UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
PROGRAMA DE MESTRADO EM PSICOLOGIA
A
LINGUAGEM SILENCIOSA DOS SENTIDOS
Maria Angelina Köche Vargas
Dissertação apresentada à Universidade Católica de Brasília para a obtenção do
título de mestre em Psicologia
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
PROGRAMA DE MESTRADO EM PSICOLOGIA
A
LINGUAGEM SILENCIOSA DOS SENTIDOS
Maria Angelina Köche Vargas
BANCA EXAMINADORA
_______________________________________ Prof. Dra. Maria Aparecida Montenegro
Examinadora externa – Departamento de Filosofia da UFC
________________________________________ Prof. Dra. Marta Helena Freitas
Examinadora – UCB
________________________________________ Prof. Dra. Tânia Mara C. Almeida
Examinadora suplente – UCB
________________________________________ Prof. Dra. Ondina Pena Pereira
Agradecimentos
Agradeço, em primeiro lugar, a minha orientadora por seu amplo conhecimento e clareza conceitual e por ter me dado todo o apoio para que me sentisse livre ao fazer os recortes desse trabalho em pleno acordo com meu coração.
Em segundo lugar, agradeço a meu querido amigo Henirdes e a sua companheira, minha querida Sílvia, que, além de me apoiarem com seu afeto, leram e releram este trabalho muitas vezes.
Em terceiro lugar, agradeço a quem muito amei e por quem desci ao inferno – por contatar tanta sombra e tanta luz – movida pelo amor e pela dor da separação.
Dedico este trabalho aos meus pacientes, que durante vinte e um anos têm me dado sustento em muitos planos, e às minhas filhas, para quem me exibo sempre, mesmo fingindo que não, na esperança
de ser um referencial do qual possam se orgulhar.
Resumo
Abstract
Sumário
Introdução ...8
1. Apresentação ...8
2. Marco Teórico – Objetivos – Justificativa ...14
3. Método ...19
3.1. Sobre a análise de dados ...21
3.2. Procedimentos operacionais ...22
Capítulo I – O corpo como casa dos sentidos ...26
Capítulo II – Um novo estatuto para a sensação – O resgate do sujeito da percepção ...37
Capítulo III – A dor – um convite para o Sim ...50
Capítulo IV – O encontro com o corpo fenomenal ...57
Capítulo V – Acompanhamento do corpo fenomenal e aferição ...66
Sujeito A – Acompanhamento I ...66
Sujeito A – Acompanhamento II ...74
Sujeito A – Aferição I ...80
Sujeito A – Aferição II ...81
Sujeito C – Acompanhamento I ...86
Sujeito C – Acompanhamento II ...93
Sujeito C – Aferição I ...100
Sujeito C – Aferição II ...103
Sujeito D – Acompanhamento I ...106
Sujeito D – Acompanhamento II ...113
Sujeito D – Aferição geral por escrito ...117
Sujeito D – Aferição I ...120
Sujeito D – Aferição II ...123
Capítulo VI – Análise e considerações finais ...127
Referências Bibliográficas ...154
Introdução
1. Apresentação
É importante relatar um pouco da história do que há vinte anos vem sendo meu trabalho, e que a oportunidade do mestrado me incentiva a sistematizar. Em 1984, comecei a trabalhar como terapeuta corporal em reabilitação biomecânica, com o método de Ph. E. Souchard, intitulado Reeducação Postural Global, ou RPG, como é conhecido, que se consagrou por apresentar resultados superiores aos tratamentos da Fisioterapia clássica.
Esse, porém, foi apenas o início. Ao longo do período de l984 a l99l, tive a oportunidade de fazer várias formações com excelentes profissionais europeus. Dentre elas, duas foram de suma importância. Primeiramente, em 1988, a formação em Normalização Articular, com Marcel Bienfait, um expert em Fisiologia Biomecânica, que me ensinou a sutileza de tratar e de ouvir o tecido conjuntivo, requisito imprescindível para a precisão exigida nas manobras osteopáticas. Em l991, a formação em Reabilitação Integrada, com Resseguier, trouxe-me a alegria de encontrar, de certo modo, o caminho já percorrido em minha solitária experiência clínica.
sensação do corpo – que revela, pela linguagem dos sentidos, o coração na relação Ser-no-mundo – é o que gostaria de manter como norte nesse trabalho.
A sensação, segundo Merleau-Ponty (1999), é uma estrutura de consciência. Se escutada, estabelece um modo de ser-no-mundo. A percepção da sensação não se dá, no entanto, se não a buscarmos intencionalmente e se não nos aproximarmos dela com certos modais de presença e atenção.
Para tratar minimamente esses modais e estimular a familiarização com esse tipo de escuta, proponho, na pesquisa, o trabalho pragmático de percepção do corpo sensível, que está fundado em uma experiência espontânea em meu próprio corpo, em 1987. Relatarei a seguir essa experiência e o caminho percorrido na observação desses fenômenos, que me permitiram, ao longo do percurso, fazer alguns questionamentos e encontrar algumas regularidades.
Eu havia registrado, então, um corpo que, na época, não denominava, e que não coincidia em absoluto com a forma do corpo físico, isto é, um corpo que eu não era capaz de ver com os meus olhos físicos. Intrigada e curiosa, fiz do meu próprio corpo um laboratório de observação. Por mais de um ano, acompanhei esses registros voluntariamente, durante um período mínimo de duas horas por dia.
Depois de decodificar algumas regularidades, transferi o trabalho para os pacientes que julgava mais receptivos a essa observação. Com o paciente deitado sobre a mesa de trabalho, pedia-lhe que tentasse observar e constatar esse corpo-sensação. Para tanto, iniciava com uma referência que uso até hoje, pedindo-lhes que me respondessem se, na sua percepção sensorial, sua cabeça estava no mesmo plano que seus pés. Não raro, para surpresa do próprio argüido, ele se dava conta de que a cabeça parecia mais baixa ou mais alta que os pés. O paciente se surpreendia, pois sabia, conceitualmente, que estava deitado em decúbito dorsal, com as pernas esticadas sobre uma superfície dura, de mesmo plano e, obviamente, sem nenhum apoio de cabeça. Constatei, então, que era possível haver um registro de corpo que poderia não se encaixar com o conceito ou imagem do corpo físico, como usualmente percebemos, e que essa não era uma particularidade minha.
Algum tempo depois, passei a perguntar, a todos os pacientes, sobre esse corpo-sensação, que apelidei de corpo matriz,e não apenas aos que considerava mais receptivos. Em geral, encontrávamos – os pacientes e eu – esses registros, que são registros senso-perceptuais de um corpo que não se encaixava no corpo objetivo ou físico.
porém respondiam "sim". Perguntando, então, se percebiam a sua espessura, a resposta regular era "não". Essa constatação me intrigou muito.
Ora, é comum o sujeito admitir, porque se vê, porque vê o outro e porque vê o seu reflexo, que possui a dimensão espessura. Parecia estranho, então, que a maioria dos pacientes não a percebesse. Num mundo tridimensional, com tecnologia tão avançada, não nos apercebíamos de nossa tridimensionalidade sensorial.
Essa falta de coincidência, essa falta de concordância entre o conceito de tridimensionalidade e a percepção bidimensional em uma paisagem tão próxima como nosso próprio corpo, parecia-me, no mínimo, intrigante. Perguntava-me se essa discordância produziria alguma alteração nas relações com nós mesmos e com o mundo.
Perguntava-me, também, o quanto nossos adoecimentos e desequilíbrios, já tão visíveis em nossas relações de produção econômica, política, social, ecológica, poderiam estar afetados por essa percepção distorcida. Por quanto tempo essa distorção não percebida – uma vez que o sentido da visão produzia a intelecção que nos fazia crer na tridimensionalidade sensível –estaria escondida de nós mesmos?
Ao longo do trabalho comigo e com os pacientes, decodifiquei algumas regularidades:
§ todas as lesões no corpo físico, por menores que fossem, compareciam, nesse outro registro de corpo, aumentadas muitas vezes;
§ o fenômeno manifestado – a forma do corpo objetivo, como mostrava a percepção sensível – apresentava-se, em geral, movente ou tendente a um movimento;
§ a forma conhecida de uma peça anatômica no corpo físico poderia apresentar-se muito modificada em sua forma e posição, assim como em sua textura nesse outro corpo;
§ o acompanhamento por tempo suficiente desse outro registro de corpo revelava que, depois de se mover em manifestações de forma, textura e posição variadas, tendia a se apresentar, para a consciência perceptiva, com forma, textura e posição semelhantes às do registro do corpo físico, chegando, por vezes, a desaparecer o registro diferenciado;
§ mesmo sem trabalhar o corpo físico, o trabalho de percepção e acompanhamento sensorial desse outro corpo produzia correção nas lesões do corpo físico; e
§ depois de um trabalho eficaz, comumente o sujeito apercebia-se de um bem-estar psicofísico – traduzido por relaxamento tônico, aumento de vitalidade e sensação de estar bem pousado em seus tecidos, isto é, sensação de estar em casa em seu próprio corpo – e o sentimento recorrente apresentado, ao pedirmos que relatassse em uma palavra o sentimento que se fazia presente, era expresso por termos como soberania, serenidade e destacamento.
Esses resultados suscitaram perguntas sobre fatores constituintes do adoecimento. Seria essa não concordância entre o inteligível e o sensível um fator de adoecimento, um fator importante na perda de um ótimo vital? Teria esse fator alguma relação com as doenças que, sobretudo a partir das últimas décadas, comparecem semelhantes a uma epidemia, como o estresse e a depressão?
O trabalho na clínica apresentava resultados biomecânicos eficazes. O relato dos pacientes, contudo, era pródigo em respostas de ordem psíquica, e isso me era pouco compreensível. Na tentativa de entender melhor a relação psicofísica tão evidenciada no relato de meus pacientes, ingressei no curso de graduação em Psicologia. Terminada a formação, havia ainda poucas respostas. Contudo, a questão pulsional e, especificamente, a pulsão como força, na Psicanálise, chamava-me a atenção em especial.
Em 2004, recebi um prospecto sobre mestrado da Universidade Católica de Brasília, em que a instituição manifestava seu interesse em pesquisa sobre “Psicanálise e Fenomenologia”. Acabara de ler o livro Mal-Estar na Atualidade, em que o autor, Joel Birman, denunciava, como um dos fatores básicos responsáveis pela crise de eficácia na Psicanálise, a ausência, na prática clínica, da consideração do corpo e do afeto. A denúncia desses fatores ausentes foi forte o suficiente para animar a continuidade em minha busca.
Devo, contudo, a maior compreensão que tenho hoje sobre os resultados do meu trabalho ao contato que tive no programa de mestrado em Psicologia na Universidade Católica de Brasília com a Fenomenologia. Pode causar estranheza o que agora afirmo, pois o coração do trabalho que relato nesta dissertação, presente em uma caminhada de muitos anos, é, essencialmente, Fenomenologia. De fato o é. Porém, devo ao contato com esse método a alegria de haver confirmado, em uma referência de estudo sistematizado ocidental, algo que, para mim, encontrava eco inteligível na Filosofia da Medicina Chinesa e na Tradição Sufi.
obrigatórias da pesquisa psicanalítica no futuro. A revisão crítica desse autor, que denunciava a desconsideração do corpo sofrente do analisando, fez-me perceber que, de fato, as principais abordagens e escolas em psicoterapia acadêmica atuavam, predominantemente, pela palavra.
Jung (1999) atribuiu grande importância ao corpo, mas não o abordou de forma direta. Trouxe-o, no entanto, de forma indireta na técnica de imaginação ativa, nos desenhos, modelagens e pinturas. Reich denunciou a ausência do corpo na prática psicanalítica e enfatizou a importância de abordá-lo diretamente em terapia. Foi perseguido, preso e malvisto pela academia, devido às suas críticas e pretensões. Desenvolveu, no entanto, uma série de exercícios a serem realizados no corpo físico, e a bioenergética de Lowen (1979), seu discípulo, relacionou magistralmente o corpo físico anatômico às tipologias de caráter em sua obra O Corpo Traído.
Nesta pesquisa o trabalho sobre o corpo se referencia na abordagem fenomenológica. Trabalharei, então, sobre o corpo sutil ou fenomenal, como o entende Merleau-Ponty (2000). Este estudo se ancora, então, no caminho já percorrido por esses grandes nomes da Psicologia, assim como no aprendizado com a Tradição Sufi e nos professores já citados no início desta apresentação, os quais me qualificaram como terapeuta corporal.
2. Marco teórico – Objetivos – Justificativa
tento trazer os modais de uma relação fenomenológica em uma linguagem sensível, quanto o método adotado no procedimento de pesquisa.
A qualificação em modais que permitam a retomada sensciente da linguagem sensível – a linguagem dos sentidos – é, então, a principal pretensão deste trabalho, e uma
das formas de sensibilização para essa retomada é estimulada pela percepção sensciente de nosso próprio corpo físico em sua apresentação fenomenal.
Sobretudo para nós, ocidentais modernos, que formatamos excessivamente nossa vida em inteligíveis padronizados, distanciando-nos perigosamente do sensível primordial, este pode ser um trabalho importante, pois o distanciamento do sensível primordial parece ser o fator basal do esvaziamento vital que constatamos na atualidade.
Os objetivos desta dissertação são demonstrar a relevância de resgatar o sensível como linguagem e estimular, por meio da intervenção terapêutica proposta na pesquisa, a presença do sujeito anônimo da percepção, que se torna capaz, por modalidades qualificadas, de entrar em contato com os fenômenos sensíveis. Na parte teórica, de forma genérica, pretende-se resgatar o sujeito da percepção na consideração da causalidade científica e em nosso modo de viver.
e a saída possível para desconstruirmos a ilusão da posição de poder do sujeito, quando este, em uma partilha secreta entre os viventes ou jogadores, torna-se parceiro da “regra”, ao percebê-la e deixar-se conduzir por ela, possibilitando, assim, a reversibilidade. De Jung (1982), utilizo o conceito de enantiodromia, que permite a compreensão dos movimentos polarizados. Nos ensinamentos de Lao Tsé (2002) e Resseguier (1991), encontro alguns aspectos do Taoísmo, filosofia que embasa a Medicina Chinesa, que nos ajudam a construir um lugar de vida. Em Heidegger (2002) e Kierkegaard (1984), obtenho uma ajuda para a compreensão e ampliação do Sim nietzscheniano; e, ainda, em Heidegger (1993) e Shah (1990), a importância de ouvir o corpo e falar ao ser. Destaco a contribuição da Tradição Sufi, que merece especial referência como influência na construção da linha de base do meu entendimento genérico, ancorado na leitura de Omar Ali Shah, Mestre contemporâneo dessa Tradição no Ocidente, assim como em outros Mestres Sufis do passado, como Rumi, Al-Gazzali, Farid ud-Din Attar, Kabir, Hakim Sanai e Saadi de Shiraz.
uma qualidade de presença mais enraizada na vida. No Capítulo IV, intitulado “O encontro com o corpo fenomenal”, apresento os modais mínimos necessários para iniciar o contato com o fenômeno e acompanharseu desenvolvimento. Apresento, também, o relato de estados psicofísicos recorrentes que, normalmente, são observados após um encontro eficaz. No Capítulo V, “Acompanhamento do corpo fenomenal e aferição”, apresento o trabalho pragmático, isto é, a intervenção terapêutica propriamente dita, que se constitui no acompanhamento do corpo fenomenal. Os encontros de “Acompanhamento do corpo fenomenal” estão transcritos na íntegra, a partir de fitas gravadas durante as sessões. Apresento, também, a “Aferição”, que se constitui dos relatos dos sujeitos de pesquisa, que descrevem, por depoimento falado e/ou escrito, as mudanças percebidas após o trabalho. No Capítulo VI, intitulado “Análise e considerações finais”, trago a análise da intervenção terapêutica proposta, assim como uma interlocução entre Merleau-Ponty, Heidegger, Kierkegaard e a Tradição Sufi, em que encontro, em minha leitura, pontos comuns para reforçar a relevância de considerar os sentidos como estruturas de consciência, portanto, linguagem primordial capaz de fazer presente o Ser, no qual, segundo Heidegger (1984), fundam-se, afinal, todos os entes.
Os capítulos apresentados descrevem, então, o caminho adotado por mim para enfatizar a importância de dar à linguagem silenciosa dos sentidos seu estatuto derazão e de consciência profunda.
fator importante desde o Movimento Empirista Inglês até Kant. No entanto, como podemos verificar, tem sido difícil fazer o caminho de sua re-inclusão, não só na causalidade científica, mas também em nossa própria vida.
A mudança de eixo da Idade Média para a Idade Moderna só foi possível porque o sensível foi paulatinamente desvalorizado, como bem aponta Rodrigues (1999), em sua obra O Corpo na História. Na atualidade, somos pouco incitados ao uso de nossos sentidos. Tomando de empréstimo as palavras desse autor, “as estradas já estão por demais demarcadas”, exigindo muito pouco o faro e a acuidade em nossos movimentos.
A dificuldade de re-incluir o sensível fica ainda mais evidente quando constatamos que Heidegger e Merleau-Ponty, dentre outros fenomenólogos, antecipando-se à revisão da crítica epistemológica dos últimos 25 anos, ainda não foram devidamente considerados no processo de produção do conhecimento científico.
Santos (2003) declara que a consagração da ciência moderna nos últimos quatrocentos anos naturalizou a explicação do real, a ponto de não o podermos conceber senão nos termos por ela propostos.
Inúmeros procedimentos, dispositivos e normatizações vêm engessando de tal forma nosso ser sensível e aberto ao mundo, que nossa dificuldade em perceber o óbvio tem aumentado perigosamente. O ób-vio não exige via de acesso, e é somente por estarmos tão desenraizados do sensível, que o mais simples sempre acaba por nos fugir. Algo, portanto, deve ser redirecionado. A ciência moderna, como denuncia Heidegger (2002), debruçou-se sobre o estudo dos entes e esqueceu o ser.
De modo mais contundente, constatamos a crise econômica, social, ecológica, moral, ética e humana em que nos encontramos. Porém, esperançosamente, junto com Heidegger, invoco a poesia de Hölderlin (citado por Heidegger, 2002, p. 37):
Ora, onde mora o perigo é lá que também cresce o que salva
3. Método
Neste trabalho, o método fenomenológico é não só a forma de abordagem de estudo e pesquisa, mas também o próprio coraçãoda dissertação teórica.
meu). Sendo os modais exigidos, para uma relação fenomênica, o cerne do corpo teórico apresentado nesta dissertação, trago aqui, detalhadamente, os procedimentos utilizados no trabalho de pesquisa e na análise.
A pesquisa na intervenção terapêutica proposta é a escuta ou a percepção sensciente de nosso próprio corpo físico em sua apresentação fenomenal ou
fenomênica, onde se pretende observar que a sensação, trabalhada nos modais da Fenomenologia, propicia integração psicofísica, permitindo-nos ser-no-mundo.
Esta pesquisa realizou-se com três sujeitos, em dois encontros de, aproximadamente, sessenta minutos de duração, gravados em fita cassete e transcritos na íntegra.
Algumas características dos sujeitos encontram-se organizadas no quadro que se segue.
Algumas características dos sujeitos de pesquisa
Sujeitos Sexo Idade Profissão
A Feminino 45 Bióloga
C Feminino 35 Professora
D Feminino 46 Médica
Os sujeitos de pesquisa foram escolhidos por conveniência geográfica e disponibilidade de horário, observando-se dois critérios de exclusão: o uso de drogas que
“corpos” que se apresentam como os que costumam constar na descrição de quadros típicos de surto psicótico. Gostaria, então, de tornar claro que um corpo desmembrado e superposto – um corpo que se manifesta para a percepção como um quadro surreal em sua anatomia – comparece também em sujeitos sadios. A saúde não é isenta de conflitos, pelo contrário, e o corpo-fenomenal, por sua enorme visco-plasticidade, é o corpo que imediatamentese modelana relação ser-no-mundo.
O trabalho de pesquisa proposto se fez pela observação de como o corpo físico se apresenta para a percepção fenomenal e pelo acompanhamento desse fenômeno em modais fenomenológicos. O trabalho de pesquisa apresenta, portanto, dois momentos:
§ o “Acompanhamento do corpo fenomenal”, quer seja, o trabalho propriamente dito;
§ a “Aferição”, em que os sujeitos relatam as alterações psicofísicas que comparecem após o trabalho.
3.1 Sobre a análise dos dados
O trabalho propriamente dito, que é o “Acompanhamento do corpo fenomenal”, não é matéria de análise, pois se inscreve em um espaço-tempo aquém da representação no sentido merleau-pontyniano, em que a linguagem constata e descreve o fenômeno, instaurando o mundo em vez de representá-lo, isto é, a experiência e a palavra vão juntas, em simples constatação da expressão do que se mostra e aparece. Não há, pois, nenhuma pretensão de leitura interpretativa padronizável sobre esse material.
de apontar estados psicofísicos que tenham sido recorrentes na descrição dos relatos, e, sobretudo, na observação da sensação, que, elevada ao seu pleno estatuto, demonstra, nessa modalidade de uso, seu poder e sua eficácia em processos de integração psicofísica.
O procedimento da pesquisa está descrito no método e trabalhado teoricamente ao longo dos capítulos. Seus resultados estão na “Aferição”, ou seja, nos depoimentos dos sujeitos após o trabalho.
3.2 Procedimentos operacionais para a pesquisa
3.2.1 Instruções prévias
Nas instruções prévias, o sujeito deve ser informado de que, na pesquisa, seu trabalho é o de constatar e acompanhar seu corpo físico, em sua apresentação sensorial ou fenomenal, relatando suas percepções.
Para isso, o sujeito deita-se em decúbito dorsal, sobre um solo firme, isto é, não cedível e reto. Observa o fenômeno e o descreve, sempre se atendo à forma, à textura, ao movimento ou à tendência de movimento do fenômeno. Para facilitar a sua descrição, algumas referências espaciais quanto ao movimento, textura e forma são combinadas antecipadamente, conforme se segue:
§ quando o movimento no corpo fenomenal se der na dimensão largura, a indicação do fenômeno pode ser relatada como: à direita, à esquerda e medial, ou seja, em direção ao meio do corpo;
§ quando o movimento no corpo fenomenal se der na dimensão espessura, a referência pode ser costal, quando em direção às costas, ou frontal, quando o movimento se faz em direção à frente;
§ em relação à textura, o paciente pode utilizar-se da expressão "como se". Exemplos: "sinto meu peito como se fosse de aço, de ferro, de acrílico, de borracha, de creme de chocolate"; e
§ ao se referir à forma ou à “geografia”, em que o fenômeno se apresenta, a observação do sujeito deve se ater à sua circunscrição, buscando delimitar, em sua observação, a posição espacial em que o fenômeno se apresenta. Se sua forma se apresentar mutante, acompanhar seu movimento. Se sua forma se apresentar estável, perscrutar sua tendência de movimento.
3.2.2 Acompanhamento do corpo fenomenal – O trabalho propriamente dito
O sujeito posta-se deitado em solo firme e reto, em decúbito dorsal, com as pernas esticadas de modo anatomicamente confortável.
O acompanhamento inicia-se com uma pergunta, repetida para todos os sujeitos. Essa pergunta é apenas uma forma inicial de trazer a atenção e um ponto de partida para a observação. Por exemplo: "Em sua sensação, você percebe sua cabeça no mesmo nível,
abaixo ou acima de seus pés?"
fenômeno com uma atenção determinada, não flutuante. Essa curiosidade que indaga de modo específico, permite ao fenômeno manifestar-se em sua fisionomia. Obviamente, deve-se observar a redução dos pressupostos constituídos, pois a redução fenomenológica é o meio que permite ao fenômeno manifestar-se em sua inteireza de forma, textura, posição e movimento, apresentando-se em sua enformação. Partindo, então, de uma área qualquer de observação, o fenômeno se desenvolve e é acompanhado pelo sujeito da percepção, desde que se mantenham os modais requeridos.
Como toda a relação fenomenológica se inscreve em uma corporeidade sensível, como o entende Merleau-Ponty (1999), a sensação é o solo primitivo dessa linguagem. Sendo assim, ela se inscreve em formas sensíveis em nosso corpo-carne-fenomenal. A percepção e o acompanhamento dessa enformação, ou seja, da formação dessas formas, é o trabalho propriamente dito. O acompanhante deve, pois, tentar manter um foco delimitado em sua atenção para a enformação que se desenha ou configura. Se, no entanto, o sujeito apresentar alguma imagem mental ou pensamento, deve-se sempre fazê-lo retornar ao mundo sensível, isto é, à materialidade da forma-corpo-fenomenal, levando-o a perceber como essa imagem se manifesta em seu sensível, ou seja, como seu corpo-fenomenal se enforma mediante tal imagem ou pensamento.
A natureza das perguntas que o acompanhante faz para esquadrinhar o fenômeno deve ser, portanto, restrita à forma e à textura, na ordem espacial, e ao movimento ou tendência de movimento, na ordem espaço-temporal.
3.2.3 Aferição
Na “Aferição”, após o trabalho, o sujeito deve postar-se em pé e caminhar, verificando seu estado psicofísico e o comparando com o estado anterior ao do trabalho. O relato dessa parte da pesquisa é feito mediante entrevista aberta, gravada e transcrita após o trabalho, podendo também o sujeito apresentar depoimento por escrito para registrar percepções psicofísicas notáveis que possa vir a ter durante o intervalo entre os encontros ou após a realização deles.
Capítulo I
O corpo como casa dos sentidos
Meu corpo é a textura comum de todos os objetos e é, pelo menos em relação ao mundo percebido,
o instrumento geral da minha compreensão. Merleau-Ponty
O que denomino “relação entre-vivos” ou “o encontro do vivente com o vivente” é a relação homem-mundo sob a perspectiva da Fenomenologia. Uma relação com tal qualidade não pode prescindir do sensível. O sensível, no entanto, foi-nos progressivamente retirado, e apesar de contarmos com ele nas ações mais extraordinárias, que são as cotidianas, nós o subutilizamos como forma de razão não linear e soberana nos domínios que lhe são próprios.
A Fenomenologia é um método que tenta resgatar sua importância, e o procedimento central para promover esse resgate é chamado epoché ou redução fenomenológica. A essência desse procedimento é enraizar o sujeito de forma sensível nos dados da situação
Uma relação em estilo fenomenológico, então, passa pela sensação, já que deve inscrever-se, segundo Merleau-Ponty (1999), em uma corporeidade sensível. O acesso pleno ao sensível exige, no entanto, postura qualificada. Sua descrição é parte central deste trabalho.
da Tradição Sufi, Shah (1990) acrescenta, a esses, mais três sentidos, denominados sentidos internos: a sensação (feel), a sensação interna e afome interna, que, para essa Tradição, são tão comuns quanto os outros cinco.
Fazendo uma interlocução entre a Tradição Sufi e a Fenomenologia de Merleau-Ponty, temos para a Tradição Sufi, segundo Shah (1990), a sensação (feel) diferenciada do sentido tátil. No contexto da Tradição, a sensação é considerada como um sentido distinto, para significar que se está sentindo de forma não automática. Nos termos da Fenomenologia de Merleau-Ponty (1999), estamos senscientes, isto é, dando-nos conta, apercebendo-nos, por estarmos intencionalmente destacados.
A sensação interna indica o uso de um tipo de julgamento ou medição, que está vindo diretamente de nosso ser interno (Shah 1990). A sensação interna equivaleria, pois, ao que Merleau-Ponty (1999) denomina “testemunho a partir de dentro” ou “o testemunho da consciência”. Segundo Shah (1990), o ser sabe a qualidade da experiência, seja ela uma sensação de felicidade, de conforto, de alegria ou outra. Para a Tradição Sufi, segundo Shah (1990), a sensação interna relaciona-se diretamente com o sentido fome interna.
No contexto da Tradição Sufi, quando usamos a sensação interna para experimentar ou sentir alguma coisa, a fome interna apropria-se dela, identifica-a e a usa Shah (1990). É difícil definir o sentido fome interna, mas uma de suas manifestações se traduz na busca de desenvolvimento, na busca de conhecimento como necessidade de nutrição. Como a fome, essa outra fome também é um impulso, um sentido, um instinto.
Segundo Shah (1990), o ser e o corpo estão interessados em uma mesma coisa – o desenvolvimento possível do homem –, e, se houver acoplamento (acoplar, nesse contexto, significando rastrear e seguir um alvo como por radar), um harmônico se estabelece, e o contato se fará e poderá ser mantido.
Ao nos referirmos a esse tipo de fenômeno no Ocidente, conforme Shah (1990), costumeiramente usamos a palavra rapport, que se tornou um modo geralmente aceito (Shah 1990). Aceitar o uso da palavra raport, uma palavra tão genérica, pode denotar um modo defensivo de expressão que exime o sujeito da implicação descritiva das sensações. Na opinião desse autor, há ainda no Ocidente muitas superstições. Elas produzem medo e rejeição. Se alguém detalhar uma sensação, poderá provocar desde um afastamento – por medo ou preconceito –, até a suspeita de um estado patológico, como ironiza Shah (1990) em sua conferência. Esse comportamento pode ser forte indício do quanto as pessoas se sentem tímidas e estranhas ante a linguagem sensível.
Nessa mesma conferência, Shah nos informa que a Tradição Sufi intitula como faculdades: a imaginação, a fantasia, os talentos, os bens e a memória. “Bens” se referem não só a capacidade material, mas a bagagem de experiência e conhecimento.
Em geral, a pretensa evidência do sentir, diz-nos Merleau-Ponty (1999), está baseada no pré-juízo do mundo, e não fundada no testemunho da consciência. Sentir, então, para a Fenomenologia, implica o testemunho fundado na consciência. Porém, testemunhar o mundo ou a mim mesmo dessa forma exige destacamento, tomada de distância do mundo e de mim mesmo. Para a Fenomenologia, portanto, toda a consciência é consciência de algo.
Prossigo o trabalho, tentando lembrar uma coisa muito simples. O que torna nossos corpos vivos, sensíveis e moventes não é nosso corpo físico, nossos músculos, ossos e órgãos. Como declara Merleau-Ponty, “[...] a carne maciça não subsiste sem a carne sutil” (2000, p. 144. Destaque meu). O que nos faz viventes é, portanto, esse “algo” que permeia nossa carne, e, quando se vai e des-encarna, essa mesma carne, que um milisegundo antes estava animada e viva, torna-se rígida, fria, insensível e imóvel.
As qualidades sensíveis, os sentidos e as faculdades que esse “algo”, quando presente, ilumina permitem-nos a percepção. A sensação, o sentimento, a dor não são visíveis e mensuráveis. Porém, são concretamente sensíveis e óbvios para nós. Nossas capacidades sensíveis, nossos sentidos e faculdades são o que nos possibilita a percepção dessa contraparte sutil que se apresenta, que se manifesta através do suporte maciço de nosso aparelho físico.
Esse corpo sutil, esse invisível, como o nomeia Merleau-Ponty (2000), que permeia a nós e ao mundo e de várias formas nos torna vivos, é o que permite e sustenta o que chamamos de mundo objetivo. Nessa relação, os dois mundos, o mundo maciço e o mundo sutil, mutuamente se sustentam enquanto viventes.
tocado. E tocado na mesma medida, ou seja, dependente da relação, da maneiracomo se tocam.
O mundo, por sua vez, também enquanto vivente, é carne, mas o mundo só é um mundo para nós se se manifesta como fenômeno. Somente nessa medida fenomenal ou sensciente, ambos são carne e “se entrelaçam”. Como o refere Merleau-Ponty, “tudo o que se diz do corpo sentido repercute sobre o todo o sensível de que faz parte e sobre o mundo” (1999, p. 134).
Vejamos agora mais de perto a noção de fenômeno. Do grego, phenestai, significa “o que se mostra, o que aparece por meio da sensação”. A raiz phen qualifica “um brilho, um clarão”. E, noúmenon, “a coisa em si”, “o inominável” (Resseguier, 1991, p.6 ).
Apontando a reflexão de Kant, para quem o termo noúmenon significa “a coisa em si, pura, original”, temos:
Este país é uma ilha, cercada pela própria natureza com limites imutáveis. É o país da verdade, envolto por um vasto e tumultuoso oceano, sede própria da aparência, onde muitos lençóis de bruma, muitos bancos de gelo a ponto de se fundir, apresentam a imagem enganosa de novos países, e não se cansam de enganar, com vãs esperanças, o navegador que partiu para a descoberta e o envolvem em aventuras as quais ele não pode renunciar e tampouco conduzir a bom termo (citado por Resseguier, 1991, p. 6. Destaque meu).
Visto desse ângulo, “o noúmenon está na origem e no centro do fenômeno. Ele o engendra e o anima” (Resseguier, 1991, p.6 ).
Ser um corpo capaz de sentir, contudo, ainda não nos torna um corpo fenomenal ou sensciente. Para isso, precisa-se de um pouco mais. É preciso o dar-se contadesse sentir. É preciso mais que percepção, é preciso apercepção. É preciso perceber e perceber que se percebe, pois, como diz Watzlawick (1991), nós não vemos o que não vemos que não vemos. Essa é uma lei muito severa da percepção, mas assim é. O que eu não percebo, não existe para mim. O mundo existente enquanto fenômeno, portanto, depende de alguém quepossa testemunhá-lo.
Sentir-se vivo é estar enraizado nos dados, como diz Merleau-Ponty (1999). Estar enraizado nos dados é estar enraizado nas coisas de forma sensível. Estar, porém, enraizado nos dados de forma sensível, exige uma “maneira de aproximação”, que a Fenomenologia de Husserl chama de redução fenomenológica. Essa é uma forma de aproximação ou de procedimento absolutamente central na Fenomenologia. Exige que o “olhar” na relação homem-mundo seja um olhar ingênuo, pleno de curiosidade, para que o fenômeno (que a cada instante assume uma forma que se dá por inteiro) capte a nossa atenção sem, contudo, deixar-se esfriar pelo prévio e confortável enquadramento logístico já existente em nosso intelecto.
Nos termos de Merleau-Ponty (1999), esse enraizamento é a base da reversibilidade, isto é, da relação de reciprocidade entre o que toca e é tocado, a saber, relação entre-vivos, que só se deixa anunciar como fenômeno movente, sob os auspícios desse olhar.
o mistério silencioso que se desenrola constantemente no Rio da Vida – o Rio Amarelo –, como o denominam os chineses.
O pano de fundo – “a coisa em si” de que nos fala a palavra “fenômeno” em sua etimologia –, quando se desenha, faz aparecer algo que fisga a minha atenção. Quando, então, o fenômeno se desenha, se eu o acompanho, ele se desenvolve sob meu olhar.
Uma vez apreendido o olhar fenomenal é preciso mantê-lo, deixando o fenômeno manifestar-se com suas qualidades. Tal operação exige um passo mais sofisticado de qualificação.
A manutenção desse olhar exige “o não fazer”. O “não fazer”, segundo Lao Tsé (1976), é a condição do trabalho sobre o invisível, o sutil. “No eterno não fazer, o mundo se endireita por si mesmo”, diz Lao Tsé no Tao Te King, Capítulo XXXVII (1976. Destaque meu). Dessa mesma obra, extraí um trecho do Capítulo XXXVI, que revela, segundo minha percepção, uma ação de “não fazer”, um olhar de “não fazer”, que pode não só nos ajudar a vislumbrar o fenômeno como um flash, mas a acompanhá-lo em seu desenvolvimento. Diz Lao Tsé no Capítulo XXXVI (1976):
O que queres comprimir,
primeiro deves deixar que se expanda bem. O que queres enfraquecer,
primeiro deves deixar que se fortaleça bem. O que queres destruir,
primeiro deves deixar que desabroche bem. Àquele de quem queres tirar,
primeiro deves dar o bastante.
Chama-se a isso “conhecer bem o invisível”.
Estar enraizado nos dados é estar enraizado nas coisas de forma sensível, na forma como eu as sinto. Mas não só isso. Estar enraizado nos dados é não supor ou imaginar. É seguir concordando com os dados como eles se apresentam. É concordar percepção e sensível todo o tempo.
Isso é tão simples, que tende apassar desapercebido ou a complicar-se. Porém, em uma relação de ordem fenomenal, o “coração” da relação repousa sobre essa concordância. Por exemplo, se toco algo e o sinto como rugoso, imediatamente concordo em meu juízo e digo (para mim ou para outrem, em pensamento ou em fala) que aquilo se apresenta rugoso. E se me demoro, se faço lugar para minha atenção e permito que o fenômeno se desenvolva no tempo, posso perceber sua tendência. Se a tendência daquilo que toco e sinto como rugoso é tornar-se mais rugoso, digo que está se tornando mais rugoso; se a tendência é tornar-se mais liso, digo que está se tornando mais liso.
A eficácia da concordância está claramente expressa na citação de Merleau-Ponty anteriormente referida, que trago de novo à reflexão, para que, junto com o texto de Lao Tsé, possa fazer mais sentido. “Tudo o que se diz do corpo sentido repercute sobre todo o sensível de que faz parte e sobre o mundo” (Merleau-Ponty, 2000, p. 134. Destaque meu). Digo, em palavra ou pensamento, não como pós-reflexão, mas como constatação, exatamente o que meu sensível revela no presente vivo em que ele se manifesta. Esse sentir e o dar-seconta desse sentir exigem o abandono do olhar constituinte, para que se possa coincidir plenamente com o fenômeno. Nas palavras de Merleau Ponty (2000, p. 320):
A percepção tem uma espessura histórica, e, na percepção, nós não pensamos o objeto. É esse corpo, que sabe mais do que nós sobre o mundo, sobre os motivos e os meios que se tem, que faz a sua síntese, diz Merleau Ponty (2000).
Em minha experiência clínica e na pesquisa aqui apresentada, podemos constatar que o poder de repercussão do sensível trabalhado dessa forma, isto é, fazendo coincidir sensível e percepção em uma ação de “não fazer”, em um olhar de “não fazer”, é o que permite ao mundo se endireitar por si mesmo, como expressa Lao Tsé na citação trazida.
Se permito a manifestação do fenômeno em toda a sua amplitude, sem interferir com meus véus, sejam véus do desejo, das reflexões, ou do dever ser, se nada faço, no sentido do fazer objetivo, se concordo com isso, “o mundo se endireita”, ordena-se, organiza-se pela presença dessa atenção, dessa qualidadede atenção.
Essa repercussão sobre o sensível de que faz parte e sobre o mundo, de que fala Merleau-Ponty (1999), revela o poder transformador do sensível-sensciente que sempre tem um sentido, uma direção, uma posição, uma enformação, mas que pode, assim como o corpo e o mundo maciços, em uma determinada escala, distorcer-se, obliterar-se mediante qualquer interferência que não concorde com a facticidade, ou seja, com os dados da situação, com o fenômeno como ele se apresenta.
Esse desvio de sentido, de direção, essa obliteração da enformação, pode, contudo, alinhar-se, sincronizar-se, ao se concertar (concordar vontades). Se eu concordo, se eu estou con-forme, se eu consigo acordar no sentido de pôr-me de acordo, se eu coincido com a percepção do fenômeno, acolhendo-o do jeito que ele vem, como um rio, ora com mais água, ora com menos água, então ele (o fenômeno) se desenvolve.
Como em um enamoramento: o feminino se prepara na expectativa do encontro, mas quando a coisa amada (fenômeno) adentra o ambiente em que estou... finjo não a ver. Não me movo em sua direção... Sei, contudo, cada um de seus movimentos. Meu corpo todo o sabe. E quanto mais silenciosa e imóvel me posto, mais um campo de atração se amplia, e, ao se ampliar, mais o seu perfume (o campo) atrai a coisa amada.
Como na metáfora, essa é a postura que permite ao fenômeno mais e mais se revelar e se desenvolver. Ele é sutil e movente, e, se porventura, fixo avidamente meu olhar, tentando capturá-lo..., desaparece. E eu preciso, então, retomar aquele olhar para que o fenômeno torne a se revelar.
Nesse velar e re-velar, nessa relação, nesse enamoramento, o corpo, como casa dos sentidos e das faculdades, acompanha o fenômeno. Quanto mais interesse na escuta, mais sentidos se envolvem; quanto mais se ampliam as capacidades sensíveis, mais elas se permeiam, sem, contudo, confundirem-se. Tornamo-nos capazes de ver, tocando, e de tocar, vendo. Assim, as capacidades sensíveis extrapolam misteriosamente suas configurações especializadas e espaciais. Um exemplo disso é apresentado em uma experiência comum, trazida no livro Fenomenologia da Percepção, de Merleau-Ponty (1999), que, por certo, a maioria de nós já viveu. Em uma sala de cinema, percebemos, por uma sensação na nuca, que alguém nos olha. A sala pode estar repleta de gente. Viramos para trás e, com uma freqüência estatisticamente alta, deparamo-nos com o olhar que nos olha. Não temos, fisicamente, olhos na nuca. Por outro lado, sem essa informação na nuca, podemos nos virar inúmeras vezes para trás, simplesmente para olhar para trás, e quase nunca encontramos um olhar cravado em nós.
coerentes, sobretudo em se tratando de lesões do sistema nervoso central (Merleau-Ponty 1999).
O sensível é, pois, a base da relação homem-mundo, mas as funções sensoriais por si mesmas não me fazem Ser-no-mundo, é preciso mais, é preciso dar-se conta das sensações. “A existência corporal que crepita através de mim sem minhacumplicidade é apenas o esboço de uma verdadeira presença no mundo”, diz Merleau-Ponty (1999, p. 229. Destaque meu).
Capítulo II
Um novo estatuto para a sensação – O resgate do sujeito da percepção
Não estranhamente, o corpo, com suas capacidades sensíveis, tem sido progressivamente expulso de nossa consideração. Há muitos séculos e, sobretudo depois do século XVII, vimos seu descrédito reforçado pelo nosso modo de fazer ciência, pois esta, em sua busca de “asseguramento”, tornou-se fortemente intervencionista, como o diz Heidegger (2002). Sob a ótica da Fenomenologia, o que isso significa? Significa que desenvolvemos o sujeito naturado ou constituído e o sujeito naturante ou constituinte, fazendo permanecer ignorado o sujeito da percepção.
Segundo Merleau-Ponty (1999), para chegarmos ao mundo do fenômeno, precisamos de um novo cogito. O sentir foi esvaziado de todo o mistério pelo empirismo, que o tratou como a posse de qualidades mortas. No entanto, o fenômeno não pode ser apreendido, a não ser com qualidades vivas, carregadas de motivos. O sentir, primeiramente, passa por uma significação vital para o sujeito. É a significação vital que se traduz na massa pesada do corpo e que nele sempre se manifesta em enformação. Isto é, o corpo, em sua unidade sensível, esposa a significação vital pelas sensações que o modelam, e essa significação não necessita do mundo das idéias para fazer sua síntese.
Apesar dos estudos sobre percepção realizados por Merleau-Ponty, a sensação, em seu novo estatuto, não foi ainda plenamente incorporada, isto é, levada em consideração na causalidade científica. Segundo o autor, com o auxílio da psicologia indutiva, encontrou-se, para a sensação, um novo estatuto. Ela não é somente um estado, uma qualidade ou a consciência de um estado ou de uma qualidade (Merleau-Ponty 1999).
Essa afirmação de Merleau–Ponty é constatada em inúmeras experiências sensoriais. Traremos aqui as experiências realizadas com cores, relatadas no livro Fenomenologia da Percepção (1999, pp. 281 a 283), por conferirem, com muita clareza,
esse novo estatuto à sensação e, por conseguinte, ao esquema corporal e à motricidade. Trata-se de experiências com pessoas portadoras de doenças do cerebelo e do córtex frontal, que evidenciam o que poderia ser a influência das excitações sensoriais no tônus muscular, diante de campos visuais que variem com as cores vermelho, amarelo, azul e verde, na condição de não estarem integradas a uma situação de conjunto, isto é, sem que o tônus normal esteja regulado para alguma tarefa.
Na experiência, observou-se que o gesto de levantar o braço como indicador de perturbação motora é diferentemente modificado em sua amplitude e direção quando se encontra na presença do vermelho, do amarelo, do azul ou do verde. Como regularidade, o que se aferiu da experiência revela que:
§ o vermelho e o amarelo fazem movimentos escorregadios; o azul e o verde, movimentos bruscos;
§ a cor do campo visual influencia também a capacidade de “indicar com precisão”. Por exemplo, o verde aumenta a precisão; o vermelho, resulta em inexatidão por excesso;
§ a experiência com as cores revela também modificações na percepção de peso e de tempo nos cerebelosos.
O notável é que, nessas diferentes experiências, cada cor age sempre no mesmo sentido, de modo que se pode atribuir a elas um valor definido.
Herder (citado por Merleau-Ponty, 1999) afirma que o homem é um sensório comum perpétuo. O sentido dessa idéia de Herder fica plenamente expresso, quando se constata que, em uma visão ampliada de esquema corporal, o homem conta com sentidos pregnantes, e seu valor expressivo funda a unidade antepredicativa do mundo percebido e, por meio dela, a expressão verbal e a significação intelectual. Isso significa que o corpo, com suas capacidades sensíveis, é um sistema acabado de equivalências e de transposições intersensoriais (Merleau-Ponty, 1999).
Desconsiderar qualquer dessas asas torna capenga nosso vôo. Como pássaros de uma só asa, levantamos um pequeno vôo para cairmos desajeitados um pouco mais adiante.
No entanto, se prestarmos atenção aos nossos sentidos, sobretudo a sentidos como a sensação, a sensação interna e a fome interna, como a Tradição Sufi e a Fenomenologia os entendem, e se os tratarmos como linguagem – como um dito que quer se comunicar – poderemos compreender seu valor, assim como sua importância.
As capacidades sensíveis constituem função vital. Por isso, mesmo muitos séculos de desqualificação não a puderam ferir. Contudo, sem a apercepção dessas capacidades, limitamo-nos a usá-las em situações emergenciais. Sem nos darmos conta de modo suficiente de sua função, sua utilização de forma consciente e voluntária fica extremamente reduzida. Deixamos, assim, de contar com um aparato sofisticado de nosso corpo, as capacidades sensíveis, que poderiam, ao lado das capacidades inteligíveis, ajudar-nos na condução da vida.
No conjunto, as pesquisas com as cores revelaram que o vermelho e o amarelo são favoráveis à abdução; o azul e o verde, à adução. De maneira geral, a adução é o gesto que abre para o mundo, e na abdução ocorre retração para o centro, um movimento de trazer para si, fechamento.
Conclui, então, Merleau-Ponty:
(...) as sensações, as qualidades sensíveis, estão longe de se reduzirem apenas à experiência de um certo estado ou de um certo quale indizíveis, elas se oferecem com uma fisionomia motora, estão envolvidas por uma significação vital (1999, p. 282. Destaque meu).
Segundo o autor, o lado perceptivo e o lado motor do comportamento se
É importante destacar que, nas experiências relatadas, não há uma relação exterior de causalidade que deixaintacta aprópria sensação.
Quando se acompanha a sensação, como em nossa experiência clínica, em que o sujeito da percepção está qualificadamente presente, atestam-se notáveis modificações psicofísicas, em que comparece aumento de vitalidade e empoderamento relatados pelos pacientes. Isso revela que, de fato, o sistema de comportamento motor e o sistema sensível trabalham em equivalência. Mas, para isso, não basta sentir. O sentir pode ser somente uma solicitação vaga sem a exploração de um sujeito que intencionalmente use todos os sentidos para encontrar a sincronia com o fenômeno.
Se o novo estatuto da sensação tivesse sido suficientemente considerado, teríamos modificado muitas de nossas práticas terapêuticas e, muito diretamente, os procedimentos de fisioterapia e da psicologia. Deparamo-nos, não raramente, com algo que, no primeiro momento, pode causar estranheza à compreensão, porém, é presente: uma teoria correta e uma prática que não é uma praxis. Essa dificuldade ocorre porque essa forma de experiência, como a experiência com as cores, só pode ser compreendida e considerada pelo sujeito que seja capaz de se deixar tocar senscientemente pela cor. Nesse caso, fica muito patente que a informação de algo não é o mesmo que o conhecimento de algo. Isto, talvez, torne compreensível a freqüente ausência de uma praxis. Afirma Merleau-Ponty (2000) que a compreensão passa por um erotismo que o entendimento intelectual sozinho não consegue tocar.
pode aumentar, exagerar as minhas reações, sem que eu me aperceba, porém, isso não acontece como dois fatos distintos: uma sensação de vermelho e uma reação motora. É preciso compreender que a textura do vermelho, que o nosso olhar esposa e acompanha, já é a amplificação de nosso ser motor.
O sujeito da sensação não é um pensador que nota uma qualidade, nem um meio inerte que seria afetado ou modificado por ela; é uma potência que co-nasce em um certo meio de existência e se sincroniza com ele (Merleau-Ponty, 1999, p. 285. Destaque meu).
Só se compreende a significação motora das cores se elas deixam de ser estados fechados em si mesmos ou qualidades indescritíveis oferecidas à constatação de um sujeito pensante (Merleau-Ponty, 1999).
As cores só se deixam perceber se me convido a uma nova maneira de avaliar, e se a motricidade deixa de ser a simples consciência de minhas mudanças de lugar para “tornar-se a função que, a cada momento, estabelece os meus padrões de grandeza, a amplitude variável de meu ser-no-mundo”, diz Merleau-Ponty (1999, p. 283. Destaque meu).
O azul é aquilo que solicita de mim uma certa maneira de olhar, aquilo que se deixa apalpar por um movimento definido do meu olhar. Ele é um certo campo, uma certa atmosfera oferecida à potência de meus olhos e de todo o meu corpo (Merleau-Ponty, l999, p. 283).
tornar-se uma relação carne a carne – uma relação fenomenológica – precisa fazer presenteo sujeito da percepção em modais qualificados.
De maneira geral, a experiência com as cores revelou que o vermelho e o amarelo produzem a sensação de um arrancamento, de um movimento que se distancia do centro, diz Merleau-Ponty (1999), e, por outro lado, com o azul e o verde temos a experiência do repouso e da concentração.
A modalidade perceptiva, pois, nasce junto (co-nasce) se o sujeito é capaz de assumir certos modais. Quando isso acontece, o sujeito faz um lugar, tem um lugar, sente-se em sente-seu lugar.
Segundo Merleau-Ponty (1999), a sensação tal como se apresenta a nós não é uma matéria indiferente e um momento abstrato, mas uma de nossas superfícies de contato como ser, uma estrutura de consciência.
O espaço, assim como o tempo, é condição universal de todas as coisas manifestadas. Mas é apenas quando o sujeito da percepção comparece que estabelecemos, pelo sensível-sensciente, uma relação e um espaço próprios. Na realidade, diz o autor (1999), nãotemos o homem e o espaço. O homem é no espaço. Na presença do sensível, temos uma maneira particular de ser no espaço.
O espaço-tempo, como condição universal de toda a manifestação, só faz sentido quando construo neles um lugar. Isto é, quando, como sujeito da percepção, realizo a relação ser-no-mundo.
O espetáculo do mundo percebido não é, portanto, puro. Tomado exatamente tal como o vejo, ele é um momento de minha história, e, como a sensação é uma reconstituição, ela supõe em mim os sedimentos de uma constituição prévia; eu sou, enquanto sujeito que sente, inteiramente pleno de poderes naturais, dos quais sou o primeiro a me espantar (Merleau-Ponty, 1999, p.290. Destaque meu).
O sensível precisa de uma intencionalidade para que a atenção possa ser dirigida de maneira precisa e interessada.
Segundo o autor, o sensível não apenas tem uma significação motora vital, mas é uma certa maneira de ser-no-mundo que se propõe a nós de um ponto no espaço, e que nosso corpo retoma e assume se for capaz (1999).
Para melhor ilustrar sua idéia, Merleau-Ponty (1999) comenta o sacramento da comunhão. A comunhão não é apenas o símbolo de uma operação da graça, mas é a presença real de Deus, se aquele que participa do ritual do pão sagrado o faz de modo sensível. Quando o sujeito vive essa experiência em uma modalidade sensível, ele literalmente sente-se em comunhão. Desse ponto de vista, afirma o autor, torna-se possível restituir à noção de “sentidos” um valor que o intelectualismo lhe recusa.
Estar no mundo na modalidade sensível implica, pois, essa cumplicidade com a percepção. Esse modo de seraltera não só a qualidade de ser do próprio sujeito, como também a atmosfera e o mundo ao seu redor.
Declara o autor:
Ser de modo fenomenal só é para alguém que seja capaz de recuar em relação a ele e que, portanto, esteja absolutamente fora do ser. É assim que o espírito se torna o sujeito da percepção e que a noção de sentidos se torna impensável (Merleau-Ponty, 1999, p. 286. Destaque meu).
É o corpo que dá um sentido não apenas ao objeto natural, mas ainda a objetos culturais como as palavras”, diz Merleau-Ponty (2000, p. 315).
Apesar de sempre presente, a linguagem sensorial tem sido tão desprezada, que, não raro, as pessoas demonstram dificuldade de compreender quando pedimos que falem de registros de sensação. Essa dificuldade provém da desvalorização do sujeito da percepção. A sensação foi retirada da causalidade, diz Merleau-Ponty (1999).
Apresentamos mais algumas experiências retiradas do livro Fenomenologia da Percepção, pois não é demais recordar essa forma de linguagem tão esquecida.
Se se apresenta uma palavra a um sujeito durante um tempo muito curto para que ele possa decifrá-la, a palavra “quente”, por exemplo, induz a uma espécie de experiência do calor que forma em torno dele como que um halo significativo. A palavra “duro” suscita uma espécie de rigidez das costas e do pescoço, e é secundariamente que ela se projeta no campo visual ou auditivo e adquire sua figura de signo ou de vocábulo. Antes de ser o índice de um conceito, primeiramente ela é um acontecimento que se apossa de meu corpo, e suas ações sobre meu corpo circunscrevem a zona de significação à qual ela se reporta. Um sujeito declara que à apresentação da palavra “úmido” (feucht) ele experimenta, além de um sentimento de umidade e de frio, todo um remanejamento do esquema corporal, como se o interior do corpo viesse para a periferia, e como se a realidade do corpo reunida até então nos braços e nas pernas procurasse se recentrar (Merleau-Ponty, 1999, p .316. Destaque meu).
Da mesma forma que entre os sujeitos e as cores, no contexto de Merleau-Ponty (1999), esse novo estatuto conferido à sensação torna compreensível o resultado do trabalho que aferimos em nossa prática clínica. O acompanhamento do corpo fenomenal, do corpo sensível, parece evidenciar que a presença do sujeito da percepção responde pela notável alteração psicofísica reportada por nossos pacientes.
O corpo, então, como casa dos sentidos, revela a enformação (a formação da forma) de todas as coisas que nele se desenham. A formação da palavra, a carga de sentido e direção, a intenção, são detectadas, manifestadas na sensação corporal, antes mesmo de qualquer apropriação pelo pensamento.
(...) o meu corpo não é apenas um objeto entre todos os outros, ele é um objeto sensível a todos os outros, que ressoa para todos os sons, vibra para todas as cores, e que fornece às palavras sua significação primordial através da maneira pela qual ele a acolhe (Merleau-Ponty, 1999, p. 317. Destaque meu).
Ele (o corpo) conhece a significação primordial das palavras. E a escuta dessa linguagem, dessa palavra, em sua significação vital, primordial, que o corpo conhece, exige que sejamos “todo ouvidos”.
Segundo Heidegger (2002), somos “todo ouvidos” quando transpomos simplesmente o recolhimento para a escuta e esquecemos, por completo, os ouvidos e o simples afluxo do som. Esticando apenas os ouvidos para o soar das palavras nas expressões de quem fala, diz Heidegger (2002), ainda não escutamos nada. Nós só escutamos quando deixamos o real disponível em seu conjunto, o real que se depõe e propõe como um todo em sua disponibilidade.
enformação. A escuta sensciente que fazemos do nosso corpo como casa dos sentidos, onde o ser do real se conta em sua vigência, é o instrumento, a bússola que pode nos sinalizar, revelar o caminho, a direção, a situação, a disponibilidade, o limite, a nossa medida de todas as coisas. Nos tecidos de nosso corpo, o real se depõe e propõe como enformação. E, se devidamente considerada, essa enformação informa, sinaliza nesse corpo, que é tanto um sensório comum – detentor de toda a nossa história coletiva – quanto de nossa história pessoal.
O corpo conhece mais do que conhecemos em pensamento. Diz Merleau-Ponty: Os sentidos se traduzem um nos outros sem precisar de um intérprete, compreendem-se uns aos outros sem precisar passar pela idéia” (1999, p. 315. Destaque meu).
(...) Quer se trate de perceber palavras ou objetos, repentinamente se observa que abrem uma passagem para o corpo (1999, p. 316. Destaque meu).
A palavra “repentinamente” é um indicador muito especial para quem já passou senscientemente pela experiência, pois revela com clareza como a percepção se dá. A percepção se dá em uma forma inteira, quando se dá. Ela não é fruto, pois, de um progressivo associar no pensamento. Uma vez dada, dependendo de meu olhar, de minha escuta, poderei então conversar com ela.
Depois de tantos séculos, vivendo sem atenção ao sensível, portanto sem corpo, constatamos com facilidade, nos escritos de Baudrillard (1976), os efeitos dessa desatenção. Sem o sujeito da percepção, temos o sujeito da simulação, o sujeito da dissuasão, o sujeito da reprodução, o sujeito do simulacro. Sem um corpo sensível, é fácil perdemos a noção do efêmero.
mortais. Não pertencendo mais à categoria dos mortais, portamo-nos como deuses. Ao nos portarmos como deuses, invertemos perigosamente as relações do Ser-no-mundo e, facilmente, fazemos das palavras objeto de manipulação.
O homem se comporta como se fosse o criador soberano da linguagem, no entanto, a linguagem permanece a soberana do homem, diz Heidegger (2002, p. 167). Como conseqüência de dar as costas ao ser do real, em nosso progressivo distanciamento do sensível, pensamo-nos soberanos em relação a ela. Mas se ela, em sua origem, não é arbitrária, estamos invertendo a situação, ao crer que podemos utilizá-la sem medida, sem pudor, sem contenção, muito simplesmente a serviço de nossos interesses.
Esse equívoco que tão bem caracteriza a Idade Moderna e que agora chega a seu ápice está em relação direta com a ausência do sujeito da percepção. Assentados em nosso “conhecimento assegurado”, que acabou por nos levar a um comportamento arrogante, retiramo-nos do mistério do mundo e, portanto, de um resguardo, de uma contemplação respeitosa em nossos atos.
racionalidade unívoca, pois que excluiu o pólo sensível, podemos esperar, com a mesma intensidade e força, a manifestação do pólo oposto. Esse movimento já se configura na atualidade de forma notável nos fenômenos juvenis, em que a contenção do sensível desemboca no comportamento excessivo de consumir-se em ato.
Capítulo III
A dor – um convite para o Sim
Estamos familiarizados, em Psicanálise e em Psicologia, de maneira geral, a entender o termo fixação como um recurso psíquico que denota dificuldade de seguir adiante. No senso comum, para nos referirmos a esse sentimento, usamos a palavra “apego”. Apego a uma idéia, a um lugar, a uma pessoa ou ao que quer que seja, que nos impede de estar qualitativamente “presentes” no mundo.
Presença, no sentido heideggeriano, diz de uma qualidade de presença que não é impessoal. Segundo Heidegger (1993), quando, freqüentemente, dizemos “eu”, estamos falando do que não somos, pois, na ausência de uma sensorialidade sensciente, que, em silêncio, contacta o clamor do si-mesmo, resta apenas uma presença de-cadente, como qualifica esse autor.
A presença decadente é “uma presença que, quando diz ‘eu’, tem a tendência de se compreender a partir do mundo das ocupações” e que “passa por cima do conteúdo fenomenal da pré-sença” (Heidegger, 1993, p. 116. Destaque meu).
Quando, pelo apego, negamos os dados de uma situação, estamos, de certa forma, isolando-nos. Algo em nós se fecha por essa negação; separa-se, fixa-se, e nos corta do fluxo da vida. Mantemo-nos agarrados à margem do Rio, do Rio Amarelo, do Rio da Vida. Estamos ainda dentro do Rio, mas não nos deixamos mais banhar em suas águas e seguir no fluxo, pois nos tornamos impermeáveis e enrijecidos.
Uma parte separada, uma fixação que não conseguimos integrar, parece levar, após um longo processo de racionalização e enrijecimentos, ao sofrimento e à dor. Ao longo de nossa vida, no entanto, construímos muitas negações, muitos lugares separados, muitas fixações.
A dor, quando se manifesta como fenômeno sensível-sensciente, como sintoma e sinal, pode ser um convite para iniciarmos o caminho de volta, o caminho em direção à reintegração na realidade essencial do Ser, à reintegração no fluxo da vida. Quando a dor se manifesta, quando o sofrimento é percebido como dor, podemos dizer que o processo de reintegração da “parte separada”, da “fixação”, está querendo começar.
Estruturalmente, o adoecimento – e aqui delimito o adoecimento que se circunscreve a determinadas escolhas existenciais – provém de uma fixação. Algo que não conseguimos digerir ou realizar e que nos corta o acesso ao presente vivo em nós.
Merleau-Ponty (1999, p. 227.), ao comentar sobre um caso de afonia, fala-nos sobre o que se poderia considerar uma visão essencial do corpo nos processos de adoecimento. Diz:
Se o corpo pode simbolizar a existência, é porque a realiza e porque é a sua atualidade. Ele secunda seu duplo movimento de sístole e diástole. Por um lado, com efeito, ele é a possibilidade para a minha existência de demitir-se de si mesma, de fazer-se anônima ou passiva, de fixar-se em uma escolástica. Na doente da qual falávamos, o movimento para o futuro, para o presente vivo ou para o passado, o poder de amadurecer, de entrar em comunicação com outros como que se travaram em um sintoma corporal, a existência amarrou-se, e o corpo tornou-se o “esconderijo da vida” (Destaque meu).
Em seguida, continua descrevendo magistralmente como uma fixação nos corta do fluxo da vida: “Para o doente, não acontece mais nada, nada adquire sentido e forma em sua vida – ou mais exatamente, ocorrem apenas ‘agora’ sempre semelhantes, a vida reflui sobre si mesma, e a história se dissolve no tempo natural” (1999, p. 227).
Reforçando a idéia de sístole e diástole, de um abrir-se e um fechar-se para a vida, possibilidade sempre presente em nós, Merleau-Ponty (1999) afirma que, mesmo o corpo de um sujeito normal conserva o poder a cada instante de esquivar-se. Em pleno engajamento no mundo, um sujeito pode recolher-se à sua vida anônima e fundir-se a uma dor ou a um prazer.
O corpo pode se tornar o esconderijo da vida, quando me fecho, ou pode me abrir para a vida, quando me abro. Como a vida luta pela vida, a dor pode ser uma tentativa de sinalização da própria vida, que diz: reintegre-me ao fluxo do Rio. Mas, como o homem tem um diferencial, tem uma “liberdade livre”, como o diz Kant (1997) – o que significa que o homem, além de estar submetido às leis naturais, pode criar suas próprias leis – temos, por essa “liberdade livre” do homem, o poder de recusar, o poder de nos fecharmos ao apelo da vida, ao apelo da dor.
Esse corpo sensível-sensciente, esse corpo fenomenal, expressa a realidade da relação homem-mundo presentificada. O passado, que não é passado quando ainda se encontra presentificado, parece registrar no corpo todos os momentos que não se fecharam, que não se concluíram, que não se completaram. O corpo manifesta (não só em sua forma anátomo-fisiológica objetiva ou física, mas, principal e inicialmente, em sua forma anátomo-fisiológica fenomenal ou sensível) nossa história. Segundo Merleau-Ponty (1999), não é um passado que se projeta no presente, mas um presente que desdobra um passado.
A possibilidade do encontrocom o corpo na modalidade sensível dá-nos, então, a relação atual do Ser-no-mundo. Somente o encontro com o corpo sensível-sensciente nos dá um corpo em situação. Não o que eu fui, ou o que serei, mas o que sou aqui, agora, na vigência total do momento presente. O encontro com o corpo sensível poderá descongelar as fixações, e estas, uma vez degeladas, permitirão reconquistar a possibilidade de ser simplesmente o que sou e poder escolher por mim mesmo.
escolásticas, dirigem-nos sem sincronia com o Ser, fazendo terreno propício para nos congelarmos, adoecendo-nos.
Os danos provindos desses congelamentos vão se estruturando e dificultando, a cada vez, nossa implicação mais plena nos atos da vida (Resseguier, Transmissão oral, 1991). Partes separadas, negações que não conseguimos integrar e que continuam presentificadas em nós, desenhadas em “lugares-espaço-temporais” de nosso campo vital, manifestadas em registros de nossos corpos-sujeitos-fenomenais, comparecem. Nos tecidos de nosso corpo fenomenal, a continuidade pode ser rompida. Podemos apresentar “fendas” no corpo sensível além das formalmente conhecidas no corpo físico.
A acumulação de meios atos em nossa vida, atos em que não estamos implicados, parece criar uma “interferência”, que descentraliza nossa relação com o Ser. Uma presença “vaga”, sem implicação, sem cumplicidade, vai criando, a partir do limite, um sentimento de incômodo. Nossos atos perdem a possibilidade de espontaneidade e se tornam atos calculados, cheios de ansiedade, cargas e antecipações, que reforçarão ainda mais a ruptura entre o Ser e sua manifestação no Mundo. A existência, que co-nasce a partir da presença do sujeito da percepção e nos capacita a estarem situação, perde sua força.
Cortados do noúmenon (que é o fundamento de todos os aspectos formais, isto é, fenomenais de nossa vida), o espírito, que se faz presente no sujeito da percepção, ausenta-se, como afirma Merleau-Ponty (1999). Sem suficiente contato com o sensível, com esse noúmenon, com esse pano-de-fundo essencial, com esse fogo primitivo, a vitalidade de nossa vida diminui.