CATÓLICA DE
BRASÍLIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
STRICTO SENSU EM GERONTOLOGIA
Mestrado
IDOSO E ARTE: UMA RELAÇÃO POSSÍVEL COM A
AUTO-IMAGEM?
Autor: Maria Heliana Mota Guedes
Orientador: Prof. Dra. Carmen Jansen de Cárdenas
IDOSO E ARTE: UMA RELAÇÃO POSSÍVEL COM A
AUTO-IMAGEM?
Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação “Stricto Sensu” em Gerontologia da Universidade Católica de Brasília, como requisito para obtenção do Título de Mestre em Gerontologia.
Orientador:
Prof. Dra
.
Carmen Jansen de CárdenasFicha elaborada pela Coordenação de Processamento do Acervo do SIBI – UCB.
G924i Guedes, Maria Heliana Mota.
Idoso e arte : uma relação possível com a auto-imagem? / Maria Heliana Mota Guedes. – 2007.
127 f. ; 30 cm
Dissertação (mestrado) – Universidade Católica de Brasília, 2007. Orientação: Carmen Jansen de Cárdenas
1. Idosos. 2. Auto-imagem. 3. Arte - terapia. I. Cárdenas, Carmen Jansen de, orient. II. Título
Aos alunos e funcionários do Programa Humanizar que me mostram a cada dia que envelhecer é uma dádiva de Deus, e que isso deve acontecer com sabedoria, gratidão, atividades e muita alegria;
À amiga, professora de trabalhos manuais, Iêda Klein, que permite aos alunos alegria em tudo que se realiza;
À Professora e orientadora Dra. Carmen Jansen, que me orientou, incentivou e me ajudou a escrever essa rica experiência;
Ao professor Dr. Armando Bezerra, a quem muito admiro pela facilidade com que transmite seu encantamento pela arte, mostrando que é possível uma medicina mais humanizadora.
Ao amigo Cristian Ferreira, que me ofertou presença, dedicação e despendeu várias horas na digitação deste trabalho;
Às participantes desta pesquisa, que confirmam o “fazer-arte” como uma forma equilibrada e prazerosa de viver;
Ás minhas queridas filhas, Isabela e Letícia, pelo prazer que me proporcionam ao ser mãe, sobretudo por compreenderem e respeitarem meu esforço e minha dedicação na conquista do conhecimento;
Aos meus familiares e amigos, que muito me ajudaram nas dificuldades passadas, contribuíndo sempre com o apoio confiante.
Aos meus irmãos e em especial Helisa, irmã, amiga e confidente, pelo carinho, amor, dedicação e alegria contagiante.
À Professora Dora Paiva, pelas contribuições dadas na correção de português deste trabalho;
À Professora do Unileste, Gilce Quintão Castro, pelas ricas discussões sobre o tema deste trabalho;
A população mundial vem envelhecendo com rapidez e, com isto, nossa sociedade está se transformando. A expectativa de vida vem aumentando e as pessoas estão prolongando seus anos de vida para 80, 90, 100 anos ou mais. È preciso que esta longevidade esteja associada a uma certa qualidade de vida, própria desta fase de vida, da senilidade. A arte permite ao ser humano a liberação de seus sentimentos e emoções, garantindo, naquele momento, um encontro consigo mesmo por meio da arte, aumentando a qualidade afetiva das relações interpessoais, pela melhora da comunicação, fortalecimento da auto-imagem e pela redescoberta de potenciais criativos. E o resultado é um viver melhor em seu cotidiano. Em suma, a relação do trabalho do idoso no campo das artes pode viabilizar um fortalecimento da auto-imagem, resgatando uma melhor qualidade de vida nas áreas fisiológica, psicológica e social. Este trabalho teve como objetivo investigar de que forma a prática dos trabalhos manuais pode influenciar a auto-imagem do idoso. A pesquisa foi elaborada em quatro etapas: na primeira etapa fez-se revisão da literatura relativa ao tema, e seus desdobramentos como envelhecimento populacional nos seus aspectos biológico, psicológico, social; a segunda etapa descreve a arte como recurso terapêutico, criatividade, processo da criação, auto-imagem, autoconceito, auto-estima, sentimento e emoções; na terceira etapa foi feita uma pesquisa de campo na qual foram feitas entrevistas semi-estruturadas, centradas em questões relacionadas com o envelhecimento e a auto-imagem; a quarta etapa tratou da análise e discussão dos dados coletados. Analisou-se o conteúdo dos dados coletados e, nos resultados, procurou-se correlacionar os relatos aos dados de observação. Dado o caráter pioneiro do tema da pesquisa, considera-se que seus resultados possam contribuir significativamente tanto para a área acadêmica, servindo de base para a elaboração de novas investigações relacionadas ao tema que procura relacionar a arteterapia na busca da auto-imagem do idoso, como para o trabalho com idosos, por ter estendido a eles nova perspectiva de recuperação de perdas fisiológicas, emocionais e sociais.
The world population is getting old each day and because of that our society is changing. The life expectation is growing as people ages to 80, 90 100 years or more. With this numbers it is necessary to associate the life quality. The art as a therapy allows the human being to send their feelings and emotions free, taking for granted at that moment the join between art and itself, through the addition of affective quality of interpersonal relations, more communication, the improve of self image and the finding of creative potentials. The result is a better routine. Summing up, the elderly work in art area can improve self-image and bring back the best life quality in philosophic, psychological and social areas. This project aims to investigate the practical handmade works and how it can influence the elder self –image. The research was divided into four steps: the first step literature reviews according to the subject, the subject related aspects approach as population oldness and its biological aspects, psychological end social; the second step describes art as a therapeutic resource, creativity, creation process, self-image, self-concept, self-esteem, feeling end emotions; the third step was field research where were done semi- structured interviews, centered on elder questions and self-image; the fourth step analyzed and collected data discussion. The collected data was analyzed and they tried to relate the report to the observed data. Based on the pioneer character of the subject it is considered that the results can really contribute to the academic area, as a base for the new studies related to the subject which tries to show the therapy art that looks for the elder self-image, as for elder work to whom it was given new perspective for philosophic, emotional and social losses.
1.1 Objetivos... 13
1.1.1 Objetivo geral ... 13
1.1.2 Objetivos específicos... 13
1.2 Justificativa... 13
2 ENVELHECIMENTO POPULACIONAL... 15
2.1 Processos biológicos... 16
2.2 Processos psicológicos ... 19
2.3 Processos sociais... 22
2.4 Auto-estima ... 27
2.5 Auto-conceito ... 29
2.6 Auto-imagem ... 32
2.7 Emoções e sentimentos... 36
3 A ARTE... 42
3.1 A arte como recurso terapêutico... 45
3.2 A arte como atividade terapêutica ... 51
3.2.1 Lazer e recreação ... 52
3.2.2 Trabalhos manuais - expressão artística ... 53
3.3 Criatividade ... 57
3.4 O processo da criação ... 62
4. METODOLOGIA... 68
4.2.1 Entrevista ... 68
4.2.2 Observação ... 70
4.3 Local de pesquisa... 71
4.4 Participantes da pesquisa ... 72
4.5 Coleta de dados... 72
5. ANÁLISE DOS DADOS ... 74
5.1 Apresentação dos resultados... 74
5.2 Discussão das categorias de análise da pesquisa ... 78
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 111
7. REFERÊNCIAS ... 113
Tabela 1 Distribuição da faixa etária dos participantes do estudo... 76
Tabela 2 Distribuição do estado conjugal dos participantes do estudo. ... 77
Tabela 3 Distribuição das pessoas que residem com os idosos. ... 77
Tabela 4 Distribuição do número de filhos dos idosos. ... 77
Tabela 5 Distribuição de idosos que realizam tratamento de saúde. ... 78
Tabela 6 Distribuição das especificações de doenças identificadas nos idosos... 78
Quadro 1 Categorias e subcategorias da arte como terapia... 80
Quadro 2 Detalhamento da categoria benefício... 90
Quadro 3 Detalhamento da categoria sentimento... 103
1 INTRODUÇÃO
Nesta dissertação, procura-se estabelecer uma relação entre a auto-imagem do idoso e a arte. Como condições preliminares, busca-se a fundamentação em um quadro teórico que permite contextualizar a realidade do idoso no Brasil e no mundo. Na seqüência desse aporte teórico, apresenta-se a arte como terapia, procurando enfocar a melhora na qualidade de vida desta população que se encontra no processo do envelhecimento.
A perspectiva de aumento de vida vem se tornando uma realidade mundial que exige medidas urgentes e de impacto. Nas últimas décadas, em quase todos os países, a taxa de mortalidade tem apresentado um declínio significativo, enquanto a esperança de vida ao nascer, nos países desenvolvidos, chegou a 62 anos na década de 90 (KALACHE, 1996).
Segundo Berquó (1996), no Brasil, por exemplo, a população maior de sessenta e cinco anos atingiu, no ano 1991, mais de sete milhões de pessoas e estima-se que, entre os anos 2010 e 2020, a taxa de crescimento de indivíduos, dessa faixa etária, seja de 3,80, o que, comparando-o com a taxa de 1991-2000 (de 2,25), representará um aumento considerável. No entanto, em muitas regiões, ainda se rejeita o idoso, seja de maneira direta ou indireta. Esse prolongamento do tempo de vida das pessoas tem suscitado inúmeros questionamentos acerca de como estará sendo compreendido o envelhecimento humano, dentro das sociedades atuais. A sociedade brasileira não parece preparar seus cidadãos para esse processo.
Para Leme (2000, p.14), “a previsão é que, em 2025, teremos mais de 32 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Seremos a 6ª maior população idosa do mundo”. Esse aumento da população idosa está relacionado com o aumento da expectativa de vida, como o número médio de anos que se pode esperar que uma pessoa viva. “No século XX, a expectativa de vida, desde o nascimento, aumentou, dramaticamente, de uma média de 47,5 anos (1900) para 75,4 anos, com as mulheres ( 79,0 anos ) vivendo cerca de 07 anos mais que os homens (72,1 anos)”(SMELTZER; BARE, 2002, p.142).
conseguir uma sobrevida cada vez maior, com uma qualidade de vida cada vez melhor, para que os anos vividos em idade avançada sejam plenos de significado e de dignidade”.
Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui uma população total de 170 milhões, sendo 15 milhões de pessoas acima de 60 anos ou mais (BRASIL, 2000).
A maior preocupação dos que investigam e trabalham com os idosos, como os geriatras, gerontólogos e cuidadores de idosos, entre outros profissionais, tem sido propiciar melhores condições de vida aos que envelhecem. Contudo, quando olhamos a realidade, observamos que são poucas as pessoas que encontram, no envelhecimento, condições satisfatórias de existência, tanto em termos econômicos, quanto em termos relacionais, existenciais e de saúde, más condições relacionadas portando à população de baixa renda.
Para a grande maioria, a velhice é uma etapa da vida cercada por impedimentos e constrangimentos, das mais diversas ordens. Estar envelhecendo implica enfrentar transformações no corpo e na vida social. As mudanças na vida social, como a chegada da aposentadoria, são bem mais difíceis de serem compreendidas do que os limites que o corpo começa a impor à medida que a idade avança. Em muitos casos, junto ao tempo livre que decorre de situações como a aposentadoria, aparecem também sentimentos negativos que podem se transformar em problemas de saúde, como depressão e solidão. Quando isso acontece, a arte possibilita tal quadro, por meio de trabalhos artísticos,variadas atividades que podem ser realizadas com os idosos, pois a arte, além de socializar, permite ao homem liberar sentimentos e emoções. Ela mantém as experimentações criativas e expressivas e funciona como fator ativador de núcleos de vitalidade e de comunicação.
e demais pessoas, pelo fortalecimento da auto-imagem, e, pela redescoberta de potenciais criativos.
Segundo Fortuna (2000, p. 15),
...a arte sempre expressou situações vividas pelo ser humano, desde a pré-história até os dias atuais, independentemente do grau de desenvolvimento cultural das sociedades. Um referencial de vida, um caminho para o homem adaptar-se às novas situações. Possui vários significados, e, ao assumir a forma de conhecimento, promove meios de compreensão do pensamento e das expressões de uma cultura.
O desafio desta pesquisa consiste em investigar como e o quanto a atividade artística influencia a auto-imagem dos idosos e, ainda, se pode estimular o potencial criativo para que cada um possa descobrir seus próprios recursos, seus talentos e lidar melhor com as limitações do outro e com a sua, favorecendo uma relação saudável. Confirmando essa possibilidade, pode-se citar Ostrower (1987, p. 166), ao assegurar que “ao exercer o seu potencial criador, trabalhando, criando em todos os âmbitos do seu fazer, o homem configura a sua vida e lhe dá um sentido. Criar é tão difícil ou tão fácil como viver. É do mesmo modo necessário”.
Andrade (1993, p.03) advoga que a arte “permite ao homem expressar e, ao mesmo tempo, perceber os significados atribuídos à sua vida, na sua eterna busca de tênue equilíbrio com o meio circundante”. Neste sentido, pretende-se pesquisar como os trabalhos artísticos podem ser explorados em atividades com idosos, pois a arte, além de socializar, permite ao homem, liberar sentimentos e emoções (SILVEIRA, 1992). Na busca pela confirmação desses benefícios promovidos pela arte, a proposta deste estudo se estabelece como uma grande contribuição ao relacionar arte e qualidade de vida do idoso.
delineamento metodológico, os sujeitos da pesquisa, as estratégias metodológicas, a coleta e análise dos dados. No quinto capítulo, apresentam-se a análise dos dados e a discussão das categorias de análise da pesquisa. Por fim, o sexto capítulo apresenta as considerações finais.
1.1 Objetivos
1.1.1 Objetivo geral
Relacionar a atividade artística com a auto-imagem dos idosos que participam de atividades manuais, enfatizando a arte como terapia na promoção da qualidade de vida dos idosos.
1.1.2 Objetivos específicos
• Caracterizar o processo de envelhecimento nas perspectivas biológica, psicológica e social.
• Descrever atributos externos à estrutura operacional da arte, destacando os elementos: a arte como recurso terapêutico/ a arte como atividade terapêutica/ criatividade/ processo criativo.
• Analisar as contribuições decorrentes da atividade artística de idosas na melhoria da auto-imagem no processo do envelhecimento.
1.2 Justificativa
Com o envelhecimento da população mundial, motivado pelo aumento da expectativa de vida, fica comprovada, por um lado, uma grande conquista da humanidade em toda sua história, e, por outro, representa um de seus grandes desafios, uma vez que há necessidade de se evidenciar em esforços sociais e econômicos para possibilitar a essa população, uma vida saudável do ponto de vista biológico, psicológico e social, assim como seu constante processo de perdas. Neste sentido, observa-se que muitos esforços vêm sendo despendidos, principalmente na área da saúde pública e social, assim como o envolvimento de novas áreas de estudo como é o caso da Gerontologia.
O esforço para se manter a população idosa em um patamar mínimo de condições de uma longevidade saudável exige seu olhar envolvido em todos os sentidos (biológico, psicológico e social) e com todos os seus recursos, sendo a arte um deles. A utilização da arte neste processo poderá contribuir para a expressão dos sentimentos, pensamentos e emoções e neste encontro, o ser humano tem a oportunidade de se auto-conhecer, de desenvolver potenciais criativos e viver de uma maneira mais equilibrada e harmônica consigo mesmo.
Obtém-se, também, a oportunidade de conhecer, aprender e a se dedicar a técnicas e a estilos diversificados de arte. Registra-se a trajetória da pesquisadora como professora de História da Arte e Educação Artística durante 10 anos e, nesse período, observou que muito mais que ensinar técnicas para se ter um resultado final, acabado, emoldurado, também se fazia necessário estimular o aluno a expressar suas idéias, seus sentimentos, emoções e suas sensações, garantindo, àquele momento, um encontro com a arte e consigo mesmo.
Pretende-se, dessa forma, apresentar a arte como uma alternativa que possa garantir, no momento do fazer artístico, um encontro consigo mesmo e com o outro, aumentando a qualidade afetiva das suas relações pela melhora da comunicação, fortalecimento da auto-imagem e pela redescoberta de potenciais criativos. Nesse sentido, a arte como terapia poderá permitir ao homem expressar seus sentimentos e emoções, e, ao mesmo tempo, perceber os significados atribuídos à sua vida, na eterna busca do equilíbrio.
2 ENVELHECIMENTO POPULACIONAL
Neste capítulo procura-se apresentar o fenômeno do envelhecimento populacional e suas proporções mundial e nacional (Brasil). Nesta esteira são relatados alguns marcos teóricos que fundamentam os processos biológico, fisiológico e social próprios do processo do envelhecimento.
De acordo com Guimarães (1998), o envelhecimento da população mundial é um fenômeno que atinge grande parte do mundo. Para os próximos vinte anos, estima-se um incremento cada vez maior do número de pessoas da terceira idade. Moragas (1997, p.43) escreve que “envelhecer é um processo inerente a todo ser humano, não se manifesta biologicamente homogêneo devido à variação genética original e à diferença das experiências vitais”. Berzins (2003) escreve que o envelhecimento populacional é um fenômeno recente na história da humanidade. Está se processando de forma gradual, contínua e irreversível e afeta todos os setores da vida humana.
Nesse pensamento, Ângulo e Jiménez (2000) dizem que, apesar de toda estigmatização da velhice, é impossível deixar de constatar que o mundo está embranquecendo os seus cabelos numa medida nunca antes registrada, em decorrência do fenômeno denominado envelhecimento sócio-demográfico da população, ou seja, o aumento da proporção de indivíduos considerados velhos em relação à população geral. Para Camarano (2002), além dessa proporção, o processo se refere ao aumento da expectativa de vida do idoso, motivado, principalmente, pelo controle de natalidade e diminuição dos índices de mortalidade infantil, como resultado de políticas e incentivos promovidos pelo Estado, pela sociedade e pelo progresso da ciência.
No Brasil, dados do Censo de 2000 demonstraram que a população idosa chega a quase 15 milhões de pessoas, com 60 anos ou mais, representando 8,6% da população brasileira. Do total, 55% são mulheres e 45%, homens (IBGE, 2000). A expectativa é de que até 2025 o Brasil seja o sexto país do mundo com o maior número de pessoas idosas, conforme dados da OMS (BRASIL, 2000). Em 2050, projeção da OMS, 23% da população do Brasil será constituída por idosos, sendo que o envelhecimento é uma experiência que se processa de forma diferente para homens e para mulheres (BERZINS, 2003). Para Papaleo Neto (2002, p.02), “o envelhecimento não possui um marcador biofisiológico de seu início, sendo a demarcação entre maturidade e o envelhecimento fixada arbitrariamente por fatores socioeconômicos e legais”.
Segundo Loureiro (2004, p.34), a evolução das ciências bem como a evolução das práticas médicas; a realidade da infra-estrutura de saneamento básico e a qualidade da ação de agentes sanitaristas; a educação; a indústria farmacêutica; o aparelhamento dos hospitais; a adoção de novos hábitos alimentares e de vida; tudo isso, somado ao amor pela vida, traz a expectativa ampliada da existência: viver mais tempo. “Daí decorre o aumento do contingente de pessoas incluídas na faixa etária mais elevada, mais alta: os idosos”.
O envelhecimento atual tem suas próprias características e é diferente qualitativamente de outras épocas. Essa diferença baseia-se, fundamentalmente, em relação à grande maioria dos idosos, na competência funcional diagnosticada. O fato é que, uma parte crescente dos velhos que superam os 57 anos possuem diferentes limitações funcionais (MORAGAS, 1997). Tavares (2001) chama a atenção para o envelhecimento populacional brasileiro e a necessidade de reorientação das práticas de saúde, em decorrência da crescente demanda de atendimento ao idoso. A mesma autora também salienta a importância do redirecionamento do ensino nas universidades, para que possam qualificar os profissionais de saúde no atendimento desse grupo populacional.
2.1 Processos biológicos
necessidades e seus valores. Beauvoir (1990) nos diz que, no decorrer dos séculos, a velhice foi tratada e descrita, na maioria das vezes, de forma estereotipada e preconceituosa. Eram enfatizados os aspectos biológicos, isto é, a decadência do corpo, a doença, o mau cheiro que o velho exalava. Relata ainda ter havido uma forte presença do idoso em obras literárias e em peças teatrais sendo, geralmente, representado/retratado como uma caricatura. A recusa à velhice data de longo tempo.
O envelhecimento, sendo analisado biologicamente, relata Santos (2001, p.18), é um processo natural, dinâmico, progressivo e irreversível, que se instala em cada indivíduo desde o nascimento e o acompanha por todo o tempo de vida possível, finalizando com sua morte. Provoca no organismo modificações morfológicas, alterando as formas do corpo “(aparecimento de rugas, cabelos brancos e outras); modificações fisiológicas, relacionadas com as funções orgânicas (o fígado, entre outros órgãos, diminui suas funções); modificações bioquímicas, diretamente ligadas às transformações das reações químicas presentes no organismo (a atividade glandular alterada, por exemplo)”.
Para saber a causa do envelhecimento humano, Santos (2001) destaca algumas teorias: princípio da deterioração dos mecanismos de síntese protéica realizada pelas células do corpo, cujo processo é fundamental para a vitalidade orgânica; a hipótese do relógio biológico, considerando que as células humanas reproduzem-se até um determinado número conforme o seu tipo, e depois morrem; e a homeostase, que compreende um conjunto de mecanismos fisiológicos essenciais ao corpo humano, pois regulam e estabilizam nosso meio interno.
O envelhecimento é acompanhado de uma perda de massa óssea que predispõe o idoso à osteoporose e fraturas e também ao aumento de pressão arterial, que pode desenvolver no idoso cardiopatias isquêmicas e acidentes vasculares cerebrais, ao mesmo tempo que surge uma resistência periférica à insulina, favorecendo o desenvolvimento do diabetes. Além disso, observam-se alterações no sistema imunológico, predispondo o idoso a infecções e enfermidades e alguns tipos de tumores (MAÑAS, 2000).
As perdas fisiológicas se refletem diretamente na capacidade funcional do idoso; incluem a habilidade para executar tarefas físicas, a preservação de atividades mentais e uma situação adequada de integração social (BRITO; LITVOC, 2004). De acordo com Vitta (2000), além das mudanças biológicas esperadas e consideradas como normais no envelhecimento, um outro tipo de alteração típica da velhice é de natureza morfológica, sendo evidenciado pelas modificações na postura que reconhecemos nos idosos: essas mudanças provocam dificuldade em realizar várias tarefas diárias.
a cabeça, os ombros e o pescoço inclinados ou dobrados para frente; na altura do tórax, a coluna torna-se cifótica, apresentando muitas vezes, acentuada curvatura externa; os punhos, os joelhos e os quadris tendem à flexão. O processo do envelhecimento é caracterizado, ainda, pela redução da coordenação motora e dos reflexos proprioceptivos; pela diminuição e pela lentidão dos movimentos; pela insegurança na marcha; pela perda de flexibilidade, força, potência, velocidade, destreza e resistência muscular (VITTA, 2000, p.82).
Gomes e Diogo (2004) esclarecem que a habilidade motora sofre a influência de atrofias cerebrais causadas pela perda de células neuronais e das alterações bioquímicas do tecido cerebral. Com isso, há uma diminuição da produção dos neurotransmissores cerebrais, que constitui uma das alterações mais importantes do processo de envelhecimento que comprometem as funções motoras. Essa alteração da capacidade funcional, também definida como "a incapacidade de funcionar satisfatoriamente sem ajuda, por motivos de limitações físicas ou cognitivas" (GOMES; DIOGO, 2004, p. 117), constitui um dos fatores mais significativos da dependência funcional do idoso. Esta dependência, por sua vez, tende a levar a uma deteriorização geral, porque geralmente é acompanhada do estado de desamparo e da falta de motivação.
2.2 Processos psicológicos
Segundo Santos (2001), foi a partir do século XX que o envelhecimento passou a ser estudado mais amplamente, não sendo possível contextualizar o processo somente por fatores orgânicos e fisiológicos, porque, junto às transformações corporais, e interagindo com elas, as pessoas apresentavam mudanças de comportamento, de papéis, de valores, de status, de crenças, de acordo com as diferentes fases e grupos etários a que pertenciam e em função de suas adaptações e funções individuais, ao longo da vida. Segundo esta autora, foi nos Estados Unidos que o estudo dos aspectos psicológicos teve seu início. Atualmente, psicólogos trabalham a questão do envelhecimento e da velhice, enfatizando as dimensões individuais, e, mais tarde, situando os sujeitos dentro do contexto social onde estão inseridos.
Do ponto de vista da psicologia, o envelhecimento na perspectiva que parte da subjetividade do individuo reflete-se na capacidade da pessoa idosa em adaptar-se às perdas físicas, sociais e emocionais e de conseguir contentamento, serenidade e satisfação na vida. “Como as mudanças nos padrões de vida são inevitáveis ao longo da existência, a pessoa idosa necessita das habilidades de flexibilidade e enfrentamento quando se confronta com estresses e mudanças. Uma auto-imagem positiva estimula a aceitação do risco e a participação em novas e desconhecidas funções” (SMELTZE; BARE, 2002, p.142).
Gomes e Diogo (2004), na perspectiva que leva em conta a “objetividade” ou as condições objetivas que envolvem o indivíduo por sua vez, se reportam à autonomia do idoso, ou seja, à sua capacidade de decisão e comando das próprias ações, de estabelecer e seguir as próprias regras. A autonomia é mais que a independência, pois o idoso pode ser independente (com renda de aposentadoria, por exemplo) sem ser autônomo (não pode decidir sobre suas necessidades, por apresentar demências); pode ser autônomo (decidir sobre si mesmo) sem ser independente (porque precisa de auxílio, por exemplo, para locomoção).
Freire (2003, p. 26) cita um modelo teórico para um bem-estar psicológico na velhice, cujos efeitos são reproduzidos no bem-estar:
1) Auto-aceitação: implica uma atitude positiva do indivíduo em relação a si próprio e a seu passado; implica reconhecer e aceitar diversos aspectos de si mesmo, incluindo características boas ou más.
2) Relações positivas com os outros: envolve ter uma relação de qualidade com os outros, ou seja, uma relação calorosa, satisfatória e verdadeira; preocupar-se com o bem-estar alheio; ser capaz de relações empáticas, afetuosas.
3) Autonomia: significa ser autodeterminado e independente; ter habilidade para resistir às pressões sociais para pensar e agir de determinada maneira; avaliar-se com baavaliar-se em avaliar-seus próprios padrões.
4) Domínio sobre o ambiente: ter senso de domínio e competência para manejar o ambiente; aproveitar as oportunidades que surgem à sua volta: ser hábil para escolher ou criar contextos apropriados às suas necessidades e valores.
5) Propósito de vida: implica ter metas na vida e um sentido de direção; o indivíduo percebe que há sentido em sua vida presente e passada; possui crenças que dão propósito à vida; acredita que a vida tem um propósito e é significativa.
6) Crescimento pessoal: o indivíduo tem um senso de crescimento contínuo e de desenvolvimento como pessoa; está aberto a novas experiências; tem um senso de realização de seu potencial, e suas mudanças refletem autoconhecimento e eficácia.
si mesmos, como características boas e más. E o mais importante, com metas e objetivos, fazendo com que, em suas vidas, o passado e o presente tenham sentido e um propósito significativo.
Néri (1995) comenta que existe uma etapa posterior ou mais acentuada do envelhecimento, fase que se refere ao aumento da probabilidade da morte com o avanço da idade. Essa etapa da vida se caracteriza por mudanças incapacitantes e comprometedoras, capazes de afetar decisivamente a estabilidade e a própria vida, mas que essa etapa sofre várias influências. Santos Filho (1999) cita que os principais fatores que influenciam o envelhecimento do nosso corpo são o tempo, a hereditariedade e o meio ambiente, sobre os quais nós temos muito pouco controle; existem, contudo, outros aspectos de nossa vida, tais como a dieta, o estilo de vida e o nível de exercício que podem afetar beneficamente o processo de envelhecimento e aumentar nossa qualidade de vida e bem estar.
Rauchbach (1990) e Meirelles (1997), citado por Santos Filho (1999, p.31), evidenciam que “o processo do envelhecimento é dinâmico e extraordinariamente complexo, sendo muito influenciado por fatores individuais, afetando o equilíbrio psicológico.” Destacam-se algumas dimensões características desta situação como: a aceitação ou recusa da situação de velho; aceitação ou rejeição pelo meio; atitude hostil ante o novo; diminuição da vontade, das aspirações e da atenção; enfraquecimento da consciência; apego ao conservadorismo; deterioração da memória; além das anomalias do caráter, como a desconfiança, irritabilidade e indocilidade, estreitamento da afetividade, perda do diálogo harmonioso com seu corpo, aumentando, dessa forma, as tensões psíquicas.
Outro aspecto do declínio físico que se associa à mudança intelectual é a piora do sistema sensorial; podemos supor que conforme declinam a visão, a audição, também declinam as informações que o cérebro recebe sobre o mundo, tendo assim efeitos sobre os processos mentais. Além disso, um declínio nos sentidos pode ser um indicador geral da aptidão física do corpo e, portanto, do cérebro. Muitos habitantes intelectuais, particularmente as que dependem da inteligência fluida, declinam com a velhice, tornando-se mais lentas e menos exatas. Com a idade, algumas habilidades declinam, como memorizar.
que alguns fatores sejam mais importantes do que outros na predição da perda da memória relacionada à idade. Como o estado emocional, o nível de instrução, o fator socioeconômico foram sugeridos como determinantes plausíveis da habilidade intelectual. O declínio da memória pode dever-se, particularmente, às mudanças fisiológicas no cérebro da pessoa que está envelhecendo, e que o declínio no funcionamento neural se reflete em um declínio concomitante na inteligência fluida e na memória. Em princípio, é uma suposição razoável. O declínio no número e na deficiência dos neurônios significa que o sistema físico de armazenamento da memória está inevitavelmente comprometido, o que possibilita conseqüências psicológicas.
Acredita-se que, quando o idoso tem uma atividade intelectual intensa, sua memória é melhor do que aqueles que se encontram inativos; uma forma de recuperar a memória é utilizá-la e treiná-la, tanto através de atividades culturais quanto de expressões artísticas que facilitem o desenvolvimento e ativação da memória. Néri (1999) relata que a memória é um assunto que chama a atenção dos pesquisadores, cuja colaboração interdisciplinar com a neurologia, psicometria e psiquiatria têm dado bons resultados. O interesse por temas como suporte social, relações sociais e o bem-estar subjetivo é compartilhado pela psicologia do envelhecimento e pela gerontologia social.
2.3 Processos sociais
A velhice é uma categoria social. Ninguém envelhece da mesma forma. Há diferenças na forma de envelhecer entre homens e mulheres e em contexto sócio-cultural específicos. Ambos sofrem perdas com a idade, enfrentam preconceitos, discriminações e estereótipos, mas o tipo de enfrentamento que cada um utiliza é bastante diferenciado. A femininização da velhice, entendida como o aumento do número de mulheres na população idosa, é um fenômeno mundial que ocorre tanto em países de primeiro mundo como em países pobres.
da população idosa feminina (3,9% entre 1980 e 1991) têm sido superiores às da masculina da mesma idade (3,4% no período). Entretanto, a maior expectativa de vida das mulheres não indica uma maior qualidade de vida.
Acredita-se que as diferenças sociais e estilos de vida, juntamente aos fatores de risco como o fumo, o álcool, o uso de gorduras saturadas e uma maior competição profissional, fazem com que os homens morram mais cedo, enquanto as mulheres parecem estar protegidas pelos hormônios e fatores genéticos, relativos ao DNA. "Em 1996, dos 12,4 milhões de idosos, 54,4% eram do sexo feminino" (CAMARANO, 1999, p. 23).
Alguns autores como Sayeg e Mesquita(2002) asseguram que as mulheres assumem a função de cuidadora dos filhos, netos, pais, cônjuges e parentes, como papeis sociais atribuídos na maioria das vezes, pelo gênero feminino com trabalho desgastante, não registrado e nem remunerado. As mulheres, na grande maioria, não têm profissão definida e não trabalham fora de casa. Relatam também que a tarefa de cuidadores, normalmente, recai sobres as mulheres; a filha que mora na mesma cidade que os pais, com freqüência, é solteira ou tem emprego mal remunerado; os filhos homens, raríssimas vezes, ocupam essa tarefa. É consenso entre os especialistas que quem cuida de idosos e/ou doentes precisa ter um sólido suporte emocional, sendo recomendáveis os grupos de ajuda terapêutica, porque assim os familiares podem expressar dúvidas, medos e frustrações, evitando o isolamento, não abandonando os amigos, tentando se divertir, dormir e, na medida do possível, não abdicando de parte de sua vida, de seus sonhos e projetos.
Para Debert (1988), a velhice é uma construção social. A idade não é um dado da natureza, nem o único fator explicativo dos comportamentos humanos. Resulta da elaboração simbólica, definindo fronteiras entre as idades pelas quais os indivíduos passam e não são necessariamente as mesmas em todas as sociedades, afirma a autora. Assim, o ciclo vital e o envelhecer, em particular, implicam, necessariamente, muitas perdas, podendo-se citar, entre as mais comuns do envelhecimento, a deterioração da saúde, ausência de papéis sociais valorizados, o isolamento crescente e dificuldades, inclusive financeiras, que afetam a auto-estima do idoso (GATTO, 2002).
sociedade de consumo, no qual só tem valor quem produz, envelhecer tende a ser bastante penoso e à medida que envelhece, o indivíduo, ao passar simultaneamente por uma série de transformações biológicas, sociais, psicológicas, perde também sua capacidade de produzir, seu corpo físico entra em declínio e já não possui os meios de que dispunha como, por exemplo, o vigor físico e a velocidade de raciocínio. Na medida em que recebe influência da sociedade na qual está inserido e sendo um participante ativo no processo de compartilhar da ideologia, das representações e dos valores de seu grupo e reproduz assim, um sistema de crenças e atitudes, em relação a si mesmo e ao ambiente que o rodeia. Se a sociedade diz que ele é improdutivo, imcapaz, impotente, feio etc... ele internalizará tais representações e as reproduzirá na forma de atitudes, comportamento e mensagens.
No processo de socialização, o indivíduo adquire papéis sociais, os quais expressam suas necessidades e motivações. À medida que estes são desempenhados, começam a fazer parte de sua personalidade e de sua identidade. E, se, por motivos de ordem financeira, de saúde, ou outro qualquer, o idoso necessitar morar com um dos filhos, podem surgir questões mais complexas. Com fluência, implicará uma inversão de papéis entre pai e filhos. O patriarca perde o poder de decisão e sente-se subjugado, incapacitado, desenraizado, pois não tem mais seu lugar, sua casa. A partir daí, sérios problemas intergeracionais podem se instalar, pois, muitas vezes, os filhos não estão preparados para assumirem o papel de cuidadores.
Os geriatras Sayeg e Mesquita (2002) asseguram que a falta de orientação é um dos maiores problemas para quem cuida de idosos doentes. Lidar com os ataques de agressividade, mudanças de personalidade e o apagar total da memória é uma situação assustadora sobre a qual se fala muito pouco. O familiar cuidador não tem idéia do que fazer. Não sabe como agir diante das dificuldades impostas à família pela situação do idoso. Somando-se a isto o fato de ter de enfrentar críticas dos parentes e o peso de executar sozinho tarefas complicadas como dar banho, vestir, alimentar e lidar com a incapacidade do outro de controlar, até mesmo, as necessidade fisiológicas mais básicas, lembrando a dolorosa experiência de acompanhar de perto a decadência física do ente querido.
as mulheres. Muitos se entregam ao não fazer nada, ao alcoolismo, tornam-se rabugentos, ranzinzas, implicantes.
Segundo Santos (2001), no século passado, a sociedade tinha o sistema de produção centrado na agricultura e nas atividades artesanais, o qual era mantido pelo trabalho familiar; as poucas pessoas que envelheciam eram absorvidas pela família, ou seja, continuavam tendo o apoio familiar e o reconhecimento social. A velhice era apenas uma condição humana de improdutividade, de decadência, de superação, não sendo considerada um temor individual, pelas incertezas e preocupações que poderia despertar. O envelhecimento não era temido pelos idosos, em função dos cuidados e da proteção que deveriam receber, já que tal responsabilidade era esperada e aceita dentro da família; inclusive, em função do tempo de trabalho, da experiência vivida e do saber acumulado, os idosos serviam de exemplo para os mais jovens, que neles buscavam orientações e conselhos.
Com a revolução industrial, quando os agentes produtivos que se encontravam dentro das famílias se transferiram para as fábricas, surgiu o interesse e disposição de vender ou alugar sua força de trabalho. Ganhou fomento, nesse novo sistema, a população economicamente ativa e quando não podia mais fazê-lo, em função da idade, deixando de ser útil, era considerado obsoleta, ultrapassada, imprestável, velha. Desde então as transformações nas relações sociais, advindas da evolução tecnológica e da integração mundial de mercados, atingiram todas as áreas da vida, contribuindo para acentuar, de forma mais significativa, aspectos sociais negativos da velhice. Hoje, “a negação do ser idoso, a rejeição da sociedade por uma camada da população que não consegue mais produzir, torna-se descartável” (FALEIROS, 2004, p. 06).
A viuvez não é a única razão da solidão das mulheres idosas. O aumento de divórcios, separações ou mesmo o celibato tendem a gerar solidão, isolamento e ansiedade. No entanto, encontra-se grande número de idosas sozinhas que assim ficaram por opção. Inúmeros casos relatados demonstram mulheres que, nesta fase de suas vidas, experimentam uma liberdade até então desconhecida, uma vez que passaram boa parte de suas vidas sob o jugo do homem, quer como filhas, quer como esposas. A viuvez ou a separação podem trazer a possibilidade de liberdade e alegria, isto quando houve uma relação de autoritarismo e posse (MONTEIRO, 2002).
As relações familiares são as que o idoso vive com mais intensidade e assiduidade, já que, ao longo da história, a estrutura familiar foi fundamental para ele, em vários aspectos: do mando e da influência, do cuidado e da proteção, da aceitação e valorização social de sua experiência acumulada. Em muitas sociedades, porém, a consideração do idoso pela família é determinada por relações econômicas que governam as trocas sociais (RODRIGUES; RAUTH, 2002).
Walsh (1995) explica que a resposta de cada família para o tratamento do idoso, geralmente, decorre dos padrões familiares anteriores que determinavam a estabilidade e integração familiar. Depende também da capacidade de se ajustar às perdas e às novas exigências, quando Moragas (1997) se reporta aos aspectos sociais da velhice, questionando, entre outros, o papel do idoso na sociedade contemporânea. O papel do idoso nas sociedades agrárias era valorizado pela experiência; na sociedade industrial, esse papel representa uma situação ambígua, na qual, de um lado, o idoso é liberado de obrigações, como por exemplo, a trabalhista, e, por outro, essa mesma liberação priva-o de um status econômico e social positivo, tornando seu papel "carente de sentido para os valores atuais".
velhice também como um fator social”. É recomendável o convívio familiar, pois o carinho e o afeto são imprescindíveis contra o envelhecimento social, e o idoso é um ser integrante da família e da sociedade.
Deeps (2003) se reporta às oportunidades oferecidas ao idoso, geralmente permeadas por uma percepção negativa. Em geral, o investimento para com ele é subestimado, porque não se acredita na possibilidade de retorno. Com isso, as oportunidades de trabalho no mercado são reduzidas, e os investimentos para sua reciclagem ou atualização ou são escassos ou não existem. Diante disso, o idoso tende a achar que não tem mais nada para fazer e renuncia a projetos, pensando não ter mais tempo para executar nada.
2.4 Auto-estima
Sabe-se que alguns autores e estudiosos das mais variadas áreas do conhecimento como Filosofia, Psicologia, Educação, Saúde, Sociologia, além de outras ciências, têm formulado algumas definições sobre a auto-estima. A seqüência procura apresentar algumas definições das diversas áreas citadas acima. Na área da educação, Freire (2002) assegura que a auto-estima é a avaliação da pessoa sobre seu próprio valor, dependendo da percepção de si mesma.
No campo da psicologia, Novaes (1985) esclarece que o termo estima, tanto quanto auto-imagem, aparece sempre interligado ao termo autoconceito, por conta de suas implicações na formação do ego, do self e da identidade social e pessoal. Essa interligação terminológica que pode levar a confusões, poderia ser minimizada se utilizassem, de modo correto, as expressões: consciência do eu (autoconceito), representação do eu (auto-imagem) e percepção afetiva de si (auto-estima).
Quanto à auto-estima, Branden (1996) elucida que ela abrange dois componentes: o sentimento de competência pessoal e o sentimento de valor pessoal; é a soma da autoconfiança com o auto-respeito e reflete a capacidade pessoal de se lidar com as dificuldades da vida e com o direito de ser feliz.
constituintes do autoconceito mais importantes, com grande impacto na prática clínica. E acrescenta: tal conceito é entendido como o processo avaliativo que o indivíduo faz das suas qualidades ou dos seus desempenhos. É, portanto, o constituinte efetivo do autoconceito, em que o indivíduo faz julgamentos de si próprio, associando à sua identidade sentimentos valorativos do "bom" e do "mau".
Para Erbolato (2000), a auto-estima implica termos uma visão geral de como somos e de como achamos que os outros vêem. Entrando neste processo, aspectos emocionais e intelectuais, a auto-estima, por si só, já supõe uma avaliação positiva. Mas, às vezes, a circunstância da vida resulta num alto julgamento ruim. Assim, dizemos que auto-estima pode ser positiva ou elevada (avaliação é boa) ou negativa ou baixa (nosso autojulgamento é ruim). É de acordo com essa avaliação que conduzimos grande parte de nosso comportamento e programamos nossas vidas.
Well e Marwell (1976) consideram na estima duas subdivisões. Na primeira, a auto-estima assenta num sentido de competência, ligada à eficácia e aos processos de atribuições e comparações sociais. Na segunda, a auto-estima está mais voltada para a virtude, representadora do valor pessoal, com normas e valores do comportamento pessoal e interpessoal.
Podemos, de forma mais abrangente, apontar situações que, quando presentes na vida de uma pessoa, são precipitadoras e/ou mantenedoras de uma baixa auto-estima, tais como: críticas, rejeições, humilhações, abandono, desvalorizações e perdas. Importante frisar que a construção dessa percepção negativa de si mesmo é resultado de interações sociais (familiares, escolares, profissionais, entre outras). Nelas, a pessoa vivencia situações em que é colocada numa posição de sentir-se inferiorizada e de menor valia.
auto-estima rebaixada. Sob tal condição, as crianças experimentam menos o amor e sucesso, e tendem a ficar, geralmente, submissas e passivas (embora mudando de comportamento, ocasionalmente, para o oposto extremo de agressão e dominação). Crianças criadas sob tais circunstâncias, segundo este autor, têm menor probabilidade de serem realistas e efetivas no seu dia-a-dia, e têm mais probabilidade de manifestar padrões de comportamento anticonvencionais.
O fato de que pessoas que procuram ajuda psicológica freqüentemente, "se vêem como impotentes e inferiores ou ainda incapazes de melhorar a situação, além de lhes faltarem os recursos internos para tolerar ou reduzir a ansiedade prontamente despertada por eventos cotidianos e tensão". Os estudos clínicos demonstram, repetidamente, que fracassos e outras condições que ameaçam expor insuficiências pessoais são, provavelmente, a causa principal de ansiedade, conforme teoriza Coopersmith (1967). Ainda segundo ele, ansiedade e auto--estima estão proximamente relacionadas: se for a ameaça que libera ansiedade, como aparece teoricamente, é a estima da pessoa que está sendo ameaçada. Faz referência, também, a estudos que indicam que quando uma pessoa tem auto-estima alta, ela mantém uma imagem bastante constante das suas capacidades e da sua distinção como pessoa, e que pessoas criativas têm alto grau de auto-estima. Estas pessoas com auto-estima alta também têm maior probabilidade para assumir papéis ativos em grupos sociais e efetivamente expressa as suas visões. Menos preocupados por medos e ambivalências, aparentemente se orientam mais diretivamente e realisticamente às suas metas pessoais.
Relacionadas com os problemas de avaliação da auto-estima, estão as observações de Mruk (1998), que agrupou estas dificuldades em dois tipos básicos. O primeiro consiste em problemas decorrentes das singularidades da auto-estima como fenômeno; "estes aspectos incluem o problema da definição, o vínculo entre auto-estima e muitos outros aspectos relacionados com o self e certas características intrínsecas da auto-estima. As outras dificuldades procedem tanto das expectativas psicológicas como sociológicas, a presença de uma grande diversidade de métodos de investigação usados para o estudo do fenômeno e algumas dificuldades em relação à validade”.
2.5 Auto-conceito
pensamos que somos, o que pensamos que conseguimos realizar e o que pensamos que os outros pensam de nós, e também, de como gostaríamos de ser. Para este autor, o autoconceito consiste em todas as maneiras de como uma pessoa pensa que é nos seus julgamentos, nas avaliações e tendências de comportamento. Isto leva a que o autoconceito seja analisado como um conjunto de várias atitudes do eu e únicas de cada pessoa.
O auto-conceito tem um papel extremamente importante na medida em que tenta explicar o comportamento, ou seja, porque consegue manter uma certa consistência nesse mesmo comportamento, explicita a interpretação da experiência e fornece um certo grau de previsão (BURNS, 1986). Epstein (1973, p. 404) afirma que "para os fenomenologistas, o auto-conceito é o constructo central da Psicologia, proporcionando a única perspectiva através da qual o comportamento humano pode ser compreendido”.
Ainda na definição do autoconceito geral, Burns (1982) refere-se a uma vasta gama de designações (auto-imagem, autodescrição, auto-estima, etc.) utilizada para referenciar a imagem que o indivíduo tem de si; contudo, na sua opinião, estes termos são designações excessivamente estatísticas para uma estrutura dinâmica e avaliativa como é o autoconceito, o qual, na sua perspectiva, engloba uma descrição individual de si próprio (como auto-imagem) e uma dimensão avaliativa (auto-estima).
O aspecto avaliativo do autoconceito permite que o indivíduo se auto-avalie, o que lhe possibilita a reavaliação de uma retrospectiva dos seus comportamentos em face de uma determinada situação, averiguando quais são os mais adequados e daí retirar informações que lhe sejam úteis em novas situações. Quanto ao aspecto organizativo do autoconceito, e de acordo com Shavelson e Bolus (1982), os indivíduos, ao receberem informações acerca de si próprios, vão estabelecer categorias que se refletem nas diferentes facetas, tornando o autoconceito multifacetado ou multidimensional.
O autoconceito possui, desta forma, uma organização hierárquica das suas diferentes facetas, ou seja, as diferentes percepções que o indivíduo tem de si próprio são orientadas a partir da base da hierarquia, onde se encontram as facetas mais diferenciadas, para o seu topo, onde se encontra o autoconceito geral.
Shavelson e Bolus (1982) apresentam uma definição operacional na qual entendem que o autoconceito só poderá ser definido como um constructo hipotético, cujo conteúdo seria a percepção que um indivíduo tem do seu eu, percepção essa que se formaria por intermédio de interações estabelecidas com os outros significativos, bem como através das atribuições do seu próprio comportamento.
Autoconceito também é definido como auto-imagem; a distinção é muito delicada, conforme explica Blackerby (2006, p, 1) que se refere à auto-estima "como a soma, em nível de identidade/crença, de todas as auto-imagens que o indivíduo tem sobre vários aspectos de si próprio." Para ele, auto-estima e auto-imagem provêm da resposta a duas perguntas, respectivamente: "Que tipo de pessoa eu sou?" e, “Que evidência tenho disso?” A evidência, é o que se sente no mundo ao redor; é o que se vê, ouve, sente, cheira e se degusta sobre si mesmo. O significado da evidência é o conjunto de atributos, qualidades ou características. A soma disso tudo forma a auto-imagem, e o significado atribuído a essa soma é a auto-estima.
Fernández (2002) considera o autoconceito o componente básico do psiquismo que facilita a compreensão do indivíduo sobre si, em sua totalidade. O autoconceito controla e organiza a conduta e constitui uma fonte de saúde física e mental. Ele também concebe o autoconceito como o construto geral referente ao si mesmo, o self. Construtos como estima e auto-imagem também participam do autoconceito, de forma indissociável, como referenciais do self.
O autoconceito se configura como o conjunto organizado das percepções sobre si mesmo, admitido pela consciência, produto da interação social. Freire (2002, p. 930) afirma que, do ponto de vista sociológico e psicológico, o âmago do autoconceito é o self, "a consciência que o indivíduo tem de sua contínua identidade e de sua relação com o ambiente, ou do que vê como essencial sobre si mesmo".
Em resumo, o autoconceito de um indivíduo, mesmo que influenciado pela comunidade na qual o sujeito vive é, essencialmente, uma “decisão” pessoal, o que faz com que não seja previsível (Marsh e Shavelson, 1985). Sendo o autoconceito compreendido como conjunto de percepções que o indivíduo tem de si próprio, as percepções são formadas pelas avaliações e reforços de pessoas significativas, pelas auto-atribuições que o indivíduo realiza no seu comportamento e pela experiência e interpretações do ambiente onde se inserem (SHAVELSON; BOLUS, 1982).
2.6 Auto-imagem
A auto-imagem é o cenário que a pessoa faz de si mesma. O cerne da auto-imagem está no conhecimento individual de si mesmo, na consciência da própria potencialidade, percepção dos sentimentos, atitudes e idéias referentes à dinâmica pessoal (MOSQUERA, 1976).
Verifica-se que a auto-estima e o auto-conceito são construtos teóricos muito semelhantes e embora a sua importância para o estudo da Psicologia, notadamente, da personalidade, seja reconhecida, a literatura revela confusão conceitual e dificuldades na definição de ambos. Igualmente, os instrumentos comumente utilizados para avaliar a auto-estima/auto-conceito estão articulados e, em outros casos, confundem-se com instrumentos que avaliam a auto-imagem.
Vaz Serra (1986) define que as auto-imagens são o resultado das observações, em que o indivíduo é ele mesmo, objeto da sua própria observação. Ao fazer uma auto-observação, não é a percepção de determinada auto-imagem que tem interesse na condução de uma determinada estrutura, mas sim, a organização e distribuição hierárquica em relação às outras auto-imagens. Neste contexto, o indivíduo hierarquiza as várias auto-imagens acerca de si, ou seja, as que têm maior significado são aquelas as quais dá mais importância.
O vocábulo auto-imagem, segundo os autores pesquisados neste estudo, apresenta três sinônimos: esquema corporal, modelo corporal e imagem corporal, sendo este último o termo mais utilizado na literatura apresentada.
A identificação da imagem do corpo é muito antiga e foi preconizada no século XVI pelo médico e cirurgião Ambroise Paré, que se baseou em estudos sobre o fenômeno do membro fantasma, no qual pacientes amputados percebiam os segmentos ausentes como se ainda estivessem presentes. Trezentos anos após, em 1866, o médico Weir Mitchel1 publicou a primeira matéria sobre o tema, sem identificá-lo como imagem corporal (GORMAN, 1965).
Nos primórdios do século passado, em 1911, Henry Head criou o termo esquema corporal e uma teoria que a explicava, acrescentando aos estudos neurológicos, aspectos psicológicos (LE BOULCH, 1987).
O esquema corporal seria um modelo postural padrão que cada pessoa construiria de si mesma e que serviria de referência para que ela pudesse contrapor a este modelo suas diferentes posturas e movimentos. A construção do esquema corporal seria uma necessidade básica para todas as pessoas, para moverem-se e localizarem-se no espaço adequadamente. Head enfatizou o papel do esquema corporal em orientar a postura e o movimento corporal (TURTELLI, 2003, p. 2).
Contudo, foram as pesquisas de Schi1der, neurologista, filósofo e psicanalista que inovaram o conhecimento que havia até os anos 30 do século XX (LE BOULCH, 1992) e que, até hoje, permanecem atuais (TURTELLI, 2003).
principais correntes que distinguem imagem corporal e esquema corporal: a primeira, "atribui à imagem corporal características psicológicas subjetivas" enquanto a segunda concede "ao esquema corporal características biológicas, servindo como uma base para a construção da imagem corporal".
Olivier (1995, p. 15), por exemplo, caracterizou o esquema corporal como "uma organização neurológica das diversas áreas do corpo, de acordo com a importância de inervação somática que elas recebem". O esquema corporal apresenta um caráter biológico prédeterminado e uma estrutura anatômica situada em uma região específica do córtex cerebral, denominada "área do esquema corporal", localizada no encéfalo. Para a autora, a imagem corporal é conceitual e vivencial e "se constrói sobre o esquema corporal e traz consigo o mundo das significações. Na imagem, estão presentes os afetos, os valores, a história pessoal, marcada nos gestos, no olhar, no corpo que se move, que repousa, que simboliza."
Segundo Le Boulch (1987, p. 188), trata-se de integrar duas linguagens, uma fisiológica e outra psicológica, "uma só e mesma realidade fenomenológica que é aquela do 'corpo próprio'. Em outras palavras, identificamos completamente as duas noções, em vez de dois sistemas heterogêneos."
Esquema e imagem corporal "são indissociáveis de um mesmo fenômeno: a representação dinâmica que a pessoa faz, para si mesma, de sua experienciação de si mesma a cada instante", explica Turtelli (2003, p.4).
A auto-imagem é o conjunto de idéias, conceitos, opiniões e imagens que alguém tem de si mesmo, bem como a imagem que supõe projetar para os outros. O estudo da auto-imagem é relevante para a Psicologia e outras linhas de pesquisa do ser humano na medida em que a imagem que um indivíduo tem de si determina importantes aspectos de seu comportamento, notadamente, a forma com que se relaciona com os outros. Por exemplo, pessoas com uma auto-imagem depreciativa tendem a formar mecanismos de defesa para diminuir seu sofrimento psíquico, dentre os quais destacam-se:
1. Buscar insistentemente a aprovação alheia;
negativa reforçada;
4. Assumir posturas artificiais e inautênticas, na intenção de melhorar a imagem que projetam;
5. Esconder, a todo custo, seus erros para não sofrer maiores danos à auto-imagem; 6. Pessoas com uma auto-imagem distorcida para mais tendem a ser presunçosas, míopes
quanto a seus próprios equívocos e predispostas a personalizar excessivamente tudo o que fazem, ou seja, tomam a si mesmas como medida de tudo.
Uma pessoa com auto-imagem realista está mais apta aos desafios da vida e ao bom relacionamento humano, pois seu comportamento é coerente com a idéia que faz de si, o que lhe permite uma auto-consciência mais acurada e assim pode, mais facilmente, corrigir seus erros e ter satisfação em suas conquistas.
Ninguém pode negar a importância da auto-estima e considera-se que ela é um dos principais construtos da personalidade humana. A natureza da auto-imagem, base para auto-estima, reside no conhecimento individual de si mesmo e no desenvolvimento das próprias potencialidades, na percepção dos sentimentos, atitudes e idéias que se referem à dinâmica pessoal.
O desenvolvimento da auto-imagem acontece através de um processo contínuo, que está determinado pela vida pessoal e que se estrutura na ação social. A auto-imagem surge como atualização continuada do processo de interação pessoa - grupo. A identidade humana se consubstancia na auto-imagem e é sempre um processo claramente interativo, que leva a níveis reflexivos e comunicacionais.
2.7 Emoções e sentimentos
Etimologicamente, a palavra emoção provém do Latim emotionem, "movimento, comoção, ato de mover". É derivado tardio, duma forma composta, de duas palavras latinas: ex, "fora, para fora", e motio, "movimento, ação", "comoção" e "gesto". Esta formação latina será tomada como empréstimo por todas as línguas modernas européias. A primeira documentação do francês émotion é de 1538. A do inglês emotion, é de 1579. O italiano emozione, o português emoção datam do começo do século XVII. Nas duas primeiras línguas, a acepção mais antiga é a de "agitação popular, desordem". Posteriormente, é documentada no sentido de "agitação da mente ou do espírito" (WIKIPÉDIA, 2006).
A palavra aparece normalmente denotando a natureza imediata dessa agitação nos humanos e a forma em que é experimentada por eles, ainda que em algumas culturas e em certos modos de pensamento, é atribuída a todos os seres vivos. A comunidade científica aplica-a na linguagem da psicologia, desde o século XIX, a toda criatura que mostra respostas complexas similares às que os humanos se referem, geralmente, como emoção.
Emoção ou sentimento humano, numa definição mais geral, é um impulso neural que move um organismo para a ação. A emoção se diferencia do sentimento, porque, conforme observado, é um estado psico-fisiológico. O sentimento, por outro lado, é a emoção filtrada através dos centros cognitivos do cérebro, especificamente o lobo frontal, produzindo uma mudança fisiológica em acréscimo à mudança psico-fisiológica.
Sentimentos, de forma genérica, são informações que seres biológicos são capazes de sentir nas situações que vivenciam. Por exemplo, medo é uma informação de que há risco, ameaça ou perigo direto para o próprio ser ou para interesses correlatos.
A empatia é informação sobre os sentimentos dos outros. Essa informação não resulta necessariamente na mesma reação entre os receptores, mas varia, dependendo da competência em lidar com a situação, e, como isso se relaciona com experiências passadas e outros fatores.
Atualmente, o termo sentimento é também muito usado para designar uma disposição mental, ou de propósito, de uma pessoa para outra ou para algo. Os sentimentos, assim, seriam ações decorrentes de decisões tomadas por uma pessoa. Por exemplo, o amor não é o conjunto de emoções (sensações corporais) que a pessoa sente por outra ou algo, mas o ato de sempre decidir pelo bem ou a favor de outrem ou algo, independente das circunstâncias. As sensações físicas sentidas surgem como conseqüência da decisão de amar. Este sentimento é chamado por muitos estudiosos como ágape, ou amor ágape. Já as sensações que a atração física que uma pessoa sente por outra produzem em alguém, não podem ser chamadas de amor, ou de algum tipo de sentimento, mas apenas emoções (sensações corporais), conseqüentes do instinto que levou essa pessoa a sentir atração física pela outra (WIKIPÉDIA, 2006).
Sendo assim, um sentimento é uma decisão (disposição mental) que alguém toma em sua mente, ou alma, ou espírito, a respeito de outrem ou algo. Por este conceito, toda e qualquer palavra que denota emoções, quando usada, pode ser classificada como sentimento quando se refere a algo que podemos ou não escolher fazer (se é um ato, pode-se cometê-lo ou não, não é um instinto fora do controle da consciência).
Vygotsky (1996) tematizou as relações entre afeto e cognição, postulando que as emoções se integram ao funcionamento mental geral, tendo uma participação ativa em sua configuração. Ele explicita, claramente, sua abordagem unificadora, afirmando que "A forma de pensar, que junto com o sistema de conceito nos foi imposta pelo meio que nos rodeia, inclui também nossos sentimentos. Não sentimos simplesmente: o sentimento é percebido por nós sob a forma de ciúme, cólera, ultraje, ofensa. Se dizemos que desprezamos alguém, o fato de nomear os sentimentos faz com que estes variem, já que mantêm certa relação com nossos pensamentos.
Segundo Galvão(2001), Henri Wallon (1879-1962), filósofo, médico e psicólogo francês, reconhecendo na vida orgânica as raízes da emoção, nos trouxe, também, contribuições significativas acerca da temática. Em sua perspectiva genética, inteligência e afetividade estão integradas: a evolução da afetividade depende das construções realizadas no plano da inteligência, assim como a evolução da inteligência depende das construções afetivas, ainda que admita que, ao longo do desenvolvimento humano, existam fases em que predominam o afetivo e fases em que predominam a inteligência.
Sem a pretensão de esgotar os teóricos e teorias que defendem a dialética cognição/afetividade, fica a certeza de que não devemos mais admitir as polarizações entre o campo da racionalidade e da afetividade, presentes nas explicações do funcionamento psíquico. O comportamento e os pensamentos humanos se sustentam na indissociação - de forma dialética - de emoções e pensamentos, de aspectos afetivos e cognitivos.
A emoção é vista como um rótulo sob o qual se abrigam diferentes tipos de sensações, mediadas por sistemas neurais distintos e específicos, que tiveram origem na história evolutiva do homem, já que não existe no cérebro uma faculdade chamada emoção. “A emoção provavelmente se estabeleceu na evolução antes do aparecimento da consciência, e emerge em cada um de nós como resultado de indutores que, com freqüência, não reconhecemos conscientemente” (DAMÁSIO, 2000, p.57).
Muito se fala sobre o fato da emoção ser publicamente observável. Ao mesmo tempo em que alguns aspectos das emoções podem se tornar manifestos, não podemos associá-las apenas com estas manifestações. Na verdade, as emoções podem ser definidas como "um conjunto complexo de reações químicas e neurais, formando um padrão" (DAMÁSIO, 2000, p.74). Elas tiveram origem na história evolutiva do homem, trazendo vantagens de sobrevivência, na medida em que, diante de determinada situação, acionavam respostas de rápido processamento, de maneira automática. Dependem dos mecanismos cerebrais que foram sendo construídos ao longo da história do homem, sendo processos determinados biologicamente e de modo inato, podendo a cultura e o aprendizado lhes conferir apenas novos significados. Não conseguimos impedir as emoções de acontecerem. No máximo, o que podemos fazer é adquirir capacidade para disfarçar suas manifestações externas.
Apesar de estarmos evolutivamente programados para agir de um modo pré-organizado, quando detectamos determinadas características dos estímulos no ambiente ou em nossos corpos, nossos processos emocionais não se resumem apenas a estas respostas automáticas. Eles dependem também, de nossa capacidade de avaliação cognitiva, de nossa capacidade de pensamento. De acordo com a história evolutiva, nosso organismo foi ganhando cada vez mais complexidade, com outros neurônios se interpondo entre o estímulo e a resposta, resultando na emaranhada e complexa rede neural atual. O que nos garante, porém, a possibilidade de pensar sobre algo é a capacidade de transformar as representações neurais em imagens que podemos interpretar e manipular, permitindo nos fazer escolhas e previsões das conseqüências das situações e ações.
Damásio (2000, p.64) propõe que o termo sentimento seja reservado para a experiência mental privada de uma emoção, enquanto o termo emoção seria usado para designar o conjunto de reações, muitas delas, publicamente, observáveis. Na prática, isso significa que não se pode observar um sentimento em outra pessoa, embora se possa observar um sentimento em si mesmo quando, como ser consciente, seus próprios estados emocionais são percebidos. “Analogamente, ninguém pode observar os sentimentos que um outro vivencia, mas, alguns aspectos das emoções que originam estes sentimentos serão, patentemente, observáveis por outras pessoas.”
Em relação à neurofisiologia das emoções, é importante frisar que, o fato de não conhecermos o que está acontecendo em nosso organismo, não impede o mesmo de apresentar reações ou tendências à ação. Porém, para sentirmos uma emoção, ou seja, termos um sentimento, precisamos da consciência. A avaliação cognitiva nos permite julgar e discernir o que acontece em nosso corpo, para que possamos rotulá-lo de acordo com nossa experiência e aprendizagem. Os sentimentos ampliam a capacidade do organismo de reagir de maneira adaptativa, visto que a consciência permite que se sintam e se conheçam as emoções.
A consciência permite que os sentimentos sejam conhecidos e, assim, promove internamente o impacto da emoção, permitindo que ela, por intermédio do sentimento, permeie o processo de pensamento. Por fim, a consciência torna possível que qualquer objeto seja conhecido, o objeto emoção e qualquer outro objeto e, com isso, aumenta a capacidade do organismo para reagir de maneira adaptativa, atento às necessidades do organismo em questão. “A emoção está vinculada à sobrevivência de um organismo, e o mesmo se aplica à consciência” (DAMÁSIO, 2000, p.80).
Seguindo a idéia de que diferentes emoções são mediadas por sistemas neurais específicos, LeDoux (2001) afirma que existe uma relação direta entre os sistemas encarregados do controle das reações emocionais e os sistemas responsáveis pelas avaliações emocionais. Quando ocorre a ativação de um mecanismo de resposta, esta resposta é rápida, automática, inconsciente, deflagrando um conjunto de reações do organismo. As manifestações emocionais podem ser acionadas mesmo que não se tenha consciência do indutor da emoção.
emoção seja deflagrada. Nosso organismo está programado para reagir de modo pré-determinado, frente a algumas circunstâncias, nas chamadas emoções primárias, como na emoção do medo, frente a um estímulo ameaçador. O que acontece, porém, no caso das emoções que passam por uma avaliação cognitiva, como no caso do próprio medo decorrente de uma avaliação pessoal de uma situação ou objeto que, para outro indivíduo, não causaria medo nenhum?
3 A ARTE
Este capítulo procura retratar a arte necessária ao ser humano, a arte como atividade terapêutica e as expressões artísticas como forma de comunicação, uma vez que, a arte registra a história do ser humano desde os primeiros tempos de sua existência. O embasamento teórico para desenvolver esta unidade fundamentar-se-á em autores cuja reflexão apontam para a importância da arte como necessária ao homem ao longo dos séculos, revelando sua necessidade de expressão ontológica e comum presente em todas as sociedades.
Segundo Andrade (2000), a arte tem uma função simbólica, pois ao permitir ao indivíduo, simultaneamente, expressar-se e perceber significados, define e confere sentidos a sua relação com o mundo. Em todas as épocas, a arte teve sua função e serviu para diferentes propósitos, mas sempre revelou e destacou o homem no mundo. A arte permite que, simbolicamente, e, de forma eterna, através das atividades expressivas, sejam retratadas as transformações que marcam o desenrolar da existência, relatando seus contínuos movimentos do vir a ser, que configuram e materializam afetos e conflitos.
A arte permite expressar, de diferentes maneiras, como nós sentimos o mundo, o que a linguagem não pode conceituar. A arte é uma forma de conhecimento humano; através dela, homens e mulheres encontram sentido para sua vida. A arte como terapia nos leva a nos conhecer, a expressar os sentimentos, a formar a nossa consciência (OSTROWER 1987). Fischer (1979), citado em Fortuna (2000, p.16), refere-se à arte como necessária ao homem, como uma forma de equilíbrio e de integração a seu ambiente. “A arte é o meio indispensável para a união do indivíduo com o todo, refletindo a infinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e idéias”.