Aula 2
Breve introdução ao pensamento marxista pelo
conceito de Ideologia1
Um exemplo de Ideologia
No pensamento grego, a necessidade de entendimento do mundo levou a sociedade à produção de diversas formas de descrever a ordem do mundo, o modo como as coisas funcionavam, e uma que se tornou muito eficaz foi o pensamento aristotélico. Para Aristóteles, era necessário explicar, no mundo, dois de seus estados, pelo que tudo o mais se explicaria, e esses estados eram o repouso e o movimento. Para isso, ele concebeu o modelo das quatro causas (material, eficiente, formal e final): (a) a causa material corresponde à substância que dá existências as coisas do mundo, isto é, pelo que essas coisas são trazidas à existência (no caso de uma mesa de madeira, sua causa material é a madeira2); (b) a causa eficiente corresponde àquilo que dá impulso à realização de qualquer processo3 (ainda no caso da mesa, sua causa material é o trabalho do artesão com a madeira); (c) a causa formal diz respeito àquilo que estabiliza a existência das coisas e organiza a sua existência (corresponde à relação entre os elementos da mesa, quatro pernas sob uma tábua, sua forma); (d) a causa final corresponde à razão pela qual as coisas são o que são (qual o seu fim).
Esse sistema comporta uma hierarquia na medida em que o pensamento grego valoriza certos processos em detrimento de outros. Ora, desde os primórdios da atividade filosófica o que se busca como valor último é tudo aquilo que, de algum modo, se relaciona com o que permanece, já que a ação do tempo corrompia aquilo que, aparentemente, tinha menos valor. Foi segundo o valor da permanência que as quatro causas foram hierarquizadas: com mais valor o que permanece, que é estável, e menos valor o que passa, que é o próprio movimento. As causas material e eficiente foram, assim, desvalorizadas por estarem diretamente ligadas às características mais corruptíveis das coisas, como a sua matéria – que perece – e os acidentes que a matéria sofre, em constante sucessão pela intervenção dos mais diversos eventos. As causas formal e final foram valorizadas por estarem mais diretamente relacionadas às idéias, o que permanece mesmo quando a matéria já se corrompeu e o tempo passou: a forma, como abstração, é atemporal do mesmo modo que a razão de ser dessas idéias e de suas relações com as coisas (a idéia de mesa permanece mesmo quando não se tem uma mesa de fato).
Na cultura grega, as duas primeiras causas estavam relacionadas ainda à poiésis, isto é, à produção, a técnica e ao trabalho, e as duas últimas causas, à
1 Anotações a partir da leitura de O que é ideologia?, de Marilena
Chauí (1980/2008). São Paulo: Brasiliense.
2 A noção de causa em Aristóteles, certamente, é diferente daquela que
conhecemos.
3 Essa causa é aquela que corresponde à noção de causa constituída
com o advento da ciência moderna, que tem o seu sentido extraído de sua relação com um efeito.
práxis, que correspondia à atividade política, ao
exercício da liberdade no campo da ética. Ora, se o trabalho é algo inferior, é preciso que se encarregue dele o que é inferior, e se num mundo ordenado cada elemento tem a sua razão, é de se supor que certas pessoas tenham sido destinadas ao que é inferior, sendo elas mesmas, portanto, inferiores. Esses seriam os escravos. Os homens livres eram, desse modo, superiores, e deveriam se dedicar ao que é superior, o pensamento e a política.
Esse sistema de pensamento, em que o trabalho era desvalorizado, foi herdado pela cultura medieval, por meio da herança justamente do pensamento greco-romano4. Ao mesmo tempo, também se herdava a idéia de que há homens melhores, que se deveriam dedicar a tarefas mais elevadas, e estas ainda se relacionavam ao que é perene, ao mundo da Idéia. Uma tal configuração do pensamento somente se transformou quando as relações sociais, de modo muito amplo, sofreram as suas transformações e quando a relação dos homens com o trabalho também foi transformada: isto aconteceu com o advento do capitalismo.
O que isso nos revela? Que as explicações construídas para o funcionamento do mundo – por mais que pareça estranho – estão ligadas ao sistema de produção, isto é, à forma como se organiza o trabalho numa época. Com o advento do capitalismo – que desmantelou o sistema de produção feudal –, a ciência moderna assumiu o mando dos sistemas de produção de conhecimento e passou a valorizar o empírico. Essa relação entre as idéias e as determinações do mundo material, isto é, o mundo das relações sociais concretas, da produção, etc., é um dos itens mais importantes do pensamento marxista que será aqui objeto de estudo: a ideologia. E é pelo estudo do fenômeno da ideologia – de que o relato anterior é exemplo – que teremos acesso a ele.
Principais operadores do pensamento de Marx
A primeira idéia a ser discutida é que, para compreender a realidade, é preciso partir das relações sociais, do modo como elas se arranjam, e não somente isso, mas também apreendê-las no interior do processo histórico. Contudo, não podemos pensar em história como sucessão de eventos, como freqüentemente se faz, pois, em Marx, a história tem uma racionalidade própria, que não é a dos acontecimentos. Para ele, o que põe a história em movimento é a contradição que determina os acontecimentos.
A idéia de contradição ele conservou da filosofia dialética5 de Hegel. Para esclarecer qual o sentido de contradição diferenciemo-la de oposição. Na oposição, dois termos que se opõem têm existência autônoma, são reconhecíveis separadamente e podem,
4 É preciso lembrar que é ainda no império romano que tem sua
origem a estrutura produtiva e social que se tornará o feudo.
5 É preciso lembrar que o termo dialética se relaciona a um amplo
conjunto de sentidos e contextos diversos. No entanto, aquele que nos interessa aqui é o da dialética no modo como foi apropriada pela filosofia marxista.
portanto, ser tomados um de cada vez para serem entendidos (p. ex., dois homens que se opõem: a existência deles é independente e podem ser tomados separadamente). Já na contradição, os elementos que a compõe somente têm sentido simultaneamente apreendidos e no interior de uma mesma relação de negação mútua. Essa é a mesma contradição do princípio lógico segundo o qual “é impossível que A seja A e não-A, ao mesmo tempo e na mesma relação”. Um exemplo: um homem pode ser pai e filho ao mesmo tempo – caso ele tenha um filho, nessa relação ele é pai; caso ele tenha um pai, nessa relação ele é filho. No entanto, na mesma relação e ao mesmo tempo ele não pode ser pai e filho, porque ele não pode ser filho de seu filho ou pai de seu pai. Por outro lado, pensemos na relação entre Senhor e Escravo. Não podemos explicar a natureza do Senhor em suas relações externas (“o Senhor não é uma pedra”, isso não me diz nada), mas somente em suas relações internas (o Senhor é o que manda num Escravo, ou seja, o Senhor somente “é” em relação ao não-Senhor, o Escravo). E nessa mesma relação é que se define o seu contrário (o Escravo é aquele que tem um Senhor, ou seja, o Escravo somente “é” em relação ao não-Escravo, o Senhor). Senhor e Escravo não podem ser entendidos separadamente ou fora da contradição entre os dois.
Trata-se aqui de uma negação interna e, para Hegel primeiro, em seguida para Marx, é a contradição que move a história, o seu motor interno.
Essa contradição que move a história não é uma contradição qualquer, mas aquela que se produz no interior das relações sociais, entre homens reais; ela concerne, portanto, a uma concepção materialista6 da história. Ora, se o movimento da história se deve à contradição, e se essa contradição se produz no interior da atividade humana, das relações sociais concretas, a contradição que põe a história em movimento pode ser entendida como luta. Essa luta assume diversas formas. Exploremos a mais fundamental dessas lutas, que é a luta pela sobrevivência do homem.
Na luta pela sobrevivência o que de mais fundamental que o homem enfrenta é a Natureza e esta é a primeira contradição da história, ou a contradição mais fundamental. O homem, que precisa produzir as condições materiais de sua própria existência, tem de negar a Natureza, porque precisa transformá-la de forma a atender as suas necessidades; tem, portanto, de transformar a Natureza em não-Natureza. No entanto, quando ele faz isso ele nega a si mesmo também como parte dessa mesma Natureza, dela se diferenciando para se reinventar no campo da cultura. E isso é fácil de se observar, pois nenhum outro animal necessita transformar tanto a seu meio para gerar as condições de
6 Mais uma vez, é preciso lembrar que materialismo também carrega
um conjunto amplo de sentidos. O sentido que nos interessa é aquele que assume no interior do pensamento marxista. Para Marx, a matéria é a primeira instância da realidade, no entanto, está sujeita a transformações de transformação de sua qualidade. Por esta via é que se pode pensar a relação entre matéria e idéia, pois a consciência também tem sua origem na matéria e, uma vez surgida, estabelece com ela um outro tipo de relação dialética.
sua sobrevivência. E quando o homem faz isso ele se projeta para o mundo da cultura. Lembremos, por exemplo, que uma operação civilizatória fundamental é cozinhar o alimento, algo que nenhuma outra espécie realiza.
A esse processo de transformação da Natureza para a produção das próprias condições de existência, Marx chama trabalho. O trabalho, portanto, é a mediação fundamental dessa primeira contradição e, como veremos, a mediação fundamental de todo movimento da história. Ele é mais do que simples transformação da Natureza, pois sabemos que outros animais também transformam a natureza em larga medida. Uma característica deve ser acrescentada ao trabalho, aquela que diferencia, conforme Marx7, a realização da melhor abelha e do pior arquiteto: o fato de que o homem tem o produto final de seu trabalho em sua mente, ou consciência, antes de iniciá-lo. Transformando a realidade pelo trabalho, o homem percebe a relação entre a sua própria ação e as suas condições de existência. Então se apropria de sua própria ação, pela intencionalidade, a fim de conduzi-la e dirigi-la para fins antecipados. Nesse processo toma consciência de si mesmo. A atividade produtiva corresponde ao processo pelo qual o homem se torna homem. A intencionalidade distingue o trabalho humano, isto é, a consciência da capacidade transformadora de sua ação e o poder de antecipar o seu trabalho. Isso dá ao homem, isto é, sua consciência, o controle no processo de produção de suas próprias condições de existência, sendo justamente o que o humaniza, a saber, o trabalho.
Assim, como a contradição é o motor da história, o trabalho é a sua mediação fundamental e o homem é senhor do trabalho, a história é produto humano, da ação humana. O homem, então, não é apenas uma marionete na história, submetido passivamente às suas determinações (como pretende um determinismo positivista para a história). Como afirma Marx, “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem em circunstâncias escolhidas por eles mesmos, mas em circunstâncias diretamente recebidas, dadas e transmitidas pelo passado”8. De fato, a história é produto de homens reais sob determinações concretas.
Lembremos que o trabalho realizado pelo homem na produção de sua própria sobrevivência é, desde o momento em que podemos encontrá-lo na história conhecida, um trabalho coletivo e que, entre as condições materiais que condicionam o trabalho e – por conseguinte – a existência do homem, estão as relações sociais. Desde onde conhecemos o trabalho humano ele se realiza sob a condição de sua divisão social: do homem e da mulher, do caçador, do pastor, do agricultor, e, na medida em que a cultura se complexifica, a divisão entre trabalho propriamente material e trabalho intelectual9. Como vimos
7 O Capital, Livro I. 8
O 18 Brumário de Luís Bonaparte.
anteriormente, a consciência está ligada ao trabalho e à produção, isto é, ligada às condições materiais de produção de existência, às formas de intercâmbio e de cooperação para o trabalho, portanto, e na consciência dos homens essas condições são representadas na forma como lhes aparece: a partir do momento em que se estabeleceu a diferença entre trabalho intelectual e material, e na medida em que essas relações foram objetivadas no mundo das relações sociais10 e nas consciências dos “pensadores”, tais representações ganharam autonomia e aquilo que era efeito da ação do homem – aquele diretamente ligado à produção material – lhes apareceu como causa. Isto é, o fato de que o incremento da produção humana permitiu a liberação de alguns homens do trabalho material para o intelectual foi obscurecido com o tempo, de forma que esse arranjo das relações produtivas passou a ser pensado como anterior à própria ação do homem. Esse é o processo pelo qual a representação, ao se separar do trabalho propriamente dito, sempre inverte a realidade das relações sociais. O primeiro movimento da consciência, sob tais condições, parece ser a alienação.
Foi isto que sucedeu ao mundo antigo para que o trabalho passasse a ser desvalorizado e, segundo Marx, acontecia com os seus contemporâneos ainda na modernidade. Ele avaliou a filosofia de sua época como um sistema de representações que invertia o sentido da realidade por causa da perda do vínculo entre o pensamento que lhe deu origem e a produção material, e o advento do capitalismo somente agravou esse processo.
As determinações do sistema capitalista
É também no interior da atividade produtiva que o homem pode ser apartado de sua própria humanidade, e é o que acontece sob as determinações do modo de produção11 capitalista12. Nesse sistema, o trabalhador é separado dos meios de produção, os quais passam a posse exclusiva do capitalista. A única coisa que permanece como possessão do homem comum é o seu próprio corpo, que ele deve oferecer como força de trabalho. Assim, a força de trabalho é tornada uma mercadoria. Além disso, como sabemos, o sistema de produção capitalista engendra também a fragmentação do trabalho, fazendo com que o trabalhador se encarregue somente de parte do processo produtivo (a
10 Lembremos do processo tríplice de exteriorização, objetivação e
interiorização em Berger & Luckmann, A construção social da realidade. Uma das referências para a construção teórica daqueles autores é Marx.
11 Essa expressão se refere, em Marx, à forma da organização
socioeconômica em um determinado lugar e em uma determinada época, pela qual se discerne a etapa do desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção. Isso envolve, por exemplo, a forma específica do trabalho (artesanal, manufaturado, industrial), os seus meios (ferramentas, máquinas, oficinas fáricas), etc.
12 O modo de produção capitalista se especifica pela propriedade
privada dos meios de produção e pelo mercado livre de bens. Os meios de produção correspondem aos meios de trabalho efetivos já descritos, mas meios de transporte, fontes de energia, etc., mais os objetos de trabalho, ou seja, os objetos materiais que devem ser pelo trabalho tansformados.
especialização técnica). Com isso ele perde de vista o produto final e, por conseguinte, a finalidade de seu próprio trabalho13. Ora, se o homem não pode ser reconhecer no produto final de seu trabalho, isto é, se não pode reconhecer nesse produto final a sua própria ação transformadora, se torna obstruída a possibilidade de tomada de consciência. O homem é alienado de si mesmo pela alienação da possibilidade de consciência pelo trabalho.
Uma das formas pelas quais o capitalismo produz essa alienação14 é sob a forma do fetichismo da
mercadoria. Ora, pensemos na mercadoria como uma
coisa atribuída de valor; este valor pode ser valor de uso – o valor que qualquer objeto adquire pelo uso a que se dispõe – ou valor de troca – o valor que um objeto adquire em relação a outro pelo que pode ser trocado. De fato, não existe parâmetro racional para a atribuição de valor, como se se pudesse encontrar o valor absoluto de uma coisa, um valor que lhe seja essencial, um valor objetivo (qual o valor absoluto e autoreferido de um caderno?). O que Marx percebe é que o valor dos objetos somente pode ser deduzido da composição de seu preço em um mercado, e nesta composição devem ser considerados o valor da matéria-prima associado necessariamente ao trabalho que a transforma. O trabalho pode ser medido em tempo de trabalho e é isso que determina o preço e o valor das coisas.
No entanto, Marx percebe que o preço das mercadorias não corresponde exatamente ao valor que o trabalho agrega a ela, pois se o preço fosse igual ao valor que o trabalho lhe agregou não seria possível extrair lucro nessa operação. Assim, é preciso que parte do tempo de trabalho na produção da mercadoria não seja pago ao trabalhador para que a mercadoria possa gerar lucro. Por isso, a mercadoria tem sua real natureza no trabalho concentrado não-pago – a mais-valia15 – e é nisso que consiste a exploração do trabalho, a essência do capitalismo. O capitalismo consiste na contradição entre capital e trabalho, isto é, na negação do trabalho em favor do acúmulo de capital.
Valor da mercadoria = tempo de trabalho = preço
ܲݎ݁ç ܸ݈ܽݎ ݀ܽ ݉݁ݎܿܽ݀ݎ݅ܽ – ݈ܵܽáݎ݅ ݐݎܾ݈ܽܽℎ ܽ݃ = ݈ݑܿݎ ݉ܽ݅ݏ ݒ݈ܽ݅ܽ (ݐݎܾ݈ܽܽℎ ݊ã ܽ݃)
13 Se tivermos em consideração o processo de produção de um sapato.
No trabalho artesanal, o artesão realiza todo o processo produtivo, ele mesmo projeta todas as suas etapas e as executa. Se esse processo é industrializado, surge a figura do operário, que se encarrega, por exemplo de cortar o couro que se tornará sapato, mas sem enxergar, possivelmente, em que tipo de sapato o seu trabalho se tornará, ignorando ainda todas as outras etapas do processo produtivo em questão.
14 Este é mais um conceito de longa história. No contexto do
pensamento marxista, esse conceito se refere, em termos superficiais, ao alheiamento do homem com relação às condições de sua própria consciência.
15 A mais-valia é justamente a base da exploração do trabalho no
sistema de produção capitalista, pois se trata da diferença entre o valor produzido pelo trabalho e o valor do trabalho efetivamente transformado em salário, que é pago ao trabalhador.
Neste sistema, porque o trabalho é negado, a mercadoria deixa de trazer a marca do trabalho – isto é, o homem deixa de perceber a relação intrínseca entre a mercadoria e o seu próprio trabalho pela cisão introduzida no interior do processo produtivo – e passa a ser percebida como uma simples coisa a ser consumida, como uma coisa-em-si, que existe independentemente da ação humana. Um tipo particular de mercadoria, que reifica16 o valor como pura abstração, que é o dinheiro, ganha tanta autonomia que passa a exercer certo poder sobre os próprios homens que a criaram, do mesmo modo que fantasmas, amuletos, símbolos, deuses – ou seja, o dinheiro se torna um fetiche17. No sistema de produção capitalista os homens são realmente transformados em coisas e as coisas transformadas em “gente”, pois como se pode perceber o homem se faz mercadoria vendendo sua força de trabalho; por outro lado, o dinheiro parece mover o mundo, uma capacidade que realmente é apenas da ação humana. É essa autonomização do funcionamento das coisas, apartadas de seu caráter produzido, a que Marx chama alienação.
Mas como é que esse sistema se sustenta sem que as pessoas percebam o que está realmente acontecendo, sem que os trabalhadores percebam que estão sendo explorados e expropriados?
A concepção marxista de ideologia
Fazem parte da idéia de modo de produção, além das condições materiais dessa produção e das relações sociais concretas que as sustentam, também um conjunto de representações diversas (jurídicas, culturais, econômicas, etc.) que disso decorrem, compondo, juntamente com aqueles outros elementos, a
totalidade18 em que consiste a realidade de que fazemos
parte. A cada sistema de produção corresponde um conjunto de idéias que o justifica, que serve para camuflar as suas contradições de modo que não sejam percebidas pelos homens.
Como vimos, uma conseqüência da divisão social do trabalho é a luta de classes19 e a contradição
16 Vem do latim res. Isto quer dizer, coisifica, transforma em coisa. 17 Marx, Manuscritos Econômico-Filosóficos. A palavra fetiche
designa um objeto qualquer investido pelo homem de propriedades especiais, mágico-religiosas, por exemplo. Em Marx, o fetichismo da mercadoria designa a operação psicossocial pela qual certos objetos, como o dinheiro, parecem ter vontade e exercem poder sobre os homens..
18 A idéia de totalidade é de extrema importância na teoria marxista.
Ela implica que não se podem dissociar os diversos elementos estruturantes da realidade sem que se adultere a realidade no campo do pensamento. Com isso, essa idéia assume o status de um operador metodológico da reflexão marxista.
19 Já foi mencionado o fato de que a contradição fundamental do
capitalismo é entre o capital e o trabalho, e que também caracteriza esse sistema de produção a propriedade privada dos meios de produção por uns em detrimento de outros. Tais condições do sistema de produção capitalista dão origem à existência de classes sociais, isto é, classes de grupos de pessoas que ocupam posições diferenciadas nesse sistema. Por um lado, os que possuem os meios de produção e, com isso, compram a força de trabalho de outros, cuja exploração do trabalho não pago deve gerar o capital. Por outro lado, aqueles que vendem a sua força de trabalho sendo, portanto, explorados,
que ela engendra. Essa divisão de classes também provoca efeitos sobre o mundo das idéias, pois cada uma das classes sociais em luta tem os seus próprios interesses: o interesse principal da classe dominante é permanecer no domínio, assim como o principal interesse da classe dominada é deixar de ser dominada. Se lembrarmos que uma modalidade fundamental de divisão social do trabalho é a divisão entre o trabalho material e o intelectual, e lembrarmos que essa divisão provoca a separação entre trabalho e representação, então perceberemos que a representação que essa divisão produz é uma forma de projeção de interesses. Os interesses das classes dominantes é que são projetados, e são projetados no mundo das idéias como interesses coletivos, e a sua institucionalização se torna o que conhecemos, no mundo moderno, como o Estado.
Consideremos os ideais mais importantes que a modernidade produziu e que até hoje são estruturantes em nossa cultura contemporânea: todos esses ideais estão relacionados à liberdade e à igualdade. No entanto, os homens em sua vida concreta somente conhecem liberdade e igualdade como virtualidades e não chegam a experimentar nenhuma das duas em sua plenitude. Por exemplo, não se pode conceber que um rico goze da mesma liberdade que um pobre, pois se aquele que é rico quiser ir do Brasil para o Japão ele é livre de direito e de fato para ir; já o que é pobre é livre de direito – virtualmente – mas não é livre de fato para ir, pois não terá os meios a sua disposição. Alguém pode pensar que ninguém o impede de ir, e isto está certo, no entanto as suas condições materiais o impedem e, como vimos anteriormente, as condições materiais em que o homem vive foram por ele produzidas. Então, se há pobres é porque a história das ações humanas produziu os pobres, assim como produziu os ricos, e isso se constitui em uma desigualdade que não pode ser superada apenas no mundo das idéias. Mesmo assim, todos tendemos a pensar que o pobre é, de fato, livre, e se ele não pode ir ao Japão ninguém pode ser culpado disso senão ele mesmo, pois se ele tiver “força de vontade” e “trabalhar muito” ele pode vir a conseguir o que quer.
Este é o sistema de idéias que sustenta o sistema de produção capitalista, pois o capitalismo não necessita de que todos sejam iguais ou livres, mas necessita de um certo tipo de igualdade e de liberdade, somente aquela que permita a criação e manutenção de certas relações sociais, as relações de trabalho. Lembremos que, no capitalismo, o trabalhador é aquele que vende sua força de trabalho. Ele o faz mediante um contrato de trabalho e as condições fundamentais para o estabelecimento de um contrato pelo qual se pode vender a própria força de trabalho, isto é, pela qual alguém pode se fazer uma mercadoria são alguma liberdade e igualdade, pois o homem vende livremente seu trabalho e se o faz livremente é porque negocia com seus iguais.
constituem outra classe social. Trata-se do capitalista e do trabalhador, ou, como também ficou conhecido, da burguesia e do proletariado.
A idéia de liberdade serve para que o trabalhador não pense que está sendo explorado e a idéia de igualdade serve para escamotear a contradição entre classes sociais. Desse modo, o sistema vai se mantendo sem que as pessoas questionem as coisas como elas são e funcionam, pois as relações sociais em que nós vivemos – assim pensamos todos – são assim desde que o mundo é mundo, sendo anteriores a ação do homem, dela separadas e por ela não podem ser mudadas. É assim que funciona a ideologia para Marx.
Definição de ideologia
Mesmo assim, precisamos esclarecer ainda mais esse conceito. Segundo Marilena Chauí, “a ideologia não é um processo subjetivo e consciente, mas um fenômeno objetivo e subjetivo involuntário, produzido pelas condições objetivas da existência social dos indivíduos”20. Isto significa que a ideologia não é somente uma coisa da cabeça das pessoas, mas é algo que tem certa objetividade no mundo concreto, a saber, no mundo das relações sociais concretas: ela é materializada de várias maneiras na nossa cultura, sob a forma de leis, costumes, senso comum, instituições de diversas naturezas. Além disso, sua formulação não é consciente e intencional, nem mesmo para aqueles cujos interesses ela representa. É na relação do homem com a classe social a que pertence que ele a percebe como sendo algo exterior ao campo de sua ação, a que deve se submeter e cujo poder é inescapável (ele naturaliza a classe social em vez de historicizá-la). Com isso, ele se aliena de sua própria consciência de classe – ou seja, da consciência da contradição que governa as relações sociais e do fato de que essa contradição é produto da ação de todos os homens – e se submete à ideologia.
Assim, a ideologia somente pode ser entendida com referência à luta de classes. Outra característica que disso decorre é que, se a ideologia é objetiva, se é conseqüência das relações sociais concretas numa determinada sociedade e época, assim como o processo de alienação, ela não poderá ser superada pela simples transformação das idéias, do subjetivo (conscientização seja de qualquer forma), mas somente pela transformação das condições materiais de existência e, simultaneamente, da consciência, ou seja, num movimento ao mesmo tempo subjetivo e objetivo.
Portanto, as condições sob as quais surge e se mantém a ideologia: a) divisão do trabalho em material e intelectual (os que trabalham não pensam e os que pensam não trabalham); b) a alienação, isto é, o fato de que os homens percebem a realidade das relações sociais e produtivas não como produto de sua ação na história, mas como algo que lhes transcende e que lhes é exterior, a que estão submetidos e sobre o que não têm qualquer força; c) a ideologia decorre da luta de classes e do fato de que há uma classe dominante, e esta dominação é justamente o que a ideologia oculta e assim, mantém todo um arranjo de coisas de que ela mesma é parte. “A ideologia é o processo pelo qual as
20 O que é ideologia?
idéias da classe dominante tornam-se as idéias de todas as classes sociais, tornam-se idéias dominantes” (Chauí, p. 85)21, e “as idéias dominantes nada mais são do que a expressão ideal das relações materiais dominantes” (Marx citado por Chauí, p. 85)22. E as operações fundamentais da ideologia são a naturalização dessas relações materiais reais e a produção de universais
abstratos para a descrição do homem, pelo que se
escamoteia a própria desigualdade e a luta de classes. Num segundo momento, a ideologia, que produziu esses
universais abstratos necessita ser incorporada ao senso comum. Num terceiro momento, a ideologia pode
resistir com a sua força mesmo que a classe dominada perceba a sua relação com uma classe dominante, pois uma outra função da ideologia é produzir a separação entre a classe dominante e as suas idéias.
21
Id.