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(2) MARIA APARECIDA GOMES MARINOTTI. O MÉTODO PSICANALÍTICO COMO MEIO DE INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO NA ÁREA DA PSICOLOGIA DA SAÚDE. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Mestrado e Doutorado em Psicologia da Saúde da Escola de Ciências Médicas e da Saúde da Universidade Metodista de São Paulo como requisição parcial para a obtenção do título de mestre em psicologia da saúde. Orientadora: Profa. Dra. Maria Geralda Viana Heleno. ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: PSICOLOGIA DA SAÚDE LINHA DE PESQUISA: PREVENÇÃO E TRATAMENTO. São Bernardo do Campo 2016.
(3) FICHA CATALOGRÁFICA Marinotti, Maria Aparecida Gomes. M339m. O método psicanalítico como meio de investigação e intervenção na área da psicologia da saúde / Maria Aparecida Gomes Marinotti. 2016. 58 f.. Dissertação (Mestrado em Psicologia da Saúde) –Escola de Ciências Médicas e da Saúde da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2016. Orientação de: Maria Geralda Viana Heleno.. 1. Método psicanalítico 2. Psicanálise 3. Psicologia da saúde I. Título CDD 157.9.
(4) A dissertação de mestrado sob o título: “O método psicanalítico como meio de investigação e intervenção na área da psicologia da saúde”, elaborada por Maria Aparecida Gomes Marinotti, foi apresentada e aprovada em 25 de julho de 2016, perante banca examinadora composta por Profa. Dra. Maria Geralda Viana Heleno (Presidente/UMESP), Profa. Dra. Marília Martins Vizzoto (Titular/UMESP) e Profa. Dra. Leda Affonso Figueiredo Herrmann (SBPSP).. ____________________________________________ Profa. Dra. Maria Geralda Viana Heleno Orientadora e Presidente da Banca Examinadora. __________________________________________ Profa. Dra. Maria do Carmo Fernandes Martins Coordenadora do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Psicologia da Saúde Área de Concentração: Psicologia da Saúde Linha de Pesquisa: Prevenção e Tratamento.
(5) Dedicatória. Para Carlos ….
(6) Para minha mãe que me marcou com o ritmo do afeto, do trabalho e da realidade…. Para meu pai que me marcou com o ritmo onírico e poético…. Para Helena, Estela, Beatriz e André razão do meu viver….
(7) Agradecimentos. À Geralda, mais que orientadora uma amiga querida que me cativou para a pesquisa em psicologia. Á Profa. Dra. Leda Herrmann que me inspira no caminho da redescoberta da pesquisa e do método psicanalítico. Ao Prof. Dr. Manuel Morgado Rezende grata surpresa que a vida me trouxe e mais do que estudioso do método, o traz de forma encarnada. À Profa. Marília cujas contribuições refinadas sobre a questão do método foram fundamentais para o desenvolvimento deste trabalho. À Daniele Azzi pela contribuição constante e amorosa no trajeto da execução deste trabalho. À Beatriz pela contribuição na realização deste trabalho. Ao meu colega Victor Zaia pela ajuda inestimável na correção deste trabalho. Ao Paschoal Di Ciero Filho com quem vivi pela primeira vez o método psicanalítico.
(8) Epígrafe. O mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. João Guimarães Rosa.
(9) Resumo Marinotti, M. A. G. (2016). “O MÉTODO PSICANALÍCO COMO MEIO DE INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO NA ÁREA DA PSICOLOGIA DA SAÚDE”.. A presente dissertação de mestrado teve como objetivo fazer uma reflexão sobre a possibilidade da contribuição do Método Psicanalítico ao campo da Psicologia e mais especificamente ao campo da Psicologia da Saúde. O método interpretativo freudiano diferencia-se de outros métodos, pois tem o sentido de esclarecimento, de revelar os significados esquecidos, gerar novos objetos ocultos e assim sucessivamente. Posto em ação, o método não para de gerar novos conhecimentos. Partimos da ideia freudiana que a psicanálise e seu método não operam por conceitos fixos, mas cambiantes. Assim, é um método de interesse às psicologias que se abstêm de suas próprias convicções sobre saúde e que podem cuidar do Eros doente e da promoção da saúde. Observa-se que é possível transformar as técnicas antes aplicadas ao indivíduo em técnicas de amplo uso em áreas de pesquisa e intervenção na psicologia da saúde. Portanto, consideramos viável e útil a utilização do método psicanalítico interpretativo na psicologia da saúde.. Palavras chaves: método, psicanálise e psicologia da saúde.
(10) Abstract Marinotti, M. A. G. (2016). "THE PSYCHOANALYTIC METHOD AS A MEANS OF RESEARCH AND INTERVENTION IN HEALTH PSYCHOLOGY AREA".. This thesis aimed to reflect on the possibility of Psychoanalytic Method contribution to the area of Psychology and more specifically to the area of Health Psychology. The freudian interpretive method differs from other methods, because it has the meaning of clarifying, revealing the forgotten meanings, generating new hidden objects and so on. When the method is used, it doesn't stop generating new knowledge. We started with the freudian idea that psychoanalysis and its method do not operate by fixed concepts, but changing concepts. Therefore, it is a method of interest to psychology areas that abstain from their own convictions about health and can take care of the sick Eros and the health promotion. It can be observed that it is possible to transform the techniques before applied to the individual into techniques of extensive use in areas of research and intervention in health psychology. Therefore, we consider feasible and useful to use the interpretive psychoanalytic method in health psychology.. Keywords: method, psychoanalysis and health psychology.
(11) SUMÁRIO. Introdução..............................................................................................…............................ 10. Capítulo I – Sobre Psicanálise.............................................................................................. 13 1.1 – Desenvolvimento da Psicanálise............................................................................................. 13 1.2 – Disciplina científica e método investigativo – uma crítica ao cientificismo ................. 17 1.3 – Método investigativo e senso de verdade....................................................................... 22 1.4 – O corpo teórico e o método de tratamento...................................................................... 24 1.5 – O método psicanalítico................................................................................................... 28 Capítulo II – O Método Psicanalítico como Método de Investigação a Psicologia ......... 37 2.1 – Definição e desenvolvimento histórico da psicologia.................................................... 37 2.2 – A concepção da subjetividade humana........................................................................... 38 2.3 – Uma psicologia – A psicologia da saúde........................................................................ 43 2.4 – O método psicanalítico fecundando o campo da psicologia........................................... 46. Considerações Finais............................................................................................................. 54 Referências............................................................................................................................. 56.
(12) 10. Introdução Os estudos dos fenômenos psíquicos são fundamentais na constituição de novas teorias e novas formas de tratamento do sofrimento humano. A Psicologia em sua multiplicidade considera esses fenômenos de diferentes modos, podendo preconizar o comportamento, a cognição, as relações sociais, os transtornos mentais ou a subjetividade além de outros. Uma disciplina científica derivada da Psicologia, a Psicologia da Saúde, aborda a questão da saúde humana em seus aspectos psicológicos, comportamentais e sociais, através de procedimentos preventivos e terapêuticos. Graças à amplitude que o conceito de saúde agregou nos últimos anos, criou-se a necessidade de novas pesquisas e construção de teorias decorrentes dessa nova prática. A expectativa que a Psicologia da saúde possa representar uma epistemologia consistente e pertinente a esse desenvolvimento torna imprescindível o estudo sobre a multiplicidade de corpos teóricos e de métodos de intervenção. A diversidade dos modelos teóricos utilizados pela Psicologia da Saúde com vistas a metas igualmente diversas acarreta uma dificuldade de síntese dos conceitos teóricos e dos procedimentos a serem utilizados nos vários níveis de intervenção. Assim, considera-se a importância da escolha do método como inevitável na definição das práticas adotadas. Ocorre, porém que a escolha do método não se trata apenas de busca de rigor. Uma espécie de imposição por parte dos órgãos de fomento de métodos científicos provenientes das ciências naturais para a investigação nas ciências humanas estabeleceu um padrão estranho às descobertas do sofrimento humano. Se por um lado a ciência positivista esclarece pouco sobre o psiquismo, exceto como recurso auxiliar, ciências como a psicanálise mantiveram-se pouco ativas na Universidade, apesar do grande desenvolvimento à compreensão das emoções (Herrmann, 1989). As duas ciências, Psicologia e Psicanálise comportam áreas de saber distintos, porém próximas; intimamente ligadas pelo objeto geral de conhecimento, o homem e sua subjetividade, conduzem diferenças em seu modo de pesquisa e intervenção. A necessidade de unir as duas fontes de interesse, as duas ciências análogas geraram a criação deste trabalho. Sandler (2007) afirmou em palestra proferida na Associação de Psicoterapia e Estudos Psicanalíticos que a Psicanálise é como ave de arribação que migra quando necessário e pousa onde a acolhem. Contém nessa afirmação a noção de expansão da Psicanálise para além do campo específico da mesma que se encontra na prática clínica de consultório, para quaisquer campos onde seja possível a fertilização desse pouso. Da mesma forma Herrmann (2001).
(13) 11. afirma que a clínica é o laboratório de investigação da psicanálise, mas não sua prática total. Para ambos os autores, será o método de investigação e tratamento que possibilitará o intercâmbio com outras áreas do saber. O método psicanalítico possui uma independência que o torna móvel e cambiante: “O método...não tem descanso, só existe quando posto em prática, devora o saber produzido e pede mais” (Herrmann,2010, p.6). Freud (1900/1972) inaugurou com a “Interpretação de Sonhos” um marco de ruptura com o método racionalista prevalente na ciência de sua época. Nessa obra vigorosa revelou uma nova lógica, a do inconsciente que ignora o tempo real e as contradições. Na nova lógica os sonhos serão uma forma de pensamento, a da realização dos desejos humanos. Apresentase assim o pensamento inconsciente de onde derivam os atos falhos, os chistes, os lapsos de linguagem, as ações criativas e os sintomas; cria igualmente uma nova teoria sobre o aparelho mental e concomitante o Método Interpretativo que se utilizará dessas formas de pensamento para a compreensão e tratamento das dores humanas. Nessa perspectiva constata-se a face dupla da comunicação dos conteúdos manifestos e latentes. Trata-se de um olhar binocular para a lógica temporal das palavras e para novas revelações contidas no discurso ou nos sintomas das queixas sempre proferidas. Quando Freud rompeu com as autoridades internas a que estava submetido, como todo ser humano o está, rompeu igualmente com as autoridades externas, com a ciência dominante e pôde anunciar que os processos psíquicos são inconscientes. Descobriu o mundo da fantasia inconsciente, da dominação que a mesma exerce sobre cada pessoa e criou o Método “de deixar que as coisas falem por si” revelando uma realidade psíquica inédita (Green,2010a). O objetivo desta dissertação será então a reflexão sobre a possibilidade do referido Método Psicanalítico contribuir para o campo da Psicologia da Saúde afinal, como afirma Freud (1923[1922]/1972) a respeito da psicanálise: . . . ela possui as mais amplas relações com as ciências mentais e se encontra em posição de desempenhar um papel da mesma importância nos estudos da história religiosa e cultural e nas ciências da mitologia e da literatura que na psiquiatria . . . A análise dos sonhos forneceu-nos uma compreensão dos processos inconscientes da mente e demonstrou-nos que os mecanismos produtores dos sintomas patológicos operam também na mente normal. Assim, a psicanálise tornou-se uma psicologia profunda e, como tal, capaz de ser aplicada às ciências mentais, e pode responder a um bom número de questões que a psicologia acadêmica da consciência era impotente para tratar (p.306). O caminho escolhido para compor o presente foi o de comparar as disciplinas no que possuem de proximidade, sobretudo. Para tanto se buscou autores cujo trabalho crítico.
(14) 12. oferecesse integração e não fragmentação em torno de conceitos como saúde, psiquismo, e principalmente o método clínico e psicanalítico. Igualmente importante foi a escolha dos textos a partir do próprio método psicanalítico de descoberta espontânea, via associação livre. A escolha por enfatizar o Método psicanalítico em prejuízo das teorias e da psicologia da saúde ocorreu no primeiro caso por uma questão de lógica, uma vez que a proposta é justamente depurar o uso do método, diferenciando-o do corpo teórico da psicanálise. A segunda escolha se deu porque a psicanálise e seu método é o corpo estranho à pesquisa acadêmica e, portanto, necessita uma apresentação mais específica. A preferência por um caminho histórico transcorreu pela necessidade de contextualização do momento da saída do método psicanalítico dos muros de sua prática padrão e da disciplina da psicologia da saúde ainda em construção. O capítulo I, a seguir, apresenta a Psicanálise, sua definição e seu desenvolvimento como ciência. Nesse capítulo será feita a reflexão sobre o método psicanalítico nas suas formas de investigação e tratamento e na sua relação com a ciência, a verdade e as teorias psicanalíticas. Ainda examinará o desenvolvimento do método refazendo o caminho das modificações, acréscimos e transformações do mesmo. O capítulo II trata da possibilidade do uso do método psicanalítico como método de investigação na psicologia da saúde. Apresentará a psicologia historicamente e a concepção de subjetividade como forma de desenvolvimento da própria psicologia. Ainda neste capítulo discorrer-se-á sobre a psicologia da saúde para finalmente examinar a relação da psicologia e da psicanálise através do método psicanalítico. Encerrando a pesquisa apresenta-se a reflexão sobre os pontos de vista estudados a respeito do método psicanalítico, seus desenvolvimentos, e suas possibilidades de fecundação na pesquisa psicológica..
(15) 13. Capítulo I – Sobre Psicanálise. 1.1 – Desenvolvimento da Psicanálise.. Em Sobre a Psicanálise Freud (1911/1972) buscou definir a disciplina que criara dentro de um rigor e especificidade: A psicanálise constitui uma combinação notável, pois abrange não apenas um método de pesquisa das neuroses, mas também um método de tratamento baseado na etiologia assim descoberta. Posso começar dizendo que a psicanálise não é fruto da especulação, mas sim o resultado da experiência . . . (p. 265). Dessa maneira é a partir do método clínico que Freud (1911/1972) apresenta um novo método, que pesquisa enquanto trata e inversamente trata enquanto investiga. Essa duplicidade em movimento será a geradora de conhecimento e constituirá um corpo teórico resultante da experiência clínica. Partindo do particular – seus casos de consultório e sua autoanálise – para o geral, Freud cria um conjunto que em toda sua obra imputa a condição de ciência. Ora, uma ciência que cura e investiga simultaneamente necessita de técnicas especiais que assegurem essa conjunção. Ao utilizar essas técnicas, Freud (1911/1972) realiza descobertas que paulatinamente desemboca na criação de um método específico: o método interpretativo. Dando-se conta das fantasias inconscientes ele necessitou abandonar suas tentativas de ciência cartesiana onde buscava as causas dos sintomas de seus pacientes, acreditando que assim encontraria a cura para os mesmos. Dessas descobertas vem a derivação do método clinico para um Método de Interpretação que posto em uso gera ou revela significados que por sua vez propiciam novas investigações que necessitam de interpretações e assim sucessivamente. A Psicanálise então é definida como um paradoxo ora distinta em três níveis ora unificada como um todo. Psicanálise é o nome dado à uma Disciplina Científica composta de Método de Investigação, Método de Tratamento e Corpo teórico, conforme definição do próprio Freud (1923[1922]/1972). Historicamente, a Psicanálise foi sendo transformada a partir de mudanças ocorridas no seu método. E é a partir da “A Interpretação de Sonhos” Freud (1900/1972) que ocorre a modificação do método clínico de observação apurada de seus pacientes, em método de esclarecimentos sobre as fantasias inconscientes. Nesse momento inaugura-se a Psicanálise. Considera-se obra inaugural justamente porque nela o método que visava causas e sugestões, não obstante se manter como clínico transforma-se em método de descobertas – não de buscas.
(16) 14. intencionais – em que o médico deixa de ser autoridade que detém o conhecimento sobre o paciente e passa a ser o clínico que constrói em parceria novos significados para velhos sintomas. A partir de A interpretação de Sonhos, a Psicanálise teve uma dupla significação. Constituiu não apenas um novo método de tratar as neuroses, mas também uma nova psicologia; reivindicou a atenção não só dos especialistas em nervos como também a de todos que eram estudiosos de uma ciência mental (Freud, 1924[1923]/1972, p. 249). O mundo científico da época da descoberta não recebeu a nova ciência com bom parecer ou com compreensão favorável, houve inicialmente toda sorte de animosidade e descrença. No entanto, apesar da hostilidade inicial, ela se expandiu para além de Viena, sendo acolhida em outros países e mesmo fora do continente europeu. Criou-se revistas especializadas na ciência e o descobridor deixa de ser seu único representante. O desenvolvimento mais importante ocorreu no movimento que o método de descoberta acarretou para a criação de um corpo teórico consistente e para o desenvolvimento de técnicas de tratamento. (Freud, 1924[1923]/1972) Freud (1924[1923]/1972) já denunciava os abusos do uso da técnica e de conhecimentos conceituais, alegando que a psicanálise apreendida por literatura induzia a práticas equivocadas prejudiciais à própria ciência e aos pacientes em tratamento. Os equívocos seguiram-se após Freud e à medida que mais se expandia melhor se observava o surgimento de uma dificuldade própria à essa expansão: como identificar conceitos e trabalhos que pudessem ser abrigados como sendo próprios da ciência? Afinal o sucesso pós Freud fez com que muitos trabalhos fossem designados como sendo psicanalíticos, mas seus métodos e resultados em nada se relacionaram com ela. Instaurou-se uma fragmentação no conhecimento psicanalítico. (Laplanche & Pontalis, 2000) Estudiosos atuais como Sandler (1997), Herrmann (2001, 2010) e Green (2010a) pensam a Psicanálise a partir de um vértice integrador e buscam um constante diálogo entre as diferentes teorias psicanalíticas e suas práticas. Tais autores reconhecem a necessidade de reunificar a disciplina e buscam em suas obras reunir a expansão muitas vezes fragmentada em um elemento organizador. Sandler (1997) a organiza a partir do vértice da disciplina cientifica, Green (2010b) a partir dos conceitos teóricos e Herrmann (2001, 2010) a partir do método. Observa-se, porém, que em todos a questão do método psicanalítico tem destaque no que se refere a busca de redefinição e da identidade da Psicanálise. Assim, a Psicanálise se desenvolveu ao longo de um tempo, e a despeito de virulentas críticas ou entusiasmos nefastos continua influenciando o avanço da cultura (Sandler,1997). O.
(17) 15. avanço ocorreu porque as ideias e práticas psicanalíticas reconhecem a existência e importância da realidade psíquica, além da realidade externa, possibilitando conhecimento e ampliação dos estados mentais, libertando o homem de sua condição puramente biológica. (Azevedo, Vanucchi & Sandler, 2013). Nos seus desenvolvimentos, a psicanálise foi capaz de aproximar o homem do que ele tem de originalidade e de subjetividade, rompendo com uma uniformidade submetida a controles externos. A descoberta via método de tratamento, de condições inconscientes – sem conhecimento lógico-consciente – revela a qualidade dos processos de pensamentos, de emoções, de natureza imaginativa e particular. E é nessa direção que a Psicanálise é método libertador, embora condicionado aos princípios organizadores de realidade: propondo e pressupondo “... a existência de um sujeito capaz de se apossar de sua identidade, internalizando tanto as proibições como as aquisições alcançadas pela sua experiência subjetiva (e objetiva) com o mundo” (Azevedo et al., 2013,p. 161). Entretanto advertem os autores supracitados que manter o aspecto revolucionário conforme sempre propôs a disciplina exige trabalho árduo, pois o mais comum é a acomodação em concepções genéricas, em explicações. A busca da verdade será o aspecto mais inovador da investigação psicanalítica. Portanto, Azevedo et al. (2013) coloca que se Descartes, em 1637, faz dos processos conscientes e racionais solo sagrado, Freud delega à consciência “outrora poderosa” o posto de superfície do Inconsciente, este sim, lugar de abrigo de processos psíquicos e de verdadeiro pensar. A Psicanálise em concordância com o aspecto renovador se posiciona como transgressora, violando a consciência como lugar de verdade e colocando a razão em xeque. Essa verdade investigativa faz Garcia-Roza (2001) situar a Psicanálise na inversão do cartesianismo, embora considerando que reconhecê-la como não-cartesiana não a define propriamente. A Psicanálise reconhecidamente tem semelhanças com outras disciplinas – fenomenologia, filosofia, antropologia, biologia, psicologia, entre outras – mas sendo distinta delas não se reduz, nem se submete ao imposto por estas ciências. Ainda para Garcia-Roza (2001) o lugar da Psicanálise é o de advir, o lugar do novo, porque ela rompeu com o saber existente e apesar de nascer destes saberes gerou saber próprio. Sua teoria e a prática tratam o homem como ser singular e ocupam o lugar de escuta anteriormente oferecido pela religião. Trata-se então de um método eficaz da singularidade humana. No confronto com as ideias de Descartes (1999), a Psicanálise descentrará o homem do poder sobre seus desejos – este, perturbador da ordem – e, justamente acolherá o homem desejoso, que a racionalidade cartesiana rejeita, porque o desejo deturpa o conhecimento..
(18) 16. Melhor ainda: a psicanálise não vai colocar a questão do sujeito da verdade, mas a questão da verdade do sujeito. Ela vai perguntar exatamente por esse sujeito do desejo que o racionalismo recusou. Contra a unidade do sujeito defendido pelo racionalismo, a psicanálise vai nos apontar um sujeito fendido: aquele que faz uso da palavra e diz ‘eu penso’, ‘eu sou’. . . (Garcia-Roza, 2001, p.23). Desta forma, a descoberta por Freud dos conteúdos manifesto e latente, revela que o sujeito que fala ocupa o lugar do discurso manifesto e o sujeito que é o lugar do desejo, do inconsciente: “o cogito não é o lugar da verdade do sujeito, mas o lugar de seu desconhecimento” (Garcia-Roza, 2001, p.23). A Psicanálise não trata do caos inconsciente com essa divisão, mas de oferecer uma segunda lógica, a do inconsciente. Esta lógica sim, a inauguração da ciência como tal, a ciência do inconsciente que diferentemente da máxima de Descartes (1999) “Penso, logo existo” se assemelha a máxima de Lacan (2009), “Penso onde não sou, portanto sou onde não me penso”. (Garcia-Roza, 2001) O impacto provocado pela psicanálise e sua influência sobre o pensamento e a cultura ocidental é confirmado por Meltzer (1989) como o primeiro método de pesquisa clínica que objetou compreender as fontes mais profundas da personalidade do indivíduo. Ela, por meio de suas descobertas e de uma metodologia original permeia e sustenta todas as disciplinas relacionadas, não sendo, entretanto, ela própria uma disciplina unificada, pois suas teorias e seu método desenvolveu-se em direções diversas, discordando assim da possiblidade de unificação da psicanálise. Entretanto Sandler (1997), Herrmann (1991), Green (2010b) entre outros, discordam desse pensamento de Meltzer (1989) sustentando que há um elo que conflui para um centro hospedeiro de um padrão, um objeto organizador e integrador da disciplina, que define e compreende a psicanálise como disciplina integrada. Para eles a questão das técnicas variadas e das teorias conflitantes levaram a fragmentação do saber psicanalítico, mas esse saber pode ser redefinido através do que costura teorias e técnicas – seu Método. A multiplicidade de modelos teóricos ou técnicos pode então ser concebida não como fragmentação, mas como uma pluralidade de modelos que contém dinâmica própria. Essa dinâmica se sustenta na ideia de a psicanálise ser uma ciência que persiste na pesquisa de sua disciplina e que intercambia os modelos novos. Assim há uma tentativa do trabalho individual se iniciar em um fundo comum e confrontar em seguida o julgamento da inteligibilidade das descobertas. Este terá valor heurístico, de descoberta do novo e que pode efetuar avaliações comparativas com as teorias e técnicas já consagradas, mantendo assim vivo o método.
(19) 17. psicanalítico posto em ação, pois pluralismo e controvérsia são formas de pesquisa conceitual. (Widlocher, 2001) Na obra psicanalítica encontra-se então formas de fragmentação e desunião ou contradição, mas também obras integradoras que buscam reintegrar a psicanálise e defini-la dentro da terra firme do método psicanalítico, como estabelece Herrmann (2001), acrescentando que da psicanálise em geral retiramos a Psicanálise maiúscula do método, para que várias e novas psicanálises possam vir e fazer valer seu método heurístico interpretativo. Finalmente encontra-se em Mello-Filho (2004) a organização da primeira etapa dessas reflexões, ele diz: Acho que o progresso de nossa disciplina e sua sobrevivência estão nas mãos (ou na cabeça?) dos analistas apaixonados por ela, a ponto de se deixarem ser possuídos pelo inconsciente, pela associação livre, pela transferência, pela contratransferência,. pelo. impacto. das. identificações. vividas,. pelas. intermináveis sessões de análise, etc. Nosso horizonte se orienta por Eros e não pela fuga em pânico de Tânatos. A Psicanálise é uma experiência dessa paixão num terreno de respeito à verdade. A paixão psicanalítica se completa, necessariamente, com um senso de verdade, sem o qual ela incorreria nos descaminhos da loucura. Senso de verdade é aquele impulso que procura aproximação à realidade, sem preconceitos, sem pretensão de onisciência. É amor incondicional ao conhecimento. Não precisamos ser guerreiros, nem arautos da psicanálise para que ela sobreviva. Se confiarmos que nossa disciplina tenha algum conteúdo de verdade, ela vai sobreviver e perceberemos que nossa paixão por ela não foi mera ilusão. Por conteúdo de verdade entendo a possibilidade de que a experiência vivida na relação analítica expresse uma aproximação significativa daquilo que Freud denominou de “realidade psíquica”. Há, porém, uma batalha que sempre se desenvolverá e ela é contra o ‘Tomé’ que abrigamos dentro de nós. O Tomé cientificista, positivista, hedonista, encerrado na concretude, no pragmatismo pós-moderno, exigirá sempre as evidências sensoriais (concretas e mensuráveis) de novas incursões ao infinito do inconsciente (p.78).. 1.2 – Disciplina científica e método investigativo – uma crítica ao cientificismo..
(20) 18. Em toda a obra freudiana encontra-se a afirmativa de ser a disciplina que criara ciência. Ciência é uma palavra originada no latim – scientia – cujo significado é conhecimento. Aqui, entretanto, cabe dúvida: de que conhecimento se trata? Menezes (2001) afirma que Freud ao construir sua ciência não fixa conceitos e que a polissemia constante em sua obra não se refere apenas ao estilo da escrita ou à sua posição científica, mas ao próprio objeto estudado: o inconsciente que não pode ser aprisionado em conceito fixo. Trata-se de um terreno arenoso o lugar onde se dá seu conhecimento. A ciência do inconsciente não é uma ‘ciência exata’ e não pode subtrair-se ao terreno movediço da linguagem do cotidiano – é nas suas pregas que se fazem as análises e se desvendam os sonhos – sob pena de transformar-se em sistema especulativo, em jogo abstrato de modelos e de conceitos, terreno por excelência, é verdade, para a institucionalização das teorias e para a política das escolas, mas distante da prática da psicanálise (Menezes, 2001, p. 213). A Psicanálise é ciência, mas outra ciência. Uma ciência cujo objeto (inconsciente ou, o psiquismo) é criado a partir do contato com o outro humano. A necessidade atual de comprovação, dentro do campo da Psicologia e da confirmação de sua necessidade, aprisiona o saber humano sobre o psiquismo à verificação de comportamentos e cognições (Herrmann, 2006). Possamos nos valer da elucidação de Barros (1996) e reencontraremos no significado do conhecimento, um ponto onde a ciência psicanalítica encontra sentidos. Conhecer do latim cognoscere é um ato comunicativo que contém aspectos de pensamento e de afeto e feito com alguém. “O conhecimento humano aparece então como algo gerado, não eterno e em-simesmo, e feito com alguém. O conhecimento humano não é, ele se torna. Donde o seu sentido de aprender” (Barros, 1996, p. 93). Obviamente não se trata de visão leviana, mas de uma epistemologia distinta. A ciência dominante dos nossos dias está compromissada com o pensamento racionalista (cogito) determinante da noção de homem como ser estável, racional, dono de sua vontade. Para Sandler (1997) esta ciência se auto outorgou o título de ciência única, dona do contato com a realidade última e capaz de provar veracidade. Impulsionada por Descartes (1999), encontra seu acme no positivismo. O mundo das certezas. A sistematização dos conhecimentos sobre o inconsciente ameaça essa visão, pois na realidade objetiva o que encontramos são os conflitos humanos e principalmente sua.
(21) 19. imprevisibilidade. Do outro lado a sistematização do conhecimento dentro da lógica de Descartes (1999) pressupõe um controle sobre os homens, fazendo a relação ser mecânica, sem a intimidade que havia na relação humana até então. As relações faziam parte de um sistema cultural, que com a racionalidade cartesiana inaugura uma episteme que impõe uma cultura oficial, e o que está fora dessa soberania é censurável e condenável. (Pellanda & Pellanda, 1996) Trata-se aqui de se questionar o porquê de se usar métodos iguais para ciências diferentes. Rene Descartes revoluciona o pensamento buscando uma subjetividade ao mesmo (Garcia-Roza, 2001), mas uma subjetividade que habita a consciência. A ciência psicanalítica trata da subjetividade do psiquismo, não da lógica consciente. Trata da lógica do inconsciente, requerendo método original. Popper (1933/2007) em seu prefácio à lógica da pesquisa científica coloca a questão da pesquisa científica nos seguintes termos: Um cientista empenhado em pesquisa – digamos que no campo da física – pode atacar diretamente o problema que enfrenta. Pode penetrar, de imediato, no cerne da questão, isto é, no cerne de uma estrutura organizada. Com efeito, conta sempre com a existência de uma estrutura de doutrinas científicas já existentes e com uma situaçãoproblema que é reconhecida como problema nessa estrutura. Essa a razão por que pode entregar a outros a tarefa de adequar sua contribuição ao quadro geral do conhecimento científico (p. 23). Quanto à filosofia ele alega que a mesma não tem uma estrutura organizada, mas sim um “amontoado de ruínas”, reconhecendo haver, talvez, algum tesouro aí. Não há para a filosofia uma situação-problema e questiona se ela apresentará algum dia um “problema genuíno”. E diante da esperança do sim, Popper (1933/2007) sugere: “Se, por acaso, se julgam incapazes de aceitar qualquer das orientações existentes, tudo o que lhes resta fazer é começar de novo, desde o princípio” (p. 23). A resposta à assertiva acima, encontra-se no fato da Psicanálise surgir do modelo das doutrinas pré-existentes (biologia, medicina, filosofia) e buscar se desenvolver, inicialmente, como ciência positivista, com um método de pesquisa cartesiano. A busca de causas, a consideração dos efeitos em forma de sintomas, a cura pela recuperação da memória do trauma, a catarse, a sugestão, formaram o início da obra freudiana. Porém, embora seu trabalho tenha se tornado reconhecido, Freud com senso e busca de verdade vê-se compelido a desistir do modelo – uma vez que a descoberta se impora e incapaz de se submeter às.
(22) 20. orientações existentes necessitou começar de novo, desde o princípio (Freud, 1887-1904, citado por Masson, 1986). Nem hard-Science, nem filosofia, a Psicanálise desenvolveu seus próprios métodos e sua maneira de fazer ciência. Tal qual o conselho que Popper (1933/2007) oferece as ciências extra oficiais começou de novo. Mas resta a questão de onde se situa essa auto-outorgada ciência? Entre a filosofia, a arte, e a biologia, o que a tornará específica? O sentido mais importante para responder as questões da psicanálise como ciência está em sua condição de método de investigação. Para Herrmann e Lowenkron (2004) o método investigativo é o “sentido mais abrangente e importante para a produção do saber psicanalítico” (p. 22). A psicanálise para o autor, apesar de ser ciência empírica, desorganiza o seu sentido porque não parte de definições fixadas e completas que seriam chaves para compreensão de mundo. A psicanálise é ciência que se admite incompleta, no sentido de se ater a pesquisas constantes e de estar sempre modificando seus conceitos quando a experiência assim se impor. Seus postulados são, dessa maneira, provisórios, mas isso não a invalida como ciência, afinal o mesmo ocorre na física ou na química, por exemplo. A precisão de suas teorias está sendo construída em trânsito. Essas ideias estão em concordância com Herrmann (2001) de que a clínica e a pesquisa teórica serão sua experiência empírica, sendo a clínica o próprio laboratório de investigação da psicanálise, sem com isso significar que a clínica seja toda sua prática. Voltando a Popper (1933/2007), verifica-se a seguinte afirmação: Um cientista, seja teórico ou experimental, formula enunciados ou sistemas de enunciados e verifica-os um a um. No campo das ciências empíricas, para particularizar, ele formula hipóteses ou sistemas de teorias, e submete-os a teste, confrontando-os com a experiência, através de recursos de observação e experimentação (p. 27). E novamente, onde situar a psicanálise nessa análise popperiana? Responde-se a partir da divergência da obra psicanalítica, sobretudo seu método de investigação, da asserção de “elaborar teorias e pô-las à prova”. Para Herrmann (2007) o selo epistemológico diferente será o valor da descoberta contida no método, rompendo com a imposição de provar; A Psicanálise cura e investiga, enfatiza o produto e não a validação, esta é sua característica como ciência: E foi assim que nasceu a Psicanálise. O método científico das Ciências Exatas teve de pedir ajuda a uma espécie de primo pobre: o método interpretativo. Só a interpretação era capaz de abarcar os sonhos, as emoções, a loucura etc. (Herrmann, 1999a, p. 16)..
(23) 21. Há, porém, uma forma de validação sugerida por Widlocher (2001), mas de uma natureza diferente, uma vez que a pesquisa psicanalítica é atrelada ao vínculo dos participantes numa intersubjetividade. Embora se ocupando destes vínculos singulares, sobretudo na clínica, o horizonte maior será o de teoria do conhecimento humano e de seu funcionamento mental. A validação possível será a coleta de novas informações pelo pesquisador e a transformação destas em teorias descritivas. Essas teorias serão submetidas ao julgamento dos pares sobre novos conceitos que definam os dados clínicos. A validação científica ocorrerá a partir de consensos entre a comunidade psicanalítica. Em conformidade com as ideias referidas acima, Menezes (2006) afirma que a psicanálise apresenta um corpo teórico de valor universal, o que a justifica como ciência. Porém, uma ciência com prática objetiva e formas singulares. Pondera que a psicanálise sendo a Ciência do Inconsciente carrega um paradoxo em sua definição. “Há uma espécie de desafio, um humor profundo na imensidão e no absurdo da proposta” (Menezes, 2006, p. 12). E acrescenta que o paradoxo encontrará significado na medida em que a tensão entre o particular (em sua forma de investigação e tratamento) e o universal (o corpo teórico) puderem ser compartilhados. Consensos e discordâncias fazem parte do pensamento psicanalítico atual e a publicação e diálogo das pesquisas urgem por acontecer, para que se encontre um lugar consistente no caminho da ciência, o que tem sido árduo para o diferente método. Cabe aqui as afirmações que contribuem com os argumentos da psicanálise ser ciência, mas ter o direito de ser ciência diferente da cientificidade racionalista e comprovativa. Sandler (1997) alega que a ciência psicanalítica que se iniciou com Platão, teve um grande resgate e desenvolvimento à época do iluminismo para desaparecer a seguir por longo tempo até a redescoberta no século XX. Refere-se à mesma como uma ciência que poderia ser chamada de ‘negativismo’ em oposição ao positivismo, pois assim tem um espaço para o desconhecido: “a ciência à qual me refiro é uma aventura no desconhecido, é o exercício da realidade psíquica para dentro dela mesma” (Sandler, 1997, p. 47). Em Cogitações, Bion (2000) apresenta sua dúvida sobre a questão da ciência alegando que não há consenso sobre o que constitui o método científico, ou a ideia de que existe, de fato, um método científico. Para ele somente a pesquisa é compensadora, pois diferente das ilusões do método científico, quanto mais se pesquisa mais fascinante e amplo se apresenta seus resultados e afirma que não só a Psicanálise está sujeita a críticas a respeito da consistência científica dos próprios métodos e resultados, mas sim qualquer ciência apresenta os mesmos defeitos científicos de que a psicanálise é acusada. Na prática, os métodos científicos de qualquer espécie sofrem com imprecisão e falta de rigor absoluto..
(24) 22. A partir do exposto o trabalho requer uma ordenação do tema. Esse ficará por conta de Widlocher (2001): A psicanálise definida como ciência autônoma da mente resulta, portanto, de uma generalização dos saberes e dos conceitos que se desprendem destas práticas individuais. Como as outras ciências da ação e da intersubjetividade, ela é uma ciência a posterior, uma pesquisa conceitual construída sobre o modelo de dados empíricos observados no campo das práticas concretas (condutas sociais, aquisição de conhecimento, comportamentos econômicos etc.). Estas ciências estão bem no alvo da crítica de Popper, pois não são refutáveis e repousam sobre uma tautologia: o modelo guia a prática e esta permite construir o modelo. Se quisermos justificar sua racionalidade, ou melhor, seu rigor, é conveniente procurar os princípios em outro lugar e não no quadro das ciências naturais (p. 55).. 1.3 – Método investigativo e senso de verdade.. A pesquisa científica psicanalítica depara-se com uma questão fundamental: sendo a ciência da psique como enfrentar a psique do pesquisador? Afinal pensar psicanálise como método investigativo é pensar em como fazer ciência, em como investigar. Nosso objeto de investigação é o psiquismo, que não tem lugar material, nem é uma coisa. É o que produz sentido nas coisas humanas. (Herrmann, 1999b) Afirma Sandler (1997) que “para se fazer ciência é indispensável ser capaz de distinguir entre ‘produtos da mente-alucinação’ de ‘produtos que a mente pode captar da realidade’” (p. 35). É fundamental que o pesquisador que disporá de quaisquer métodos que busquem a verdade possa reconhecer a realidade e não se envolver com os produtos de sua própria fantasia. O método psicanalítico nesse sentido requer uma atenção refinada uma vez que ele contém em si mesmo uma estranheza particular pois justamente a estranheza dos sentidos captados é o paradoxo do conhecimento que se persegue e que só é vislumbrado nunca alcançado,. pois. uma. vez. conhecido. gera. novos. sentidos. que. necessitam. ser. conhecidos.(Herrmann & Barone, 2010) Freud (1912[1914]/1994) em carta à Ferenczi escreve: A verdade é apenas a meta absoluta da ciência, mas o amor é uma meta de vida, completamente independente da verdade, sendo perfeitamente concebíveis conflitos.
(25) 23. entre essas duas potências. Não vejo necessidade de subordinar uma à outra regularmente e por princípio (p. 18). O compromisso da psicanálise afinal está associado à busca da verdade, entendendo esta verdade como sendo a realidade que se conflita com o prazer do desejo realizado. A esse respeito Einstein (2011) escreve a Freud: Sempre admirei sua paixão para descobrir a verdade. Ela o arrebata acima de tudo. O senhor explica com irresistível clareza o quanto na alma humana os instintos de luta e de aniquilamento estão estreitamente relacionados com os instintos do amor e da afirmação da vida (p. 64). Havia em Freud como investigador uma consideração e respeito à verdade que julgava indissociável do método de pesquisa, que se observa no trabalho Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental (Freud,1911/1972), onde a investigação das relações dos instintos de luta, de sobrevivência e de mitigação do sofrimento humano e na atividade psíquica atrelada o faz afirmar que a tarefa de investigar, requer em seu desenvolvimento, a relação do homem com a realidade, e assim, integrando nas teorias psicanalíticas o sentido subjetivo da realidade externa. Freud está aqui as voltas com as duas forças que pressionam o funcionamento da mente humana. Uma delas a da realidade exterior que força a apreensão do que é real exigindo o abandono (ou suspensão temporária) do que é agradável, prazeroso, mas que se contradiz com a realidade. A substituição do princípio do prazer pelo da realidade ocorrerá gradualmente na vida de uma pessoa, caminhando das formas de deleite auto erótico, narcísicas para a busca de objeto, e as consequências psíquicas para a adaptação à realidade. Bion (2000) enfatiza a questão do senso da verdade na psicanálise como ciência. Ele se preocupa com o fato de os psicanalistas estarem mais absorvidos na psicanálise que no processo pelo qual chegamos a conhecer a própria. O autor envolvido com uma teoria sobre o pensar, encontra no texto referido acima “a origem da elaboração da própria psicanálise, a saber, a pressão das necessidades internas que demandam mais do que gratificação alucinatória . . . A demanda é por realidade” (Bion, 2000, p. 161). Ele considera o predomínio do princípio de realidade como a condição do pensar científico e o reconhece “em suas manifestações mais sofisticadas, a elaboração do que hoje chamamos de técnicas científicas de- ou de técnicas conhecidas pela ciência como dedução, indução, hipótese, etc.” (Bion, 2000, p. 161) Essa compreensão é necessária à medida em que a divergência da ciência psicanalítica para a ciência ainda dominante diz respeito sobretudo ao fazer ciência e ao como fazer ciência. Dito de outra maneira: depende da compreensão dos objetivos, do objeto de estudo e do.
(26) 24. método de compreensão. Retomando a questão: Objeto de prazer (objeto alucinado) ou objeto da verdade apreensível na realidade? A busca do conhecimento poderá estar compromissada a algum destes princípios. Poderá vir de fonte de confirmações de nossas ideias, ou virá de demandas de valor heurístico. Dependerá dessa resposta a utilização de método comprobatório ou de método investigativo interpretativo. Afinal é fonte de angústia humana o não saber, o desconhecimento, tão bem escrito por reconhecido homem de ciência: Ao ver a cegueira e a miséria do homem, ao olhar todo o universo mudo e o homem sem luz, abandonado a si mesmo, e como perdido neste recanto do universo sem saber quem aqui o colocou, o que veio fazer aqui, o que se tornará quando morrer, incapaz de qualquer conhecimento, fico apavorado como um homem a quem se levasse adormecido para uma ilha deserta e pavorosa, que acordasse sem a reconhecer e sem meios de sair dela. E sobre isso admiro como não se entra em desespero diante de tão miserável estado. Vejo outras pessoas diante de mim de semelhante natureza. Pergunto-lhes se estão mais bem informadas do que eu. Dizem-me que não e, a partir daí esses míseros extraviados, tendo olhado em torno de si e tendo visto alguns objetos agradáveis, entregam-se a eles e a eles se apegam (Pascal, 2015, p. 96). Pergunta o psicanalista se esta busca não seria um acordo entre duas necessidades: a de conhecer a realidade externa (princípio de realidade) e a necessidade imposta pelo psiquismo no que se refere a intolerância de não saber (Bion, 2000). Esta a estranha combinação que conjuga algo de irracional conforme alertou Popper (1933/2007) e de senso de verdade. Com Descartes (1999) o pensamento se equipara com o raciocínio. Com Freud e a psicanálise se associa à função científica da mente que capta verdades/realidades sobre si mesmo e sobre a realidade externa.. 1.4 – O corpo teórico e o método de tratamento.. Até o presente capítulo tratou-se de estudar a psicanálise como uma disciplina científica não racionalista, que abrange um método de investigação condizente com sua especificidade: método de descoberta para uma disciplina que busca o conhecimento através de aproximações com a realidade psíquica – seu objeto de estudo. A consideração agora diz respeito ao corpo teórico e ao método de tratamento. Talvez a questão mais polêmica dentro da disciplina psicanalítica esteja justamente ligada ao seu corpo teórico, uma vez que o mesmo se expandiu em direções muito diversas. Os resultados.
(27) 25. foram controvérsias, dissenções e dissidências. Desde Freud, a teoria psicanalítica tem se transformado e de tal forma que dificilmente pode-se considerar que, na contemporaneidade, haverá um corpo teórico unificado. Green (2008) em comentário incisivo declara: “Os textos (psicanalíticos), por mais explorados e cuidadosos que sejam, não serão jamais nada além de um reflexo enganador da experiência. Basta apenas pensar numa sessão de análise para se realizar quanto a teoria é rala” (p. 312). Etchegoyen (1996) por sua vez sustenta que: “A atitude científica, e o digo como psicanalista, consiste em amar mais a verdade que as teorias, o que, em nosso jargão, medeia a distância do amor de objeto ao narcisismo” (p. 44). A questão crucial é: Abandona-se as teorias? Resta ao psicanalista a utilização do método cego, sem sua sustentação? Obviamente o método desandaria e à Psicanálise restaria tornar-se o que Freud nomeou “Psicanálise Selvagem” alertando para seus riscos destruidores. Herrmann ironiza e afirma: “. . . confiar na intuição e ignorar técnica e teoria seria como pretender curar uma catarata arrancando os olhos” (Herrmann, 2006, p. 57). Certamente as críticas de Green (2008) e Etchegoyen (1996) citadas, referem-se à importância da psicanálise não se tornar prisioneira da adesão a qualquer teoria, de forma que o novo não seja identificado. Ou, como explica Herrmann (1991): “É vasto o domínio da psique humana. Deste, muito pouco foi mapeado pela teoria psicanalítica; é, por conseguinte perigoso reduzir nossa visão dos pacientes àquilo que já está descrito teoricamente ainda que muito bem o pudéssemos conhecer” (p. 153). A aderência a alguma das escolas, ou a parte de alguma teoria configura um sério risco ao trabalho psicanalítico. Para Herrmann (1991) o corpo teórico da psicanálise é precioso para o conhecimento da vida mental, do desenvolvimento humano. Suas teorias, porém, não são sempre verdadeiras ou de fácil demonstração. As teorias nascem da clínica e de casos particulares. O método interpretativo em ação gera as teorias que por sua vez necessita de técnicas que as acompanhem e se transformam conforme surgem novas teorias, sucessivamente. Por exemplo, teorias sobre desenvolvimento infantil gera uma técnica de atendimento às crianças. Teoria de funcionamento grupal pode gerar técnicas de psicoterapia de grupo. Teorias sobre personalidades psicóticas carecerão de técnicas de atendimento à quadros regredidos. Os métodos de tratamento necessitam acompanhar os desdobramentos teóricos, mas o método interpretativo continua o mesmo, invariável e gerador das teorias, e das técnicas de tratamentos, como analogamente técnicas de investigação. (Green, 2008; Herrmann, 2010)..
(28) 26. O resultado final parece ser a necessidade de um efeito contrário a expansão tão particularizada. Enquanto a psicanálise de um lado, se fragmenta em teorias e técnicas de tratamento diversos e sem integração, encontra-se em outra vertente estudos consistentes e rigorosos que buscam nortear a prática e as teorias. Para efeito de exemplos segue algumas referências às tentativas de ordenação das teorias e seu método indissociável. Mezan (2014) considera que a obra psicanalítica não se define apenas pela obra freudiana, mas se desenvolve a partir de sucessores que afirmam ser a continuação dessa obra. Questiona o autor tal pretensão uma vez que seria impossível a teoria freudiana continuar em teorias tão díspares. Mas, acrescenta, serem nascidas da mesma raiz. São então, a um só tempo psicanalíticas, mas diferentes da obra de Freud. Enfatiza ele que há uma história no desenvolvimento das teorias, entendendo com isso que houve uma ruptura e uma irrupção do inédito. A epistemologia freudiana contém, em sua concepção, quatro dimensões: uma teoria da psique; uma teoria da gênese e desenvolvimento dessa psique; uma psicopatologia; uma teoria de como ocorre o processo analítico (ou a forma como circulará o método de tratamento). Define como escolas psicanalíticas as obras que contém essas dimensões de forma coesa e cuja formulação seja original. Obras que produzem uma teoria metapsicológica, uma teoria do desenvolvimento, uma teoria psicopatológica e uma teoria sobre a terapêutica. Dessa maneira, o desenvolvimento psicanalítico seria a continuidade das teorias freudianas ramificadas em quatro grandes troncos – as quatro escolas teóricas propostas por Mezan (2014) são: Klein, Lacan, Psicologia do Ego e os analistas britânicos das relações de objeto com Fairbain e Winnicott. Em Green (2008) a tentativa de organização das teorias ocorre de maneira a ressaltar primeiramente a confusão de um pensamento clínico sem rumo que tomou conta da Psicanálise após o crescimento teórico. Sua revisão descreve um pêndulo que balança entre dois polos: a corrente das relações de objeto a partir de Klein e na outra ponta a psicologia do Self de Kohut. Enfatiza que a teoria das pulsões de Freud é esquecida pelo movimento do pêndulo, graças ao apego biológico de Freud que negligenciou objeto e a intersubjetividade. Na revisão crítica os meios kleinianos por buscarem sempre o arcaico no aqui-agora da sessão sem se dar conta do après-coup (a apreensão retrospectiva). Este exemplo entremeia o trabalho como forma de mostrar a técnica de tratamento se modificando conforme a teoria. A refinada reavaliação que Green (2008) oferece das teorias ocorrerá dentro de categorias teóricas, avaliando conceitos e seus destinos visando uma espécie de conversa entre.
(29) 27. as diferentes escolas, relacionando cada novo rumo dos conceitos e costurando uma trama teórica ampla que dê sentido ao todo. De maneira diversa Rezende (1996) apresenta sua visão do rumo das teorias e método de tratamento da psicanálise. Para o autor haveria uma revolução epistemológica na psicanálise com a obra de W. R. Bion. Descreve Rezende (1996) que: Theoria é uma palavra grega derivada do verbo orão que significa olhar ou ver, cujo aoristo eidon deu origem à palavra ideia que, etimologicamente falando, significa o que é visto. Racionalismo, idealismo, iluminismo, positivismo, andaram juntos ao privilegiar o ‘olhar’ como principal característica tanto do conhecimento como do pensamento (p. 195). A revolução de Bion (1994) se deve ao reconhecimento de cinco dimensões do objeto psicanalítico. A primeira dimensão se dá como a ideia da Theoria, e a pergunta que a compreende seria: “Você olha e vê o quê”? A primeira dimensão faz parte dos sentidos, dos mitos e das paixões. O analista olha uma coisa e vê outra, olha o que é apreendido sensorialmente e enxerga a realidade psíquica. Depara-se aqui com teoria e técnica associada. Segue a análise com a segunda dimensão – mítico/poético. Pergunta-se ao psicanalista: “Você ouve e escuta o quê? ” A verdadeira revolução da escuta é a cura pela palavra que não foi dita. (Bion, 1994) A terceira dimensão do objeto é a das paixões: “Você sente (passio) e faz (actio) o quê? ” Aqui separa-se a ideia de ação com a de atuação, sendo a ação iniciada com o pensamento diferente da ação em que a paixão sem o pensamento opera. A teoria dessa dimensão é a do pensar e da tolerância à frustração. (Bion, 1994) A quarta será a dimensão da teoria psicanalítica propriamente que observa e nomeia o objeto analítico: “você observa e nomeia o que”? A Theoria psicanalítica aqui ganha sua transformação na medida em que não mais é só olhar, mas a soma das outras dimensões: “Tudo isso nos faz reconhecer a importância da “teoria” (e do simbólico) enquanto possibilidade de nomear a experiência feita. Nestas alturas, é ela que permite à intuição (e ao imaginário) superar o risco da cegueira”. Só haverá aprendizagem psicanalítica caso a experiência seja nomeada por uma teoria psicanalítica. (Bion, 1994) E finalmente a quinta dimensão será a postura mais profundamente analítica, trata-se do que já foi nomeado e do que virá a ser: “Você afirma e nega o quê? ”. Enfatiza o autor que será fundamental afirmar a teoria para depois negá-la e caminhar para o novo. (Bion, 1994) A revolução da psicanálise a partir desse vértice é “adotar a negação como inseparável da afirmação”. A ideia é que todos os modelos uma vez usados e reconhecidos, uma vez uteis.
(30) 28. como instrumento de trabalho possam ser abandonados quando esgotadas as possibilidades, aproximando assim as teorias da função do próprio método que ao interpretar abandona o conhecido e opera novos sentidos. (Bion, 1994) Um último exemplo de síntese do conjunto das teorias e seus métodos de tratamento interessa particularmente ao objetivo deste trabalho. Trata-se da composição feita por Herrmann (1999b, 2001, 2010) que culmina na integração ocorrer pelo Método Psicanalítico, núcleo do tema desta dissertação. Em seu entender a Psicanálise desvela os sentidos do que foi esquecido e revela a ruptura interna para poder curar do excesso de fragmentações. Este o Método. O próprio que será usado para integrar as divisões teóricas e técnicas, curando a psicanálise de sua própria fragmentação. Historicamente a Psicanálise tem início com Freud e seus contemporâneos, seguida por uma segunda geração psicanalítica que compôs o Período das Escolas. Cada escola desenvolveu um conjunto teórico e técnico a partir da clínica e gerou um grupo de discípulos que continuou a reproduzir teoria dentro de sua corrente psicanalítica. O equívoco tem início quando cada corrente passa a considerar suas preferências como sendo a Psicanálise. Cada sistema teórico passou a ser afirmado como o conjunto da psicanálise. Cada fragmento confundido com o todo. Herrmann (2010) sugere que cabe à terceira geração de psicanalista a recusa ao desenvolvimento de mais escolas. A responsabilidade da terceira geração seria a de colocar rigor às próprias ideias e descobertas. O respeito ao corpo teórico como indispensável, porém não explicativo de todo e qualquer ser humano, esquecendo a singularidade do objeto psicanalítico. Recuperando a diferença entre técnicas e o Método unifica o conhecimento partido através deste, como o que verdadeiramente transporta para além da clínica a aplicação da Psicanálise.. 1.5 – O método psicanalítico.. Nos itens anteriores o presente trabalho buscou uma compreensão da relação do método psicanalítico com a disciplina científica, com sua vertente como método investigativo e como método de tratamento e finalmente a relação com o corpo teórico. Verificar-se-á neste ponto, a partir de uma digressão, a constituição do método psicanalítico, seu desenvolvimento e sua contemporaneidade..
(31) 29. A criação do método psicanalítico teve seu início histórico com o Dr. Joseph Breuer, conhecido médico atuante em Viena que durante o período de 1880 a 1882 cuidou de Bertha Pappenheim, conhecida na literatura psicanalítica como Anna O. A paciente apresentava um interessante caso de dupla consciência, sendo uma de mulher inteligente e capaz cujas funções cotidianas permaneciam preservadas, e outra personalidade semelhante a uma criança cruel. Com uma infinidade de sintomas, a paciente entrava em estados hipnóticos espontâneos e relatava suas alucinações, suas vivências ruins e após esse estado sentia imenso alívio e o desparecimento de algum sintoma. Pappenheim percebendo a eficiência do método, deu continuidade ao mesmo e o chamou de “limpeza da chaminé”, e a “cura pela conversa”. Breuer sistematiza o procedimento e introduz a hipnose artificial transformando o tratamento em método cuja terapêutica se mostrou eficaz na redução dos sintomas. Adotou-se o nome de método catártico, dada a quantidade de afetos que eram aliviados quando comunicados e modificados durante os estados hipnóticos. (Jones, 1979) Freud em contato com Breuer se interessa profundamente pelo ineditismo do caso e do método de tratamento e em 1885 em Paris conhece o trabalho de Charcot um eminente neurologista que ministrava aulas sobre um tema que médicos conceituados não levavam em consideração: a histeria. A seriedade com que tratava a doença, a consideração que adotava em relação as queixas dos pacientes – note que a histeria era relegada a estados de simulação que provocava o desprezo apenas e casos de histeria, que não eram tidos como tais, provocavam frustração pois não se curavam, sendo abandonados como casos degenerativos – tornou-se nas mãos do neurologista uma entidade nosológica respeitada finalmente como doença a ser tratada. Charcot também usava da técnica de hipnose como pesquisa da histeria e durante a aplicação da mesma, como forma de tratamento, usava de sugestão, sendo obviamente a própria hipnose um derivativo da sugestão do médico sobre o paciente. Freud foi tocado pelas concepções revolucionárias do cientista e em parceria com Breuer dá início à sua clínica das neuroses. (Jones, 1979) A originalidade das ideias de Breuer e de Charcot residiam na origem dos sintomas, que independente da etiologia neurológica desconhecida, era psíquica. A partir dessas descobertas a Psicologia ganhou uma nova visão, diferente da acadêmica atuante, e ganhou um novo laboratório: a clínica. Na clínica as pesquisas seguiram então o rumo da descoberta de camadas mais profundas da mente humana. É nesse contexto que se dá o início do trabalho de Freud, que tocado pelas concepções revolucionárias de Charcot e pelo método catártico de Breuer, inicia sua clínica de tratamento de neuroses e concomitante a pesquisa de suas.
(32) 30. etiologias. Freud afasta-se gradativamente do enfoque puramente fisiológico e cria condições de pesquisa e tratamento mais próximos das questões psicológicas. (Jones, 1979) Ainda sob o domínio da ciência predominante e de seu método positivista, Freud busca obsessivamente a causa dos sintomas, criando sua primeira teoria do trauma que revelava que para cada sintoma subjaz um trauma gerador do mesmo. A monotonia da sugestão, a dificuldade em hipnotizar, a volta dos sintomas depois de desfeitos levou Freud a uma insatisfação com o método. Paralelo a essas inquietações, inicia sua autoanálise, e mais livre de suas autoridades internas, expande suas pesquisas para além da teoria, pois o método aprendido de Charcot de “olhar os fatos de frente, inúmeras vezes, até que os mesmos pudessem falar-lhe diretamente” (Jones, 1979, p 250) estava em funcionamento e novas descobertas como os pares antitéticos, a transferência como causa do efeito da sugestão, as fantasias que acompanhavam os relatos dos traumas, as resistências à cura, os sonhos como tendo significados modificam de vez o método. (Jones, 1979) A transição do método catártico em que Freud fazia sugestões e dava ordens ao paciente para que ele se lembrasse das supostas situações traumáticas, numa atuação positiva para o método psicanalítico foi ocorrendo lentamente e sempre a partir de novas descobertas. Enquanto ainda trabalhava arduamente nas sugestões e buscas das causas dos efeitos, uma paciente acusa Freud de interromper o fluxo de suas ideias. Freud acata e permite que as ideias da paciente bem como as suas permaneçam mais frouxas, sem perseguir um objetivo. Esse é um passo fundamental para a crescente técnica da associação livre, em que o paciente passa a falar livremente o que lhe vêm à mente. Da hipnose à pressão na testa como imposição de lembranças reveladoras ao refinamento e sutileza do deixar que os fatos falem naturalmente por si da associação livre, surge o método psicanalítico que advindo da clínica o modifica pela constatação que o trabalho não é feito somente pelo médico, mas sim pelo trabalho interno das associações e insights do paciente. E é através da modificação do método que se inaugura a ciência nova, ou a Psicanálise. (Jones, 1979; Freud, 1900/1972) Outra especificidade do método que o difere dos anteriores e amplia o método clínico será o da descoberta do inconsciente como uma outra forma de processo mental, bem como da relação direta do pesquisador ou do clínico com apreensão dos fatos psíquicos do paciente: Tudo aquilo que experimento com os meus pacientes verifico aqui mesmo: os dias em que me encontro vagando de um lado para outro, oprimido porque não consegui compreender nada dos meus sonhos, das minhas fantasias e dos meus estados de espírito do momento; dias em que um raio de luz ilumina as ligações entre as coisas e.
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