrevista é psicológica pelo seu objeto, é uma técnica de estudo e de observação do comportamento humano com o fim de solucionar problemas que se prendem à psicologia, à sociologia ou à higiene mental. Segundo Ocampo (1981), a entrevista inicial é caracterizada como semidirigida e nela o entrevistador intervêm, a fim de: “assinalar alguns vetores quando o entrevistado não sabe como começar ou continuar; assinalar situações de bloqueio ou paralisação por incremento da angústia para assegurar o cumprimento dos objetivos da entrevista; indagar acerca de aspecto da conduta do entrevistado, aos quais este não se referiu espontaneamente, acerca de lacunas na informação do paciente e que.
(18) são consideradas de especial importância, ou acerca de contradições, ambigüidades e verbalizações obscuras” (Ocampo, 1981, p.23). Ainda para esta autora a entrevista clínica é insubstituível no cumprimento de objetivos do processo psicodiagnóstico. Durante a entrevista psicológica, por necessitar de mais informações, o entrevistador mobiliza o paciente e inclui s critérios gerais para interpretar a entrevista clínica, a saber: avaliar as primeiras impressões que o paciente desperta e verificar se são mantidas ou se alteram; considerar e avaliar as características de sua linguagem; esclarecer o grau de coerência e discrepância entre tudo que foi verbalizado e o que foi captado através de sua linguagem; estabelecer um bom rapport com o paciente para reduzir a possibilidade de bloqueios; captar o que o paciente nos transfere e o que isto nos provoca; detectar qual é o vínculo que une os pais, entre eles e o filho, o de cada um com o filho, o deste último com cada um deles e com o casal, o do casal com o entrevistador. Por fim, é importante avaliar a capacidade dos pais de elaboração da situação diagnóstica atual e potencial. (Ocampo, 1981). Na entrevista psicológica é necessário avaliar o motivo da consulta e deve-se discriminar entre o motivo manifesto e o motivo latente. O motivo manifesto, no geral, é o mais fácil e o mais inócuo de ser dito ao psicólogo e o motivo latente é aquele considerado mais subjacente e mais profundo da consulta. (Ocampo, 1981). Para Aberastury (1986), na entrevista inicial com os pais é importante a presença de ambos, embora, muitas vezes, a mãe é quem comparece. Os aspectos básicos considerados por Aberastury (1986), para realização da entrevista com os pais são: o motivo da consulta; a história da criança; como transcorre um dia de sua vida atual; como é a relação dos pais entre si, com os filhos e com o meio familiar imediato. Para Aberastury (1986), é necessário que a entrevista seja dirigida e limitada de acordo com um plano previamente estabelecido. A entrevista tem como objetivo que os pais falem sobre a criança e sua relação com ela, critério que não deve ser abandonado durante todo o tratamento. Cabe aqui sinalizar a importância do contato que o psicólogo estabelece com a criança, que mantém e estabelece a relação por meio da hora do jogo diagnóstica. “Trata-se de um recurso técnico, utilizado no processo psicodiagnóstico com a finalidade de conhecer a realidade da criança que foi trazida à consulta. A atividade.
(19) lúdica é sua forma de expressão própria. A hora de jogo diagnóstica é um processo que tem começo, desenvolvimento e fim em si mesma, opera como unidade e deve ser interpretada como tal.” (Ocampo, 1981, p. 169). “Na atividade lúdica o mediador é, predominantemente, o brinquedo oferecido, que expressa o que a criança está vivenciando no momento. A hora de jogo diagnóstica é precedida das entrevistas realizadas com os pais e significa o estabelecimento de um vínculo transferencial breve, cujo objetivo é o conhecimento e a compreensão da criança” (Ocampo, 1981, p. 170). Todos os aspectos da hora de jogo diagnóstica são importantes como facilitadores da empatia e do estabelecimento do vínculo, na relação terapeuta/cliente. Com base nas informações acima apresentadas, é possível avaliar a relevância da entrevista psicológica na fase diagnóstica, que precede a Psicoterapia Breve Infantil. Igualmente relevante é a formação do psicoterapeuta como entrevistador, já que compreende-se que a psicoterapia psicanalítica, que fundamenta a Psicoterapia Breve, requer a realização de uma ou duas entrevistas iniciais, para obter os conteúdos mais latentes do paciente, que esclarecem o funcionamento de seu dinamismo mais inconsciente. (Simon, 2005). A entrevista em Psicoterapia Breve, para Simon (2005), é concebida para ter curta duração e busca detectar as situações-problema por setor de adaptação: AfetivoRelacional (A-R), Produtividade (PR), Sócio-Cultural (S-C) e Orgânico (Or). Assim como na entrevista clínica habitual, o primeiro passo na entrevista em Psicoterapia Breve é o conhecimento da queixa, seguido da anamnese que permite conhecer as situações-problema. Segue-se à proposta de Simon (2005), conhecer aspectos sobre a história de vida do cliente para verificar possíveis interferências na sua vida atual. Por se tratar de situação angustiante, é importante que o cliente tenha conhecimento de que sua privacidade está resguardada sob o sigilo e ética profissionais, aspectos estes considerados relevantes para Simon (1989, 2005). Por motivos alheios ao manejo do entrevistador, por vezes, aspectos significativos da entrevista não são colhidos, sendo necessário que o entrevistador.
(20) conduza a entrevista, para garantir a obtenção de informações sobre o conjunto da adaptação (Simon, 2005). Caso tal medida tenha que ser adotada, é importante que se conduza a entrevista partindo dos aspectos menos ansiogênicos para os mais angustiantes, dos periféricos para os centrais. Nesta ordem, caso o entrevistador tenha que conduzir a entrevista, é recomendável que se inicie pelo Setor da Produtividade, em seguida o Sócio-Cultural, Orgânico e, por fim, o Afetivo-Relacional, considerado o mais difícil, não de indagar, mas devido às suas implicações emocionais (Simon, 1989). Havendo um bom rapport, segundo Simon, da metade para o final da entrevista a probabilidade de obter conteúdos mais significativos é maior. Estas entrevistas compõem o alicerce do processo psicoterápico e são imprescindíveis na fase diagnóstica da Psicoterapia Breve. O objetivo da fase diagnóstica é investigar a queixa de forma mais completa e conhecer a história, tanto da criança quanto de seus pais, sempre buscando uma compreensão. do. funcionamento. psíquico. do. paciente.. A. etapa. diagnóstica,. dependendo das condições dos pacientes e dos recursos disponíveis, permite definir a possibilidade do atendimento em psicoterapia psicodinâmica breve, através do estabelecimento do foco, objetivos e estratégias para este caso (Segre, 1997). É na fase diagnóstica que se encontram todos os dados necessários para o planejamento terapêutico. Portanto, trata-se de um momento de vital significado na compreensão da sintomatologia do quadro clínico do paciente. Nesta fase são delineados os objetivos do atendimento, bem como quais serão as estratégias mais adequadas para se chegar aos objetivos propostos. (Oliveira, I. T., 2006). Nesta fase o paciente ou seus pais, tendo, finalmente, dado início ao atendimento, acaba trazendo queixas variadas. Especificamente no caso do atendimento infantil, a queixa, na maioria das vezes, está diretamente relacionada à defasagem escolar. Após a fase diagnóstica, que visa principalmente avaliar a queixa e entender a dinâmica da criança e de seus pais (história), para que se tenha uma compreensão mais integrada do quadro clínico do paciente, delimita-se o foco, que permite e possibilita a proposta de um objetivo a ser atingido, o terapeuta prossegue na avaliação.
(21) de seu trabalho, dando início à segunda etapa, designada fase terapêutica, sempre baseada no que foi definido como foco, que permite o redirecionamento do trabalho, através de intervenções que possibilitam a compreensão dos dinamismos mais inconscientes dos pacientes (Segre, 1997). No capítulo III, que versa sobre a Psicoterapia Breve Infantil, a fase inicial, denominada diagnóstica, será abordada com maior profundidade..
(22) Capítulo II CONSIDERAÇÕES SOBRE PSICOTERAPIA BREVE 1.1. ESCORÇO HISTÓRICO A Psicoterapia que pode ser entendida como um processo de interação verbal entre um terapeuta e um paciente, remonta a muitos séculos. Durante muitos anos o psicólogo trabalhou com um modelo similar ao do médico clínico, que toma a maior distância possível do paciente com a finalidade de não estabelecer um vínculo afetivo que lhe impeça de trabalhar com a tranqüilidade e objetividade necessárias. Em vista da extensão e complexidade frente a um pleno desenvolvimento do conhecimento e da técnica médica, acrescida de um aumento de especialidades clínicas, pouco a pouco, constituiu -se uma ideologia que sustenta uma identidade médica comprometida com um tecnicismo, que propõe o predomínio da técnica sobre a totalidade da ação médica e seus efeitos no paciente, caracterizando a já conhecida distância entre médico e paciente. O psicólogo por carecer de uma identidade profissional sólida assumiu passivamente o modelo médico. Os diagnósticos psicológicos, a princípio pouco diferiam dos psiquiátricos. Gradualmente a Psicologia começou a diferenciar-se, formando uma identidade própria, apoiando-se nas diferentes linhas de pensamento e atuação no campo da Psicologia Clínica. Sofreu significativa influência da Psicanálise, haja visto o fato de alguns psicanalistas, dentre eles destaca-se Michael Balint, se.
(23) empenharem na tentativa de consolidar uma nova forma de relação dos médicos com o saber médico e com a prática derivada desse saber. Neste sentido, a Psicanálise difundiu-se de forma crescente, sendo adotada como quadro de referência nos meios universitários, aceita pelos psicólogos como modelo de trabalho, diante da necessidade de encontrar uma imagem de identificação que lhes permitisse crescer. Esta aquisição, sem dúvida, significou um grande progresso. A Psicanálise surgiu da necessidade de se lidar com as neuroses e seus sintomas, dando um sentido que a medicina e a psicologia não alcançavam. Para Freud os sintomas estão ligados a problemas inconscientes ocorridos durante seu desenvolvimento, principalmente na infância, no evoluir da sexualidade- complicações no desenrolar do que ele chamou de Complexo de Édipo. Em seu trabalho o psicólogo supervalorizou a técnica de entrevista livre, condicionando sua atitude frente ao paciente ao modelo analítico, permitindo que a conduta surgisse espontaneamente a cada sessão, interpretando com base em tal conduta, contando com um tempo prolongado para alcançar seu objetivo. Passou-se, então, a se considerar os aspectos dinâmicos da personalidade, valorizando a técnica de entrevista livre e a continência do psicólogo a certas condutas do paciente. Como marco de referência, este foi um passo fundamental na diferenciação em relação ao modelo médico. Tratava-se de um período de adaptação, de reconstrução da identidade do psicólogo. Sem dúvida, a teoria e a técnica psicanalíticas ofereceram ao psicólogo um quadro de referência imprescindível que o ajudou a entender corretamente o que acontecia em seu contato com o paciente. No entanto, sentiu-se necessidade de encontrar formas de lidar com os conflitos dos pacientes, que buscavam ajuda psicológica para problemas específicos, de modo que possibilitasse uma melhor utilização do tempo, visto que a demanda dos pacientes, muitas vezes, não estava voltada, geralmente por dificuldades financeiras ou até por falta de tempo, a um processo de longa duração. No período pós-guerra esta necessidade aparece de forma mais incisiva, surgindo, assim, a Psicoterapia Breve, oriunda da tentativa de alguns psicanalistas que.
(24) questionavam a Psicanálise como única técnica utilizada para diferentes tipos de pacientes. As seguras contribuições da Psicanálise deram retaguarda às Psicoterapias Breves e sua qualificação psicodinâmica ocorreu porque as intervenções derivavam dessa abordagem, que conduziam os pacientes a ter insights sobre as causas inconscientes de seus sintomas. (Malan, 1979, 1983). Os. primeiros. trabalhos. das. Psicoterapias. Psicodinâmicas. Breves. caracterizam-se pela defesa de maior atividade do terapeuta buscando o atendimento de pessoas em crise, mas também respeitam e se baseiam nos princípios psicanalíticos de associação livre, neutralidade e reconstrução genética do sintoma subjacente ao foco, mesmo em trabalhos de curta duração (Gilliéron, 1986, 1993). A Psicoterapia Breve, segundo Lemgruber (1984), surge como o único tratamento novo adequado às necessidades da guerra, com objetivos específicos ligados à remoção ou melhoria dos sintomas podendo atender mais prontamente à demanda da população gerada pelo aumento da necessidade de serviços psicoterápicos. Embora esta técnica tivesse obtido impulso no período pós-guerra é sabido que a partir do início da segunda década deste século alguns psicanalistas despontavam com sua utilização, como Sandor Ferenczi (1926), que é visto como um dos precursores da Psicoterapia Breve, mas inegavelmente vimos em Freud o grande precursor da técnica ativa quando, mesmo buscando a compreensão da natureza do inconsciente e da personalidade, não deixou de tratar pacientes com queixas específicas, onde buscava a remissão dos sintomas, em tempo expressivamente curto. (Yoshida, 1990). É sabido que Sigmund Freud (1920), inicialmente não estendia os tratamentos de seus pacientes por um período muito longo, chegando a casos de pacientes cujos atendimentos variavam de uma única sessão a, no máximo, um ano de tratamento. (Yoshida, 1990). Partindo das contribuições de Freud, a teoria psicodinâmica entende que a pessoa tem seu funcionamento regido por aspectos psíquicos inconscientes, pré-.
(25) conscientes e conscientes. Os desejos, sentimentos que são ameaçadores ou inaceitáveis para o indivíduo, são reprimidos no inconsciente gerando conflitos. Dessa forma, o indivíduo utiliza mecanismos de defesa inconscientes para lidar com as ansiedades resultantes das reprimidas de um lado e as proibições impostas pelos aspectos conscientes de outro. (Yoshida, 1990). No entanto, apesar de apresentar uma postura ativa, Freud não levou este trabalho adiante, aprofundando-se na busca e compreensão do inconsciente, o que certamente conduziu ao método mais prolongado de tratamento. (Yoshida, 1990). Apesar disto, cada vez mais tornava–se evidente e necessária a utilização de uma técnica ativa, havendo expressivo interesse em buscar novas formas de trabalho que melhor atendessem a demanda dos pacientes que necessitavam dos serviços psicológicos, expostas que estavam a pressões sociais e econômicas. A credibilidade aplicada a esta teoria foi dando à técnica corpo e consistência, ampliando pesquisas, aprofundando conhecimentos, intensificando estudos, surgindo novas propostas, tendo em alguns de seus principais representantes os nomes de Otto Rank, Franz Alexander, Thomas M. French, Hector Fiorini, tidos como precursores da referida proposta. (Yoshida, 1990). A contribuição mais conhecida de Rank, segundo Yoshida (1990), refere-se ao “trauma do nascimento”, fator determinante para toda e qualquer relação conflitiva que o indivíduo venha experenciar, podendo constituir-se numa situação traumática. Posteriormente abordou com ênfase, a mobilização do paciente para o trabalho terapêutico como tentativa de acelerá-lo. Na proporção do envolvimento do paciente com o processo psicoterápico, lidamos diretamente com sua motivação, sendo atualmente reconhecida como condição essencial para o trabalho em Psicoterapia Breve. Alguns especialistas consideram que a Psicoterapia Breve teve realmente seu início registrado pelas contribuições de French e Alexander, que resultaram no livro Terapêutica Psicoanalítica (1946, 1956). Abordaram a Experiência Emocional Corretiva, vista como a maior contribuição fornecida à Psicoterapia Breve por estes autores. Consiste em possibilitar ao paciente ser reconduzido a situações conflitivas, de modo mais favorável, havendo sempre uma relação envolvida, representa, assim, a.
(26) “possibilidade do paciente reviver situações traumáticas do passado penosamente reprimidas, reexperimentando-as na relação com o terapeuta, num contexto relacional de segurança, aceitação e ausência de censura”. (Lemgruber, 1984). Neste sentido intencionava-se uma maior integração do ego, visto que, exposto a novas experiências emocionais, objetivando maior equilíbrio das relações, o paciente estaria mais próximo de atingir sucesso em seu processo psicoterápico. Parece evidenciar-se que pessoas que encontram dificuldades em se depararem com situações conflitivas, não enfrentam seus problemas, afastam-se de um posicionamento mais efetivo, evitam tomar decisões e iniciativas, delegando aos outros a responsabilidade sobre seus atos. Estes aspectos certamente estão mais relacionados à psicodinâmica atual do paciente, do que simplesmente afirmar que rememorização de traumas infantis causam profundo desconforto e sofrimento. Estes autores ousaram ainda avaliar pressupostos da Psicanálise jamais questionados por outros estudiosos, ao menos de forma tão incisiva, referindo-se à duração e freqüência das sessões como sinônimo de profundidade de tratamento e à noção de que em Psicoterapia Breve somente os aspectos superficiais da psicodinâmica do paciente possam ser verdadeiramente atingidos. (Yoshida, 1993). Assim como a maioria dos estudiosos que se destacaram com propostas dentro do enfoque psicodinâmico breve de tratamento, Hector Fiorini (1982), também defendia a necessidade da utilização de uma técnica com características próprias que possibilitasse um papel ativo para o terapeuta. A Psicoterapia Breve foi se garantindo como uma técnica com características e objetivos terapêuticos satisfatórios. Estudos ingleses e argentinos também impulsionaram esta técnica. (Lemgruber, 1984). Segundo Lemgruber (1984), os ingleses com formação psicanalítica consideram haver êxito no trabalho quando a psicoterapia estiver baseada nas interpretações transferenciais. Ainda segundo esta autora, os argentinos denominam a Psicoterapia Breve de “terapias não regressivas”, caracterizando a técnica como possuidora de uma identidade própria, não a relacionando ao fator tempo. Recebem profundas críticas na medida em que propõem maior ênfase em aspectos intelectuais e cognitivos. A crítica contrapõe o fato de que ter conhecimento.
(27) intelectualizado acerca de situações traumáticas não é suficiente para resolver ou minimizar os conflitos emocionais. Por outro lado, as dificuldades emocionais impedem a formação simbólica e o desempenho. Os termos Psicoterapia Breve ou Psicoterapia de Tempo Curto são termos usualmente empregados, apesar de não serem hoje os mais adequados para designar a técnica de Psicoterapia Breve, em referência a um tipo de tratamento psicoterapêutico que tenha uma abordagem psicodinâmica com orientação de base psicanalítica. (Lemgruber, 1984). Os estudos referentes à técnica de Psicoterapia Breve seguem seu curso na busca de um aprimoramento. Dentro de uma visão mais contemporânea, inúmeros são os estudiosos que reconhecem a Psicoterapia Breve como uma técnica que melhor possibilita o acesso das pessoas ao trabalho de atendimento clínico, sendo possível referirmo-nos a alguns nomes. Nesta ordem, podemos dizer que foi a partir da década de 70, que os trabalhos de Malan (1963) e Wolberg (1965), foram introduzidos no plano de saúde mental da Coordenadoria de Saúde Mental, da Secretaria do Estado de São Paulo, sob o comando do Dr Walter Leser. No Brasil, a técnica teve repercussão muito favorável, principalmente em se tratando de clínicas-escola de Psicologia e de Psiquiatria, pois surge para minimizar o grave problema da interrupção dos atendimentos, haja visto tratar-se de um trabalho que segue um calendário escolar, que envolve o ano letivo, havendo portanto trocas constantes de terapeutas, o que não configura atender as necessidades de um trabalho de atendimento clínico. A maior utilidade da técnica de Psicoterapia Breve parece residir na contribuição da formação de terapeutas, na medida em que oferece um planejamento que possibilita uma descrição precisa dos procedimentos técnicos adotados. (Yoshida, 1997). O trabalho prossegue e ganha impulso significativo com as publicações das últimas três décadas: Fiorini (1982), Lemgruber (1984), Malan (1979), Knobel (1986), Simon (1989), Yoshida (1990), Gilliéron (1993), entre outros..
(28) Para Wolberg (1965; 1979), o processo de Psicoterapia Breve baseado no modelo psicodinâmico consiste em: “utilizar a situação de relação com o terapeuta como meio para ajudar o paciente a adquirir uma compreensão de si próprio, fazendo-lhe ver como suas reações correntes e envolvimentos interpessoais estão relacionados com as experiências formativas de seu passado” (p.148 149).. Contribuições preciosas também são encontradas nos estudos de D. Malan (1976; 1979), referindo-se à técnica da Psicoterapia Breve como sendo indicada para pacientes com conflitos atuais agudos, sendo que a elaboração de tais conflitos pode levar a uma mudança permanente, possibilitando um crescimento psíquico constante, podendo ser denominado como “conflito focal”. Segundo Ferraz, Dewelk e Hegenberg (1993), para Gilliéron “as indicações de Psicoterapia Breve são fundadas nas organizações da personalidade do sujeito”. As Psicoterapias Breves, segundo Gilliéron, “oferecem a possibilidade de refletir sobre o funcionamento psíquico, considerando-as como um método experimental que pode ser comparado à psicanálise ou a outras formas de tratamento” (Ferraz et al, 1993, p.71). A eficácia da técnica de Psicoterapia Breve vem sendo instrumentalizada e prossegue defendendo a flexibilidade do terapeuta, bem como sua rapidez de ação. Segundo Lemgruber (1995), um grande avanço e êxito da técnica de Psicoterapia Breve se deve ao uso da Experiência Emocional Corretiva, já definida neste capítulo. Estudos valorosos possibilitam o aprimoramento e a utilização adequada da técnica de Psicoterapia Breve, atribuindo à abordagem o reconhecimento e a importância do alcance nos processos terapêuticos. Lemgruber ainda propõe o Efeito Carambola como meio de provocar mudanças mais amplas na personalidade do paciente. O efeito Carambola representa “o mecanismo de potencialização dos ganhos terapêuticos obtidos pela técnica focal, que se baseia na possibilidade do paciente vivenciar EECs intra e extraterapêuticas num mecanismo de feedback positivo (Lemgruber, 1995, p.81). Em 1995, Vera Lemgruber é convidada a dirigir o Setor de Psicoterapia no Serviço de Psiquiatria do Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, a fim de desenvolver a abordagem psicoterapêutica focal (in Enéas; Yoshida, 2004), trabalho que apresenta em seu livro Psicoterapia Breve Integrada, publicado em.
(29) 1997, onde viabiliza a integração de técnica focal com a psicofarmacologia, bem como com outras técnicas, que não só a psicodinâmica. (Lemgruber, 1997). Estes estudos que engendram e fundamentam o trabalho da Psicoterapia Focal Breve permitem integrá-la com a neurociências e com a Teoria das Emoções, que é resultante das características individuais do ser humano com o seu meio ambiente. (Lemgruber, 2000). Como sabemos o modelo de psicoterapia para este 3º milênio deve ser integrativo e a Psicoterapia Psicodinâmica Breve Integrada alcança esta abordagem teórico-clínica. Trata-se de uma técnica ativa, com foco definido, com planejamento terapêutico, que tem como estratégias a avaliação diagnóstica e psicodinâmica do indivíduo. (Lemgruber & Junqueira, 2002). Enéas e Yoshida afirmam que: “as emoções são processos relacionais inatos de tendência à saúde com a função de orientar as negociações das pessoas com seu meio ambiente, potencializando o desenvolvimento de capacidades que facilitam a adaptação indispensável à nossa sobrevivência”. (2004, p.176).. Estudos e pesquisas prosseguem e aprimoram a técnica de Psicoterapia Breve, revelando outros nomes, profissionais igualmente comprometidos como os que já aqui foram citados.. 1.2 PRINCÍPIOS E CONCEITOS BÁSICOS A maioria dos autores que faz suas propostas em Psicoterapia Breve percorreu um caminho que teve início com a formação em Psicanálise e a propõe como uma forma mais segura de obter um bom conhecimento do funcionamento psíquico do paciente, o que permite uma rápida compreensão e intervenção. A Psicoterapia Psicodinâmica Breve baseia-se no modelo psicanalítico, e leva em conta conceitos tais como; ego, pulsão, objetos, self. Para Fiorini (1978), “uma avaliação dinâmica continuamente atualizada leva a efetuar reajustamentos, por tentativas e erros, até obter o rendimento máximo do arsenal terapêutico disponível” (p.32). Este autor acrescenta que a “iniciativa pessoal do terapeuta, individualização, planificação, focalização, flexibilidade definem parâmetros.
(30) específicos da Psicoterapia Breve” (p.32) e conferem a esta técnica uma estrutura própria, diferente da técnica psicanalítica. A Psicoterapia Breve adquiriu particularidades que passaram a identificá-la. São essas características específicas que tornam possível o atingimento dos objetivos terapêuticos em prazo bem mais curto, pois não é nem o número pequeno de sessões, nem a duração mais curta do tratamento que define a técnica da Psicoterapia Breve. O que distingue esta técnica são, portanto, os seus conceitos fundamentais como foco, objetivos limitados, tempo, flexibilidade, atividade do terapeuta, que vão se configurando como parte da técnica de Psicoterapia Breve. (Lemgruber, 1984). ATIVIDADE Quando se trata de Psicoterapia Breve um ponto de concordância entre os autores é a necessidade de um papel mais ativo por parte do terapeuta. O terapeuta, ao atuar em Psicoterapia Breve estará optando por maior atividade utilizando, segundo Lemgruber (1984), atitudes como: avaliar e diagnosticar as condições internas do paciente, estabelecer um foco a ser trabalhado durante o processo terapêutico, combinar com o paciente um contrato terapêutico discutindo o foco estabelecido, planejar a estratégia básica a ser seguida durante o processo terapêutico, estabelecer metas e objetivos terapêuticos a serem atingidos ao término do processo de Psicoterapia Breve. Sandor Ferenczi (1926), foi considerado um transgressor porque já propunha uma “técnica ativa” que se opunha à atitude de passividade terapêutica. Este autor buscava em seu trabalho não só a fala do paciente, mas também a linguagem não verbalizada, referindo-se à entonação de voz, respiração alterada, ruborização, tontura, etc. Diante do que acreditava este autor, esta atitude por parte do terapeuta facilitava a percepção de qualquer mudança de expressão ou qualquer sinal de ansiedade, seja verbal ou postural, do paciente. Hector Fiorini (1978), defendia a utilização de uma técnica que possibilitasse um papel ativo para o terapeuta, que consiste numa seqüência de ação, a saber: “depois de avaliar a situação total do paciente, compreendendo a estrutura dinâmica.
(31) essencial de sua problemática, o terapeuta elabora um plano de abordagem individualizado” (p.31). Alexander e French (1946), consideravam imprescindível a atitude ativa por parte do terapeuta. Nesta técnica, também para Malan (1981), evidencia-se a necessidade de maior atividade, que consiste em orientar o paciente durante o processo, através de interpretações, atenção e negligência seletivas. Neste trabalho o terapeuta deve estar atento e redobrar esforços para manter o tratamento direcionado para a área que foi focalizada, devendo utilizar o material relacionado ao foco. Na abordagem terapêutica focal o psicoterapeuta sempre atento às manifestações verbais, à postura e reações do paciente, tem um papel eminentemente ativo que acaba por constituir um dos aspectos essenciais da técnica de Psicoterapia Breve. O terapeuta não se limita apenas às informações trazidas pelo paciente, embora tenha como base a queixa, o conflito ou a dificuldade específica que levou o paciente a procurar ajuda psicoterápica. (Lemgruber, 1984). Na Psicoterapia Breve não há lugar para uma atitude passiva por parte do terapeuta. O terapeuta deverá ter em mente o foco, manter este foco como objetivo central do trabalho, evitando atenção flutuante. Nesta técnica o terapeuta não deverá ser diretivo, mas deverá evitar trabalhar com material que não esteja diretamente relacionado ao objetivo da terapia, visto que, muitas vezes, a utilização de material feita pelo paciente pode estar relacionada a defesas, na tentativa de evitar o contato com conflitos mais difíceis. Para Davanloo. (1994),. “as. defesas. devem. ser. gentilmente,. mas. inflexivelmente,. confrontadas”, possibilitando reações por parte do paciente. A técnica de Psicoterapia Breve, por ser mais ativa, segundo Lemgruber (1984), é vista como uma posição de poder do terapeuta frente ao paciente por muitos autores. No entanto, para Lemgruber este poder mencionado por muitos estudiosos parece maior na linha psicanalítica clássica, onde o paciente é levado a uma postura de regressão e dependência. Como o terapeuta tem um papel ativo, tem um objetivo a atingir e um tempo limitado para desenvolver o processo de atendimento, é preciso que esteja adequadamente preparado do ponto de vista do conhecimento da técnica utilizada e em.
(32) condições pessoais satisfatórias, como enfatiza Yoshida (1990) quando cita que os critérios psicodiagnósticos incluem, além das características do paciente, as do terapeuta, referindo-se particularmente à sua formação, experiência profissional e características de personalidade.. FLEXIBILIDADE Outro conceito básico da Psicoterapia Breve refere-se à flexibilidade por parte do terapeuta. Alexander e French propuseram dois princípios modificadores da técnica: o princípio da flexibilidade e o princípio da experiência emocional corretiva. Neste sentido a técnica torna-se mais dinâmica, o terapeuta torna-se mais ativo. Alexander e French (1946), defendiam a idéia de que a Psicoterapia Breve e a Psicanálise seguiam os mesmos princípios, levando-se em conta que as maneiras de lidar do terapeuta deveriam ser compatíveis às necessidades do paciente, ou seja, a adaptabilidade não seria exclusividade do paciente, mas haveria um esforço do profissional para buscar um procedimento mais adequado para cada caso clínico, o que se configuraria no princípio da flexibilidade. Estes autores não se preocuparam em apontar a Psicoterapia Breve como uma técnica independente, mas insistiam em interrelacioná-la com a Psicanálise, dificultaram uma visualização mais clara e mais aceitável das Psicoterapias Breves, retardando seu reconhecimento. Assim como Franz Alexander e Thomas French (1946), Fiorini (1978), propôs a utilização do “princípio da flexibilidade”, afirmando que “pacientes diferentes requerem tratamentos diferentes” (p.32), com também na remodelação periódica da estratégia e das táticas, em função da evolução do tratamento..
(33) Com base nos princípios propostos por F. Alexander, de dinamização do processo através de uma flexibilidade e maior atividade por parte do terapeuta e do planejamento do tratamento, principalmente com o auxílio dos triângulos de interpretação, que permitem ao terapeuta uma melhor compreensão dos conflitos psicodinâmicos do paciente e, com isso, a possibilidade de planejar o processo terapêutico de forma a aumentar a probabilidade de ocorrerem Experiências Emocionais Corretivas (Lemgruber, 1984). A flexibilidade do terapeuta tem relevante significado no encaminhamento adequado e imediato do paciente. É de expressiva importância acolher o paciente e mobilizá-lo para um tratamento que melhor atende suas necessidades. A simples sugestão pode não garantir a procura. Auxilia-lo a identificar sua situação e a perceber a utilidade de uma intervenção que se adeque ao seu quadro clínico, poderá ajudá-lo a ter uma percepção mais adequada a respeito de si. Este apoio, bem como alguma informação, poderá representar uma melhora mais abrangente para o indivíduo. (Enéas, 1999a) A flexibilidade exige rigor, do ponto de vista teórico, técnico e ético, é preciso, portanto, que o terapeuta tenha bastante conhecimento das estratégias pelas quais um processo terapêutico possa ser útil (Enéas, 1999c).. DURAÇÃO Dentre os autores que utilizam a técnica da Psicoterapia Breve há os que estabelecem o número de sessões e a data do término do tratamento, há os que demarcam uma data para o término, mas não estabelecem o número de sessões e ainda aqueles que, embora admitam que a duração do atendimento deva ser breve, não fixam o número de sessões. Tem importância significativa estabelecer a duração do processo terapêutico, pois além de dar limites aos pacientes, permite facilitar sua participação mais madura, na medida em que tem uma percepção mais consciente de seu tempo real. (Mann, 1973)..
(34) Segundo Sifneos (1979, 1989), pode-se deixar a duração do atendimento em aberto, até que os objetivos estejam próximos de serem atingidos, ou estabelecer o término desde o início do processo, em termos do número de sessões ou de uma data para o término do atendimento. As duas propostas podem ser utilizadas, cabe analisar qual a mais recomendável, de acordo em função da situação. Mann (1973), associava a questão da alta a um limite de doze sessões e dava a entender ao paciente que a alta tem um caráter definitivo. Malan (1981), mantinha em seu trabalho a proposta de um limite máximo de quarenta sessões. Com o passar do tempo passou a utilizar um critério de vinte sessões em se tratando de terapeutas experientes e trinta para terapeutas em treinamento. Para este autor um limite de duração fixado no início do tratamento é mais benéfico, principalmente porque a questão da alta é salientada desde o início. Segundo Ferraz, Dewelk e Hegenberg (1993), para Gilliéron: “os princípios de base da psicoterapia breve são: a limitação da duração que varia de três meses a um ano, a disposição face-a-face, a regra da associação livre para o paciente, e a análise das resistências e dos conteúdos das associações, levando-se em consideração as interações paciente/terapeuta” (p.70).. De acordo com Yoshida (1990), não há um consenso nem unanimidade sobre o tempo proposto para a terapia para a maioria dos estudiosos.. PLANEJAMENTO Dentre as exigências mínimas para o êxito em um trabalho de atendimento em Psicoterapia Breve está o planejamento terapêutico. A possibilidade de planejar e estabelecer antecipadamente os objetivos que se pretende atingir é condição para que se obtenha resultados mais satisfatórios na utilização desta abordagem. Um planejamento terapêutico deve ser, segundo Lemgruber (1984), necessariamente flexível. A correta avaliação do paciente é um elemento básico no planejamento terapêutico. Após esta avaliação, ainda segundo Lemgruber (1984), o terapeuta deverá estabelecer projeto de trabalho, seguido de uma devolução diagnóstica, onde será discutida a elaboração do foco para a terapia..
(35) Alexander e French (1946), tinham uma proposta que se constituía no planejamento do trabalho terapêutico em Psicoterapia Breve. O terapeuta a partir da queixa faz um levantamento minucioso da história de vida do paciente. Nesta comunhão de dados avalia-se a situação do paciente, obtendo-se assim uma compreensão clínica mais ampla e completa de sua problemática, uma compreensão psicodinâmica da queixa, o que possibilita a delimitação do foco, através da elaboração de um plano de trabalho individual. Partindo do planejamento terapêutico, é possível obter uma compreensão psicodinâmica da queixa e sua importância para o êxito do trabalho. Esta compreensão por parte do terapeuta deverá ser acrescida do entendimento, pelo paciente, de suas atitudes e conflitos. Há de se ater a um aspecto que comumente ocorre, o da queixa latente. No início de todo trabalho de atendimento psicológico, partimos da queixa manifesta, tendo como determinação que é a partir da situação-problema trazida pelo paciente que se inicia o trabalho com o mesmo. (Enéas & Yoshida, 2004). No planejamento é importante a escolha da estratégia terapêutica, que permite saber qual a melhor forma e mais produtiva de se chegar ao objetivo pretendido (Enéas e Yoshida, 2004). Mantendo o problema principal como foco central do processo, o tratamento é desenvolvido de forma a levar o próprio paciente a identificar e correlacionar suas dificuldades com situações de sua vida cotidiana. Dentre os conceitos peculiares à técnica da Psicoterapia Breve destacamos alguns que são básicos: Experiências Emocionais Corretivas (E.E.C.), Aliança Terapêutica, Foco, Atividade e Planejamento. (Enéas e Yoshida, 2004). De acordo com Bloom (1992), o planejamento descreve o tratamento breve que tem a intenção de realizar um conjunto de objetivos terapêuticos dentro de um limite circunscrito de tempo. O planejamento em Psicoterapia Breve permite a obtenção de objetivos mínimos, dependendo das condições do paciente ou mesmo do terapeuta, bem como das expectativas que são trazidas para o atendimento, demanda, outrossim, a hierarquização dos objetivos (Enéas, 1999b)..
(36) FOCALIDADE E MOTIVAÇÃO A Psicoterapia Breve é designada Técnica Focal, já que se considera que o cerne dela é o trabalho em cima de um foco circunscrito, que pode levar a mudanças em várias áreas da personalidade do paciente. Foco, então, pode ser entendido como ponto central do trabalho em que é utilizada a técnica de Psicoterapia Breve, intencionalmente a priorização dos aspectos diretamente relacionados com o objetivo do trabalho. (Lemgruber, 1984). Nesta técnica, o foco é o objetivo central do terapeuta, é o que dá sustentação a todo processo de tratamento psicoterápico. Qualquer material que se distancie do objeto central do processo – foco – deverá ser desprezado, ainda que sinalize “a focalização da terapia breve é sua condição essencial de eficácia”. Via de regra, quando um paciente recorre a um trabalho de acompanhamento psicoterápico, é presumível que tenha uma queixa, o motivo da consulta, que muitas vezes se transforma no eixo do trabalho. (Enéas e Yoshida, 2004). O próprio paciente é um facilitador na busca do delineamento do foco a ser utilizado como eixo no processo psicoterápico, posto que, desde que preservadas as funções do ego, o indivíduo é capaz de organizar seu discurso, de seguir uma linha de pensamento lógico, que certamente determinará a ação básica. Segundo Fiorini (1978): “a focalização parece expressar necessidades de delimitar a busca, de modo a concentrar nela atenção, percepção, memória, todo um conjunto de funções egóicas, levando a trabalhar sobre associações intencionalmente guiadas” (p.90).. O terapeuta vai atuar tendo sempre em mente o foco que precisa ser trabalhado. Todo o trabalho é norteado por este foco, cabendo ao profissional discernimento para não se deixar envolver por colocações por parte do paciente que não estejam vinculadas ao foco, já que esta é a condição para que o trabalho seja eficaz. Para Castro (1997), o estabelecimento do foco faz parte do contato terapêutico e quanto mais delimitado o foco, maior é a chance de sucesso da terapia..
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