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NATÁLIA GONÇALVES DOS SANTOS MENEZES

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE CURSO DE BACHARELADO EM HISTÓRIA

NATÁLIA GONÇALVES DOS SANTOS MENEZES

OS GONÇALVES E SANTOS:

MIGRAÇÃO DE NORDESTINOS PARA A CIDADE DE RIO BRANCO 1970-1980

RIO BRANCO – ACRE AGOSTO 2013

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NATÁLIA GONÇALVES DOS SANTOS MENEZES

OS GONÇALVES E SANTOS:

MIGRAÇÃO DE NORDESTINOS PARA A CIDADE DE RIO BRANCO 1970-1980

Monografia apresentada à coordenação do Curso de Bacharelado em História, como pré-requisito para obtenção do título de Bacharel em História, pela Universidade Federal do Acre- UFAC.

Orientadora: Profª. Mestre Geórgia Pereira Lima.

RIO BRANCO – ACRE AGOSTO 2013

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NATÁLIA GONÇALVES DOS SANTOS MENEZES

OS GONÇALVES E SANTOS:

MIGRAÇÃO DE NORDESTINOS PARA A CIDADE DE RIO BRANCO 1970-1980

Monografia apresentada à coordenação do Curso de Bacharelado em História, como pré-requisito para obtenção do título de Bacharel em História pela Universidade Federal do Acre- UFAC.

Banca Examinadora:

... Mestra Georgia Pereira Lima, UFAC, Orientador

... Prof. Dr. Francisco Pinheiro de Assis, UFAC, Membro

... Prof. Msc. Vicente Gil da Silva, UFAC, Membro

... Prof. Msc. Edmundo Cunha Monte Bezerra, UFAC, Suplente

Conceito:

...

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DEDICATÓRIA

A meu pai em especial Fernando Gonçalves dos Santos, como homenagem póstuma, pois muito me ajudou e também me ensinou a ser o que sou.

A meu esposo Sebastião Menezes, um verdadeiro companheiro e que muito me ajudou na escrita desta monografia.

Minha filha Vívian Santos Ferreira, o meu grande amor que me ajudou nas entrevistas que foram realizadas.

Minha mãe Antonia Lucia dos Santos, uma mulher guerreira.

Minhas irmãs Beatriz, Fernanda, Lucélia Gonçalves, que me deram força quando precisei.

A meu irmão Fernando Gonçalves Júnior, que mesmo longe sempre me deu apoio e palavras de incentivo.

Meus sobrinhos Carlos Fernando, Bruna Adalva, Bruno Gonçalves, Karla Lúcya, Samuel Santos e os gêmeos Fernando Neto e Antonia Sophia, Deus abençoe vocês, que muito contribuíram e contribuem em minha vida.

Aos meus avós, Manoel Saraiva dos Santos (em memória) e Maria Lourenço Saraiva dos Santos.

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AGRADECIMENTOS

A Deus, pela minha vida e pela inteligência e persistência que ele tem me dado, e por ter chegado até aqui.

A meus pais, pela valiosa forma como me criaram. A meu esposo, que foi e é um grande companheiro.

A minha filha, que é sem dúvida muito importante em minha vida. Minhas irmãs e meus sobrinhos, umas bênçãos de Deus.

Aos professores desta instituição, que foram de grande ajuda.

Aos colegas de aula com quem, ao longo do tempo, estive junto, como minha amiga Siuátila Diniz, Jascimar Oliveira, Elineide Ferreira, Janaira Fidélis, Deuvo Alex, Altevir Júnior, Aline Ramos.

À Professora Mestre Geórgia Pereira Lima, com destaque pelas orientações e excelentes sugestões para a elaboração deste trabalho e pela paciência que teve no período das orientações.

A todos os entrevistados que muito colaboraram com este trabalho.

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Em memória de:

Meu Pai, Fernando Gonçalves dos Santos. Meu Avô, Manoel Saraiva dos Santos. Meu tio, Francisco Figueiredo dos Santos

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RESUMO

Este trabalho se propõe analisar a migração de nordestinos para a Cidade de Rio Branco 1970-1980. Para a realização desta pesquisa foram utilizadas as seguintes metodologias: pesquisas bibliográficas e entrevistas orais. Faz abordagens sobre a maneira como alguns teóricos avaliam essa migração de nordestinos, as trajetórias e memórias, para a Cidade de Rio Branco, e como eles fizeram para se integrar ao meio social. Ressalta-se uma breve contextualização sobre esses migrantes em Rio Branco, falando um pouco sobre a vida deles, por que vieram para esta cidade, em especial a vinda do grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos”, que veio para este Município. No I capítulo abordamos os nordestinos em outras margens da história, e também fazemos um breve relato sobre como se encontrava a cidade de Rio Branco e também parte do Ceará. Nessa perspectiva podemos dizer que a questão da agricultura e da pecuária, o projeto de assentamento e o desenvolvimento da Amazônia faziam parte do contexto acriano. E mostrar como se encontrava o Nordeste na década de 70, após as mudanças na área econômica do Ceará. No II capítulo tratamos das memórias de uma família nordestina, como se constitui uma família as lembranças do grupo familiar nordestino sobre o Nordeste e o Acre, e no III capítulo vamos mostrar as experiências sociais na cidade de Rio Branco, como fizeram para se adaptar às novas experiências, a rede de solidariedade, as trajetórias cortadas desse grupo familiar.

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ABSTRACT

This study aims to analyze the migration of Northeasterners for the City of Rio Branco 1970-1980. For this research we used the following methodologies: library research and oral interviews. Approaches make about the waiy some theorists evaluate this migration of Northeasterners trajectories and memories for the city of Rio Branco, and as they did to integrate the social environment. We emphasize a brief contextualization of these migrants in Rio Branco, talking a bit about their lives, why they came to this city, especially the coming of the Northeastern family group “Gonçalves and Santos”, who came to this city. In chapter I approach the other northeastern margins of history, and also make a brief report on how to find the city of Rio Branco and also part of Ceará. Fron this perspective we can say that the issue of agriculture and livestock, the settlement project and the development of the Amazon were part of the context of Acre. And show you how to find the northeast in the 70s, after the changes in the economic area of Ceará. In Chapter II we treat the memories of a family Northeast Acre and III we will show social experiences in the city of Rio Branco, as they did to adapt to new experiences the solidarity network paths cut this family group.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 9

CAPÍTULO I. NORDESTINOS: EM OUTRAS MARGENS ... 14

1.1 O NORDESTE E A CRISE AGRÁRIA 1970-1980 ... 22

1.2- TRAJETÓRIAS DE FAMÍLIAS: “GONÇALVES E SANTOS” ... 28

1.3 O SERTÃO CEARENCE E A MIGRAÇÃO ... 29

1.4 DESLOCADOS FAMÍLIA “GONÇALVES E SANTOS” ... 31

CAPÍTULO II. MEMÓRIAS DE UMA FAMÍLIA NORDESTINA ... 33

2.1 CONSTITUINDO UMA MEMÓRIA ... 35

2.2 MEMÓRIAS DE FAMÍLIA ... 37

2.3 MEMÓRIAS GUARDADAS COM O TEMPO... 44

2.4 MEMÓRIAS DE EXPERIÊNCIA DE IDOSO ... 47

CAPÍTULO III. EXPERIÊNCIAS SOCIAIS NA CIDADE DE RIO BRANCO ... 50

3.1 REDE DE SOLIDARIEDADE FAMILIAR ... 55

3.2 TRAJETÓRIAS CORTADAS ... 57 3.3 FAMÍLIA “GONÇALVES” ... 59 3.4 FAMÍLIA “SANTOS” ... 61 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 65 FONTES ... 67 REFERÊNCIAS ... 68

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INTRODUÇÃO

Ao pensar sobre os Gonçalves e Santos: migração de nordestinos para a cidade de Rio Branco no período de 1970-1980 tem-se por finalidade compreender parte da história familiar “Gonçalves e Santos”, pessoas simples sem nenhum recurso financeiro oriundos do sertão nordestino cearense, município de Pereiro. Durante a década de 1970, vieram para o Município de Rio Branco, esses nordestinos não traziam nenhum dinheiro para comprar nem um hectare de terra, trazendo entre seus pertences, a memória do cearense sertanejo, vindo a se constituir numa família de migrantes nordestinos para um espaço da Amazônia.

O senhor Raimundo José Saraiva dos Santos, Pai de “seu” Manoel Saraiva dos Santos, veio para o Acre em 1958, quando chegou aqui ao município de Rio Branco, com o dinheiro que trazia oriundo da venda de terras que tinha no Nordeste adquiriu terras na chamada cruz milagrosa, hoje conhecida como bairro Calafate, e passou a residir com sua família, esposa e filhos, trabalhando no cultivo da terra.

O senhor Manoel Saraiva dos Santos, havia optado por ficar em Belém-PA com esposa e filhos, e naquele Estado ficou por um ano. Vendo que as dificuldades foram surgindo em Belém, pois a falta de emprego para a família tornava difícil a estada deles naquela cidade, decidiram retornar para Pereiro-CE, e do Nordeste só vieram anos mais tarde, quando tiveram notícias, por meio de cartas, de seu pai Raimundo José Saraiva dos Santos.

Em 01 de Outubro de 1974, “seu” Manoel Saraiva dos Santos e dona Maria Lourenço, a esposa, conversaram entre si e decidiram vir para o Município de Rio Branco, acreditando que seu pai o ajudaria e teria lugar e trabalho para eles aqui, então o senhor Manoel Saraiva dos Santos saiu do Nordeste e vieram todos, seus filhos e seu genro, o senhor Fernando Gonçalves, que havia casado há pouco mais de um ano com a filha de seu Manoel, Dona Antonia Lúcia, que estava grávida de sua primeira filha. Sendo assim todos partem para o Município de Rio Branco.

Tinham muita coragem e a esperança de sair da vida difícil em que eles estavam vivendo no Nordeste naquele período, as mudanças que estavam acontecendo na economia nordestina haviam mexido com a família de nordestino “Gonçalves e Santos” e contavam

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também com a ajuda de seu pai que os ajudaria quando eles precisassem, em qualquer dificuldade em suas vidas. A trajetória da vinda deles, partindo do sertão nordestino até aqui ao município de Rio Branco, não foi nada fácil: vários dias de viagem, o ônibus em que eles vinham não oferecia nenhum conforto e, quando chegaram aqui, ainda iriam depender de favores, de seus familiares que aqui moravam.

De certa forma vieram com aquela idéia de que pessoas tinham vindo para o município de Rio Branco, e tinham ficado bem de vida, e alguns até conseguiram ficar ricos, segundo as histórias que lhes eram contadas. Por isso temos como objetivo mostrar que, no período de 1970-1980, ainda estavam vindo, sim, famílias de nordestinos para o Estado do Acre, pois, analisando a historiografia produzida, retrata um silêncio regional, e até mesmo local sobre esses migrantes nordestinos vindos neste período.

Entende-se que este trabalho é de relevância para a sociedade local, em virtude de que a migração de nordestinos também faz parte da sociedade acriana, sendo de relevância acadêmica e científica o registrar dessa migração familiar de nordestinos que vieram do Nordeste para o município de Rio Branco, no período de 1970-1980.

Deve-se também compreender como se encontrava o município de Rio Branco, nesse período, pois havia todo um processo de mudança desde 1960. Nessa perspectiva podemos dizer que a questão da agricultura e da pecuária, o projeto de assentamento e o desenvolvimento da Amazônia devem ser aqui abordados, pois fazem parte do contexto que o trabalho se propõe neste período.

O problema que nos move nesta análise do núcleo familiar nordestino “Gonçalves e Santos”, na década de 1970-1980, suas experiências sociais no município de Rio Branco. Nesse sentido objetivamos nesta pesquisa compreender como se deu a trajetória e a memória desse núcleo familiar de nordestinos Gonçalves e Santos para a cidade de Rio Branco no período de 1970-1980, e como se encontrava o município logo após o declínio da borracha. E quais eram os sonhos desses migrantes ao chegarem a terras acrianas.

À vista disso os objetivos específicos são: compreender o porquê da trajetória e memória desse grupo familiar de nordestinos para a cidade de Rio Branco, saindo do Nordeste onde viviam, e vindo para a Amazônia, e como se encontrava o município de Rio Branco naquele período, de 1970-1980; mostrar a principal atividade que eles tinham e como conseguiram se habituar às novas condições e costumes, tão diferentes dos de sua terra natal; compreender como foi à trajetória desse grupo familiar de migrantes

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nordestinos até chegarem a seu destino, que eram as terras acrianas, como se dava a trajetória até chegarem à cidade de Rio Branco, no período de1970-1980.

Na trajetória deste estudo sobre Os Gonçalves e Santos: Migração de Nordestinos para a Cidade de Rio Branco no período de 1970-1980 foram realizadas pesquisas bibliográficas de vários autores que retratam aspectos da migração de nordestinos para o Município de Rio Branco, a saber: Leandro Tocantins (1982), Samuel Benchimol (1992), Cleuza Ranzi (2008), Ecléa Bosi (1994), Costa Sobrinho (1992), Martine (1990), Nadine Agra (1998), Calixto (1985), Aguiar, (1986), Santos (1986), Guimarães (1995), Silva (1982), Ianne, (1979). Como normas e técnicas para este trabalho científico utilizamos o autor Furasté (2012) que explicita as normas e técnicas da ABNT.

No período de 05.01.2011 a 10.12.2011, foram realizadas entrevistas com parte do núcleo familiar nordestino “Gonçalves e Santos”, os quais falam sobre suas lembranças e tudo o que vivenciara desde o Nordeste até o Acre. Cada entrevista teve duração de 30 minutos. As entrevistadas foram Dona Antonia Lúcia dos Santos, Dona Veridiana santos de Souza, Maria do Socorro dos Santos, e o senhor Fernando Gonçalves dos Santos parte integrante do grupo familiar nordestino que veio para o Município de Rio Branco no período de 1970-1980.

Como referencial teórico e metodológico, utilizamos autores e historiadores, como Loiva Othero Félix (1998), Le Goff (1984), José Carlos Sebe Bom Meihy (1996), Verena Alberti (1991), que escreveram sobre como fazer trabalhos acadêmicos, e também escreveram sobre a história oral, que segundo a autora Verena Alberti (1991), é uma metodologia de pesquisa e de constituição de fontes para o estudo da história.

A autora Verena Alberti (1991) “nos ensina como usar as fontes orais na pesquisa histórica, como preparar as entrevistas como projeto de pesquisa e roteiros. O trabalho de produção de fontes orais pode ser divido em três momentos: a preparação das entrevistas, sua realização e seu tratamento. A preparação das entrevistas inclui o projeto de pesquisa e a elaboração dos roteiros das entrevistas”.

A mesma autora acima citada mostra que o projeto de pesquisa, deve ficar claro que a escolha da metodologia de História oral é adequada á questão que o pesquisador se coloca. A narrativa dos entrevistados e sua visão sobre e tema estudado devem ser importantes para os propósitos da pesquisa. Além disso, é preciso que o desenvolvimento

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da pesquisa seja factível, isto é, que entrevistados em condições de prestar seu depoimento. Verena Alberti. (1991)

Como se não bastasse, o próprio Portelli (1997) nos ensina que:

A história oral alia ali o esforço de reconstruir padrões e modelos à atenção às variações e transgressões individuais concretas. Assim, a história oral tende a representar a realidade não tanto como um tabuleiro em que todos os quadrados são iguais, mas como um mosaico ou colcha de retalhos, em que os pedaços são diferentes, porém, formam um todo coerente depois de reunidos a menos que as diferenças entre elas sejam tão irreconciliáveis que talvez cheguem a rasgar todo o tecido. (Portelli, 1997, p.16)

Como Portelli (1997) fala os testemunhos nem sempre são iguais, somos nós os pesquisadores que temos que separar e ver o que nos é importante e o que não nos interessa como os retalhos vão juntando as peças para formar a nossa pesquisa.

O autor Michael de Certeau (1995) também nos ensina na construção da história oral, e mais, como conduzir uma investigação sobre o tema escolhido, como veremos a seguir:

Certamente não existem considerações, por mais gerais que sejam, nem leituras, por mais longe que a entendamos, capazes de apagar a particularidade do lugar de onde eu falo e do domínio por onde conduzo uma investigação. (Michel de Certeau, 1995, p. 17)

Para Michel de Certeau as leituras são importantes, porém não são elas que podem nos explicar a grandeza daquilo que se está construindo ao longo de nosso trabalho e do lugar por onde conduzimos nossa investigação.

A partir dos dados da autora Verena Alberti (1991) do autor Portelli (1997) e do autor Michel de Certeau (1995), fizemos nossa pesquisa sob a metodologia de fontes orais, que são as entrevistas, escolhemos algumas pessoas que tinham dados importantes para esta pesquisa, e que em muito contribuíram para que fosse escrita, sobre o tema, após a decisão de escrever sobre o tema, escolhemos as testemunhas com quem fizemos as entrevistas.

Este trabalho está organizado com a seguinte estrutura:

No capítulo I - Nordestinos: em outras margens, será feita uma contextualização histórica da situação econômica e social nordestina e do Norte em 1970, que contribuiu

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para a vinda do grupo familiar “Gonçalves e Santos” para o Acre, mas precisamente para a cidade de Rio Branco.

Entende-se que a leitura desde o período em que a borracha começou a ser explorada no Estado do Acre sabe-se da vinda de migrantes nordestinos, que vinham para este Estado e toda a Amazônia para trabalhar no corte da seringa, como soldado da borracha, migrando à procura de trabalho e vida melhor.

A partir desses dados e com base nesse conhecimento procurou-se nesta pesquisa tratar desse fenômeno migratório como um processo de mudança de pessoas de área sócio-espacial para outra em função de melhorias pelas vidas, trabalhos e oportunidades sociais e econômicas.

No capítulo II – Memórias de uma família nordestina, compreenderemos as memórias do grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos”, e através de autores como Ecléa Bosi (1994) e Verena Alberti (1991) podemos construir parte da memória dos componentes do grupo analisado. Foi por meio da história oral que se tornou possível mostrar parte do grupo analisado “Gonçalves e Santos”.

Através da Memória do grupo familiar, podemos trazer a tona à lembrança que, para a autora Ecléa Bosi (1994), é um “diamante bruto que precisa ser lapidado”, ou seja, trabalhado, depois analisado para uma boa interpretação da imagem vivida pelas pessoas, grupos sociais etc.

No capítulo III - Experiências sociais na Cidade de Rio Branco, vamos mostrar as Experiências sociais vividas pelo grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos” na Cidade de Rio Branco e como se deu essa experiência, como fizeram para se adaptarem na cidade de Rio Branco, e também veremos como se deu parte da rede de solidariedade familiar, e as trajetórias cortadas das famílias “Gonçalves e Santos”.

Ao chegar a esta Cidade, passaram a trabalhar na agricultura familiar, e ainda como caseiro na colônia Santo Antonio, e também como peão, lidando com gado neste local. As mulheres, quando não estavam trabalhando na agricultura, estavam cuidando dos filhos. A memória dos mais velhos do grupo familiar nordestino traz parte das experiências sociais vividas pelo grupo familiar nesta capital.

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CAPÍTULO I

NORDESTINOS: EM OUTRAS MARGENS

A migração de nordestinos para a cidade de Rio Branco se deu em outras margens da história, pois, o grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos” pessoas simples sem recursos vieram para o município de Rio Branco na década de 1970, um período em que apenas se fala da migração dos “Sulistas”, vindo para comprar as famosas terras acrianas férteis e baratas e a migração nordestina ficou de fora mesmo vindo outros migrantes nordestinos ou de outro estado ou mesmo de outro país, não foi registrado pela historiografia acriana, no período de 1970-1980.

Por não ter sido uma migração com grande fluxo de pessoas, ou de relevância para a cidade, não foi registrado. Apesar desses migrantes não terem vindo para o Acre por meio de algum incentivo do Governo para assentamento ou para trabalhar na pecuária, essa migração não foi totalmente isolada, havia outros nordestinos e outros migrantes vindo para o Acre, para tentar melhorar de vida.

Por esse motivo iremos tratar agora desse migrante nordestino que veio para a Cidade de Rio Branco nas décadas de 1970 e 1980, à procura de uma oportunidade de vida melhor, pois o Nordeste passava por um momento difícil, com a crise agrária, logo após a mudança ocorrida na estrutura econômica e no município de Pereiro; onde moravam estes nordestinos não era diferente.

A temática da migração de nordestinos para a região acriana já foi abordada por autores como Oliveira Pinto (1981), Roberto Santos (1982), Ferreira Lima (1981), Geórgia Lima (2002), porém escreveram sobre a migração nordestina em outros períodos históricos, como em 1840-1870, 1942-1945, com a questão da seca nordestina e o extrativismo da borracha etc.

Entende-se que a abordagem feita por esse autores sobre a questão da seca nordestina e o extrativismo da borracha, estão intimamente ligados, e observa-se com essas leituras que desde o período em que a borracha começou a ser explorada no Estado do Acre sabe-se da vinda de migrantes nordestinos, que vinham para este Estado e toda a Amazônia para trabalhar no corte da seringa, como soldado da borracha. Com base nesse

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conhecimento procurou-se nesta pesquisa tratar desse fenômeno migratório como um processo de mudança de pessoas de área sócio-espacial para outra em função de melhorias pelas vidas, trabalhos e oportunidades sociais e econômicas.

Segundo a autora Geórgia Lima (2002), analisando os autores Roberto Santos (1982), Oliveira Pinto (1981) e Ferreira Lima (1981), Geórgia Lima ressalta que, em se tratando de data, tornou-se consenso na historiografia acriana que as primeiras levas de nordestinos chegaram às terras acrianas, via rios Purus e Juruá, a partir da década de 1870, mesmo exploradores anteriormente, coincidindo com a seca no sertão nordestino em virtude também desse fenômeno natural, a Amazônia recebeu um grande contingente de migrantes. Entretanto a região do Abunã, segundo Fawcett (1954) fonte utilizada pela autora Geórgia Lima (2002) encontrava-se em plena produção desde 1840. (Santos, 1982, Oliveira Pinto, 1981, Ferreira Lima, 1981 apud, Geórgia Lima, 2002),

O esquema de análise aqui apresentado segue a mesma estrutura apresentada pela autora, Geórgia Lima (2002), analisando o autor Roberto Santos quando apresenta duas razões para explicar a direção desse fluxo migratório:

*Propaganda e arregimentação realizadas pelos prepostos de seringalistas nas cidades de Fortaleza, Recife, e Natal;

*Subsídios dos governos do Amazonas e do Para, concedidos para o transporte de migrantes para a colonização agrícola que, em última análise, favoreciam as zonas de extração da borracha.

Ao analisar Luiz Antonio de Oliveira Pinto (1981), a autora Geórgia Lima (2002) fala do “deslocamento da mão de obra nordestina para a Amazônia, em virtude da crise da produção do algodão, no início da década de 1870, sobre a qual se assentava o complexo econômico nordestino da monocultura do açúcar e do algodão. A partir dessa crise, tem-se a formação do excedente populacional da região nordestina e, sendo assim, a migração para a região Norte”. (Oliveira, 1981, apud, Geórgia Lima, 2002)

Enquanto Manoel Ferreira Lima (1981), segundo a autora acima citada, ao sintetizar esse deslocamento, afirma que o “fator determinante da invasão dos trabalhadores brasileiros na região acriana, no final do século XIX, é de origem sócio econômica, que envolve o desenvolvimento industrial e a grande seca do ceará na década de 1870”. (Ferreira Lima, 1981, apud, Geórgia Lima, 2002)

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Para a autora Geórgia Lima (2002), tais reflexões acerca do deslocamento desses trabalhadores nordestinos para a região acriana realizada por esses três estudiosos permitem observar um elemento comum: “desde o início, o deslocamento ocorrido foi resultado de ações indiretas do Estado brasileiro como de grupos seringalistas, e em última instância, do capital internacional”.

Analisando os autores acima citados, podemos observar que dentro desses contextos históricos, a ocupação do território acriano se deu através das secas no Nordeste, do surto da borracha na Amazônia (região Norte) e também pela propaganda criada pelo Governo “chamando” esses migrantes para o Acre, todos esses fatores contribuíram para a migração de nordestinos para a região. A partir destes dados, observa-se assim que boa parte da população do estado do Acre é constituída de nordestinos, sertanejos que deixaram sua região e migraram para o Acre.

Para entendermos melhor como estava à capital acriana na década de 1970, data em que vamos trabalhar sobre Os Gonçalves e Santos: migração de nordestino para a Cidade de Rio Branco faz-se necessário relatar como se encontrava o município de Rio Branco nesse período.

No caso de migrações para a cidade de Rio Branco, tais fenômenos estavam ligados ao fato da ocupação das terras e também à queda da borracha e à resistência dos seringalistas em suas terras. No livro “Acre em construção”, o autor Calixto, (1985) retrata muito bem como se encontrava o município de Rio Branco, naquele período:

E essas questões são muito importantes no estudo das migrações, em Rio Branco, pois toda aquela resistência que existia em relação à borracha havia acabado. Endividados, grande parte dos seringalistas perderam o que tinham e alguns ficaram pobres e não tinham mas condição de ficar em suas terras, houve uns que mudaram de ramo, porém outros não conseguiram, e uma minoria ajustou-se à nova ordem e aqueles que não tiveram seus bens hipotecados, venderam suas terras para os sulistas. (Calixto, 1985, p. 84)

Analisando as questões aqui registradas por Calixto (1985), tem-se uma situação de resistência, por grande parte dos seringalistas que perderam o que tinham, e aqueles que não conseguiram mudar sua situação financeira, sem condição vieram para a cidade de Rio Branco tentar uma nova forma de viver.

Sobre esta questão, analisando o autor Cícero Dantas (2007), tem-se nas décadas de 1950 e 1960 os presidentes do Brasil colocando em prática projetos de integração de

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estradas e a criação de diversos órgãos e programas econômicos com a finalidade de garantir o desenvolvimento do capitalismo para além da fronteira amazônica. Dessa forma Ianne nos mostra que:

Em 1950, a Lei nº 1164 de 30 de agosto, transformou o Banco de crédito da Borracha em Banco de crédito da Amazônia S.A. Ampliou-se o raio da atuação do banco ao lado da continuidade do seu apoio ao extrativismo da borracha. Poucos anos após, a 6 de janeiro de 1953, a Lei nº 1806 criou a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA). Tratava-se de decidir objetivos e meios para atuar praticamente em todos os setores da vida econômica da região. (Ianne, 1986, p.59)

Ainda citando o autor Cícero Dantas (2007), observam-se, posteriormente, “grandes contingentes de grupos de sujeitos de diversas regiões do Brasil atraídos pelas imensas áreas de terras devolutas e os grandes incentivos fiscais, com essa nova estratégia os sujeitos começam a migrar para a Amazônia”. A esse respeito Ianne (1979) afirma que:

[...] A essa época com a criação da SUDAM e do BASA em 1966 o governo coloca à disposição de latifundiários e fazendeiros, estímulos e favores fiscais, creditícios e econômicos para a formação e o crescimento de latifúndios, fazendas, empresas agropecuárias, de extrativismo e mineração; foi assim que se intensificou a migração de trabalhadores, empreiteiros, gerentes, fazendeiros e empresários para as diferentes áreas da Amazônia. (Ianne, 1979, p. 12)

A partir dos relatos podemos observar que com a crise sofrida em decorrência da queda da borracha, na década de 1970, o Estado do Acre acabou sofrendo algumas mudanças, um intenso processo de transformações socioeconômicas, cristalizadas no declínio e mudança do extrativismo, em prol de uma nova frente de penetração apoiada na pecuária extensiva. Como afirma Calixto:

“Com a decadência da borracha, os grandes seringalistas da época se viram obrigados a venderem suas terras, pois o banco da borracha, hoje BASA, que monopolizava a produção suspendeu o financiamento que vinham operando e com isso os seringais foram à falência, e sendo assim, estavam totalmente endividados e para eles não havia outra saída a não ser vender suas terras para os sulistas que estavam chegando atraídos pela desvalorização da terra e com projetos agropastoris.” (Calixto, 1985, p, 84)

Nessa perspectiva, temos como forma de ocupação das terras que, segundo os administradores do Acre, não estavam sendo cultivado como devia, sendo assim o Governo Federal, juntamente com o Governo do Acre, estava na corrida pela incorporação de suas

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terras pela nova frente agropastoril, que tencionava mudar e substituir a economia extrativista, e isso ocorreu no início dos anos 1970.

Segundo o autor Costa Sobrinho (1992), Francisco Wanderley Dantas ao assumir o Governo do Estado do Acre no período de 1971, sabendo do que tinha acontecido em anos anteriores no Estado do Acre, acreditou serem necessárias as novas diretrizes de modernização do Governo Federal, e adepto da política do “Brasil grande potência”, para o Estado um projeto de transformação da economia que não passava pelo extrativismo. E agora como forma de mudança tinha a agricultura, pecuária, o projeto de assentamento, e com essas novas diretrizes o desenvolvimento da Amazônia.

Segundo nos diz Costa Sobrinho (1992), a compra da terra se deu devido à propaganda que existia dizendo que eram “terras baratas e férteis, e atraídos pelos incentivos fiscais e pelas facilidades para compra de terras”. E a partir desses incentivos os Sulistas vinham com o objetivo de trabalhar com agricultura e a pecuária nas terras acrianas. A partir daí começa todo o processo de compra de terras dos seringalistas, que já não tinham condição de manter seus seringais, com isso surgem também o alargamento das propriedades e o fraudulento registro dos títulos em cartório, mais que isso foi etapa vencida da ocupação.

Sob esse prisma, para Silva (1982), daí por diante, a “preocupação voltou-se para a expulsão de quem se encontrava dentro das terras acrianas”. Os conflitos entre posseiros e “paulistas” passaram a assumir outra dimensão. A reação coletiva dos trabalhadores rompe a passividade, uma ação defensiva que vai criar obstáculos às operações de “Limpeza da Área”. Levados a cabo pelos fazendeiros com seus jagunços, até então controlados. Não é mais possível silenciar ante os fatos e ocorrências, o clima de tensão social estava por demais caracterizados. Como nos afirma Silva:

O Estado através do Governo Estadual, Delegacia Regional do Trabalho e principalmente do INCRA, passou a intervir efetivamente na questão fundiária, com o objetivo de conter os conflitos. (Silva, 1982, p. 30)

Nesta perspectiva, para Silva (1982) muitas áreas nem tinham um “proprietário legítimo e os seringueiros e índios habitantes, que na verdade tinham a posse da terra, não sabiam sobre os direitos deles ou não tinham os meios para fazer valer esses direitos”. Um papel importante nestas apropriações cumpriu os chamados "grileiros", especuladores que

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através de corrupção, falsificação e expulsão violenta dos habitantes da floresta, se apropriaram da terra e a revenderam para os futuros fazendeiros. A partir desses conflitos, o INCRA passou a interferir na questão fundiária, como forma de controlar as brigas e mortes na floresta do Acre.

Sob outra ótica, Costa Sobrinho (1992) afirma que os seringueiros se defenderam organizando os chamados "empates”: eles formavam correntes de “pessoas de mãos dadas para impedir o desmatamento ou cercavam o grupo de trabalhadores encarregado do desmatamento e forçavam o líder do grupo a assinar um documento que garantia que o trabalho seria suspenso”.

Com tudo que estava acontecendo no Estado do Acre em 1971-1974, a briga pelas terras, expulsão violenta dos habitantes da floresta, a partir de todos esses conflitos que estavam acontecendo no Estado do Acre, em meados de 1974, o governador Francisco Wanderlei Dantas, em exercício, saía do cargo, e agora cabia ao novo Governador conter o caos que havia se instalado no Acre.

Para Carlos Gonçalves, (2003) devido ao caos ocorrido no Governo de Dantas, ao assumir o Governo Geraldo Mesquita em (1975), no início de seu mandato, fez alterações, como nos afirma Carlos Gonçalves (2003):

Uma mudança na orientação política do Estado que já não dá apoio indiscriminado aos investidores “paulistas”, dando prioridade a uma política de desenvolvimento agrícola voltada para os pequenos produtores rurais, e para isso criara a Colonacre-Cia. De Desenvolvimento Agrário e colonização do Acre (26/09/1975), Emater-Ac1 (26/09/1975) e a Cageacre-Ac2 (16/09/1975) (Gonçalves, 2003, p. 469)

Sobre este ponto de vista, podemos dizer que no Acre a questão da agricultura e da pecuária, o projeto de assentamento e o desenvolvimento da Amazônia compõem um fato importante neste trabalho, pois, no período de 1970-1980 houve um grande crescimento no município de Rio Branco, com a propaganda no sul do país, chamando os ‘sulistas’ para comprar as terras férteis e baratas do Acre, e também a migração interna que estava acontecendo dentro do Estado do Acre.

Sob o olhar dos autores Silva (1982), Costa Sobrinho (1992), Gonçalves (2003) a cidade de Rio Branco, conforme podemos observar no texto anterior, cresceu a partir de

1

Emater-Ac, Empresa Rural do Estado do Acre;

2 Cageacre, Companhia de Armazéns Gerais e Entrepostos do Acre.

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1970, partindo da borracha e indo agora para pecuária, agricultura e até mesmo os assentamentos que foram surgindo com o passar do tempo e até mesmo pela necessidade e persistência de muitos que vieram para esta cidade, onde alguns conseguiram seus objetivos, compraram as terras desejadas, mas houve outros que não tiveram a mesma sorte, estiveram aqui, na década de 1970 e 1980, porém estão fora da história, pessoas que vieram de todas as partes do Brasil, da região Nordeste, Sul , Sudeste e Centro-Oeste e de todo o mundo, porém não tiveram suas histórias escritas por nossos historiadores.

E é dentro deste contexto da historiografia acriana que vamos relatar partes da história dos Gonçalves e Santos: migração de nordestinos para a cidade de Rio Branco 1970-1980. Em 1974 os nordestinos cearenses decidiram vir para o município de Rio Branco, pois com a nova estratégia no campo econômico cearense, não havia oportunidade para estas famílias se manter no meio dos grandes produtores agrícolas, pois eles não tinham como comprar as maquinas os adubos, tudo que era usado agora pelos grandes proprietários de terras.

Por isso vieram para a cidade de Rio Branco onde residia o pai do senhor Manoel Saraiva dos Santos, o senhor Raimundo Saraiva dos Santos. No nordeste esses sertanejos trabalhavam na agricultura, plantando arroz, milho, feijão e macaxeira. Tudo isso acontece no período em que o trabalho é evidenciado, sendo assim faz parte do contexto que essa migração do grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos” ocorreu em 1970 até 1980, além de ser considerado importante mostrar histórias de famílias que fizeram parte da população acriana, alguns vindo do Sul, Nordeste ou de outros lugares do Brasil, neste período.

A motivação do grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos”, de certa forma era o de fugir da vida difícil, que eles tinham no Nordeste na década de 1970, com a mudança na economia nordestina, em que os pequenos produtores não tinham chances, só os grandes proprietários de terras conseguiam alcançar seus objetivos. Dessa forma, vieram para o município de Rio Branco, pois segundo o pai do senhor Manoel Saraiva dos Santos o senhor Raimundo Saraiva dos Santos, a vida no Acre estava boa.

Quando o núcleo familiar nordestino “Gonçalves e Santos” chegou a Rio Branco em Outubro de 1974, existia toda uma problemática em torno do inchaço que havia de pessoas (seringueiros e posseiros) praticamente expulsos de seus seringais migravam para a cidade de Rio Branco. O grupo familiar começou a perceber também que a terra era

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diferente do sertão nordestino, onde moravam, outra religião, um cotidiano que agora seria diferente daquele vivido por eles no Nordeste, e o grupo observou que o Estado do Acre, como no Ceará, muito precisava ser feito para o desenvolvimento da cidade. Como nos afirma. Ianne (1979)

Antes de 1964 e 1970, pouco se havia feito no sentido de desenvolver a colonização dirigida nesta região. Confiava-se provavelmente na colonização espontânea que se vinha desenvolvendo naturalmente. De fato, pouco a pouco crescia o afluxo de trabalhadores e seus familiares para diferentes ares da região. ( Ianne, 1979, p. 33)

Contudo, para Ianne (1979), crescia o afluxo de trabalhadores e seus familiares para a região Norte. Com tudo o que estava acontecendo nos seringais, os ex donos das terras vinham para a cidade, e é justamente dentro desse contexto que chega o núcleo familiar nordestino “Gonçalves e Santos” que, saindo do sertão nordestino pela dificuldade que estavam vivendo naquele período de 1970, com a mudança na estrutura econômica do Nordeste, só os grandes produtores detinham os meios de trabalhar a terra, pois tinham as máquinas necessárias para o cultivo e adubo da terra. E como o núcleo familiar nordestino fazia parte dos pequenos grupos, tiveram que migrar para outro Estado, e vieram para a cidade de Rio Branco.

Mas quando estes sertanejos chegaram à cidade de Rio Branco, viram que a situação não era tão diferente daquela vivida por eles no Nordeste. Todo o contingente de pessoas vindo dos seringais para a cidade comprometia toda a estrutura social e econômica de Rio Branco. Pois com toda a propaganda existente pelo Governo, no início da década de 1970, parte dos seringalistas havia perdido suas terras, e havia muitos empresários de fora do Estado comprando as terras e outros tendo que deixar as suas, como os antigos donos de seringais, os posseiros e outros.

Entende-se que o grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos”, estão às margens da história, por que chegam a Rio Branco em um período em que os “sulistas, paulistas” e outros estavam neste município devido à propaganda do Governo Federal e do Governo do Acre falando das terras férteis e baratas do Acre. Quando estas famílias nordestinas chegam ao Acre observam toda uma concentração na cidade, passaram por momentos de dificuldades. Com a saída de sua terra natal, eles já sofriam, não era uma viagem fácil, levavam vários dias de viagens, e quando chegaram ao município de Rio Branco, começaram a observar que não era aquilo que eles haviam imaginado, havia ainda

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muito para ser feito, a fim de dar melhor estada para os migrantes que chegavam ao Estado do Acre.

1.1 O NORDESTE E A CRISE AGRÁRIA 1970-1980

Como falamos anteriormente o Acre vivenciava um processo de modernização ao contrário daquilo que era esperado. Os demais estados brasileiros também passavam por alguns problemas econômicos e sociais, como, v.g: as secas no Nordeste do país, o desenvolvimento da agroindústria no Sul e Sudeste, dispensando a mão de obra tradicional. No nordeste brasileiro, não só a seca, mas também os novos meios de economia usados por seus governantes faziam com que os nordestinos migrassem para outros estados à procura de melhores condições de trabalho. E dentro dessas estatísticas, está o grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos”, que estamos analisando neste estudo.

Alguns autores, como Benchimol (1992), Nadine (1998), Martine (1990), trabalham com precisão o período de 1970-1980, no Nordeste brasileiro, e a partir de seus escritos podemos analisar o porquê da família nordestina cearense ter migrado para o Estado do Acre, em 1970.

Segundo Samuel Benchimol (1992), “a dispersão do povo nordestino, tangido pela seca, constitui um drama humano da história social brasileira. De ontem, de hoje e de amanhã. Abro o “Jornal do Brasil’, edição de 29/9/76, e o noticiário informa”:

“O Governo do Ceará vai pedir hoje à SUDENE autorização e recursos financeiros para abrir mais frentes de serviços em municípios castigados pela seca. Segundo o Grupo Especial de Socorro às Calamidades, o número de flagelados sem oportunidade de trabalho é calculado em 45.000 homens, mas esse número chegará a 60.000 até o dia 20 de outubro. Quase mil municípios

nordestinos – 991 precisamente sofreram os efeitos da estiagem. O número de trabalhadores alistados nas frentes é superior a 240 mil.” (Benchimol, 1992, p.

185)

Como podemos observar nos relatos de Samuel Benchimol (1992), com a seca no Nordeste, muitos nordestinos sofriam e partiam para outros lugares do Brasil, para fugir da seca e da calamidade que ela causava. Vários estados do Nordeste, como Ceará, Paraíba, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte, sofriam e ainda sofrem até os

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dias de hoje com a seca que assola esses estados do Brasil. As perspectivas para o ano 2.000 não trazem maior esperança. Leio no tablóide “Nota Urgente”, Ano I, no.36, 20/9/76, outro informe desalentador:

Até o fim do século, 10% da população nordestina continuará a migrar, de acordo com um estudo sobre demografia divulgado pelo Departamento de Recursos da SUDENE. O nordeste continuará como área de “expulsão demográfica”, com uma parcela expressiva de população sendo absorvida por outras áreas. O número de pessoas nascidas no nordeste vivendo fora da região atingiu, em 1975, a 4 milhões e 384 mil, e se estima que esse número deverá chegar a 9 milhões em 1990”. (Benchimol, 1992, p.185)

Podemos observar na citação de Benchimol (1992) que lamentavelmente, mesmo com a chegada do ano 2000, ainda se observava a crise devido à seca ser ainda forte no nordeste do país, e o número de pessoas que estavam migrando para outros Estados do Brasil, como: Amazonas, São Paulo Acre e outros ainda eram muito expressivos. O grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos” encontra-se dentro destas estatísticas da historiografia nordestina de migração.

Segundo Nadine Agra (1998), analisando o autor Martine (1990), no período de 1970 a 1980, foi reduzida a “participação dos estabelecimentos com até 10 ha de terras no total da área do Brasil, de 52,2% para 50,4%, enquanto foi aumentada a dos estabelecimentos com mais de 1.000 ha de terras, de 0,7 para 0.9%. Além da redução de quantidade, ocorreu redução de área dos pequenos estabelecimentos em relação aos grandes. Terras antes ocupadas por pequenos produtores familiares foram incorporadas por grandes proprietários. Esses pequenos produtores e suas famílias perderam o lugar que tinham para morar e para trabalhar, perderam suas lavouras de autoconsumo e, principalmente, foram deslocados do seu principal meio de produção que era a terra” (Martine, 1990, apud, Agra, 1998).

Através dos relatos de Nadine, quando fala sobre o que Martine havia escrito a respeito das mudanças ocorridas no nordeste brasileiro, recorda-se o fato acontecido com o grupo familiar “Gonçalves e Santos”, que no sertão do Ceará, era um grupo pequeno de produtores. São esses dados que nos permitem mostrar que nordestinos ainda estavam saindo do nordeste brasileiro e vindo para o Estado do Acre no período de 1970. Esses pequenos produtores e suas famílias perderam o lugar que tinham para morar e para trabalhar, perderam suas lavouras de autoconsumo e, principalmente, foram deslocados do

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seu principal meio de produção, que era a terra, e a partir do que estava acontecendo com eles, vieram para o norte.

Pois os grandes produtores tinham o controle das terras, e para os pequenos produtores e suas famílias não havia como permanecer na terra. Era muito difícil conseguir se manter e sobreviver, até porque tinham perdido parte de suas terras, o que havia restado com a nova mudança que havia acontecido na estrutura econômica. E agora no meio de um grupo que detinha um aumento em suas terras e tinha todo o material para trabalhar e cultivar a terra, como as máquinas os adubos etc. tornava-se inviável a permanência do grupo naquela condição.

Segundo Martine (1990), essa nova “mecanização que se dava por meio do uso de máquinas, adubos e defensivos químicos, passou a ter, também, importância no aumento da produção agrícola no Ceará, nordeste do Brasil”. Promoveu-se uma verdadeira expulsão do homem do campo. “No período de auge do processo, entre 1970 e 1980, foram 30 milhões de pequenos produtores expulsos de suas terras, em alguns Estados do nordeste do Brasil. Sem terra e sem emprego suficiente para todo o contingente que perdia suas terras, vender a força de trabalho nas áreas metropolitanas era a única saída, aumentando consideravelmente o êxodo rural”.

Silva (1996), referindo-se aos escritos de Martine (1990), diz que com “a modernização agrícola no sertão nordestino brasileiro, a partir dos anos 1970, em alguns dos municípios do Ceará”, neste caso podemos incluir também o município de Pereiro, seguiu-se a “modernização das relações de trabalho e o assalariamento parcial e precário, ou seja, o aumento da sazonalidade do trabalho”: “o trabalhador passa de papel ativo e integral do artesão para o de um trabalhador parcial na manufatura, até atingir a passividade do operário, que apenas vigia a máquina”.

Para um produtor rural acostumado a trabalhar na terra, cultivar e plantar para sua sobrevivência, durante muitos anos de sua vida, e quando dá por si já havia toda uma mudança, surge uma nova estrutura mecanizada e tira seu lugar de trabalho, sua fonte de renda, e ainda mais não lhe dão nem um meio de subsistência, pelo contrário, expulsam-no definitivamente de seu lugar de origem, era uma situação de extrema desordem. Para o grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos”, foi um momento constrangedor. Precisavam se adaptar àquela nova modernização imposta para eles. E com esse novo

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sistema para este grupo familiar não havia esperanças. Por isso migraram para a região Norte do Brasil.

Analisando os dados do autor Aguiar (1986), além da mudança na “base técnica no campo nordestino do Brasil surgem nos anos 1970, como produto da modernização agrícola, os complexos agroindustriais representando a integração técnica entre a indústria que produz para a agricultura, a agricultura e a agroindústria”.

[...] é importante levar em consideração que a agricultura brasileira se apresentou, ao longo da sua história, subordinada à lógica do capital, sendo um setor de transferência de riquezas. Assim sendo, dentro do seu processo de modernização, deve-se dar significado maior à sua transnacionalização e à sua inserção na divisão internacional do trabalho ou, ainda, à penetração do modo de produção capitalista no campo brasileiro. (Aguiar, 1986, p.160).

Segundo Martine (1990), esse foi o maior “incremento no seu uso, e coincide justamente com a entrada dessas empresas no país, mais precisamente no nordeste do Brasil”. A partir de então, o desenvolvimento da agricultura não pode mais ser visto como autônomo. “A dinâmica industrial passou a comandar, definitivamente, o desenvolvimento da agricultura, convertendo-a num ramo industrial, que compra insumos e vende matérias-primas para outros ramos industriais”.

Para Cordeiro (1996), denomina de um “modelo agrícola bimodal”, no Nordeste, e norte do Brasil, isto é, convivência de “sistemas produtivos intensivos e extensivos, modernos e tradicionais, de ricos e de pobres. Para que novas terras, em antigas ou novas regiões produtivas, passassem a ser usadas com utilização de novas tecnologias, foi necessário o desmatamento de áreas de cobertura natural, levando à devastação de florestas e de campos nativos, ao empobrecimento da biodiversidade e da perda de recursos genéticos amplamente encontrados nas florestas”.

Segundo Santos (1986), o crescimento da produção agrícola no nordeste do Brasil se dava, basicamente, até a década de 1950, por conta da “expansão da área cultivada”. A partir da década de19 60, de acordo com os parâmetros da “Revolução Verde”, incorporou-se um “pacote tecnológico à agricultura, tendo a mudança da baincorporou-se técnica resultante passando a ser conhecida como modernização da agricultura brasileira, e na década de 1970, ainda continuava essa expansão”.

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Nesta perspectiva os autores Cordeiro (1996), Santos (1986) e Martine (1990), afirmam que essa nova modernização agrícola no nordeste brasileiro seguiu-se a “modernização das relações de trabalho e o assalariamento parcial e precário, ou seja, o aumento da sazonalidade do trabalho, ou seja, gora havia um tempo determinado para o trabalho agrícola”. Segundo essas transformações que contava com os parâmetros da “Revolução Verde”, não foram nada mais do que resposta às necessidades do “capitalismo”, uma vez que o trabalhador parcial permite ao capital maior valorização, pela intensidade do outro impacto negativo da modernização da agricultura e no que diz respeito à produção de alimentos.

Segundo Nadine (1998), citando o autor Aguiar (1986), sobre a taxa de crescimento dos produtos agrícolas, na década de 1970, período áureo da modernização, observamos que as “taxas de crescimento das principais culturas que compõem a cesta básica dos brasileiros foram inferiores à do crescimento populacional. O arroz cresceu 1,5%, o milho 1,7%, a mandioca 2,1% e o feijão teve crescimento negativo de –1,9%, enquanto a população cresceu 2,5%; já as lavouras de exportação apresentaram significativas taxas de crescimento: soja 22,5%; laranja 12,6%; cana-de-açúcar 6,3%”. Em decorrência, verificou-se aumento do preço dos alimentos nas cidades, redução do consumo alimentar, agravamento dos índices de subnutrição crônica e de doenças causadas pela fome, “se gasta mais para comer menos e pior”. (Aguiar, 1986 apud, Agra, 1998, p. 04)

Como podemos observar no texto acima, os dados levantados por Aguiar e aqui escritos por Nadine mostram que o crescimento dos produtos alimentícios não foi suficiente para dar conta da população existente, pois grande parte dos produtos era para exportação, pois os espaços tomados pelos agricultores tomavam toda a terra, e o que ficava não era suficiente para toda aquela população, e os produtos que ficavam para o consumo daqueles grupos de produtores não era de boa qualidade. Devido a essa exportação, o produto que ficava era escasso e, sendo assim, se tornava muito caro, além de não oferecer uma boa qualidade, ou seja, muitas vezes os produtos eram de péssima qualidade.

Dessa forma, esses produtos ficavam caros, e nem toda aquela população nordestina tinha como comprar os alimentos. Com isso foram surgindo às doenças e pessoas desnutridas, e aqueles nordestinos que conseguiam comprar os alimentos passaram

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a pagar caríssimo por um produto, pagar mais e comer pouco e ruim. Porque, à medida que o agricultor capitalista toma espaço no campo, incorporando mais e mais terras nas monoculturas de exportação, são reduzidas as áreas ocupadas com o cultivo de alimentos para subsistência.

Analisando o que escreveu Nadine Agra (1998), diante do exposto até aqui, pode-se afirmar que o “modelo de modernização da agricultura implantado no nordeste do Brasil, foi inadequado à realidade brasileira, sem se considerarem as condições ambientais e sociais, alcançou bom desempenho econômico, quando consideradas as perspectivas de lucro; no entanto, modificou e deixou marcas nas relações socioeconômicas do campo brasileiro”.

Como se pode observar se colocarmos o Estado do Ceará e outros como principais agentes indutores, observa-se que não foi feito um levantamento para tal processo, sendo assim, caracterizou-se como heterogêneo, excludente e parcial, por se concentrar nas regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste e nas monoculturas voltadas principalmente para a exportação, deixando à margem as regiões Norte e Nordeste, onde predomina a policultura alimentar.

Sob esse olhar, portanto, a modernização da agricultura nordestina brasileira como uma simples mudança da base técnica, é simplificar, em muito, o seu significado. No momento em que foi lançado este plano para a região Nordeste, não foram levados em consideração vários fatores, como, por exemplo: como ficariam os pequenos produtores em meio à nova estrutura, qual seria sua estratégia, havia oportunidades de negócios para esses grupos, e a terra como seria essa nova distribuição.

Assim esse novo modelo teve grandes impactos, fez com que o grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos” migrasse para a Cidade de Rio Branco. Dentro do processo de globalização e do aparecimento do “novo rural brasileiro” e da queda de participação da agricultura, verifica-se aumento da pobreza no campo, o que leva à conclusão de que não é toda agricultura que está globalizada, mas apenas sua parcela mais rica. Comumente aquele que detém os meios de produção tem mais oportunidades e os menos favorecidos buscam suas melhoras.

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1.2- TRAJETÓRIAS DE FAMÍLIAS: “GONÇALVES E SANTOS”

Trajetórias, são caminhos ou meios percorridos por pessoas ou grupos em suas vidas, são trajetos, que ajudam aseguir seus sonhos e objetivos. E famílias, a partir do momento em que duas pessoas se unem em casamento, apatir dali forma-se uma família, ou seja, são pessoas do mesmo sangue, que vivem ou não em comum: o pai, a mãe e os filhos. E é dentro deste conceito de trajetórias e conceitos de famílias que vamos falar deste caminho percorrido pelo grupo familiar na década de 1970, quando duas familias juntam-se e formam o grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos”.

Para o autor Guimarães (1995), essa “trajetória de famílias se dá através de um processo de construção de identidade social e pessoal do indivíduo, em constantes mudanças formadas na rede social, que ao mesmo tempo determinam os caminhos seguidos pelos indivíduos, um horizonte de possibilidades, ideias e visões de mundo”.

Em Outubro de 1974, o grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos”, residiam no sertão nordestino. Na Cidade de Pereiro-Ceará, onde nasceram e viveram por muitos anos. Em 1958, o Senhor Raimundo Saraiva dos Santos (familia Santos) veio para o Municipio de Rio Branco, com parte de sua familia, ficando para trás apenas o filho mais velho, seu Manoel Saraiva dos Santos. O mesmo veio até Belém-Pará, e lá resolveu ficar com sua família, conseguiu emprego em uma fábrica de castanha e ali ficou por um ano. Em 1959, com o trabalho que tinha conseguido juntou algum dinheiro e ai resolveu voltar para o nordeste com esposa e filhos.

Na entrevista com a senhora Maria do Socorro Fernandes dos Santos, 55 anos, nordestina, casada, três filhos, três netos, filha de “seu” Manoel Saraiva dos Santos, reside no Bairro Amapá desde 2004, podemos observar nela uma grande admiração por seu pai porque ele tinha perspectiva de uma vida melhor e, de certa forma, era admirável além de muitos limites a serem vencidos, a coragem dele de vir para outro estado praticamente sem dinheiro, contando com ajuda de parentes:

Dinheiro quase não tinha mesmo, mas meu pai era um homem de coragem no nordeste nós já sobrevivia né da agricultura, e foi ficando difícil os produtos foi ficando caro e o que nós plantava não dava pra viver, quando chegamos aqui no Acre, novamente o meu avô nos cedeu uma colônia pra nós morarmos e foi lá que agente começou a trabalhar né, com aquele trabalho, então sendo nós agricultor más as pessoas né uma amizade boa, fizemos amizades boas com as pessoas, nossos vizinhos muitas vezes nos ajudavam. Nós passamos

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quase três anos, no que lugar que hoje é chamado Calafate, antes era conhecido como “Cruz Milagrosa”. E depois fomos morar no Bela Vista, ainda hoje existe né, o lugar com o nome “Bela Vista”.(Maria do Socorro dos Santos, Entrevista concedida em 20.05.2011)

Ao narrar a situação dificil no Nordeste, que expulsava os pequenos agricultores do sertão, Dona Maria do Socorro Fernandes dos Santos resssalta que por isso os integrantes da família nordestina, partiu para o Estado do Acre, e vindo ao encontro de parte de sua família que já morava no Município de Rio Branco, desde 1958.

Observa-se na fala de Dona Maria do Socorro Fernndes as dificuldades que estavam passando no Ceará, devido às mudanças na economia nordestina. Para Dona Socorro, seu pai, o senhor Manoel, era um homem de coragem, pois sair de seu estado o nordeste para o Acre era um ato de bravura, por não terem condições necessárias para virem para o Acre.

Percebe-se que a migração desses nordestinos se deu devido às mudanças ocorridas no nordeste do Brasil, e as dificuldades agora enfrentadas pelo pequeno grupo de produtores fizeram com que migrassem para a Cidade de Rio Branco. Através das redes sociais, tiveram notícias boas sobre a cidade, por isso fizeram essa trajetória do Nordeste para o Acre. Por fazerem parte de uma classe menos favorecida, precisaram migrar para procurar emprego e tranquilidade para os seus familiares.

1.3 O SERTÃO CEARENCE E A MIGRAÇÃO

O sertão nordestino é conhecido pelas secas, e pelas grandes serras e também por estar longe da cidade e de povoações, ou seja zona do interior brasileiro, normalmente são terras mais secas. O sertão nordestino apresenta diversas formas de um estado para outro. A partir dessa colocação entende-se por que existem as migrações para outros estados do país. Na década de 1970 no interior do Nordeste do Brasil, a precariedade era intensa em vários angulos da história daquele Estado, no setão do nordeste era usado por muitos moradores dos municípios como meio de transportes camionetes ao estilo "pau-de-arara" por estar distante da cidade.

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Como já falamos anteriormente, a migração nordestina é um processo migratório secular de populações vindas da região Nordeste do Brasil para outras partes do país, incluindo asim a região Norte, e vice-versa.

Assim o movimento demográfico teve e tem grande relevância na história da migração no brasil, desde a época do Império. E até nos dias atuais continua a migração de pessoas saindo de um lugar para outro, não satisfeitas com sua vida, ou situação financeira, se deslocam de um Estado para outro à procura de novos horizontes.

A estagnação econômica, as constantes secas e a prosperidade econômica de outras regiões do Brasil foram fatores determinantes no início do processo migratório nordestino. Com o início do "Primeiro Ciclo da Borracha" em 1879, os nordestinos migraram para a região da Amazônia, fato que se repete com o "Segundo Ciclo da Borracha" durante a Segunda Guerra Mundial. E na década de 1970 ainda havia nordestinos vindo para a cidade de Rio Branco.

Analisando a autora Cleusa Rancy (2008), o nordestino, em sua maioria, origina-se da zona origina-sertaneja do Ceará, complementado por elementos da Paraíba, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco. Esse homem do sertão, cujo espírito de liberdade e independência acentuada, tem sua existência voltada para as atividades agropecuárias em pequena escala e com características técnicas rudimentares, condicionadas pelo clima quente e seco do sertão, fator determinante na sua economia.

Nesta perspectiva para Cleusa Rancy (2008), deve-se ressaltar ainda que não só de seca vive o Nordeste: a história mostra lances de crescimento, interrompidos sempre que os fenômenos climáticos das secas ou das cheias circunstanciais se faziam sentir, pois nem só de secas viveu e ainda vive o Nordeste. Existiram e ainda existem outros problemas que também fazem parte do Nordeste, como a questão das cercas que expulsavam o homem, dando lugar ao boi, ou seja, à pecuária.

Entende-se a partir do contexto acima a vinda de duas famílias de nordestinos, família “Gonçalves e família Santos”, para a cidade de Rio Branco na década de 1970. Deixaram seu município de origem, Pereiro, município do Ceará, Para virem para o Município de Rio Branco- Acre. Um grupo que pelas dificuldades que surgiram no sertão, com a questão da mudança na economia que havia respingado sobre os municípios do Ceará, sai do sertão nordestino e migra para o Estado do Acre em 1970.

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1.4 DESLOCADOS FAMÍLIA “GONÇALVES E SANTOS”

A partir da trajetória do grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos” vindos do sertão do Ceará para o Estado do Acre, eles estavam fora do seu lugar ou seja de seu Estado, de certa forma era constrangedor, estavam em um ambiente que não era habitual para eles. Como já foi falado anteriormente, devido às mudanças que estavam acontecendo no Nordeste, e, sendo assim, também em Pereiro, município cearense, não era diferente.

A nova frente de agricultura e pecuária que havia sido implantada não permitia ao pequeno produtor continuar morando no sertão, o campo dava lugar às cercas, ou seja, aos bois que agora tinham papel importante na economia , devido a esse e a outros fatores é que o núcleo familiar, em outubro de 1974, saiu do sertão nordestino para a Cidade de Rio Branco, deslocando-se de um lugar para outro, à procura de uma vida melhor, e fugindo do Estado do Ceará onde viviam por necessidade, pois o Estado passava por uma ampla mudança em sua economia, e para o núcleo familiar aquela nova estrutura não propiciava condição de vida.

Em 1970 o Estado do Ceará passava por algumas mudanças na estrutura econômica, sendo assim, começavam a surgir as dificuldade no sertão nordestino, e devido a essas novas mudanças em sua estrutura econômica, só os grandes produtores rurais tinham acesso aos meios necessários para a compra de máquinas e adubos para esse novo modelo de economia. Para os pequenos produtores, não era viável sua continuação no sertão nordestino sem estrutura para trabalharem na terra, até porque boa parte de suas terras tinham sido tomadas pelos grande produtores.

Em meio a essa nova situação, não era viável para o grupo familiar nordestino “Gonçalves e Santos”, então essas duas famílias decidiram partir para o Norte, mais precisamente para a cidade de Rio Branco, em busca de uma vida melhor, de emprego que garantisse sua existência. E “seu” Manoel, a convite de seu pai, o senhor Raimundo, animou-se, acreditando que, junto a seu pai e seus irmãos que já moravam aqui na cidade de Rio Branco desde 1958, sua vida seria melhor.

Como nos conta a seguir Dona Antonia Lucia dos Santos, 57 anos de idade, nordestina, casada, mãe de cinco filhos, oito netos, moradora do Bairro Amapá, a partir de 1977:

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Minha vida lá era um pouco difícil, e meu pai tinha a família dele aqui, meu avô né e eles tiveram essa idéia de viajar pra lá e lá fazer o convite pra o meu pai né vir para cá. E aí nós decidimos né e viemos né, só que não foi fácil né a viaje mais de oito dias, e é não era asfaltada a estrada era uma estrada muito difícil de barro muitas vezes o ônibus parava né pra gente dormir é nas casas de apoio né aquelas casas de apoio a onde agente não dormia passava a noite é muitas carapanãs, a minha mãe e meu esposo abanando eu grávida da minha primeira filha e não foi fácil, não foi fácil pra nós chegarmos aqui, foi mais de oito dias pra gente chegar aqui em Rio Branco, com muita dificuldade muita dificuldade mesmo. (Antonia Lucia dos Santos, Entrevista concedida em 10.05.2011)

Percebe-se na fala de Dona Antonia Lúcia, que sua vontade era ficar em sua terra natal, junto dos seus, porém eles queriam dar a suas famílias um lar cheio de alegria e de prosperidade, e fazer com que suas famílias se sentissem seguras e protegidas, e pudessem viver em sociedade,e isso no momento, não estava acontecendo; havia dificuldades de emprego, para todos, sendo assim estes nordestinos, por razões econômicas e outras razões pessoais, optaram por deixar suas casas, seus amigos e até mesmo parentes, e partiram para o Estado do Acre, acreditando que aqui teriam dias melhores.

Ela conta que sua vida lá3, não estava muito boa, e seu avô havia feito um convite para eles virem para cá4. Até então não conseguiam imaginar como seria sua vida no norte, porém apartir daquele convite de vir morar perto de sua família, decidiu por esta viagem, sendo assim vieram ao lugar que agora passa a ser desejado por aquele núcleo, familiar, a cidade de Rio Branco. Na entrevista acima, com a senhora Antonia Lucia ela contou parte de sua história, e lembrou os momentos dificeis para eles.

Observa-se que o deslocamento da família “Gonçalves e Santos”, de um lugar para outro, ou seja, do sertão nordestino para o Estado do Acre, tem seus momentos difíceis; segundo Dona Antonia, ela passou por maus bocados, grávida de sete meses de sua primeira filha, sofreu com a viagem do Nordeste para o Norte, vieram de ônibus, e o mesmo não oferecia uma boa segurança, nem comodidade, diferentemente de hoje, com ônibus equipados, com boas poltronas, ar condicionado, etc.

Compreende-se que o deslocamento de parte da família nordestina “Gonçalves e Santos” foi necessário devido às dificuldades que passavam no Ceará, porém passaram por momentos difíceis também no Acre, o lugar idealizado por eles como bom, e agora estavam fora do seu meio, de seu lugar de origem.

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lá, significa o Município de Pereiro no Ceará.

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cá, significa o município de Rio Branco.

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CAPÍTULO II

MEMÓRIAS DE UMA FAMÍLIA NORDESTINA

Ao chegar ao Acre os migrantes cearenses traziam consigo todas as memórias vividas por eles no Nordeste, as formas utilizadas por eles para viverem em uma parte do sertão que não ofereciam muitas opções para trabalhar, enfim para viver. A família estava unida para vencer os obstáculos que iam surgindo, os mais velhos com sua vivencia ensinavam os mais novos, como deviam se portar em sua vida.

Segundo Halbwachs (1968), o meio familiar, e principalmente os mais velhos representa a imagem da união entre seus antepassados e seus descendentes, papel semelhante é desempenhado pelos empregados domésticos que trazem as famílias de camadas sociais mais favorecidas e também de pessoas simples sem conhecimento da sociedade o passado da sociedade reconstruído com outros olhos e com outros interesses.

Transmitir uma história, sobretudo, a história familiar é transmitir uma mensagem, referida, ao mesmo tempo, a individualidade da memória afetiva de cada família e a memória da sociedade mais ampla, expressando a importância e permanência do valor da instituição familiar como referência fundamental para a reconstrução do passado advém do fato de a família ser ao mesmo tempo o objeto das recordações dos indivíduos e o espaço que essas recordações podem ser avivadas. (Halbwachs, 1968, p.53)

Através da história oral que nos permite analisar as fontes como método da pesquisa, pudemos fazer nossas entrevistas que foram de fundamental importância para conclusão de nosso trabalho. Foi através da história oral que podemos mostrar parte do grupo analisado “Gonçalves e Santos”. Através da Memória do grupo familiar, podemos trazer á tona a lembrança que, para a autora Ecléa Bosi (1994), é um diamante bruto que precisa ser lapidado, ou seja, trabalhado, depois analisado para uma boa interpretação da imagem vivida pelas pessoas, grupos sociais, etc.

Segundo a autora Ecléa Bosi (1994), temos através da memória pelo sentido da condição humana e de sua trajetória como base da explicação para o fazer história como investigação-testemunho, a memória é um dos suportes essenciais para o encontrar-se dos sujeitos coletivos, isto é, para a definição dos laços de identidade e falar do lugar de

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