Policarpo Camilo Silvestre Matiquite
PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA DE MOÇAMBIQUE
Tese de doutorado apresentada à Banca Examinadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Ciência da Informação, área de concentração Gestão da Informação, linha de pesquisa Organização, Representação e Mediação da Informação e do Conhecimento, sob a orientação da Professora Doutora Rosângela Schwarz Rodrigues.
Florianópolis – SC 2018
RESUMO
Esta pesquisa analisa a produção científica dos pesquisadores moçambicanos publicada na Web of Science e no Google Scholar. O objetivo geral do estudo é analisar a produção cientifica de pesquisadores vinculados a instituições sediadas em Moçambique. Os objetivos específicos são: a) identificar os pesquisadores moçambicanos e suas instituições de filiação; b) descrever os periódicos indexados na WoS em que publicam; c) apontar outras publicações de pesquisadores moçambicanos por meio da plataforma de busca Google Scholar. É uma pesquisa exploratória e descritiva. O corpus é composto pelas publicações dos autores identificados na WoS e no Google Scholar. O total de 1536 artigos recuperados na Web of Science com pelo menos um autor moçambicano identificou 896 autores vinculados a instituições no país. Os trabalhos recuperados na WoS mostram que os autores estão vinculados a 102 instituições no país, sendo a maior concentração em instituições públicas de saúde com 286 pesquisadores com 553 artigos e as instituições públicas de ensino com 273 pesquisadores com 461 artigos. As áreas do conhecimento que mais se destacam são saúde e agricultura. Os periódicos com maior número de publicações são Plos one e Malaria Journal, sendo que 44.32% do total de artigos estão em periódicos indexados nas editoras universitárias e na editora Elsevier/Pergamon e relacionados, e são publicados nos Estados Unidos e na Inglaterra. A partir dos mesmos autores, foi realizada uma busca no Google Scholar que recuperou 423 documentos dos quais 199 são artigos e o restante está distribuídos entre 108 teses, 72 seminários, 32 relatórios, 17 livros e 4 capítulos de livros. Os trabalhos identificados no Google Scholar são publicados em 72 periódicos de 14 países e os eventos foram realizados em 9 países. As teses foram defendidas no Brasil, com 57 títulos, em Portugal e em Moçambique com 22 cada, e as outras distribuídas entre Estados Unidos com 3, Itália 2, e Holanda e Suecia com 1 tese cada um. Conclui-se que a pesquisa moçambicana é majoritariamente publicada por periódicos de países centrais, o que dificulta o acesso às publicações, pois a pesquisa moçambicana publicada na Web of Science é, sobretudo, acessada por meio de subscrição. A pesquisa moçambicana é publicada com predominância em língua inglesa por pesquisadores de instituições nacionais e estrangeiras. Também concluiu que os pesquisadores moçambicanos publicam com pesquisadores estrangeiros sendo que as organizações não governamentais e agências de cooperação internacional participam e têm muita influência na comunicação científica moçambicana. A publicação
científica moçambicana identificada no Google Scholar apresenta-se sob a forma artigos publicados em periódicos com destaque para periódicos brasileiros, mas apresenta-se também, em forma de anais de seminários, livros e relatórios de pesquisa, e, de teses defendidas em várias universidades, também com maior destaque para universidades brasileiras.
Palavras-chave: Comunicação científica. Produção científica. Periódicos. Artigos científicos. Instituições de pesquisa. Moçambique.
ABSTRACT
This research analyses the scientific production of Mozambicans researchers published in the database Web of Science and the search engine Google Scholar. The overall objective of this study is to analyse the scientific production of involved researchers in institutions established in Mozambique. The specific objectives are: a) to identify Mozambican researchers and their institutions of filiation; b) to describe journals that are indexed in the Web of Science where they publish; c) to point other publications of Mozambican researchers by means of the platform of search Google Scholar. It is exploratory and descriptive research. Research corpus is composed by publications of the identified authors in the Web of Science and the Google Scholar. From the total of 1536 articles recovered in the Web of Science with at least one Mozambican author, where identified 896 authors affiliated in institutions based in the country. The works recovered in the Web of Science show that the authors are affiliated in 102 institutions in the country, the large concentration of publications and researchers are in public health institutions, with 286 researchers with 553 articles and the public institutions of education with 273 researchers with 461 articles. Looking of areas of the knowledge the more distinguished are health and agriculture. The journals with high number of publications are Plos One and Malaria Journal, in terms of publishers 44, 32% of the article total are indexed in the university press and the Elsevier/Pergamum and are published in the United States and England. From the same authors recovered in Web of Science, was carried a search in the Google Scholar through that retrieved 423 documents from which 199 are articles, and the remained are distributed between 108 thesis, 72 book seminaries, 32 reports, 17 books and 4 book chapters. The articles identified in the Google Scholar are published in 72 journals published in 14 countries and the proceedings had been carried through in 9 countries. The thesis had been defended 57 titles in Brazil, 22 titles in Portugal and Mozambique each, and 3 in the United States, 2 in Italy, and Holland and Sweden with 1 thesis each one. It concluded that, Mozambican research is mainly published by journals of central countries it makes it hard the access to those publications, therefore the Mozambican
research published in the Web of Science are, most had its access by subscription. Mozambican research is published with predominance in English language by researchers of national and foreign institutions. Also it’s concluded that the Mozambican researchers always publish with foreign researchers and non-governmental organizations and international cooperation agencies participate and have much influence in the Mozambican scientific communication. The Mozambican scientific publication identified in the search on Google Scholar comes under forms of scientific articles published in journals with predominance to that published in Brazil, as well as, under form of seminaries, books and reports of research, and, of thesis defended in some universities, with high prominence for Brazilian universities.
Keywords: Scientific communication. Scientific production. Journals. Scientific articles. Institutions of research. Mozambique.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Ciclo de comunicação científica ... 34 Figura 2 - Estratégia de busca na base de dados Web of Science ... 62 Figura 3 - Identificação do endereço e instituição
dos autores moçambicanos ou filiados em instituições operando em Moçambique com pelo menos um artigo publicado e
indexado na WoS ... 63 Figura 4 - Dados na versão da Web of Science ... 64 Figura 5 - Dados anteriores à conversão para o Excel ... 64 Figura 6 - Conversão de dados dos formatos .doc e .txt
para o software Excel ... 65 Figura 7 - Planilha Excel com dados para identificação de
instituição moçambicanas ou operando no país e seus respetivos pesquisadores com artigos publicados e indexados
na WoS ... 66 Figura 8 - Identificação de custos de processamento de artigos
dos periódicos de acesso aberto indexados na WoS com pelo
menos um autor moçambicano ... 67 Figura 9 - Tela captura de publicações de um pesquisador
no Google Scholar ... 68 Figura 10 - Exemplos de tipos de acesso de periódicos no
modelo de busca da WoS- 2000 a 2015 ... 89 Figura 11 – Taxa em USD de processamento de artigos de
Editoras de periódicos em acesso aberto recuperados na
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Princípios da ciência segundo Merton ... 28 Quadro 2 - Perspectiva da ciência para Kuhn ... 29 Quadro 3-Estudos sobre comunicação científica na África e
em Moçambique ... 54 Quadro 4- Indicadores e métodos utilizados no alcance dos
LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Número de pesquisadores e artigos de moçambicanos agrupados por instituições operando em
Moçambique recuperados no WoS e publicados entre 2000 a 2015 .... 74 Tabela 2 –Número de pesquisadores com pelomenos um
artigo indexado no WoS operando no Ministério da
Saúde e Instituições subordinadas e publicados entre 2000 a 2015 ... 76 Tabela 3 – Número de pesquisadores e artigos de instituições de ensino superior em Moçambique com pelo menos um artigo
indexado na WoS e publicados entre 2000 a 2015 ... 78 Tabela 4 - Número de pesquisadores com pelo menos um
artigo indexado na WoS de Organizações Não
Governamentais internacionais operando em Moçambique na
saúde publicados entre 2000 a 2015 ... 79 Tabela 5 - Número de Pesquisadores com pelo menos um
artigo indexado noa WoS de Ministérios e instituições públicas
em Moçambique e publicados entre 2000 a 2015 ... 80 Tabela 6 - Número de Pesquisadores com pelo menos um
artigo indexado noa WoS de Ministérios e instituições privadas em Moçambique e publicados entre 2000 a 2015 ... 81 Tabela 7 - Número de Pesquisadores com pelo menos um
artigo indexado noa WoS de outras Organizações Não Governamentais Nacionais e Internacionais em
Moçambique e publicados entre 2000 a 2015 ... 82 Tabela 8 - Número de Pesquisadores com pelo
menos um artigo indexado no WoS de organizações das nações unidas e agências de cooperação atuando em Moçambique
e publicados entre 2000 a 2015 ... 84 Tabela 9 – Número de periódicos e artigos de
pesquisadores por país da editora de publicação com pelo menos um autor Moçambicano indexado na WoS e publicado entre
2000 a 2015 ... 86 Tabela 10 - Número de periódicos e artigos de pesquisadores
por áreas de conhecimento de publicação com pelo menos um autor Moçambicano indexado na WoS e publicado entre 2000 a 2015 ... 88 Tabela 11 - Local de publicação de periódicos e artigos com pelo menos um autor moçambicano indexado na WoS agrupados
Tabela 12 - Número de periódicos e artigos com pelo menos um autor Moçambicano indexado na WoS agrupados por area de conhecimento de periódicos e por tipo de acesso,
publicado entre 2000 a 2015 ... 93 Tabela 13 - Periódicos em ordem crescente que publicam
maior número de artigos artigos de pesquisadores
Moçambicanos indexados na WoS e publicados entre 2000 a 2015 ... 95 Tabela 14 Número de periódicos e artigos distribuídos
por editoras que mais publicam pesquisa moçambicana no
período de 2000 a 2015 recuperado na WoS ... 99 Tabela 15. Número de publicações de
pesquisadores moçambicanos entre 2000-2015 recuperados no Google Scholar agrupados por país onde foram publicados e por áreas de conhecimento ... 107 Tabela 16 – Número de publicações de
pesquisadores moçambicanos de 2000 a 2015 recuperados no Google Scholar agrupados por país onde foram publicados e
por tipo de documento ... 108 Tabela 18- Local de publicação de periódicos e
artigos de pesquisadores moçambicanos de 2000 a 2015
recuperados no Google Scholar ... 111 Tabela 19 - Número de publicações de pesquisadores
moçambicanos de 2000 a 2015 recuperados no Google
Scholar agrupados tipos de publicações e por área de conhecimento .. 112 Tabela 21 – Número de publicações em seminários por
pesquisadores moçambicanos de 2000 a 2015 recuperados no Google Scholar agrupados por país onde foram publicados e por áreas de conhecimento ... 115
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
AOSTI Áfrican Observatory Of Science, Technology And Innovation
APC Article Processing Charge
BRICS Bloco econômico composto por Brasil, Rússia, Ìndia e China.
CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
CCN Catálogo Coletivo Nacional De Publicações Seriadas CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico
CISM Centro de Investigação em Saúde da Manhiça
C&T Ciência e Tecnologia
DOAJ Diretory of Open Access Journal
FDC Fundação para o
Desenvolvimento da Comunidade
FMI Fundo Monetário Internacional
FNI Fundo Nacional de Investigação
ICOR Instituto do Coração
IES Instituições de Ensino Superior
IIAM Instituto de Investigação Agronômica de Moçambique INE Instituto Nacional de Estatística
ISCTEM Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique
ISI Institute for Scientific Information
MCTESTP Ministério de Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico Profissional de Moçambique
NISCAIR Instituto Nacional de Ciências da Comunicação e Fonte de Informação
OMS Organização Mundial da Saúde
ONGs Organizações não governamentais
ONU Organização das Nações Unidas
PEDSA Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Setor Agrário
PIB Produto Interno Bruto
PLOS Public Library Science
SCI Science Citation Index
SciELO Scientific Eletronic Library Online
SSCI Social Science Citation Index
TEEAL The Essential Electronic Agricultural Library
UEM Universidade Eduardo Mondlane
UNAIDS Programa das Nações Unidas sobre HIV/AIDS
UNAN Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua
UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
USAID USAID - United States Agency for International Development
SUMÁRIO CAPÍTULO 1 ... 19 1 INTRODUÇÃO ... 19 1.1 OBJETIVOS ... 26 1.2 ORGANIZAÇÃO DA TESE ... 26 CAPÍTULO 2 ... 27 2 REVISÃO DE LITERATURA ... 27 2.1 COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA ... 27 2.2 PERIÓDICOS CIENTÍFICOS ... 37 2.3 ESTUDOS ANTERIORES ... 41 2.3.1 Estudos moçambicanos ... 52 CAPÍTULO 3 ... 57 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 57 3.1 CARACTERIZAÇÃO DO ESTUDO ... 57 3.2 ETAPAS DA PESQUISA ... 61 3.3 TRATAMENTO DE DADOS ... 64 CAPÍTULO 4 ... 71 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO ... 71
4.1 VÍNCULO INSTITUCIONAL DOS PESQUISADORES ... 73
4.2 CARACTERIZAÇÃO DOS PERIÓDICOS INDEXADOS NA WEB OF SCIENCE QUE PUBLICAM PESQUISAS MOÇAMBICANAS ... 85
4.3 PUBLICAÇÕES MOÇAMBICANAS REGISTRADAS NO GOOGLE SCHOLAR ... 105
CAPÍTULO 5 ... 119
5 CONCLUSÕES ... 119
REFERÊNCIAS ... 121
APÊNDICE A - RELAÇÃO DE AUTORES E INSTITUIÇÃO DE FILIAÇÃO MOÇAMBICANA OU OPERANDO EM
MOÇAMBIQUE... 133 APÊNDICE B – RELAÇÃO DE PERIÓDICOS E LOCAIS DE PUBLICAÇÃO ... 171 APÊNDICE C - PESQUISA NO GOOGLE SCHOLAR ... 211
CAPÍTULO 1
1 INTRODUÇÃO
Têm sido recorrentes na Ciência da Informação os estudos sobre a comunicação científica. Mesmo com objetivos variados, esses estudos apontam para a mesma finalidade, que é proporcionar subsídios históricos e conceituais de pesquisa científica e trazer novas contribuições sobre as políticas de informação e a importância de memórias documentais e sua preservação para a difusão da ciência e da pesquisa (FERNANDES, 2011).
Esta pesquisa analisa a produção e publicação do conhecimento científico de Moçambique. A produção científica pode ser estudada via capital científico, que pressupõe o acúmulo de conhecimento produzido cientificamente em determinado lugar, por instituições e pesquisadores desse lugar, sendo usado para apoiar as decisões políticas, sociais, econômicas etc., e que pode ser medido a partir das publicações (BOURDIEU, 1983).
De acordo com Burke (2003), o registro do conhecimento científico ganhou celeridade com o surgimento da prensa de Gutenberg, que permitiu maior agilidade no processo de armazenamento de informação. De Gutenberg aos dias de hoje transformações ocorreram, a tal ponto que o registro de conhecimento pode ser feito em instrumentos eletrônicos e o acesso a fontes de conhecimento é viabilizado prioritariamente com a aplicação e uso de tecnologias de informação e comunicação (LOR, 2007).
Nesta pesquisa são analisadas a produção e a publicação científica de pesquisadores moçambicanos, restringindo-se àqueles que publicaram em periódicos indexados na Web of Science (WoS). Essa restrição tem seus fundamentos na observação de Targino (2000, p. 11):
[...] as comunidades científicas não são formalmente organizadas, rescindindo de regras escritas, regulamentos e normas que ditem seu funcionamento. O pesquisador repassa à sua comunidade as informações que detém e os conhecimentos recém-gerados. Recebe em troca sua confirmação como cientista. (TARGINO, 2000, p. 11).
Targino (2000) descreve ainda a ciência como um fenômeno de interação que envolve vários atores, e ressalta que o homem como indivíduo ou como parte de uma sociedade é quem intervém na ciência de várias formas, respondendo assim aos problemas e anseios da comunidade em que está inserido.
Estudar a comunicação científica pressupõe a realização de análises que levem à reflexão e à compreensão acerca dos processos de registro de novas descobertas e resultados de estudos científicos no país, e isso é relevante contribuição para a institucionalização da ciência desenvolvida em Moçambique.
A pesquisa científica ocorre como forma de satisfazer o desejo humano de esclarecer fenômenos e fatos (VOLPATO, 2008). Desse modo, a investigação em produção e comunicação visa identificar as formas pelas quais os pesquisadores se comunicam em Moçambique. A necessidade de medir e quantificar a ciência provém de uma ânsia que sempre acompanhou os pesquisadores (SANTOS, 2003).
De acordo com Burke (2003), comunicação científica implica, dentre outras atividades, conhecer instituições de pesquisas científicas, sejam elas universidades, centros de pesquisa, institutos, escolas superiores e centros educacionais, etc. Desse modo, mapear instituições de ensino superior é fundamental para estudar a produção científica de um país, pois permite verificar a contribuição institucional da pesquisa científica e mapear a sua comunicação.
Desse ponto, passamos naturalmente a investigar o lugar da ciência na sociedade em geral tentando esclarecer questões práticas: [...], a organização das instituições. Sem dúvida, é de grande valor entender como a ciência é feita e pesar o papel social do cientista e de suas instituições. (ZIMAN, 1996, p. 14).
Os estudos sobre a produção científica ajudam a mensurar o desenvolvimento científico, e permitem perceber o comportamento e atuação dos pesquisadores. Estudar a produção e comunicação científica pode ajudar os pesquisadores a avaliarem a sua produção científica e subsidiar os gestores e outros intervenientes no planejamento da mesma. Moçambique é um país em vias de desenvolvimento e classificado como sendo periférico. Países periféricos são países que, de acordo com a Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC) e a Organização das Nações Unidas (ONU), apresentam os mais baixos indicadores de desenvolvimento socioeconômico e humano, entre todos
os outros países do mundo. Os países classificados como periféricos caracterizam-se ainda por possuir baixa renda, capital humano de menor qualificação técnica e científica e vulnerabilidade econômica (FUNDAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE; ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2013).
Moçambique é um país da África subsaariana que está localizado na parte sul do continente e cobre uma área de 799,380 km², com uma população de 26.423.623 habitantes (INSTITUTO
NACIONAL DE ESTATÍSTICA, 2016). Administrativamente,
Moçambique possui 11 províncias. Imediatamente após a independência da colonização portuguesa em 1975, viveu uma guerra civil que durou cerca de 16 anos e o seu desenvolvimento científico também foi afetado. Segundo o Instituto Nacional de Estatística de Moçambique (INE), o setor de mineração conheceu maior crescimento no país desde 2005. Este setor contribui com aproximadamente 33% do Produto Interno Bruto (PIB) de Moçambique. Ainda segundo o INE, a agricultura emprega cerca de 70% da população rural é a fonte de rendimento de 80% da população ativa do País (MOÇAMBIQUE, 2010). A agricultura participa com 30% e os outros 37% se distribuem entre o turismo, pesca e comércio (INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICAS, 2016). Moçambique está listado entre os países mais pobres do mundo (INFOPLEASE, 2007), sendo a 124ª economia mundial (BANCO MUNDIAL, 2015).
Moçambique têm problemas de infraestrutura, baixa conexão à Internet (sendo apenas 4,3% da população com acesso à Internet), exíguos instrumentos de apoio à pesquisa, bibliotecas e laboratórios (LOR, 2007; SMART; MURRAY, 2014). E, como indica Lor (2007), a falta de infraestruturas tecnológicas e científicas em países Africanos em vias de desenvolvimento é a causa de retrocesso na pesquisa científica, por isso, é notório nestes países a baixa produção científica. Lor (2007) prossegue especificando que o baixo investimento em ciência é associado à falta de capacidade para repor a maquinaria obsoleta em termos de hardware, assim como a falta de políticas claras para pesquisas científicas. Esses são entraves fortes para o desenvolvimento da produção e da comunicação científica na maior parte dos países Africanos em vias de desenvolvimento.
Autores como Meadows (1999) e Santos (2003) consideram a atividade intelectual e o desenvolvimento de pesquisa científica como ações fundamentais estritamente ligadas à promoção e ao estímulo do desenvolvimento econômico de países.
De acordo com Targino (2000), em algumas comunidades ou países a pesquisa científica é profissionalizada, de modo que a publicação de um artigo científico dá mérito ao pesquisador e lhe permite bonificações ou remunerações. Deste modo, a pesquisa científica e o desenvolvimento econômico são mutuamente dependentes. Estudos revistos ao longo desta pesquisa afirmam que o desenvolvimento de ciência e tecnologia é fundamental para estimular o crescimento econômico. Como aponta Targino (2000, p. 3):
[...] são unânimes em afirmar que há íntima relação entre crescimento científico e crescimento econômico das nações, dentro da premissa irrefutável de que quem mais produz em C&T é quem mais avança no processo desenvolvimentista global. Logo, deduz-se que as atividades de pesquisa vivem seu apogeu. No início, mais especulativa, a ciência não tinha por vocação servir a algum progresso técnico. (TARGINO, 2000, p. 3).
Estudar a produção científica e sua comunicação pode ajudar no desenvolvimento econômico e social de países, como aponta Santos (2003, p. 24):
Para avaliar as potencialidades da base científica e tecnológica dos países, monitorar as oportunidades em diferentes áreas e identificar atividades e projetos mais promissores para o futuro, auxiliando as decisões estratégicas dos gestores da política científica e tecnológica, faz-se necessário à formulação, o desenvolvimento e a implementação de sistemas de informação científica e técnica para produzir indicadores, métodos e ferramentas. (SANTOS, 2003, p. 24).
A realização deste estudo se justifica pelo fato de que, de acordo com Guédon (2010), a ciência em países periféricos tem pouca visibilidade, porque estes países são tecnicamente dependentes e há poucas fontes para a divulgação da comunicação científica. Além disso, Massarani e Lima (2012) apresentam a realidade moçambicana no contexto de pesquisa científica como um país periférico que carece de mais investimentos em recursos de modo a atuar melhor na realização e comunicação de pesquisas.
Também somos um país de periferia num mundo em que as grandes decisões são feitas por um grupo pequeno de países, mas com impacto que é sentido por todos nós. Moçambique tem que continuar a investir seriamente em ciência e tecnologia, em particular nos recursos humanos do país, nos programas de pesquisa nas universidades, nos institutos que tem (MASSARANI; LIMA, 2012, p. 535).
Este estudo é relevante, uma vez que a análise da produção e comunicação científica moçambicana traz mais-valia para a construção da vida econômica, ajuda na avaliação de desempenho da pesquisa científica e, consequentemente, disponibiliza mais atenção e recursos à produção e comunicação científica (MASSARANI; LIMA, 2012).
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), ao lançar a agenda 2030, enfatizou que a inovação em ciência e tecnologia deve ser considerada vital para o desenvolvimento sustentável e recomenda aos governos, estados e nações que adotem a iniciativa de considerar a ciência como elemento central de estratégias nacionais para o seu crescimento sustentável, pois é na ciência que se busca o reforço à capacidade de investimento e de resolução de problemas e resposta aos desafios impostos. E acrescentou que investir na ciência pode trazer benefícios futuros (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA, 2015).
O INE aponta que o número de graduados nas universidades públicas e privadas tem aumentado consideravelmente a cada ano e novos cursos de pós-graduação são criados em todas as universidades, mesmo nas recém-criadas, expandindo desse modo o número de mestres e doutores no país (INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA DE MOÇAMBIQUE, 2016). Estas afirmações coincidem com as constatações de Targino (2000, p. 4) de que,
[...] enquanto a população dobra a cada meio século, o número de cientistas duplica a cada 10 anos, e, por conseguinte, incrementa-se a comunicação científica. São fatores distintos. [...]. Outro elemento é o número crescente de doutores, considerados pesquisadores em potencial. O total de doutores do início dos anos 60 duplicou ao final da mesma década (TARGINO, 2000, p. 4).
Lor (2007), Smart e Murray (2014) e Guédon (2010) classificam a ciência nos países subdesenvolvidos como resultante de imitações de modelos ocidentais. A publicação científica em países Africanos é também influenciada por questões culturais, envolvendo hábitos e costumes de pesquisadores Africanos, que de algum modo se dedicam mais a conferências e seminários do que a publicações escritas em artigos ou livros, como apontam Smart e Murray (2014, p. 408) quando relacionam a população Africana com as suas publicações em nível mundial.
A África possui cerca de 15% da população mundial, mas apenas contribui na publicação mundial com apenas 2% de livros. Parte da razão para isso é que existe uma maior tradição oral do que literária no continente e o grau de instrução na maior parte dos países Africanos é baixo.1 (SMART; MURRAY, 2014, p. 408, tradução nossa).
Ainda de acordo com Smart e Murray (2014), existe preconceito por parte dos editores de periódicos e indexadores em relação a artigos publicados por pesquisadores Africanos. “O número de trabalhos de pesquisa publicados pela África é geralmente subestimado, devido à sua exclusão histórica dos índices originados em países desenvolvidos geralmente usados para determinar o número de publicações.”2
(SMART; MURRAY, 2014, p. 426, tradução nossa). Prosseguem Smart e Murray (2014, p. 406):
Salvo algumas exceções bem-sucedidas, o estado geral de investigação e infraestruturas de investigação na África é pobre, como o é a correspondente infraestrutura de comunicação dos resultados de pesquisa. Apesar do fato de a publicação de pesquisa ser um elemento vital utilizado por universidades Africanas para avaliar
1
“África has around 15 per cent of the world’s population, it only produces
around 2 per cent of the world’s books. Part of the reason for this is that there is a greater oral tradition than literary tradition within the continent and literacy in most Áfrican countries is low.” (SMART; MURRAY, 2014, p. 408).
2
“The number of research papers published from África is usually
underestimated, due to historical exclusion from the indexes of developed country origin that are usually used to determine the number.” (SMART;
suas equipes académicas com vistas à promoção, e de ser reconhecida como uma ferramenta de avaliação universal das próprias instituições, a maioria dos sistemas de apoio à publicação de pesquisas são fracos, e administradores universitários têm mostrado uma falta de comprometimento e valorização em relação à produção de periódicos.3 (SMART; MURRAY, 2014, p. 406, tradução nossa). Considerando que o estudo é direcionado a um país, ele pode indicar a institucionalização da ciência em Moçambique. O exercício de pesquisa científica só existe quando resultado é aprovado e comunicado aos pares e à sociedade, de modo que seus resultados sejam aplicados para o bem comum e utilidade social. King e Tenopir (2011, p. 300, tradução nossa), “[...] mostram que o fluxo de resultados da pesquisa se completa com a comunicação escrita ou oral da mesma sobre o tempo que marca o início da pesquisa até a publicação em livro e subsequente citação [...]”.4
Ocholla e Onyancha (2006) em estudo sobre a pesquisa em Ciências Agrárias na África, recuperou 2.368 artigos, dos quais apenas 3 artigos são escritos em língua portuguesa, mas nenhum é de pesquisadores moçambicanos e tão pouco sobre pesquisa de Moçambique. Situação similar é apontada também por Smart e Murray (2014) e Áfrican Observatory Of Science, Technology And Innovation (AOSTI) (2013). Dois autores moçambicanos, Zimba (2008, 2010) e Gemo (2011), compartilham evidências de que há carências de estudos sobre a publicação moçambicana.
Dada à relevância do tema, surge a seguinte pergunta de pesquisa: Como os pesquisadores moçambicanos publicam suas pesquisas?
3
“With some successful exceptions, the general state of research and research
infrastructure in África is poor, as is the corresponding infrastructure to communicate the outcomes of the research. Despite the fact that publishing research is a vital element used by Áfrican universities to evaluate their academic staff for promotion and recognized as being a universal assessment tool of the institutions themselves, most Áfrican universities’ systems to support research publishing have been and are weak, and university administrators have shown a lack of commitment to and appreciation of journal production.”
(SMART; MURRAY, 2014, p. 406). 4
“[…] show the flow of research findings through oral and written
communication over time starting with research initiated up to book publication and subsequent citation […]”. (KING; TENOPIR, 2011, p. 300).
1.1 OBJETIVOS
O objetivo geral do estudo é analisar a produção cientifica de pesquisadores vinculados à instituições sediadas em Moçambique.
Para auxiliar no alcance do objetivo geral são propostos os seguintes objetivos específicos:
a) Descrever o vínculo institucional dos pesquisadores moçambicanos que publicaram artigos na WoS nos anos de 2000 a 2015;
b) Caracterizar os periódicos nos quais os pesquisadores publicaram;
c) Identificar publicações de pesquisadores moçambicanos em outros canais por meio da plataforma Google Scholar.
1.2 ORGANIZAÇÃO DA TESE
Esta tese está estruturada em cinco seções: na primeira é apresentada a introdução, que descreve o projeto de pesquisa, a definição do problema e a justificativa; na segunda seção é apresentada a revisão de literatura, que revê os estudos existentes sobre a temática, com revisão de literatura conceitual, possibilitando obter uma visão crítica e comparando outras realidades em países em desenvolvimento; na terceira seção são apresentados os procedimentos metodológicos, com a descrição das técnicas usadas para o desenvolvimento da pesquisa, e a metodologia a ser adotada para o desenvolvimento do estudo; na quarta seção são apresentados os resultados dos dados coletados por meio do levantamento na base de dados WoS e os dados coletados pelo Google Scholar; e, na quinta seção discorre-se sobre as considerações finais do estudo. São apresentados ainda, as referências e os apêndices.
CAPÍTULO 2
2 REVISÃO DE LITERATURA
A revisão de literatura apresenta estudos anteriores relacionados à comunicação científica, cuja pesquisa fundamenta e responde aos padrões de publicação de pesquisa e desempenho de pesquisadores em publicar seus resultados. De início, são apontadas reflexões sobre ciência e, em seguida, é apresentado um relato de trabalhos relacionados à temática da publicação em países periféricos.
2.1 COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
Nesta seção são apresentados estudos que relatam sobre o surgimento da ciência, da pesquisa científica, da comunidade científica e da relação ciência e sociedade.
Merton (1985) discute a influência da sociedade para o desenvolvimento da ciência. Ele introduz o conceito ‘ethos da ciência’ como forma de mostrar os valores da ciência para a sociedade e a influência da sociedade no desenvolvimento de valores científicos.
A relação entre pesquisador e sociedade é vista por Merton (2013) como fundamental, chegando a ditar o que deve ser pesquisado. Como exemplo, Merton (2013) aponta que na Inglaterra do século XVII fatores externos influenciaram o desenvolvimento da ciência na Sociedade Real: a vida econômica, a guerra, a medicina, as artes, a religião e a busca imparcial pela verdade. Portanto, cria-se um ciclo em que a pesquisa gira em torno da sociedade, e esta, por sua vez, dá subsídios ao pesquisador para que possa conduzir sua pesquisa. Por isso, as instituições, as regras sociais e a conduta do pesquisador provêm do que Merton (2013) denomina de ethos científico, e são fundamentais para a comunidade científica.
Merton (1985) aborda aspectos para o desenvolvimento da ciência e indica que os pesquisadores devem estar dotados de comportamento científico, que é subentendido como um conjunto de princípios e regras de conduta nas comunidades científicas. O diálogo científico caracterizado pela troca de informação entre os membros dessa comunidade e a disseminação de resultados na comunidade científica e na sociedade constitui um valor cultural próprio de todos os
grupos de cientistas. Merton (1989) aponta quatro princípios pelos quais a ciência deve optar para que seja reconhecida na sociedade, a saber: o universalismo, o comunalismo, a imparcialidade, o desinteresse e o ceticismo. O Quadro 1 resume esses quatro princípios na perspectiva Mertoniana.
Quadro 1 - Princípios da ciência segundo Merton
Princípios da
ciência Significado
Universalismo Os trabalhos científicos devem possuir padrões universais de avaliação
Comunalismo
O conhecimento resultado do trabalho científico é um patrimônio comum da humanidade, e não propriedade privada de algum indivíduo.
Desinteresse O único objetivo em curto prazo do trabalho científico é a ampliação do conhecimento dos seres humanos.
Ceticismo O cientista deve ser privado de qualquer forma de preconceito e de conclusões precipitadas sobre trabalhos. Fonte: Adaptado de Merton (1985, p. 35).
Popper (1972) conceitua ciência como um processo de formular enunciados verificáveis, em que há determinada lógica para orientar os métodos empregados na pesquisa científica. Esta lógica é denominada ‘lógica da pesquisa científica’ e se baseia na análise lógica dos métodos das ciências empiristas. Para Popper (1972), a lógica da pesquisa científica é subdividida em duas partes: a) introdução à lógica científica, indução e falseabilidade; e, b) componente estrutural de uma teoria da experiência. De qualquer forma, a atividade científica visa apresentar suas descobertas a serviço do cidadão e, para tanto, as descobertas passam por uma triagem até sua disseminação em instrumentos apropriados. Popper (1972) aponta que a verificação consiste em falsear os resultados de uma pesquisa de modo que o cientista possa tomar decisões sobre a mesma (hipótese verificável).
Kuhn (1991) se deu conta de que a concepção de ciência tradicional não se ajustava ao modo pelo qual a ciência real nasce e se desenvolve. Na perspectiva histórica da ciência, Kuhn (1991) a entende como uma atividade que ocorre ao longo do tempo e que em cada época histórica continua apresentando caraterísticas próprias e específicas. Uma das caraterísticas constantes na ciência é a comunicação de resultados e a interação entre pesquisadores. A base de análise da ciência na perspectiva de Kuhn (1991) consiste na tese de que o
desenvolvimento típico de uma disciplina científica ocorre de acordo com a seguinte sequência, demonstrada no Quadro 2.
Quadro 2 - Perspectiva da ciência para Kuhn Fase
pré-paradigmática Ciência
normal Crise Revolução
Nova ciência normal Nova crise Nova revolução Fonte: Adaptado de Kuhn (1991, p. 35).
Kuhn (1970) segue argumentando:
[...] Pelo contrário, o que chamávamos anteriormente de ‘quebra-cabeças’ (puzzles) que constitui a ciência normal, apenas existe porque nenhum paradigma que fornece uma base para a pesquisa científica sempre resolve todos os seus problemas. [...] excetuando aqueles que são exclusivamente instrumentais, cada problema que a ciência normal vê como um quebra-cabeça pode ser visto, sob outro ponto de vista, como uma contrariedade do que está estabelecido e, portanto, como uma fonte de crise.5 (KUHN, 1970, p. 79).
Essas diferentes fases da história da ciência apresentadas por Kuhn (1991) explicam como a ciência evolui ao longo do tempo. A fase pré-paradigmática consiste na origem dos questionamentos na ciência, isto é, na fase inicial do pensamento científico. Esta fase destaca-se pelo grau de contradição entre cientistas, no que concerne a quais fenômenos devem ser estudados, que método adotar, como explicar esses fenômenos, quais princípios teóricos considerar, como os princípios teóricos se inter-relacionam, entre outros.
Do mesmo modo, a ciência normal, de acordo com Kuhn (1991), se baseia nas conquistas resultantes de pesquisas anteriormente feitas, que ficam abertas para que a comunidade científica problematize e aponte soluções a todos os problemas resultantes. Basicamente, a
5
“On the contrary, what we previously called the puzzles that constitute normal
science exist only because no paradigm that provides a basis for scientific research ever completely resolves all its problems. [...] Excepting those that are exclusively instrumental, every problem that normal science sees as a puzzle can be seen, from another viewpoint, as a counter instance and thus as a source of crisis.” (KUHN, 1970, p. 79).
ciência normal consiste na resolução de paradigmas. Os outros níveis desta estrutura são igualmente importantes, porém estes primeiros são fundamentais para este estudo por apresentarem a lógica da pesquisa científica, as regras nas comunidades científicas e preverem a atitude do pesquisador como membro de uma comunidade com princípios paradigmáticos.
Bourdieu (1983, p. 20) parte do pressuposto de que o campo científico é “O universo no qual estão inseridos os agentes e as instituições que produzem, reproduzem ou difundem a ciência”. Bourdieu (1983) analisou as ciências sociais e mencionou que o campo científico é dependente da legislação e mostrou que, por vezes, a ciência não tem autonomia total por depender de leis sociais, políticas e de estruturas de poder. Por isso, a ciência para Bourdieu é um campo que depende das leis sociais, econômicas, políticas e culturais, que integram os membros de determinada comunidade onde a ciência é desenvolvida. Bourdieu traz conceitos relacionados com o estudo da ciência, como: campo científico, capital científico, campo social. “O campo científico é um lugar de concorrência onde se busca o monopólio da autoridade científica e o acúmulo do capital científico”. (BOURDIEU, 1976, p. 94, tradução nossa). O autor entende capital científico como o que determina a categoria do pesquisador.
O campo científico, enquanto sistema de relações objetivas entre posições adquiridas (em lutas anteriores) é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial. O que está em jogo especificamente nessa luta é o monopólio da autoridade científica definida, de maneira inseparável, como capacidade técnica e poder social; ou, se quisermos, o monopólio da competência científica, compreendida enquanto capacidade de falar e de agir legitimamente (isto é, de maneira autorizada e com autoridade), que é socialmente outorgada a um agente determinado. (BOURDIEU, 1976, p. 94, tradução nossa).
O campo científico envolve instituições científicas como universidades e institutos de pesquisas, que possuem suas equipes de pesquisadores, os quais contribuem para o desenvolvimento de capital científico demonstrado por suas publicações e respectivas citações, podendo, assim, ajudar a determinar a capacidade de pesquisa (BOURDIEU, 1976).
Ziman (1979; 1996) discorre sobre a dimensão social da ciência e destaca a necessidade de interação dos pesquisadores entre si e com a comunidade em que se encontram. Assegura que a ciência só se sustenta quando os seus resultados são comunicados para parceiros de pesquisa e para a sociedade em geral.
O princípio basilar da ciência acadêmica é que os resultados da pesquisa devem ser públicos. Qualquer coisa que os cientistas pensem ou digam como indivíduos, suas descobertas não podem ser consideradas como pertencentes ao conhecimento científico se não forem relatadas e gravadas de forma permanente. A instituição fundamental da ciência é, então, o sistema de comunicação. (ZIMAN, 1987, p. 12).
O homem utiliza a ciência para descrever o seu próprio mundo. Portanto, o registro de conhecimento sempre foi uma preocupação no âmbito das pesquisas científicas. Ziman (1979) entende que a investigação científica é uma arte que não se adquire apenas na literatura, mas também no exercício e na experiência.
[...] Seus fatos e teorias têm de passar por um crivo, por uma fase de análises críticas e de provas realizadas por outros indivíduos competentes e desinteressados os quais deverão determinar se eles são bastante convincentes para que sejam universalmente aceitos. O objetivo da ciência não é apenas adquirir informações nem enunciar postulados indiscutíveis; sua meta é alcançar um consenso de opinião racional que abranja o mais vasto campo possível (ZIMAN, 1979, p. 24). Essa interação é tida na comunicação científica como ‘a validação pelos pares’, que ocorre por meio de uma verificação imparcial para certificar os estudos de um pesquisador estão bons o suficiente para ser apresentados à comunidade científica.
Ziman (1979) destaca a pesquisa científica como atividade social, que conduz à compreensão da natureza da ciência, observando a maneira como os cientistas se comportam nas relações entre si, como se organizam e trocam informações. Todavia, Ziman (1979) reforça que o conhecimento científico deve ser de utilidade pública e compartilhado na comunidade científica e na sociedade em geral.
O elemento social da ciência é apontado tanto por Ziman (1979) quanto por Merton (2013) como o que se estabelece na interação por troca de informação científica entre pesquisadores ou cientistas, troca de experiências de pesquisa e disseminação de resultados da pesquisa.
Os autores mostram a evolução da atividade científica desde a era da formação das primeiras comunidades científicas até os tempos em que a ciência está evoluída e se beneficia desta evolução para proporcionar melhores instrumentos de pesquisas, de verificação de fatos e adoção de técnicas adequadas para estudos científicos. Apesar do campo científico diferenciado em função das áreas de conhecimento, ambientes de pesquisa e legislação vigente em cada território, como mostra Bourdieu (1983), a maior parte dos aspectos de desenvolvimento da ciência consiste na sua comunicação por meio da publicação de seus resultados em periódicos científicos.
O ser humano se comunica para se inserir na sociedade e, do mesmo modo, transmite e recebe informação de outros membros da comunidade. Por sua vez, resultados de pesquisa devem ser comunicados para serem válidos, criando assim um movimento cíclico de produção e comunicação do conhecimento. Assim também ocorre no campo de comunicação da ciência, no qual o pesquisador gera e comunica o conhecimento científico por meio de publicações de suas pesquisas em canais reconhecidos na comunidade científica em que está inserido, como fundamenta Correia (2012, p. 21):
A comunicação propicia a produção de conhecimento e, portanto, necessita de público para que seja repassada. Quando não é transmitido, o conhecimento se isola, interrompe o ciclo da produção, impede que seja acessado pela comunidade científica, ou que seja usado para a produção de novos conhecimentos. (CORREIA, 2012, p. 21).
Burke (2003) assinala que para a construção de conhecimento científico é preciso juntar importantes transformações intelectuais, e isso foi visível no período desde o Renascimento (século XIV) até a revolução científica (período entre os séculos XVI e XVIII), em que ocorreram várias mudanças que consistiam na modificação de expressões artísticas em movimentos intelectuais, e com a consolidação e aprimoramento esses movimentos se transformaram em comunidades científicas. Nesse período, as transformações intelectuais eram demonstradas pela adoção de novas formas de interpretar os fenômenos
da natureza, novas metodologias de reformulação dos estudos, uma nova lógica de examinar e avaliar a percepção do objeto de estudo.
De acordo com Drucker (2002), o conhecimento estruturado permitiu o surgimento da sociedade do conhecimento, que evoluiu para a sociedade de informação, passando para a era da informação. Essas sucessivas transformações na ciência têm utilidade quando a informação e o conhecimento gerado são organizados, armazenados, disseminados e passíveis de serem recuperados para uso em prol do desenvolvimento científico, econômico e social de comunidades.
Sabe-se que a comunidade científica gera conhecimento em Ciência e Tecnologia, mas isso não quer dizer que a mesma garanta sua transferência para o setor produtivo. [...] assim constata-se que, na verdade, a ciência deve ser considerada como um sistema social, que possui as funções de: gerar e disseminar conhecimentos, assegurar a preservação de padrões, e [...] atribuir créditos e reconhecimento para aqueles cujos trabalhos têm contribuído para o desenvolvimento das ideias em diferentes campos (CORREIA, 2012, p. 57).
Por isso, para estudar a produção e comunicação científica de um país, deve-se considerar a publicação científica gerada e identificar seus pesquisadores, comunidades científicas e áreas de atuação.
No estudo da comunicação científica é importante destacar elementos fundamentais e relacioná-los entre si, tendo em conta a comunicação da produção de ciência. A Figura 1 demonstra de forma cíclica a existência de relações que contribuem para a comunicação científica: a comunidade de pesquisadores, as tecnologias, o conhecimento gerado.
Figura 1 - Ciclo de comunicação científica
Fonte: Adaptado de Targino (2000).
De acordo com Targino (2000), comunicação é um ato natural e básico do ser humano, podendo ter caraterísticas formais ou informais de acordo com os níveis e as relações de indivíduos que se comunicam. Por isso, para haver comunicação, alguns elementos são imprescindíveis: quem comunica, o que se comunica, a quem se comunica, quais os códigos usados, etc. No tradicional esquema de comunicação, esses elementos são chamados respetivamente: emissor, mensagem, receptor, códigos e contexto (JACOBSON, 1991).
É esta ideia de circulação contida na assertiva transcrita que se denomina comunicação. Esta permite a troca de informações, donde se conclui que enquanto a informação é um produto, uma substância, uma matéria, a comunicação é um ato, um mecanismo, é o processo de intermediação que permite o intercâmbio de ideias entre os indivíduos (TARGINO, 2000, p. 10).
A comunicação científica é a forma pela qual o conhecimento, paradigmas de pesquisa e ideias são formulados, compartilhados, transmitidos, divulgados e preservados (BERND, 2008; TEFFERA,
2003). Bernd (2008) argumenta que a comunicação científica contribui para a divulgação e o compartilhamento de informações sobre resultados, métodos e pesquisas na comunidade científica, permitindo que as conclusões sejam compartilhadas e avaliadas pelos colegas.
Smith (2006) afirma que os resultados da investigação podem ser reconhecidos como científicos, desde que eles sejam validados em um fórum científico, que sejam aprovados por uma comunidade científica.
Neste sentido, a comunicação científica obedece a práticas estabelecidas pela comunidade científica, termo que designa tanto a totalidade dos indivíduos que se dedicam à pesquisa científica e tecnológica como grupos específicos de cientistas, segmentados em função das especialidades, e até mesmo de línguas, nações e ideologias políticas. (TARGINO, 2000, p. 12).
Publicar os resultados da pesquisa é a maneira de formalizar a comunicação científica e serve para validar as conclusões da investigação. Publicações normalmente são avaliadas, em regime de anonimato, pelos chamados ‘pares’, que são identificados dentro da comunidade científica e possuem conhecimentos especializados na área de estudo em que se publica (ROCKWELL, 2007). Esse é um meio para verificar e controlar a qualidade das publicações (MUELLER, 2006; SAGMA, 2008).
Hess e Ostrom (2007) apontam que a informação científica é interdisciplinar e comunal, e deve ser partilhada, da mesma forma que os recursos naturais. Comunal é o termo usado por esses autores para designar recursos pertencentes a comunidades e, por isso, passíveis de partilha entre pessoas ou grupo de pessoas.
De acordo com Gomez (2002), as tecnologias são ferramentas sociais de produção e uso de informação e conhecimento que interligam e realizam diversas etapas ao mesmo tempo, tais como: armazenamento de dados, técnicas combinadas de busca e recuperação de documentos ou conteúdos. Também ajudam na produção de pesquisas e na disseminação de resultados.
A comunicação científica é vista e definida em função das informações científicas que pesquisadores de uma determinada área optam por publicar em canais formais. O conceito de comunicação científica está revestido de um significado mais amplo do que um simples ato de publicar resultados, pois pressupõe uma pesquisa
científica que leva à geração de novos conhecimentos, a partir de um diálogo dos pesquisadores com seus pares, antes do artigo científico ser finalizado (KHOSROWJERDI, 2011).
Em geral, comunicação científica pode ser definida como o processo pelo qual os estudiosos e cientistas realizam os seus trabalhos de investigação e cujos resultados são publicados e distribuídos. Muitos modelos foram concebidos para ilustrar o sistema de comunicação científica e, consequentemente, esse sistema tem sido observado a partir de diferentes pontos de vista.6 (KHOSROWJERDI, 2011, p. 359-360, tradução nossa).
Meadows (1999) apresenta a comunicação científica como um processo de sucessivas transformações que surgiu numa fase em que a comunicação oral era bastante usada para troca de informações. O processo de evolução levou a comunicação científica a passar da oralidade para a escrita, a imprensa, até os dias de hoje em que a comunicação eletrônica predomina.
[...] conceituam como a comunicação que incorpora as atividades associadas à produção, disseminação e uso da informação, desde o momento em que o cientista concebe uma ideia para pesquisar até que a informação acerca dos resultados é aceita como constituinte do estoque universal de conhecimentos. (TARGINO, 2000, p. 10).
Os estudos revisados demostram que a pesquisa científica é importante, porém, os seus resultados devem ser validados por meio de uma comunidade de pesquisadores do mesmo colégio. É igualmente importante que estas pesquisas sejam disseminadas na sociedade de modo que propiciem o conhecimento para a transformação da natureza para o bem comum. É por meio dos periódicos científicos que os
6
“In general, scholarly communication can be defined as the process by which
scholars and scientists conduct their research and make the results of their work published and distributed. Many models have been designed for illustrating the scholarly communication system and, consequently, this system has been observed of different points-of-view.” (KHOSROWJERDI, 2011, p.
resultados de pesquisa são veiculados, permitindo o acesso à informação científica para toda a sociedade.
2.2 PERIÓDICOS CIENTÍFICOS
Considerando o periódico científico o veículo principal da comunicação científica, esta seção traz da literatura conceitos, história e elementos de periódicos científicos.
O periódico científico, que caracterizou uma nova forma de comunicação, no século XVII, era constituído de alguns artigos mais breves e específicos que as cartas e as atas, uma vez que possuía poucas páginas onde era resumido todo processo de investigação. Além disso, eliminava qualquer conotação pessoal na forma de exposição (STUMPF, 1996, p. 2).
A comunicação científica apoia-se no periódico científico como legítimo instrumento de divulgação de pesquisas. Desde os primeiros momentos do uso de periódicos, sempre se adotou um mecanismo de controle de qualidade como forma de garantir que os artigos publicados fossem de utilidade à comunidade a que se destinava o periódico, dando ao mesmo uma reputação de confiabilidade. Esse controle ocorre, pela seleção criteriosa de artigos ou pesquisas a serem publicados por meio da revisão de pares (GUÉDON, 2001; MEADOWS, 1999).
De acordo com Sayão (2010), o periódico científico vem sendo o principal veículo da comunicação científica desde o surgimento do primeiro título no século XVII. Desde então, várias mudanças foram ocorrendo movidas pelas transformações na ciência, especialização e divisão das áreas de conhecimento. A grande mudança ocorreu com o surgimento da Internet e aperfeiçoamento das tecnologias de informação e comunicação, quando o periódico científico deixou de ser publicado apenas em papel e adotou o formato eletrônico.
A comunicação científica sempre foi dinâmica e acompanhou a evolução tecnológica, onde todos os atores da comunicação tiveram que se adaptar e se modernizar para responder a novas técnicas impostas pela evolução tecnológica, não deixando de lado o fator qualidade e visibilidade, que sempre foi exigido aos autores pelos sistemas de avaliação por pares.
Por mais de três séculos os principais personagens do ciclo de comunicação científica - autores, editores, bibliotecas, usuários - vêm tendo seus papéis estabelecidos e institucionalizados, juntamente com todo o aparato acadêmico, até a configuração atual, instituída nos fins do século XIX. O periódico científico é o coroamento desse sistema de comunicação que cria um compromisso explícito entre a qualidade e a visibilidade na geração de novos conhecimentos científicos. (SAYÃO, 2010,p. 64).
Estudos relatam a importância do uso de periódicos científicos nas diferentes áreas de conhecimento para a publicação de pesquisas. Publicar em periódico científico garante a credibilidade e mantém o registro da descoberta a ser publicada (HEATHER, 2008). É preciso dar ênfase ao uso de periódico científico independentemente da área:
Em todas as áreas do conhecimento, os periódicos funcionam como filtro para reconhecer os trabalhos válidos e as taxas de rejeição funcionam como um dos indicadores de qualidade. A publicação em uma revista reconhecida pela área é a forma mais aceita para registrar a originalidade do trabalho e para confirmar que os resultados foram confiáveis a suficiente para superar o ceticismo da ·comunidade científica. (RODRIGUES; OLIVEIRA, 2012, p. 79). Souza e Albuquerque (2005, p. 7) destacam as funções do periódico científico:
[...] é através dele que o pesquisador comunica o resultado de seus trabalhos, estabelece a prioridade de suas descobertas e contribuições e afirma sua reputação [...] o periódico científico serve também como um instrumento de avaliação que mede os conhecimentos, e examina os resultados apresentados pelo pesquisador. A partir da publicação de artigos em revistas científicas de prestígio, tanto os resultados da pesquisa passam a ser conhecidos diante da comunidade científica, quanto aumentam a credibilidade do autor. (SOUZA; ALBUQUERQUE, 2005, p. 7).
Rodrigues e Fachin (2010, p. 34) esclarecem sobre a importância do periódico científico informando que:
[...] O periódico científico é o veículo disseminador da produção científica em determinada área do conhecimento e são essas áreas que se organizam e se estruturam para criar, manter, disseminar e preservar suas informações. É no periódico científico que o conhecimento pode ser disseminado de forma mais atualizada e confiável em função da periodicidade e dos rigorosos processos de revisão pelos pares. (RODRIGUES; FACHIN, 2010, p. 34). Os estudos revisados para esta pesquisa destacam a importância da comunicação científica como fonte de produção de bens e serviços, instrumento de redução de pobreza e de integração social. E recomendam o uso do periódico científico como veículo da comunicação e garantia da publicação de resultados de pesquisa, pois este agrega valor e confiança da publicação, filtrando e validando os trabalhos mais adequados.
A publicação dos resultados de uma pesquisa, como parte de um processo maior denominado de comunicação científica, permite ao pesquisador divulgar suas descobertas científicas, proteger a propriedade intelectual e buscar o reconhecimento de seus pares. (SILVA; PINHEIRO; REINHEIMER, 2013, p. 145-146).
De acordo com Correia, Alvarenga e Garcia (2011) e Leite, Mugnaini e Leta (2011), os indicadores essenciais da ciência ajudam a responder às seguintes perguntas: Quais os artigos mais citados em determinada área? Quais são as áreas e subáreas emergentes na ciência em um determinado espaço geográfico? Qual é o país com mais impacto em determinada área? Quem são os autores mais citados? Portanto, o uso de indicadores na “Ciência e a tecnologia traz incrementos essenciais para o crescimento e a competitividade de uma região, de um país. Tais incrementos são complexos e estão em constante evolução, devido às suas relações com a sociedade e a economia”. (CORREIA; ALVARENGA; GARCIA, 2011, p. 2).
Os resultados da ciência básica não são instantâneos, como os da ciência aplicada, e isto pode influenciar na forma de comunicação que a ciência pode ter; os tipos de canais para a partilha de resultados
podem ser diferentes nas ciências sociais, ciências sociais e aplicadas, ciências exatas, entre outras áreas (MUGNAINI, 2006).
Para garantir visibilidade das publicações, Ferreira e Caregnato (2014), recomendam o uso de periódicos científicos de formato eletrônico, visto que isso garante a presença na Web, permite a adoção ao acesso aberto, a facilidade de interação com os instrumentos de busca, estimulando o uso de periódicos eletrônicos o que os garante maior visibilidade. Os periódicos em geral são veículos mais utilizados na comunicação científica.
Berkelaar e Harrison (2017) consideram visibilidade na comunicação cientifica como aspecto que envolve vários elementos: o pesquisador, a instituição e a informação; a acessibilidade á informação cientifica que é contributo importante para a visibilidade, permite os pesquisadores a se exporem mais na sociedade científica e desse modo criar visibilidade ao pesquisador e à instituição. Portanto, é importante que o pesquisador desenvolva a habilidade de selecionar informação necessária e desenvolver capacidade cognitiva de uso e interpretação dessa informação para se elevar a visibilidade da instituição científica a que o pesquisador está inserido.
Ao tornar as informações mais disponíveis e acessíveis para uso por uma ampla gama de indivíduos, organizações e instituições [...] Este estudo lançou as bases para argumentar que a visibilidade ‘é uma raiz da era digital’ (BERKELAAR E HARRISON 2017, p 7, tradução nossa)7.
Por seu turno Pinheiro, Silva e Rodrigues (2014), em seu estudo para analisar os periódicos utilizados para publicação pelos pesquisadores de Ciência da Informação no Brasil, e sua visibilidade nas bases de dados WoS e Scopus, combinam a produção e a visibilidade como indicadores para medir a atividade científica. Destacam que os periodicos científicos de acesso aberto, são fundamentais para a visibilidade das pesquisas e impulsionam mudanças no modelo de comunicação científica, dado que, quanto maior é o acesso de uma publicação pode levar a maior visibilidade de suas pesquisas. Os
7
“By making information more available and accessible for use by a broad range of individuals, organizations, and institutions, boyd’s work laid the foundation for arguments that visibility ‘is a root affordance of the digital age’. (BERKELAAR E HARRISON 2017, p 7)
cientistas necessitam de canais próprios para circular as suas mensagens na comunidade científica. Como apontado por vários autores, o periódico é o canal mais formal que a comunicação científica pode ter. Por isso, é comum que as comunidades científicas adotem critérios para ter periódicos confiáveis e de grande reputação para a disseminação de estudos dessa comunidade.
2.3 ESTUDOS ANTERIORES
Nesta seção são apresentados estudos realizados com temática similar à proposta neste trabalho de pesquisa. O critério de seleção dos artigos foi o de reunir os estudos realizados em países periféricos. Foram priorizados os estudos realizados no Brasil, África do Sul, por fazer parte do mesmo bloco de diálogo econômico que o Brasil (BRICS); Índia, por ser um país periférico e também integrante do BRICS; Nicarágua, por ser um país periférico; Nigéria, por possuir várias pesquisas em ciências da informação dos países Africanos; e Moçambique, por ser o objeto deste estudo.
Lor (2007) apresenta uma perspectiva ampla da comunicação científica na África, usando um modelo de sistemas com base na fórmula Lasswell, que se baseia nas premissas: quem diz, o que diz e a quem diz. O modelo identifica e analisa os componentes da comunicação: pesquisador, mensagem ou conteúdos, mediação, usuários e infraestrutura. Ele reconhece que esses componentes devem ser estudados em seu próprio contexto cultural, político, econômico, legal e ético. Cada um dos componentes, por sua vez, tem uma série de questões críticas e problemas relevantes para a divisão Norte-Sul/Sul-Norte em que são identificadas observações sobre a posição e o papel das bibliotecas, como instituições de apoio à pesquisa, permitindo acesso à informação de relevância. Neste estudo, a preocupação pelo pesquisador, pelo ambiente da pesquisa, a qualidade da infraestrutura e as condições para pesquisa são abordados pelo autor como fundamentais para o desenvolvimento da pesquisa em países subdesenvolvidos. Ele conclui apontando que a falta de avanço da comunicação científica na África se deve a fatores econômicos e à ausência de políticas de incentivo à pesquisa. Acrescenta que condições tecnológicas como hardware inadequado e ultrapassado e o grau de acessibilidade à Internet influenciam de forma decisiva o desempenho dos pesquisadores.
A AOSTI indica que a publicação científica na África está concentrada em alguns países, como a África do Sul, o Egito e a Tunísia, que dominam a atividade de publicação de pesquisas