Universidade Estadual de Campinas
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Rafael Albiero Vieira
Indexicalidade nos Casos do Contingente A Priori
Campinas
2019
Rafael Albiero Vieira
Indexicalidade nos casos do contingente a priori
Dissertação apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Mestre em Filosofia.
Orientador: Marco Antonio Caron Ruffino
ESTE TRABALHO CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO ALUNO RAFAEL ALBIERO VIEIRA, E ORIENTADO PELO PROFESSOR DOUTOR MARCO ANTONIO CARON RUFFINO.
CAMPINAS 2019
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Dissertação de Mestrado, composta pelos Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 30 de Setembro de 2019, considerou o candidato Rafael Albiero Vieira aprovado.
Prof Dr Marco Antonio Caron Ruffino Prof Dr Emiliano Boccardi
Prof Dr Pedro Merlussi
A Ata de Defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertações/Teses e na Secretaria do Programa de Pós-Graduação em Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
Para Julia, Juliane e Angelo que tornaram isto possível através do amor.
Agradecimentos
Eu jamais teria conseguido concluir esta Tese de Mestrado sozinho. Expresso aqui a minha profunda gratidão àqueles que contribuíram, diretamente, com esta conquista.
Meu orientador, Marco Ruffino, que desde os primeiros anos de minha graduação nunca mediu esforços para que eu pudesse desenvolver minha pesquisa da melhor maneira possível.
Aos professores e pesquisadores Emiliano Boccardi e Pedro Merlussi que me ajudaram lendo e revisando as versões iniciais de minha dissertação.
Aos colegas do Centro de Lógica e Epistemologia e História da Ciência (CLE) com quem convivi durante esses anos de pós-graduação, que criaram um ambiente amistoso e propício para a minha pesquisa. E aos amigos com quem compartilhei inúmeros chás e cafés.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. Também agradeço à Fapesp, processo nº 2016/25914-3, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo suporte financeiro para a realização do mestrado, o qual tornou essa pesquisa possível.
Resumo
O fenômeno do contingente a priori surgiu com Kripke, quando ele chamou atenção para o fato de que somos capazes de conhecer, em casos específicos, sentenças contingentes de maneira a priori. Após esta ideia ter sido incorporada na tradição, alguns filósofos perceberam uma grande relação entre os exemplos kripkeanos e os termos indexicais. Gareth Evans, por exemplo, afirmou que tal relação nos revelaria que os casos kripkeanos não passariam de sentenças superficiais e, portanto, não problemáticas. Entretanto, uma consequência da teoria de Evans é a de que grande parte do nosso conhecimento que envolve indexicais se torna trivial. Dentro deste debate, o objetivo deste texto é explorar o contingente a priori, as categorias de contingência propostas por Evans, e as principais consequências deste debate.
Palavras chave: Kripke, Indexicalidade, Evans, Epistemologia, Contingente a priori
Abstract
The contingent a priori phenomenon emerged with Kripke, when he pointed out that we are able to know, in specific cases, contingent a priori sentences. After this idea was incorporated into the tradition, some philosophers perceived a great relation between the kripkean examples and the indexical terms. Gareth Evans, for example, argued that such a relation would reveal that kripkean cases would be only superficial and thus not problematic. However, a consequence of Evans’ theory is that much of our knowledge involving indexicals becomes trivial. Within this debate, the purpose of this text is to explore the contingent a priori, the contingency categories by Evans, and the main consequences of this debate.
Keywords: Kripke, Indexicality, Evans, Epistemology, Contingent A Priori
Sumário
Introdução……….………...10
Capítulo 1: O Contingente a priori e os Indexicais………....…...12
1.1 Kripke, nomes e o contingente a priori…....………...13
1.2 Kaplan, termos indexicais e o contingente a priori...………..20
Capítulo 2: A recepção aos exemplos clássicos...………24
2.1 Donnellan e o conhecimento de re………..25
2.2 Jeshion e as sentenças kripkeanas....………...29
2.3 Evans, nomes descritivos e o operador de atualidade……….………34
Capítulo 3: O Contingente a priori revisitado.……….………41
3.1 O debate entre Williamson, Evans e Oppy……….41
3.2 Evans,Williamson e o Truthmaker-Maximalism……….………53
3.3 Profundamente contingente e livre de indexicais?..………56
Conclusão…....……….63
Referências……….………..65
Introdução
Podemos conhecer proposições contingentes sobre nosso mundo sem a necessidade de qualquer experiência. Foi assim que a tradição recebeu o problema do contingente a priori apresentado por Saul Kripke durante suas lectures na Princeton University, no início do ano 1970. Durante suaslectures, que posteriormente receberam o nome de Naming and Necessity, Kripke apresentou um dos argumentos mais fortes contra a tese descritivista para nomes próprios e, no decorrer de sua argumentação, chamou a atenção para o fato de que existem casos em que podemos ter acesso a verdades contingentes de maneira a priori, e além disso, acesso a verdades necessárias de maneira a posteriori. Kripke demonstrou que, em casos estipulativos onde ocorre fixação da referência de um nome através de uma descrição definida, o falante fica em uma posição privilegiada que o possibilita ter acesso a conhecimento contingente sem justificação empírica. Estas ideias causaram desconforto na tradição, uma vez que mostraram que uma tese muito bem estabelecida estava incorreta, isto é, que as noções de necessidade e aprioricidade, ao contrário do que se pensou, não são coextensivas. Para grande parte da tradição, o contingente a priori constituiu um paradoxo intolerável.
Houve muita discussão desde que Kripke chamou atenção para este fato e, dentro deste debate, as mais diversas visões foram defendidas. Por um lado, filósofos como Donnellan (1977) ou Soames (2005) afirmam que não pode existir conhecimento genuíno nos exemplos kripkeanos, uma vez que não existe contato sensorial entre o indivíduo e o objeto batizado. Robin Jeshion (2002) argumenta que, ao contrário do que Donnellan e Soames1 pensam, nos casos do contingente a priori kripkeanos existe conhecimento de re genuíno, entretanto, ele ocorre sem termos acquaintance com o objeto. David Kaplan (1989) além de aceitar a possibilidade deste conhecimento, escreveu que existe uma relação muito íntima entre o fenômeno do contingente a priori e sua teoria dos indexicais. Kaplan acreditava que certas sentenças formadas por termos indexicais, quando analisadas, expressariam proposições contingentes que conseguimos conhecer de maneira a priori. Por outro lado, Gareth Evans (1979) argumentou que, através de uma distinção entre diferentes grupos de
1Donnellan e Soames aceitam uma distinção entre saber que a sentença é verdadeira e conhecer a verdade que a
sentença expressa. Para eles, os exemplos kripkeanos se encaixam no primeiro tipo, e portanto, não são casos de conhecimento genuíno.
contingência, os exemplos de Kripke se tornam triviais. Desta forma, embora aparentemente problemáticos, não existiria nada de controverso ou paradoxal nos exemplos de Kripke. Uma das consequências do argumento de Evans, no entanto, é a de que uma de suas categorias de contingência seria superficial e equivalente a sentenças do tipo “Se A, então A”. Por exemplo, sentenças clássicas do contingente a priori, como: “Netuno é o responsável pelas perturbações da órbita de Urano”, na realidade, são meras sentenças de identidade entre “nomes descritivos” e descrições definidas que, quando analisadas a fundo, são completamente triviais. Uma consequência perigosa, todavia, do argumento de Evans, é a de2 que grande parte do nosso conhecimento envolvendo indexicais seria, então, simplesmente trivial ou desinteressante.
Justamente contra o que Evans defende, Timothy Williamson, em “The Contingent A Priori: Has it Anything To Do with Indexicals?” argumentou que podemos conhecer contingências profundas de maneira a priori e, além disso, sem a necessidade dos termos indexicais. Williamson chegou nesta conclusão usando um método hiperconfiável gerador de crenças chamado, por ele, de (M). No entanto, devido ao funcionamento um pouco quanto misterioso do método proposto por Williamson, ele não ficou livre de críticas. Após a discussão sobre o texto de Williamson, comparei as distinções de Evans sobre contingência superficial e profunda com a tese do truthmaker maximalism que defende que todas as sentenças dependem, em certo grau, de estados de coisas que as tornam verdadeiras. Como pretendo mostrar, isto mostraria que não temos motivo para aceitar as distinções feitas por Evans. Por fim, mas não por isso sem menos importância, pretendo trabalhar com novos exemplos do contingente a priori que acredito lidarem, em certo grau, com a distinção entre contingência profunda e indexicalidade. Propostos por John Hawthorne, os exemplos sobre o Swampcientist e sobre o Explainer geram casos interessantes de casos de contingência profunda que pode ser conhecida de maneira a priori. Enquanto que, um exemplo proposto por David Bostock, sugere um exemplo do contingente a priori livre de indexicais. Termino o último capítulo propondo minha hipótese de como penso que a existência de uma contingência profunda, livre de indexicais e conhecível a priori seria possível.
2 Tanto para Evans, como também para Donnellan e Soames, os exemplos kripkeanos não seriam exemplos
I - O Contingente a priori e os indexicais
O que torna uma proposição contingente é a maneira como que as coisas são em nosso mundo. É natural pensar, então, que só podemos conhecer estas proposições através da experiência. Durante muito tempo, essa foi uma área serena da tradição filosófica, e pouco foi dito a respeito. No entanto, durante uma de suas palestras na Princeton University no ano de 1970, Saul Kripke decidiu acabar com a calmaria e apresentou seus exemplos de proposições contingentes que podem ser conhecidas de maneira a priori. Nada mais justo, então, do que iniciar a discussão sobre o contingente a priori com uma introdução sobre os exemplos kripkeanos. Dito isto, este primeiro capítulo tem como objetivo apresentar as ideias centrais necessárias para o funcionamento dos exemplos kripkeanos presentes em Naming and Necessity e, também, os principais exemplos apresentados por David Kaplan em “Demonstratives” (1989).
Vale a pena notar que, embora eu tenha decidido trabalhar neste primeiro capítulo com os exemplos kripkeanos e com os indexicais, isto não significa que outros exemplos do contingente a priori não sejam possíveis. De maneira geral: neste primeiro capítulo discutirei os exemplos kripkeanos, que surgem quando estipulamos o referente de um nome próprio em todos os mundos possíveis (i.e. ocorre no processo de fixação do referente de nomes próprios) e também discutirei os exemplos indexicais (também chamados de incorrigibility examples por Fitch ), que surgem quando pronunciamos sentenças como “Estou aqui agora”,3
ou “Eu existo”. Entretanto, também existem mais duas formas de gerar exemplos do contingente a priori, são elas: os exemplos “atualizados” e os “self-satisfying examples”. Semelhante aos kripkeanos, os “atualizados” ocorrem quando usamos termos rígidos para proferir proposições em diferentes contextos modais - no entanto, o responsável pela rigidez dos termos nestes exemplos é o termo indexical de atualidade. Por fim, os exemplos “self-satisfying” são exemplos que passam a ser verdadeiros no momento em que acreditamos neles: o truque, nestes exemplos, é o fato deles serem exemplos do contingente a priori independente de noções indexicais. 4
3FITCH, G,W. “Are There Contingent A Priori Truths?” (1977)
4 Note como os termos indexicais estão presentes na maioria destas definições. Ao decorrer do texto, ficará
explícito que os termos indexicais estão presentes até mesmo nos exemplos kripkeanos, mesmo que implicitamente (como demonstrado por Evans).
Dito isto, começarei com a discussão sobre Naming and Necessity de Saul Kripke, e a forma como ele quebra com o pensamento tradicional e sugere o primeiro exemplo do contingente a priori. Em seguida, discutirei os exemplos indexicais de David Kaplan em “Demonstratives”. Acredito que, até o final deste capítulo, a ligação entre o fenômeno do contingente a priori e os termos indexicais estará um pouco mais evidente. Por sua vez, esta ligação se tornará ainda mais forte no próximo capítulo, quando discutirei o trabalho de Gareth Evans em “Reference and Contingency”.
1.1 Kripke, nomes e o contingente a priori
Após definir a noção de conhecimento a priori no começo da Crítica da Razão Pura, Kant afirma: “A necessidade e, precisamente, a universalidade são, portanto, critérios seguros de conhecimento a priori, e são inseparáveis uns dos outros”. Esta visão kantiana sobre a 5 relação entre aprioricidade e necessidade obteve grande êxito na tradição, e a maioria de seus seguidores usavam ambas as noções como sendo quase sinônimas. Entretanto, isso mudou quando Kripke apresentou a primeira de suas lectures que ficaram conhecidas como Naming and Necessity.
Durante suas palestras na Princeton University, Kripke apresentou o famoso caso do contingente a priorique causou agito na tradição por mostrar que as noções de contingência e aprioricidade podiam viver juntas; no entanto, ele acreditava que este fenômeno era uma consequência natural do funcionamento da linguagem. Sendo assim, o contingente a priori surgiu inicialmente em seu trabalho de 1980, onde o objetivo de Kripke era apresentar um argumento contra a teoria descritivista. Proposta inicialmente por Frege e Russell, a teoria descritivista defende que nomes próprios são semanticamente equivalentes a descrições definidas. Em outras palavras, o descritivismo prega que, embora gramaticalmente distintos, a contribuição semântica que um nome próprio faz para a sentença equivale exatamente à contribuição que uma descrição definida faria. Dessa maneira, as condições de verdade de sentenças que contêm nomes próprios são exatamente as mesmas de sentenças que contêm descrições definidas. Portanto, para o descritivismo não existe diferença semântica entre nomes e descrições definidas, essa diferença é apenas gramatical e não se reflete nas
5 Kant define a noção de conhecimento a priori em B3: “compreenderemos por conhecimento a priori, não
conhecimento independente desta ou daquela experiência, mas o conhecimento independente de todas as experiências” (tradução minha)
condições de verdade das sentenças. É justamente essa relação entre nomes e descrições que Kripke ataca. Ele defende a ideia de que o valor semântico de um nome próprio é totalmente6 preenchido pelo objeto referido, sem mediação de conteúdo descritivo. Kripke argumenta que nomes não podem ser equivalentes a descrições definidas uma vez que descrições definidas geram condições de verdade incorretas em contextos modais. Sendo assim, Kripke defende a 7 ideia de que a contribuição de um nome próprio para uma sentença é simplesmente o objeto referido.
No decorrer de sua argumentação contra a visão descritivista, Kripke chama a atenção para distinções importantes da nossa linguagem que, posteriormente, possibilitam a existência de conhecimento contingente a priori. Sendo assim, antes de vermos os exemplos kripkeanos do contingente a priori, veremos algumas distinções importantes de seu texto. A primeira distinção que Kripke menciona diz respeito ao valor de verdade das sentenças nos diferentes mundos possíveis. Isto é, ele demonstra que existem casos de proposições que não têm seu valor de verdade alterado, independente do contexto modal, e casos em que isso ocorre. Sendo assim, uma verdade necessária é uma proposição que sempre é verdadeira em todas as situações concebíveis. Exemplos clássicos de verdades necessárias são as leis da lógica ou enunciados da matemática: parece impossível, ou no mínimo contra intuitivo, uma situação contrafactual onde a soma de 2 mais 2 não seja 4. Por outro lado, verdades são contingentes se forem verdades no mundo atual, mas não obrigatoriamente em todos os mundos. Por exemplo, poderia ser o caso de Aristóteles não ter se interessado por Filosofia e não ter escrito a Metafísica. Disso segue- se que a sentença “Aristóteles é o escritor da Metafísica” expressa uma verdade contingente (uma vez que não preserva o mesmo valor de verdade em diferentes contextos modais).
A segunda distinção diz respeito ao grau de rigidez dos designadores. Desta forma, um designador é rígido se ele se refere ao mesmo objeto em todos os mundos possíveis. Por exemplo, o nome “Aristóteles” é um designador rígido, isto é, ele sempre refere ao mesmo
6 Existem controvérsias sobre se é correto ou não postular Kripke como sendo um referencialista. Não há no
texto uma passagem explícita onde ele se comprometa com o referencialismo. Porém, uma vez que ele vai fortemente contra a tese descritivista, e a tradição costuma postulá- lo como referencialista, também adoto esta posição.
7 Suponha a seguinte sentença: “poderia acontecer de Aristóteles não ser o pai da Lógica”. Se o descritivismo
estiver correto, podemos substituir nomes por descrições. No entanto, se substituirmos o nome “Aristóteles” pela descrição “o pai da Lógica”, chegamos em uma sentença falsa “poderia acontecer de o pai da Lógica não ser o pai da Lógica”. Uma vez que as condições de verdade dessas sentenças não são as mesmas, Kripke afirma que o descritivismo não funciona.
indivíduo independente do mundo possível. Mesmo em situações onde Aristóteles não fez nada das coisas pelas quais ficou famoso, o nome ainda se refere ao nosso Aristóteles (até em situações em que Aristóteles não existiu; na sentença “Imagine que Aristóteles nunca tivesse existido”, o nome ainda se refere ao Aristóteles). No entanto, ao contrário de nomes, descrições definidas podem designar objetos diferentes em contextos modais diferentes. Kripke chama descrições deste tipo de designadores não- rígidos. Por exemplo, uma descrição como “o escritor da Metafísica” refere a qualquer indivíduo que satisfaça a propriedade de ser autor da Metafísica. Em nosso mundo, ela se refere a Aristóteles, mas não há nada que impeça que em contextos modais diferentes ela se refira a Frege, ou a Wittgenstein.
Uma consequência natural de aceitarmos que nomes são diretamente referenciais (isto é, nomes são designadores rígidos), é o fato de que as noções de necessidade e aprioricidade não são extensionalmente equivalentes, ou seja, existem casos em que podemos conhecer verdades necessárias de maneira a posteriori, como também verdades contingentes de maneira a priori. Antes de entrarmos nos casos do contingente a priori, vou apresentar seu caso dual: o necessário a posteriori. Os exemplos mais famosos são exemplos que envolvem sentenças de identidade: se nomes são designadores rígidos, então uma sentença de identidade envolvendo os nomes “Véspero” e “Fósforo” não afirma nada além de que um objeto é semelhante a ele mesmo (que o objeto referido pelo primeiro nome é o objeto referido pelo segundo nome, e estes objetos são um e o mesmo). Ou seja, se for o caso, esta sentença diz que se o objeto Vênus existe, ele é idêntico a ele mesmo, sendo assim: uma verdade necessária. Entretanto, dificilmente sabemos isto de maneira a priori: foi necessária muita investigação astronômica até ser descoberto que o objeto referido por “Véspero” e por “Fósforo” são um e o mesmo objeto. Desta forma, Kripke afirma que existem casos de sentenças que são necessárias, no entanto, só são conhecidas de maneira a posteriori.
Embora seja um caso dual do contingente a priori, estes exemplos do necessário a posteriori não parecem ter chocado tanto a tradição. Foi justamente por este motivo que meu foco principal foi o estudo do contingente a priori. Passamos então, neste momento, aos exemplos kripkeanos da barra de um metro, e sobre a descoberta da existência do planeta Netuno. O primeiro exemplo explora a fixação do comprimento da barra metro em Paris: na ocasião em que a medida metro foi postulada, um agente fixou o referente de um metro como sendo o comprimento da barra de platina S no momento t 0. Em algum momento desse “batismo”, a seguinte sentença foi estipulada como verdadeira:
(M) Um metro é o tamanho da barra S no momento t0 8
Segundo Kripke, uma vez que a estipulação foi feita, o agente está em uma posição notável de conhecer a verdade que a sentença (M) expressa de maneira a priori, isto é, sem necessidade de nenhuma medição. No entanto, o tamanho da barra S no momento t 9 0poderia
variar de inúmeras formas: poderia ser o caso de alguém ter esquentado a barra, ou a resfriado, ou tê- la entortado de maneira que não tivesse o mesmo comprimento. Dado que o comprimento da barra pode variar em situações diferentes, a verdade expressa por (M), embora a priori, é contingente.
O segundo exemplo, que acredito ser mais interessante, explora a postulação da existência do planeta Netuno por LeVerrier em 1846. Enquanto pesquisava a órbita de10 Urano, LeVerrier percebeu que algo a perturbava. Ele supôs que o corpo responsável pelas perturbações na órbita de Urano era um planeta ainda não observado. Então, LeVerrier decidiu nomear este corpo, seja lá qual fosse, de “Netuno”. Desse modo, em um certo momento de suas investigações, LeVerrier proferiu:
(P) Netuno é o corpo celeste responsável pelas perturbações na órbita de Urano
Para Kripke, LeVerrier está em posição de conhecer a priori a proposição que (P) expressa, mas o que torna isso possível? Durante a nomeação, LeVerrier usa a descrição “o corpo celeste responsável pelas perturbações na órbita de Urano” para denotar um objeto relevante no mundo (supostamente existente). Em seguida, ele introduz o nome “Netuno” para nomear este objeto (caso ele exista). Kripke chama este processo de “fixação de referência”. Vale ressaltar que, embora Kripke acredite que nomes próprios e descrições definidas não sejam semanticamente equivalentes, ele não descarta a possibilidade da referência de um nome próprio ser fixada através de uma descrição definida. Nestes casos, a
8 Aqui ‘metro’ tem o papel semântico de um nome próprio que se refere a um objeto abstrato, a saber, um
determinado comprimento.
9“What then is the epistemological status of the statement “Stick S is one meter long at t
0”, for someone who
has fixed the metric system by reference to stick S? It would seem that he knows it a priori.” (1980, p. 56)
10 Acredito que o exemplo Netuno é mais interessante que o exemplo Metro uma vez que o exemplo Netuno
surge de um processo totalmente descritivo (i.e. não existe contato sensorial envolvido). Isto ficará mais claro ao vermos as diferentes formas de introdução de um nome na linguagem.
descrição é usada meramente como um instrumento que destaca um objeto no mundo e o fixa como referente do nome. Na maioria dos casos, o objeto relevante para a fixação está presente, porém Kripke mostra que isto nem sempre é necessário, como fica claro no caso de LeVerrier. Sendo assim, existem casos onde é possível ocorrer o batismo de um objeto sem a necessidade de contato sensorial. Contudo, embora LeVerrier possa conhecer a priori a verdade que (P) expressa, ela é contingente: apesar de (P) ser verdadeira no nosso mundo, o responsável pelas perturbações na órbita de Urano poderia ser algum outro planeta, um cometa gigante, um campo eletromagnético, etc. Desse modo, além de (P) ser conhecida a priori por LeVerrier, já que ele próprio introduziu o nome “Netuno”, (P) é contingente uma vez que a causa das perturbações da órbita de Urano podia ser outra.
A seguinte questão pode passar pela cabeça do leitor: e se, após investigações mais avançadas, descobrissem que, na realidade, não existe um perturbador das órbitas de Urano? O que seria do exemplo de Kripke? Bem, não só de sucessos viveu LeVerrier, pois ele mesmo também nomeou um outro suposto planeta de “Vulcano”, que se pensou existir entre Mercúrio e o Sol. No entanto, com o avanço da astronomia, foi demonstrado que ali não existia nada, e as certas discrepâncias observadas foram explicadas por teorias da Física do século XX. Então suponha que em um determinado momento LeVerrier proferiu:
(V) “Vulcano é o planeta responsável pelas peculiaridades da órbita de Mercúrio”
No entanto, descobriu-se que não existe nenhum planeta responsável por tais peculiaridades, e consequentemente, Vulcano não existe. O que ocorre aqui é que a sentença (V) simplesmente não teria valor de verdade, uma vez que o referente do nome “Vulcano” não existe. Desta forma, não teríamos complicações metafísicas ou epistêmicas. Por este11
motivo, alguns filósofos com o objetivo de formular o contingente a priori livre do que eles chamam de “existential worry” sugerem que os enunciados devem ser proferidos como uma condicional do tipo “se o planeta responsável pelas peculiaridades da órbita de Mercúrio existe, então Vulcano é o planeta responsável…”. 12
11Também pode ser defendido que a sentença em questão é falsa e, portanto, não há conhecimento.
12 David Cowles, em “The Contingent “A Priori”: An Example Free of Existential Worry” (1994) emprega o
Voltando aos exemplos de Kripke, o que possibilita ao agente que nomeia o objeto conhecer as sentenças de maneira a priori? Segundo Kripke, é o fato de que, além dos nomes próprios “Netuno” e “metro” serem diretamente referenciais, eles têm seus referentes fixados através de uma descrição definida não-rígida. Ambas as sentenças, tanto (M) quanto (P), expressam um pensamento singular sobre o objeto relevante (por exemplo, o pensamento singular formado por LeVerrier sobre o planeta Netuno pode ser expressado por <O,R> onde O é o objeto a qual o nome “Netuno” se refere, e R a propriedade de ser “o corpo celeste responsável pelas perturbações na órbita de Urano”). Nestes casos, o agente não precisa conduzir nenhuma pesquisa, nem investigação empírica para conhecer a proposição expressada pelas sentenças, pois ele próprio é o responsável pela introdução do nome. 13
Por fim, uma última tese subjacente do trabalho de Kripke diz respeito, justamente, ao modo como introduzimos um nome na linguagem. Após suas lectures, muito se discutiu sobre a possibilidade da fixação da referência de um nome usando descrições definidas, e qual seria o funcionamento destes nomes. Por exemplo, Donnellan e Dummett discutiram se realmente era possível a existência de um nome cujo referente foi fixado através de uma descrição (caso estes nomes não existissem, as sentenças kripkeanas não seriam processos legítimos); Evans, por outro lado, acreditava que estes nomes eram de uma espécie especial, e que permaneciam em grande relação semântica com a descrição usada para fixar seus referentes. No entanto, durante o ano de 1986, Kripke decidiu apresentar as formas como ele acreditava que um nome poderia ser introduzido na linguagem. Assim sendo, em uma palestra na universidade de Notre Dame, Kripke argumentou que nomes próprios podem ser introduzidos na linguagem de três maneiras distintas: ostensiva, descritiva e “intermediária”. Muito provavelmente, a maneira ostensiva de introdução de nomes é a mais recorrente em
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nosso dia a dia, e ocorre quando estamos em um contato direto com o objeto e, através de algum mecanismo de referência (como, por exemplo, um demonstrativo), atribuímos um nome próprio ao objeto relevante. Por exemplo, uma fixação ostensiva ocorre quando um cientista observa uma nova montanha (nunca antes observada), e em seguida profere algo como: “Esta montanha será chamada de ‘Everest’”. Isto é, o objeto relevante (no caso, a 15
13Embora a sentença seja conhecida a priori pelo agente que fixou a referência do nome, ela é a posteriori para
os outros falantes da língua.
14 As duas primeiras são bastante conhecidas na tradição, já a terceira Kripke chama de intermediate case. 15Por questões de praticidade, suponha que o cientista satisfaz todas as condições de felicidade deste ato de fala,
montanha) é designado através de um demonstrativo e, em seguida, recebe um nome. Por outro lado, a segunda maneira de introduzir um nome na linguagem, chamada por Kripke de maneira descritiva, pode ser precisamente exemplificada pelo caso Netuno. De forma geral, a introdução de nomes descritiva ocorre quando atribuímos um nome ao objeto que satisfaz uma determinada descrição definida - note que, neste caso, não existe acquaintance envolvida; o objeto relevante é denotado através de uma relação de satisfação com a descrição. Sendo assim, uma introdução descritiva ocorre quando introduzimos o nome “Netuno” como sendo o objeto que satisfaz a descrição “o responsável pelas perturbações na órbita de Urano”. Por fim, a maneira 16 intermediária é definida por Kripke da seguinte forma: “[...] description plays a crucial role, though there’s also an acquaintance guiding.” Para17
esclarecer isto, Kripke emprega o exemplo da barra metro padrão. Suponha que alguém ouve a descrição que foi usada para fixar o termo “metro”: “o tamanho da barra S no momento t 0” e a entende perfeitamente - Kripke afirma que mesmo entendendo completamente a sentença, o agente não está em posição de saber corretamente ao que “metro” se refere. É aqui que surge o papel da acquaintance, como uma espécie de “guia” que possibilita, aos falantes, obter uma ideia (embora imprecisa) do significado de “metro” (i.e. sem possuir essa acquaintance, o agente poderia pensar que “metro” possui, na realidade, o comprimento de um quilômetro). Entretanto, apesar da acquaintance ser necessária para o entendimento do conceito de metro, ela, por si só, nunca será suficiente para a fixação do conceito: a descrição ainda é necessária. De certa forma, tanto a descrição, quanto o contato sensorial com o objeto, são relevantes aqui - mas o que possibilita que o referente do termo seja precisamente fixado é a descrição. Nas palavras de Kripke:
“[...] there’s an intermediate case, the meter stick, in which both (acquaintanceand descriptions) are involved. The acquaintance is part of it, but it gets you only so far.” 18
16Lembre-se de que, para Kripke, quando um nome é introduzido descritivamente, o único papel da descrição é
o de denotar um objeto no mundo que recebe o nome. No entanto, como veremos mais tarde, Evans acredita que a descrição definida possui um papel mais importante - mesmo após a fixação, ela mantém grande relação semântica com os nomes.
17Kripke, palestras não publicadas na Universidade de Notre Dame, 1986. 18 Kripke, palestras não publicadas na Universidade de Notre Dame, 1986.
Agora, recapitulando os exemplos kripkeanos do contingente a priori, temos que no primeiro exemplo de Kripke, no caso da sentença (M), o agente sabe que o tamanho da barra S no momento t 0 é um metro de maneira a priori, dado que ele é o responsável pela introdução do nome “metro”. Como Kripke mostrou, este processo de introdução de nome ocorre de maneira “híbrida”, onde tanto a acquaintance quanto a descrição têm papel fundamental no processo. Da mesma forma, LeVerrier sabe que Netuno é o planeta responsável pelas perturbações na órbita de Urano de maneira a priori uma vez que ele é o responsável pela introdução do nome “Netuno”, e embora no momento da fixação seu acesso ao objeto a que o nome se refere se dê apenas usando a denotação da descrição que ocorre na sentença (P), após a fixação o nome “Netuno” passa a se referir diretamente ao objeto. Este processo, como Kripke argumentou, ocorre apenas através da descrição, e em nenhum momento acquaintance se faz necessária. Realizada a exposição das sentenças kripkeanas do contingente a priori, passo agora aos exemplos de Kaplan do contingente a priori que, ao contrário dos exemplos kripkeanos, dependem apenas de noções de indexicalidade.
1.2 Kaplan, termos indexicais e o contingente a priori
Em seu ensaio “Demonstratives” (1989), Kaplan tem conclusões semelhantes às de Kripke quanto à possibilidade de termos conhecimento a priori de proposições contingentes. O interesse de Kaplan era estudar o funcionamento e implicações dos indexicais: expressões como “aqui”, “ele”, “agora”, “hoje”, etc. Ele percebeu que em certos casos, sentenças formadas por indexicais eram intuitivamente equivalentes aos exemplos de Kripke, porém, antes de expor os exemplos de Kaplan, acredito que seja necessário o esclarecimento do aparato teórico usado em seu ensaio.
Indexicais são, grosso modo, expressões linguísticas que não têm um referente fixo, isto é, o referente de um indexical pode mudar de contexto para contexto, por exemplo: o indexical “agora” em um contexto se refere a um momento temporal que podemos chamar de t1, já em outro contexto, se refere ao momento t 2. Kaplan percebeu que existem dois tipos diferentes de indexicais, de um lado, os demonstrativos, e de outro os indexicais puros. Os demonstrativos têm esse nome por serem indexicais como “ele”, “isto”, “aquilo”, que necessitam de uma demonstração (normalmente um apontar) para designar um objeto com
sucesso. Por outro lado, indexicais puros são termos como “aqui”, “agora”, “hoje”, que não19
necessitam de uma demonstração para se referir com sucesso (alguém que profere uma sentença contendo o indexical “aqui” não precisa de nenhuma demonstração para se referir com sucesso ao ponto espacial em que se encontra).
Para Kaplan, existem ainda dois valores semânticos, ou “significados”, que podem ser atribuídos aos indexicais: ele os chamou de caráter e conteúdo. O caráter funciona como uma regra geral que atribui o referente apropriado para o indexical em cada contexto, por exemplo: é o caráter que fica encarregado de atribuir um ponto espacial apropriado toda vez que um falante usa uma sentença que contém o indexical “aqui”. O caráter pode ser visto, de certa forma, como o significado linguístico do indexical, e se preserva em todos os contextos, isto é, o caráter da palavra “aqui” é sempre o mesmo independente do contexto. O conteúdo, por outro lado, é o referente que é associado pelo caráter em cada contexto, por exemplo: “aqui” se refere a diferentes lugares em diferentes contextos, da mesma forma que “eu” se refere a diferentes pessoas em diferentes contextos. Em outras palavras, o caráter é uma espécie de regra que associa o referente apropriado em cada contexto diferente, enquanto que o conteúdo é o referente que o indexical designa, como uma pessoa, objeto, lugar, etc.
Outro ponto importante é a existência de uma analogia entre o funcionamento de uma demonstração e o funcionamento de uma descrição definida: as demonstrações funcionam como uma forma de se descrever um objeto em um contexto, e da mesma forma que uma descrição, podemos imaginar a mesma demonstração em diferentes mundos possíveis. Por exemplo, uma demonstração que aponta para Netuno no nosso mundo, pode apontar para Plutão em uma situação contrafactual em que a ordem dos planetas do sistema solar fosse outra (nesse caso, o gesto demonstrativo tem funcionamento semelhante à descrição “o responsável pelas perturbações na órbita de Urano). Motivado pelo fato de que o que transforma uma demonstração em um designador rígido e diretamente referencial é um gesto demonstrativo, Kaplan cria um operador rigidificador de descrições definidas: “dthat”. Assim, ele introduz “dthat” como uma ferramenta teórica que transforma descrições definidas em designadores rígidos, por exemplo, “dthat [o responsável pelas perturbações na órbita de Urano]” funciona como um designador rígido do planeta Netuno.
19 Comumente este gesto é visto como um ato de apontar ou algo semelhante, mas Kaplan afirma que o
conteúdo de um demonstrativo, em um contexto, depende das demonstrações ou das intenções do falante de se referir a um determinado objeto no mundo.
Uma vez que essas noções conceituais estão esclarecidas, Kaplan percebe que sentenças formadas por indexicais, como por exemplo:
(E) Eu estou aqui agora
São capazes de gerar fenômenos intuitivamente estranhos: a sentença (E) é verdadeira sempre que for proferida, isto é, em qualquer contexto de uso. Sendo assim, uma vez que não é necessário nenhuma investigação empírica para saber que toda vez que (E) é declarada, ela é verdadeira, estamos em posição de saber que (E) vai ser verdadeira de maneira a priori.20
No entanto, (E) não expressa uma verdade necessária, dado que podemos conceber uma situação contrafactual onde o agente que proferiu (E) está em outro lugar. Da mesma forma, a sentença “Eu existo” é verdadeira sempre que proferida, embora não seja uma verdade necessária, uma vez que a existência do falante não é necessária.
Como Kaplan explica o fato das sentenças acima serem sempre verdadeiras sempre que proferidas em qualquer contexto (ou só pensadas, como “Eu existo”), sem expressarem verdades necessárias? Segundo Kaplan, aprioricidade e necessidade têm a ver com valores semânticos diferentes, e se relacionam com as noções de caráter e conteúdo. Por um lado, a priori e a posteriorisão características epistêmicas do caráter de uma sentença: a sentença vai ser a priori se o conteúdo determinado pelo caráter for sempre verdadeiro, ou melhor, o caráter é a priori se o conteúdo por ele determinado for verdadeiro independente do contexto. Por outro lado, necessidade e contingência são noções metafísicas e se relacionam com o conteúdo: um conteúdo é necessário se for verdade em todos os mundos possíveis, e caso contrário, é contingente. Nos exemplos acima, o caráter da sentença (E) é a priori uma vez que o conteúdo determinado pelo caráter vai ser sempre verdadeiro. Entretanto, o conteúdo de (E) é contingente dado que não é necessário ao falante estar naquele lugar, naquele momento.
Usando do mesmo aparato conceitual de Kaplan, existe ainda a possibilidade de outros casos análogos aos exemplos de contingente a priori de Kripke. Vejamos a sentença formada por um demonstrativo:
20Nem todos os filósofos aceitam que sentenças como essa são a priori. Fitch (1977) nota que exemplos como
esse, chamados de incorrigibility examples, pressupõe-se um acesso privilegiado ao conhecimento a priori e
que, além disso, são baseados na experiência (embora não seja nenhuma experiência em particular): se Frank tem uma dor de cabeça, ele seria a única pessoa em posição de saber isso de maneira a priori. Fitch argumenta que nenhum indivíduo deve possuir acesso especial a estes conhecimentos, e que então, estes exemplos não podem ser considerados a priori.
(D) dthat[y] = [y] (onde y é uma descrição).
Ela é verdadeira independente do contexto em que for proferida, portanto, é uma verdade a priori. No entanto, ela é contingente. Semelhantemente aos exemplos de Kripke, a sentença (D) é formada de um lado por um designador rígido (dthat[y]), e do outro uma descrição não rígida ([y]). Kaplan usa o termo ‘dthat’ para representar o demonstrativo “that” (‘aquilo’) junto com uma espécie de descrição (que auxilia o demonstrativo). Desta forma, o termo ‘dthat’ consegue ser rígido: se profiro ‘dthat[o gato que estou vendo agora] é preto’ estou falando sobre o gato que vejo agora, independente dos mundos possíveis. Uma vez que “dthat[y]” se refere ao mesmo objeto em qualquer mundo possível, mas o referente de “[y]” pode mudar, então a sentença D expressa uma verdade contingente. Semelhante aos exemplos de Kripke, a sentença (D) é uma identidade construída entre um designador rígido e uma descrição não-rígida. Ainda assim, uma vez que é fruto de estipulações linguísticas, essa verdade pode ser conhecida de maneira a priori.
Estes são os dois modelos dos contingentes a priori mais conhecidos expostos por Kaplan. Ele mostrou que, usando um aparato totalmente diferente do qual Kripke usa, ainda assim era possível gerarmos proposições igualmente problemáticas: ao contrário de sentenças contendo nomes próprios, Kaplan trabalhou apenas com termos indexicais. No próximo capítulo, apresentarei a recepção da tradição aos exemplos do contingente a priori, e como Gareth Evans, em particular, mostrou que indexicalidade era indispensável para os exemplos kripkeanos.
II - A recepção aos exemplos clássicos
Como esperado, a tese de Kripke sobre a possibilidade de proposições contingentes a priori não teve uma recepção acolhedora: a maioria dos filósofos acreditava ser impossível a existência de proposições desta espécie, e que Kripke deve ter cometido um erro em algum dos passos de sua exposição. Uma das respostas mais conhecidas e influentes a Kripke foi proposta por Keith Donnellan, em 1979, em “The Contingent A Priori and Rigid Designators”. Neste, Donnellan responde à teoria dos nomes de Kripke, e à possibilidade da existência de proposições contingentes a priori. Inicialmente, ele defende Kripke contra um ataque de Michael Dummett contra a introdução de nomes rígidos na linguagem - no 21 entanto, como foi mostrado que o fenômeno do contingente a priori independe de nomes (como é o caso dos exemplos indexicais), penso que prolongar a discussão sobre a possibilidade da introdução de nomes rígidos acabaria sendo improdutiva. Nosso interesse é 22 na segunda parte do trabalho de Donnellan, onde ele apresenta seu argumento contra os exemplos kripkeanos. Para Donnellan, as sentenças kripkeanas não causam nenhum problema, uma vez que há apenas conhecimento metalinguístico sendo expressado. Ele chega a esta conclusão ao ver que os exemplos kripkeanos falham em testes intuitivos de conhecimento de re genuíno e aparentam não ser instâncias de conhecimento.
Após apresentar o trabalho de Donnellan, iniciarei a exposição do texto “Acquaintanceless De Re Belief” de Robin Jeshion. Ao contrário da maioria dos filósofos que trabalharam com o fenômeno do contingente a priori, Jeshion argumenta que o real problema com as sentenças kripkeanas não está nas modalidades metafísicas e nem epistêmicas das proposições (i.e. não está no fato delas serem contingentes, nem de serem a priori), mas sim no fato de que as sentenças apresentam instâncias em que podemos gerar conhecimento de re sem acquaintance. Note que, diretamente contrário ao pensamento de Donnellan, Jeshion acredita sim que existe conhecimento de re nas sentenças kripkeanas - isto mostraria que a ligação entre conhecimento de re e acquaintance não é necessária. Por fim, Jeshion acredita que as sentenças kripkeanas apresentam um problema para a teoria millianista dos nomes próprios, e que isto nos obriga a conceber uma nova interpretação do que é normalmente conhecido como conhecimento de re. Como veremos, no entanto,
21 Dummett (1973) Frege: Philosophy of Language.
22 De forma resumida: Donnellan conclui que, mesmo que a introdução de nomes rígidos na linguagem seja
acredito que a solução ao problema proposto por Jeshion é simples e consiste no reconhecimento da existência de nomes descritivos.
Por fim, farei a exposição do texto “Reference and Contingency”, de Gareth Evans. Neste, Evans chama atenção justamente para a forte ligação entre os termos indexicais e o contingente a priori kripkeano. Ele argumenta que até mesmo nos clássicos exemplos kripkeanos existem operadores indexicais de atualidade que são responsáveis pela rigidez e pelo funcionamento dos nomes próprios: isto é, até mesmo nos exemplos sobre o Metro e sobre Netuno existem operadores indexicais. Além disso, Evans argumenta em defesa de sua tese sobre os nomes descritivos, e também apresenta duas novas noções de contingência: contingência profunda e contingência superficial. O trabalho de Evans neste texto foi um divisor de águas: parte da tradição, aceitou que as sentenças kripkeanas não causavam mais nenhum problema, enquanto outra parte começou a buscar por exemplos reais e problemáticos de sentenças do contingente a priori. Durante a exposição do texto de Evans, espero que a ligação entre a indexicalidade e o fenômeno do contingente a priori torne-se ainda mais evidente, uma vez que é justamente com esta ligação que o próximo e último capítulo trabalhará. Por ora, feita esta exposição geral do capítulo, inicio com a exposição do trabalho de Donnellan em “The Contingent A Priori and Rigid Designators”.
2.1 - Donnellan e o conhecimento de re
Quando o assunto é a inquietação causada pelas sentenças kripkeanas do contingente a priori, o trabalho de Donellan é, muito provavelmente, uma das soluções mais conhecidas. A ideia central do texto de 1977 de Donnellan é a impossibilidade de conhecermos as proposições expressas pelas sentenças kripkeanas, uma vez que não possuímosacquaintance com o objeto relevante. Donnellan alegou que a ideia de conhecimento a priori de proposições contingentes não é nada intuitiva: a ideia de que apenas através de estipulações linguísticas conseguimos ter acesso a tais verdades parece, no mínimo, estranha. Ele coloca sua inquietação da seguinte forma:
“If a truth is a contingent one then it is made true, so to speak, by some actual state of affairs in the world that, at least in the sorts of examples we are interested in, exists independently of our language and our linguistic conventions. How can we
become aware of such a truth, come to know the existence of such state of affairs, merely by performing an act of linguistic stipulation?” 23
Donnellan, então, defende que embora a introdução de nomes através da estipulação de uma descrição seja teoricamente possível, isto não resulta em exemplos “interessantes” do contingente a priori. Inicialmente, então, ele chama nossa atenção para o fato de que existe uma clara distinção entre sabermos que uma sentença é verdadeira, e conhecermos a verdade que a sentença expressa. Mas o que, exatamente, isto significa? Suponha que João nunca estudou a língua inglesa. João ouve de um americano a sentença ‘the grass is green’, e por meio de amigos, é informado que a sentença é verdadeira. Nessa situação, João sabe que a sentença é verdadeira, mas por não ter nenhum conhecimento da língua inglesa, não está em posição de conhecer qual verdade a sentença expressa. No limite, João possui conhecimento, se possuir algum, trivial e apenas metalinguístico, que não diz respeito ao modo como que as coisas são no mundo. É possível, também, entendermos esta distinção de maneira mais técnica e direta, por exemplo: eu sei que a sentença “Aorsds são Aorsds” é verdadeira, uma vez que toda coisa é idêntica a ela mesma - no entanto, como não sei o que “Aorsds” são, não conheço a verdade que a sentença expressa. Donnellan acredita que no exemplo de LeVerrier, embora Kripke pense que LeVerrier conheça a verdade que a sentença expressa, ele apenas sabe que a sentença é verdadeira; isto é, se LeVerrier possui algum conhecimento originário da sentença, este conhecimento é apenas metalinguístico.
Donnellan argumenta que se LeVerrier quiser realmente ter algum conhecimento relevante, e não apenas metalinguístico sobre o objeto, ele precisa que seu conhecimento seja de re. Por quais motivos, no entanto, Donnellan defende que o conhecimento, nestes casos, precisa ser de re? Vejamos, qualquer falante consegue formular uma descrição definida que denota um objeto, e atribuir um nome ao mesmo: o processo de fixação da referência de um nome parece muito arbitrário. Todavia, dada a descrição “Newman é o primeiro ser humano a nascer no século XXII”, o que podemos saber sobre Newman além de que ele vai ser humano, e ser a primeira pessoa a nascer no século XXII? A reflexão baseada apenas na descrição “o primeiro ser humano a nascer no século XXII” não nos dá nenhum contato epistêmico direto com o objeto que gere conhecimento além daquele que já está contido na
própria descrição. Todo conhecimento a priori gerado a partir dessa descrição será conhecimento de dicto, uma vez que o próprio objeto a que o nome se refere não fará parte da proposição, mas apenas uma descrição dele. Desta forma, recorrendo apenas à descrição, não sabemos a priori nada complementar sobre o objeto. Vejamos, agora, o caso LeVerrier: o nome “Netuno” deveria colocar LeVerrier em uma relação epistêmica mais íntima com o objeto, mas isto parece não ser o caso. Uma vez que a fixação do nome foi feita através de uma descrição não temos garantia nem mesmo a existência do objeto. Se o conhecimento que LeVerrier adquire a priori é de uma proposição contingente, a estipulação do nome “Netuno” deveria colocar LeVerrier em posição de ter acesso ao objeto independente do acesso cognitivo já proporcionado pela descrição. Sendo assim, se o contato epistêmico que LeVerrier tem com o objeto é apenas descritivo, as proposições que ele pode conhecer a priori são todas triviais e não alteram em nada seu conhecimento sobre o objeto.
Para mostrar que estas sentenças não geram conhecimento relevante (ou conhecimento problemático, já que estamos falando sobre o fenômeno do contingente a priori), Donnellan propõe dois princípios para caracterização de um conhecimento como de re. Ele nota que estes princípios estão longe de serem critérios rigorosos, entretanto, acredita que são intuitivamente suficientes. Ambos os princípios compartilham a ideia de que a24 substituição de um nome por outro termo referencial não deve alterar o valor de verdade de relatos de atitudes proposicionais contendo aquele nome. Sendo assim, o primeiro princípio diz que:
i- “If an object is called is called by one name, say “N”, by one group of people and by another name by a second group, say “M”, and if, in the language of the first group, “N is Φ” expresses a bit of knowledge of theirs and if “is Ψ” is a translation of “ isΦ” into the language of the second group then if the relevant facts are known to the second group, they can say truly that the first group “knew that M is is Ψ.”” 25
24Donnellan escreve“... let us look at a couple of loose principles concerning names and propositional attitudes.
I say “loose” because I do not want to defend them as having no counter examples” (DONNELLAN, 1977, pg. 22).
Por exemplo, suponha que Netuno é habitado por criaturas alienígenas com telescópios poderosíssimos. Um desses alienígenas observa LeVerrier enquanto ele faz suas investigações, e percebe que LeVerrier conseguiu descobrir, através de cálculos elaborados, que deve haver um corpo celeste que é o responsável pelas perturbações na órbita de Urano. Suponha ainda, que na língua dos netunianos, Netuno é chamado de “Enutpen”. O netuniano que observava LeVerrier, então, reporta ao seu líder a seguinte sentença: “LeVerrier sabe que Enutpen é o planeta responsável pelas perturbações na órbita de Urano.” Seria correto dizer que essa sentença é verdadeira? Donnellan acredita que não, uma vez que LeVerrier não está em posição de saber que Enutpen é o responsável pelas perturbações na órbita de Urano. O conhecimento de LeVerrier aqui se mostra claramente de dicto, visto que uma simples substituição do nome já altera o valor de verdade do relato. 26
O segundo princípio que Donnellan propõe, apesar de bastante parecido com o primeiro, envolve a substituição do nome por um demonstrativo. O segundo princípio é o seguinte:
ii- “If one has a name for a person, say “N”, and there is a bit of knowledge that one would express by saying “N is Φ” then if one subsequently meets the person it will be true to say to him, using the second person pronoun, “I knew that you were Φ.”” 27
Por exemplo, se LeVerrier tivesse conhecimento de re sobre o objeto referido por “Netuno”, seria correto ele dizer, quando colocado frente a frente com Netuno, “eu sei que isto é o responsável pelas perturbações na órbita de Urano”. Mas isto não parece ser correto, uma vez que LeVerrier nunca teve contato sensorial com Netuno. Donnellan afirma que a substituição do nome “Netuno” pelo demonstrativo “isto” geraria estranhamento e alteraria o valor de verdade do relato: como no caso do netuniano, esse relato parece não captar corretamente o estado mental de LeVerrier. Se realmente houvesse conhecimento de re
26Jeshion (2001) mostra que os princípios que Donnellan propõe são loose porque existem casos onde, embora
o falante tenha conhecimento de re sobre o objeto relevante, os princípios, ainda assim, falham. Vejamos o seguinte exemplo. É muito provável aceitar que Lois Lane tem conhecimento de re em relação ao Superman (e também em relação a Clark Kent, dado que são a mesma pessoa). Entretanto, parece que alteração do nome “Superman” por “Clark Kent” altera o valor de verdade do relato da crença de Lois Lane. Não é nada razoável aceitar que “Lois Lane acredita que Clark Kent consegue voar”. Nesse caso, embora exista a intimidade epistêmica que Donnellan julga ser necessária, parece que algo está errado no relato. É plausível aceitar que existe conhecimento de re envolvido nesse caso e, mesmo assim, ele falha no teste de Donnellan.
envolvido, o relato de LeVerrier seria provavelmente verdadeiro mas, neste caso, dificilmente seria caracterizado como a priori.
Segundo Donnellan, ambos os princípios falham porque a introdução do nome “Netuno” não coloca LeVerrier em posição de ter atitudes proposicionais de re em relação a Netuno. Isto é, a introdução do nome não coloca LeVerrier em uma relação epistêmica mais íntima com Netuno mas, pelo contrário, parece que todo o conhecimento de LeVerrier é metalinguístico e está atado ao próprio nome “Netuno” (visto que, em ambos os princípios que Donnellan propõe, uma simples alteração do nome “Netuno” já altera o valor de verdade do relato). Desta forma, se os princípios de Donnellan estão corretos, isto mostra que Kripke estava enganado ao pensar que existe conhecimento contingente a priori sendo expresso em seus exemplos; isto tornaria as sentenças kripkeanas em meras sentenças triviais. Por fim, 28
Donnellan afirma:
“In the absence of any other explanation as to why these principle should fail in these cases I suggest that the reason is that the stipulations have not given rise to any knowledge (other than of linguistic matters). And so not to any knowledge a priori.” 29
2.2 - Jeshion e as sentenças kripkeanas
Robin Jeshion, em “Acquaintanceless De Re Belief”, argumentou que a visão de Donnellan é incorreta, e que a proposição singular expressada pela sentença de Netuno era, de fato, conhecível a priori por LeVerrier. Jeshion argumentou que as sentenças kripkeanas, como (P) , são conhecíveis por agentes que não possuem30 acquaintance com o objeto relevante: LeVerrier, então, conhece a proposição verdadeira (P) apesar da falta de acquaintance com o planeta Netuno. 31
Inicialmente, Jeshion argumentou que o problema proposto por Kripke não seria essencialmente sobre as categorias modais de uma proposição que, supostamente, é
28 Na realidade, ainda existe conhecimento metalinguístico nos exemplos kripkeanos - mas Donnellan não vê
isto como sendo problemático, e acredita que a geração de conhecimento puramente metalinguístico não era o objetivo de Kripke.
29Donnellan, 1977, p. 22.
30 (P) “Netuno é o corpo celeste responsável pelas perturbações na órbita de Urano”
31 Uso o termo “conhecível” aqui para dizer que as proposições das sentenças kripkeanas (como o caso da
sentença (P) são, na realidade, ocorrências de conhecimento (ao contrário do que Donnellan argumentou), e que podem sim ser conhecidas.
conhecida a priori. Ela argumenta: existem casos que apresentam a mesma dificuldade (ou estranhamento) que a apresentada pelas sentenças de Kripke mas, no entanto, não obrigatoriamente envolvem contingência ou aprioricidade. Por exemplo: imagine que um cientista possui evidências que o levam a acreditar que existe um elemento com o número atômico 121, e que, em seguida, ele nomeia o suposto elemento de “Angelesium” (i.e. “‘Angelesium’ se refere ao elemento de número atômico 121”). Desta forma, parece que o cientista pode saber, de maneira a priori, que Angelesium é o elemento de número atômico 121, caso realmente exista um elemento com tal número atômico. No entanto, visto que32
números atômicos são propriedades essenciais dos elementos, temos que a proposição que nosso cientista conhece de maneira a priori, é necessária (e não contingente). Aqui chegamos em uma contradição: embora a proposição sobre o Angelesium seja necessária, ela nos apresenta o mesmo estranhamento que os exemplos kripkeanos - como alguém pode, de maneira a priori, conhecer um fato sobre o mundo? Segundo Jehsion, isto revela um fato interessante sobre os exemplos kripkeanos: uma vez que a sentença sobre Angelesium também causa estranhamento, temos que os exemplos kripkeanos (contingentes) não são problemáticos em razão de suas categorias modais.
Posto isso, Jeshion argumenta que o real problema que as sentenças kripkeanas estabelecem é este: quando fixamos o referente de um nome através de uma descrição definida, geramos crença de re sem acquaintance. Esta é uma consequência incômoda para grande parte dos teóricos, visto que eles aceitam queacquaintance é uma condição necessária para crenças de re sobre objetos. De acordo com Jeshion, o responsável por este problema é33 a tese millianista para nomes próprios; como já foi dito, os millianistas defendem que o conteúdo semântico de um nome próprio é totalmente preenchido pelo objeto referido. A grande parte dos defensores do millianismo aceita que sentenças como “N é o R” expressam proposições singulares do tipo <Objeto, Propriedade>. Sendo assim, quando alguém aceita uma sentença “N é o R”, sua crença será uma proposição singular sobre o objeto N e consequentemente será de re (i.e. será sobre o objeto; <N,R>, onde “N” é o objeto, e “R”
32Aqui é necessário pensarmos que o contato sensorial direto não faz parte do conjunto de evidências que levam
o cientista a afirmar a existência do elemento Angelesium. Caso contrário, o exemplo seria a posteriori.
33 A teoria que defende que acquaintance é necessário para conhecimento de re é chamada, por Jeshion, de
Acquaintance Theory. Esta é, muito provavelmente, a teoria mais aceita quando o assunto é a relação entre conhecimento de ree acquaintance. Talvez Bertrand Russell tenha defendido a versão mais radical desta teoria; ele afirmava que só podemos nomear objetos os quais possuímos acquaintance. Contrastando esta visão, Jeshion chama de Semantic Instrumentalism a teoria que defende que podemos gerar pensamentos singulares (e pensamentos de re) sem nenhuma cláusula (inclusive sem a necessidade de acquaintance).
propriedade). Nesta altura, o problema apontado por Jeshion já está nas proximidades. Suponha novamente o exemplo de LeVerrier: ao fixar o referente do nome “Netuno”, LeVerrier aceita a sentença (P) e, por consequência, aceita uma proposição singular sobre o objeto referido pelo nome “Netuno”. Se o processo de fixação ocorreu sem erros, LeVerrier aparentemente gera um conhecimento de re sobre o objeto referido pelo nome “Netuno”. No entanto, note que LeVerrier em nenhum momento teve contato sensorial com o planeta, nem ao menos conversou com alguém que já esteve em contato direto com o planeta (i.e. nunca esteve em uma communication-chain sobre Netuno). O problema apresentado por Jeshion,34 então, surge: podemos afirmar que LeVerrier possui crença de re (e pensamento singular) sobre o objeto referido pelo nome “Netuno” sem possuir acquaintance com o objeto relevante.
Em um primeiro momento, concordar com a ideia de que estes casos realmente geram exemplos de conhecimento de re sem acquaintance pode ser algo estranho. Isto é, parece intuitivo que para gerarmos pensamento singular sobre um objeto qualquer, necessitamos de acquaintance. No entanto, embora intuitiva, o próprio Kripke não concordaria com esta ideia. Para vermos isto, temos que relembrar as formas como um nome pode ser introduzido na linguagem segundo Kripke - mais especificamente, a introdução descritiva (do exemplo Netuno) onde apenasdescrições são necessárias. Kripke, durante as palestras de Notre Dame, usa justamente a introdução descritiva para comentar sobre os princípios de Donnellan contra os casos do contingente a priori, Kripke afirma:
“I think he ( Donnellan) is probably influenced by the fact that if we’re not sure of our physical hypotheses we don’t know whether there is a Neptune. Thought that’s true, it is quite untrue, I think, to conclude from this that we don’t know which planet causes these perturbations…”
Mais adiante, ainda argumentando contra Donnellan, Kripke afirma:
34 Embora existam várias definições de acquaintance, a maioria dos teóricos (dentre eles, os defensores da
acquaintance theory) aceitam que só existe acquaintance quando possuímos: contato direto, memória, ou
estamos em umacommunication chain com um falante relevante (i.e. alguém dentro do meu círculo linguístico precisa possuir, ou ter possuído, contato direto com o objeto).