3 Conexões com a Termodinâmica
Para estabelecer conexões entre a descrição macroscópica da termodinâmica e a descrição microscópica da mecânica estatística, é proposta a seguinte conjectura:
O equilíbrio termodinâmico de um sistema macroscópico corresponde ao equilíbrio estatístico do conjunto de suas partículas constituintes.
Com base nessa hipótese, veremos como estabelecer tais conexões em termos teóricos e, a fim de buscar indícios de sua validade, comparar as conclusões com resultados experimentais.
• Equilíbrio Térmico
Considere um sistema composto por dois diferentes grupos de partículas, de modo que cada grupo constitui um subsistema.
Os dois subsistemas podem ser, por exemplo: um líquido com um sólido nele imerso; uma mistura de dois gases ou dois líquidos; ou ainda dois sólidos em contato.
Energia pode ser trocada entre as partículas dos subsistemas, mas a energia total do sistema composto está fixa. Ou seja, a energia de cada subsistema pode não se conservar, mas a do sistema como um todo se conserva. Isto equivale a um sistema composto isolado, no qual os subsistemas estão separados por uma parede diatérmica.
Se não houver reações químicas entre as partículas nos dois subsistemas, o número total de partículas em cada subsistema será constante.
Demonstra-se que, na condição de equilíbrio estatístico, o parâmetro b será o mesmo para os dois subsistemas. No equilíbrio térmico, o parâmetro que se iguala nos subsistemas é a temperatura. Sendo as situações de equilíbrio térmico e estatístico correspondentes, podemos sugerir que b e a temperatura T devem estar relacionados de algum modo.
• Entropia
A entropia “S” de um sistema isolado aumenta em um processo irreversível. No estado final, quando o equilíbrio termodinâmico é atingido, a entropia terá um valor máximo consistente com a energia, o volume e o número de partículas do sistema.
W também apresenta um valor máximo quando o sistema de muitas partículas atinge o equilíbrio estatístico.
Isto sugere a possibilidade da existência de uma relação entre S e W.
Considere dois subsistemas A e B em contato térmico. Por ser um variável extensiva, a entropia para o sistema composto formado pelos dois subsistemas pode ser escrita como:
Para o W de certa partição do sistema composto, vale a relação:
W
=
W
A.
W
BSe, por hipótese,
S = f(
W
)
, entãof(
W
A.
W
B) = f(
W
A) + f(
W
B)
A única função matemática que satisfaz simultaneamente a condição de que a entropia dos subsistemas é aditiva enquanto que os W são multiplicativos, é o logaritmo.
Assim, é possível escrever a relação entre a entropia e o número de microestados acessíveis através da chamada equação de Boltzmann:
S = k.ln
W
onde k é uma constante.
Esta equação aplica-se a qualquer distribuição, seja de equilíbrio ou de não equilíbrio.
Esta definição de entropia implica que a entropia de um sistema é uma propriedade do estado do sistema. Então, a variação na entropia do sistema quando ele passa de um estado a outro é independente do processo realizado, uma vez que ela é determinada pelo número de microestados correspondentes aos estados inicial e final, associados às probabilidades destes estados.
A entropia de um sistema isolado em equilíbrio tem um valor máximo compatível com as condições físicas do sistema. Assim, os únicos processos que podem ocorrer no sistema isolado após a situação de equilíbrio ser alcançada, são processos reversíveis nos quais a entropia não varia (dS = 0).
De outro modo, se um sistema isolado não se encontra em equilíbrio, ele naturalmente evoluirá numa direção na qual a entropia aumenta por meio de processos que o conduzem rumo ao estado de equilíbrio. Isto é, em determinado intervalo de tempo, o sistema irá evoluir devido às interações entre seus componentes, até atingir a distribuição de máxima probabilidade (que maximiza W).
Os processos mais prováveis de ocorrerem em um sistema isolado são tais que
A desigualdade vale quando o sistema isolado não está inicialmente em equilíbrio e os processos são irreversíveis.
Podemos estabelecer um enunciado geral compatível com a segunda lei da termodinâmica: Os processos mais prováveis que podem ocorrer em um sistema isolado são aqueles nos quais sua entropia aumenta ou permanece constante.
0
dS
Este enunciado deve ser interpretado no sentido estatístico. Devido às flutuações na distribuição das partículas, a entropia do sistema isolado pode eventualmente diminuir, mas quanto maior o eventual decréscimo, menor é sua probabilidade de ocorrência.
A variação da entropia durante a evolução no tempo de um sistema rumo ao equilíbrio pode ser representada graficamente:
Fenômenos de transporte, tais como difusão molecular e condução térmica, são exemplos de processos que ocorrerem naturalmente sempre numa direção bem definida: a de aumento da entropia do sistema. A difusão ocorre numa direção na qual a concentração em diferentes partes do sistema tende a se igualar, resultando em um sistema homogêneo. O calor é transferido de modo a homogeneizar a temperatura do sistema.
O processo reverso (uma transformação espontânea de um sistema homogêneo em heterogêneo), que corresponderia a uma diminuição da entropia, nunca é observada.
Se uma gota de tinta é pingada em um ponto A no interior de um copo com água, as moléculas de tinta espalham-se através da água. Após algum tempo, a água estará uniformemente colorida e neste processo a entropia do sistema aumenta.
Se, em um dado instante, as velocidades de todas as moléculas fossem exatamente invertidas, toda a tinta poderia voltar a se concentrar no ponto A, resultando em decréscimo na entropia. Mas, a probabilidade de ocorrência natural de tal evento é extremamente baixa, de modo que nunca será observado.
Por outro lado, existirão pequenas flutuações na concentração das moléculas de tinta em diferentes locais, mesmo após o equilíbrio ter sido atingido. Tais flutuações são, na maioria dos casos, indetectáveis.
Se o sistema não é isolado, sua entropia pode diminuir pela interação com outros sistemas cujas entropias devem variar. Mas, a quantidade total de todas as variações de entropia em todos os sistemas envolvidos no processo deve estar em conformidade com dS = 0 para processos reversíveis e dS > 0 para processos irreversíveis. Ou seja, a variação de entropia de um dos componentes pode ser negativa durante o processo, mas a variação de entropia líquida do sistema inteiro deve ser positiva ou nula.
• Temperatura
Utilizando algumas relações obtidas na dedução da distribuição de equilíbrio de Maxwell-Boltzmann e as definições de entropia e energia interna da mecânica estatística, demonstra-se a relação entre o parâmetro b e a temperatura:
Esta relação se constitui em uma fundamental conexão entre termodinâmica e mecânica estatística: este é o modo pelo qual o conceito macroscópico de temperatura é introduzido na mecânica estatística.
Como S = k.lnW e W é adimensional, no sistema internacional a constante k deve ser expressa em J/K e o parâmetro b = 1/kT será dado em J-1.
kT
U
S
k
dU
d
N V1
1
ln
,
W
b
b
b
Deve-se ressaltar que a definição estatística de temperatura dada pela relação anterior é válida somente para um sistema de partículas em equilíbrio, a princípio não se aplicando a uma única partícula ou a um sistema que não esteja em equilíbrio.
A razão para isto é que b aparece somente em conexão com o cálculo da distribuição mais provável do sistema, que corresponde, por definição, ao estado de equilíbrio. Se o sistema não está em equilíbrio, ainda seria possível pensar em uma temperatura “efetiva” para cada pequena porção do sistema, assumindo que cada uma destas pequenas porções esteja localmente em equilíbrio e contenha um número suficientemente grande de partículas.
A distribuição de Maxwell-Boltzmann e a função de partição podem ser escritas como:
Sendo , a energia interna é dada por:
kT E i i i
e
g
Z
N
n
/
i kT E i ie
g
Z
/ 2kT
dT
d
b
N VT
Z
kNT
U
, 2ln
Uma vez que a exponencial é uma função decrescente da razão Ei/kT, quanto maior a razão Ei/kT, menor será o valor do número de ocupação ni.
Para uma dada temperatura, quanto maior a energia Ei menor será o valor de ni. Isto significa que a ocupação dos níveis pelas partículas decresce com o aumento da energia.
Em baixas temperaturas, somente os mais baixos níveis de energia são ocupados. No zero absoluto, apenas o “estado fundamental”, o nível de energia mais baixo, está ocupado.
Em altas temperaturas (correspondentes aos menores valores de Ei/kT para uma dada energia), a população relativa dos níveis de energia mais elevados aumenta pela transferência de partículas dos níveis mais baixos para os mais elevados.
Distribuição de Maxwell-Boltzmann em 3 temperaturas: ni/gi em função da energia Ei .
• O limite termodinâmico
Como a variância (dispersão) associada à energia por partícula nunca pode ser negativa, a seguinte condição deve ser obedecida:
Isto implica que a energia média de qualquer sistema (N.<E>) aumenta com o aumento da temperatura. Identificando a energia média do sistema com sua energia interna, é possível determinar o limite termodinâmico através do desvio relativo da distribuição de energia. Reescrevendo a variância da energia em função das grandezas termodinâmicas temperatura, número de partículas e calor específico a volume constante, obtém-se:
O desvio relativo será dado por:
que se anula para
0
0
T
E
E
b
2 2
2
0
kT
Nc
vT
U
kT
U
E
b
N
N
N
u
Nc
kT
E
E
v1
.
2 2
• Calor e Trabalho
Suponha que um sistema em equilíbrio estatístico sofra uma transformação infinitesimal como resultado de uma interação com sua vizinhança. A interação produz uma variação nos números de ocupação ni e eventualmente nos possíveis níveis de energia Ei, de modo que a variação na energia interna do sistema escreve-se como:
Apesar desta relação valer quer o processo seja reversível ou irreversível, a análise a seguir se limitará a processos reversíveis, de modo que em cada instante o sistema está em equilíbrio estatístico. O processo deve então ser suficientemente lento para que, em cada instante, a distribuição das moléculas possa se ajustar à correspondente partição mais provável.
A primeira somatória no segundo membro está associada a uma variação na energia interna devido a uma redistribuição das partículas entre os níveis de energia disponíveis, enquanto que a segunda somatória corresponde a uma variação na energia interna devido a variações nos próprios valores dos níveis de energia.
i i i i i idn
n
dE
E
dU
Como os níveis de energia de uma partícula confinada em um recipiente fechado dependem das dimensões do recipiente, uma variação dEi estaria associada a uma variação no volume ocupado pelo sistema. Então, a segunda somatória corresponderia ao trabalho realizado pelo sistema, que poderia ser, por exemplo, um gás se expandindo contra o êmbolo móvel de um recipiente fechado, no qual a variação na energia dEi se deve à variação no volume do recipiente ocupado pelo gás.
Como, pela primeira lei, dU = dQ – dW, o calor absorvido pelo sistema é:
i i idE
n
dW
i i idn
E
dQ
Assim, calor é definido, do ponto de vista estatístico, como a variação na energia do sistema devido aos “saltos” das partículas entre os níveis de energia, saltos estes resultantes das trocas de energia (interações) entre o sistema e sua vizinhança.
Ex.1)
Obter expressões para a entropia, a energia livre de Helmholtz e a pressão de um sistema em equilíbrio, em função da temperatura, do número de partículas do sistema, da função de partição e da energia interna.
Ex. 2)
A partir da expressão da entropia deduzida no exercício anterior, obtenha a relação entre a variação da entropia e o calor absorvido por um sistema em um processo reversível, isto é, mostre que dS = dQ/T.
Em suma, a mecânica estatística fornece um conjunto de regras práticas para a obtenção das propriedades de um sistema de partículas fracamente interagentes em equilíbrio:
1. Use a mecânica quântica para encontrar os estados acessíveis ao sistema. 2. Obtenha a função de partição Z em termos da temperatura T e do volume V. 3. Calcule a energia U derivando lnZ em relação a T.
4. Calcule a pressão derivando lnZ em relação a V. 5. Calcule a entropia a partir de Z e U.