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Aldeias vinhateiras: aldeias com vida? Estudo de caso das aldeias de Salzedas e Ucanha

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ALDEIAS VINHATEIRAS: ALDEIAS COM VIDA?

ESTUDO DE CASO DAS ALDEIAS DE SALZEDAS E UCANHA

Maria do Rosário Melides Coelho Graça

Orientada por: Artur Cristóvão, Professor Doutor

Tese de Mestrado em Turismo

Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro 2010

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Aldeias Vinhateiras: Aldeias com vida? Estudo de caso das aldeias de Salzedas e Ucanha Agradecimentos

Algumas pessoas ficam-nos no coração para sempre. Umas porque nos vão auxiliando no nosso percurso diário, outras porque, mesmo ausentes, sentimos a sua presença.

As palavras tornam-se insuficientes quando pretendemos dizer o que nos vai para além da alma; ganham um novo significado quando sentidas; adquirem nova vida quando inquietam o

pensamento… Aos meus Pais,

Porque sem eles, não era quem hoje sou! Ao meu irmão,

Pela nossa cumplicidade! Ao Fernando,

Pelo seu amor, carinho, paciência e pelo apoio incansável nos bons e maus momentos do meu caminho!

A todos os meus amigos, em especial à Rute Ribeiro, à Isabel Catalão, ao Zé Esteves e Sónia Paradela,

Pela amizade e paciência! Ao Professor Doutor Artur Cristóvão,

Pelas apreciações, pela paciência e pela orientação!

À Junta de Freguesia de Salzedas, em especial à D. Zilda Santos; Ao Dr. António Seixeira, pároco de Salzedas;

À Junta de Freguesia de Ucanha, em especial à Dr.ª Vanessa Costa;

E a todos os que apoiaram a realização desta dissertação.

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Aldeias Vinhateiras: Aldeias com vida? Estudo de caso das aldeias de Salzedas e Ucanha

Índice

Páginas 1. Introdução 8 1.1. Contexto 8 1.2.Objectivos 8 1.3. Construção metodológica 9 1.4. Estrutura da tese 9 2. Enquadramento 10

2.1. Desvitalização e revitalização rural 10

2.2. Projecto de dinamização de aldeias 14

2.3. Estudos sobre a dinamização de aldeias 18

3. Metodologia 23

3.1. Objectivos 23

3.2. Objecto de análise 25

3.3. Métodos e técnicas de recolha de informação 26

3.4. Instrumentos de recolha de informação 28

4. Apresentação dos resultados 29

4.1. Situação geral das Aldeias Vinhateiras 28

4.2. Aldeias Vinhateiras do Douro 44

4.3. Estudos de caso 47 4.3.1. Habitantes 47 4.3.2. Líderes 60 5. Conclusões 73 5.1. Conclusões gerais 73 5.2. Recomendações 78 Bibliografia 81 Anexos 86

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Aldeias Vinhateiras: Aldeias com vida? Estudo de caso das aldeias de Salzedas e Ucanha

Índice de Quadros

Páginas

Quadro 1 – Alguns elementos de caracterização das Aldeias Vinhateiras do Douro

29 Quadro 2 – Comércio existente nas Aldeias Vinhateiras do Douro 31 Quadro 3 – Serviços existentes nas Aldeias Vinhateiras do Douro 32 Quadro 4 – Eventos de animação e artesanato nas Aldeias Vinhateiras do Douro 34 Quadro 5 – Festividades religiosas nas Aldeias Vinhateiras do Douro 34 Quadro 6 – Organizações locais nas Aldeias Vinhateiras do Douro 35 Quadro 7 – Sinalização turística das Aldeias Vinhateiras do Douro 35

Quadro 8 – Património construído de Barcos 36

Quadro 9 – Património construído de Favaios 37

Quadro 10 – Património construído de Provesende 38

Quadro 11 – Património construído de Salzedas 39

Quadro 12 – Património construído de Trevões 40

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Aldeias Vinhateiras: Aldeias com vida? Estudo de caso das aldeias de Salzedas e Ucanha

Índice de Gráficos

Páginas

Gráfico 1 –Perfis dos residentes inquiridos das AVD de Salzedas e Ucanha 47

Gráfico 2 – Género dos residentes inquiridos das AVD de Salzedas e Ucanha 48

Gráfico 3 – Nível de formação dos habitantes inquiridos das AVD de Salzedas e Ucanha

48

Gráfico 4 – Ocupação profissional dos habitantes inquiridos das AVD de Salzedas e Ucanha.

49

Gráfico 5 – Preocupação em respeitar os valores culturais, arquitectónicos e ambientais das AVD de Salzedas e de Ucanha.

50

Gráfico 6 – Opinião sobre os projectos efectuados no âmbito do Programa das AVD de Salzedas e de Ucanha, relativamente à sua importância

51

Gráfico 7 – Opinião sobre os projectos efectuados no âmbito do Programa das AVD de Salzedas e de Ucanha, relativamente à satisfação do Inquirido

52

Gráfico 8 – Opinião sobre os projectos efectuados no âmbito do Programa das AVD de Salzedas e de Ucanha, relativamente aos impactos reais

53

Gráfico 9 – Dentro do que foi efectuado, o que melhorou nas AVD de Salzedas e de Ucanha?

54 Gráfico 10 – Dentro do que foi efectuado, o que foi mais positivo nas AVD de

Salzedas e de Ucanha?

55 Gráfico 11 – Dentro do que foi efectuado, o que foi negativo nas AVD de

Salzedas e de Ucanha?

56 Gráfico 12 – Aumento de visitantes e a importância do Turismo no

desenvolvimento das AVD de Salzedas e Ucanha

57 Gráfico 13 – Pontos fortes e pontos fracos das AVD de Salzedas e de Ucanha. 58

Gráfico 14 – Dinamização das AVD de Salzedas e Ucanha. 59

Gráfico 15 – As AVD de Salzedas e Ucanha estão vivas? E daqui a cinco anos?

60 Gráfico 16 – Perfil dos Actores Locais questionados em Salzedas e Ucanha 61 Gráfico 17 – Género dos Actores Locais questionados em Salzedas e Ucanha 61 Gráfico 18 – Nível de formação dos Actores Locais questionados em Salzedas

e Ucanha

62 Gráfico 19 – Grau de participação nas intervenções realizadas nas AVD de

Salzedas e Ucanha

63 Gráfico 20 – Dentro do que foi feito, o que melhorou nas AVD de Salzedas e

Ucanha?

64 Gráfico 21 – Dentro do que foi elaborado nas AVD de Salzedas e Ucanha, o

que foi positivo e negativo?

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Gráfico 22 – Pontos fortes da AVD 66

Gráfico 23 – Pontos fracos das AVD 67

Gráfico 24 – Oportunidades de desenvolvimento para as AVD de Salzedas e Ucanha

68

Gráfico 25– Dinamização das AVD de Salzedas e Ucanha 69

Gráfico 26 – Iniciativas para dinamizar o turismo, o comércio e a restauração nas AVD de Salzedas e Ucanha

70

Gráfico 27 – A aldeia está viva? 72

Gráfico 28 – Como vê a aldeia de Salzedas e de Ucanha daqui a cinco anos? 73

Índice de Tabelas

Páginas Tabela 1 - Análise SWOT (strengths, weaknesses, opportunities and threats) 43

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Aldeias Vinhateiras: Aldeias com vida? Estudo de caso das aldeias de Salzedas e Ucanha Resumo

Palavras -chave: desenvolvimento regional; revitalização económica; Aldeias Vinhateiras

do Douro; aldeias vivas?

Com o crescente abandono das zonas rurais, na actualidade, o interior português caracteriza-se pelo despovoamento e pelo envelhecimento populacional. Diversos projectos vêm sendo criados com o intuito de fomentar o desenvolvimento nestes aglomerados populacionais. Incluída no Programa de Desenvolvimento da Região Norte 2000 / 2006, a Acção Integrada de Base Territorial (AIBT) promoveu uma iniciativa dirigida para a revitalização e requalificação de um conjunto de aldeias na zona do Douro, que ficaram denominadas como Aldeias Vinhateiras. Com este trabalho, foi nosso objectivo percepcionar, através de uma abordagem qualitativa, qual a opinião da população em geral, representantes associativos, dinamizadores locais, agentes económicos (ligados ao turismo, comércio, restauração, artesanato) e líderes locais (Padre, Presidente da Junta de Freguesia) das Aldeias Vinhateiras de Salzedas e Ucanha, sobre o Projecto de Revitalização das Aldeias Vinhateiras do Douro. A questão fulcral deste estudo prende-se com o facto de pretendermos aquilatar se as Aldeias Vinhateiras estão vivas após oito anos do lançamento do Programa. Os resultados não foram os desejados. As populações possuem mais qualidade de vida, as aldeias são mais conhecidas, mas o êxodo populacional continua, não houve investimentos, não se organizou o Festival das Aldeias Vinhateira em 2008 e toda a dinâmica paralisou.

Abstract

Keywords: regional development; economical revival; Douro winemaking villages; living

and alive villages?

Nowadays, with the increasing abandon of rural areas, the Portuguese midland is characterised by depopulation and ageing of its inhabitants. Several projects have been created to foment the development of these groups of population. Include in the Program of Development of the North Region 2000 /2006, the Acção Integrada de Base Territorial (AIBT) promoted an initiative which aim is the revival and requalification of several villages in the Douro area that have been called Winemaking Villages. The goal of this dissertation is to insight, through a qualitative approach, the opinion of the population in general, persons in charge of associations, local pro-active and economical agents (associated to tourism, business, accommodation and food services, and handicraft) and local leaders (Priest, Chairmen of the parish council) of the

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winemaking villages of Salzedas and Ucanha, about the Winemaking Villages Revival Project. The key question of this study is that we pretend to measure if the winemaking villages are alive and living after eight years of this program release. The results were not the expected ones. Populations have a better quality of life, the villages are better known but the exodus of the population goes on, no investments were made and the 2008 Festival of the Winemaking Villages was not organized and all the dynamic paralysed.

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1. Introdução

1.1. Contexto

De um modo geral, os territórios do interior de Portugal têm vindo a perder população, o que vem a provocar uma estagnação da agricultura e pecuária, ou seja, uma paralisação da economia e desenvolvimento.

De forma a combater este flagelo, na zona duriense, em 2001, a Acção Integrada de Base Territorial – Douro (AIBT), incluída no Programa de Desenvolvimento da Região Norte 2000 – 2006, co - financiado pelo FEDER, fomentou um Programa de requalificação e de revitalização direccionado para um conjunto de aldeias durienses, denominado “Aldeias Vinhateiras”. De entre as muitas aldeias durienses, foram escolhidas as aldeias de Barcos, no concelho de Tabuaço, Favaios, no concelho de Alijó, Provesende, no concelho de Sabrosa, Salzedas e Ucanha, no concelho de Tarouca e Trevões, no concelho de S. João da Pesqueira. Estes aglomerados populacionais rurais vivem um processo de êxodo rural e de envelhecimento crescente. Ligados, por tradição, à terra e ao vinho, nestes territórios foi lançado um projecto de requalificação urbana, de dinamização socioeconómica e, por último, nos derradeiros meses de 2007, um plano de animação turística, cujo ponto alto foi o Festival das Aldeias Vinhateiras (Cristóvão et al., 2010: 1).

Este tipo de projecto não é exemplo único no interior do território português, já que é nesta esfera que se situam os aglomerados populacionais com maiores carências e com mais necessidade de revitalização. As Aldeias Históricas, as Aldeias de Xisto, as Aldeias de Portugal, as Aldeias de Quarta Geração são os Programas mais conhecidos. Todos eles tinham em comum a requalificação urbana e a revitalização das economias locais.

1.2. Objectivos

Ao longo deste estudo, foi nosso objectivo percepcionar qual a opinião dos residentes relativamente a este Projecto, ou seja, sobre as intervenções efectuadas, os impactos na qualidade de vida dos habitantes e os efeitos nas economias locais. A questão fulcral deste estudo prende-se com o facto querermos saber se as Aldeias Vinhateiras estão vivas após oito anos do lançamento deste Programa. Naturalmente, surgiram outras

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questões em torno deste tema: quais os pontos fortes e fracos da aldeia? Houve preocupação em respeitar os valores arquitectónicos, culturais e ambientais da aldeia? Quais os impactos reais destas intervenções? Como vê a aldeia daqui a cinco anos?

1.3. Construção metodológica

Este trabalho foi estabelecido em duas fases. A primeira, onde se pretendeu aquilatar a existência de organizações locais; de eventos; sinalização da aldeia, património e cultura; dinâmicas criadas; envolvimento em rede com as outras AVD (Aldeias Vinhateiras do Douro); de actividades económicas; o crescimento populacional. Criámos um pequeno guião e falámos, informalmente, com a população e os Presidentes das Juntas de Freguesia de todas as AVD.

Na segunda fase, que compreendeu unicamente Salzedas e Ucanha, foram entrevistados de um modo mais sistemático e através de uma abordagem qualitativa, a população em geral, os representantes associativos, dinamizadores locais, agentes económicos (ligados ao turismo, comércio, restauração, artesanato) e líderes locais (Padre, Presidente da Junta de Freguesia).

Estas entrevistas tiveram o intuito de conhecer a opiniões dos questionados sobre as oportunidades de desenvolvimento local, a criação de emprego, a dinamização da aldeia, os pontos negativos e positivos das intervenções realizadas, as ameaças e as perspectivas de evolução da aldeia.

1.4. Estrutura da tese

Para além da introdução, este trabalho inclui quatro pontos adicionais: o primeiro ponto, o enquadramento, onde se faz a abordagem da desvitalização e da revitalização das áreas rurais, projectos conhecidos de dinamização de aldeias; um quadro de análise sobre as variáveis dos projectos de intervenção; o segundo ponto, a metodologia, onde se apresentam os métodos e técnicas de recolha de informação, bem como seus instrumentos de recolha; o terceiro ponto, a apresentação de resultados, onde expomos a situação geral das seis Aldeias Vinhateiras e os estudos de caso; o quarto ponto, onde oferecemos as conclusões e as recomendações para a dinamização das aldeias em estudo.

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2. Enquadramento

2.1. Desvitalização e revitalização rural

As aldeias Vinhateiras do Douro são espaços marcadamente rurais, fragilizados, despovoados, com baixa densidade populacional, elevados índices de envelhecimento da população agrícola, baixa natalidade, elevadas taxas de analfabetismo e escassa frequência do ensino superior. Possuem graves carências ao nível de serviços e infra-estruturas básicas.

O sector primário tem vindo a perder importância, mas continua a possuir um peso considerável no Douro. A agricultura, onde predominam a vinha, o olival e o amendoal é o principal elemento da base económica desta área (SPIDOURO, 1999).

O fenómeno de envelhecimento populacional, resultante de baixos níveis de natalidade e do aumento da esperança média de vida, tem consequências a médio prazo, como a queda da população activa e o aumento da população idosa ao encargo da população activa.

O Douro Vinhateiro, onde se encontram inseridas as aldeias de Salzedas e Ucanha, vem sofrendo uma queda demográfica ao longo dos tempos. A migração de pessoas do campo para as cidades, numa “fuga voluntária” (Zabel, 2007: 2)para a costa, bem como para outros países, cansadas da interioridade e de falta de condições de vida, provocou o êxodo rural. Em Portugal, nos anos 30, os contratados agrícolas e os agricultores eram o grupo social principal e cerca de 80% da população habitava em espaços rurais. Nos anos 50, o sector primário ocupava mais de 40% da população. Entre o período que compreende os anos 50 e 70, houve um decréscimo de 20% de população ligada à actividade agrícola, o que veio a reflectir-se na economia nacional. Ou seja, nos últimos 40 anos, a população activa agrícola diminuiu, aproximadamente, 30%. Os motivos de fuga são sobejamente conhecidos: melhor acesso aos serviços de saúde; a formação superior e académica; melhores possibilidades de emprego, melhores vencimentos e maior valorização profissional, logo mais capacidade financeira; mais ocupações para os tempos de lazer e mais cultura.

Figueiredo (2007: 185) refere que “o conjunto dos distritos que formam a região de Trás-os-Montes, das Beiras e do Alentejo perdeu mais de 700 000 pessoas, enquanto que as regiões de Lisboa e do Porto registaram aumentos na ordem de, respectivamente, cerca de um milhão e de meio milhão de habitantes, nestas quatro décadas.” O êxodo rural é, até ao

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presente, a consequência de um abandono irrevogável, em muitos casos, da exploração familiar e teve como efeito, numa primeira fase, a imobilização do sistema agrícola e, numa segunda fase, um desarreigamento longo e difícil das populações emigrantes, perante os seus locais de origem.

No Douro, 88 % da população habita em aglomerados com menos de 2000 habitantes. As AVD de Salzedas e Ucanha possuem 861 e 423 habitantes, respectivamente. Existem casos de extremo despovoamento, como nos concelhos de Torre de Moncorvo e de Freixo de Espada à Cinta. As cidades de Vila Real, do Peso da Régua e de Lamego constituem os principais centros urbanos onde se concentram os maiores aglomerados populacionais.

Um dos agentes que mais influi no progresso de uma determinada região é o nível educacional da população, pois regula ou fomenta a participação na vida sócio - económica e a eficiência numa sociedade cada vez mais rigorosa. No caso do Douro, verifica-se um baixo grau de qualificação escolar correspondente à fuga das pessoas mais qualificadas. Por outro lado, o elevado grau de envelhecimento justifica um grau superior de analfabetização (SPIDOURO, 1999: 11).

As consequências da desvitalização são visíveis. No que diz respeito às questões sociais, observa-se a perda das memórias e da cultura rural. É como um desenraizar lento e mortal, em que o indivíduo se afasta de si mesmo. Em relação ao ambiente, o despovoamento humano ajuda ao aparecimento de grandes incêndios florestais e o abandono do campo, leva as pessoas a olvidar a observação do ciclo natural da vida; a perda de biodiversidade advém de um desenvolvimento técnico irreflectido que provoca problemas ambientais.

O interesse económico em relação à produção alimentar, o excesso de exposição das empresas locais à competição, a queda da actividade agrícola e a grande dependência entre sectores de actividade e território, justificam as novas tendências. A globalização defronta as áreas rurais tanto com ameaças como com oportunidades de desenvolvimento. A fraca remuneração das actividades de transformação e a exploração dos recursos naturais são algumas das ameaças. A constituição de novas actividades na área de serviços e da protecção do ambiente, o estabelecimento de novos moradores, a adesão a novos mercados, o desenvolvimento do lazer e do turismo rural são as oportunidades (Martins, s/d).

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Existem especificidades mais favoráveis às áreas rurais do que às áreas urbanas, relativamente à criação de negócios, segundo um estudo da OCDE, citado por Martins (s/d: 3). Este estudo indica que muitas pessoas com qualificações se deslocam para as zonas rurais, em busca de mais qualidade de vida, levando consigo os seus contactos profissionais, bem como o seu conhecimento profissional. Para além disso, o comércio, o artesanato e os serviços são algumas actividades passíveis de serem bons negócios nas zonas rurais, o que acaba por ter um efeito difusor, especialmente quando o objectivo são os mercados fora da povoação. Também, contrariamente ao que se julgava, não é a criação de novos negócios que fomenta o desenvolvimento das economias rurais, são os negócios existentes na sua base. Reconhece, ainda, este estudo da OCDE, “o aumento da procura do lazer rural”, como novo nicho de mercado, bem como “o turismo sénior que tem visto aumentar (…) a sua dimensão demográfica e económica”(Fonseca e Ramos, 2007).

A Comissão das Comunidades Europeias admitiu que “as áreas rurais não são apenas lugares onde as pessoas vivem e trabalham, mas desempenham ao mesmo tempo funções vitais para a sociedade como um todo” (Valente e Figueiredo, 2003: 1). Estas áreas rurais alcançaram enorme importância, por parte dos não rurais, como salvaguarda social, cultural e ambiental, para além do seu estatuto de produtoras de matérias – primas e de alimentos. Foi esta aceitação social e institucional que originou novas procuras pelas áreas rurais, que despoletaram, consequentemente, novas oportunidades no âmbito do desenvolvimento rural. As esferas mais utilizadas para o desenvolvimento no espaço rural são o turismo e o recreio, ou seja, as novas funções do espaço rural.

Assim, as áreas rurais têm adquirido novas funções como espaços de memória e herança cultural, espaços de reserva de recursos e bens ambientais, bem como de espaços de recreio e de lazer. Figueiredo (2003: 157) também adjectiva as áreas rurais, “como metáforas da diversidade e da memória nas sociedades actuais”. Segundo Fonseca e Ramos (2007) estão a surgir outras funções nestes espaços rurais, a função patrimonial – ordenamento, ambiente, ecologia – e a função social – cultural, lazer, educação, residencial –, para além da função tradicional de produção - agricultura e floresta. As políticas contemporâneas de revitalização dos espaços rurais têm como base o incentivo à diversidade e à diferenciação de actividades.

Figueiredo (2003: 156) refere que “as novas funções atribuídas às áreas rurais vêm propiciar a existência de novas interdependências entre estas e a sua envolvente regional e nacional,

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particularmente com as áreas urbanas, conferindo-lhes um novo protagonismo cada vez mais social e cultural nos actuais modelos de desenvolvimento.”

De entre estas novas funções avançadas pela autora, destacamos as seguintes:

• Estabilidade ecológica – as áreas rurais como protectoras de sistemas e de métodos essenciais à vida;

• Criação de paisagem de qualidade – como objectando a paisagem citadina cerrada, simulada e tensa;

• Base de actividades de lazer e de recreio – que são procuradas pelos urbanos. Perante isto, o turismopoderá ser uma das possibilidades de revitalização económica local e que, eventualmente, conseguirá evitar a desertificação social de áreas de baixa densidade. Este situa-se num lugar no topo das preferências actuais do desenvolvimento rural. Quer a nível individual, quer a nível da economia local, o turismo pode contribuir para incrementar o provento das populações rurais. Esta actividade pode fomentar a variedade das actividades e o rendimento económico das zonas rurais, tanto pelo acréscimo da igualdade entre população urbana e rural, como para benefício das condições de acessibilidade, quer também pela melhoria dos serviços básicos.

Também para Ribeiro et al., (2003: 3 a 5) “o turismo pode constituir um instrumento eficaz para se lograr a revitalização e a recomposição dos territórios em depressão.” Sob a alçada desta investigadora, foram realizados dois estudos, um em 1999 e outro em 2003, numa tentativa de compreender a incorporação do turismo ao desenvolvimento rural. Em 1999, respondendo à questão “que classificação atribui ao turismo para o desenvolvimento socioeconómico do seu concelho, numa escala de 1 (importância mínima) a 10 (importância máxima)?”, 46,1% dos autarcas inquiridos classificou como de importância máxima e em 2003, 40,0% deles atribui-lhe a mesma ponderação. Ora, isto denota que existe uma preferência declarada pelo turismo como rampa de lançamento para o desenvolvimento rural. Em jeito de considerações finais, esta autora refere que “as respostas dos autarcas reflectem e fazem parte de um processo mais vasto de construção e consolidação do que designo como uma “ideologia do turismo”, no quadro da concepção de saídas para os problemas de desenvolvimento das regiões mais desfavorecidas” (Ribeiro et al., 2003: 14). Contudo, Ribeiro vai mais longe quando menciona que “o discurso tende a difundir uma visão marcadamente panaceica do turismo, uma visão deslumbrada e ufanista sobre o papel

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do turismo, (….), uma visão redutora e de recorte algo facilitista dos meandros da actividade turística” (Ribeiro et al., 2003: 15).

Segundo o Plano Estratégico Nacional de Turismo (PENT), “Portugal poderá tornar-se um destino de excelência do produto Gastronomia e Vinhos, beneficiando das condições do Douro e do Alentejo” (2007: 69). O maior mercado cliente de Gastronomia e Vinhos é o francês, seguido do holandês e do inglês. Refere ainda o PENT que “o país poderá ambicionar um posicionamento de excelência no mercado… e que as regiões prioritárias para investimentos no produto Gastronomia e Vinhos são o Porto e Norte, o Alentejo e o Centro.”http://www.turismodeportugal.pt/Portugu%C3%AAs/conhecimento/planoestrategic

onacionaldoturismo/Anexos/PENT_VERSAO_REVISTA_PT.pdf

2.2. Projecto de dinamização de aldeias

No último meio século, o espaço rural nacional comportou enormes modificações. Existe menos solo cultivado, com a redução de explorações agrícolas e houve um aumento de pastagens permanentes. De um modo genérico, Portugal detém um mundo rural paisagístico e ecologicamente distinto, havendo uma simplificação da paisagem, onde, devido à pressão urbanística mal planeada, proliferam as construções (Cristóvão et al., 2010:3).

O despovoamento, o envelhecimento crescente, o isolamento político e social são estigmas importantes do espaço rural, que deveriam ser ponderados, de forma a superá-los. É também um espaço com possibilidade de variadas intervenções de crescimento, com a diversificação das economias e a criação de novas actividades. Vários autores alvitram que o futuro das áreas rurais está limitado pelas políticas sectoriais e territoriais que vierem a ser determinadas e pela essência das suas dificuldades de desenvolvimento. Uma das linhas condutoras do desenvolvimento regional será o desenvolvimento rural, que deverá reduzir as enormes disparidades regionais e locais. Assim, a multiplicidade do suporte socioeconómico das zonas rurais é crucial. As diversas actividades passíveis de fomentar o desenvolvimento rural são: o turismo rural, a produção de produtos alimentares regionais de qualidade, o ordenamento e desenvolvimento das florestas, a revitalização da agricultura, a protecção dos recursos naturais e do ambiente e o desenvolvimento das actividades artesanais (Figueiredo, 2007: 156).

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Na diversificação das economias mais desfavorecidas, o turismo tem sido apontado como uma saída auspiciosa, havendo quem refira o turismo, o ambiente e a agricultura como “um triângulo virtuoso de desenvolvimento rural sustentável” (Cristóvão et al., 2010:4) desde que se criem certas condições.

O ambiente e a natureza surgem, de um modo geral, articulados com a percepção do rural. Desta forma, os problemas ambientais têm, cada vez mais, a ver com as áreas rurais, especialmente porque “as preocupações ambientais contemporâneas, atribuem às sociedades e ambientes rurais um lugar central” (Figueiredo, 2003). Advoga ainda Figueiredo (2003: 163 e 157) que “o espaço rural, sobretudo pela via do ambiente, assume igualmente, nos dias de hoje, o carácter de um bem social”, sendo que este é considerado como “um património sociocultural”.

O rural aparece como um espaço excepcional para a preservação do ambiente. Isto é, “o facto de a paisagem rural ser cada vez mais apreciada por largas faixas de cidadãos e consumidores, a importância acrescida dos recursos como a água, para citar apenas um exemplo, activam novas cadeias de interdependência com a sociedade englobante. Numa palavra, a sociedade urbana moderna redescobre, pelo carácter limitado dos recursos, as funções ecológicas que o espaço rural assegura” (Figueiredo, 2003: 171). O papel ambiental que é cada vez mais atribuído, social e institucionalmente, às áreas rurais, contribui para a compreensão positiva do rural perante o urbano (Figueiredo, 2003: 214). De uma posição claramente ausente, o ambiente saltou para uma posição presente, atribuindo um maior enfoque para as novas políticas e novos programas de desenvolvimento rural.

Outra possibilidade de diversificação das economias marginalizadas é a criação do Turismo em Espaço Rural (TER), por exemplo, em edifícios cujo legado patrimonial seja necessário proteger. Para a Organização Mundial do Turismo, “o turismo rural (TR) resulta das transformações registadas no mundo rural e da evolução dos comportamentos dos turistas consumidores” (Silva et al., s/d: 3).

O ambiente tranquilo, a qualidade paisagística e a busca pelo autêntico são características dos espaços rurais que têm ajudado a desenvolver o turismo em espaço rural. Este abrange uma pluralidade de situações e de modalidades que podem ter na génese causas distintas das que ocasionam a procura genuína do meio rural. Martins (s/d) refere que o turismo rural é uma actividade com vários aspectos que compreende o ecoturismo e as férias na natureza, as

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viagens educacionais, o turismo activo, o pedestrianismo, a escalada, e é constituída também por actividades em explorações agrícolas. A Organização Mundial de Turismo (OMT), ainda segundo esta autora, refere o turismo rural como sendo uma das actividades de maior desenvolvimento no médio prazo.

Figueiredo dá-nos conta de algumas características do TER: “o turismo em meio rural tem a particularidade de uma parte do produto turístico ser a própria ruralidade: a sua cultura, o seu modo de vida, as suas paisagens, todos os bens que sem serem produzidos para o turismo, são consumidos pelos turistas” (Figueiredo, 2003: 166).

A atractividade pelo TR assenta em dois lados: procura e oferta. Do lado da procura, existe uma busca, por parte dos não rurais, por actividades de lazer e recreativas no meio rural; do lado da oferta, há uma consciencialização das populações rurais de que o seu desenvolvimento só acontecerá mobilizando os recursos locais em actividades económicas passíveis de serem afirmativas. A qualidade dos produtos é uma circunstância extremamente importante para que o TR seja uma condição determinante de progresso, assim como a preservação de recursos, a organização de espaços, a definição de correctas medidas de planeamento e ordenamento do território.

O TER veio ampliar o rendimento económico e as condições de vida das gentes, fomentar a recuperação do património histórico – cultural e agregar a oferta de alojamento turístico às memórias de acolhimento rural. Assim, o património, o ambiente e a cultura local são três elementos chave no espaço rural, podendo o turismo ter um papel preponderante na preservação e administração dos mesmos.

Existem diversos testemunhos de sucesso na revitalização dos meios rurais pelo turismo em espaço rural. Nos Estados Unidos, através do aproveitamento do património cultural e histórico, na aposta em eventos cuja base assentava na retoma de tradições e na recuperação de estradas panorâmicas, uma comunidade do Kansas – Fort Scott – abarcou toda a população regional na aposta do TR, com resultados positivos (Martins, s/d). Já na Europa, em 1995, a França, precursora na área, comprovava avultadas receitas advindas dos albergues rurais, restauração, quintas de equitação e alojamento. Em 1993, em Espanha, através da Rota do Caminho de Santiago e da “Espanha Verde”, os principais produtos promocionais, onde estava intrínseco o conceito de TR, obtiveram-se benefícios.

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Nesta linha, referem Moreira et al. (2007: 3 e 5) que para o desenvolvimento de áreas rurais marginais, a conservação do legado patrimonial, nomeadamente o edificado, das identidades culturais e dos saber – fazer é de suma importância, já que vem consolidar a auto – estima dos habitantes e fortalecer a afirmação dos territórios. Para além do mais, a recuperação do património rural edificado poderá facilitar o estabelecimento de manufacturas ou pequenas indústrias, como o trabalho na pedra, a construção de portas e caixilhame de madeira, a produção de telhas de canudo, entre outros. Assim, sugere-se que o património seja aproveitado para mitigar as fraquezas que atingem o mundo rural nacional, que se encontra fragilizado.

Para além disso, também a gastronomia pode funcionar como transmissora da promoção turística, relacionando a gastronomia com a cultura e a história; oferecendo visitas, mostras, provas gastronómicas e de produtos certificados aos agentes turísticos e líderes de opinião; estabelecendo ligação entre turista, consumidor final e produtor; e transmitindo aos visitantes a procedência e a forma de preparar o receituário tradicional (Rebelo, s/d,). Fazendo a gastronomia parte integrante da cultura local, esta constitui um acessório essencial da oferta do destino turístico, podendo ser a condição primordial de motivação para os turistas, já que estes necessitam de se alimentar. Pereiro et al., (s/d: 5) subscrevem também esta ideia, de que a gastronomia é a maior força da oferta turística, depois do alojamento. O receituário tradicional português é elaborado com produtos agrícolas tradicionais portugueses, o que fomenta a sua difusão, protecção e desenvolvimento. Por sua vez, a actividade agrária local promove emprego, fixando a população às áreas rurais e oferecendo mais rendimentos às gentes locais (Rebelo, s/d). Já Cristóvão (2007: 2) refere que a conservação da natureza e a fixação das populações das áreas rurais dependem de uma estratégia para a comercialização e produção de produtos regionais.

Ainda inserida nesta actividade, uma outra forma de revitalização das áreas rurais é a criação de trilhos para ciclistas, cavaleiros ou caminheiros, entre outros. A utilização destes trilhos é feita por não rurais, na sua grande maioria. Haverá uma maior procura pela restauração e pelo artesanato, logo conseguir-se-á uma revitalização económica das aldeias. A abertura e manutenção dos trilhos irá manter os caminhos rurais abertos e em bom estado de conservação. Outra mais valia na criação de trilhos é disciplinar a boa utilização do espaço natural, minorando o impacto das actividades turísticas sobre o meio (Varejão, s/d: 1).

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Acima referimos que Portugal detém um mundo rural paisagístico e ecologicamente distinto, com pendor para a simplificação da paisagem. A paisagem é, hoje em dia, um factor fulcral na valorização patrimonial e turística, no ordenamento do território e no desenvolvimento local. A European Spatial Development Perspective identifica o património cultural da Europa, onde se incluem as paisagens culturais das áreas rurais, como sendo a representação da sua identidade. As paisagens culturais retratam a história e a relação entre o homem e a natureza e, pela sua singularidade, cooperam para a identidade local e regional. Já segundo a Convenção Europeia da Paisagem, esta é uma componente basilar na qualidade de vida das populações e um principal factor do património natural e cultural essencial para a construção das culturas locais e reafirmação da identidade europeia (Oliveira, s/d: 6 e 7).

Tem-se vindo a envidar diligências, no âmbito da Política Agrícola Comum (PAC), no sentido de que a paisagem seja uma opção complementar à produção agrícola, mormente pela oferta de novas experiências, como o enoturismo. É através da representação que a paisagem, na qualidade de património, se transforma num bem comercializável. A cultura da vinha, no âmbito das paisagens rurais, integra presentemente uma das prerrogativas positivas deste sector, já que associa a afirmação económica, ajustabilidade aos “terroir”1 e uma importância ambiental expressiva para as regiões mediterrâneas. A representação auxilia a promover as paisagens vinhateiras e possibilita demonstrar peculiaridades regionais. A publicitação destas peculiaridades transforma-se em instrumento de desenvolvimento, já que realça componentes de interesse ambiental e estético. Para além disso, fortalecer a concepção de identidade vinhateira articulada a uma região, pode aliciar os turistas e os investidores. Neste sentido, a qualidade do vinho agregada à qualidade da paisagem é uma premissa fundamental. Essa relação fecundará se houver anuência à volta de elementos da paisagem (marcas) que venham a estabelecer símbolos da cultura e da identidade de uma região (Lavrador e Rocha, 2007: 2).

2.3. Estudos sobre a dinamização de aldeias

Tem havido inúmeras iniciativas de dinamização de aldeias, tanto em Portugal como no estrangeiro. O êxodo rural e o consequente despovoamento, o envelhecimento das populações, a não criação de emprego são os pontos fulcrais que levam à criação deste tipo de iniciativas.

1

Terroir - palavra de origem francesa, que significa originalmente uma extensão limitada de terra considerada do ponto de vista das suas aptidões agrícolas, particularmente à sua produção vitícola.

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O Projecto Genuineland, compreende regiões de carácter vincadamente rurais da Roménia, da Polónia, da Grécia, da Itália, da Finlândia, da Eslovénia e de Portugal, bem como parceiros representantes do domínio regional e local com poder de decisão e de execução de políticas e aparelhos de apoio ao desenvolvimento. Este projecto tem como propósito primordial cooperar para a melhoria das políticas regionais e locais no que concerne ao apoio e incentivo ao empreendedorismo e PME, patrocinando a variação económica em áreas rurais através de cluters regionais de negócio pela inovação e conhecimento. Criou-se um plano de actividades com um forte cariz de troca de experiências, seminários temáticos e visitas de trabalho, de forma a atingir os objectivos deste projecto (www.genuineland.com, consultado em 29/9/09).

A Rural Resettlement Ireland (Reinstalação Rural na Irlanda) ou RRI é uma associação de ajuda ao realojamento em meio rural de famílias urbanas com carências e, usualmente, desempregadas. Esta associação tem como objectivo principal refrear a desertificação do meio rural, organizando para o efeito um levantamento de habitações desocupadas em cada aldeia e, através dos meios de comunicação social, publicitando essas habitações e essas aldeias, exaltando a melhoria das condições de vida. Muitas famílias respondem e a RRI tenta realojá-las em breve espaço de tempo. Os membros desempregados destas famílias encontram, usualmente, emprego na agricultura. Através de programas comunitários, estas famílias criam iniciativas privadas, gerando postos de trabalho, fazendo com que muitos cidadãos troquem as grandes metrópoles por estas aldeias. São quatro os agentes de sucesso da RRI: os grupos – alvo, as possíveis zonas de implementação, a disponibilidade e a qualidade da habitação, bem como as possibilidades de integração e de emprego

(www.ruralresettlement.com e www.irlfunds.org/your_money_at_work/projects_rri.html,

consultado em 28/09/09).

Na aldeia de Kamppi, com 365 habitantes, pertencente ao município de Kurikka, a cerca de 70 km de Vaasa, na Finlândia Ocidental, em Agosto de 1998 teve inicio um processo de desenvolvimento. Este processo de desenvolvimento, Seinänaapurit, através do Programa LEADER II, teve como objectivo geral impedir a desertificação da aldeia e, como objectivo mais específico, conter o encerramento da escola da aldeia. Unidos numa associação, os residentes locais resolveram atrair famílias jovens para repovoar a aldeia. Contrataram um agente de desenvolvimento responsável pela execução do projecto e organizaram uma lista de locais bem situados, de fácil acesso, onde pudessem construir novas habitações. Estes

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terrenos foram promovidos nos órgãos de comunicação e a própria aldeia foi promovida através da organização de vários eventos e actividades: passeios pedestres, feiras de velharias, conferências, entre outros. Houve o cuidado de criar acções para aumentar a qualidade e a atractividade da aldeia, como actividades extra-escolares, mini - clubes para as crianças e cursos de línguas e de dança. A aldeia de Kamppi tornou-se, assim, num local vivo, onde as pessoas gostam de estar e de viver

(http://ec.europa.eu/agriculture/rur/leader2/rural-pt/biblio/pop/art01ter.htm,) acedido em

30/9/09).

A Associação Cultural “Grío”, criada nas montanhas aragonesas de Espanha, fomentou um grande número de programas em três aldeias que possuíam, somente, 900 habitantes. O seu âmbito, autónomo das autarquias e de financiamentos dos circuitos habituais, possibilitou a formação de várias micro - empresas nas áreas do apoio social, transformação de produtos agrícolas locais e turismo (http://www.cdrtcampos.es/now/paginas/cas/cas.htm, acedido em 30/9/09).

A ideia de lançar intervenções específicas para reabilitar e valorizar o património e os recursos das aldeias portuguesas, surge em Portugal em meados dos anos 90, assumindo diversas formas e conteúdos. Antes disso, nos anos 30, António Ferro criou o Concurso da “Aldeia mais Portuguesa de Portugal”, promovendo o embelezamento das aldeias nacionais. Este concurso surgiu como forma de promover os valores e os ideais do conservadorismo nacionalista do regime de Salazar (www.rotas.xl.pt/1102/a05-00-00.shtml, consultado em 29/09/09). Com as características do concurso referido anteriormente, nos anos 70 foi lançado o Projecto das Aldeias Melhoradas. Na aldeia de Jerusalém de Romeu, do concelho de Mirandela, foi desenvolvido um projecto de dinamização local e de reabilitação arquitectónica, que teve como epílogo a criação do restaurante típico Maria Rita e do Museu de Curiosidades locais (http://anossaterrinha.blogspot.com/2009/10/romeu-de-jerusalem-familia-meneres-e.html).

As Aldeias de Portugal são também um Programa de dinamização local. A ATA – Associação do Turismo de Aldeias – qualifica como Aldeias de Portugal “um aglomerado populacional inserido no meio rural, definido por um espaço de relevante valor patrimonial e um carácter próprio que se expressa na tradição das suas actividades e produtos, e cuja população se identifica com um projecto integrado de salvaguarda e rentabilização desses valores” (ATA, s/d). Neste projecto, há a possibilidade de se ficar alojado numa casa de

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traça tradicional, saborear a gastronomia tradicional, adquirir artesanato, desfrutar de actividades de animação e percorrer percursos pedestres, entre outras actividades. Estas aldeias situam-se no Norte de Portugal, mais especificamente em Terras do Sousa, Vale do Lima, Montemuro, Arada, Gralheira, Vale do Minho, Alto Cávado, Douro Sul, Douro Tâmega, Terras de Basto e Vale do Ave (www.aldeiasdeportugal.com.pt, consultado em 29/09/09).

O Programa de Recuperação das Aldeias Históricas (PRAH) foi desenvolvido no âmbito do Programa de Promoção do Potencial de Desenvolvimento Regional (PPDR) e envolveu dez aldeias do interior raiano: Almeida, Castelo Mendo, Castelo Novo, Castelo Rodrigo, Idanha-a-Velha, Linhares da Beira, Marialva, Piódão e Sortelha. Quase todas na Raia Beirã, estas aldeias foram nomeadas por se manifestarem como uma unidade formal de património construído e ambiental e, por outro lado, sofrerem de um progressivo subdesenvolvimento ao nível dos índices demográficos, estrutural e base económica. Os locais abarcados pelo projecto são aldeias de montanha, geralmente incluídas em serras e na junção de rios, com um cunho medieval muito marcado e todas conectadas às invasões que marcaram a história de Portugal.

Este projecto teve como intuitos exclusivos a valorização das características patrimoniais e factores de interesse histórico – cultural particulares das aldeias e espaços turísticos, cujo motivo foi o de melhorar os modelos de vida e actualizar os seus serviços de apoio económico e social, possibilitando uma maior aptidão para fixação da população, seduzir o turismo, fomentar novas actividades complementares da agricultura e avivar profissões em desuso. Contudo o seu objectivo primordial foi o de colaborar para deter o processo de degradação patrimonial e económica, designadamente de monumentos ao abandono, castelos em ruínas, aldeias rurais em risco de desertificação, enfim, lugares históricos em vias de desaparecer. Numa primeira fase, a operação neste conjunto de aldeias privilegiou a dimensão infra – estrutural: reabilitação dos monumentos e das fachadas das casas, enterramento de cabos eléctricos e de comunicações, abertura de postos de turismo e criação de alojamentos (“casas de aldeia”), arruamentos e acessos. A fase da dinamização socioeconómica fez-se a partir de 1998, de forma a tornar as aldeias não apenas visitáveis, mas também habitáveis (www.aldeiashistoricasdeportugal.com, consultado em 27/09/09).

O programa das Aldeias de Xisto visava requalificar um conjunto de micro territórios serranos, em geral desvitalizado dos pontos de vista económico, social e demográfico, com o

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objectivo de constituir uma rede de sítios de interesse turístico. Foi um projecto de desenvolvimento sustentável conduzido pela Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto – ADXTUR. A Rede das Aldeias de Xisto é uma sociedade formada por 16 municípios da Região Centro e 70 operadores privados que agem no território. As linhas mestras da Agência baseiam-se na sustentabilidade de uma região e na difusão dos seus interesses endógenos. A marca Aldeias de Xisto caracteriza a oferta de serviços turísticos dos seus aderentes – comércio tradicional, restauração, TER, hotelaria e animação turística – estruturada com o calendário de animação das Aldeias de Xisto. Os eventos culturais são associados às tradições locais (www.aldeiasdoxisto.pt/sobreoprojecto/9/35 e

www.aldeiasdoxisto.pt/institucional/9/5, consultado em 28/09/09).

O programa das Aldeias de Quarta Geração, que surgiu por iniciativa da Federação dos Agricultores de Trás - os - Montes e Alto Douro (FATA), inseriu-se no movimento nacional de revalorização da função das aldeias no sistema de desenvolvimento territorial das regiões do interior, arrogando-se características específicas. Primeiramente, a tendência especialmente agrícola destas aldeias, visível não só dos distintos sistemas agrários regionais, como também das diversas oportunidades de desenvolvimento agrário da região. Ou seja, aldeias que encerravam estados sociais, económicos e naturais que lhes possibilitassem subsistirem às dinâmicas de desertificação humana e erosão produtiva em curso na região de Trás-os-Montes e Alto-Douro. Em segundo lugar, pretendia-se determinar e desenvolver um conjunto de projectos em áreas tão diferenciadas como a formação de serviços públicos e privados locais de apoio às actividades agrícolas e rurais, a edificação de infra-estruturas e de equipamentos sociais e produtivos e a melhoria da qualidade de vida das populações. Estes povoamentos perfilhar-se-iam como pólos de desenvolvimento agrícola e rural, providos de meios e de condições que facultassem a fixação das populações e capazes de cumprir um papel primordial na organização e na estruturação dos espaços rurais circundantes. Por último, mais do que revitalizar e preservar as estruturas antigas, o que se ambicionava era descobrir novas soluções para explicar as dúvidas actuais e futuras, aproveitando as experiências desenvolvidas noutras zonas, recorrendo às novas tecnologias de comunicação e de informação, ou ainda a novas formas de organização da produção e de valorização comercial dos produtos e recursos agrícolas e rurais (SPIDOURO, 2001).

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Aldeias Vinhateiras: Aldeias com vida? Estudo de caso das aldeias de Salzedas e Ucanha 3. Metodologia

3.1. Objectivos

São diversos os estudos efectuados em Portugal com o intuito de analisar projectos de dinamização de aldeias.

O caso de estudo de Almeida, elaborado por Fonseca e Ramos (2007), procurou descobrir o potencial de desenvolvimento do concelho, através de uma acção de planeamento estratégico de marketing. Analisaram – se as potencialidades e debilidades da região, comparando-a com a envolvente. As conclusões do estudo foram conferidas com os actores locais e regionais, desde associações culturais e económicas, autarquias, organismos da Administração Pública e empresários, no total de 11 entidades. O método utilizado foi o questionário. Foi possível concluir que o turismo é considerado um factor chave na reabilitação económica e demográfica de Almeida. A acção de planeamento estratégico de marketing apontava dois eixos ancorados no turismo: comprovar o potencial de Almeida enquanto Aldeia Histórica de turismo cultural e alicerçar a posição de Vilar Formoso como plataforma de recepção e de distribuição de turistas. Por fim, foram sugeridas diversas sugestões e propostas que no sentido de colocar Almeida na liderança do turismo em espaço rural na área envolvente.

Revez e Cascalheira (2008) analisaram a experiência do concelho de Mértola. No âmbito do Plano de Intervenção “Terras do Pulo do Lobo”, que teve uma duração de cerca de três anos, 2004 – 2007, foram concluídos 19 projectos. Os objectivos primordiais deste Plano de Intervenção foram o desenvolvimento sustentado e a promoção das Terras do Pulo do Lobo, que contou com as seguintes linhas orientadoras: melhorar as condições de vida dos residentes; requalificação ambiental dos povoados rurais; estimular e fortalecer o tecido empresarial local; fomentar e preservar o património cultural efectivo; aumentar a atractividade do território. Os autores deste estudo concluem que através do aumento do número de turistas se pode percepcionar que os projectos dinamizados começam a ter impacto significativo no tecido económico do território, com o assomar de pequenos negócios na área da restauração, TER e animação turística

Vila Garcia é uma aldeia do distrito da Guarda, concelho de Trancoso – Beira Alta interior Norte – que, segundo os Censos de 2001, possuía menos de duas centenas de habitantes. Esta povoação é a imagem da interioridade, abandono e desertificação. Em 2007, o

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Concelho Local de Acção Social de Trancoso promoveu o Plano de Acção para o Desenvolvimento do Concelho. As medidas aplicadas foram: a recuperação demográfica; a reafirmação da identidade local; a recuperação do património histórico; o aproveitamento dos espaços naturais; a dinamização local e estabelecimento de protocolos com entidades de outras regiões, especialmente das áreas urbanas. Faria (2007) desenvolve uma pesquisa e uma reflexão sobre esta realidade. Esta autora conclui que a falta de atractivos para a fixação das camadas jovens favorece a diminuição de habitantes. Por isso, é difícil justificar a realização de programas específicos para jovens, já que o seu número é reduzido. Em 50 anos, a aldeia poderá desaparecer, uma vez que não existe substituição de gerações. Faria (2007: 11) recomenda “Trabalhar para aldeia e com a aldeia” de forma a dinamizar o território, já que é do seu interior que terá de surgir a energia indispensável para a mudança.

Através da Medida AGRIS e do seu instrumento operacional “Plano de Intervenção”, a aldeia de Travassos, no concelho de Mondim de Basto, distrito de Vila Real, recebeu o Plano de Valorização do Património Rural. A Câmara Municipal de Mondim de Basto foi a entidade promotora deste Plano de Intervenção, que teve como objectivo geral “preservar e valorizar a identidade da aldeia de Travassos, melhorando a sua atractividade e potenciando o seu desenvolvimento económico e social, através do aproveitamento dos recursos naturais e arquitectónicos, num quadro de investimento de carácter público e privado” (Moreira et al., 2007: 6).Nesta sequência, foi efectuado um estudo de caso onde se procurou: 1) apreender o interesse, as motivações e as esperanças dos intervenientes no processo; 2) aquilatar a forma como as instituições fomentadoras do Plano de Intervenção contactaram as populações; 3) identificar as dificuldades primordiais dos distintos intervenientes; 4) após a realização de acções de revalorização patrimonial, percepcionar os impactos fundamentais; 5) encontrar procedimentos alternativos de intervenção em actividades de revitalização do património rural. De uma forma muito genérica, conclui-se que se presenciou uma ligeira melhoria nas condições de habitabilidade e bem-estar nas habitações intervencionadas. Em termos estéticos, os aglomerados rurais sofreram um desenvolvimento que se reflectirá em termos de dinâmica nas populações. A requalificação dos equipamentos, espaços públicos e infra-estruturas vieram assegurar novas sociabilizações. Ficaram, então, congregadas novas e melhores condições que poderão acautelar propensões de fuga e aliciar turistas, fortalecendo a economia local e permitindo o renascer de sentimentos de pertença, orgulho e auto – estima.

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Na maioria dos casos antes citados, houve melhorias dos espaços públicos que, por sua vez, originou acções de recuperação de edifícios privados. Esta reabilitação de espaços públicos e privados gerou um aumento de sentimento de pertença e de auto estima por parte das populações envolvidas, provocando uma evolução na população. A participação dos agentes locais foi fundamental, pois incutiu nos habitantes uma certa segurança e certeza de alcançar o objectivo, ou seja, levar os projectos a bom termo. A dinamização destes núcleos populacionais rurais foi de importância extrema, pois para além do envolvimento efectivo da população, funciona como atractivo para os visitantes. Após a reabilitação destes núcleos, que os tornou mais atraentes e cativantes, houve uma maior capacidade de atracção de alguns negócios, nomeadamente ligados ao artesanato, à gastronomia, ao alojamento e ao desporto aventura. Em termos demográficos, percepciona-se que se conseguiu deter a imigração que assolava aqueles territórios e fixar os habitantes mais jovens e activos. A divulgação externa das aldeias requalificadas foi de suma importância, pois sem promoção não há conhecimento dos projectos efectuados, logo não há visitantes no território para fomentar a economia. É, precisamente, o impacto da visitação destes turistas que condiciona, na maior parte das situações, a economia e o desenvolvimento rural destes povoados. Assim, em termos económicos, os programas de revitalização dos povoados rurais acima apresentados, funcionaram como elemento catalisador, oferecendo aos seus habitantes oportunidades que de outra forma não as obteriam.

Foi através destes e outros estudos que nos baseámos para efectuar este trabalho de investigação. Todas estas localidades acima descritas partilham características comuns: a sua interioridade; a emigração dos seus habitantes; o abandono por parte da população activa mais jovem; despovoamento; baixos níveis de natalidade; a base económica sedeada essencialmente no sector primário; altos níveis de analfabetismo; desemprego. As Aldeias Vinhateiras que analisámos, Salzedas e Ucanha, possuem também estas características, logo, tornou-se mais fácil investigá-las após a consulta dos trabalhos acima descritos.

3.2. Objecto de análise

O nosso intuito foi percepcionar as impressões dos habitantes, dos líderes e actores locais, agentes económicos, se os objectivos do Programa de requalificação das Aldeias Vinhateiras haviam sido atingidos. Ou seja, saber se a requalificação urbana, o projecto de dinamização socioeconómico e o plano de animação conseguiram fixar a população destes aglomerados e

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se atraiu novos e mais visitantes as estas aldeias durienses, promovendo a revitalização económica daquela zona.

Pretendemos efectuar a avaliação do Programa das Aldeias Vinhateiras, os seus impactos, procurando olhar de diversas vertentes: qualificação do território, o turismo, efeitos no comércio, funcionamento em rede das aldeias, participação dos agentes locais, divulgação externa, melhorias dos espaços públicos, impactos da visitação das aldeias e visão dos habitantes quanto ao futuro.

Numa fase inicial, em Maio de 2009, procurámos ter uma perspectiva geral das seis aldeias, Barcos, Favaios, Provesende, Salzedas, Trevões e Ucanha. Aí efectuámos estudos de caso de forma a termos conhecimento do seu perfil sócio económico, qual a sua tendência de evolução populacional, o tipo de comércio / actividades / serviços existentes, a animação / eventos aí presentes, e qual a oferta de património. Aí realizámos seis inquéritos, ou seja, um por cada AVD.

Numa fase posterior, entre Agosto e Setembro de 2009, analisámos com mais profundidade duas destas AVD, Salzedas e Ucanha. Nestas duas localidades, foram inquiridos dirigentes associativos, dinamizadores locais, agentes económicos (relacionados com turismo, restauração, artesanato, comércio, e outras actividades), líderes locais (Presidentes de Junta de Freguesia, Padre) e população em geral. Quisemos percepcionar e conhecer as opiniões dos inquiridos relativamente às intervenções efectuadas, se existiu preocupação em respeitar os valores culturais, arquitectónicos e ambientais das AVD, o que foi negativo e positivo nestas intervenções, os efeitos na atractividade turística das aldeias, as oportunidades de desenvolvimento, as ameaças e as perspectivas de evolução da aldeia no prazo de cinco anos (Cristóvão et al., 2010: 2). Elaborámos dezoito questionários em Salzedas, vinte em Ucanha e dois nos arredores (proprietários de casas de TER), num total de quarenta inquéritos, homens e mulheres de diferentes estratos etários, com ocupações profissionais e com graus de instrução diversos.

3.3. Métodos e técnicas de recolha de informação

A observação directa dos fenómenos políticos e sociais integra um dos traços principais da investigação em Ciência Política, Sociologia e Antropologia. Diferenciam-se dois tipos de observação – observação directa extensiva e observação directa intensiva –, consoante a

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observação se efectue em grande comunidades, analisadas através de amostragens representativas, ou a observação seja realizada em pequenas comunidades e até em indivíduos (Fernandes, 1995).

A observação directa extensiva tem como objectivo o estudo de uma população numerosa, com acima se referiu, através de métodos capazes de oferecerem, com suficiente proximidade, as indicações procuradas. A pesquisa por sondagem é a técnica mais usada na observação directa extensiva, já que possibilita o estudo de uma grande comunidade humana através de uma amostra reduzida, sendo as conclusões obtidas extensivas à comunidade inteira.

Outras técnicas utilizadas na observação directa extensiva são a técnica da amostragem e a técnica do questionário, segundo Fernandes (1995). Na primeira técnica devem-se escolher as pessoas a questionar de maneira a assegurar a representatividade do conjunto da população em estudo. A técnica de questionário, consiste em apresentar um conjunto pré-determinado de perguntas à população. O questionário é, portanto, um conjunto estruturado de questões expressas num papel, destinado a explorar a opinião das pessoas a que se dirige. As perguntas podem ser fechadas, quando o inquirido apenas pode dar resposta de “sim” ou “não”ou uma ou duas respostas alternativas, ou abertas, se o questionado não estiver sujeito a nenhuma resposta alternativa.

A observação directa intensiva centra o seu foco em grupos limitados que procura compreender com mais detalhe. Distingue-se da observação directa extensiva pelo grau de profundidade na análise dos comportamentos dos sujeitos em estudo.

A entrevista, a medida das atitudes e a observação participante são as técnicas mais utilizadas pela técnica directa intensiva. Apesar de sofrer um processo complexo e moroso de transcrição e análise, a entrevista possui uma característica que a torna atractiva, a flexibilidade que a mesma permite, garantindo a possibilidade de, a cada passo, poder reorganizar-se a si própria. Existe o pressuposto, menos correcto, de que a que a entrevista é apenas qualitativa mas, na verdade, ela pode ser também quantitativa. É, preferencialmente, qualitativa ou mais vocacionada para tal, já que quantitativamente poderão existir outras metodologias mais eficazes e menos trabalhosas. Na entrevista estabelece-se uma relação entre o entrevistador e o entrevistado que visa a obtenção de informação importante para a investigação, que permita a descrição dos fenómenos, uma das características fundamentais nas abordagens qualitativas.

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Os testes são um dos processos mais empregues na medida da intensidade das opiniões e atitudes nas ciências sociais, bem como na avaliação de conhecimentos e aptidões dos indivíduos. Esta técnica vem sendo utilizada na selecção dos quadros e dos líderes de empresas.

A técnica da observação participante consiste em estudar, de uma forma global, o grupo em si, como colectividade. Nesta técnica, o observador insere-se na vida do grupo em estudo, actuando nas suas actividades, podendo o meio de observação limitar-se ao estudo de certos acontecimentos, como reuniões de assembleia, ou obrigar o observador a uma estadia de meses ou anos junto da comunidade, como acontece com os antropólogos culturais (Fernandes, 1995).

Os documentos que podem servir de apoio para a compreensão dos factos e das ocorrências são de tipos distintos e derivam de diversas fontes. A pesquisa documental baseia-se na recolha de dados em relação a documentos, escritos ou não, denominados fontes primárias. Livros, revistas jornais, publicações avulsas e teses são fontes secundárias. No que diz respeito à forma, os documentos podem ser classificados como manuscritos; 1) impressos sem periodicidade: livros, folhetos, catálogos, processos, pareceres, enfim, um número infinito de fontes; 2) periódicos: revistas, boletins, jornais, anuários e outros documentos de divulgação periódica; 3) microfilmes e vídeos que reproduzem outros documentos; 4) mapas, planos, documentos fotográficos e informatizados (Fernandes, 1995).

O estudo de caso refere-se à análise minuciosa e profunda de um ou mais objectos. O estudo de caso pode facultar novas descobertas de aspectos que não foram previstos inicialmente. Limita-se o estudo a um objecto que pode ser um indivíduo, família ou grupo. Por lidar com fenómenos normalmente isolados, o estudo de caso requer do pesquisador grande equilíbrio intelectual e capacidade de observação, além de moderação quanto à generalização dos resultados.

3.4. Instrumentos de recolha de informação

Na fase inicial, para obtermos uma perspectiva geral das seis aldeias, em colaboração com a colega de Mestrado, Vera Medeiros que efectuou o levantamento das aldeias de Favaios, Provesende e Trevões, foram utilizados guiões de entrevistas, onde procurámos percepcionar

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a sua tendência de evolução populacional; tipo de actividades económicas existentes; animação / eventos aí presentes; cultura e património; organizações locais; sinalização turística; intervenções realizadas; dinâmicas criadas; envolvimento em rede com as outras AVD.

Numa fase posterior, centrada unicamente nas duas AVD de Salzedas e Ucanha e de uma forma mais sistemática e segundo uma abordagem qualitativa, utilizámos guiões de entrevistas distintos, onde procurámos aquilatar as opiniões e percepções dos inquiridos relativamente às intervenções realizadas, à criação de emprego local, aos aspectos positivos e negativos, às oportunidades de desenvolvimento local, a existência de parcerias entre todas as AVD e as perspectivas de evolução da aldeia no prazo de cinco anos.

4. Apresentação de resultados

4.1. Situação geral das aldeias vinhateiras

Apresentamos, de modo preliminar, algumas ideias e traços que indicam as preocupações do nosso estudo de caso.

Perfil sócio – económico / actividades

Quadro 1 – Alguns elementos de caracterização das Aldeias Vinhateiras do Douro AVD Favaios Provesende Ucanha Salzedas Trevões Barcos

Distrito Vila Real Vila Real Viseu Viseu Viseu Viseu

Concelho Alijó Sabrosa Tarouca Tarouca S. João da

Pesqueira Tabuaço Área 2077 ha 905 ha 522 ha 879 ha 2159 ha 978 ha Número Habitantes 1314 417 423 861 639 739

Das Aldeias Vinhateiras do Douro (AVD) em estudo, Barcos, Favaios, Provesende, Salzedas, Trevões e Ucanha, duas pertencem ao distrito de Vila Real e quatro ao distrito de Viseu. Duas das AVD pertencem ao concelho de Tarouca, as outras quatro pertencem aos concelhos de Alijó, Sabrosa, S. João da Pesqueira e Tabuaço, respectivamente. No que diz respeito à área que cada uma ocupa, Favaios ocupa 2077 hectares, Provesende 905 hectares, Ucanha 522 hectares, sendo a AVD com menor área, Salzedas com 879 hectares, Trevões, com 2159

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Aldeias Vinhateiras: Aldeias com vida? Estudo de caso das aldeias de Salzedas e Ucanha

hectares é a AVD a ocupar a maior área e Barcos ocupa 978 hectares. Favaios é a aldeia mais habitada, com 1314 moradores, seguida de Salzedas com 861 habitantes. Em Barcos moram 739 pessoas e 639 em Trevões. Ucanha e Provesende sãos as AVD com menos população, 423 e 417 habitantes, respectivamente.

Nas freguesias de Favaios, Salzedas, Trevões e Ucanha, a tendência de evolução populacional é negativa. As causas são comuns: as pessoas deslocam-se para o litoral ou para o estrangeiro, na procura de melhores condições de vida, especialmente os casais jovens, que têm ou planeiam ter filhos, sobretudo quando ambos trabalham e não têm onde colocar as crianças, já que nestas aldeias não há infantários, a não ser em Favaios.

Provesende, Favaios e Barcos são a excepção nesta tendência negativa de evolução populacional. Barcos, apesar do envelhecimento da população, tem uma tendência de evolução positiva, crescente, uma vez que nestes últimos anos se instalaram cinco novas famílias. Em Provesende houve um aumento de nascimentos e um casal deslocou-se de Lisboa para aí morar. Julgamos que a proximidade destas duas AVD com a sede de concelho, que em ambos os casos é de cerca de 4 km, ajuda a fixar a população e facilita a tomada de decisão de ter descendência, seja pelo facto de existirem infantários, pré-escolas, seja por haver hospitais / Centros de Saúde. Para além do mais, no caso de Provesende, o Plano Director Municipal condiciona a aquisição de terrenos para urbanização e as pessoas vão adquiri-los em aldeias vizinhas, como Celeirós.

Em todas as AVD, o sector económico primordial é o primário. A agricultura, especialmente a vitivinicultura, é a principal forma de subsistência das populações. O vinho generoso Moscatel de Favaios, o espumante e os vinhos de mesa da Murganheira e o vinho Poeira são prova disso. Para além da vinha, a azeitona, a batata, as hortaliças, a fruta, a castanha e a amêndoa são outros produtos agrícolas que têm peso na economia destas freguesias. No caso específico de Ucanha, a baga de sabugueiro possui um peso enorme na economia familiar. O comércio é a segunda actividade económica nestas aldeias durienses. Existem Adegas Cooperativas em três das AVD, sendo as Adegas Cooperativas de Favaios e de Salzedas – Murganheira as mais conhecidas e as que têm recebido mais prémios (Quadro 2).

O alojamento turístico é escasso, existindo apenas em duas das AVD; só existe uma barbearia em Favaios; todas as AVD possuem cafés, em algumas até existe mais do que um; em Favaios e em Salzedas funcionam duas empresas de construção civil; em quatro das AVD

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Aldeias Vinhateiras: Aldeias com vida? Estudo de caso das aldeias de Salzedas e Ucanha

operam estabelecimentos de restauração; Favaios e Salzedas possuem farmácia e em Trevões localizam-se as únicas duas gasolineiras nas AVD; existe uma indústria de móveis em Salzedas e uma loja de artesanato em Ucanha; das seis AVD em estudo, cinco possuem mercearias ou minimercados; apenas as aldeias de Favaios e de Provesende têm padarias e em três das AVD estão estabelecidos talhos.

As aldeias que possuem mais comércio são Trevões, Favaios e Salzedas, com catorze, sete e nove estabelecimentos comerciais, respectivamente; Ucanha é a AVD com menos estabelecimentos comerciais; a maior diversidade de estabelecimentos comerciais situa-se em Favaios e Salzedas, onde se podem encontrar sete e nove distintos tipos de comércio, respectivamente; Barcos é a aldeia com menos diversidade, onde se situam apenas seis tipos de comércio.

Quadro 2 – Indústria e comércio nas Aldeias Vinhateiras do Douro

Tipo de Comércio Favaios Provesende Ucanha Salzedas Trevões Barcos

Adega Cooperativa 1 1 1 Alojamento Turístico 1 1 Barbearia 1 Café / Bar 3 4 2 6 2 Empresa de construção civil Construção civil 1 1 Estabelecimento restauração de restauração 1 1 1 2 Farmácia 1 1 Gasolineira 2 Indústria de móveis 1 Loja de artesanato 1 Mercearia / minimercado 1 2 2 2 2 3 Padaria 1 Talho 1 1 1 Total 7 8 8 9 14 6

Imagem

Gráfico 1 – Perfis dos residentes inquiridos das AVD de Salzedas e Ucanha
Gráfico 3 – Nível de formação dos habitantes inquiridos das AVD de Salzedas  e Ucanha
Gráfico 4 – Ocupação profissional dos habitantes inquiridos das AVD de Salzedas e  Ucanha
Gráfico 5 – Preocupação em respeitar os valores culturais, arquitectónicos e  ambientais das AVD de Salzedas e de Ucanha
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Referências

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