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Algumas reflexões sobre poesia infantil

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Academic year: 2020

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ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE POESIA INFANTIL

J u l i a n a S i l v a Loyola SANTANA*

Pouco se f a l a sobre a poesia i n f a n t i l moderna no B r a s i l . Talvez porque os títulos de l i t e r a t u r a i n f a n t i l que se encontram no mercado sejam, em sua grande m a i o r i a , prosa.

Mesmo assim há a u t o r e s que se preocupam com a questão da poesia na infância bem como bons l i v r o s de poesia i n f a n t i l em circulação.

Maria da Glória B o r d i n i , em seu l i v r o Poesia Infantil(1), r e a l i z a um t r a b a l h o que v a i desde uma fundamentação sobre a L i t e r a t u r a I n f a n t i l no B r a s i l , sua situação e problemas até t r a t a r especificamente a questão da poesia i n f a n t i l -como o próprio nome do l i v r o i n d i c a - r e f l e t i n d o sobre a importância da poesia na infância e na v i d a do homem em g e r a l e a n a l i s a n d o , c r i t i c a m e n t e , alguns poemas f e i t o s para crianças. Em seu l i v r o , a a u t o r a menciona a escassez de b i b l i o g r a f i a sobre o tema no B r a s i l .

No presente t r a b a l h o , tomamos o l i v r o de Maria da Glória B o r d i n i , Poesia Infantil, e o a r t i g o Poesia para crianças: a mágica da e t e r n a infância(3), de Glória Maria F i a l h o Ponde, como os pontos de p a r t i d a e o nosso p r i n c i p a l r e f e r e n c i a l teórico.

No B r a s i l , o nascimento da poesia i n f a n t i l , enquanto gênero, deu-se no século X V I I I . Até então, o c o n c e i t o de infância norteava-se p e l a noção de que a criança e r a um a d u l t o em m i n i a t u r a e apenas l h e f a l t a v a o crescimento físico. A p a r t i r do século X V I I I , a infância passa a s e r

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v i s t a como um estágio de formação para a v i d a e, por i s s o , merecedora de atenções e s p e c i a i s .

Segundo Maria da Glória B o r d i n i , podemos observar que, desde seu nascimento,"a poesia i n f a n t i l segue, h i s t o r i c a m e n t e , três caminhos d i f e r e n t e s " . Num p r i m e i r o momento, há a apropriação de criações folclóricas de origem camponesa independentemente de serem do domínio i n f a n t i l ou a d u l t o ; o u t r a tendência que c a r a c t e r i z o u a poesia i n f a n t i l f o i a utilização do tema da infância enquanto um " d e v e r - s e r - i n f a n t i l " , transformando algumas noções desse "dever-ser" em versos; e por último, houve a adaptação de poemas clássicos, t a i s como,Os Lusíadas e J Juca Pirama, com os devidos c o r t e s , para serem l i d o s por crianças.

Mas muito já se f e z além d i s s o p e l a poesia i n f a n t i l no B r a s i l . É c l a r o que a poesia também esteve e está s u j e i t a a toda s o r t e de contratempos v i v i d o s p e l a L i t e r a t u r a I n f a n t i l no B r a s i l que, desde seu nascimento, vem sendo confundida com t a n t a s o u t r a s c o i s a s não menos dignas que e l a , porém de naturezas completamente d i f e r e n t e s .

A L i t e r a t u r a I n f a n t i l s o f r e ainda h o j e as conseqüências de t e r s i d o encarada como i n s t r u m e n t o pedagógico "a p r i o r i " , e com a poesia dedicada à criança não acontece d i f e r e n t e . Diz Maria da Glória B o r d i n i : "O caso da poesia é exemplar, quanto às conseqüências da adaptação, d e n t r o da L i t e r a t u r a I n f a n t i l . Setor t r a d i c i o n a l m e n t e u l t r a v a l o r i z a d o da criação v e r b a l artística, quando recebe o a d j e t i v o i n f a n t i l tende a perder sua natureza poética num b a l b u c i o meloso de emoções ou na voz estronde j a n t e que e x a l t a deveres cívicos ou f a m i l i a r e s como se pode perceber no t e x t o de Olavo B i l a c " ( 1 , p . 8 ) , Ave Afaria;

Meu f i l h o ! t e r m i n a o d i a . . . A p r i m e i r a e s t r e l a b r i l h a . . . Procura a t u a c a r t i l h a

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O gado v o l t a aos c u r r a i s . . . O s i n o canta na I g r e j a . . . Pede a Deus que t e p r o t e j a E que dê v i d a a t e u s p a i s ! Ave-Maria!... Ajoelhado, Pede a Deus que, generoso, Te faça j u s t o e bondoso, F i l h o bom e homem honrado; Que teus p a i s conserve a q u i , Para que possas, um d i a , Pagar-lhes em a l e g r i a O que sofreram por t i .

Reza e procura o t e u l e i t o , Para adormecer c o n t e n t e ; Dormirás tranqüilamente, Se d i s s e r e s s a t i s f e i t o : - Hoje, p r a t i q u e i o bem; Não t i v e um d i a v a z i o , T r a b a l h e i , não f u i v a d i o E não f i z mal a ninguém

Se por um lado a poesia s e r v i u e, em alguns casos, ainda serve de instrumento m o r a l i z a d o r nas mãos do a d u l t o gue se d i r i g e à criança, por o u t r o lado e l a pode a t u a r como meio emancipador e humanizador, cumprindo assim uma função que, por natureza, pertence à l i t e r a t u r a .

V i s t a com t a i s o l h o s , como um meio humanizador, a poesia r e v e l a - s e como i n s t a u r a d o r a de novas linguagens, porgue é e l a prórpia a linguagem do i n t e r i o r , da lógica i n t e r n a do ser humano.

Na poesia, a p a l a v r a ganha uma nova força d i f e r e n t e daquela que apenas r e p r e s e n t a alguma c o i s a . Na poesia, a p a l a v r a é a apresentação v i v a d a g u i l o gue quer expressar, p o i s , segundo nos d i z Glória Maria F i a l h o Ponde: "O poema transcende o

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d i s c u r s o . Nascido da p a l a v r a , desemboca em a l g o que o transpassa. A experiência poética é irredutível à p a l a v r a , embora só a p a l a v r a a exprima" (3,p.98).

No caso da poesia i n f a n t i l , quando e s t a função poética da p a l a v r a é mal entendida, r e s u l t a m d i s s o t e x t o s ornados de mensagens moralizadoras que antes de qualquer o u t r a c o i s a , pretendem moldar comportamentos, impor a t i t u d e s ao l e i t o r . É i m p o r t a n t e que se d i g a que t a i s t e x t o s , postos em circulação p e l o mercado e d i t o r i a l , concorrem em pé de igualdade com a genuína poesia.

Nesse s e n t i d o , os danos causados à criança pelo t e x t o poético comprometido em p r i m e i r o l u g a r com v a l o r e s pedagógicos são ainda maiores do que os danos causados pelos t e x t o s em prosa assim também conduzidos, p o i s como ainda nos d i z Glória Maria F i a l h o Ponde, "a essência do poema r e s i d e na emoção, nos sentimentos, na meditação, nas vozes íntimas que t a l episódio ou circunstância suscitam na s u b j e t i v i d a d e do poeta. A poesia é por i s s o , a linguagem que mais r e v e l a o conteúdo humano, p o i s t r a t a sobretudo das emoções" (4 ,p. 65). E i s por que um t e x t o que se d i z poético, mas que na verdade dá p r i o r i d a d e aos "conselhos morais", f e r e em muito maior escala a experiência de l e i t u r a das crianças e não só das crianças mas de qualquer l e i t o r .

A incapacidade de l e r c r i t i c a m e n t e e o d e s i n t e r e s s e g e n e r a l i z a d o p e l a l e i t u r a são, para f a l a r de maneira ampla, alguns r e s u l t a d o s possíveis de serem observados em a d u l t o s que na infância t i v e r a m c o n t a t o apenas com t e x t o s c a r a c t e r i s t i c a m e n t e moralizadores.

Diz Maria da Glória B o r d i n i que: "...impensável sem a criança como destinatário, a poesia i n f a n t i l p r e c i s a , apesar do paradoxo, esquecer-se de seu a l v o para poder agenciar o e f e i t o poético que deverá provocar, caso não deseje t r a i r um público c o n f i a n t e e incapaz de defender-se de contrafações" ( l , p . l l ) . Embora não consideremos o l e i t o r m i r i m a t u a l tão indefeso assim, f i c a c l a r o nas p a l a v r a s de B o r d i n i que,

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antes de s e r i n f a n t i l , a poesia deve s e r apenas e tão somente poesia.

Além de t r a d u z i r o conteúdo humano, ou t a l v e z por i s s o mesmo, a poesia apresenta-se sempre através de uma linguagem econômica, uma vez que lança mão de imagens e símbolos, deixando de lado o que é desnecessário, supérfluo. Nesse s e n t i d o , a representação imaginária c o n s t i t u i um elemento fundamental na produção de e f e i t o estético de um t e x t o poético e, no caso da poesia i n f a n t i l , i s s o é ainda mais e v i d e n t e , p o i s t a l representação imaginária vem de encontro a necessidades i n f a n t i s r e v e l a d o r a s , uma maneira p a r t i c u l a r e característica de s e r das crianças.

Através de um processo de transgressão da s i n t a x e acadêmica - às vezes mais e v i d e n t e às vezes menos - a boa poesia i n f a n t i l lança mão de uma linguagem que é imagem, que é símbolo, tendo em v i s t a não só os o b j e t i v o s poéticos, mas também a identificação com o pensamento i n f a n t i l , c u j a característica p r i n c i p a l é a apreensão emocional, a s s o c i a t i v a e animizadora do mundo.

Podemos c o n c l u i r , então, que todos esses dados nos conduzem à reflexão em t o r n o do t r a t a m e n t o estático, c o n f e r i d o aos t e x t o s poéticos i n f a n t i s . E a i n d a , a preocupação, a p r i o r i , com o v a l o r estético não v a l e somente para os t e x t o s de poesia, mas para todo o acervo da chamada L i t e r a t u r a I n f a n t i l que, a nosso v e r , deve preocupar-se p r i m e i r o , e antes de t u d o , com o v a l o r literário de que devem e s t a r imbuídos os t e x t o s d i r i g i d o s à criança. Sem a consideração desse v a l o r como elemento indispensável à produção literária para crianças, nunca chegaremos a um e s t a t u t o que l e g i t i m e a L i t e r a t u r a I n f a n t i l enguanto l i t e r a t u r a e não enquanto a q u i l o que é f e i t o para crianças e jovens aprenderem a g o s t a r de l e r . A presença da l i t e r a t u r a na v i d a do homem é mais ampla e mais profunda do que i s s o , e nosso esforço deve acontecer no s e n t i d o de i n c e n t i v a r uma produção literária que, antes de s e r para crianças, tem o compromisso de s e r a r t e .

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Passemos agora a uma rápida análise do poema i n f a n t i l Boas maneiras, do l i v r o A televisão da

bicharada ( 2 ) , de Sidônio Muralha.

Nele observaremos, p r i n c i p a l m e n t e , como o poeta a t i n g i u êxito na produção de e f e i t o estético, a p a r t i r de uma boa elaboração das imagens que, a u x i l i a d a s ainda pelas belas ilustrações de Fernando Lemos fazem de A televisão

da Bicharada um bom l i v r o de poesia i n f a n t i l

BOAS MANEIRAS Muito ao de l e v e muito devagar o peixe dourado na a r e i a escreve ura l i v r o de a d i v i n h a s cheio de conchinhas e e s t r e l a s do mar Começa a b a i l a r um peixe malhado e vera apagar

o que escreve, escreve,

muito ao de l e v e , muito devagar, o peixe dourado no fundo do mar. Senhor peixe malhado,

é tão bom b a i l a r mas por f a v o r deixe deixe

sossegado

o peixe dourado no fundo do mar. Diz o peixe malhado: - Queira desculpar eu não t i n h a reparado no peixe dourado nem no l i v r o de a d i v i n h a s f e i t o de conchinhas e e s t r e l a s do mar.

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Em Boas Maneiras, o ambiente é o fundo do mar. Estão p o i s , em r e l e v o , o movimento vagaroso dos peixes, indo e v i n d o , e elementos t a i s como a r e i a , conchas, e s t r e l a s do mar.

Os movimentos do peixe dourado são d e f i n i d o s com as p a l a v r a s " l e v e " , "devagar" que, como f o i d i t o a n t e r i o r m e n t e , não apenas s i g n i f i c a m l e v e z a , lentidão mas, no t e x t o , se tornam símbolo, representação do movimento. Além d i s s o , a imagem de um peixe dourado, dispondo conchinhas e e s t r e l a s do mar na a r e i a , já é por demais poética.

A entrada do peixe malhado no poema é t r a d u z i d a pela idéia de um " b a l l e t " - "começa a b a i l a r um peixe malhado". Sua passagem causa danos ao t r a b a l h o do peixe dourado - o movimento da água faz desmanchar o l i v r o de a d i v i n h a s - mas t a l prejuízo não é apresentado através de uma imagem a g r e s s i v a . Pelo contrário, a passagem do peixe malhado, movimentando a água e desmanchando o l i v r o , é responsável por um momento de leveza e suavidade.

Durante todo o poema, podemos s e n t i r , através das palavras-imagem, a leveza da água,a leveza dos p e i x e s , a t e x t u r a f i n a da a r e i a . A desorganização das conchinhas e das e s t r e l a s do mar aparece para o l e i t o r como que em "câmara l e n t a " , como tudo o que está no poema. Esse é um recurso v i s u a l , mas que, no poema, se r e a l i z a pelas p a l a v r a s . Momentos de repetição de vocábulos também traduzem a idéia de lentidão:" o que escreve, escreve, muito ao de l e v e . . . " , ou "mas por f a v o r d e i x e , deixe sossegado o peixe dourado..." P o r t a n t o , o movimento é t r a d u z i d o de modo a acompanharmos, com a l e i t u r a , o c l i m a submarino onde se passa a cena. E não apenas acompanhamos, mas ficamos imbuídos d e l e .

O título Boas Maneiras poderia s u g e r i r , num p r i m e i r o momento, um t e x t o - p r e t e x t o para ensinamentos de como devem comportar-se pessoas bem educadas. Porém, percebemos, ao longo da

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algum, embora, ao f i n a l da l e i t u r a , saibamos j u s t i f i c a r o t i t u l o .

Trata-se p o i s , a nosso v e r , de um poema bem e s c r i t o e que, com c e r t e z a , agrada não só ao público i n f a n t i l , mas a qualquer l e i t o r . A poesia em sua s i m p l i c i d a d e pode e deve e s t a r presente na iniciação ao a t o de l e r . Começar pela poesia pode ser o mesmo que começar pelo mais simples, o mais sintético e, ao mesmo tempo, o mais r i c o dos caminhos que conduzirão à formação de um l e i t o r sensível e, por i s s o , crítico e, mais ainda, um l e i t o r c o n s c i e n t e do v a l o r e do prazer de l e r .

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) BORDINI, M. G. Poesia Infantil. São Paulo: Ática, 1986.

(2) MURALHA, S. A televisão da bicharada. R i o de J a n e i r o : Nórdica, 1988.

(3) PONDE, G. M. F. Poesia para Crianças: a mágica da e t e r n a infância. I n : . Literatura

Infanto-Juvenil: um gênero polêmico.

[ s. n. t . ] .

(4) Poesia e F o l c l o r e para criança. I n : Zilbermana, R. ( o r g . ) . A Produção Cultural

para a Criança. Porto A l e g r e : Mercado

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