Esboço sobrE a mídia rEligiosa
E a rEligião midiática no brasil:
nova tEntativa dE aproximação
Fábio augusto darius1
resumo: O presente artigo intenciona abordar a ideia de que grande parte da mídia brasi-leira é suposta divindade, extensão do humano e, portanto, algo como “imagem espelhada de Deus” e devidamente refletida nos monitores de vídeo espalhados pela residência, que se convertem em espécie de “oratórios privados”. Programas de auditório transformam seus interlocutores em deuses e fazem do palco um púlpito de onde é transmitido, de forma sui generis, noções de ética e religião. Movimento semelhante pode ser visto em algumas denominações cristãs brasileiras: pastores que já não mais se veem como “servos de Deus” — mas como próprios mediadores entre o imanente e o transcendente, através de práticas
espetaculosas transplantadas dos programas gerados pela mídia massificadora — são, eles próprios, deuses propiciados pela ciência e tecnologia.
palavras chave: Mídia; Religião; Espetáculo
a sKEtcH aboUt rEligioUs mEdia and mEdiatic
rEligion in braZil: a nEW approacH
abstract: The present article intends to discuss the idea that a great part of Brazilian media is a kind of deity, an extension of the human being and, therefore, something as a “mirror image of God” duly reflected in the monitors of video spread in homes, which turn into a kind of “private chapels”. Talk shows transform its characters into gods and the stage into a pulpit from where is transmitted a sui generis form knowledge of ethics and religion. A similar movement can be seen in some Brazilian Christian denominations: pastors who are not seen anymore as “in service of God”. Instead, they are considered proper mediators be-tween immanent and transcendent, through spectacular deeds in TV shows generated by the mass media. They themselves are gods propitiated by science and technology.Keywords: Media; Religion; Entertainment
A comunicação do evangelho significa expô-lo diante das pessoas para que decidam por ele ou contra ele. O evangelho cristão é matéria de decisão. Tem de ser aceito ou rejeitado. Tudo o que nós podemos fazer, nós que o comunicamos, é possibilitar a decisão. E esta baseia-se em compreensão e participação parcial (TILICH, 2009, p. 260)
1 Doutorando em Teologia pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo e mestre em Teologia pela mesma
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considerações iniciais
Paul Tillich, o “teólogo da cultura”, ao escrever as linhas que principiam este artigo, aborda a sumamente importante tarefa de comunicar o evangelho. Esta empreitada não deve ficar restrita ao âmbito pastoral ou relegada a professores, mas deve ser refletida, considerada e reconsiderada por todos aqueles a quem este evangelho faz e dá sentido à existência — ou seja, todos aqueles que ousadamente vivem o evangelho de forma coti-diana, genuína e verdadeira, pela graça mediante a fé. A esta função de comunicar e, em caso positivo, fazer discípulos, certamente parecem se referir as palavras proferidas por Cristo, expressas no texto de Mateus 28:19 e repetidas miríades de vezes, principalmente no âmbito do cristianismo de cunho protestante pentecostal e neopentecostal. Penso tam-bém que, ainda antes da comunicação explícita deste evangelho, faz-se necessário pensar nos pressupostos norteadores dessa comunicação, seja em qual âmbito for. No caso da mídia televisiva, por exemplo, a pergunta poderia ser: qual é o intuito desses agentes mi-diáticos, que dela se utilizam às vezes durante horas seguidas? Realmente fazer discípulos de Cristo, com todos os percalços, vicissitudes e também benesses benfazejas do Céu ou tão somente cooptar novos membros-sócios para dar seguimento aos negócios multimi-lionários cuja faceta mais presente seria aquela visualizada todos os dias na televisão? De todo modo, expor o evangelho sempre é um exercício dialético de causas e consequências que muitas vezes transcende o arraial específico de determinada denominação, visto que a própria mídia é grandemente responsável por toda a sorte de generalizações.
Ellen G. White não viveu na época da televisão ou mesmo do rádio, sendo que para ela o objeto privilegiado de comunicação do evangelho — além do púlpito e do “corpo a corpo” — era a palavra impressa. Desse modo, para ela, o supremo objeto das publicações era levar o evangelho, permitindo à pessoa “atingida” por ele auferir real mudança de vida pelo progressivo conhecimento de Cristo, mediante sua própria graça. Assim, “nossos periódicos mais recentes revelam cegueira de discernimento espiritual” (WHITE, 2010, p. 66) e, como profetas, denunciam a atual condição, anunciando o Rei-no da Glória. White (2010, p. 10) ainda recomendaria que os escritores e editores dos periódicos adventistas do sétimo dia cuidassem de apresentar as verdades do evangelho explicitando mensagens para este tempo, com sinceridade e sem preconceito (WHITE, 2010, p. 28-29) e sem ataques, sempre no espírito de Cristo (WHITE, 2010, p. 45). Essas diretrizes até hoje fazem da comunicação adventista uma referência — porque Cristo é e sempre deve ser a referência, ainda que eventualmente surja a inebriante vontade de se juntar ao mundo pelo caminho mais fácil e perigoso, a saber, pelas pregações emocionais que geram batismos em massa e enfraquecem o corpo da igreja.
Deve-se ainda levar em conta a conhecida ideia de Edgar Morin, que designa nosso tempo como efetivamente a “quarta idade da humanidade”, onde nesta grande aldeia--mundo, homens e mulheres solidários pela experiência e crescimento, reconhecem seus próprios destinos como frutos de seus próprios trabalhos — abençoados pela misericor-diosa graça de Deus (a ênfase quase redundante é para frisar a cooperação divino-huma-na). Assim, neste mundo idílico e sonhado — principalmente em virtude do uso da mídia
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para diminuir e mesmo aniquilar o diferente — deve-se levar em conta que a comunicação e o diálogo religioso “é uma novidade e uma chance” de levar ao outro um pouco daquilo que se vivencia recebendo de volta suas próprias vivências.
A partir dos pressupostos acima comentados, faz-se necessário perguntar sobre os supostos limites concernentes à comunicação do sagrado texto e as tão díspares teo-logias oriundas deste, em um mundo plural, contemporâneo e conectado aos meios de difusão cada vez mais rápidos e de abrangência virtualmente ilimitada, que podem ser acessados por qualquer pessoa em qualquer momento. Mais do que isso: deve-se inqui-rir também sobre o comunicador. As palavras e ações dos homens e mulheres públicos dizem minimamente respeito às palavras e ações contidas no evangelho? Tillich, na mesma obra acima citada, diria que é sempre um sofrimento quando a pessoa simples-mente não aceita as prerrogativas implícitas e explícitas do cristianismo apresentado e o drama é o mesmo quando o evangelho para estas nunca sequer foi motivo de dúvida. Nesse sentido, para Tillich (1992, p. 16):
São justificados pela fé não apenas os que pecam, mas também os que duvidam. A situação de dúvida, mesmo de dúvida a respeito de Deus, não precisa, necessariamente, nos separar de Deus. A fé encontra-se em todas as dúvidas sérias. Trata-se da fé na verdade como tal, mesmo quando a única verdade possível de ser expressa seja a nossa falta de verdade. O divino presentifica-se quando tal experiência se dá nas profundezas de nós mesmos e se faz para nós a nossa “preocupação suprema”. Quem duvida dessa forma passa a ser “justificado” em seu pensamento.
Contudo, se o cristianismo de preponderância evangélica grandemente difundido no Brasil pelo meio privilegiado da mídia televisiva apresenta visíveis contradições acerca daquela proposta de cristianismo bíblico baseado nos quatro pilares da Reforma, é de se perguntar, em linhas gerais, o quanto dessa cotidiana e midiática comunicação do evange-lho diz efetivamente com respeito à transmissão deste evangeevange-lho nos moldes protestantes conservadores e/ou clássicos.
a pós-modernidade e a religião midiática brasileira
Não parece ser possível analisar a questão ora levantada, ou seja, a da aparente ou real contradição entre essa proposta contemporânea de apresentação do cristianismo e a acepção evangélica tradicional do tema, sem se dar conta do contexto de sentido coti-diano. A pós-modernidade, para utilizar apenas um dos muitos termos sociológicos pen-sados para dizer respeito aos tempos oriundos das múltiplas consequências da segunda
revolução industrial2, está firmemente baseada, ao menos no mundo ocidental, em uma
2 Para uma lista atualizada acerca da multiplicidade de nomes atribuídos ao processo ora vigente, vide, especialmente
o primeiro capítulo Bauman (1998). Pode ser utilizado também o termo “hipermodernidade”, ao invés de “pós-mo-dernidade”, para dar vazão ao pensamento do filósofo francês contemporâneo Gilles Lipovetsky. Ao falar em hiper-modernidade, ele trata do gozo à angústia contemporânea, não necessariamente afirmando que o presente estado de
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série de sucessivos espetáculos. Nas palavras de Debord (2002, p. 13), na primeira tese de seu livro mais conhecido, “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo
o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”.3
Uma sociedade assim constituída passa a viver — em grande medida — de aparên-cias, imediatismos, ilusões e satisfações fugazes a partir de experiências reais (materiais), em diametral contradição aos sentimentos oriundos da espera de resposta à petição cla-mada ao Espírito Santo ou das reuniões de um grupo de estudos bíblicos, sem necessaria-mente resultados imediatos e aparentes. Já um século antes, no mesmo sentido apresenta-do nas teses de Debord, escrevia Feuerbach (1855, p. 10):
E sem dúvida o nosso tempo […] prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser[…] Ele considera que a ilusão é sagrada, e a verdade é profana. E mais: a seus olhos o sagrado aumenta à medida que a verdade diminui e a ilusão aumenta, de tal sorte que, para ele, o cúmulo da ilusão fica sendo o cúmulo do sagrado (tradução livre).4
O militante ateísta do século XIX, autor da citação acima, descreve em minúcias a atual situação de muitas igrejas evangélicas brasileiras que em grande medida “arregi-mentam” seus fiéis por meio de espetáculos radiofônicos e televisivos, nos quais o altar é convertido em palco e o púlpito em tribuna. Assim sendo, o próprio pastor, deixa de ser o servo de Deus, humilde trabalhador da vinha do Senhor e também é convertido em apresentador de televisão, com toda a opulência e poder que esta exerce diante das massas. Porém, nessa passagem do altar para o talk show, a mensagem cristã é em grandís-sima medida sublimada pelas representações audiovisuais de uma mídia que privilegia, por excelência, a luz e a imagem. Nas palavras de Rosário (2008, p. 149-162):
Na passagem para a tevê, entretanto, o talk show incorporou traços específicos desse meio, entre os quais o do espetáculo orientado pelos recursos visuais-imagéticos. Tal filiação deu origem a uma mutação que fez prevalecer o show sobre o talk. Não se pode esquecer, afinal, que o processo de formatação dos programas televisivos — pelas características visuais-imagéticas e pela própria epistemologia do meio —
coisas é de fato prejudicial, mas tão indefinidamente fugaz e mutável, que acompanhar tal transformação mostra-se im-possível. Como exemplo, tome-se o “hipertexto” da web. Para maiores informações ver Lipovetsky; Sébastien (2004).
3 A morte do autor, ocorrida em novembro de 1994, foi motivo de notícias centrais nos mais proeminentes meios
de comunicação da França e mesmo documentários foram exibidos dias depois de seu falecimento. Ele, que teve sua vida e obra ignoradas pela mídia, também foi motivo para espetáculo, quando não mais pôde se pronunciar.
4 O original assim traz: “But certainly for the present age, which prefers the sign to the thing signified, the copy to
the original, fancy to reality, the appearence to the essence, this change, inasmuch as it does away with illusion, is an absolute annihilation, or at least a reckless profanation; for in these days illusion only is sacred, truth profane. Nay, sacredness is held to be enhanced in proportion as truth decreases and illusion increases, so that the highest degree of illusion comes to be the highest degree of sacredness.”
51 inspira-se no espetáculo (show), primeiramente como carnaval, como festa popular e como espaço público das feiras da Idade Média.
Em alguns casos, a representação é tal que transcende até mesmo o imagético televisivo. Em situações assim, a quase sempre fantasiosa “representação limpa”5 produ-zida em um auditório-templo é transplantada para um “lugar real”, com endereço fixo e conhecido, onde as pessoas efetivamente participam ao vivo do serviço de culto-show em um mesmo âmbito espetaculoso de luz e som proporcionado pela televisão. A situação mais emblemática talvez seja a construção de uma réplica em tamanho real do antigo templo de Salomão, com pedras trazidas de Israel. Terá 126 metros de comprimento e 104 metros de largura, em 70 mil metros de área construída em um quarteirão inteiro de 28 mil metros, dimensões que ultrapassam a medida oficial de um campo de futebol. Em seu interior, haverá uma rede de rádio e televisão, bem como um auditório para 500 pessoas. O templo em si terá espaço para acomodar 10 mil pessoas sentadas (MEIBACH, 2010). Apesar da inegável magnificência de tal obra, que deverá estar pronta em quatro anos, construções assim não se configuram novidade no meio evangélico que necessariamente precisa da mídia para a sobrevivência de sua mensagem e que, de acordo com a própria dinâmica pós-moderna, já antecipada por Feuerbach, faz absoluta questão da réplica ao invés do genuíno. De acordo com Armstrong (2009, p.474), ao comentar sobre situação semelhante ocorrida nos anos 80 nos Estados Unidos,
a “réplica perfeita” da Sala Superior de Jerusalém (onde se acredita que Jesus presidiu a Última Ceia e instituiu a Eucaristia) fora concebida para parecer uma reprodução. O culto tinha lugar num estúdio de televisão e […] nunca transmitiram um serviço ou sermão comum. Preferiam o espetáculo e a fantasia.
Diante de tal obra “faraônica” arquitetada por essa igreja brasileira, além do fato nada impressionante de uma rede de rádio e outra de televisão estarem planejadas para operar no coração da igreja — visto que essas redes são o coração dessa igreja — há um detalhe que chama a atenção: as pedras trazidas diretamente de Israel,
ornando a parte interior do templo, deverão ser objeto de orações, de acordo com o fundador desta denominação. O poder, o dinheiro e a glória estritamente humana fez e faz com que muitos representantes desta chamada igreja simplesmente ignorem os elementos mais caros à fé protestante, desapegada de elementos materiais e indulgências. Transformando-se em deuses do espetáculo, esses chamados pastores abandonam a causa do verdadeiro Deus. Mais: a torre de Babel, de espetáculo e confusão humanas, é hodiernamente a torre de onde emanam as frequências que trazem aos homens não o frescor da brisa suave de Deus, a exemplo do texto bíblico
5 Chamo de “representação limpa” o ambiente totalmente controlado que costuma imperar em programas de
televisão, onde literalmente todos os detalhes são minuciosamente pensados com o objetivo de prender a atenção do espectador, até mesmo os sentimentos mais espontâneos, como uma lágrima vertida.
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de 1Reis 19, mas o falso fulgor de um poder destituído do poder transcendente, contudo brilhoso e de fácil acepção. Essa nova espiritualidade, rasa, falsa, resumida e grandemente emocional6 (em detrimento ao racional, muitas vezes demonizado)
não tem a ver com a religião de Cristo — ou ao menos a proposta de Cristo à luz do protestantismo clássico — mas diz respeito a outra, que nasce nesse imbróglio7 de
sentimentos difusos: a religião midiática8. Essa nova religião, proposta e dinamizada
somente a partir da moderna cultura de massa, exclui o transcendente recebido de forma gratuita pela acepção da fé, substituindo essa serena entrada por aquela adquiria mediante um ticket pago que dá direito a uma sessão inteira de esquecimento cotidiano, sem que isso proporcione uma reflexão existencial. Ainda de acordo com Armstrong (2009, p. 477), “a melhor espiritualidade pré-moderna — de João da Cruz, Isaac Luria, Mulla Sadra, por exemplo, evitava esse excesso emocional, explicando que não tem nada a ver com religião; a viagem interior, diziam, é serena, disciplinada, complementada pela razão”.
Em um ambiente midiático e, portanto, pleno de artificialidade, não parece ser pos-sível a busca serena e disciplinada da religião de Cristo. Assim sendo, a íntima meditação e oração que busca interceder por outros, sempre mediante a pessoa do Espírito Santo, parece ser inexistente. Ainda mais: a noção de pecado e a eterna luta contra o próprio eu, em uma série interminável de prescrições parciais e vigorosas negações, tão “onipresente” nas igrejas protestantes, deixa de existir nessas religiões midiáticas. Afinal, os próprios citados deuses engravatados têm o poder de extirpá-los do corpo moribundo de qualquer um, desde, é claro, uma pequenina contribuição para a sua própria exaltação, a “glória desse deus” que prudentemente será utilizada para aumentar ainda mais sua própria torre de Babel artificial. Ainda pior que isso é o conceito amplificado por essas igrejas de o próprio pecado não ser pecado humano, executado pelo homem, mas sim uma possessão corporal por parte do próprio demônio, fazendo do ser humano uma lívida marionete.
Diante de tamanhas disparidades com relação ao cristianismo tradicional, descrita em tão poucas linhas, a religião midiática predominantemente neopentecostal não deve
6 Abordando precisamente essa problemática, recomendo Martino (2003, p. 140): “O consumo dos produtos
culturais religiosos atende com folga aos pré-requisitos da cultura de massa, já que busca a homogeneidade da informação com grandes tiragens de seus informativos, livros e um maior alcance das emissoras de rádio e TV das igrejas. Os conceitos básicos são simples, não necessitam de grande relativização por parte do fiel, já que a doutrina já vem simplificada, ou seja, pré-interpretada por teólogos que simplificam os textos bíblicos para que possam ser compreendidos até por crianças.”
7 É extremamente curioso que o Dicionário Eletrônico Houaiss da língua portuguesa, versão 3.0, ao comentar o
termo “imbróglio”, secundariamente, traga a definição: “enredo confuso e intrincado de uma peça de teatro”. Não seria demais aludir às representações teatrais para falar dessas igrejas midiáticas.
8 Por mais paradoxal que seja, essas igrejas negam constantemente o racionalismo, mas se utilizam de uma
estru-tura gerencial e tecnológica impossível sequer de ser pensada sem todo o arcabouço de conhecimentos técnicos adquiridos ao longe de décadas, necessários para a transmissão dessa mensagem fundamentalista. Para resolver essa questão, utiliza-se da magia, ao proferir palavras mágicas que “convertem” a televisão de máquina do diabo a transmissora da palavra de salvação, ainda que a Palavra seja eclipsada pelos próprias ferramentas mercadológicas específicas dessa mesma televisão.
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ser chamada de cristã, mas pós-cristã, na mesma insipiente balada do mundo líquido,
soli-tário e irreflexivo da pós-modernidade.9 Como bem observou Dreher (2005, p.78),
Trata-se de igrejas de necessidade, de mercado, igrejas-supermercado. O indivíduo só de nossos dias tem necessidades religiosas, emocionais e sociais, para as quais, muitas vezes, necessita de resposta imediata. Não pode esperar pela reunião do grupo de oração ou de estudo bíblico, pois não lhe interessam mais formas de comunitariedade. É por isso que surgem igrejas com espaços, templos, abertos durante todo o dia nos quais se tem a oportunidade de expressar todo o tipo de emoções nas orações, cantos e gestos. Como “pecado” é experiência da qual só sabem pessoas que vivem em comunidade de fé, nessas religiões pós-cristãs deixa de existir pecado.
considerações finais
À guisa de conclusão, é possível identificar neste pequeno esboço indicativo ao estudo do tema, que muitas religiões brasileiras, quando não identificadas e vinculadas às conhecidas e tradicionais denominações cristãs católicas e protestantes, por vezes divergem diametral-mente das propostas cristãs tradicionais destas. Com isso, cria-se entre essas próprias igrejas divergentes uma pretensa união de forças só possível a partir da pujança e prestígio que a mídia goza no país. O fato, identificado nos Estados Unidos pelo menos desde os anos 50 do século passado, ou seja, desde a popularização dos aparelhos de televisão na América do Norte, já é comum no Brasil. Mais do que isso: é a partir da própria televisão e de tudo o que lhe é próprio que essas igrejas acabam por se inserir em espaços antes nunca imaginados. Essa expressiva força popular imbui muitos desses pastores de tal poder que os mesmos se tornam muito mais do que sacerdotes, mas deuses propiciados pela mesma ciência e tecnologia que combatem fortemente em seus sermões. Com essa perversão popular das perspectivas de uma es-pera pela ação do Divino, visto que esses deuses terrestres são os intermediadores diretos que ope-ram milagres e proporcionam curas, essas igrejas midiáticas criam em uma sociedade pós-moderna uma espécie de igreja pós-cristã. Nesse novo tipo de igreja há, como na sociedade, a relativização de muitos textos sagrados, uma notável ausência de dogmas ou crenças fundamentais e um egocen-trismo descabido, além de, em primeiro plano, uma busca eminentemente material em detrimento à busca pelos frutos do Espírito, mediante o exemplo e imitação de Cristo.
Portanto, as bênçãos e os favores não descem do Céu à Terra e nem mesmo a “teologia” (utilizando o termo de forma descabida) é feita a partir da Terra ou a partir do pobre, mas se dá utilizando os mesmos argumentos do mercado consumidor capitalista e tão problemático ao cristão escrupuloso. Dessa forma, a voz profética oriunda das igrejas cristãs simplesmente não pode ser ouvida nessas denominações, porque efetivamente não são igrejas, mas mercados de simonia — e,
9 De acordo com Bianconi (2008, p. 9-20), “as consequências para as religiões se expressam no enfraquecimento
dos compromissos religiosos tradicionais e na emergência de outro tipo de religiosidade, coerente com a fluidez e transformações perpétuas do mundo globalizado pós-moderno”.
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na verdade, falsa simonia (pela própria natureza em si da religião midiática), envernizada pela mídia, que, embebendo esses cultos digitais de luzes e sons, não propicia à grande massa sedenta da Pala-vra o verdadeiro conforto e libertação. Enquanto o meio privilegiado de educação e cultura no país ainda for a televisão, principalmente aquela voltada desde cedo ao público infantil com todos os seus sabidos malefícios, matando diariamente a capacidade de reflexão e diálogo ao reduzir tudo ao mínimo e com o máximo de cores, essas igrejas terão vida longa, próspera e rica.
referências
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BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
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DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2002. DREHER, M. História do povo luterano. São Leopoldo: Sinodal, 2005.
FEUERBACH, L. The essence of Christianity. Nova Iorque: Calvin Blanchard, 1855. LIPOVETSKY, G; SÉBASTIEN, C. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004. MARTINO, L. S. Mídia e poder simbólico: um ensaio sobre comunicação e campo religioso. São Paulo: Paulus, 2003.
MEIBACH, C. Igreja Universal construirá réplica do Templo de Salomão com pedras trazidas de Israel. Agência Brasileira de Notícias, 2010. Disponível em: http://bit.ly/aIuX63. Acesso em: 26 jun. 2010 ROSÁRIO. N. M. Do talk show ao televisivo: mais espetáculo, menos informação. Em Questão, Porto Alegre, v. 14, n. 2, p. 149-162, jul./dez. 2008.
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