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Opacidade (ou vitalidade) das classes sociais?

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DOSSIÊ

OPACIDADE (OU VITALIDADE) DAS CLASSES SOCIAIS?

hgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

A

yxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

s

SRQPONMLKJIHGFEDCBA

c i ê n c i a s s o c i a i s d o

t r a b a l h o , com o gosta

de denom inar o

soci-ólogo espanhol Juan José Castillo, encontraram -se,

nas últim as duas décadas,

rente à tese da

des-onstrução do trabalho, à

esaparição do l a b o r , que

er-se-ia convertido em

um valor em vias de

esaparição, tese "com

-provada em piricam ente"

pela redução eurocêntrica trabalhadores de

ori-em taylorista-fordista

com o se o t r a b a l h o se

um isse exclusivam

en-"e a essa fo r m a d e s e r ) ,

onde a crescente redução

em prego form al

leva-ria finalm ente ao

fim

d o

t r a b a l b o . O m undo cam

i-nhava, enfim , para o

edênico espaço da

frui-- o, com os robôs profrui--

pro-duzindo e os hom ens e

m ulheres vivendo as

nesses do ó c i o p r o d u

--;00.Houve até quem

dis-e, em m eados de 80,

sob os auspícios do

Clu-de Rom a, que no novo século que se

avizinha-'a, (quase) não m ais encontraríam os

- balhadores .... E eis que com eçou o novo século e grande parte daquela literatura envelheceu

pre-cocem ente, com os trabalhadores e as

trabalhado-ras do m undo ainda padecendo as atividades e

dversidades decorrentes do m undo do trabalho.

R IC A R O O A N T U N E S

R E S U M O

o

a rtig o e x a m in a o p o te n c ia l a n a lític o d a n o ç ã o d e c la s s e s s o c ia is , te n d o c o m o re fe rê n c ia a re fle x ã o b a s e a d a e m a lg u m a s o b ra s re c e n te s s o b re o te m a . N o liv ro re p u b lic a d o d e S e d i H ira n o s o b re c a s ta s , e s ta m e n to s e c la s s e s s o c ia is , s ã o d e s ta c a d o s e le m e n to s te ó ric o s e m e to d o ló g ic o s q u e s e s o b re s s a e m n a s o b ra s d e M a x W e b e r e K a rl M a rx . E s te d ife re n -c ia -s e d e W e b e r, a o -c o n -c e b e r a s -c la s s e s n o â m b ito d o lu g a r o -c u p a d o n o m u n d o d a p ro d u ç ã o , e s ta n d o o p rim e iro m a is v o lta d o p a ra a p o s s e d e b e n s e o p o rtu n id a d e s re g u la d a s p e lo m e rc a d o . N o liv ro d e K la u s s E d e r é d e s ta c a d o o e le m e n to c u ltu ra l, c a p a z d e c o n fe rir te o r a n a lític o à s c la s s e s s o c ia is p e rm e a d a s p o r c o n flito s e m o v im e n to s n ã o -re d u tív e is a o p la n o e s tru tu ra l. O liv ro d e J o s é A lc id e s S a n to s a n a lis a a p re s e n ç a d a s c la s s e s n a s o c ie d a d e b ra s ile ira , a rtic u la n d o s u a re fle x ã o te ó ric a c o m a c o n s tru ç ã o d e u m a tip o lo g ia b a s e a d a e m d a d o s e m p íric o s . O s e s tu d o s d o s a u to re s , p o r v ia d is tin ta s , c o m p ro v a m q u e , a o in v é s d o fim d a s s o c ie d a d e s d e c la s s e s , o b s e rv a s e o a u m e n to d e u m a c o m p le -x id a d e q u e é típ ic a d a s o c ie d a d e c o n te m p o râ n e a .

A B S T R A C T - U B S C U R IT Y (o a V IT A L lT Y ) O F T H E S O C IA L C L A S S E S

T h e a rtic le e x a m in e s th e a n a ly tic a l p o te n tia l n o tio n o f th e s o c ia l c la s -s e -s , h a v in g a -s re fe re n c e th e re fle c tio n b a -s e d in -s o m e re c e n t w o rk -s a b o u t th is th e m e . T h e re p u b lis h e d b o o k o f S e d i H ira n o e m p h a s iz e s th e o re tic a l a n d m e th o d o lo g ic a l re le v a n t e le m e n ts o f th e w o rk s re a liz e d b y M a x W e b e r a n d K a rl M a rx . T h is la s t a u th o r d iffe rs fro m W e b e r w h e n h e c o n c e p ts th e s o c ia l c la s s e s in th e s p h e re o f th e o c c u p ie d p o s itio n in th e p ro d u c tio n w o rld , w h ile th e firs t a u th o r is w o rrie d w ith th e p o s s e s s io n o f g o o d s a n d o p p o rtu n itie s re g u la te d b y th e m a rk e t. S e d i H ira n o 's b o o k ta lk s a b o u t c a s te s , s o c ia l g ro u p s h a v in g th e ir o w n ju rid ic a l s ta tu s a n d s o c ia l c la s s e s . K la u s s E d e r in h is b o o k e m p h a s iz e s th e c u l-tu ra l e le m e n t, w h ic h c a n a tlrib u te a n a ly tic a l te n o r to s o c ia l c la s s e s in v o lv e d th ro u g h c o n flic ts a n d n o t re d u c ib le m o v e m e n ts in th e s tru c tu ra l p la n . J o s é A lc id e s S a n to s ' b o o k a n a ly s e s th e p re s e n c e o f c la s s e s in th e B ra z ilia n s o c ie ty , a rtic u la tin g th is a u th o r's th e o re tic a l re fle c tio n w ith th e c o n s tru c tio n o f a ty p o lo g y b a s e d o n e m p iric d a ta . T h e a u th o rs ' s tu d ie s , th ro u g h d is tin c t v ie w s , a ffirm th e in c re a s in g o f a ty p ic a l c o m p le x ity o f th e c o n te m p o ra n e o u s s o c ie ty , in s te a d o f th e e n d o f a s o c ie ty s h a re d in c la s s e s .

• P ro fe s s o r T Itu la r d e S o c io lo g ia n o IF C H IU N IC A M P ,p e s q u is a d o r d o C N P q , e a u to r, d e n tre o u tro s liv ro s , d e O sSentidos do Trabalho(B o ite m p o ),

Adeusa o Trabalho? (E d . C o rte z lE d .U n ic a m p ) e C o o rd e n a d o r d a C o le -ç ã o Mundo do Trabalho (B o ite m p o E d ito ria l).

Algo assem elhado

vem ocorrendo com as

classes sociais. Num a

época em que tantos

afirm aram a perda da

validade analítica da

noção de classes sociais,

apregoaram a sua

opa-cidade, propugnaram a

perda de sua vitalidade

para com preensão da

textura social do capita-lism o tardio, três

publi-cações recentes são um

bom exem plo, tanto das

lim itações e equívocos

daquelas form ulações,

com o da força e

atuali-dade categorial das

clas-ses para se pensar a o

m undo contem porâneo.

Quando tantos

tam bém defendiam a

perda do potencial

ana-lítico da noção de

clas-se, outros reiteram (ou

ajudam a com

preen-der) a contem

pora-neidade, a efetividade

e a concretude das

elas-ses sociais.

Com ecem os pelo

ensaio C a s t a s , e s t a m e n t o s e c l a s s e s s o c i a i s . de

Sedi Hirano, agora republicado em edição

intei-ram ente revisada. 1

Escrito nos inícios de 70, com o Di

erta-ção de M estrado, Hirano concebeu um livro ao

m esm o tem po introdutório e didático, sério e

m eticuloso, percorrendo com parativam ente as

(2)

DOSSIÊ

yxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

noções de castas, estam entos e classes no

pen-sam ento dos dois gigantes das ciências sociais, W eber e M arx.

W eber, m oldado por um a visão

SRQPONMLKJIHGFEDCBA

p o l i h i s t ó

-r i c a ou t r a n s - b i s t o r i c a , enciclopédica,

conden-sada m etodologicam ente nos t i p o s i d e a i s ,e M arx,

ancorado num m ergulho h i s t ó r i c o , tam bém

en-ciclopédico, navegando entre a dialética da

u n i v e r s a l i d a d e , da s i n g u l a r i d a d e e da p a r t i c u

-l a r i d a d e , buscando sua t o t a l i z a ç ã o a n a l í t i c a . O

prim eiro, com sua forte m arca e p i s t e m o l o g i z a n t e

e o segundo, M arx, com seu traço oruolôgico,

que havia estancado depois de HegeI.

o que se refere às classes sociais, Hirano

dem onstra que, enquanto para M arx a chave

analítica é dada pela p r o d u ç ã o s o c i a l , para

W eber ela se encontra na a ç ã o s o c i a l . De m odo

que as classes podem ser m elhor apreendidas

pela p o s i ç ã o d o s i n d i v í d u o s n o m e r c a d o e

pe-las m otivações oriundas da a ç ã o e r e l a ç ã o s o c i

-a i s (W eber) ou pelas d e t e r m i n a ç õ e s p a r t i c u l a r e s

d o m o d o d e p r o d u ç ã o e r e p r o d u ç ã o d a v i d a

s o c i a l

hgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

( M a r x ) .

Sedi Hirano procura, sem pre, em seu texto,

apresentar os elem entos teóricos e m

eto-dológicos distintivos entre os dois grandes

gi-gantes das ciências sociais. Não busca fazer um a

m escla eclética, desrespeitando autores tão

díspares. É por isso que ele afirm a que "enquanto

W eber parte da ordem social para delim itar o

conceito de e s t a m e n t o , no que se refere às c l a s

-s e -s ,o ponto de partida básico é a o r d e m e c o n ô

-m i c a . Por outro lado, para M arx, o m odo de

produção feudal é que define as relações de tipo estam entaI... E as classes sociais se definem com

o surgim ento do m odo de produção capitalista

m oderno, do Estado m oderno, da propriedade

privada, da divisão social do trabalho ..."

Se para W eber c l a s s e pressupõe: "a) certo

núm ero de pessoas [que] têm em com um um

com ponente causal específico em suas

oportu-nidades de vida, e, na m edida em que, b) esse

com ponente é representado exclusivam ente

pelos interesses econôm icos da posse de bens e

oportunidades de renda, c) é representada sob

74

R E V IS T A D E C IÊ N C IA S S O C IA IS v .3 4 N . 1

as condições do m ercado de produtos ou do

m ercado de trabalho", a s i t u a ç ã o d e c l a s s e , é

"determ inada pelo volum e e tipo de poder (ou

pela falta deles) de dispor de bens ou

habilida-des em benefício da renda de um a determ inada

ordem econôm ica. A palavra c l a s s e se refere a

qualquer grupo de pessoas que se encontrem

na m esm a situação de classe".

O que perm ite a Sedi Hirano concluir que,

para W eber, a e s t r u t u r a d e c l a s s e s é d e t e r m i n a

-d a p e l o m e r c a d o e a s i t u a ç ã o d e c l a s s e é t a m

-b é m a s i t u a ç ã o n o m e r c a d o . Por isso W eber

fala em c l a s s e s p r o p r i e t á r i a s p o s i t i v a m e n t e p r i

-v i l e g i a d a s (em preendedores ou em presários,

dentre outros segm entos sociais) e em c l a s s e s

p r o p r i e t á r i a s n e g a t i v a m e n t e p r i v i l e g i a d a s

(tipi-cam ente trabalhadores, ainda que

qualitativa-m ente diferenciados) .

Para M arx, entretanto, a conceitualização

de classe rem ete essencialm ente àp o s i ç ã o ( o b

-j e t i v a e s u b j e t i v a ) q u e o s i n d i v í d u o s o c u p a m

n o m u n d o d a p r o d u ç ã o s o c i a l . Por isso os

pro-letários, "a sua condição de vida, o trabalho, e

com este todas as condições de existência da

sociedade atual, convertem -se para eles em

algo fortuito, no qual cada proletário de per s i

não tinha o m enor controle, e sobretudo,

ne-nhum a organização s o c i a l podia lhe dar tal

controle. A contradição entre a personalidade

do proletário individual e sua condição de vida,

tal com o lhe é im posta, isto é, o trabalho,

re-vela-se ante si m esm o, sobretudo porque já se

vê sacrificado a partir de sua infância, por não

ter a m enor possibilidade de chegar a obter,

d e n t r o d e s u a c l a s s e , as condições que o

colo-quem em outra situação".

A partir destas form ulações o n t o m e t o d o

-l ó g i c a s d e fu n d o , Sedi Hirano desenha os

con-tornos das form ulações de W eber e M arx,

especialm ente sobre as classes sociais. Se para

a teoria do conhecim ento weberiana

(confor-m e sugere M erleau-Ponty), "a verdade sem pre

deixa um a m argem de som bras", talvez

pudés-sem os dizer que para M arx é i m p e r i o s o

d e s c o r t i n a r a s s o m b r a s p a r a s e c h e g a r àu e r d a

(3)

DOSSIÊ

SRQPONMLKJIHGFEDCBA

d e .

yxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

E isso vale, também, para a compreensão

s classes sociais na sociedade moderna. Para

tanto, vale acrescentar, o estudo do j o v e m M arx

é também imprescindível.

O livro de Sedi Hirano, i n t r o d u t ó r i o e d i

-d á t i c o , de grande utilidade para se i n i c i a r a

compreensão deste complexo, éu m a l a b o r i o s a

c o n s t r u ç ã o a o e s t u d o d o e s t a m e n t o e d a c l a s s e

o m u n d o m o d e r n o , conforme a apresentação

e Florestan Fernandes.

O denso texto de Klaus Eder, A N o v a P o l í

-. i c a d e C l a s s e s ' mergulha diretamente no

deba-.e atual sobre a extinção ou validade conceitual

classes e o faz através da seguinte afirmação

-eórica: a c u l t u r a éo e l o p e r d i d o e n t r e c l a s s e e

ç ã o c o l e t i v a . Seu ponto de partida é o de que a

c l a s s e é u m a s p e c t o e s t r u t u r a l d a r e a l i d a d e s o c i a l

t e n ã o p o d e s e r d e s c a r t a d o ; sua hipótese cen-

hgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

-=-aI é que a noção de classe, "despida de suas

conotações tradicionalistas, de suas formas

con-o agentes de manifestação histórica", é uma

de-rminação estrutural de oportunidades de vida

categorias de indivíduos, "uma estrutura que

tribui oportunidades de agir e delimita

espa-de ação", sendo o e l e m e n t o c u l t u r a l o elo

_ paz de conferir contemporaneidade analítica

- classes sociais.

M odelado pela idéia da sociedade p ô s i n

-i s t r -i a l , Eder entra em cheio no debate, sem

ixar sempre de ser claro e freqüentemente

-lido (ainda que enormemente polêmico) em

desenhos e contornos: seu interesse maior

stá em averiguar as novas configurações dos

vimentos sociais, e em que medida eles

ex-re sam as novas conformações da sociedade

_ classes.

Dialogando com vastíssima bibliografia

ronte mporâriea , e em particular, com os

s t i t u c i o n a l i s t a s , faz sua d é m a r c b e . "O

argu-ento histórico da institucionalização pode ser

rdadeiro, mas isso não quer dizer que

tenha-que aceitar o argumento estrutural. Pode

r que o conflito de classe industrial não

_ mine mais os conflitos de classe. Temos que

eitar a idéia de que esse tipo de conflito está

perdendo importância, mas vamos argumentar

contra a idéia de que o conflito de classes está

desaparecendo com o fim de sua primeira

corporificação, ou seja, o conflito de classes

organizado em torno da contradição entre

ca-pital e trabalho".

Sua propositura o leva, então, a afirmar

que a atualidade do c o n fl i t o d e c l a s s e s é

metamorfoseada num a n t a g o n i s m o fl u í d o q u e

p e r p a s s a a t o t a l i d a d e d a v i d a s o c i a l . Em suas

palavras: "O conflito de classes expandiu-se

também no tempo tornando-se permanente.

A realidade social criada por essa

permanên-cia é um sistema de classificação que radicaliza

as premissas individualistas do sistema

moder-no de classificação. Esse sistema, que

compa-ra indivíduos e que conta o capital (econômico

e cultural) que possui, resulta na estrutura de

classes altamente individualizada da

socieda-de mosocieda-derna".

De modo culturalista, menos que radicada

na estruturação produtiva da ordem societal, o

c o n fl i t o d e c l a s s e s e s t a r i a a c o m p a n h a d o p o r p r á

-t i c a s q u e g e r a m a o r d e m s i m b ó l i c a q u e o l e g i t i

-m a , s e n d o q u e oss í m b o l o s d o s q u e e s t ã o n o t o p o

d a p i r â m i d e s o c i a l s ã o osq u e c l a m a m p e l a v a l i

-d a -d e u n i v e r s a l . M enos que conceitualizar as

clas-ses como entidade c o n c r e t a , o autor, amparado

em ampla literatura e especialmente em

Bourdieu, vai conferir às classes um estatuto l ó

-g i c o . Opção teórica que, para retomar o debate

anteriormente indicado, o aproxima muito mais

de W eber do que de M arx.

Ao analisar os movimentos sociais, o

au-tor os "classifica" (aliás, a necessidade da

"clas-sificação" é um recurso metodológico recorrente

do autor) em pelo menos dois tipos: os

movi-mentos políticos (o dos jovens, o feminista, os

anti-industrialistas) e os culturais (os

movimen-tos antiburocráticos, relativos ao ambiente,

mo-radia ou psiquiatria e, em menor medida, o

movimento estudantil). O autor detecta, então,

que o c e n t r o d o s c o n fl i t o s d e c l a s s e e d o s m o v i

-m e n t o s s o c i a i s , c u j a i d e n t i d a d e t e m u m fo r t e

c o m p o n e n t e c u l t u r a l , d e v e s u p e r a r a t e m á t i c a d a

(4)

DOSSIÊ

SRQPONMLKJIHGFEDCBA

e x p l o r a ç ã o d o t r a b a l h o p a r a m i g r a r p a r a

yxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

op r o

-b l e m a d a e x p l o r a ç ã o d a n a t u r e z a .

Isso o leva a polemizar diretamente com

M arx, que teria "naturalizado" a relação homem!

natureza. Aqui, entretanto, é preciso fazer uma

nota crítica: ao usar somente comentadores

(como Schmidt, Cohen, Habermas, Elster),

desconsiderando os G r u n d r i s s e ou qualquer

outro texto da safra direta de M arx, que não é

citado sequer uma vez no item intitulado OC o n

-c e i t o d e N a t u r e z a e m M a r x , Eder é pouco

con-vincente. Um breve volteio, passando por Robert

Kurz, Altvater, Enrique Dussel e István M észáros,

além de uma r e l e i t u r a não tradicional de M arx,

o ajudaria - e muito - a fazer uma leitura

criati-va e não tão reducionista da questão ambiental

em M arx.

Nos dez capítulos que compreendem esse

livro, os últimos são destinados ao esboço de

uma j e n o m e n o l o g i a d o s m o v i m e n t o s s o c i a i s e a

uma ênfase na centralidade e na tese do r a d i c a

-l i s m o das classes médias nesta nova

contextua-lidade. O interessados nas classes médias

encontrarão um esboço teórico dos contornos

desse r a d i c a l i s m o , dados pela "emergência da

contracultura e das formas alternativas do

mun-do-da-vida e de associação". Nesse novo

cam-po, os movimentos sociais encontram seus nexos

"identitários" em seus v a l o r e s c u l t u r a i s , que

trans-cendem, segundo o autor, "o campo das

rela-ções industria/trabalho. Equivoco que Habermas,

com sua tese sobre a p a c i fi c a ç ã o d a s l u t a s

s o c i a i s , também cometeu.

É exatamente por estes limites que o

au-tor, ao criticar os fundamentos metodológicos

i n d i v i d u a l i s t a s da pesquisa sobre os

movimen-tos sociais, reafirma o critério da validade das

classes, mas não mostra sua vitalidade

conceitual e analítica em toda a plenitude. M as,

é preciso dizer, o autor realiza uma reflexão

que, em seu conjunto, é relevante e

necessá-ria para todos os que recusam a tese da perda

de validade categoria I para as classes sociais.

Num livro cuja edição é particularmente bem

cuidada e bem realizada.

76

hgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

R E V IS T A D E C IÊ N C IA S S O C iA iS v .3 4 N . 1

Por fim, uma nota sobre as classes sociais

no Brasil. E o faremos através do livro E s t r u t u r a

d e P o s i ç õ e s d e C l a s s e n o B r a s i l , de José Alcides

Figueiredo Santos.> que faz um mapeamento

bastante abrangente da conformação das

clas-ses sociais em nosso país, a partir dos dados da

PNAD, de 1996, tendo como referência a

análi-se neomarxista de Erik Olin W right.

A justificativa para essa opção teórica é

indicada pelo autor: enquanto o "enfoque

weberiano se assenta em um nexo causal entre

a condição de classe e as chances de vida, que

opera essencialmente através das trocas de

mer-cado c...) a perspectiva marxista defendida por

W right vai além dessa conexão, acrescenta de

forma privilegiada a esfera da produção e, além

disso, considera a interação entre a produção e

o mercado, o que lhe permite pensar o conflito

na distribuição, na produção e na articulação

entre ambos ... O conceito de classe baseado

ex-plicitamente na exploração, ao contrário da

no-ção weberiana de chances da vida, pretende

relacionar o bem-estar material de um grupo

social à sua capacidade de se apropriar dos

fru-tos do trabalho de outro grupo social".

Articulando boa reflexão teórica, com um

mergulho no mapa social brasileiro, Figueiredo

Santos oferece elementos para se compreender o

perfil de nossa sociedade de classes, com a

clas-se trabalhadora "ampliada" (abarcando os

traba-lhadores não qualificados, os trabalhadores

qualificados e os supervisores não qualificados)

e a classe média, composta pelos gerentes e

supervisores com poder de mando e dominação.

Ao tratar da distribuição das posições de

classe no Brasil, o autor elabora a seguinte

ti-pologia, a partir das posições de classe

existen-tes: a) capitalistas; b) pequenos empregadores;

c) auto-empregados; d) gerentes e supervisores

credenciados; e) gerentes e supervisores não

credenciados;

D

especialistas; g) trabalhadores

proletarizados; h) empregados domésticos.

Somando-se os trabalhadores

proletari-zados (48% ) com aqueles auto-empregados

(30% ), chega-se próximo de 80% da totalidade

(5)

DOSSIÊ

yxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

das posições de classe. Os capitalistas totalizam

0,5% , os estratos m édios (gerentes, supervisores

e especialistas) som am pouco m ais de 5% . Os

pequenos em pregadores agrupam 3,5% e os

em pregados dom ésticos som am 8,6% .

O leitor encontra um detalham ento

exaus-tivo, ao longo do livro, que lhe perm ite fazer

diversas ilações analíticas, com o conferir a área

de som bra entre os estratos altos do

proletaria-do e os segm entos inferiores da classe m édia;

os gerentes com função de m ando, credenciados

e aqueles não credenciados; a classe

trabalha-dora "pura", que com preende os assalariados

com posição subordinada, sem autoridade e

qua-lificação (48% , com o vim os) e a classe

trabalha-dora "am pliada"; os trabalhadores m anuais da

indústria e dos serviços, que representam 68%

da classe trabalhadora "pura"; os trabalhadores

m anuais agrícolas, que totalizam 17,4% do

con-junto da classe trabalhadora (em sentido ainda

restrito), além do desenho heterogêneo das

elas-es proprietárias, dos capitalistas, m ais ou m

e-nos capitalizados etc

Estudo m eticuloso, de grande utilidade para

insuficiente m apeam ento de nossas classes

so-is, Figueiredo Santos m ostra, a partir dos da-da PNAD, que, na Am érica Latina, o traço . tintivo é dado pela am pliação do "setor

infor-m al", pelo cresciinfor-m ento dos pequenos negócios e

nela fem inização do m undo do trabalho.

Com a reestruturação produtiva no Brasil

especialm ente a partir de 90, "ocorre um a intensa

redução do contingente de operários industriais,

com um corte de 38,1% dos em pregos form ais,

entre 1990 e 1997". Com o já pudem os dizer em

outros textos, aum enta a heterogeneidade e a

frag-m entação da classe trabalhadora; a subcontratação,

diz o autor, segm enta ainda m ais os trabalhadores

industriais, entre os "centrais" e os "periféricos". E,

se o desem prego foi crescente na indústria,

parti-cularm ente entre 1985 e 1990 os serviços

experi-m entaraexperi-m uexperi-m elevado cresciexperi-m ento.

Estes estudos recentem ente publicados,

independente de seus m éritos e lim ites, alguns

aqui apontados, m ostram que a textura societal

contem porânea, ao invés de sinalizar para o

fim da sociedade de classes, vem se com

plexi-ficando. O que nos obriga a ir além da sua

opacidade, encontrando os nexos básicos e sua

vigência e atualidade.

Notas

1 Hirano, Sedi,

SRQPONMLKJIHGFEDCBA

C a s t a s , E s t a m e n t o s

hgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

& C l a s s e s S o c i a i s

( I n t r o d u ç ã o a o P e n s a m e n t o S o c i o l ó g i c o d e M a r x e W e b e r ) , Campinas: Editora da Unicamp, 2002.

2 Eder, Klaus, A N o v a P o l í t i c a d e C l a s s e s , São Paulo:

EDUSC, 2002 .

3 Santos, José Alcides Figueiredo, E s t r u t u r a d e P o s i ç õ e s

d e C l a s s e n o B r a s i l ( M a p e a m e n t o , M u d a n ç a s eEfeitos n a R e n d a ) , Belo Horizonte: Editora da UFM G, 2002.

Referências

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