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Rev. dor vol.18 número1

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Academic year: 2018

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A evidência cientíica tornou-se a base de segurança para as escolhas diagnósticas e terapêuticas que realizamos em nossos pacientes. Não há dúvida de que os avanços metodológicos nas pesquisas tornam a prática clínica muito mais coniável, e quanto mais controlado o estudo, maior a coniabilidade de seus resultados. O pesquisador é o personagem idôneo, observador neutro e que não deve pender à conirmação ou à refutação da hipótese, e que busca elucidação dos fenômenos observados. Esse é o comportamento ético esperado. Contudo, é preciso esclarecer a prática clínica tendo em vista o que se considera avanço cientíico, bem como as implicações da utilização de populações amostrais na abordagem do indivíduo que tem dor.

Embora o senso comum geral e proissional considere que a ciência busca a verdade, essa não é uma ideia endossada pelas correntes cientíicas do último século. A propósito, a partir do momento em que a percepção da realidade é condicionada a um eu subjetivo, a partir de Descartes, e que nada mais podemos avaliar do que aparências cujas descobertas se referem a elas mesmas e não à suposta realidade inacessível, como em Kant, é natural a compreensão de que verdade cientíica não nos é acessível, tornando o desenvolvimento cientíico um consenso acerca de teorias que são substituídas de tempos em tempos por uma espécie de revolução (homas Kuhn). Assim, a evidência não é uma verdade sobre os fatos, mas uma teoria sobre a aparência, aguardando a próxima proposta revolucionária.

Também no último século o positivismo foi um dos fatores que promoveu o forte desenvolvimento tecnológico, apesar de restringir os aspectos que podem ser estudados pela ciência ou não. É possível abordar os fatores psíquicos e espirituais de uma forma cientíica; mas na prática o que se observa nos consensos internacionais e nos congressos mundialmente reconhecidos é a valorização dos aspectos materialistas e reducionistas até mesmo na abordagem emocional da dor, o que a tornou apenas um comportamento e nada mais. Assim, evoluímos muito sobre o que sabemos sobre as aparências dos fenômenos, mas há fatores considerados inacessíveis que são determinantes nos doentes com dor e que precisam ser aceitos como problemas de pesquisa para o avanço no conhecimento real do que ocorre nos indivíduos.

Necessário é entender o paciente, para tratá-lo de forma individualizada. Entretanto, as pesquisas de maior valor cientíico são aquelas cujas amostras são maiores, resultando em dados signiicativos, porém genéricos e nem sempre generalizáveis. Para isso, o cientista precisa utilizar critérios de inclusão e exclusão que tornam aquele grupo pouco representativo da população geral, ou as amostras se tornam mais realísticas quanto poucos forem esses critérios embora a compreensão das associações observadas se complique a tal ponto de colocar em dúvida o achado observado, recorrendo-se então à lógica como recurso. Assim, muito podemos saber de forma generalizada sobre as aparências do que observamos, mas estamos cada vez mais distantes do indivíduo único, singular combinação que se apresenta no consultório.

Discorre-se sobre evidências, e os leitores precisam saber o que elas representam de fato na atualidade. Na prática, muitos caem na crença dogmática das evidências publicadas, que podem ou não ser aceitas no futuro e que poderão muito em breve ser substituídas por alguma outra novidade. Esses cientistas das evidências não são céticos, muito pelo contrário. Permanecem céticos apenas aos conteúdos cuja ilosoia materialista reducionista não permite investigar, um reforço retórico e lógico analítico distanciado do fenômeno em si.

Mais além, se o método é idôneo e a hipótese pode ser refutada, como explicar a diferença estatística fortemente signiicativa entre artigos publicados com resultados positivos (que comprovaram a hipótese) em comparação com a baixíssima frequência de artigos que possuem resultados negativos (que refutaram a hipótese)? O que vemos na prática é o desinteresse das revistas cientíicas quando os resultados não são os esperados, além da resistência perante resultados de metodologia impecável embora inovadores, o que torna os dados que denominamos evidência cientíica dignos de uma abordagem metodológica por si mesmos para compreender esses vieses.

O estudo do fenômeno álgico é um campo cientíico que tem ousado revolucionar essas barreiras ao trazer questões como qualidade de vida, emoções e terapias alternativas para a pesquisa e a evidência. É possível produzir estudos de boa qualidade nessas áreas que permitirão acres-centar conhecimento e benefício clínico futuro.

Silvia Regina Dowgan Tesseroli de Siqueira

Professora Associada, Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo; Coeditora Revista Dor

Dissecting current scientific evidences

Dissecando as evidências científicas atuais

© Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor Rev Dor. São Paulo, 2017 jan-mar;18(1):1

DOI 10.5935/1806-0013.20170001

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