UTILIZAÇÃO DA COLAGEM NO ENSINO DAS ARTES:
BASES HISTÓRICAS E PROPOSTA DE APLICAÇÃO EM SALA DE AULA.
PARTE II
Sonia Maria Monteiro Valadares [email protected]
Brasília-DF 2008
UTILIZAÇÃO DA COLAGEM NO ENSINO DAS ARTES:
BASES HISTÓRICAS E PROPOSTA DE APLICAÇÃO EM SALA DE AULA.
PARTE II
Sonia Maria Monteiro Valadares1 [email protected]
Resumo
Neste segundo momento será analisado o movimento artístico Pop Art. Tal intento será realizado a partir do estudo das criações de Richard Hamilton e da percepção de imagem que o mesmo propõe ao mundo contemporâneo por meio da técnica da colagem. Este estudo sobre o ensino da arte e a colagem na escola trata da necessidade da arte, e a sua capacidade transformadora, na qual os educadores estarão contribuindo para que o acesso à arte seja um direito de todo ser humano. Tornando assim, as abordagens diversas e as práticas diferenciadas propostas eficazes para uma pedagogia eficiente. Sendo com isso, possível identificar relações com alguma concepção de arte, filosofia e pedagogia nas bases de cada uma. O ensino da arte precisa sair do improviso, firmando assim sua presença na educação.
Pois é uma disciplina com origem, história, questões e metodologia.
Palavras-Chave: Pop Art – Richard Hamilton – Colagem – Pedagogia
O Movimento Pop Art
A Pop Art foi um movimento artístico que surgiu na Europa, mas desenvolveu-se
“imageticamente na mídia norte-americana”, em meados do séc. XX após a II Guerra Mundial, em oposição ao expressionismo abstrato, estilo que dominava no período. Alguns dos críticos citados nesta pesquisa consideraram este movimento como uma forma do artista se distanciar da dura realidade da guerra. (JANSON, 1996. p. 395).
1 Sonia Maria Monteiro Valadares, Licenciada em Artes Plásticas e Professora de Ensino Especial da PESTALOZZI Brasília.
Para Giulio Carlo Argan (1992) Pop Art, “em suma, assinala o ponto de chegada do processo de degradação e dissolução do objeto enquanto termo individualizado num dualismo cognitivo, em que o outro termo é o sujeito, a pessoa.” (p. 579). A Pop Art caracteriza-se por uma linguagem que valoriza as imagens figurativas e reproduz objetos do cotidiano em tamanho consideravelmente grande. Embalagens de produtos, cartazes de anúncios e páginas de jornais servem como fonte de inspiração para os artistas que tentam reproduzir essas imagens por métodos mecânicos, como:
fotografia, impressões gráficas etc. Segundo Argan o fato é que:
Com as crises de superprodução. A coisa foi substituída por sua imagem; a imagem é frágil, se gasta logo; as pessoas se acostumaram a se desfazer de coisas que ainda podiam servir, mas cuja imagem tornava-se insuportavelmente batida. (ARGAN, 1992, p. 581).
A primeira obra considerada verdadeiramente pop foi a colagem de Richard Hamilton2, um pintor inglês que introduziu a Pop Art e ampliou a técnica da colagem, por meio de trabalhos ousados como indica a sua obra mais marcante (Fig. 1).
Figura 1 Richard Hamilton
“Just What Is It That Makes Today's Home So Different, So Appealing?” 1956.
Nessa obra, o artista retratou um cenário em que o eletrodoméstico, a história em quadrinhos e as embalagens de produtos contracenavam com um casal também saído de uma propaganda de revista. Em conseqüência da construção desse cenário da Pop Art, seus temas tornaram-se os símbolos e os produtos industriais dirigidos às massas urbanas: lâmpadas elétricas, pasta de dente,
2 Richard Hamilton (nascido em 24 de fevereiro de 1922). Um dos artistas mais significativos da arte do século XX, Richard Hamilton encontra-se representado nas coleções de grandes museus de arte contemporânea tais como a Tate Gallery de Londres, o Guggenheim Museum de Nova Iorque ou o Stedelijk Museum de Amsterdam.
automóveis, sinais de transito, eletrodomésticos, enlatados e até mesmo a imagem das grandes estrelas do cinema norte-americano, que também é consumida em massa nos filmes, nas TVs e nas revistas.
Como um bom exemplo é o trabalho “Marilyn Monroe” (Fig. 2) de artista Andy Warhol (1928-1987).
Figura 2 Andy Warhol.
“Marilyn Monroe”. 1967.
A influência do movimento Pop permanece até hoje e reúne artistas de interesse comum pelas artes gráficas, imagens comerciais, técnicas de reprodução e por símbolos que representam a cultura de massa. Como continuador e perpetuador da Colagem, Richard Hamilton apresenta a possibilidade de novos princípios de composição inaugurados por tal técnica.
Richard Hamilton
Em uma carta no ano 1957, Richard Hamilton define os princípios centrais da nova sensibilidade artística: trata-se de uma arte "popular, transitória, consumível, de baixo custo, produzida em massa, jovem, espirituosa, sexy, chamativa, glamourosa e um grande negócio3".
Desde então, o seu trabalho sobre a gama cromática assim como sobre a fragmentação da imagem é feito a partir de fotografias, nas quais o artista sublinha a óleo, o grau, os contrastes ou os efeitos de desfocagem.
A partir dos anos 70, a introdução de aparelhagens de alta fidelidade e a utilização do computador para a criação de estruturas compositivas são a prova de que a obra de Richard Hamilton continua a sofrer a influência da tecnologia a fim de elevar um objeto banal do quotidiano ao nível de
3 WUNDERLICH, Daniel. Richard Hamilton. Pensamento contra a avalanche de imagens. Disponível em http://www.dwworld.de/dw/article/0,2144,946199,00.html. Acesso em 31/10/2007 às 11h58min.
uma obra de arte. Desse modo, da mesma forma que evita se identificar com uma determinada técnica, Hamilton foge a qualquer padrão estético.
Estilo nunca me interessou muito. Sempre achei que meus quadros são livres de estilo, assim como de gosto. O que não é inteiramente verdadeiro, pois agora reconheço que, no decorrer do tempo, certa personalidade se tornou visível. (WUNDERLICH, Ibidem).
Daniel Wunderlich4, crítico de arte e autor do artigo “Richard Hamilton. Pensamento contra a avalanche de imagens”, ao qual é objeto de estudo neste tema que trata do artista em questão, afirma que Hamilton possui “a precisão de um patologista”, que disseca o presente do homem, recompondo-o de forma inesperada, mas “sem deixar de acrescentar-lhe pinceladas desmascaradoras e irônicas”. Segundo Wunderlich, o trabalho artístico de Hamilton é multifacetado, pois o artista faz uso de imagens do cotidiano, e por meio delas reflete sobre os fenômenos sociais. E, além disso, ele não perde de vista a questão: “onde está a fronteira que separa produto e obra de arte?” Para Wunderlich, seu trabalho procura sempre evocar claramente “as representações na mídia do conflito religioso-político que já duras décadas”. Os segmentos envolvidos no trabalho de Hamilton são comprimidos em três representações: católicos, protestantes e o poder estatal. Revelados como "tristes atores numa peça teatral com final fatal". Segundo Wunderlich, a
problemática principal trabalhada por Hamilton era resolver "o que a mídia faz conosco?" e "de que se compõe nosso mundo, que processos o estruturam, como o percebemos e compreendemos?"
Figura 3 Richard Hamilton.
“Cheire, ouça, olhe, sinta”.
4 Daniel Wunderlich crítico de arte e autor do artigo Richard Hamilton. Pensamento contra a avalanche de imagens, postado no site: http://www.dw-world.de/.
Hamilton expressa esse pensamento plasticamente em um de seus trabalhos “See, hear, smell, touch”, título da obra apresentada (Fig. 3). Refere-se a uma foto impressa precariamente, que apresenta a face de um homem, com “setas coladas apontando para seus órgãos sensoriais”, nariz, ouvido, olhos e boca: "cheire, ouça, olhe, sinta!". Na fronte sisuda aparecem as seguintes palavras: "Pense. Pense. Pense". Vale observar também que sai da boca um balão de dialógico de pontos de interrogação. Para Wunderlich, perceber e pensar são os pontos mais importantes nas obras de Hamilton, pois “é preciso atenção e discernimento para escapar do mundo de imagens contemporâneo”. (Op. Cit.)
A obra de Hamilton é extremamente atual e, sem sombra de dúvida, é também uma contribuição primordial à discussão dos acontecimentos contemporâneos, pois comunica a possibilidade ao indivíduo de ganhar senso crítico frente ao grande número de informações imagéticas do nosso cotidiano.
O fato é que todo trabalho artístico, expressa a realidade do artista, porém por trás do artista está a sociedade. O artista é o veículo para representar a sua obra na sociedade, pois desenvolve os problemas sociais vividos pela humanidade e interpretados por ele.
Segundo Ana Mae Barbosa, Hamilton defendeu o desenvolvimento do profissionalismo na escola e a idéia de que os adolescestes necessitam de informações e bases racionais sobre as quais se dá o desenvolvimento. (2005, p. 35). A autora afirma que Hamilton desenvolveu esta abordagem, a qual foi acusada de racionalismo, por conter informações de bases racionais, associado ao fazer artístico, aos ensinamentos dos princípios de design, as informações científicas sobre o ser e o pensar e, principalmente, a ajuda da tecnologia. (idem.
p. 36).
Na visão de Argan:
Numa sociedade de cultura de massa, o pensamento e a memória da arte poderão ser se estiver salvaguardada a liberdade dos indivíduos, os impulsos
criativos que, provindo das profundezas da história, haverão de gerar uma experiência individual recapituladora, porém não destruidora, da experiência coletiva. (ARGAN, 1992, p. 593).
O artista Hamilton, que também era professor de artes, provocava em seus alunos o estudo da gramática visual, a síntese e o vocabulário. Com isso levava-os a dominar elementos formais como ponto, linha, forma, espaço positivo e negativo, divisão de área, cor, percepção e ilusão, signo e simulação, transformação e projeção, e não somente na imagem produzida por artistas, mas também na imagem da propaganda, como as embalagens de suco de laranja, de coca-cola etc. (BARBOSA, 2005, p. 36).
O espaço do quadro, enquanto espaço real é capaz de acolher elementos retirados diretamente da realidade; uma das inovações técnicas mais sensacionais é, de fato, a aplicação de pedaços de papel, de tecido etc.
(collage). É uma maneira drástica de destruir o preconceito de que a superfície do quadro era um plano para além do qual se distinguia a invenção de um acontecimento: a pintura, a partir de agora, é uma construção cromática sobre o suporte da superfície. (ARGAN, 1992, p. 305).
Esses elementos do mundo físico, do cotidiano e da vida empírica de cada sujeito, quando inseridos num quadro têm o poder de recontextualizar a imagem dentro do dia-a-dia, e integrá-la à construção plástica da pintura.
A Colagem e o Ensino da Arte
Para Ana Mae Barbosa (2005) a técnica da colagem pretende por intermédio do ensino da arte, levar os alunos a uma leitura dos padrões estéticos da arte. (p. 36). O desenvolvimento por meio da arte ajuda o aluno a entender algo do lugar e do tempo nos quais as obras de arte são e estão situadas, pois trata de explorar a habilidade de ver e descobrir as qualidades que constituem o mundo visual. (p. 37).
Ana Mae Barbosa afirma que a metodologia de ensino da técnica da colagem deve integrar a história da arte, o fazer artístico e a leitura da obra de arte.
Esta leitura envolve análise crítica da materialidade da obra e princípios estéticos ou semióticos, ou gestálticos ou iconográficos. O importante é que a obra de arte seja analisada para que se aprenda a ler a imagem e avaliá-la;
esta leitura é enriquecida pela informação histórica e ambas partem ou desembocam no fazer artístico. (BARBOSA, 2005, p. 37).
Ainda segundo Ana Mae Barbosa o mais importante na educação não é apenas ensinar história da arte, muito menos ensinar os alunos a fazer leitura da obra, mas, desenvolver a capacidade criativa de formular hipóteses, perceber a importância da arte no contexto escolar e contextualizar julgamentos acerca de imagens e de arte. (2005, p. 37).
Para Argan (1992) a arte tem a sua função social e também é tida como a única atividade não-programável numa sociedade de atividades programadas. Para ele a originalidade da invenção artística apresenta e aparenta ser um recurso vital para uma sociedade que deseja mudar e muda constantemente os estilos, os tipos e, principalmente, os produtos. (p. 320-326).
Desse modo, há diante dos olhos um universo amplo, uma vez que diz respeito ao que é humano e envolve o fazer, o fruir e o pensar. O fato é que o ensino da arte não poderia deixar de interagir com outras áreas do conhecimento. Dessa forma, o trabalho de produção e ensino da arte a ser desenvolvido pela escola deverá configurar-se numa concepção onde arte e educação sejam práticas que se relacionam com outras, pretendendo a criação de novas práticas na arte e na vida.
Nessa perspectiva, Maria Helena Ferraz & M. Rezende Fusari afirmam que:
A interação da criança com o mundo adulto amplia-se com todos os novos e novíssimos meios de comunicação como a televisão, o vídeo, o videogame, o vídeo interativo, o disco laser etc. De um modo geral, as crianças apropriam-se das imagens, sons e gestos contidos, nas mensagens veiculadas pelas mídias, reelaborando-os e reutilizando-os na maioria das vezes de uma maneira pessoal. Por isso, em nosso trabalho de intermediação educativa em arte devemos focalizar também as mídias, o universo tecnológico, as mais
recentes produções de design e de comunicação visual, musical ou outras que componham nossa ambiência. (FUSARI & FERRAZ, 1999, p. 44).
Nessa medida, a ênfase dada à aplicação da arte no processo ensino-aprendizagem,
tem a responsabilidade de promover a educação estética em sua totalidade. Uma proposta pedagógica em arte, por melhor que seja, não se sustenta se não contar com profissionais bem formados, que tenham uma visão humanista, crítica e um conhecimento de arte, pontos básicos para a sua qualificação.
Esse processo envolve experiência, discussão e reflexão, vinculadas à visão contemporânea da arte, do conhecimento e da produção criativa, vistas como históricas temporais e culturais. Portanto, é por meio do fazer, do apreciar e do contextualizar, que os alunos podem ter em suas vidas a oportunidade e espaço adequado para novas possibilidades na arte, vislumbrando assim, novas possibilidades de vida. Por fim, a importância dessa pesquisa é mostrar que o ensino da arte, hoje, é uma área do saber que pode e deve ser explorada. Pois o estudo das artes, em qualquer circunstância, oferece meios de realização no sentido da busca de experiências novas e ricas, ampliando o campo dos valores e dando um cunho mais dinâmico à existência individual.
Na Parte III dessa pesquisa será verificado que a técnica da colagem, pode ser um meio capaz de sensibilizar o aluno apenas pela simples disposição – com certa ordem determinada por ele mesmo a partir dos conhecimentos artísticos adquiridos no decorrer do ano – dos elementos materiais que o compõem. E que por outro lado, não é necessário que estes elementos tenham afinidade entre si – areia, vidro, espelho, tecido, etc. – podendo mesmo ser objetos do cotidiano como fragmentos de papel de jornal, papel de parede, etc., agora investidos com um valor estético.
O ensino da arte e a colagem
Ao longo dos anos, muito se tem falado e escrito sobre a necessidade da inclusão da
arte na escola de forma mais efetiva. Com isso, muitas experiências têm acontecido no campo do ensino da arte dentro da escola, no contato direto com professores, diretores das escolas e coordenadores pedagógicos. Porém, é na prática pedagógica no campo da arte que se nota a grande distância entre teoria e prática M. Helena Ferraz & M. Rezende Fusari esclarecem que:
No âmbito artístico, um processo de comunicação cultural tem se encarregado de efetivar essa difusão de imagens e sons por vários meios:
rádio, discos, cartazes, revistas, exposições, concertos, cinema, vídeos, televisão, luminosos de rua, computadores. E o faz com uma velocidade tal que nos empurram o os educadores de hoje – a encontrar maneiras contemporâneas de intermediar esses inúmeros conhecimentos ou representações de mundo, presentes em nossas práticas sociais cotidianas.
(FERRAZ & FUSARI, 1999, 43).
Com isso, muitos equívocos são cometidos com relação ao ensino na arte-educação, e a questão passa despercebida na maioria das vezes em que se questionam as vivências com a arte em sala de aula. Ana Mae Barbosa diz que “precisamos levar a arte que hoje está circunscrita a um mundo socialmente limitado a se expandir, tornando-se patrimônio da maioria e elevando o nível de qualidade de vida da população.” (BARBOSA, 2005, p. 6).
Para que esta afirmação se torne uma realidade, é necessário acreditar que é por meio do espaço educacional que se pode efetivamente dar uma contribuição no sentido de possibilitar o acesso de uma grande maioria dos educandos à arte.
Nossa concepção de história da arte não é linear, mas pretende contextualizar a obra de arte no tempo e explorar suas circunstâncias. Apesar de ser um produto da fantasia e imaginação, a arte não está separada da economia, política e dos padrões sociais que operam na sociedade.
Idéias, emoções, linguagens diferem de tempos em tempos e de lugar para lugar e não existe visão desinfluenciada e isolada. (BARBOSA, 2005, p. 19).
Contudo, sendo a escola o primeiro espaço formal onde se dá o desenvolvimento de
cidadãos, nada melhor que seja nela que se dê o contato sistematizado com o universo artístico e suas possibilidades de linguagens.
Logo é na cotidianidade que os conceitos sociais e culturais são construídos pela criança, por exemplo, os de gostar, desgostar, de beleza, feiúra etc. Esta elaboração se faz de maneira ativa, a criança interagindo vivamente com as pessoas e sua ambiência. (FERRAZ & FUSARI, 1999, p. 42).
Em outras palavras, a criança no ambiente escolar participa de diversas linguagens que possibilitam o fazer artístico. Sendo a colagem uma delas, por ter se tornado uma técnica privilegiada, justamente pela facilidade em se trabalhar com ela a partir dos recursos encontrados no dia-a-dia dos alunos, por exemplo: papel, sementes, e diversos outros tipos de matéria-prima como a madeira, galhos, folhas etc. Portanto, é bem melhor que o fazer artístico se faça por meio da técnica da colagem, trabalhando os objetos do cotidiano, a apropriação de imagens da mídia, tudo a partir de um olhar crítico incentivado e explorado pelo professor em sala de aula. Anamelia Bueno Buoro exemplifica que:
Como estruturação sensível e cognitiva, a arte requer então o desenvolvimento de competências para poder ser sentida e significada. O caminho para o desenvolvimento dessas competências do professor de arte, mas igualmente do aluno, da pré-escola à universidade, enfim, de qualquer sujeito do mundo que entra em contato com a arte, tem uma trajetória, cujo ponto de partida é a presença da arte, que se apresenta por si mesmo.
(BUORO, 2002, p. 10).
Buoro (2002) quer dizer que o indivíduo tocado pela arte vivencia um “encontro extraordinário” que determina inevitavelmente sua apreensão estética. Contudo, o que se percebe é que o ensino da arte ainda permanece relegado ao segundo plano, ou é encarado como mera atividade de lazer e recreação. Infelizmente, esta não é uma visão somente compartilhada pelos alunos, mas também pelo profissional contratado. O fato de muitos terem que lidar com os conteúdos das linguagens de forma polivalente, e ter em um pequeno
número de horas destinadas ao ensino das linguagens artísticas, faz com que o trabalho fique prejudicado.
Além disso, é comum notar que muitas pessoas vivem, na cultura contemporânea, com sentimentos de indiferença, desconhecimento do seu mundo e dos seus valores. Portanto, a automotivação, a qualidade intelectual, a sensibilidade estética têm papéis predominantes no desempenho mais equilibrado do indivíduo, assim como a amplitude do seu campo de ação e de visão, pois:
O aluno deve chegar a compreender a leitura visual como tradutora da visão de mundo de cada leitor, uma vez que o repertório individual também está incluso neste processo de tradição, sintonizado com a particularidade de visão do autor. (BUORO, 2003, p. 17).
A partir dessa afirmação, Buoro indica que a leitura visual que o aluno faz de qualquer obra que seja, deve ser compreendida a partir de seu próprio mundo, apresentando assim, o seu repertório pessoal conectado à visão do autor. Deste modo, “a arte é uma forma do homem entender o contexto ao seu redor e relacionar-se com ele” (id. 20). Também é importante reconhecer não só a necessidade da arte, mas a sua capacidade transformadora, com isso, os educadores estarão contribuindo para que o acesso a ela seja um direito do ser humano. E esta capacidade transformadora pode ser encontrada no fazer artístico a partir da técnica da colagem, que estimula a criatividade dos alunos dando-lhe suporte para criar a partir do próprio contexto ao qual está inserido. É imprescindível perceber que o fazer artístico e a fruição estética contribuem para o desenvolvimento das crianças e dos jovens. Isso lhes dá a certeza da capacidade de olhar o mundo de modos diferentes.
Deste modo, a libertação das possibilidades criadoras do ser humano é uma condição básica da verdadeira educação, especialmente no que diz respeito à educação artística.
A relação pedagógica autêntica é um contato de confiança, no qual existe a
necessidade mútua de crescer. Antes de tudo o professor de artes precisa ser um indivíduo de consciência e amplo senso crítico, para alertar, despertar e fomentar tal consciência, capacidades e potencial em seus alunos.
Na Escola
O ensino da arte deve estar em consonância com a contemporaneidade. A pesquisa e a construção do conhecimento são de grande valor tanto para o educador quanto para o educando, rompendo com a relação sujeito/objeto do ensino tradicional. Dessa forma, o ensino da arte está intimamente ligado ao interesse de quem a apreende.
Não é possível o desenvolvimento de uma cultura sem o desenvolvimento das suas formas artísticas. Não é possível uma educação intelectual, formal ou informal, de elite ou popular, sem arte, porque é impossível o desenvolvimento integral da inteligência sem o desenvolvimento do pensamento divergente, do pensamento visual e do conhecimento presentacional que caracteriza a arte. (BARBOSA, 2005, p. 5).
Esta maneira de propor o ensino da arte rompe barreiras de exclusão, visto que a prática educativa está embasada não no talento ou no dom, mas na capacidade empírica e, principalmente, na capacidade de experienciar de cada um.
Se pretendemos uma educação não apenas intelectual, mas principalmente humanizadora, a necessidade da arte é ainda mais crucial para desenvolver a percepção e a imaginação, para captar a realidade circundante e desenvolver a capacidade criadora necessária à modificação desta realidade.
(BARBOSA, 2005, p. 5).
A concepção de arte no espaço escolar implica numa expansão do conceito de cultura, ou seja, toda e qualquer produção e as maneiras de conceber e organizar a vida social são levadas em consideração. Cada grupo inserido nesses processos configura-se pelos seus valores e sentidos, e são atores na construção e transmissão dos mesmos. A cultura está em permanente transformação, ampliando-se e possibilitando ações que valorizam a produção e a
migração do conhecimento. Cabe então negar a divisão entre teoria e prática, entre razão e percepção, ou seja, toda fragmentação da vivência e do conhecimento.
Esse processo pedagógico busca a dinâmica entre o sentir, o pensar e o agir.
Promove a interação entre saber e prática relacionados à história, às sociedades e às culturas, possibilitando uma relação ensino-aprendizagem de forma efetiva, a partir de experiências vividas, múltiplas e diversas. Considera-se também nessa proposta a vertente lúdica como processo e resultado, como conteúdo e forma.
O que a arte na escola principalmente pretende é formar o conhecedor, fruidor, decodificador da obra de arte. Uma sociedade só é artisticamente desenvolvida quando ao lado de uma produção artística de alta qualidade há também uma alta capacidade de entendimento desta produção pelo público.
(...) Desenvolvimento cultural que é a alta aspiração de uma sociedade só existe com desenvolvimento artístico neste duplo sentido. (BARBOSA, 2005, p. 32).
No entanto é necessário que a escola possa considerar na sua programação vivências onde o lúdico essencial esteja presente. Reconhecendo assim, a técnica da colagem como um ramo da arte e fonte efetiva de conhecimento, e que a mesma contém em si um universo de componentes pedagógicos, capaz de facilitar o processo de ensino-aprendizagem.
Com isso, os educadores poderão abrir espaços para manifestações que possibilitem o trabalho com a diferença, o exercício da imaginação, a auto- expressão, a descoberta e a invenção, novas experiências, perceptivas, experimentação da pluralidade, multiplicidade e diversidade de valores, sentido e intenções.
Dessa forma, um programa educacional não pode tornar a arte um elemento decorativo ou festivo. A arte deve ser utilizada para valorizar a organização do mundo da criança e do jovem, sua auto-compreensão, assim como o relacionamento com o outro e com o seu meio. E por pensar num projeto e no seu processo, para que cada etapa possa apresentar resultados que possam se tornar ou não outro projeto. Os resultados dos processos a partir da
técnica da colagem podem ser uma etapa, e que sua finalização consista, por exemplo, em cenários de espetáculos teatrais, exposições, mostras etc.
A finalização desses trabalhos não deve ser a meta principal para a sua realização, e sim a pesquisa e o desenvolvimento do educando nas respectivas linguagens artísticas, o crescimento da sua autonomia e a capacidade inventiva. E isso vale tanto para a técnica da colagem como tantas outras técnicas e modalidades artísticas. Por isso, os projetos devem levar em conta os valores e sentidos do universo cultural dos alunos, possibilitando a vivência com o repertório já existente, assim como sua ampliação e novas possibilidades de expressão.
Entender e estimular o ensino da arte nessa perspectiva tornará a escola um espaço vivo, produtor e revelador de um conhecimento novo, que aponta para a transformação.
A interação entre a concepção de arte e a concepção de educação encaminha-se na confluência do que conhecemos como arte-educação, conceito este que aponta para o entendimento de uma questão mais ampla que é a arte no espaço educativo, ou seja, um projeto pedagógico com uma prática efetiva em arte.
Como a matemática, a história e as ciências, a arte tem domínio, uma linguagem e uma história. Constitui-se, portanto, num campo de estudos específicos e não apenas em meia atividade (...). A arte-educação é epistemologia da arte e, portanto, é a investigação dos modos como se aprende arte na escola de 1° grau, 2° grau, na universidade e na intimidade dos ateliers. Talvez seja necessário para vencer o preconceito, sacrificarmos a própria expressão arte-educação que serviu para identificar uma posição e vanguarda do ensino da arte contra o oficialismo da educação artística dos anos setenta e oitenta. Eliminemos a designação arte-educação e passemos a falar diretamente de ensino da arte e aprendizagem da arte sem eufemismos, ensino que tem de ser conceitualmente revisto na escola fundamental, nas universidades, nas escolas profissionalizantes, nos museus, nos centros culturais a ser previsto nos projetos de politécnica que se anunciam.
(BARBOSA, 2005, p. 6-7).
Essas considerações a respeito do ensino da arte no espaço formal da educação levam à reflexão sobre as propostas desenvolvidas nos espaços informais aonde a arte vem ocupando o seu lugar, de forma a garantir uma real experiência por parte dos educandos.
Técnicas artísticas são constantemente criadas e reinventadas, possibilitando a criação e o crescimento do aluno. Dessa maneira, os processos criadores dos educandos tornam-se diferenciados e variados, sendo acompanhados pelos professores de arte por meio da observação e anotação de cada etapa, verificando-se interrupções, retomadas, acréscimos, desvios, novos caminhos, continuidade, descontinuidade, escolha, seleção, ordenação. Cada processo desencandeia outros processos, tendo como norte o desenvolvimento progressivo da criação pessoal, estimulado pelas interações significativas entre educandos e educadores.
A escola poderá utilizar as experiências positivas realizadas nos espaços de educação informal, trazendo a prática do ensino da arte para a sua estrutura, possibilitando a igualdade de participação e a construção do saber. Também é necessário inserir a compreensão do que se faz em arte no país e no mundo, de forma a estruturar cidadãos com uma formação estética, capazes de dialogar com os códigos, semelhanças e diferenças dos diversos contextos culturais.
O ensino de arte, hoje, é uma área do saber, uma disciplina com origem, história, questões e metodologia. Assim como em outros ramos do conhecimento, não há uma homogeneidade entre as abordagens nessa área. Talvez apenas nos pressupostos mais abrangentes. Abordagens diversas e práticas diferenciadas estão sendo trabalhadas por profissionais interessados no assunto. Podem-se identificar relações com alguma concepção de arte, filosofia, pedagogia nas bases de cada uma.
Nossa idéia de leitura da imagem é construir uma metalinguagem da imagem. Não é falar sobre uma pintura, mas falar a pintura num outro discurso, às vezes silencioso, algumas vezes gráfico, e verbal somente na sua
visibilidade primária. Nossa concepção de história da arte não é linear, mas pretende contextualizar a obra de arte no tempo e explorar suas circunstâncias. Pretendemos mostrar que a arte não está isolada de nosso cotidiano, de nossa história pessoal. (BARBOSA, 2005, p. 19).
O estudo das artes, em qualquer circunstância, oferece meios de realização no sentido de busca de experiências novas e ricas, ampliando o campo dos valores e dando um cunho mais dinâmico à existência individual. A educação artística, no seu âmago, coloca como principal esforço a singularidade de cada pessoa. É um princípio básico e fundamental da boa educação pela arte que todos os alunos em qualquer idade possam observar e descobrir por si mesmos suas próprias forças, inclinações, possibilidades e limitações.
Algumas considerações
A partir de tais propostas apresentadas para o estuda da arte por meio da colegem, torna-se possível estimular os educandos a utilizarem a técnica da colagem, o professor terá a oportunidade de conhecer, entender e compartilhar da realidade, da visão e do mundo ao qual o aluno reflete por meio das representações imagéticas criadas. Com isso, cria-se a oportunidade do aluno desenvolver por meio da colagem o gosto pelos outros campos da arte.
Uma proposta em arte que parta deste princípio traz para as suas atividades um grande número de interessados. Esses educandos se reconhecerão como participantes e construtores de seus próprios caminhos e saberão avaliar de que forma se dá o aprendizado em seu cotidiano. A arte fará parte de suas vidas e terá um sentido, deixando de ser algo incompreensível e elitista, distante de sua realidade.
O fato é que a arte é um universo amplo, que diz respeito ao que é humano e envolve o fazer e o pensar, portanto, o ensino da arte não poderia deixar de interagir com outras áreas do conhecimento. Dessa forma, o trabalho de produção e ensino da arte a ser desenvolvido pela escola deverá configurar-se numa concepção onde arte e educação sejam práticas que se relacionam com outras, pretendendo a criação de novas práticas na arte e na vida.
A escola poderá utilizar as experiências positivas realizadas nos espaços de educação informal, trazendo a prática do ensino da arte por meio da técnica da colagem para a sua estrutura, possibilitando a igualdade de participação e a construção do saber. Também a compreensão do que se faz em arte no país e no mundo, de forma a estruturar cidadãos com uma formação estética, crítica, capaz de dialogar com os códigos, semelhanças e diferenças nos diversos contextos culturais.
Por fim, entender e estimular o ensino da arte nessa perspectiva de desenvolver a aula a partir dos variados métodos que a técnica da colagem proporciona, tornará o aluno um ser fazedor de arte, observador e descobridor de suas próprias forças, inclinações, possibilidades e limitações. Além do mais, tornará a escola um espaço vivo e produtor de um conhecimento novo, revelador, que aponta para a transformação. O desenvolvimento da arte por meio da técnica da colagem coloca, sobretudo, como principal referência a singularidade existente em cada aluno.
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