Universidade do Estado do Rio de Janeiro Centro de Tecnologia e Ciências
Instituto de Geografia
Flávia Lopes Oliveira
Diversidade geológico-geomorfológica do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (Rio de Janeiro): bases para o planejamento ambiental no
contexto da geoconservação
Rio de Janeiro
2017
Flávia Lopes Oliveira
Diversidade geológico-geomorfológica do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (Rio de Janeiro): bases para o planejamento ambiental no contexto da geoconservação
Tese apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor, ao Programa de Pós- Graduação em Geografia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração:
Gestão e Estruturação do Espaço Geográfico.
Orientadora: Profa. Dra. Nadja Maria Castilho da Costa Coorientador: Prof. Dr. José Bernardo Rodrigues Brilha
Rio de Janeiro 2017
CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ / REDE SIRIUS / BIBLIOTECA CTC/C
Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta tese, desde que citada a fonte.
______________________________________ ______________________
Assinatura Data
O482 Oliveira, Flávia Lopes.
Diversidade geológico-geomorfológica do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (Rio de Janeiro): bases para o planejamento ambiental no contexto da geoconservação / Flávia Lopes Oliveira. – 2017.
269 f. : il.
Orientadora: Nadja Maria Castilho da Costa.
Coorientador: José Bernardo Rodrigues Brilha.
Tese (Doutorado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Geografia.
Bibliografia.
1. Planejamento regional – Nova Iguaçu (RJ) – Teses. 2.
Geoconservação – Teses. 3. Geodiversidade – Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (Rio de Janeiro) – Teses. 4.
Geografia ambiental – Teses. 5. Planejamento urbano – Rio de Janeiro – Teses. I. Costa, Nadja Maria Castilho da. II. Brilha, José Bernardo Rodrigues. III. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Geografia. IV. Título.
CDU 711.25(815.3)
Flávia Lopes Oliveira
Diversidade geológico-geomorfológica do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (Rio de Janeiro): bases para o planejamento ambiental no contexto da geoconservação
Tese apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor, ao Programa de Pós- Graduação em Geografia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração:
Gestão e Estruturação do Espaço Geográfico.
Aprovada em 27 de março de 2017.
Orientadora: Profa. Dra. Nadja Maria Castilho da Costa Instituto de Geografia - UERJ
Coorientador: Prof. Dr. José Bernardo Rodrigues Brilha
Departamento de Ciências da Terra - UMinho-Portugal Banca Examinadora:
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Profª. Drª. Vivian Castilho da Costa Instituto de Geografia - UERJ
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Prof. Dr. Alexander Josef Sá Tobias da Costa Instituto de Geografia - UERJ
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Prof. Dr. Antonio José Teixeira Guerra Departamento de Geografia - UFRJ
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Profª. Drª. Kátia Leite Mansur Departamento de Geologia - UFRJ
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Profª. Drª. Maria Ligia Cassol Pinto Departamento de Geografia - UEPG
Rio de Janeiro 2017
DEDICATÓRIA
A Deus e aos meus pais, João e Maria da Graça, com amor e gratidão.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiro a Deus pela existência e sua presença em minha vida. “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” Rm 11:36.
Aos meus pais João de Oliveira e Maria da Graça Oliveira, minha irmã e cunhado Simone Pereira e Eduardo Pereira, e sobrinhas Gabriela Pereira, Beatriz Pereira e Maria Eduarda Pereira pelo fundamental apoio e compreensão ao longo deste trabalho.
À minha orientadora Profa. Dra. Nadja Costa e coorientador Prof. Dr. José Brilha pela confiança, orientação e dedicação.
Ao Programa de Pós-Graduação em Geografia-UERJ que viabilizou a realização desta pesquisa. Aos Profs. Dra. Vivian Costa, Dr. Alexander Costa, Dr. Antonio Soares, Dra. Marta Foeppel e Dr. André Novaes pelo rico aprendizado. Aos secretários pela assistência constante.
Aos colegas pós-graduandos pelas trocas e companheirismo, em particular, aos doutorandos Wilson Santos Junior pelo o mapa de uso da terra e cobertura vegetal, e apoio em SIG, e Vanessa Saraiva pelo fornecimento do mapa de solo e cálculo do percentual do solo, e mestrando Raphael Fernandes pela ajuda inicial com o método AHP.
Ao Grupo de Estudos Ambientais-UERJ e ao Laboratório de Geoprocessamento- UERJ pelo grande apoio, momentos de trocas de conhecimentos e amizade.
À Geógrafa Raíra Marques pelo mapa de formas do terreno, desenvolvido em sua monografia.
Ao Prof. Dr. Mauro Geraldes pelos esclarecimentos específicos da geologia da área de estudo desta pesquisa e Dr. Carlos Mota pelo mapa geológico.
Ao Depto. de Geografia da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense-UERJ e Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Baixada Fluminense-UERJ pelo apoio à pesquisa, em especial, por intermédio da colaboração dos graduandos em Licenciatura em Geografia Henrique Bezerra e Patrícia Carvalho, na ajuda com trabalhos de campo, sendo ao Henrique também grata pelo apoio com análise de questionários e de informações referentes ao zoneamento territorial e ambiental, e às Profas. Msc. Andrea Paula e Dra. Simone Fadel, que viabilizaram essa parceria.
Ao Depto. de Ciências da Terra da Universidade do Minho, Portugal. Profs. Dr.
Diamantino Pereira, Dr. Paulo Pereira, Dr. Renato Henriques, e a todos os colegas de turma.
Agradeço pela acolhida, dedicação no conhecimento e pesquisa, e amizade durante o ano que realizei o doutorado sanduíche.
Aos geoparques portugueses pela ótima recepção e fornecimento de informações, em especial às equipes: Geoparque Naturtejo, doutoranda Manuela Catana, técnico de turismo Sérgio Ribeiro e geóloga Joana Rodrigues; Geoparque Açores, Profa. Dra. Eva Lima;
Geoparque Arouca, Dra. Daniela Rocha e coordenador António Carlos Duarte; Geoparque Terras de Cavaleiros, Profa. Maria João Rodrigues e técnica de turismo Filipa Justo.
Ao Prof. Francisco Sousa por ter acompanhado o trabalho de campo no Geoparque Açores, junto aos alunos e professores.
À Profª. Drª. Ligia Cassol pelo incentivo e aceite para fazer parte da banca.
Ao Depto. de Geografia-UFRJ, em particular, ao Prof. Dr. Antonio Guerra, que me orientou na graduação, e ao Laboratório de Geomorfologia Ambiental e Degradação dos Solos-UFRJ, que muito contribuiu para minha formação acadêmica.
Ao Programa de Pós-Graduação em Geologia-UFRJ. Ao Prof. Dr. Edson Mello, que me orientou no mestrado, e Profa. Dra. Kátia Mansur pelas aulas na disciplina de Geoconservação e esclarecimentos sobre a área e tema de estudo.
Aos Profs. Dr. Lúcio Cunha e Dra. Virgínia Tales pelo incentivo e trocas de conhecimentos em Portugal, e Dr. Marcos Nascimento pelas informações sobre o tema.
Aos amigos e colegas que me ajudaram na pesquisa, em especial, à Profa. Msc.
Cristina Silva pela ajuda na aplicação de questionário, ao Dr. Flávio Mello pelo apoio com informações sobre a área de estudo, à bióloga Tacianne Lopez pelos esclarecimentos sobre a área de estudo, à Profa. Msc. Márcia Machado pelas trocas de conhecimentos sobre a área de estudo, à doutoranda Maria do Carmo Jorge pelas trocas no tema da pesquisa, aos Mscs.
Liliane Silva e Hugo Polo pelo esclarecimento sobre o banco de dados do léxico estratigráfico-CPRM, à Profa. Dra. Juliana Menezes pelo incentivo, à Profa. doutoranda Edileuza Queiroz pelas informações sobre sua pesquisa, e à Msc. Maria da Gloria Bernardo por, sem saber, me apresentar a área de estudo.
Ao Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu, gestor Edgar Martins, toda equipe e aos que lá contribuem, pela viabilização, acolhida e ajuda com informações, e aos visitantes que responderam ao questionário.
Ao GISCursos pelo apoio em aulas de aperfeiçoamento em SIG.
À Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro/FAPERJ pela bolsa de Doutorado no Brasil e bolsa de Doutorado Sanduíche.
Aos meus amigos queridos, antigos e novos, inclusive aos que fiz ao longo desse percurso, no Brasil e em Portugal, como também familiares, e a todos os que de alguma forma apoiaram o desenvolvimento deste trabalho, o meu agradecimento!
RESUMO
OLIVEIRA, Flávia Lopes. Diversidade geológico-geomorfológica do Parque Natural
Municipal de Nova Iguaçu (Rio de Janeiro): bases para o planejamento ambiental no contexto da geoconservação. 2017. 269 f. Tese (Doutorado em Geografia) - Instituto de Geografia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.
As áreas protegidas, espaços destinados à proteção da natureza, seus serviços e valores associados, representadas no Brasil pelas unidades de conservação, têm na categoria parque natural o espaço proposto para a adequação do uso público à conservação, que pode acontecer por intermédio do lazer, educação e pesquisa científica. Frequentemente, esses parques têm em sua natureza, em alguns casos abiótica, o motivo para a proteção da área, embora sem um planejamento adequado para um real aproveitamento da geodiversidade, geovalores e serviços geossistêmicos, na busca da geoconservação. O objetivo geral do presente estudo é propor um modelo metodológico de planejamento ambiental, no contexto da geoconservação, que poderá ser integrado à estratégia de manejo do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (PNMNI), estado do Rio de Janeiro, tendo por base a sua diversidade geológica e geomorfológica.
Pretendendo-se contribuir para a geoconservação do Parque, assim como de outras áreas protegidas, por intermédio da promoção da sensibilização ambiental e do intercâmbio de ideias e informações. Também, para a pesquisa e estudo das Geociências no aprofundamento e aplicação de temas relacionados à geodiversidade, geoturismo e geoconservação. Para isso, buscou-se: contribuir para as discussões acerca de patrimônio natural-cultural e interpretação ambiental e patrimonial, elaborar um diagnóstico fisiográfico e ambiental, criar um banco de dados da geodiversidade, subsidiar a promoção do conhecimento geocientífico, propor um centro interpretativo, e contribuir com o planejamento e gestão ambiental da unidade de conservação. O PNMNI foi escolhido por conter potencialidade interpretativa de sua geodiversidade, sobretudo, nos elementos e processos referentes ao evento de vulcanismo, com ocorrências de sienito, brechas vulcânicas, lapilitos e diques de traquito, o que faz dele relevante e peculiar a nível nacional, do ponto de vista científico, educativo e patrimonial. A metodologia implementada teve como base o roteiro sequencial para geoconservação, adaptado a unidades de conservação, seguindo as seguintes etapas: análise sócio-espacial, análise quali-quantitativa de sítios geológicos/geomorfológicos, avaliação da conservação, inventário e análise de estratégias interpretativas, e levantamentos com base em experiências interpretativas portuguesas. Os principais resultados da pesquisa confirmaram a potencialidade interpretativa do PNMNI como base na promoção da sua geodiversidade e do conhecimento geocientífico, à medida que comprovaram a sua especificidade e a presença de valores da geodiversidade e benefícios geossistêmicos propícios para este fim, tais como:
valor utilitário, estético, educativo e científico, e benefício de lazer, bem-estar e conhecimento. Teve como produto final e conclusivo a proposição, com aplicações no PNMNI, de um modelo metodológico de planejamento ambiental, no contexto da geoconservação, o que confirmou a exequibilidade da proposição.
Palavras-chave: Área protegida. Geoconservação. Planejamento ambiental.
ABSTRACT
OLIVEIRA, Flávia Lopes. Geological and geomorphological diversity of Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (Rio de Janeiro): grounds for an environmental planning in the context of geoconservation. 2017. 269 f. Tese (Doutorado em Geografia) - Instituto de Geografia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.
Protected areas are spaces to allow the protection of nature, their services and associated values, known in Brazil as conservation units. The category of natural park is the one suitable to allow a public use through the promotion of conservation, leisure, education and scientific research. Quite frequently, the natural features of these parks, in some cases of abiotic nature, is the reason for the protection of the area. However, these areas do not have a proper planning of geodiversity, its geovalues and geosystemic services aiming geoconservation. The general objective of this study is to propose a methodological model of environmental planning which can be integrated with the management strategy of the Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (Municipal National Park of Nova Iguaçu) (PNMNI), state of Rio de Janeiro, based on its geological and geomorphological diversity, seeking to contribute to the geoconservation of the Park, as well as other protected areas by promoting environmental awareness and exchange of ideas and information. As well, contribute to the research and study of Geosciences in the deepening and application of topics related to geodiversity, geotourism and geoconservation. For this purpose, we carried out the following procedure: to contribute to the discussions about natural-cultural heritage and environmental interpretation, to elaborate a physiographic and environmental diagnosis, to create a geodiversity database, to support the promotion of geoscientific knowledge, to propose an interpretive center, and to contribute to the with the environmental planning and management of the protected area. The PNMNI was chosen for containing geodiversity with interpretative potential, especially in the elements and processes related to the event of volcanism, with the occurrence of syenite, volcanic breccia, lapillite and trachyte dikes, which makes this park relevant and peculiar on a national level from a scientific, educational and heritage point of view. The methodology of the dissertation was based on the sequential script for geoconservation, adapted to protected areas, according to the following stages: socio-spatial analysis, qualitative and quantitative analysis of geological/geomorphological sites, conservation assessment, survey and analysis of interpretative strategies and inventories based on Portuguese interpretative experiences. The main results of the research confirmed the interpretative potential of the PNMNI to support the promotion of its geodiversity and geoscientific knowledge as its specificity and presence of geodiversity value and geosystemic benefits proper to this purpose were proven, such as: utility, esthetic, educational and scientific value, leisure benefits, well-being and knowledge. The final and conclusive product regarding this thesis is to propose a methodological model of environmental planning, with applications in the park, under geoconservation context.
Keywords: Protected area. Geoconservation. Environmental planning.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Figura 2 – Figura 3 – Figura 4 – Figura 5 – Figura 6 – Figura 7 – Figura 8 – Figura 9 – Figura 10 – Figura 11 – Figura 12 – Figura 13 – Figura 14 –
Figura 15 –
Figura 16 –
O papel da geodiversidade na geração de bens e serviços geossistêmicos...
Modelo conceitual da geodiversidade, patrimônio geológico e geoconservação...
Modelo conceitual sobre as relações da geoconservação...
Modelo teórico simplificado da comunicação...
Fluxograma das etapas metodológicas de desenvolvimento da pesquisa...
Modelo das etapas de desenvolvimento do mapa de suscetibilidade a movimentos de massa com áreas de fragilidade geoturística...
Modelo de estruturação hierárquica em dois níveis: critérios e alternativas...
Localização da área de estudo – Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (Rio de Janeiro)...
Mapa-base geológico 1:50.000 do Complexo Alcalino do Mendanha...
Mapa Geológico do Edifício Vulcânico de Nova Iguaçu (1:10.000)...
Geomorfologia - Maciço do Gericinó-Mendanha e adjacências...
Locais de relevante interesse para o manejo da UC...
Mapa de localização do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu e acessos analisados...
Recorte (área de interesse) do mapa de localização do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu e acessos analisados, com os sítios geológicos/geomorfológicos citados na tese...
Recorte do mapa-base geológico 1:50.000 do Complexo Alcalino do Mendanha e localização dos acessos e sítios geológicos/geomorfológicos analisados...
Recorte do mapa das unidades geomorfológicas e localização dos acessos e sítios geológicos/geomorfológicos...
31 42 47 61 63 74 76 91 97 98 100 107 122
123
124 125
Figura 17 – Figura 18 – Figura 19 – Figura 20 – Figura 21 – Figura 22 – Figura 23 – Figura 24 – Figura 25 – Figura 26 – Figura 27 – Figura 28 – Figura 29 – Figura 30 – Figura 31 – Figura 32 – Figura 33 – Figura 34 – Figura 35 – Figura 36 –
Figura 37 – Figura 38 –
Sítio Pedreira São José...
Sítio Pedreira São José – destaque em vermelho de rosto talhado na rocha...
Recorte da Figura 18 (ampliado), referente ao destaque (em vermelho) de um rosto talhado na rocha...
Sítio Poço do Escorrega – destaque em amarelo do dique de traquito...
Sítio Poço do Escorrega – destaque em azul do poço superficial...
Sítio Ponte sobre o Rio Dona Eugênia...
Sítio Lavas e Brechas Vulcânicas - painel do Projeto Caminhos Geológicos (DRM-RJ)...
Sítio Lavas e Brechas Vulcânicas - em foco...
Sítio Poço das Cobras...
Sítio Poço do Casarão...
Sítio Poço do Casarão – destaque em azul das marmitas de erosão...
Sítio Poço do Casarão...
Sítio Cachoeira do Véu da Noiva...
Sítio Falha da Varginha - painel do Projeto Caminhos Geológicos (DRM-RJ)...
Sítio Falha da Varginha – em foco...
Sítio Brecha Piroclástica - painel do Projeto Caminhos Geológicos (DRM-RJ)...
Fragmento de brecha vulcânica – em foco...
Sítio Lapilitos - painel do Projeto Caminhos Geológicos (DRM-RJ)....
Aspeto macroscópico do lapilito – em foco...
Sítio Mirante Centro da Suposta Cratera - Vale da Varginha, Serra de Madureira, com destaque em vermelho do centro da suposta cratera...
Sítio Pedra da Contenda...
Vista para Serra de Madureira (interior do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu), a partir da Pedra da Contenda...
127 127 128 129 130 131 133 133 135 136 136 137 139 140 141 142 143 144 144
146 148 148
Figura 39 – Figura 40 – Figura 41 – Figura 42 – Figura 43 – Figura 44 – Figura 45 – Figura 46 – Figura 47 – Figura 48 – Figura 49 – Figura 50 – Figura 51 – Figura 52 – Figura 53 – Figura 54 – Figura 55 – Figura 56 – Figura 57 – Figura 58 – Figura 59 – Figura 60 –
Recorte do mapa de declividade e localização dos sítios geológicos/geomorfológicos...
Queda de árvore na Trilha da Varginha...
Presença de cupinzeiro na Trilha da Varginha...
Infraestrutura de restaurantes próximos à entrada oficial do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (PNMNI)...
Infraestrutura de hotéis próximos à entrada oficial do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (PNMNI)...
Plano de Informação – declividade...
Plano de Informação – uso da terra e cobertura vegetal...
Plano de Informação – formas do terreno...
Plano de Informação – solos...
Plano de Informação – relevo...
Plano de Informação - geologia...
Bloco de rocha rolado na estrada de acesso ao Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu - destaque em vermelho...
Depósito de terra no sopé da encosta - Caminho das Águas...
Cicatriz de movimento de massa - Trilha da Varginha...
Deslizamento translacional de terra e rolamento de blocos de rocha - Caminho das Águas...
Mapa de suscetibilidade a movimentos de massa na área de interesse...
Recorte do mapa de suscetibilidade a movimentos de massa, com acessos e ocorrências...
Recorte do mapa de suscetibilidade a movimentos de massa, com acessos e sítios geológicos/geomorfológicos...
Entrada do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu...
Painel de indicação de atrativo para recreação em rio – Poço das Cobras...
Painel interpretativo do Projeto Caminhos Geológicos (DRM-RJ) - área da sede...
Início da Trilha da Varginha – sinalização do Projeto Caminhos Geológicos (DRM-RJ)...
156 162 162 163 164 180 181 182 183 184 185 186 189 189 190 199 200 201 212 213 214 215
Figura 61 – Figura 62 – Figura 63 – Figura 64 – Figura 65 – Figura 66 –
Maquete na altura do visitante - Centro de Ciência Viva de Estremoz (Portugal)...
Centro de Vulcanismo de São Vicente, Ilha da Madeira (Portugal)...
Museu do Quartzo, em Viseu (Portugal)...
Centro de Interpretação Ambiental Caldeira Velha - Parque Natural de São Miguel, Geoparque Açores (Portugal)...
Porta do Lindoso - Parque Nacional Peneda-Gêres (Portugal)...
Proposição de modelo metodológico de planejamento ambiental, no contexto da geoconservação...
223 223 224 224 225 227
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 – Gráfico 2 – Gráfico 3 – Gráfico 4 – Gráfico 5 – Gráfico 6 – Gráfico 7 – Gráfico 8 – Gráfico 9 – Gráfico 10 – Gráfico 11 – Gráfico 12 –
Gráfico 13 –
Porcentagens de visitantes do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu por município residente...
Porcentagens de visitantes do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu por faixa etária...
Porcentagens de visitantes do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu por escolaridade...
Porcentagens de visitantes por tempo que conhecem o Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu...
Porcentagens de visitantes por frequência no Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu...
Porcentagens dos principais interesses de visitar o Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu...
Porcentagens das principais atividades praticadas no Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu...
Porcentagens dos valores do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu identificados pelos visitantes...
Porcentagens dos motivos de conservação do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu...
Porcentagens por opiniões sobre o estado de conservação do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu...
Porcentagens das procedências da informação sobre a existência do
“Vulcão de Nova Iguaçu”...
Porcentagens sobre a importância do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu ser conservado devido à existência de um vulcão...
Perfis topográficos dos acessos aos sítios geológicos/geomorfológicos...
109 110 111 112 113 114 115 115 117 117 119
120 155
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Quadro 2 - Quadro 3 – Quadro 4 – Quadro 5 – Quadro 6 – Quadro 7 – Quadro 8 – Quadro 9 –
Quadro 10 – Quadro 11 – Quadro 12 – Quadro 13 – Quadro 14 – Quadro 15 – Quadro 16 – Quadro 17–
Quadro 18 – Quadro 19 – Quadro 20 –
Categorias de serviços dos geossistemas...
Categorias de valores da geodiversidade...
Pesos dos critérios para avaliação do valor científico...
Pesos dos critérios para avaliação dos valores educativo e turístico...
Escala de valores de Comparação do AHP...
Tabela de Consistência Aleatória...
Ficha de identificação do caráter interpretativo...
Número total de visitantes no Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu e questionários analisados...
Tabela síntese dos sítios geológicos/geomorfológicos (SG) e as suas características: localização UTM, altitudes, descrição e valores da geodiversidade, potencialidades de uso e temas inter-relacionados...
Quantificação dos valores científico, educativo e turístico dos sítios geológicos/geomorfológicos (SG)...
Quantificação e ranking do valor educativo dos sítios geológicos/geomorfológicos (SG)...
Quantificação e ranking do valor turístico dos sítios geológicos/geomorfológicos (SG)...
Matriz SWOT para o Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu, com ênfase na geodiversidade...
Tabela dos aspectos e subaspectos de sítios geológicos/geomorfológicos (SG)...
Confronto dos locais afetados por movimentos de massa e os PIs...
Matriz de comparação pareada AHP...
Pesos obtidos através da matriz de comparação pareada AHP...
Pesos e notas utilizados pelo método de multicritérios para mapa de suscetibilidade a movimentos de massa na área de estudo...
Tabela do inventário das estratégias de educação ambiental no Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu...
Estratégias de Educação Ambiental para Geoconservação, com caracteres interpretativos identificados...
32 34 67 69 77 79 88 108
149 158 160 165 167 177 187 195 195 196 204 216
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
AGNU AHP AIPT CA CPRM DRM-RJ GEA GEOSSIT GPS IAPI IBAMA IBGE IC INEA INMET IPHAN IR IPT IUCN LAGEPRO LIG
MA ONU PCN PI PIEA PNMNI RC SG SIG
Assembleia Geral das Nações Unidas Analytic Hierarchy Process
Ano Internacional do Planeta Terra Consistência Aleatória
Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais / Serviço Geológico do Brasil Departamento de Recursos Minerais do Estado do Rio de Janeiro
Grupo de Estudo Ambientais
Sistema de Cadastro e Quantificação de Geossítios e Sítios da Geodiversidade Sistema de Posicionamento Global
Índice de Atratividade em Pontos Interpretativos
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Índice de Consistência
Instituto Estadual do Ambiente Instituto Nacional de Meteorologia
Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Índice Randômico ou Índice de Consistência Aleatória Instituto de Pesquisas Tecnológicas
International Union for Conservation of Nature Laboratório de Geoprocessamento
Local com Interesse Geológico e Geomorfológico Millennium Ecosystem Assessment
Organização das Nações Unidas Parâmetros Curriculares Nacionais Planos de Informação
Programa Internacional de Educação Ambiental Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu Razão de Consistência
Sítio Geológico/Geomorfológico Sistema Geográfico de Informações
SNUC SWOT TIN UC UERJ UFF UFRRJ UNESCO UTM
Sistema Nacional de Unidades de Conservação Strengths, Weaknesses, Opportunities, Threats Triangular Irregular Network
Unidade de Conservação da Natureza Universidade do Estado do Rio de Janeiro Universidade Federal Fluminense
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura Universal Transversa de Mercator
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO... 19
1 OBJETIVOS... 22
1.1 Geral ... 22
1.2 Específicos ... 22
2 JUSTIFICATIVA... 23
3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-CONCEITUAL... 24
3.1 Geoconservação: a conservação da geodiversidade... 24
3.2 Valores da geodiversidade e serviços geossistêmicos: bases para o planejamento ambiental... 28
3.2.1 Planejamento ambiental no contexto da geoconservação... 36
3.3 Patrimônio natural-cultural e geoconservação... 38
3.4 Geoconservação, educação ambiental e unidade de conservação... 45
3.4.1 O geoturismo... 53
3.5 A interpretação e a geoconservação... 55
3.5.1 A interpretação ambiental e patrimonial... 55
3.5.2 A interpretação como ferramenta de gestão para geoconservação... 59
4 MATERIAIS E MÉTODOS... 63
4.1 Levantamento de informações preexistentes... 64
4.2 Caracterização fisiográfica e ambiental da área de estudo... 65
4.3 Qualificação, quantificação e conservação de sítios geológicos/geomorfológicos 65 4.3.1 Análise quali-quantitativa de sítios geológicos/geomorfológicos... 65
4.3.2 Avaliação do estado de conservação do PNMNI com ênfase na geodiversidade... 72
4.4 Mapeamentos temáticos... 73
4.5 Elaboração e aplicação de questionário... 84
4.6 Análise da Interpretação Geocientífica... 86
4.6.1 Criação e aplicação de indicadores de interpretação para geoconservação... 86
4.6.2 Análise de estratégias interpretativas portuguesas da geodiversidade... 88
5 A ÁREA DE ESTUDO... 90
5.1 Área de influência, acessos e funcionamento do PNMNI... 90
5.2 Aspectos fisiográficos e ambientais do PNMNI... 92
5.2.1 Caracterização geral... 92
5.2.2 Enquadramento geológico-geomorfológico do PNMNI... 95
5.3 Controvérsia científica sobre a origem das rochas do PNMNI... 101
6 RESULTADOS E DISCUSSÕES... 103
6.1 Uso público do PNMNI... 103
6.1.1 Análise do zoneamento territorial e ambiental do PNMNI, e recorte da área de interesse... 103
6.1.2 Análise do perfil do visitante com foco na sua relação com o PNMNI... 108
6.1.2.1 Perfil do visitante... 109
6.1.2.2 Relação do visitante com o Parque... 111
6.1.2.3 Conservação do Parque... 116
6.1.2.4 Infraestrutura do Parque... 118
6.1.2.5 Conhecimento da geodiversidade do Parque... 119
6.2 Análise quali-quantitativa de sítios geológicos/geomorfológicos... 121
6.2.1 Qualificação de sítios geológicos/geomorfológicos... 121
6.2.1.1 SG 01 – Pedreira São José... 126
6.2.1.2 SG 02 – Poço do Escorrega... 129
6.2.1.3 SG 03 – Ponte sobre o Rio Dona Eugênia... 131
6.2.1.4 SG 04 – Lavas e Brechas Vulcânicas... 132
6.2.1.5 SG 05 – Poço das Cobras... 134
6.2.1.6 SG 06 – Poço do Casarão... 135
6.2.1.7 SG 07 – Cachoeira do Véu da Noiva... 138
6.2.1.8 SG 08 – Falha da Varginha... 139
6.2.1.9 SG 09 – Brecha Piroclástica... 141
6.2.1.10 SG 10 – Lapilitos... 143
6.2.1.11 SG 11 – Mirante Centro da Suposta Cratera... 145
6.2.1.12 SG 12 – Pedra da Contenda... 147
6.2.2 Caracterização dos percursos (trilhas e caminho)... 154
6.2.3 Análise quantitativa dos sítios geológicos/geomorfológicos... 157
6.3 Avaliação da conservação... 167
6.3.1 Aplicação da Matriz SWOT... 167
6.3.1.1 Fatores internos... 168
6.3.1.1.1 Forças... 168
6.3.1.1.2 Fraquezas... 173
6.3.1.2 Fatores externos... 174
6.3.1.2.1 Oportunidades... 174
6.3.1.2.2 Ameaças... 176
6.3.2 Aplicação do geoprocessamento na geoconservação... 179
6.3.2.1 Análise das variáveis... 186
6.3.2.1.1 Definição dos pesos e notas para as variáveis... 194
6.3.2.2 Análise de áreas de fragilidade geoturística à limitação de uso dos sítios geológicos/geomorfológicos por suscetibilidade a movimentos de massa... 197
6.4 Análise da interpretação da geodiversidade e proposições... 203
6.4.1 Levantamento das estratégias de educação ambiental do PNMNI... 203
6.4.2 Análise do caráter interpretativo das estratégias de educação ambiental para geoconservação... 215
6.4.2.1 Análise conjunta do caráter interpretativo... 219
6.4.3 6.4.3.1 Proposta interpretativa da geodiversidade baseada em experiências portuguesas. Sugestões de estratégias interpretativas geocientíficas com base em experiências portuguesas... 220 221 7 DISCUSSÕES E PROPOSIÇÃO... 226
7.1 Aplicações da proposição de planejamento ambiental no PNMNI... 234
CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS... 237 REFERÊNCIAS...
APÊNDICE A – Questionário analisado...
APÊNDICE B – Ficha de caracterização do caráter interpretativo...
ANEXO A – Ficha de avaliação quantitativa - valor científico...
ANEXO B – Ficha de avaliação quantitativa - valores educativo e turístico...
240 259 263 264 266
INTRODUÇÃO
As áreas protegidas envolvem interesses múltiplos, portanto dentro de um objetivo final comum, a proteção da natureza. Em 2008, por ocasião do Congresso Mundial de Conservação da IUCN (International Union for Conservation of Nature), em Barcelona, Espanha, foi definido o conceito de área protegida como um espaço geográfico claramente definido, reconhecido, dedicado e gerido, através de meios legais ou outros igualmente eficientes, com o fim de obter a conservação em longo prazo da natureza, com os serviços ecossistêmicos e valores associados (IUCNb, 2017).
Nessa conservação está a natureza biótica e abiótica, configurando um cenário com atrativos que tem, em muitas das vezes, no meio abiótico, e portanto na geodiversidade e seus serviços geossistêmicos (GRAY, 2013), o motivo principal de visitação dessas áreas, seja para o lazer, a educação, o turismo ou a pesquisa científica.
A identificação, caracterização e análise da geodiversidade, em áreas protegidas, tornam-se importante no caminho do melhor aproveitamento de seus geovalores pela sociedade, que podem ser: estético, econômico, funcional, educativo e/ou científico, dentre outros, que se vinculam às funções geossistêmicas, podendo proporcionar aos visitantes benefícios relacionados aos elementos, feições e sistemas terrestres, tais como: contato direto com o solo e a rocha em trilhas, contemplação de paisagens geomorfológicas em mirantes, e recreação em cursos hídricos (SHARPLES, 1993; GRAY, 2004; 2013; NASCIMENTO;
RUCHKYS; MANTESSO-NETO, 2008; GRAY; GORDON; BROWN, 2013; BRILHA, 2005; 2016; OLIVEIRA; COSTA, 2013; 2014).
A geodiversidade se apresenta como base para a vida à medida que se configura como alicerce na produção de bens e serviços, tanto materiais como imateriais, estando estes últimos no âmbito dos benefícios culturais e de conhecimento geossistêmicos (GRAY, 2011;
2013). Tais benefícios superam o material em atividades voltadas para o lazer, cultura, educação, dentre outras, produzindo, por exemplo: bem-estar, relações e conhecimento. A geodiversidade é o elo entre as pessoas, paisagens e culturas, ou seja, é o substrato onde a vida acontece (STANLEY, 2001; GRAY, 2004; 2013; MANSUR, 2009).
Nesse contexto, destacam-se os parques naturais, que no Brasil são unidades de conservação da natureza (UCs) de uso indireto do recurso natural, com aspectos relevantes, de beleza cênica e valor patrimonial, destinados à proteção, e com permissão de realização de atividades relacionadas com a pesquisa científica, educação e interpretação ambiental,
recreação em contato com a natureza e turismo ecológico (BRASIL, 2000, art. 11), podendo- se associar mais recentemente também ao geoturismo. Os parques naturais têm como finalidade maior a proteção dos sistemas naturais, tanto da própria UC, como de outras áreas, por intermédio da promoção da sensibilização ambiental.
Segundo Lima, Schobbenhaus e Nascimento (2016), importantes elementos do patrimônio geológico e geomorfológico brasileiro, portanto de tipos particulares da geodiversidade com valor científico excepcional (BRILHA, 2016), são protegidos em UCs.
No entanto, essa conservação ocorre, normalmente, de forma indireta, associada aos valores biológicos, estéticos e histórico-culturais, sem ter em conta o valor intrínseco e científico da geodiversidade.
Para que haja a promoção, gestão e conservação do patrimônio geológico e geomorfológico em UCs torna-se imprescindível o conhecimento da sua geodiversidade, com suas características, valores, potencialidades, limitações, vulnerabilidades e ameaças. Sendo possível, a partir desse conhecimento, um planejamento de ações e estratégias de valorização e conservação, mediante a interpretação ambiental, que deve estar associada à sociedade, podendo acontecer através de um desenvolvimento educativo e geoturístico, que transcenda os limites da área protegida, na busca do conhecimento geocientífico, do desenvolvimento sócio-espacial e do fortalecimento endógeno local (COSTA; COSTA, 2005; COSTA;
COSTA, 2014; BRILHA, 2005; 2009; 2016; COSTA, 2008; MOREIRA, 2014; SOUZA, 2016).
A presente pesquisa discorre sobre a temática geoconservação em área protegida, e foi desenvolvida no Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (PNMNI), estado do Rio de Janeiro, sendo, portanto, essa UC a área de estudo. Com uma área com cerca de 11 km2, o PNMNI foi escolhido por conter aspectos da geodiversidade específica que testemunham atividade vulcânica antiga, tais como: ocorrências de sienito, brechas vulcânicas, lapilitos e diques de traquito, o que faz dele relevante e peculiar do ponto de vista científico, educativo e patrimonial (SEMUAM, 2001; GHIZI; MANSUR; VIEIRA, 2004; MANSUR et al., 2004;
MOTOKI; MOTOKI, 2011; MOTA et al., 2012; OLIVEIRA, COSTA, 2013; 2014;
MANSUR et al., 2014; DRM-RJ, 2017). Tais aspectos apresentam potencialidades interpretativas, conferindo ao Parque possível uso geoturístico. Esse uso é fortalecido ao agregar valores utilitário e estético, com atrativos como: cachoeiras, poços superficiais, mirantes e trilhas, sendo assim indispensáveis as ações de geoconservação desse patrimônio natural-cultural.
Nessa perspectiva, o desenvolvimento e integração de uma estratégia de planejamento ambiental, no contexto da geoconservação, torna-se importante à medida que poderá contribuir para gestão e manejo do patrimônio geológico-geomorfológico do PNMNI, a partir de estratégias de geoconservação e promoção de sua geodiversidade. Também poderá servir de exemplo para outras áreas protegidas que têm na geodiversidade o seu elemento diferenciador.
Posto isso, a tese está dividida em introdução, sete capítulos, conclusões e considerações finais, referências, apêndices e anexos.
A introdução contextualiza a pesquisa, o tema e a área de estudo.
O capítulo 1 refere-se aos objetivos do trabalho, geral e específicos.
No capítulo 2 estão as justificativas dessa pesquisa.
No capítulo 3 é feita uma revisão teórico-conceitual sobre os principais temas da pesquisa que envolve: geoconservação e área protegida.
No capítulo 4 é apresentada a metodologia da pesquisa, os procedimentos, métodos e o fluxograma do modelo metodológico.
No capítulo 5 está um panorama fisiográfico e ambiental da área de estudo, com ênfase nos aspectos geológicos e geomorfológicos.
No capítulo 6 são apresentados os resultados levantados e analisados sobre o zoneamento territorial e ambiental, o uso público, a análise quali-quantitativa de sítios geológicos/geomorfológicos, a conservação e a interpretação ambiental da área de estudo, e de experiências interpretativas de centros interpretativos e geoparques portugueses.
No capítulo 7 consta do modelo metodológico de planejamento ambiental, no contexto da geoconservação.
Posteriormente, estão as conclusões e considerações finais, as referências, os apêndices e os anexos.
1 OBJETIVOS
1.1 Geral
O objetivo geral do presente estudo é propor um modelo metodológico de planejamento ambiental, no contexto da geoconservação, que poderá ser integrado à estratégia de manejo do PNMNI, tendo por base a diversidade geológica e geomorfológica da UC.
Busca-se contribuir para geoconservação do Parque, como de outras áreas protegidas por intermédio da promoção da sensibilização ambiental e do intercâmbio de ideias e informações. Também, para a pesquisa e estudo das Geociências no aprofundamento, ampliação e aplicação de temas, conceitos e metodologias relacionados à geodiversidade, geoturismo e geoconservação.
1.2 Específicos
Contribuir, dentro da Geografia brasileira, com as discussões acerca de patrimônio natural-cultural, e interpretação ambiental e patrimonial, em área protegida, no contexto da geoconservação.
Elaborar um diagnóstico, com base em dados relacionados ao enquadramento legal, fisiográfico, ambiental e sócio-espacial do PNMNI.
Criar um banco de dados da geodiversidade do PNMNI referente à análise quali- quantitativa, da conservação e da interpretação.
Colaborar com a promoção do conhecimento acerca da geodiversidade do PNMNI, por intermédio de subsídios para interpretação geocientífica.
Propor um centro interpretativo, com base em experiências portuguesas.
Apresentar dados e proposições metodológicas, que poderão contribuir com a gestão do PNMNI, e integrar em uma atualização do seu Plano de Manejo.
2 JUSTIFICATIVA
A Organização das Nações Unidas (ONU) decretou a década compreendida entre 2005 a 2014, como “Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável”
(ONU, 2002). Portanto, educar a humanidade, nesse contexto, requer um conhecimento sobre o meio físico e biótico, seus elementos e processos formadores.
Perante isso, justifica-se a necessidade da criação de estratégias para promoção acerca do conhecimento geocientífico. Para tanto, estão os parques naturais, que têm como finalidade, além da conservação, a promoção da educação e interpretação ambiental (BRASIL, 2000).
O PNMNI foi escolhido para a realização da presente pesquisa por conter elementos da geodiversidade específicos que testemunham atividade vulcânica extinta, o que faz desse Parque singular e, assim, indispensáveis as ações sensibilizadoras de geoconservação do patrimônio geológico-geomorfológico (SEMUAM, 2001; GHIZI; MANSUR; VIEIRA, 2004;
MANSUR et al., 2004; MANSUR et al., 2014).
A presente pesquisa se justifica também pela necessidade de uma maior discussão acerca do patrimônio natural-cultural e interpretação ambiental e patrimonial, em área protegida, dentro da Geografia brasileira, no aprofundamento e aplicação de termos, conceitos e metodologias (inter) relacionados à geodiversidade, geoturismo e geoconservação.
Posto isso, o desenvolvimento e integração de um planejamento ambiental, no contexto da geoconservação, se torna relevante ao otimizar informações sobre o potencial da geodiversidade do PNMNI, uma vez que o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), em relação ao patrimônio geológico e geomorfológico das UCs, mostra uma abordagem geral, enfatizando a biodiversidade em detrimento à geodiversidade.
Nesse caso, parcerias internacionais foram importantes para o desenvolvimento da pesquisa, uma vez que o tema tem sido amplamente trabalhado por universidades estrangeiras. Portanto, o presente trabalho poderá servir de exemplo para outras área nacionais e internacionais.
3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-CONCEITUAL
Os conceitos a seguir apresentados subsidiaram as análises desenvolvidas na presente tese e estão relacionados à sua temática principal que envolve geoconservação e área protegida.
3.1 Geoconservação: a conservação da geodiversidade
Segundo Morin (1977), a natureza é aquilo que liga, articula e faz comunicar profundamente o antropológico, o biológico e o físico. Nesse contexto, a conservação da natureza propõe em sua filosofia a inclusão humana na proteção do meio ambiente, na perspectiva de um manejo que visa maior proteção do que a intocabilidade, dentro de um raciocínio participativo (LARRÈRE, 2008), seja de uma natureza biótica ou abiótica, nesta última enquadra-se a geoconservação.
Para Brilha (2005), a geoconservação abrange a conservação de certos elementos e feições da geodiversidade que evidenciem uma qualquer peculiaridade, com algum tipo de valor superlativo (científico, educativo, estético, ou outros), isto é, cujo valor se sobrepõe à média, fazendo-se fundamental conhecer os valores, funções e benefícios que a geodiversidade proporciona.
Geodiversidade é um termo relativamente recente, sendo citado primeiramente em 1993 na Conference on Geological and Landscape Conservation, realizada em Malvern, Reino Unido (GRAY, 2004). Sua consolidação ocorreu nos últimos anos da década de 1990, porém até hoje não é desejavelmente difundido e popularizado, diante da sua importância e necessidade. Na literatura internacional, a geodiversidade tem sido aplicada com maior ênfase aos estudos de geoconservação, objetivando destacar e analisar a diversidade de feições geológicas e geomorfológicas peculiares, seja por sua beleza cênica, atratividade geoturística, importância didática e/ou científica (GRAY, 2004, 2013; BRILHA, 2005, 2016;
NASCIMENTO; RUCHKYS; MANTESSO-NETO, 2008; SILVA et al., 2008b; MANSUR, 2010a; COSTA, 2012; OLIVEIRA; COSTA, 2013; JORGE; GUERRA, 2016; LIMA;
SCHOBBENHAUS; NASCIMENTO, 2016).
Uma das primeiras definições de geodiversidade foi apresentada por Sharples (1993), referindo-se à diversidade de feições e sistemas terrestres. Posteriormente, Dixon (1996), Eberhard (1997), Sharples (2002) e Australian Heritage Commission (2002) definiram geodiversidade como a variedade de elementos e processos geológicos (substrato), geomorfológicos (formas da paisagem) e do solo.
Em 2004 foi publicado por Murray Gray o primeiro livro dedicado exclusivamente ao tema geodiversidade: “Geodiversity - valuing and conserving abiotic nature” (GRAY, 2004), onde o termo geodiversidade é definido como a diversidade natural de aspectos geológicos (rochas, minerais, fósseis), geomorfológicos (formas de relevo, processos) e do solo. Inclui suas coleções, relações, propriedades, interpretações e sistemas. Em 2013, o autor amplia o conceito, incorporando aspectos hidrológicos e agrega as estruturas e contribuições para paisagens:
Geodiversidade: a variedade natural (diversidade) de aspectos geológicos (rochas, minerais, fósseis), geomorfológicos (formas de relevo, topografia, processos físicos), do solos e hidrológicos. Inclui suas coleções, estruturas, sistemas e contribuições para paisagens (GRAY, 2013, p. 26, tradução nossa1).
Brilha (2005) publica o livro intitulado: “Património Geológico e Geoconservação - a conservação da natureza na sua vertente geológica”, assumindo a mesma definição que a Royal Society for Nature Conservation do Reino Unido, para quem “A geodiversidade consiste na variedade de ambientes geológicos, fenómenos e processos activos que dão origem a paisagens, rochas, minerais, fósseis, solos e outros depósitos superficiais que são o suporte para a vida na Terra” (p.17).
No Brasil, o tema geodiversidade foi primeiramente discutido na comunidade geocientífica, em 2004 no 42o Congresso Brasileiro de Geologia, em Araxá, Minas Gerais, porém algumas publicações já haviam sido feitas, mas com um caráter aplicado ao planejamento territorial (XAVIER-DA-SILVA et al., 2001; XAVIER-DA-SILVA;
CARVALHO-FILHO, 2001; SILVA et al., 2008b). Nas edições seguintes desse congresso, foram sempre organizadas sessões temáticas dedicadas ao tema.
Em 2013, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro sediou o II Congresso Nacional de Planejamento e Manejo de Trilhas / I Colóquio Brasileiro da Red Latinoamericana de Senderismo, com discussões em mesa e grupo de trabalhos exclusivos para o tema:
geodiversidade, geoconservação e geoturismo.
1 O texto em língua estrangeira é: “Geodiversity: the natural range (diversity) of geological (rocks, minerals, fossils), geomorphological (landforms, topography, physical processes), soil and hydrological features. It includes their assemblages, structures, systems and contributions to landscapes.” (GRAY, 2013, p. 26).
Em 2015, aconteceu no XVI Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada, em Teresina, Piauí, a primeira mesa exclusiva ao tema, em evento organizado pela comunidade brasileira da Geografia. E em 2016, no XI Simpósio Brasileiro de Geomorfologia, em Maringá, Paraná, foi anunciado o tema: “Paisagem e Geodiversidade: a valorização do patrimônio geomorfológico Brasileiro”, para a próxima edição do evento que ocorrerá no Ceará, em 2018.
Em 2006, por ocasião da publicação do Mapa de Geodiversidade do Brasil, a CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais) - Serviço Geológico do Brasil define:
Geodiversidade é a natureza abiótica (meio físico) constituída por uma variedade de ambientes, fenômenos e processos geológicos que dão origem às paisagens, rochas, minerais, águas, solos, fósseis e outros depósitos superficiais que propiciam o desenvolvimento da vida na Terra, tendo como valores intrínsecos a cultura, o estético, o econômico, o científico, o educativo e o turístico (CPRM, 2006).
Em 2008, foi publicado o primeiro livro brasileiro que trata do tema geodiversidade:
“Geodiversidade, Geoconservação e Geoturismo - trinômio importante para a proteção do patrimônio geológico”. A obra analisa o termo geodiversidade a partir de vários autores, concluindo que:
[...] para alguns autores o conceito de geodiversidade é mais restrito, estando relacionado apenas com os minerais, rochas e fósseis, enquanto que para outros o termo é mais amplo, integrando também os processos que podem estar atuando na sua gênese e que no momento podem estar atuando (NASCIMENTO; RUCHKYS;
MANTESSO-NETO, 2008, p.10).
O radical geo de geodiversidade vem de gea, do grego, que significa Terra, portanto, não tendo relação apenas com a geologia, mas com toda composição do meio físico da Terra, e suas inter-relações com as demais esferas do Planeta: atmosfera, hidrosfera e biosfera2.
Outra questão importante citada na obra de Nascimento, Ruchkys e Mantesso-Neto (2008) é a visão biocêntrica, onde o enfoque das ciências naturais reducionista à biodiversidade insiste em permanecer. Os autores atrelam esta questão ao pouco conhecimento e divulgação do conceito de geodiversidade e declaram que: “A geodiversidade é um elo entre as pessoas, paisagens e sua cultura por meio da interação com a
2 Pode-se incluir ainda a tecnosfera e psicosfera (SANTOS, 2006). “A tecnosfera se adapta aos mandamentos da produção e do intercâmbio e, desse modo, frequentemente traduz interesses distantes; desde, porém, que se instala, substituindo o meio natural ou o meio técnico que a precedeu, constitui um dado local, aderindo ao lugar como uma prótese. A psicosfera, reino das ideias, crenças, paixões e lugar da produção de um sentido, também faz parte desse meio ambiente, desse entorno da vida, fornecendo regras à racionalidade ou estimulando o imaginário. Ambas - tecnosfera e psicosfera - são locais, mas constituem o produto de uma sociedade bem mais ampla que o lugar.” (A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo. Razão e Emoção, Milton Santos, 2006, p. 172).
biodiversidade”. Porém, as políticas públicas de conservação, divulgação e utilização do patrimônio natural tendem a priorizar a biodiversidade em relação à geodiversidade (NASCIMENTO; RUCHKYS; MANTESSO-NETO, 2008, p. 15-16).
Os conceitos de biodiversidade e geodiversidade surgiram nas décadas de 1980 e 1990, respectivamente, sendo que o conceito de biodiversidade teve uma maior amplitude de aplicações e discussões ao longo dos anos (WILSON, 1997; GRAY, 2004; 2013; BRILHA, 2005; NASCIMENTO; RUCHKYS; MANTESSO-NETO, 2008; OLIVEIRA; COSTA, 2013). Porém, o conceito de geodiversidade passou a ser mais trabalhado e divulgado, somente, a partir do final dos anos de 1990, não sendo até então desejavelmente difundido, estudado e aplicado pela comunidade geocientífica brasileira, frente a sua real relevância, sobretudo, no planejamento ambiental e conservação da natureza.
[...] O reconhecimento, promoção e proteção dedicada aos valores geológicos em território brasileiro ainda não tem a mesma prioridade que os esforços direcionados aos valores biológicos e culturais. A conservação dos elementos geológicos acontece discretamente, mas, na maioria dos casos, fruto de uma eventualidade e não de uma estratégia concreta de geoconservação [...] (LIMA; SCHOBBENHAUS;
NASCIMENTO, 2016, p. 55).
Para Mansur (2009, p. 65), “o simples fato de que a geodiversidade é o substrato onde a vida se desenvolve e o homem constrói é motivo suficiente para ser tratada com a mesma importância que a biodiversidade”, pois ambas apresentam valores e benefícios fundamentais.
Gray (2004) declara que, a geodiversidade sustenta a biodiversidade, é o geossistema de suporte da vida, criando um vínculo indissolúvel entre as duas. O autor afirma ainda que não há razão para separar a natureza animada e inanimada, ou seja, o meio biótico do abiótico.
Porém, o autor coloca que é natural a sociedade não dar a mesma importância para a biodiversidade e a geodiversidade.
A biodiversidade está assentada sobre a geodiversidade e, por conseguinte, é dependente direta desta, pois as rochas, quando intemperizadas, juntamente com o relevo e clima, contribuem para a formação dos solos, disponibilizando, assim, nutrientes e micronutrientes, os quais são absorvidos pelas plantas, sustentando e desenvolvendo a vida no planeta Terra (SILVA et al., 2008b, p. 12).
A biodiversidade está, portanto, em resposta à geodiversidade. Assim sendo, “pode-se considerar que o conceito de geodiversidade abrange a porção abiótica do geossistema (o qual é constituído pelo tripé que envolve a análise integrada de fatores abióticos, bióticos e antrópicos)” (SILVA et al., 2008b, p. 12).
Para Christofoletti (1999, p. 42), a composição do geossistema representa “a organização espacial resultante da interação dos elementos componentes físicos da natureza (clima, topografia, rochas, águas, vegetação, animais, solos) possuindo expressão espacial na superfície terrestre [...]”, que ao incorporar ações humanas resultam em questões ambientais.
Segundo Leff (2001), as questões ambientais abrangem uma abordagem complexa, à medida que se desenvolvem na inter-relação entre a natureza e a sociedade. Dessa forma, o ambiente implica uma visão sistêmica, integrada e interdisciplinar, na busca da promoção da sustentabilidade ambiental.
Essa intrínseca relação pode ser observada nos componentes abióticos dos ecossistemas (rochas, água, minerais) que são imprescindíveis para a manutenção da biodiversidade, ou ainda na formação dos solos pelo processo de pedogênese, o que propicia o desenvolvimento de diferentes formas de cobertura vegetal. Ainda na perspectiva dos seres humanos, a geodiversidade se mostra como provisão, a partir da obtenção de matérias primas, como rochas e combustíveis fósseis, que auxiliam as atividades e construções humanas, além do fornecimento de benefícios, diretos e indiretos, relacionados à utilização do ambiente natural para o lazer, a pesquisa e a educação (BRILHA, 2005; BEZERRA; OLIVEIRA, 2015;
GRAY, 2013).
Nesse contexto, a geodiversidade nos fornece um importante enquadramento de integração para as Geociências, permitindo-nos compreender a geosfera com uma série de valores, funções e benefícios, necessitando, desse modo, de conservação e/ou preservação.
Nessa perspectiva, está à abordagem geossistêmica que parte do princípio da integração dos sistemas abióticos da Terra e suas inter-relações com os sistemas bióticos e sociais.
3.2 Valores da geodiversidade e serviços geossistêmicos: bases para o planejamento ambiental
De acordo com Santos (2006), os bens naturais, quando utilizados pelos homens a partir de um conjunto de intenções sociais, passam também a ser objetos. “Assim a natureza se transforma em um verdadeiro sistema de objetos e não mais de coisas e, ironicamente, é o próprio movimento ecológico que completa o processo de desnaturalização da natureza, dando a esta última um valor” (SANTOS, 2006, p. 41).
Originado na ciência econômica, o termo valor migrou para outros campos das ciências, em destaque às ciências naturais, diante da urgente necessidade de proteção do meio ambiente natural, que vem sendo atingido por uma enorme variedade de atividades humanas, como: mineração, construção civil, indústria, turismo, dentre outras (ENGLISH NATURE, 2002; MOTA, 2006).
“Na valoração econômica ambiental, o valor econômico de um recurso ambiental, é estimado a partir do valor monetário de um bem ou serviço disponível na economia”
(MELLO, 2008, p. 107). Portanto, o papel do valor da natureza na análise do meio ambiente assume interesse fundamental, pois os recursos ambientais não têm preço nos mercados convencionais (MOTA, 2006). É importante a identificação, o reconhecimento e a distinção dos valores, funções e benefícios existentes no ambiente. Tal estratégia pode fornecer subsídio para o planejamento e manejo ambiental de uma área e proporcionar conservação mais eficiente da natureza.
No contexto abiótico, e partindo de uma visão ampla e sistêmica da geodiversidade (GORDON et al., 2012; GRAY; GORDON; BROWN, 2013; GRAY, 2013), e da necessidade de proteção ambiental, torna-se relevante discutir os tipos de valores da geodiversidade propostos por Gray (2004), que reconhece seis amplas categorias de valores: intrínseco, cultural, estético, econômico, funcional e científico-didático.
Para Gray (2013), o valor de um recurso não é igual ao valor de sua diversidade. O autor ressalta a relevância da abordagem dos serviços ecossistêmicos, que vêm sendo estudados há muitos anos, mas que recentemente tornam-se importantes na análise do valor da natureza, porém ainda pouco feita nessa vertente.
As discussões dos serviços ecossistêmicos tiveram o seu marco internacional no Fórum Global das Organizações Não Governamentais, que aconteceu no âmbito da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), sediado no Rio de Janeiro, em 1992, quando foi estipulada, dentre outros tratados, a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), sendo defendido “que a exigência fundamental para a conservação da diversidade biológica é a conservação in situ dos ecossistemas e dos hábitats naturais e a manutenção e recuperação de populações viáveis de espécies no seu meio natural”
(CDB, 2000, p. 8). Portanto, o tratado postula a adoção de uma abordagem sistêmica para garantir a conservação da biodiversidade e seu uso sustentável e equitativo, a partir de uma estratégia de gestão integrada da terra, da água e dos recursos vivos, que promova a conservação.
Entre 2001 e 2005 ocorreu, por solicitação do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em 2000, o Millennium Ecosystem Assessment (MA), com o objetivo de avaliar as consequências das alterações dos ecossistemas para o bem-estar humano e dar base científica para a ação necessária de melhora à conservação e uso sustentável desses sistemas e a sua contribuição para o bem-estar da humanidade. Com publicação, em 2003, do livro
“Ecosystems and Human Well-being: A framework for assessment”.
Serviços ecossistêmicos podem ser benefícios de bens e/ou serviços que as pessoas obtêm dos ecossistemas/natureza. Esses benefícios podem ser tanto tangíveis (por exemplo:
alimentos), como intangível, que não tem valor financeiro (por exemplo: bem-estar psicológico promovido por um ambiente natural), portanto não há serviços sem beneficiários.
A abordagem ecossistêmica inclui elementos abióticos e bióticos que interagem como unidades funcionais (GRAY; GORDON; BROWN, 2013).
Os serviços geossistêmicos são uma espécie de conexão entre os sistemas naturais abióticos e bióticos, e a sociedade. Em uma perspectiva antropocêntrica, na revelação da importância da geodiversidade, foi utilizada, por Gray (2013), a classificação MA (2005) dos serviços ecossistêmicos, em quatro categorias: regulação, suporte, provisão e cultura, e incluída pelo autor a categoria conhecimento (GRAY, 2013) (Figura 1; Quadro 1).
Tal classificação demonstra a gama genérica de bens e serviços abióticos, o que deu base para uma reorganização dos valores da geodiversidade, exceto o intrínseco, com os serviços dos geossistemas (GRAY, 2004; 2011; 2013), ou serviços ecossistêmicos abióticos, sendo, portanto, os serviços associados com a geodiversidade.
Figura 1 – O papel da geodiversidade na geração de bens e serviços geossistêmicos
Fonte: Modificado de Gray, 2013, p. 75.
Quadro 1- Categorias de serviços dos geossistemas (continua)
SERVIÇOS GEOSSISTÊMICOS (GRAY, 2013) Serviço Descrição
Regulação
Referem-se aos sistemas: atmosférico, terrestre e oceânico que proporcionam a produção de bens e serviços (exemplo: produção de água potável, aquíferos, solos, ciclo hidrológico e ciclo das rochas), adequados à manutenção da geo e biodiversidade, ou seja, os benefícios obtidos pelas pessoas a partir da regulação dos geossistemas. Nessa perspectiva, Gray (2013) afirma que o solo representa a interface exemplar entre os sistemas abióticos e bióticos, sendo um importante elemento integrador e interdependente de ambos os processos.
Suporte
São processos que mantém outros serviços, tais como: intemperismo e pedogênese, que possibilitam o surgimento, plantio e crescimento da vegetação; formação de habitats, como:
cavernas, falésias, lagoas e poços superficiais; terras planas como plataformas de superfície para outras atividades, como: pastos, aeroportos e atividades esportivas, a exemplo: golf e futebol; aterros de lixo, armazenamentos de resíduos, cemitérios e reservatórios de petróleo e gás.
Provisão
Referem-se aos produtos obtidos da natureza para consumo in natura ou transformação, tais como: bebidas, comidas, nutrientes, minerais, combustíveis, materiais de construção, materiais industriais e produtos ornamentais. Exemplos: água mineral, sal, geofagia, gemas, carvão mineral, gás natural, hidrelétricas, agregados minerais (areia, brita e cascalho), argila, vidro, aço, fertilizantes e pedras ornamentais.
Cultura
São benefícios que superam o material, obtidos a partir da geodiversidade por intermédio de atividades em ambientes naturais ou antropizados, que podem ser: terapêuticas, geoturísticas, de lazer, históricas, religiosas, artísticas e sociais. Exemplos: características terapêuticas de qualidade ambiental, como: paisagens, cursos hídricos, contato direto com o solo e clima local; contemplação de paisagens em mirantes, trilhas e escaladas de montanhas, com superação de limites proporcionados pelos desafios impostos pelo ambiente; visitas a cavernas; interpretações históricas e lendárias; práticas religiosas;
inspiração para produção de fotografias, pinturas, músicas, literaturas e arquiteturas;
desenvolvimento social por intermédio de trabalhos de campo e passeios em grupos.