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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.837.582 - RJ (2019/0161259-6)

RELATOR : MINISTRO OG FERNANDES

RECORRENTE : JULIANA CESARIO ALVIM GOMES

ADVOGADO : FERNANDO PESSOA NOVIS - RJ172155

RECORRIDO : FUNDAÇÃO COORDENAÇÃO DE APERFEICOAMENTO DE PESSOAL DE NIVEL SUPERIOR - CAPES

RECORRIDO : UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO DECISÃO

Vistos, etc.

Trata-se de recurso especial interposto por Juliana Cesario Alvim Gomes, com amparo nas alíneas "a" e "c" do inciso III do art. 105 da CF/1988, contra acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região assim ementado (e-STJ, fl. 290):

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA. BOLSA DE ESTUDOS EM DOUTORADO. PORTARIA CONJUNTA CAPES/CNPQ N°

01/2010. CONCESSÃO A ALUNO COM VÍNCULO EMPREGATÍCIO ANTERIOR.

IMPOSSIBILIDADE. INEXISTÊNCIA DE QUEBRA DA ISONOMIA.

Os embargos de declaração foram rejeitados (e-STJ, fls. 337-344).

A recorrente defende, em síntese: i) necessidade de submissão da apelação à técnica de julgamento ampliado (art. 942 do CPC/2015); ii) falta de fundamentação do acórdão dos aclaratórios (arts. 489, § 1º, II, e 1.022 do CPC/2015); iii) aplicação do princípio da proporcionalidade administrativa (art. 2º, parágrafo único, VI, da Lei n.

9.784/1999); e iv) indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão universitários (art. 52, § 10, VII, da Lei n. 9.394/1996).

Apresentadas contrarrazões (e-STJ, fls. 392-402 e 431-434), o recurso especial foi admitido por decisão desta Corte (e-STJ, fls. 525-526).

Parecer pelo provimento (e-STJ, fls. 520-523).

Recurso extraordinário com agravo na origem (e-STJ, fls. 453-465).

É o relatório.

Na origem, cuida-se de mandado de segurança impetrado por candidata à bolsa de doutorado que teve o gozo do benefício vedado por exercer docência, quando a cumulação era permita aos que ingressassem na atividade posteriormente à vinculação ao programa de pós-graduação.

Denegada a pretensão, a impetrante apelou, tendo os membros do Colegiado da instância de origem divergido. Embora não tenha constado do voto prevalecente, a ementa do julgado consignou a inaplicabilidade da técnica de julgamento ampliado por tratar-se de mandado de segurança. A certidão de julgamento assim registrou o evento (e-STJ, fl. 276):

Prosseguindo no julgamento, proferiu voto-vista o Des. Fed. Marcelo Pereira no sentido de divergir da Relatora para negar ao recurso, sendo secundado pelo Des.

Fed. Guilherme Diefenthaeler.

A Turma, por maioria, negou provimento ao recurso, nos termos do voto do Des.

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Superior Tribunal de Justiça

Fed. Marcelo Pereira. Vencida a Relatora que lhe dava provimento.

Conforme sufragado pela 8ª Turma Especializada na Sessão de 24/11/2016, com quorum estendido, em questão de ordem, suscitada pelo Des. Fed. Sergio Schwaitzer nos autos do processo nº 0023854-29.2015.4.02.5101, cuja cópia da certidão de julgamento deverá ser acostada aos presentes autos, foi considerado inaplicável a técnica de julgamento não unânime do art. 942, do CPC/2015 no que concerne aos processos de Mandado de Segurança.

Opostos aclaratórios, estes foram rejeitados, aduzindo o Tribunal local ser inviável a alegação de vícios de fundamentação alusivos a matérias procedimentais (e-STJ, fls.

342-343):

Por fim, quanto a alegação de omissão quanto à aplicação da técnica de julgamento não unânime na presente hipótese - expressamente consignada na certidão de julgamento de fls. 276/277 - melhor sorte não assiste ao embargante, considerando-se que tal questão não se insere dentre os vícios passíveis de correção pela via dos embargos declaratórios, recurso cuja fundamentação é vinculada, e que se encontram taxativamente previstos no art. 1.022, do NCPC, a saber: omissão, obscuridade, contradição e erro material.

Com efeito, deixar de determinar a continuidade do julgamento não unânime não consiste em deixar de analisar ponto controvertido que ensejasse a suscitada ocorrência de omissão, tampouco se pode falar em inexatidão material ou incoerência nos termos do julgado, menos ainda em falta de clareza da decisão embargada; trata-se de mera questão procedimental, contra a qual deverá a embargante socorrer-se de via recursal adequada à sua impugnação.

Nesse cenário, a origem distancia-se do entendimento desta Corte em dupla dimensão: primeiro, porque a técnica de julgamento ampliado deve ser exercida de ofício pelo órgão julgador, sendo desnecessária sua suscitação pela parte interessada.

Portanto, devendo ser exercida espontaneamente, sua não aplicação enseja oposição de aclaratórios. Segundo porque a técnica se aplica indistintamente ao julgamento de apelação, sendo irrelevante ser esta originada de mandado de segurança.

Isso porque o CPC dispôs expressamente as hipóteses de restrição e extensão de incidência do dispositivo (art. 942, §§ 3º e 4º). Ademais, inexiste caráter recursal no procedimento introduzido pelo ordenamento processual, em nada se confundindo, à exceção de seu objetivo teleológico, com o antigo embargo infringente.

A propósito:

PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA, APELAÇÃO. ACÓRDÃO NÃO UNÂNIME. ART. 942 DO CPC/2015. INCIDÊNCIA.

[...]

2. A técnica de ampliação do colegiado prevista no art. 942 do CPC/2015 também tem aplicação para julgamento não unânime de apelação interposta em sede de mandado de segurança.

[...]

4. Recurso especial provido.

(REsp 1.817.633/RS, Rel. Min. GURGEL DE FARIA, PRIMEIRA TURMA, DJe 11/10/2019)

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RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. CPC/15. ART. 942, CAPUT, DO CPC. JULGAMENTO NÃO UNÂNIME DE QUESTÃO PRELIMINAR. APELAÇÃO ADESIVA. TÉCNICA DE AMPLIAÇÃO DO COLEGIADO. INOBSERVÂNCIA.

NULIDADE.

[...]

5. O art. 942 do CPC não determina a ampliação do julgamento apenas em relação às questões de mérito.

6. Na apelação, a técnica de ampliação do colegiado deve ser aplicada a qualquer julgamento não unânime, incluindo as questões preliminares relativas ao juízo de admissibilidade do recurso.

7. No caso, o Tribunal de origem, ao deixar de ampliar o quórum da sessão realizada no dia 9/6/2016, diante da ausência de unanimidade com relação à preliminar de não conhecimento da apelação interposta de forma adesiva pelo autor, inobservou o enunciado normativo inserto no art. 942 do CPC, sendo de rigor declarar a nulidade por "error in procedendo".

8. Ainda que a preliminar acolhida pelo voto minoritário careça de previsão legal, inviável ao Superior Tribunal de Justiça sanar a nulidade apontada, pois o art. 942 do CPC enuncia uma técnica de observância obrigatória pelo órgão julgador, devendo ser aplicada no momento imediatamente posterior à colheita dos votos e à constatação do resultado não unânime quanto à preliminar.

9. Uma vez ampliado o colegiado, os novos julgadores convocados não ficam adstritos aos capítulos em torno dos quais se estabeleceu a divergência, competindo-lhes também a apreciação da integralidade das apelações.

10. RECURSO ESPECIAL PROVIDO PARA DECLARAR A NULIDADE DO JULGAMENTO DAS APELAÇÕES, DETERMINANDO O RETORNO DOS AUTOS AO TRIBUNAL DE ORIGEM PARA QUE SEJA CONVOCADA NOVA SESSÃO PARA PROSSEGUIMENTO DO JULGAMENTO.

(REsp 1.798.705/SC, Rel. Min. PAULO DE TARSO SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julgado em 22/10/2019, DJe 28/10/2019)

RECURSO ESPECIAL. PROCESSO CIVIL. ART. 942, CAPUT, DO CPC/2015.

JULGAMENTO NÃO UNÂNIME. APELAÇÃO. TÉCNICA DE AMPLIAÇÃO DO COLEGIADO. NATUREZA JURÍDICA. INCIDÊNCIA. MARCO TEMPORAL.

ABRANGÊNCIA. NULIDADE. CONFIGURAÇÃO.

[...]

3. Nos termos do art. 942, caput, do CPC/2015, quando o resultado da apelação for não unânime, o julgamento terá prosseguimento em sessão a ser designada, com a presença de outros julgadores, em número suficiente para garantir a possibilidade de inversão do resultado inicial.

4. O art. 942 do CPC/2015 não estabelece uma nova espécie recursal, mas, sim, uma técnica de julgamento, a ser aplicada de ofício, independentemente de requerimento das partes, com o objetivo de aprofundar a discussão a respeito de controvérsia, de natureza fática ou jurídica, acerca da qual houve dissidência.

5. O art. 942 do CPC/2015 possui contornos excepcionais e enuncia uma técnica de observância obrigatória pelo órgão julgador, cuja aplicabilidade só se manifesta de forma concreta no momento imediatamente posterior à colheita dos votos e à constatação do resultado não unânime, porém anterior ao ato processual formal subsequente, qual seja a publicação do acórdão.

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Superior Tribunal de Justiça

6. Diante da natureza jurídica sui generis da técnica de ampliação do colegiado, o marco temporal para aferir a incidência do art. 942, caput, do CPC/2015 deve ser a data da proclamação do resultado não unânime da apelação, em respeito à segurança jurídica, à coerência e à isonomia.

[...]

9. A incidência do art. 942, caput, do CPC/2015 não se restringe aos casos de reforma da sentença de mérito, tendo em vista a literalidade da disposição legal, que não estabelece nenhuma restrição semelhante ao regime dos extintos embargos infringentes.

10. A redação do caput do art. 942 do CPC/2015, que dispõe acerca da apelação, é distinta do § 3º, que regulamenta a incidência da técnica nos julgamentos não unânimes de ação rescisória e agravo de instrumento, para os quais houve expressa limitação aos casos de rescisão ou modificação da decisão parcial de mérito.

11. Recurso especial provido para, acolhendo a preliminar de nulidade, determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que seja convocada nova sessão de prosseguimento do julgamento da apelação, nos moldes do art. 942 do CPC/2015, ficando prejudicadas, por ora, as demais questões.

(REsp 1.762.236/SP, Rel. Min. MARCO AURÉLIO BELLIZZE, Rel. p/ Acórdão Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em 19/2/2019, DJe 15/3/2019)

RECURSO ESPECIAL. PROCESSO CIVIL. CPC/2015, ART. 942. TÉCNICA DE AMPLIAÇÃO DE JULGAMENTO. DECISÕES COM MAIOR GRAU DE CORREÇÃO E JUSTIÇA. ECONOMIA E CELERIDADE. APELAÇÃO NÃO UNÂNIME QUE REFORMA OU MANTÉM A SENTENÇA IMPUGNADA. EMPREGO AUTOMÁTICO E OBRIGATÓRIO.

1. Nos termos do caput do art. 942 do CPC/2015, quando o resultado da apelação for não unânime, o julgamento terá prosseguimento em sessão a ser designada com a presença de outros julgadores, em número suficiente para garantir a possibilidade de inversão do resultado inicial.

2. A técnica de ampliação do julgamento prevista no CPC/2015 possui objetivo semelhante ao que possuíam os embargos infringentes do CPC/1973, que não mais subsistem, qual seja a viabilidade de maior grau de correção e justiça nas decisões judiciais, com julgamentos mais completamente instruídos e os mais proficientemente discutidos, de uma maneira mais econômica e célere.

3. Contudo, diferentemente dos embargos infringentes do CPC/1973 - que limitava, no caso da apelação, a incidência do recurso aos julgamentos que resultassem em reforma da sentença de mérito -, a técnica de julgamento prevista no CPC/2015 deverá ser utilizada quando o resultado da apelação for não unânime, independentemente de ser julgamento que reforma ou mantém a sentença impugnada.

4. A forma de julgamento prevista no art. 942 do CPC de 2015 não se configura como espécie recursal nova, porquanto seu emprego será automático e obrigatório, conforme indicado pela expressão "o julgamento terá prosseguimento", no caput do dispositivo, faltando-lhe, assim, a voluntariedade e por não haver previsão legal para sua existência (taxatividade).

5. Recurso especial provido.

(REsp 1.733.820/SC, Rel. Min. LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA,

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julgado em 2/10/2018, DJe 10/12/2018)

Assim, forçoso reconhecer-se a nulidade procedimental verificada na instância de origem, à qual se restituem os autos para empreender a devida submissão do feito ao julgamento colegiado ampliado, conforme dispõe a jurisprudência desta Corte.

O presente acolhimento torna prejudicado o exame do agravo, pelo que devem os autos seguir, após o trânsito, ao Tribunal local.

Ante o exposto, com fulcro no art. 932, III e V, do CPC/2015, c/c o art. 255, § 4º, I e III, do RISTJ, conheço em parte do recurso especial e, nessa extensão, dou-lhe provimento, para determinar o retorno dos autos à origem para que se aplique o procedimento do art. 942 do CPC/2015. Prejudicadas as questões de mérito.

Publique-se. Intimem-se.

Brasília (DF), 10 de dezembro de 2019.

Ministro Og Fernandes Relator

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