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Vista do A MORTE DO SER-AÍ

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Academic year: 2023

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AMORTEDOSER-AÍ:ANÁLISEDOCONTO“OMURO”SEGUNDOMARTIN HEIDEGGER

Caroline De Paula Bueno1

RESUMO: Esse trabalho se apresenta em três momentos, sendo eles basilares para abrangerem os objetivos específicos propostos; Assim, iniciamos com um aporte geral sobre o entendimento do autor principal trabalhado, Heidegger, sobre a morte do ser-aí como uma possibilidade de vir-a-ser, ou seja, o morrer é algo próprio do ser, é uma possibilidade que a todo momento está pendendo no poder-ser.

Com isso, podemos dizer, que é só a partir do momento que o ser-aí não é mais um ser-aí que ele passa a alcançar toda sua totalidade. E a partir desses pontos apresentados que fizemos uma leitura aprofundada e um resumo do conto sartriano “o muro”, para podermos partir para uma análise existencial heideggeriana do conto, em especial do personagem Pablo Ibbieta, o qual consideramos como personagem principal do conto.

PALAVRAS – CHAVE: Heidegger; Morte do ser-aí; Conto O Muro. Sartre.

THE DEATH OF THE DASEIN: ANALYSIS OF THE STORY “THE WALL”

ACCORDING TO MARTIN HEIDEGGER

ABSTRACT: This work is presented in three stages, each one essential to cover the proposed specific objectives; Thus, we begin with a general contribution on the understanding of the main author worked, Heidegger, on the death of the being-there as a possibility of-becoming, meaning that, dying is something proper to being, it is a possibility that every moment is hanging on being-able. With that, we can say that it is only from the moment that the Dasein is no longer a Dasein that it starts to reach all its totality. With those points presented we made an in-depth reading and a summary of the Sartrean short story “the wall”, to be able to start with a Heideggerian existential analysis of the short story, in particular of the character Pablo Ibbieta, who we consider as the main character of the short story.

KEYWORDS: Heidegger; Death of the Dasein; Tale the Wall. Sartre.

INTRODUÇÃO

Esse trabalho tem como objetivo geral fazer uma análise da morte do ser-aí no conto “O Muro”, conto esse que retrata o momento do julgamento e condenação de três presos políticos no período da guerra civil da Espanha (1936-1939), e que perante esse momento se veem com a possibilidade de não ser mais um ser-aí, ou seja, perante a morte pendente.

Assim, partimos para um apanhado geral do entendimento do autor para o tema da morte.

Sendo que, para ele (Heidegger), o ser-aí está em um constante pender, pendendo de ser um ser-aí com todas as suas possibilidades, para se tornar um ser “completo”. Além disso essa inclinação possui

1 Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Toledo, PR, Brasil. Correio eletrônico: [email protected].

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caráter de vir a ser não-ser-mais-ser-aí, e com isso, findar seu modo de ser no mundo, o que é algo característico e singular de cada ser-aí existente.

Outrossim, esse ainda-não do ser-aí representa uma apreensão perceptiva, que pertence unicamente ao ser-aí e se mantem de forma provisória e momentaneamente inacessível a experiência do ser-aí, pois ainda não se tornou “real”, ou seja, essa realidade da morte ainda não se deu. Além disso, esse findar das possibilidades, não espera para que o ser-aí tenha “completado” seus projetos, mesmo que esse ser-aí esteja incompleto o seu não-ser-ainda pode iminentemente ocorrer.

Com esses pontos postos, passamos para a parte final do artigo, em que pretendemos fazer uma análise existencial heideggeriana do personagem principal do conto, que mesmo na incompletude de seus projetos e planos, se vê cada vez mais próximo de não ser mais um ser-aí, e com isso tornando um poder-ser de fato, pois é a partir desse ponto, de não ser mais um ser-aí e poder passar a ser sua totalidade existencial.

OSER-PARA-MORTE

Iniciamos esse texto com a afirmativa pela qual irá circundar esse trabalho, de que o ser- para-morte é um ser para uma possibilidade, ou seja, é somente a partir dessa certeza, de ser um ser- para-morte que o ser-aí será lançado no mundo como uma possibilidade de..., uma possibilidade de vir-a-ser.

Assim, o ser-aí2 existe devido a uma virtude de si mesmo e com isso está em um constante relacionar com o seu poder-ser. E isso não pode não ocorrer, pois, por mais que haja falta de esperança de suas possibilidades, o ser-aí ainda terá seu próprio modo de ser para as possibilidades que se apresentam a ele. Segundo Heidegger,

Elaborar a questão do ser significa [...] tornar transparente um ente – o que questiona – em seu ser. Como modo de ser de um ente, o questionamento dessa questão se acha essencialmente determinado pelo que nela se questiona – pelo ser. Esse ente que cada um de nós somos e que, entre outros, possui em seu ser a possibilidade de questionar, nós o designamos com o termo ser-aí. A colocação explícita e transparente da questão sobre o sentido do ser requer uma explicação prévia e adequada de um ente (ser-aí) no tocante a seu ser (2015, p. 42).

2O ser-aí, o Dasein, aparece nas obras de Heidegger sempre situado em um contexto de vivência com o mundo em que está inserido, esse ser-aí não está apenas lançado em um espaço. O autor nos apresenta em sua ontologia o conceito de ser-no-mundo que nos mostra uma inseparabilidade do ser-aí com o mundo em que vive e também em relação ao ser-aí com o mundo. Segundo Heidegger (2015, p. 99), “ser “em um mundo” e nos vemos tentados a compreender o ser-em como um estar “dentro de...”. Com está última expressão, designamos o modo de ser de um ente que está num outro, como a água está no copo, a roupa no armário. Com este “dentro” indicamos a relação recíproca de ser de dois entes extensos “dentro” do espaço, no tocante a seu lugar neste mesmo espaço”.

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Com isso, Heidegger afirma que “no ser-aí, há sempre ainda algo pendente, que ainda não se tornou real” (HEIDEGGER, 2015, p. 309). Ou seja, há sempre uma inclusão no ser-aí, ele ainda não alcançou o seu todo, todo esse, que só poderá alcançar quando já não for mais um ente.

Além disso, no momento que esse ente alcança sua totalidade de ser, ele já não é mais. Pois, o ser-aí só alcança sua totalidade com a morte. E por mais que esse ser-aí tente conhecer sua totalidade, ele está impossibilitado disso, pois só conseguimos ter acesso a morte dos outros, e por mais penetrante que possa ser não podemos objetivamente acessar nosso próprio findar. Desse modo, podemos experimentar o fenômeno da morte do outro com relação as alterações que ocorrem quando um ente passa a não ser mais ser-aí, que ele passa a não ser mais possibilidade, e sim, uma coisa material destituída de vida (HEIDEGGER, 2015).

Outrossim, a morte que nós presenciamos se desvela como perda, perda vivida pelos que ficaram, e por mais difícil que seja, não podemos ter essa experiência nós mesmos, o que no máximo conseguimos fazer é estar junto com. Pois cada ser-aí só pode assumir a sua própria morte, é algo essencialmente meu, ou seja, é uma possibilidade ontológica singular. O morrer não é algo dado, mas sim, “um fenômeno a ser compreendido existencialmente num sentido privilegiado” (HEIDEGGER, 2015, p. 314).

Tal privilégio, contudo, não diz respeito ao poder de dominação sobre outros entes. Privilégio diz respeito ao modo de ser do ente que existe, pois, enquanto lançado e jogado no mundo, está continuamente na possibilidade, na tarefa, na responsabilidade de assumir-se dessa ou daquela maneira. Nesse sentido, está na responsabilidade de dar sentido à totalidade dos entes, tanto aos entes que não são ele mesmo como aos entes que são ao modo dele mesmo.

Esse modo de compreender existencialmente o ser humano, como ser-aí revela que ele é um ente concreto, finito, mortal, histórico, temporal (KIRCHNER, 2016, p. 9).

Com isso, o findar do ser-aí, a morte, faz com que ocorra a totalidade da constituição do ser- aí. Ou seja, quando ocorre a passagem desse ser-aí para se tornar não mais ser-aí, se tornando um não-mais-ser-no-mundo. Assim, o ser-aí está em um constante pender, e isso tem um caráter de não- ser-mais-ser-aí, e com isso chega ao fim de suas possibilidades, sendo que isso só ocorre de maneira insubstituível para cada ser-aí singular (HEIDEGGER, 2015).

Desse modo, estar pendente é não estar ajuntado, não estar em sua totalidade. E esse ainda- não do ser-aí se manterá provisoriamente e momentaneamente inacessível a experiência porque ainda não é tido como real. Além disso, para Heidegger, o ainda-não faz parte constituinte do próprio ser3,

3 “O Dasein é o ente a quem o ser diz respeito. Mas o Dasein é – nós mesmos, a cada vez. [...] o Dasein não é outra coisa senão o homem, um outro ente, trata-se de nós mesmos, mas nós mesmos pensados a partir da relação com o ser, isto é, com nosso ser próprio, com o das coisas e dos outros. Dasein diz a humanidade do homem como relação com o ser. [...]

Qual o modo de ser específico do Dasein? A existência” (DUBOIS, 2004, p. 17).

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visto que, o ser-aí quando nasce já está incutido o seu ainda-não. “É um ainda-não que, enquanto ente que é, cada ser-aí tem de ser” (HEIDEGGER, 2015, p. 318).

Com isso, pode-se dizer que, para que essa experiência do ser-aí se complete, é preciso que ocorra sua morte, e isso irá ocorrer independente desse ser-aí ter conseguido ou não “completar” suas possibilidades. Segundo Heidegger, ela irá acabar na “incompletude ou na decrepitude e desgaste”.

Nesse ponto, vale ressaltar que o findar não é necessariamente um sinônimo para se completar. Mas sim como um término, um passe para não ser mais, ou ser dado com o fim. Isso porque, quando dizemos de algo acabado, completo, diz de algo que tenha determinação, ou um ser dado. Já no que diz respeito a morte do ser-aí, ele simplesmente não desaparece, nem se acaba e nem está disponível a mão, por isso não pode ser caracterizada como um fim no sentido de findar a chuva, por exemplo.

Assim, a morte é um modo de ser que o ser-aí assume no momento que é um ser existente.

Ou seja, a morte é um fenômeno da vida. E só chega ao fim com o findar do ser vivo. “Morrer, por sua vez, exprime o modo de ser em que o ser-aí é para sua morte. Assim, pode-se dizer: o ser-aí nunca finda. O ser-aí só pode deixar de viver na medida em que morre” (HEIDEGGER, 2015, p. 322). E isso, é uma possibilidade privilegiada do ser-aí, pois, se não houvesse essa possibilidade do seu fim, o ser-aí seria um projeto completo e não um vir-a-ser.

Segundo Heidegger, “para o ser-aí, o fim é impendente. A morte não é algo simplesmente ainda-não dado e nem o último pendente reduzido ao mínimo, mas, muito ao contrário, algo impendente e iminente” (HEIDEGGER, 2015, p. 325). Ou seja, a morte do ser-aí é a última possibilidade, a possibilidade de poder não mais ser ser-aí. E quando o ser-aí se entende como um ser que só será completo com seu fim isso pode gerar angústias. Essa angústia com a morte ocorre devido a percepção de que sua própria morte é algo irremissível e insuperável. Essa angústia, porém, não pode ser confundida com o medo de deixar de viver, mas sim uma forma de abertura de que como ser-lançado-no-mundo, o ser-aí existe para seu fim.

Com isso dado podemos partir para o conceito existencial da morte, visto que, o ser-para-o- fim é o ser mais próprio, irremissível e insuperável; é algo certo, porém é algo indeterminado, não podemos ter certeza de quando irá ocorrer, somente que é possível que ocorra a todo instante. A partir disso, podemos dizer que o conceito existencial de ser-para-o-fim irá servir para a elaboração de um modo de ser do ser-aí em que ela se de como todo. Pois, como ser-aí já lançado ao mundo, ele já está responsabilizado por sua morte.

Assim, “o ser-para-a-morte em sentido próprio significa uma possibilidade existenciária do ser-aí” (HEIDEGGER, 2015, p. 336). Aqui podemos apontar que o ser-para-a-morte não pode escapar

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das possibilidades que são suas de maneira própria e irremissível, pois o projeto existencial de cada ser-para-a-morte deve se constituir como forma de compreensão da morte como possibilidade. Essa possibilidade deve ser compreendida como tal, sem nenhum atenuante, e deve ser construída como possibilidade, e assim, suportada como uma possibilidade.

Com isso, “o ser para a possibilidade enquanto ser-para-a-morte, no entanto, deve relacionar- se para com a morte de tal modo que ela se desvele nesse ser e para ele como possibilidade”

(HEIDEGGER, 2015, p. 339). Ou seja, é preciso que o ser-aí se relacione com a morte para a partir disso possa aumentar sua possibilidade de possíveis, para que possa antecipar o que está por vir, a morte.

RESUMODOCONTOOMURO

O conto apresentado nesse artigo aconteceu na Espanha durante a Guerra Civil (1936-1939).

O conto relata a história de três homens que foram presos e foram condenados a execução.

A história é narrada em primeira pessoa por aquele que consideramos o personagem principal do livro, Pablo Ibbieta; a narrativa começa com o julgamento e a sentença dos três homens:

Pablo Ibbieta, Tom e Juan. Logo após a sentença eles são levados a permanecer em um porão de um hospital abandonado para esperar a execução.

Nesse local frio, eles passam a noite agonizando sobre a ideia de morrer no dia seguinte.

Pablo e Juan tentam uma forma de racionalizar essa morte iminente, porém são traídos por seus próprios corpos que começam a externalizar seus medos, por meio de tremores, suores e até incontinência urinária.

No meio da noite um médico belga é encaminhado para essa sala junto com dois soldados, esses permanecem ali com o intuito de fazer esse momento “menos difícil”, e é em comparação com esses homens que acabaram de chegar que Pablo irá comparar seus corpos, como corpos de quem já está morto e corpos que ainda estão vivos.

Com isso Pablo começa a fazer um apanhado geral de sua história de vida até aquele momento. Os principais pontos de análise do personagem são os objetos familiares, pessoas, amigos, estranhos, memórias e desejos. Sendo que, ao chegar a manhã, ele já não entende mais o porquê de suas preocupações anteriores.

Assim, momentos antes de sua execução, quando interrogado novamente sobre o paradeiro de Ramon Gris, Pablo começa a achar graça de sua teimosia, e com isso decide não entregar o colega de resistência. Porém, para fazer graça e pregar uma peça aos soldados ele inventa um novo paradeiro para Ramon, pois naquele momento, “tudo era de uma comicidade irresistível” (SARTRE, 2017, p.

29).

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No fim, a localização apontada por ele acabou por ser verdadeira, e com isso ele deixou de ser executado naquele momento, passando a ficar junto com os outros presos no pátio.

ANÁLISEDOCONTOSEGUNDOAPERSPECTIVAHEIDEGGERIANA

Partiremos nossa análise do ponto em que o personagem de Pablo Ibieta se percebe refém, em consequência de suas escolhas, preso e prestes a morrer por crimes políticos cometidos.

-Você é Pablo Ibbieta? –Sim, senhor. O sujeito olhou seus papéis e me perguntou: -Onde está Ramón Gris? –Não sei. –Você o escondeu na sua casa do dia 06 ao dia 19. –Não, senhor.

Eles escreveram qualquer coisa e me fizeram sair. No corredor, Tom e Juan esperavam entre dois guardas. Pusemo-nos em marcha. Tom perguntou a um dos guardas: -E agora? –O que?

–Foi um interrogatório ou um julgamento? –Julgamento. –Respondeu o guarda. – E então?

O que vão fazer de nós? O guarda respondeu secamente: -Vocês receberão a sentença nas celas (SARTRE, 2017, p. 9-10).

Dessa forma, nos cabe analisar como que Pablo Ibbieta passa a ressignificar sua existência a partir desse momento, já que suas vontades passam a não mais ser uma possibilidade plena, já que se encontrava enclausurado. Nesse ponto, o personagem percebe que pode vir a perder o seu vir-a- ser. Segundo Heidegger, mesmo com essa irritação e o pensamento da morte o deixando paralisado e sem esperanças, isso não significa, porém, que se findou as suas possibilidades, haja visto que para as possibilidades se findarem é preciso que o ser-aí já não esteja presente, ou seja, que esteja morto.

Mas a coisa me irritava: eu nunca pensara na morte porque a ocasião nunca se apresentara;

agora, porém, a ocasião tinha chegado e não havia outra coisa a fazer senão pensar nela (SARTRE, 2017, p. 13).

Assim, o personagem começa a entender que sua presença ali naquele lugar gera uma possibilidade de sua morte iminente, pois nesse ponto ele já tinha sido condenado a morte por fuzilamento. E com isso, ocorre a angústia; segundo Laporte, “é na angústia que o ser-para-a-morte

“sente”, de forma mais aguda e original, essa possibilidade impossível” (LAPORTE, 2009, p. 116).

Essa angústia se apresenta em Ibbieta de maneira tão tangível que ele começa a sentir desarranjos físicos em detrimento dessa possibilidade que se mostra frente a ele.

[...]. Cheirava a urina como os velhos prostáticos. Naturalmente, eu pensava como ele e tudo quanto me dizia eu poderia lhe dizer – esse negócio de morrer não é nada natural. E, como eu ia morrer mesmo, nada mais me parecia natural, nem o monte do carvão, nem o banco, nem a boca imunda de Pedro [...] (SARTRE, 2017, p. 20).

Outro ponto importante de se analisar, diz respeito a forma com que Tom estava lidando com a situação da morte tão perto de ocorrer; pois, para ele se mostrou mais fácil lidar com a morte estando ligado a outro ser-aí do que ele próprio, pois, segundo Heidegger, “a morte dos outros, porém, torna-se tanto mais penetrante, pois o findar da presença é “objetivamente” acessível” (HEIDEGGER, 2015, p. 311). Assim, para ele se faz mais aprazível ele pensar em consolar o outro do que analisar o ponto de vista dele não ser mais um ser-aí no mundo.

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Esse é um ponto que Heidegger irá chamar de cotidianidade do ser-aí, pois no cotidiano, o senso comum, irá tentar consolar o outro que está perto de sua morte iminente, em uma busca constante de tranquilizar a respeito da morte. Pois, ele próprio não consegue ter coragem de assumir a angústia com a morte.

[...] Tom obedeceu a contragosto; gostaria de consolar o menino; aquilo o manteria ocupado, não lhe daria tempo de pensar em si próprio [...] tinha medo de me ver suado e cinzento;

estávamos iguais e piores do que espelhos um para o outro. Ele olhava o belga, o "vivo"

(SARTRE, 2017, p.13 e 17).

Assim, Heidegger irá apontar que cabe a cada ser-aí assumir sua própria morte, movimento esse que causa angústia em Ibbieta, pois em várias ocasiões ele se viu obrigado a enfrentar a situação de que poderia findar seu vir-a-ser e que por mais que as adversidades se apresentavam em seu caminho ele ainda tinha forças para seguir em frente. Isso significa que perante essa possibilidade ontológica singular, de morrer, de findar sua existência, ele fez a escolha de lutar para que esse fim não chegasse até ele. Porém, após essa sentença, e essa nova possibilidade de não ser mais um ser-aí, ele se retrai, e se questiona o porquê de toda aquela energia gasta para sobreviver, sendo que a morte é algo iminente e que mais cedo ou mais tarde irá ocorrer para todos.

[...]. Uma onda de lembranças surgiu em confusão, tanto as boas quanto as ruins [...] Lembrei- me de alguns episódios: o desemprego durante três meses em 1926, como escapei de morrer de fome. Recordei-me de uma noite passada num banco, em Granada; havia três dias que não me alimentava, estava enraivecido e não queria morrer. Aquilo me fez sorrir. Com que ansiedade eu corria atrás da felicidade, atrás das mulheres, atrás da liberdade...A troco de quê? (SARTRE, 2017, p. 21-22).

Além disso, Ibbieta tem uma visão da morte diferente da que o autor estudado aqui, visto que para ele a morte não pode jamais dar sentido à vida, pois significa suprimir toda a vida como conhecemos. O que Heidegger irá apontar vai ao contrário, pois segundo ele, a morte é um fenômeno da vida, algo constitutivo do ser-aí e não necessariamente é um fim do ser-aí, mas uma possibilidade privilegiada do ser-aí. E é esse ser-para-o-fim que possibilita que o ser-aí possa ser-todo, ou seja, isso possibilita que o ser-aí viva sua vida plenamente pois sabe que sua morte é algo impendente, que é algo imanente.

Assim, a morte jamais é aquilo que dá à vida seu sentido: pelo contrário, é aquilo que, por princípio, suprime da vida toda a significação. Se temos de morrer, nossa vida carece de sentido, porque seus problemas não recebem qualquer solução e a própria significação dos problemas permanece indeterminada (SARTRE, 1997, p. 661).

Após essa conversa interna que o personagem tem consigo mesmo, sobre o significado da morte, como algo que, para ele, não dá sentido à vida, ele se angustia. Essa angústia com a morte iminente é algo próprio, irremissível e insuperável, pois, ele se angustia com o próprio ser-no-mundo, é algo do poder-ser do ser-aí. Nesse ponto podemos levantar a questão sobre a angústia da morte, e o medo de deixar de viver, pois para o personagem essa passagem de um para o outro é marcante, pois antes desse momento de enclausuramento havia uma fuga de pensamento sobre sua própria morte,

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ele não levava em conta que é um ser-para-a-morte, e que isso é um fato, independente da forma como ele levou sua vida.

[...]. Olhei durante algum tempo o disco de luz que o lampião projetava no teto. Estava fascinado. Depois, bruscamente, voltei a mim, a roda luminosa desapareceu e me senti esmagado por um peso enorme. Não era o pensamento da morte, nem medo; era uma coisa sem nome. Minhas faces queimavam e eu sentia uma dor na cabeça (SARTRE, 2017, p. 15).

Assim, a confirmação dessa passagem sofrida por Ibbieta de ter medo da morte para se angustiar com a morte se mostra bem evidente nesse próximo trecho, pois, nesse momento ele passa a não mais ter medo de não mais viver e pensa em viver o momento, pois enquanto a morte ainda não ocorreu ele consegue se entender como um ser privilegiado e que pode ainda se relacionar com si mesma. Ou seja, ele toma para si a responsabilidade da possibilidade insuperável de sua morte.

[...] Mas não tinha vontade de perder duas horas de vida; viriam me acordar mal amanhecesse, eu os seguiria tonto de sono e estrebucharia sem um ai; não queria morrer como um animal, queria compreender (SARTRE, 2017, p. 21).

Já nesse ponto, Ibbieta se percebe ainda mais nesse ponto de angústia, com a possibilidade de não mais ser um ser-aí, pois aquela tentação, tranquilização e alienação que é característica própria do ser-aí que ainda não se deu conta de que sua finitude já não está mais presente. Ele se vê frente a determinação de que é um ser-para-o-fim, e que isso é algo próprio dele, é algo irremissível e insuperável.

Isso se dá, porque até aquele momento, ele ouvia os tiros, sabia o que estava acontecendo com os outros e até então, era a forma dele vivenciar a morte, por meio da experiência de morte dos outros. Sendo que a morte é algo inegavelmente fato da experiência individual de cada ser-aí.

No estado em que me achava, se viesse me avisar que eu poderia voltar tranquilamente para casa, que a minha vida estava salva, eu ficaria indiferente; algumas horas ou alguns anos de espera dão na mesma, quando se perdeu a ilusão de ser eterno. Não ligava mais para nada;

em certo sentido estava calmo. Era, porém, uma calma horrível – por causa do meu corpo;

enxergava com seus olhos, ouvia com seus ouvidos, mas não era mais eu; (SARTRE, 2017, p. 23-24).

Isso posto, ele passa a se ver de outra forma, se enxerga como um ser-aí totalmente diferente do que até então, e isso, faz com ele se pense como alguém inumano, alguém desprovido de humanidade, e com isso, passa a tomar uma resolução frente a possibilidade de sua morte, a de morrer firme. De não buscar alguma forma de se consolar com isso, como o senso comum faria.

Assim, segundo Heidegger, “a delimitação da estrutura existencial do ser para o fim serve para a elaboração de um modo de ser do ser-aí em que ele, enquanto ser-aí pode ser todo” (2015, p.

335). Ou seja, Ibbieta traz para si essa responsabilização de entender sua morte como dele, e com isso já não se angustia como antes perante essa possibilidade iminente que pende em ocorrer. De não ser mais um ser-aí, mas sim ser um ser “completo”.

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[...]. Um segundo, um único segundo, também tive vontade de chorar, de chorar de piedade de mim. Mas o que aconteceu foi o contrário; dei uma olhadela no garoto, vi seus magros ombros arquejantes e me senti inumano; não podia ter piedade nem dos outros nem de mim mesmo. Disse com meus botões: “Quero morrer firme” (SARTRE, 2017, p. 25).

Com isso, Ibbieta toma uma decisão perante a pressão de entregar o esconderijo de Gris, decisão essa que sem ele esperar, o leva para um caminho novo e, totalmente inesperado. Ou seja, abre novas possibilidades de lidar com a imanência de sua morte.

Entretanto, eu estava ali, podia salvar a pele entregando Gris e me recusava a fazê-lo. Achava aquilo meio cômico; era pura obstinação. Pensei: “Isso é que é ser teimoso”, e uma alegria esquisita me invadiu (SARTRE, 2017, p. 28).

Desse modo, com a clareza de que a morte é a possibilidade mais extrema desse ser-aí, Ibbieta passa a se responsabilizar por sua morte, pois no momento que apareceu a possibilidade de ele entregar Escobar e não o fez, isso abriu uma nova gama de poder-ser-no- mundo, ele trouxe para si a responsabilidade de seus possíveis. E essa nova possibilidade fez com que ele, mesmo não intencionalmente, pudesse se livrar da morte por fuzilamento.

CONSIDERAÇÕESFINAIS

Ao longo desse trabalho procuramos refletir sobre como o conceito da morte sob a ótica fenomenológica heideggeriana influência nos conceitos como o da morte. Para entender melhor a didática do autor e como ele representava seus conceitos, partimos de um romance sartriano para dar vida a esse conceito, e trazer para uma realidade mais palpável.

Portanto, o tema gerador de nossa análise foi a morte. E antes de entrar no conto “o muro”, procuramos entender o conceito da morte a luz da teoria fenomenológica do filósofo Heidegger. Desta forma entendemos que a morte nos acontece como uma possibilidade da impossibilidade da existência. Visto que, enquanto ser-para-a-morte vivemos no pender para o poder-ser, que é a morte.

REFERÊNCIASBIBLIOGRÁFICAS

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FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Psicologia Fenomenológica: fundamentos, métodos e pesquisa. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2009.

HEIDEGGER, Marin. Ser e tempo. Tradução Márcia Sá Cavalcante. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2015.

INWOOD, M. Dicionário de Heidegger. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

KIRCHNER, Renato. A analítica existencial heideggeriana: um modo original de compreender o ser humano. Rev. NUFEN [online]. 2016, vol.8, n.2 [citado 2023-01-20], pp. 112-128. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175- 25912016000200009&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 2175-2591.

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LAPORTE, Ana Maria Alexandre; VOLPE, Neusa Vendramin. Existencialismo: uma reflexão antropológica e política a partir de Heidegger e Sartre. Curitiba, PR: Editora Juruá, 2009.

SARTRE, J.P. O muro. Tradução H. Alcântara Silveira. Rio de Janeiro, RJ: Editora Nova Fronteira, 2017.

KAHLMEYER-MERTENS, Roberto S. 10 lições sobre Heidegger. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

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