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Pelo direito ao caminhar não estranhado

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Academic year: 2021

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INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

ANA LUIZA MORAES PATRÃO

PELO DIREITO AO CAMINHAR NÃO ESTRANHADO

CAMPINAS 2015

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Ficha catalográfica

Universidade Estadual de Campinas

Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Cecília Maria Jorge Nicolau - CRB 8/3387

Patrão, Ana Luiza Moraes,

P274p PatPelo direito ao caminhar não estranhado / Ana Luiza Moraes Patrão. – Campinas, SP : [s.n.], 2015.

PatOrientador: Arlete Moysés Rodrigues.

PatTese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

Pat1. Sociologia urbana. 2. Capitalismo. 3. Espaços públicos. 4. Caminhada. 5. Alienação (Filosofia). I. Rodrigues, Arlete Moysés,1943-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: For the no estrangement walking right Palavras-chave em inglês: Urban sociology Capitalism Urban space Walking Alienation (Philosophy)

Área de concentração: Sociologia Titulação: Doutora em Sociologia Banca examinadora:

Arlete Moysés Rodrigues [Orientador] Amelia Luisa Damiani

Ana Paula Casassolo Gonçalves Jesus José Ranieri

Ricardo Luis Coltro Antunes Data de defesa: 11-12-2015

Programa de Pós-Graduação: Sociologia

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INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

A Comissão Julgadora dos Trabalhos de Defesa de Tese composta pelos Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 11 de dezembro de 2015, considerou a candidata Ana Luiza Moraes Patrão aprovada.

Profª Drª Arlete Moysés Rodrigues ______________________________________

Profª Drª Amelia Luisa Damiani ______________________________________

Profª Drª Ana Paula Casassolo Gonçalves ______________________________________

Prof. Dr. Jesus José Ranieri ______________________________________

Prof. Dr. Ricardo Luis Coltro Antunes ______________________________________

A Ata de Defesa, assinada pelos Membros da Comissão Examinadora, consta no processo de vida acadêmica da aluna.

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Dedico este trabalho à Isa e ao João, meu esteio nessa longa caminhada.

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A uma sociedade onde o caminhar seja a expressão da omnilateralidade humana.

Como transmitir em poucas palavras um agradecimento sincero e caloroso aos que estiveram ao nosso lado, ou mesmo aos que passaram brevemente por nossas vidas, nessa longa, árdua, mas também instigante jornada “doutorática”? Creio que seja impossível. Por isso, me resta apenas rememorar alguns nomes de pessoas e lugares importantes em minha vida, que me fizeram, apesar de inúmeros vacilos, amadurecer e não desistir, com o risco de me esquecer de citar nomes, que certamente me apoiaram com generosidade, transmissão de conhecimento, paciência, comprometimento político, cuidado e carinho.

Agradeço profundamente à minha orientadora, professora Doutora Arlete Rodrigues, por todo o acima exposto. Que orgulho de ter tido a oportunidade de aprender e trocar, em todos os níveis, com você.

Agradeço, também, com todo o meu coração, à minha família, por seu amor incondicional. Isa, João, Nilda, Mauro e Rafael, vocês são meu Norte! Sem o apoio e o “empurrãozinho” de vocês, nenhuma das linhas do texto abaixo seria possível.

Um agradecimento, também especial, ao meu companheiro Omar Escamilla. Se a vida fosse tão previsível, seguramente não estaríamos hoje juntos! Quantos desencontros para nosso belo reencontro! Você foi imprescindível para a conclusão desse projeto.

Ao Rodrigo Araújo Magalhães, com quem tanto aprendi.

Aos queridos amigos que tanto me acolheram: Aldeci, Dona Antônia, Bené, Eduardo, Thiago, Rosane, Sônia, Priscilla, Patrícia e família, Berti, Leni, Antônio Carlos, Luciana, Antônio Balbino, Nivaldo, Marli, Walkyne, Telmo, Ivone, João, Alexandre, Telma, Regina, Ofélia, Ana Teresa, Jean, Sabrina, George, Sabrina, Emerson, Edson, Edvair, Perla. À sangha da Casazen, especialmente à monja Magda Gyoko-Em, por toda a dedicação e ensinamentos. Aos companheiros da Uruma-kan. Ao Cineclube Espaço Aberto. Ao Eugênio e à cerâmica, arte milenar e alquímica.

Ao Antônio Rabelo, por me ensinar a experimentar!

Ao México e aos amigos mexicanos, em especial a Irma, Felipe, Ulises, Deborah, Luca e Ingrid, pela afetuosa acolhida.

À Fela, por tantas alegrias e amor que trouxe a nossas vidas! A Miguel Angel, David, Marlen e Adrian, pelo apoio imprescindível!

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Aos companheiros do Laboratório da Casa da Arlete Moysés – LACAM – carinhosamente apelidado por Mariana Fernandes, onde podemos nos fortalecer e trocar tanto. A todos os que passaram por lá, especialmente aos com quem pude manter algum tipo de contato e troca: Rodrigo, Vânia, Rafaela, Desiree, John, Leda, Milene, Eliane, Mariana, Fernanda, Leianne, Renata, André, Arthur, Fábio, Alessandra e Leandro. À Lurdes, por sempre nos acolher com tanto carinho na casa da Arlete e com quem, em breves conversas, pude aprender um pouco mais sobre a São Paulo real.

Aos colegas, especialmente, Franck, Mikaela, Sheyla, Vinícius, Igor, Diego, Luciana, Giorlando e aos funcionários e professores da UNICAMP. Aos membros da banca de qualificação: Amelia Damiani e Luciana Tatagiba. Aos membros da banca da defesa!

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La utopía está en el horizonte. Camino dos pasos, ella se aleja dos pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá.

¿Entonces para qué sirve la utopía? Para eso, sirve para caminar.

Eduardo Galeano

(...) um mundo no qual os que desejarem ter pressa poderão fazê-lo livremente e no qual os que não são apressados serão fortalecidos.

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espaços públicos, por meio de uma urbanização cada vez mais responsável por transpor barreiras espaço-temporais e valorizar o ciclo do capital. As ruas, que materializam e simbolizam historicamente a diversidade e o dissenso, vêm sendo radicalmente esvaziadas da presença/interação mais constante das diferentes classes sociais, comprometendo, assim, as múltiplas dimensões da sociabilidade humana. No capitalismo, os trabalhadores circulam, sobretudo, como mercadoria, da casa para o trabalho, do trabalho para a casa, e/ou para adquirirem mercadorias, dentre elas, as relacionadas ao lazer. Soma-se a tudo isso a crescente produção de uma ideologia do medo das ruas, dos espaços públicos coletivos, que contribui ainda mais para que as pessoas não ocupem e permaneçam nos mais variados pontos da cidade. Analisar o processo pelo qual a forma e o conteúdo das cidades transformam o caminhar, práxis humana por excelência, em atividade estranhada, tornando-se, inclusive, mercadoria no capitalismo contemporâneo é o objetivo principal desta Tese. Em decorrência desse processo, também será analisado, dentro de uma perspectiva do direito à cidade, como a problemática do caminhar, como atividade fundamental que contribui para se “criar uma vitalidade urbana alternativa que [seja] menos alienada, mais significativa e divertida”, como salienta Harvey (2014a, p. 11), é compreendida politicamente e transformada em ponto de reivindicação dos movimentos sociais urbanos contemporâneos. Investigar os avanços e os limites de tais ações políticas que lutam pelo direito a se caminhar nas cidades, muitas vezes ancoradas no discurso do desenvolvimento sustentável e da cidade para pessoas, dentre outros, também se constitui objetivo central a ser desenvolvido. A análise crítica a essas mobilizações se dará a partir de uma concepção marxiana das condições necessárias para a efetivação da omnilateralidade humana.

Palavras Chave: Sociologia urbana; Capitalismo; Espaços Públicos; Caminhada; Alienação (Filosofia).

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privatization, by means of an urbanization that is increasingly responsible to overcome space-time barriers and valorize the capital cycle. The streets, which historically materialize and symbolize diversity and dissent, have been radically emptied of the constant presence/interaction of different social classes, compromising, therefore, the multiple dimensions of human sociability. Under capitalism, workers circulate mainly as commodities, from home towards work, from work towards home, or they circulate to acquire goods, among them those related to leisure. Added to all this, the growing production of an ideology of fear of the streets and collective public spaces, which contributes even more so they do not occupy and remain in various parts of the city. The main objective of this thesis is to analyze the processes by which the form and content of the cities transform the act of walking (considered as an eminently human praxis) as an estranged activity, even becoming a commodity under contemporary capitalism. As a result of this process, it will also be analyzed, within a perspective of the right to the city, how the problematic of walking, understood as a fundamental human activity that contributes to “create an alternative urban way of life which is less alienated, more significant and amusing” (HARVEY, 2014a, p. 11), is politically comprehended and transformed into a point of claim for contemporary social movements. A central objective to this research is also to investigate the advances and limits of political actions that struggle for the right to walk in cities. The critical analysis of these mobilizations will occur from a Marxian conception of the conditions necessary for the realization of human omnilaterality.

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fuertemente a privatizar los espacios públicos por medio de una urbanización cada vez más responsable de superar las barreras espacio temporales y revalorizar el ciclo del capital. Las calles, que materializan y simbolizan históricamente la diversidad y el disenso, vienen siendo radicalmente vaciadas de la representación/interacción entre las diferentes clases sociales, comprometiendo, así, las múltiples dimensiones de la sociabilidad humana. En el capitalismo los trabajadores circulan, sobre todo como una mercancía, de la casa al trabajo, del trabajo a la casa y/o para adquirir mercancías, entre ellas algunas relacionadas con el ocio. A todo esto se suma una creciente producción de la ideología del miedo en las calles y en los espacios públicos colectivos que contribuyen aún más a que las personas no ocupen y permanezcan en los diversos puntos de la ciudad. Analizar el proceso por el cual la forma y el contenido de las ciudades transforman el caminar, como praxis humana por excelencia, en una actividad extraña, volviéndose una mercancía en el capitalismo contemporáneo es el objetivo principal de esta Tesis. En el transcurso de este proceso también será analizado, dentro de una perspectiva del derecho a la ciudad, cómo la problemática del caminar como actividad fundamental que contribuye para “crear una vitalidad urbana alternativa [sea] menos alienada, más significativa y divertida”, como destaca Harvey (2014a, p.11), es comprendida políticamente y transformada en puntos de reivindicación de los movimientos sociales urbanos contemporáneos. Investigar los avances y los límites de tales acciones políticas que luchan por el derecho a caminar en las ciudades, muchas veces adheridas en los discursos del desarrollo sustentable y de la ciudad para personas, de entre otros muchos, también constituye el objetivo central a ser desarrollado. Al analizar críticamente las movilizaciones se dará a partir de una concepción marxista de las condiciones necesarias para la efectivización de la omnilateralidad humana.

Palabras Clave: Sociologia urbana; Capitalismo; Espacios Publicos; Caminata; Alienación (Filosofia).

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Figura 01 – Quadro de Heitor dos Prazeres representando a vitalidade das ruas da

periferia da cidade do Rio de Janeiro na primeira metade do século XX ... 54

Figura 02 – Placa indicando “rua particular” ... 62

Figura 03 – Banco “antimendigo” do lado de fora de um prédio residencial de Londres, Inglaterra ... 79

Figura 04 – Caminhada huichole rumo a Wirikuta ... 94

Figura 05 – Refugiados de uma etnia albaneses se deslocando a pé – Guerra do Kosovo (1998-1999) ... 100

Figura 06 – Sapatos de refugiados que realizam longos percursos a pé para fugir da guerra no Sudão – Série de fotografias intitulada, The Long Walk, de Shannon Jensen ... 102

Figura 07 – Crianças centro-americanas cruzando a fronteira México – EUA a pé e sozinhas ... 104

Figura 08 – Sapato anti-pegadas – confeccionado especialmente para não deixar marcas na travessia dos migrantes na fronteira México – Estados Unidos 108 Figura 09 – Cena real de migrantes irregulares atravessando a pé a fronteira desértica entre México e Estados Unidos ... 109

Figura 10 – Trecheiro, carregando seu “gogó da ema”, caminha por rodovia ... 112

Figura 11 – José, trecheiro há 19 anos ... 117

Figura 12 – Caminhada do vendedor ambulante na praia ... 120

Figura 13 – Caminhada do catador de lixo reciclável ... 124

Figura 14 – Jovens em “rolezinho” pelo Shopping Center ... 131

Figura 15 – Jovens que davam “rolezinho” sendo reprimidos por segurança privada em Shopping Center ... 132

Figura 16 – Pessoas com carrinho de bebê tentando atravessar rodovia ... 135

Figura 17 – Pessoas com deficiência visual, caminhando em uma calçada sem qualquer tipo de sinalização específica para a sua orientação ... 138

Figura 18 – Cadeirante vencendo o obstáculo da guia não rebaixada ... 139

Figura 19 – Idoso atravessando a faixa de pedestre ... 140

Figura 20 – Jovem peregrino, em ato de penitência, carregando uma pedra nas costas, adentrando o pequeno portão aberto por “Boa Vontade” ... 144

Figura 21 – Monges zen-budistas praticando Kinhin – meditação andando – no campo ... 147

Figura 22 – Cena do filme Walker, onde um monge, em sua vestimenta vermelha, caminha de forma performática pelas ruas de Hong Kong ... 148 Figura 23 – Protesto, em forma de holograma, contra a lei da “Mordaça” na Espanha 176

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Figura 26 – Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST

marchando em rodovia ... 179

Figura 27 – Marcha 300 anos de Zumbi dos Palmares – 1995, Brasília-DF ... 179

Figura 28 – Marcha das Vadias ... 179

Figura 29 – Parada do Orgulho LGBT – São Paulo-SP ... 179

Figura 30 – Protesto de Junho de 2013, contra o aumento das tarifas de ônibus ... 179

Figura 31 – Protestos anti-corrupção, anti-governo federal, anti-Lula, anti-Dilma, anti-PT – 2015, São Paulo-SP ... 179

Figura 32 – Aparelho de locomoção motorizada urbana – walkcar ... 200

Figura 33 – Publicidade da empresa Walking México: um dia de caminhada na montanha – Nevado de Toluca, México – ao custo de 1600,00 pesos mexicanos. Data do passeio: 18 de outubro de 2015 ... 210

Figura 34 – Exemplos de equipamentos para a realização de caminhada na “natureza” 211 Figura 35 – Parte de um panfleto promocional oferecendo “férias de caminhadas em Portugal” – realizado pela agência de turismo portuguesa Pomarinho ... 218

Figura 36 – Peregrinos no Caminho de Santiago de Compostela – Espanha ... 220

Figura 37 – Pessoas caminhando e correndo nas esteiras de uma academia de ginástica ... 223

Figura 38 – Panfleto de divulgação de serviços de atividade física, incluindo “alongamento, caminhada nutrição e bem-estar” ... 224

Figura 39 – Parte de um panfleto da empresa São Paulo Free Walking Tour, que oferece diferentes tipos de passeios caminhando pela cidade de São Paulo 226 Figura 40 – Campanha publicitária de um mall walkers club, evidenciando-se pela imagem seu público alvo, terceira idade, e a finalidade do clube, fazer compras ... 227 Figura 41 – Passeador(a) de cachorros ... 228

Figura 42 – Piso tátil danificado com um “curativo urbano” ... 251

Figura 43 - Intervenção urbana realizada pelo grupo mexicano, Peatones Primero, consistindo em uma caminhada coletiva pelas ruas da Cidade do México, onde cada participante, de posse dos seguintes materiais: adesivos com os seguintes dizeres – “Sanção cidadã por invadir um espaço pedestre” e filipetas, contendo os artigos do regramento de trânsito metropolitano, que amparam tal sansão; prega-os nos automóveis e obstáculos do mobiliário urbano que impedem ou dificultam o caminhar do pedestre sobre as calçadas ... 252

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Gráfico 1 – Percentual de domicílios particulares permanentes urbanos, segundo as

características do entorno dos domicílios – Brasil, 2010 ... 59 Gráfico 2 – Percentual de domicílios particulares permanentes urbanos, por classe de rendimento nominal mensal domiciliar, segundo as características do

entorno dos domicílios – Brasil, 2010 ... 60 Gráfico 3 – Distribuição dos deslocamentos por modo de transporte, Brasil, 2012 ... 248

LISTA DE QUADROS

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INTRODUÇÃO ... 18

AS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO E O CAMINHAR ESTRANHADO ... 18

O CAMINHAR COMO ATIVIDADE SINGULAR DO SER HUMANO – UMA BREVE DIGRESSÃO ... 20

ALGUMAS NARRATIVAS SOBRE O CAMINHAR – À GUISA DE INTRODUÇÃO ... 23

O CAMINHAR NO URBANO: DE MERCADORIA À LUTA PELO DIREITO A CAMINHAR ... 28

1 A CIDADE COMO ESPAÇO DE ACUMULAÇÃO NO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO ... 32

1.1 O ESPAÇO DAS RUAS COMO ESPAÇO PRIVILEGIADO DE CIRCULAÇÃO DAS MERCADORIAS E DOS VELOZES ... 34

1.1.1 O planejamento urbano e a sociedade do automóvel – conflitos e reações ... 43

1.2 O ABANDONO DAS CALÇADAS AOS PROPRIETÁRIOS PARTICULARES 53 2 O PROCESSO DE PRIVATIZAÇÃO DOS ESPAÇOS PÚBLICOS URBANOS E A CRIAÇÃO E MATERIALIZAÇÃO DA IDEOLOGIA DO MEDO NO/DO URBANO ... 62

2.1 AS ESFERAS PÚBLICA E PRIVADA NA MODERNIDADE ... 63

2.2 A INTENSIFICAÇÃO DO PROCESSO DE PRIVATIZAÇÃO DOS ESPAÇOS PÚBLICOS URBANOS ... 70

2.3 A CRIAÇÃO E A MATERIALIZAÇÃO DA IDEOLOGIA DO MEDO NO/DO URBANO ... 80

3 MUITO ALÉM DO “DOMÍNIO DA CARÊNCIA FÍSICA IMEDIATA” DA NECESSIDADE DE LOCOMOÇÃO – A PLURALIDADE E A COMPLEXIDADE DO CAMINHAR ... 90

3.1 EXPRESSÕES DO CAMINHAR ... 96

3.1.1 Caminhadas involuntárias ... 99

3.1.2 Caminhadas voluntárias ... 142

4 DO INVOLUNTÁRIO AO VOLUNTÁRIO: O CAMINHAR SE TORNA MERCADORIA ... 180

4.1 AS ESPECIFICIDADES DO CAMINHAR ENQUANTO MERCADORIA ... 183

4.2 CONCEITUANDO O CAMINHAR COMO MERCADORIA-SERVIÇO ... 186

4.3 O OLHAR DA MEDUSA E O CAMINHAR SE TRANSFORMA EM MERCADORIA ... 193

4.3.1 Algumas expressões do caminhar como mercadoria onde tudo se transforma em pedra (mercadoria) ... 201

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5.1 MOVIMENTOS SOCIAIS URBANOS CONTEMPORÂNEOS – UMA BREVE

HISTORIZAÇÃO ... 233

5.1.1 Movimentos sociais urbanos contemporâneos que lutam pela mobilidade urbana – privilegiando o transporte público e o não motorizado – e a reapropriação coletiva do espaço público ... 239

5.1.1.1 Movimentos sociais urbanos contemporâneos e a luta pelo direito a se caminhar nas cidades ... 246

5.1.2 O discurso das cidades sustentáveis para pessoas: desenho, planejamento e gestão - breve análise crítica à luz do direito à cidade ... 259

5.1.2.1 Cidades sustentáveis para pessoas ... 262

CONCLUSÕES ... 272

REFERÊNCIAS ... 284

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INTRODUÇÃO

Esta Tese objetiva analisar, por meio de pesquisa bibliográfica e de investigação nas plataformas/mídias digitais (sites, blogs, redes sociais), o processo pelo qual a forma e o conteúdo das cidades transformam, historicamente, o caminhar em atividade estranhada1 (Entfremdung), tornando-se, inclusive, mercadoria no capitalismo contemporâneo. Objetiva, também, investigar alguns tipos de movimentos sociais urbanos contemporâneos que têm como bandeira a luta pelo direito a se caminhar nas cidades, como contraposição a essa realidade urbana estranhada.

Para isso, utiliza-se como método de análise o materialismo histórico-geográfico, onde as relações sociais de produção determinam o sistema metabólico das relações entre homem e natureza, sejam elas, sociais, políticas, econômicas, espaciais ou espirituais (ARANTES; VAINER; MARICATO, 2000; ANTUNES, 2009; BOTTOMORE, 2012; ENGELS, 2004, 2010; HARVEY, 2005, 2009a, 2011; LEFEBVRE, 1969; MARX, 1985, 2004; OLIVEIRA, 1999; RANIERI, 2001; ZIZEK, 2009).

AS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO E O CAMINHAR ESTRANHADO

Partindo-se da concepção da totalidade histórico-social, é possível afirmar o caminhar como: expressão da vida cotidiana, atividade realizada, sobretudo, na “vida fora do trabalho”; ou seja, na “esfera de reprodução societal” é, seguramente, influenciado pelas relações sociais estabelecidas no mundo do trabalho.

1 Segundo Ranieri (2001, p. 132), “temos aqui, então, (...), a definição do fenômeno estranhamento derivado da concentração de três elementos: primeiro, a transformação do produto da atividade humana em uma potência alheia, contraposta ao homem e que o subjuga; segundo, a transformação do produto da atividade humana em um poder objetivo que atua sobre o homem e, terceiro, em um poder que escapou ao controle humano e, como inimigo, torna impossível as expectativas e intenções do ser humano. Enfim, a situação do estranhamento é um fenômeno que aparece como uma condição ao mesmo tempo subjetiva e objetiva (...)”. Ainda de acordo com Ranieri (2001), o conceito de estranhamento (Entfremdung) se diferencia do conceito de alienação (Entäusserung), nos escritos de Marx, embora façam parte de uma mesma unidade articulada pelo elemento fundante da sociabilidade humana, o trabalho. “A consideração das formas históricas que a organização do trabalho assume na sociedade – assim como das formas correspondentes de estruturação da propriedade e, portanto, da apropriação dos meios e processos de trabalho – parece ter permitido a Marx [...] perceber o grau de determinação plasmador da problemática do estranhamento e da alienação [...]. Nesse sentido, Entäusserung carrega o significado de exteriorização, um dos momentos da objetivação do homem que se realiza através do trabalho num produto de sua criação. Por outro lado, Entfremdung tem o significado de real objeção social à realização humana, na medida em que historicamente veio a determinar o conteúdo das exteriorizações (Entäusserunge) por meio tanto da apropriação do trabalho como da determinação desta apropriação pelo surgimento da propriedade privada [...]. Enfim, a unidade existente entre alienação e estranhamento no interior da teoria de Marx está associada, a nosso ver, não exatamente a uma mesma significação, mas à determinação de uma pelo outro [...]” (RANIERI, 2001, p. 23-24, grifos do autor).

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Guiado pela necessidade de expandir-se constantemente (reprodução ampliada do capital), o “sistema de metabolismo societal do capital” (ANTUNES, 2009)2 trava uma luta intensa ao longo de sua história, a fim de obter o controle sobre o tempo de produção e reprodução da vida social. O violento e contínuo processo de transformação da medição do tempo em “uso-econômico-do-tempo” para exploração da força de trabalho, impõem, como relata Thompson, por meio da “divisão de trabalho, supervisão do trabalho, multas, sinos, relógios, incentivos em dinheiro, pregação e ensino, supressão das feiras e dos esportes –, novos hábitos de trabalho e de disciplina de tempo” (THOMPSON, 1998, p. 297):

Se o preguiçoso esconde as mãos no colo, em vez de aplicá-las ao trabalho;

se ele gasta o seu tempo em passeios, prejudica a sua constituição pela preguiça, e entorpece o seu espírito pela indolência [...]”, então ele só pode esperar a pobreza como recompensa. O trabalhador não deve flanar na praça do mercado, nem perder tempo fazendo compras. Clayton

reclama que “as igrejas e as ruas [estão] apinhadas de inúmeros espectadores” nos casamentos e funerais, “os quais apesar da miséria de sua condição faminta [...] não têm escrúpulos em desperdiçar as melhores horas do dia só para admirar o espetáculo [...]”. (Rev. J. CLAYTON apud THOMPSON, 1998, p. 291-292, grifo nosso).

Assim, o modo de produção capitalista, com sua incessante necessidade em revolucionar seus próprios meios de produção, não converteu a utilização dos benefícios tecnológicos em diminuição da exploração humana (ENGELS, 2010). Ao contrário, o homem perdeu o posto de produtor direto para sentinela da maquinaria. Como diz Marx (1985), a modernidade conseguiu fragmentar a unidade entre cabeça e mão.

Em termos gerais, o fenômeno do estranhamento no capitalismo fez com que o ser humano perdesse não só sua consciência, mas também a capacidade de perceber seus sentidos, como se não tivesse mais controle sobre eles:

A formação dos cinco sentidos é um trabalho de toda a história do mundo até aqui. O sentido constrangido à carência prática rude também tem apenas um sentido tacanho. Para o homem faminto não existe a forma humana da comida, mas somente a sua existência abstrata como alimento; (...), e não há como dizer em que esta atividade de se alimentar se distingue da atividade animal de alimentar-se. O homem carente, cheio de preocupações, não

tem sentido para o mais belo espetáculo (...). (MARX, 2004, p. 110, grifo

nosso).

2 Cabe registrar que Antunes (2009) utiliza a concepção de “sistema de metabolismo societal do capital” em diálogo com o filósofo István Mézsáros, sobretudo em sua obra Para além do capital.

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O ser humano se tornou alienado3 dos seus sentidos: “ver, ouvir, cheirar, degustar, sentir, pensar, intuir, perceber, querer, ser ativo, amar, enfim, todos os órgãos de sua individualidade” (MARX, 2004, p. 108)se tornaram alheios. A divisão do trabalho material e intelectual e a concorrência imposta pelo capital criaram obstáculos para que a classe destituída dos meios de produção pensasse suas condições de existência, assimilando o espírito “universal” da classe dominante.

Dessa forma, o caminhar, como uma das atividades primevas, primordiais do ser humano, sendo um dos elementos que o diferencia dos outros animais, é reduzido a sua dimensão instrumental, cumprindo, na maioria das vezes, sua função mais elementar, biológica, porque não dizer, animal, que é o mero deslocamento em busca da sobrevivência corpórea da força de trabalho.

Assim, como poderá ser visto no desenvolvimento do texto, a potencialidade do caminhar, em termos de uma atividade liberta/libertadora do indivíduo e do gênero humano, que pode estimular o desenvolvimento do ser genérico4, onde o ser humano passa a “se relaciona[r] consigo mesmo como um ser universal, por isso, livre” (MARX, 2004, p. 84), é submetida a uma rotina de relações reificadas5.

O CAMINHAR COMO ATIVIDADE SINGULAR DO SER HUMANO – UMA BREVE DIGRESSÃO

O caminhar é uma das atividades vitais que constituem o ser humano. Mugiatti (2006), na apresentação do famoso livro de H. D. Thoreau (2006), Caminhando, afirma

3 Bottomore recupera as quatro formas de alienação observadas por E. Schachtel; “a alienação do homem em relação à natureza, em relação a seus semelhantes, em relação ao trabalho de suas mãos e espírito, e em relação a si mesmo” (BOTTOMORE, 2012, p. 11).

4 Para Barros, “[...] nos Manuscritos de 44, Marx define o homem enquanto ser genérico para destacar, como contraponto, o estranhamento do homem consigo mesmo. Na esfera geral da alienação das relações humanas, este conceito designa também o estranhamento da sociedade civil autocindida em virtude do modo pelo qual os indivíduos produzem e reproduzem sua existência no sistema capitalista” (BARROS, 2006, p. 29). Já Ranieri afirma que, “[...] para Marx, a reposição do ser genérico (...) só pode efetivar-se a partir do gênero humano que, por sua vez, não se põe como elemento emancipado sem a concorrência do indivíduo autodeterminado) só pode acontecer a partir da suplantação da divisão do trabalho, da propriedade privada e da troca, ou seja, somente por meio da superação da divisão social do trabalho é que se pode concebê-lo a partir do seu caráter social genérico” (RANIERI, 2001, p. 17).

5 Foi pensando na materialidade das relações sociais baseadas na troca de mercadoria que Marx procurou mostrar o caráter fetichista do modo de produção capitalista. As relações entre os seres humanos tornam-se reificadas: os produtos humanos se objetificam, passam a ser vistos e experienciados como separados do seu produtor, assumindo um curso independente e autônomo. Nessas condições o próprio produtor assume a forma de mercadoria ao se tornar alheio dos meios de produção e expropriado de uma parte significativa do produto de sua força de trabalho. Esses fatores levam o ser humano a separar-se de si enquanto gênero ao ressaltar como meta a vida individual, perde seu caráter universal que não está apenas preso às necessidades imediatas (MARX, 2004).

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inclusive que o “ando, logo existo” veio antes do cartesiano “penso, logo existo”. Porém, pode-se afirmar que, por sua aparente simplicidade e cotidianidade, o caminhar foi, por muito tempo, naturalizado, tornando-se invisível enquanto objeto de pesquisa, de investigação mais pormenorizada.

Balzac (2009), em sua Teoria do Mover-se, acreditava que, por meio da intuição e da observação acerca do mover-se humano, era possível traçar um diagnóstico do estado mental dos indivíduos e da sociedade de sua época. Chamava a atenção, em tom jocoso e irônico, para o fato de que, em seu tempo, ninguém se interessava pelos elementos psicológicos, filosóficos e políticos desse mover-se humano:

Não é mesmo extraordinário ver que, desde que o homem se move, ninguém se tenha perguntado porque ele se move, como se move, se o faz, se pode se mover melhor, o que faz ao se mover, se não há meio de impor, de mudar, de analisar seu mover-se: não são questões que dizem respeito a todos os sistemas filosóficos, psicológicos e políticos com os quais se preocupou o mundo? (BALZAC, 2009, p. 92-93).

Num misto de crítica à ciência moderna, que tudo quer simplificar e traduzir em fórmulas, e à sociedade burguesa, que corrompe e adultera o pensamento, o caráter, os hábitos e os costumes cotidianos, Balzac (2009) se vale de teses antagônicas para, de um lado, atacar o mover-se dito civilizado, bem como o excesso e a própria moderação desse mover-se, que estão permeados por vícios e artificialidades advindos da má educação burguesa. Sintetizando seu pensamento, o escritor exasperado afirma: “A civilização corrompe tudo! Adulterou tudo, mesmo o movimento!” (BALZAC, 2009, 149).

Considerado por muitos um verdadeiro mistério, Stallybrass (2008) retoma a mitologia grega, mais precisamente o enigma da Esfinge, para tratar do mais profundo significado do caminhar. Édipo, filho de Laio e Jocasta, derrotaria a Esfinge ao responder o seguinte enigma: “qual é a criatura que caminha com quatro pés pela manhã, dois ao meio-dia e três à noite?”.

A resposta certeira de Édipo, o ser humano, traz à luz a singularidade do caminhar, enquanto atividade eminentemente humana. Porém, Stallybrass (2008, p. 86-87) chama a atenção de que este “não se trata de um elemento constante de nossas vidas (...) aprendemos com dificuldade (...). [...] Quando se caminha é fácil achar isso natural”.

Ainda que seja uma atividade vital, caminhar exige um processo inicial de aprendizado. Para se dar os primeiros passos, necessita-se de “três pés” que darão apoio, sustentação à formação do ser caminhante. Geralmente, os adultos cumprem essa função de

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terceiro pé externo e, aos poucos, ainda bebê, o ser humano vai internalizando esse terceiro a tal ponto que já não necessita dele mais externamente, até atingir a velhice, carecendo outra vez de um apoio externo.

Stallybrass (2008) também recorda que Édipo significa pés inchados6, ou seja, provavelmente, o herói tebano justamente consiga decifrar o enigma porque, para ele, o caminhar não era tarefa simples, “natural”. Vivia com constantes dificuldades em locomover-se. Tampouco, quem lhe propôs o enigma podia caminhar. A Esfinge, por sua vez, era uma criatura que se movia sobre quatro patas e que também podia voar. Nesse sentido, “o enigma do pé deve sua eficácia ao fato de que o pé é algo que normalmente não merece atenção” (STALLYBRASS, 2008, p. 91). “[...] Ele nos faz lembrar que um dos aspectos centrais do ser humano é a possibilidade de caminhar” (STALLYBRASS, 2008, p. 99).

Ainda, Stallybrass (2008) recupera os trabalhos de Primo Levi, E isto um

homem?, e, A trégua, para meditar sobre as invisíveis, mas necessárias, precondições do

caminhar. Segundo o autor, o químico e escritor italiano relata que, como tática sutil de eliminação em massa, os nazistas frequentemente trocavam os sapatos dos prisioneiros nos campos de concentração. Aqueles prisioneiros que não conseguiam sapatos que coubessem em seus pés descobriam, rapidamente, que não poderiam caminhar por muito tempo, já que os sapatos machucariam seus pés. “Incapazes de caminhar e, portanto, de trabalhar, [seriam] imediatamente dispensáveis” (STALLYBRASS, 2008, p. 98).

Se por um lado, como denuncia Balzac (2009), houve um negligenciamento histórico, por parte de diversos ramos do conhecimento mais sistematizados, em se debruçar sobre o assunto do mover-se, por outro, contraditoriamente, o tema do caminhar vem exercendo fascínio e admiração, sendo objeto de inúmeras reflexões e escritos por parte de viajantes, andarilhos, peregrinos, filósofos, artistas, etc., ao longo dos tempos.

Porém, talvez, vale a pena arriscar-se em dizer que foi somente com Walter Benjamin, e sua formulação conceitual do flanêur no espaço urbano capitalista, por meio da poesia de Charles Baudelaire que o tema do caminhar ganhou relevo e atenção mais sistematizada das diversas áreas do conhecimento científico.

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ALGUMAS NARRATIVAS SOBRE O CAMINHAR – À GUISA DE INTRODUÇÃO

De maneira resumida, alguns elementos históricos devem, inicialmente, ser elencados para ilustrar a perda de centralidade do caminhar nas sociedades urbanas modernas: o advento das descobertas técnico-científico-informacionais, como por exemplo, com a criação do motor, otimizando radicalmente a velocidade humana ao longo da história, inclusive, criando-se um ritmo de vida “superexcitado” (BENJAMIN, 1989; HARVEY, 2005; SANTOS, 2008; VIRILIO, 1998); o processo de sedentarização e previsibilidade impostas pelo capitalismo (ENGELS, 2010; MAFFESOLI, 2002; THOMPSON, 1998), consequentemente, a prevalência de uma razão instrumental e a construção de uma ética do trabalho (protestante) (HABERMAS, 1984; WEBER, 2004), que cria definitivamente a dualidade trabalho/lazer e ataca os homens lentos e “vagabundos” (SANTOS, 2008; THOMPSON, 1998); a criação de instituições de controle soberano e docilização dos corpos em um projeto, autodenominado, civilizador (AGAMBEN, 2007; ELIAS, 1990; FOUCAULT, 2013); e, a gradual expulsão dos indivíduos dos espaços públicos de interação urbana, logo, o crescente isolamento em seus interesses privados (BAUMAN, 1999, 2001, 2003; HARVEY, 1992), podem ser algumas pistas iniciais para se pensar a constante perda de centralidade do caminhar nas sociedades urbanas modernas.

Parafraseando Wright Mills (2009), mesmo diante desse cenário é possível encontrar, ao longo da história, inúmeras narrativas de experiências relacionadas ao caminhar, que se acercaram à concretização de um “caminhar artesanal”. Fascínio e encantamento são alguns dos sentimentos gerados, tanto para quem vivenciou diretamente tais experiências, como para quem as “saboreou”, pelas vias do compartilhamento oral e/ou escrito7.

Mills (2009), ao elaborar a metáfora bastante inventiva sobre o tipo ideal do “artesão intelectual” destacou, dentre outros elementos, que “no padrão do artesão não há ruptura entre trabalho e diversão, entre trabalho e cultura”, devendo, assim, ser, também, o padrão do intelectual em seu “ofício”. O “caminhar artesanal” seria, assim, este caminhar não estranhado, onde a tríade lefebvriana “necessidade, trabalho e fruição” estaria contida no próprio ato de caminhar.

7 No Capítulo 3 serão analisadas, de forma mais detida, narrativas e sínteses de diversos autores sobre o caminhar.

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Realizando, aqui, um breve exercício de livre imaginação, é bastante estimulante observar como o termo “artesanal” pode conter alguns elementos que iluminam a compreensão da potencialidade desse caminhar não estranhado8.

Por mais evidente que pareça, vale relembrar que, para se caminhar, o ser humano não necessita da mediação de qualquer espécie de maquinário externo, apenas seu próprio corpo. Independentemente de estranhado ou não, o caminhar contém, assim, esse aspecto artesanal, rudimentar, primeiro, na sua própria constituição. O movimento do caminhar advém, assim, da dinâmica originária intrínseca ao próprio corpo.

Porém, para caminhar de forma artesanal, o caminhante deve, como qualquer outro artesão, estar de posse dos meios de produção que satisfaçam a sua condição de existência e que, assim, o libertam dos grilhões que o impedem de realizar tal caminhar. Só assim, por meio dessa emancipação individual e coletiva, o “caminhar artesanal” pode produzir um alto grau de satisfação ao ser universal, podendo o caminhante se identificar com o produto “caminhar” que ele realiza, adequando a velocidade dos seus passos e da sua reflexão à sua condição de lentidão.

Cabe destacar, ainda, que o caminhante em seu “caminhar artesanal”, pelo menos em um primeiro momento, não considera a produtividade de seus quilômetros percorridos como elemento central e definidor da sua atividade. Cada caminhada e experiências derivadas desse caminhar possuem uma qualidade única, distinta das demais, e, por isso, valorizadas em si mesmas. Longe da experiência do caminhar da mercadoria força de trabalho, onde se marcha em série, nunca há um “caminhar artesanal” igual a outro, o que contribui para a riqueza dessa experiência.

É dentro desse cenário que as visões poéticas dos autores a seguir, de momentos históricos e espaciais diferentes, convidam a se refletir sobre as potencialidades deste “caminhar artesanal”.

Um dos maiores poetas japoneses, Matsuô Bashô, no século XVII, abandonou a casta dos samurais e passou o resto de sua vida caminhando, em uma espécie de busca fenomenológica por meio da retomada das experiências sensoriais para produção de suas poesias:

8 Cabe chamar a atenção para o fato de que a ideia do “caminhar artesanal” aqui compreendida não significa um rechaço ao desenvolvimento das forças produtivas, diferentemente do que pregava o movimento romântico do final do século XVIII em diante.

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Tudo o que via me convidava a viajar e estava tão possuído pelos deuses que não podia dominar meus pensamentos. Os espíritos do caminho me faziam

sinais e descobri que não podia continuar trabalhando. Remendei minhas

calças rasgadas e troquei as tiras do meu chapéu de palha. A fim de fortalecer as pernas para a viagem, untei-me de moka queimada. Logo a ideia da lua na ilha de Matsushima começou a apoderar-se de meus pensamentos. Quando vendi minha cabana e me mudei para o sítio de Sampu para esperar ali o dia da partida, pendurei este poema numa viga de minha choça: “A cabana de ervas secas/ (o mundo tudo muda) / vira casa de bonecas”. (MUGIATTI, 2006, p. 17, grifo nosso).

O segundo exemplo, a seguir, ilustra o papel do caminhar como expressão de resistência na tentativa de reconstituição de uma moralidade e de um comportamento humano que pretendem retomar o vínculo natureza/ser rompido por meio do processo de alienação9 oriundo da divisão do trabalho na modernidade – e é narrado pelo diretor de cinema expressionista alemão, Werner Herzog.

Ao saber que sua grande amiga e crítica de cinema, Lotte Eisner, estava muito doente, prestes a morrer em Paris, Herzog se empenha em uma longa jornada a pé, de Munique, na Alemanha, à capital francesa, na crença de que tal ato poderia salvar a amiga.

Em um inverno rigoroso, com muita neve e chuvas torrenciais, Herzog se priva de qualquer tipo de conforto que pudesse facilitar seu caminho. Por meio do processo de uma solidão profunda e de encontros inusitados com pessoas e situações diferentes ao longo do seu percurso, o cineasta imprime em sua biografia uma verdadeira miscelânea de experiências que vão deixar marcas profundas em sua vida:

O que resta a acrescentar: Fui ver a Eisnerin, que ainda estava cansada e marcada pela doença. Na certa, alguém lhe dissera por telefone que eu vinha a pé, eu não queria contar. Fiquei embaraçado e estiquei minhas pernas doloridas sobre uma segunda cadeira que ela me empurrou. Naquele embaraço, uma palavra me atravessou o espírito, e como a situação por si já era estranha, eu a disse. Juntos, falei, vamos cozinhar um fogo, e deter os peixes. Então ela me olhou com um fino sorriso e, como sabia que eu era

um homem a pé e, portanto, sem defesa, me compreendeu. Por um instante fino e breve, algo suave atravessou meu corpo exausto. Eu disse: abra a janela, há alguns dias aprendi a voar. (HERZOG, 1982, p.

76-77, grifo nosso).

9 Segundo Mészáros, o conceito marxiano de alienação “caracteriza-se, portanto, pela extensão universal da ‘vendabilidade’ (isto é, a transformação de tudo em mercadoria); pela conversão dos seres humanos em ‘coisas’, para que eles possam aparecer como mercadorias no mercado (em outras palavras: a ‘reificação’ das relações humanas); e pela fragmentação do corpo social em ‘indivíduo isolado’ (vereinzelte Einzelnen). Que perseguem seus próprios objetivos limitados, particularistas, ‘em servidão à necessidade egoísta, fazendo de seu egoísmo uma virtude em seu culto de privacidade” (MÉSZÁROS, 2006, p. 39).

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Dentro desse contexto, para Toniol (2011, p. 30), o caminhar deve ser analisado “como prática capaz de produzir sentidos sobre o corpo e a paisagem. Isto é, trata-se de percebê-l[o] não apenas como efeito de modos de ‘experimentar-o-mundo’ já instituído, mas como ação produtora de sentido sobre o mundo”. Assim, o caminhar, além de deslocamento do próprio corpo que caminha, é também um “deslocamento de subjetividade do caminhante” e engajamento “no mundo em que caminha”, produzindo trocas de experiências corporificadas, “intercorporeidades” (TONIOL, 2011, p. 31).

Partindo para o âmbito do urbano, propriamente dito, também são inúmeras as experiências e narrativas elaboradas, ao longo da constituição das cidades modernas, que privilegiam o “elogio aos errantes” (JACQUES, 2012), como forma de resistência ao estranhamento, domesticação, anestesiamento e espetacularização das relações urbanas.

O errante urbano estaria em busca, por meio de experiências não planejadas, sem objetivos precisos, de uma alteridade radical, dispondo-se a se arriscar nesse encontro imprevisto com o Outro. Esse “homem lento voluntário”10 (JACQUES, 2012) constrói a sua própria cartografia e nela se move com o objetivo de experimentar o percurso, as interações, as situações. A funcionalidade do ato de andar para se deslocar de um local a outro em uma cidade (não) planejada é abandonada (crítica ao urbanismo moderno), optando-se, ao contrário, pela experiência de se perder na multidão e investigar os espaços antes não percorridos.

Nesse sentido, Jacques (2012) recupera o belo trecho do relato de Mário de Andrade, quando esteve em Salvador, período em que realizou uma série de expedições etnográficas a diversas regiões do Brasil na década de 1920, reunidas em seu livro O turista

aprendiz: viagens etnográficas, sendo essas experiências fundamentais para a elaboração do

seu pensamento antropofágico:

Gosto de banzar ao andar pelas ruas das cidades ignoradas... aqui tive a impressão de estardalhaço contínuo. Parece incrível que se tivesse construído uma cidade assim... Ruas que tombam, que trepam, casas apinhadas e com tanto enfeite que parecem estar cheias de gente nas janelas, o barulho nem é tamanho assim, porém dá a impressão de enorme, um enorme grito. A sensação de simultaneidade é feroz, lembra cinema alemão. Os bondes para desembarcar num plano, tombam de banda e passam pela cabeça da gente. Vêm cheios de moços de branco dependurados até nas torres curtas das igrejas. Torcem por cantos inconcebíveis como pontes-dos-suspiros, fachadas paradas na porta da rua, atravancando o trânsito. Um

10 Segundo Jacques (2012, p. 286), o “errante urbano seria como um homem lento voluntário, intencional, consciente de sua lentidão, que assim, de forma crítica, se nega a entrar no ritmo mais acelerado, um movimento do tipo rápido, ao afirmar claramente sua lentidão voluntária”.

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largo e três igrejas de repente. Para chegar na cidade alta, a gente dá de cara com mais outra igreja de teatro, num trânsito vivo de gente irregular, todos os matizes, gente de enfeite, gente posta ali pra gente ver. S. Salvador me atordoa vivida assim a pé num isolamento de inadaptação que dá vontade de chorar, é uma gostosura. É uma cidade justamente o contrário do Rio de Janeiro que se goza mais de automóvel. S. Salvador não. E nem é tanto a questão de apreciar os detalhes churriguerescos dela, é questão do sabor físico que dá a passeada a pé. O automóvel isola o observador do estardalhaço ambiente. Passear a pé em S. Salvador é fazer parte dum

quitute magnificamente e ser devorado por um gigantesco deus Ogum, volúpia quase sádica, até. (ANDRADE, 2002, diário de 1927 publicado em

1943, apud JACQUES, 2012, p. 109-110, grifos no original).

Partindo de uma perspectiva fenomenológica merleau-pontyana (NOBREGA, 2008), observa-se que o caminhar urbano propicia experiências intersubjetivas, lideradas pela interação face a face cotidiana. Para Schutz, “tal intersubjetividade só se dá na esfera da vida prática” (apud COLTRO, 2000, p. 41). Assim, o conhecimento advindo da experiência do caminhar é mediado pela “percepção como atitude corpórea”, onde “a apreensão do sentido ou dos sentidos se faz pelo corpo, tratando-se de uma expressão criadora, a partir dos diferentes olhares sobre o mundo” (NOBREGA, 2008, p. 142).

Segundo o método fenomenológico, a consagração do Iluminismo, ao elevar a razão como medida absoluta do acesso a realidade, relegou “o sujeito encarnado”, como produtor privilegiado de conhecimento. A Fenomenologia busca romper com a dualidade mente e corpo, sobretudo, a supremacia da primeira pela segunda, e resgata nos movimentos corpóreos, correlacionados “com [o espaço], o tempo, o Outro, a afetividade, o mundo da cultura e das relações sociais”, fonte de aprendizagem do mundo social vivido (NOBREGA, 2008).

Assim, segundo Jacques (2012), as experiências corpóreas lúdicas e reflexivas urbanas, por exemplo, produziram narrativas erráticas importantes, que podem ser divididas em três momentos históricos: i) flanâncias, de meados e final do século XIX até o início do século XX; ii) deambulações, dos anos 1910-30; e iii) derivas, dos anos 1950-7011:

O primeiro momento, flanâncias, corresponde principalmente à recriação da figura do flâneur em Baudelaire, no Spleen de Paris ou no Les fleurs du mal, tão bem analisada por Walter Benjamin nos anos 1930. Benjamin também praticou a flânerie, principalmente em Paris e em suas passagens cobertas, ou seja, as flanâncias urbanas, a investigação do espaço urbano pelo flâneur. O segundo momento, deambulações, corresponde às ações dos dadaístas e surrealistas, às excursões urbanas por lugares banais, às deambulações

11 As flanâncias serão brevemente analisadas, a seguir, no próximo item. Já as deambulações e derivas, por sua vez, serão analisadas no Capítulo 3, respectivamente.

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aleatórias organizadas por Aragon, Breton, Picabia e Tzara, entre outros. [...]. Já o terceiro e último momento, derivas, corresponde ao pensamento urbano dos situacionistas, uma crítica radical ao urbanismo moderno, que também desenvolveu a noção de deriva urbana, de errância voluntária pelas ruas, principalmente nos textos e ações de Debord, Vaneiguem, Jorn ou Constant. (JACQUES, 2012, p. 33, grifos no original).

Como se pode observar, há muitas narrativas que destacam a centralidade do caminhar, do estar livre, liberto das amarras sociais, de uma sociedade que se encontra em crise com a sua própria sociabilidade (BRYSON, 1999; CARERI, 2013; COVERLEY, 2014; GROS, 2010; JACQUES, 2012; KEROUAC, 2004; LABBUCCI, 2013; LE BRETON, 2011; LONDON, 2008; SCHELLE, 2001; SOLNIT, 2001; THOREAU, 2006; VERANI, 2013).

Essas narrativas sintetizam, por exemplo, as aventuras de um conjunto de indivíduos, embora em sua maioria ligados a uma fração da classe média trabalhadora ou da classe capitalista, que conseguiram, de alguma forma, materializar a expressão Wanderlust (SOLNIT, 2001), ou seja, o desejo de viajar, em toda sua extensão física e filosófica. Desejo esse de caminhar sem destino ou finalidade, de estar aberto para experimentar o novo pela reconciliação do corpo, da mente e das relações, cindidos pelos processos históricos de reificação humana.

Hippies, bossiaks, squatters, beatniks, flâneurs, clochards, todos eles rebeldes da

estrutura burguesa de dominação, por meio de suas experiências vividas como “nômades sociais”, se rebelaram contra o racionalismo e o individualismo triunfantes da modernidade.

O CAMINHAR NO URBANO: DE MERCADORIA À LUTA PELO DIREITO A CAMINHAR

Para além das experiências andarilhas individuais, Walter Benjamin, analisando entre o final do século XVII e o início do século XIX, testemunha a emergência de um tipo social cujo caminhar é central na constituição de sua moralidade – o flâneur: andarilho tipicamente urbano, produto de uma sociedade capitalista individualizada e com vínculos coletivos comprometidos, cujo caminhar desinteressado simbolizou sua arma política para se contrapor à divisão do trabalho e à demanda crescente por produtividade impostas por este sistema:

[O flâneur] ocioso, caminha com uma personalidade, protestando assim contra a divisão do trabalho que transforma as pessoas em especialistas. Protesta igualmente contra a sua industriosidade. Por algum tempo, em torno

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de 1840, foi de bom-tom levar tartarugas a passear pelas galerias. De bom grado, o flâneur deixa que elas lhe prescrevessem o ritmo de caminhar. Se o tivessem seguido, o progresso deveria ter aprendido esse passo. Não foi ele, contudo, a dar a última palavra, mas sim Taylor, ao transformar em lema: ‘Abaixo a flânerie!’ (BENJAMIN, 1989, p. 50-51).

A emergência dessa reação individual, propositalmente lenta, preguiçosa, improdutiva, foi sistematicamente perseguida por um sistema que tudo necessita controlar e transformar em valor de troca, inclusive, a própria cidade (ARANTES; VAINER; MARICATO, 2000). O efeito de tudo isso é que o caminhar, como um dos elementos definidores da condição humana, foi expropriado do ser humano a tal ponto que reaparece, sobretudo no final do século XX e início do XXI, como luta pelo direito a se caminhar12:

Entretanto, assim como a literatura se vê ameaçada pela proliferação da imprensa e a pintura pela produção industrial da fotografia, o flâneur encontra seu lado obscuro no mundo da fábrica. (...) O ritmo do mundo da indústria, para falarmos como Georges Friedmann, promove o trabalho em migalhas, anônimo, intercambiável. O fordismo pressupõe a anulação do indivíduo, sua subordinação a uma engrenagem que o envolve e o ultrapassa.

Caminhar, olhar, descrever, torna-se atos improdutivos. (ORTIZ, 2000,

p. 25, grifo nosso).

Refletir sobre a luta por esse direito no urbano torna-se, portanto, interessante forma de se reconstituir a extensão da violência sistêmica própria do capitalismo (ZIZEK, 2009). Ao contrário do caminhar espetacularizado13 contemporâneo, quando se toma o exemplo do flanêur do século XIX, é possível notar em seu comportamento social um ato de ousadia, de rebeldia, e, mesmo, de uma certa radicalidade, por mais que esse fosse o resultado de uma contestação individual.

Já o caminhar de hoje se concretiza, muitas vezes, na forma mercadoria, onde o valor de troca se sobrepõe ao valor de uso (MARX, 1985). De maneira sucinta, como será

12 Para um conhecimento mais detido sobre algumas mobilizações urbanas contemporâneas que lutam pelo direito a se caminhar nas cidades, vide, por exemplo, Walk 21, com especial ênfase na Carta Internacional do Caminhar, <http://www.walk21.com>, bem como, a Federação Internacional dos Pedestres, onde é possível encontrar um conjunto links de sites dessas mobilizações, em diversos países, http://www.pedestrians-int.org/>. Mais adiante, no Capítulo 5, trabalhar-se-á mais profundamente sobre o tema.

13 Segundo Debord, o espetáculo constitui-se em “(...) ideologia por excelência, porque expõe e manifesta em sua plenitude a essência de todo sistema ideológico: o empobrecimento, a sujeição e a negação da vida real. O espetáculo é, materialmente, “a expressão da separação e do afastamento entre o homem e o homem”. A “nova força do embuste” que nele se concentrou tem por base essa produção, pela qual “com a massa de objetos cresce... o novo domínio dos seres estranhos a quem o homem fica sujeito”. É o estágio supremo de uma expansão que fez com que a necessidade se oponha à vida. “A necessidade de dinheiro é a verdadeira necessidade produzida pela economia política, e a única necessidade que ela produz” (Manuscritos econômico-filosóficos). O espetáculo estende a toda a vida social o princípio que Hegel, na Realphilosophie de Iena, concebe como o do dinheiro: é “a vida do que está morto se movendo em si mesma” (DEBORD, 1997, p. 138-139, grifo nosso).

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analisado aqui, pode-se afirmar que, por mais que existam grupos não comerciais de prática de caminhada, seja no rural ou urbano, sejam longas caminhas ou de curta distância, a possibilidade de concretização desse caminhar está submetida a uma série de condicionantes que determinam a quem é permitido ou não praticar tal atividade, como, por exemplo: possuir tempo para o lazer; se distante, dispor de um meio de transporte que leve o caminhante ao local da caminhada, de preferência transporte individual motorizado, como o carro, já que o transporte público muitas vezes não percorre itinerários distantes, isolados, de difícil acesso, afastados dos centros de produção; também é necessário, às vezes, pagar ingresso para se entrar no local das caminhada, como parques de preservação ambiental, por exemplo; e, dentro da lógica prevalente do consumo, possuir equipamentos cada vez com mais alta tecnologia para que essas caminhadas se deem de forma “segura”, “confortável”, sejam na “natureza” ou nas cidades.

É certo que, para se entender a extensão do caminhar estranhado como mercadoria, bem como a emergência da luta pelo direito a se caminhar nas cidades, deve-se compreender o espaço urbano como espaço privilegiado do capitalismo contemporâneo para se resolver as crises cíclicas do capital e as tensões e contradições provocadas pela apropriação, controle e ordenamento do uso do solo e o problema da questão fundiária (ARANTES; VAINER; MARICATO, 2000; HARVEY, 2005, 2009A, 2011; LEFEBVRE, 1969).

Diante desse contexto geral, a Tese se encontra estruturada em cinco capítulos. No primeiro capítulo, intitulado A cidade como espaço de acumulação no capitalismo

contemporâneo, procurar-se-á analisar o processo contemporâneo de transformação da cidade

em chão da fábrica, onde o espaço de circulação no urbano passa a ter grande importância para a fluidez dos fluxos do capital e do trabalho, em um processo de anulação do espaço pelo tempo, onde os trabalhadores circulam, sobretudo, como mercadoria, da casa para o trabalho, do trabalho para a casa, e/ou para adquirirem mercadorias.

Já no segundo capítulo, O processo de privatização dos espaços públicos urbanos

e a criação e materialização da ideologia do medo no/do urbano, pretende-se analisar como a

estruturação do espaço urbano, dentro da ordem social neoliberal, contribui fortemente para a privatização de espaços públicos no capitalismo. As ruas, que historicamente materializam e simbolizam a diversidade e o dissenso, vêm sendo radicalmente esvaziadas da presença/interação mais constante das diferentes classes sociais, comprometendo, assim, as múltiplas dimensões da sociabilidade humana. Soma-se a tudo isso a crescente produção de uma ideologia do medo das ruas, dos espaços coletivos, que contribui ainda mais para que as

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pessoas não estejam presentes, por exemplo, em algumas regiões dos centros urbanos. Despolitização e agorafobia se tornam palavras-chave para se compreender os efeitos sociais causados pelo declínio dos que caminham nos diferentes horários e espaços das cidades.

Já no terceiro capítulo, Muito além do “domínio da carência física imediata” da

necessidade de locomoção – a pluralidade e a complexidade do caminhar, será abordado

como o caminhar se materializa, ao longo da história, das mais diversas formas: desde as experiências mais estranhadas às que mais se aproximam da realização genérica do ser social. Diante da miríade de manifestações do caminhar, aventurar-se-á em propor a sistematização de algumas expressões do caminhar na contemporaneidade, com o objetivo principal de ilustrar a complexidade de tipos de caminhar existentes, ligados a distintas finalidades e circunstâncias.

Por sua vez, no quarto capítulo, Do involuntário ao voluntário: o caminhar se

torna mercadoria, será possível observar como o tempo fora do trabalho, o tempo do lazer, o

tempo da diversão, se tornam um prolongamento do processo de acumulação no capitalismo tardio, onde os shopping centers, por exemplo, definidos como as “catedrais das mercadorias” (PADILHA, 2008), passam a ser os modelos ideais de divertimento e interação social. Dentro dessa lógica do lazer pela via do consumo, o caminhar também se transforma em mercadoria, exacerbando a passagem de condição de atividade primordial e constituidora da condição humana para privilégio de classe.

Por fim, no quinto capítulo, Movimentos sociais urbanos contemporâneos e a luta

pelo direito a se caminhar nas cidades, procurar-se-á investigar a (re)ação política organizada

de alguns movimentos sociais à problemática urbana contemporânea apresentada nos quatro primeiros capítulos. A luta em torno do caminhar como direito será analisada a partir da mobilização em torno da mobilidade urbana a pé e da recuperação coletiva dos espaços públicos urbanos.

A partir da Crítica da Economia Política, investigar-se-á os avanços e os limites de tais ações políticas no sentido de sua compreensão frente às causas do processo de estranhamento do caminhar e suas propostas de intervenção na realidade para tornar o caminhar um direito, dentro de uma perspectiva mais ampla da concretização da emancipação humana14.

14 “Na teoria marxiana, alienação e estranhamento teriam um sentido oposto ao de emancipação humana. O sujeito emancipado seria aquele que volta a encontrar-se consigo mesmo. Independente de se ter uma solução diante das controvérsias de haver ou não a possibilidade de emancipação humana (via socialismo ou comunismo), vale mencionar que emancipação é um conceito marxista muito próximo de liberdade, no sentido da eliminação dos obstáculos que impedem o múltiplo desenvolvimento das possibilidades humanas. Esses

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1 A CIDADE COMO ESPAÇO DE ACUMULAÇÃO NO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO

Como bem adverte Hillman (1993), o ser humano, além de andar muito menos que seus antepassados, nos dias de hoje, quase que eliminou por completo a necessidade de caminhar. Seguramente, as pessoas seguem caminhando, principalmente, as frações mais empobrecidas da classe trabalhadora15, mas é inegável admitir que a locomoção se tornou hegemonicamente motorizada e veloz, tendo em vista que, em termos estruturais, o aumento da velocidade de circulação (tempo de circulação16) nas sociedades capitalistas está diretamente relacionado ao “aumento da velocidade de circulação do [próprio] capital [,] contribuindo para o processo de acumulação” (HARVEY, 2005, p. 50).

A lógica do sistema capitalista impõe, como condição necessária à sua sobrevivência, a expansão sucessiva do capital a fim de se evitar, ao menos de tempos em tempo, a emergência de crises econômicas provocadas pela tendência histórica de queda da taxa de lucro. Para que se dê essa expansão, o excedente de capital precisa ser reinvestido por meio de “escoadouros lucrativos”, ou seja, investimentos que assegurem a geração ampliada de mais valia, embora as tendências de crise no capitalismo nunca sejam resolvidas, e, sim, deslocadas. Dessa forma, uma das preocupações constantes deste sistema é que o fluxo de capital evite e/ou ultrapasse os obstáculos existentes para a sua livre circulação e ampliação.

Ao longo dos últimos cinco séculos, particularmente, a acumulação por espoliação (HARVEY, 2004) foi frequentemente acionada para se equilibrar as crises no modo de produção capitalista. Invasões, saques, fraudes, guerras, enfim, o uso contínuo e ampliado da força para expandir o domínio de alguns povos sobre outros, foram fundamentais no processo de reprodução ampliada do capital.

obstáculos são variados e se complexificam com o desenvolvimento do capitalismo. O trabalho assalariado e a propriedade privada são exemplos clássicos desses obstáculos, mas hoje também se pode falar na “cultura do consumo” como um impeditivo para a emancipação” (PADILHA, 2008, p. 107).

15 “Segundo estudo de Luiz Kohara (USP), 50% dos moradores de cortiços no centro de São Paulo vão ao trabalho a pé. Do total de trabalhadores moradores de cortiços, 80% gastam menos de 30 minutos no deslocamento, não importando o modo utilizado. A moradia em cortiços constitui estratégia individual de sobrevivência e expressa a lógica de proximidade subjacente ao ‘não-transporte’” (BALBIM; PEREIRA, 2009, s/p).

16 Segundo Ferrari, “[t]empo de circulação aqui entendido não como tempo de transporte, mas sim como tempo gasto pelo capital para realizar metamorfoses entre a forma dinheiro e a forma mercadoria. Este processo de valorização só está completo quando a mais-valia gerada no tempo de produção transforma-se em lucro. Esta transformação só se dá no tempo de circulação. Apenas no mercado, realizando-a na venda, os capitalistas podem verificar quanto da mais-valia produzida pode ser realmente apropriada, quanto da mais-valia pode ser transmutada em lucro. O processo pode, então, recomeçar. Podem reiniciar as atividades que caracterizam o tempo de produção” (FERRARI, 2008, p. 101).

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Soma-se a isso a emergência de um mundo globalizado inundado de excedente de capital fictício, onde cada vez menos capital tem sido absorvido na esfera da produção, gerando-se déficit nas relações econômicas globais (FIX, 2011; HARVEY, 2011):

O sistema de crédito possibilita a expansão geográfica do mercado por meio do estabelecimento da continuidade onde antes não existia continuidade alguma. A necessidade de anular o espaço pelo tempo pode, em parte, ser compensada pelo surgimento de um sistema de crédito. (HARVEY, 2005, p. 51).

Nesse contexto, a cidade se tornou espaço privilegiado de acumulação no capitalismo. De acordo com Davis (2009), existe uma “nova guerra de classe (...) no nível do ambiente construído”. E é com o sistemático aumento da expansão e especulação imobiliária, do movimento de destruição e reconstrução de ambientes construídos – acumulação por despossessão ou expropriação (HARVEY, 2004) – e da consolidação de uma “cultura” da securitização do urbano, que se criam alternativas histórias para a superação das crises cíclicas do capital, mesmo que provisoriamente (FIX, 2011; HARVEY, 2004, 2011, 2012):

Capitalism needs urbanization to absorbs the surplus products it perpetually produces. In this way an inner connection emerges between the development of capitalism and urbanization. Hardly surprisingly, therefore, the logistical curves of growth of capitalist output over time are broadly paralleled by the logistical curves of urbanization of the world’s population. (HARVEY,

2012, p. 05).17

A organização do processo de urbanização se tornou, por isso, absolutamente central à dinâmica do capitalismo global (produção/destruição criativa). As cidades passaram a ser projetadas cada vez mais para absorver o excedente de capital, e, por consequência, cada vez menos a ser um direito de quem a produz e a mantém (HARVEY, 2012; LEFEBVRE, 2008). Deste modo, a realização de novas geografias urbanas implica, inevitavelmente, o deslocamento e a despossessão da classe trabalhadora, onde o direito à cidade acaba por cair nas mãos dos interesses privados ou quase-privados, como diria Harvey (2012a, p. 22):

Urbanization (...) has played a crucial role in the absorption of capital surpluses and has done so at ever-increasing geographical scales, but at the

17 Em livre tradução: “O capitalismo necessita da urbanização para absorver os produtos excedentes que ele perpetuamente produz. Dessa forma, uma conexão interna emerge entre o desenvolvimento do capitalismo e a urbanização. Não surpreende, portanto, as curvas logísticas de crescimento da produção capitalista ao longo do tempo sejam amplamente paralelas com as curvas logísticas de urbanização da população mundial”. (HARVEY, 2012, p. 05, tradução nossa).

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