PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA ESCOLA DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES E HUMANIDADES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM LETRAS
ROSALLY BRASIL PEREIRA
ECOPOESIA E O IMAGINÁRIO EM SACIOLOGIA GOIANA DE GILBERTO MENDONÇA TELES E POEMAS DE EDIVAL LOURENÇO
GOIÂNIA 2018
ROSALLY BRASIL PEREIRA
ECOPOESIA E O IMAGINÁRIO EM SACIOLOGIA GOIANA DE GILBERTO MENDONÇA TELES E POEMAS DE EDIVAL LOURENÇO
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Literatura e Crítica Literária da Pontifícia Universidade Católica de Goiás como requisito para obtenção do título de Mestre em Literatura e Crítica Literária.
Orientadora: Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima
GOIÂNIA 2018
P436e Pereira, Rosally Brasil
Ecopoesia e o imaginário em Saciologia goiana de Gilberto Mendonça Teles e poemas de Edival Lourenço [recurso
eletrônico] / Rosally Brasil Pereira.-- 2018. 185 f.: il.
Texto em português com resumo em inglês
Dissertação (mestrado) - Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu
em Letras, Goiânia, 2018
Inclui referências, f. 169-170
1. Teles, Gilberto Mendonça, 1931- - Saciologia goiana - Crítica e interpretação. 2. Literatura goiana -
História e crítica. 3. Lourenço, Edival, 1952 - Crítica e interpretação. 4. Ecocrítica. 5. Meio ambiente na literatura. 6. Imaginário. I.Lima, Maria de Fátima Gonçalves. II.Pontifícia Universidade Católica de Goiás. III. Título.
Dedico este trabalho aos meus familiares e amigos, que me acompanharam nessa trajetória.
Agradeço a Deus, à minha orientadora, aos meus professores do Mestrado em Letras e aos meus colegas.
A imagem se transforma num ser novo de nossa linguagem, exprime-nos fazendo-nos o que ela exprime, ou seja, ela é ao mesmo tempo um devir de expressão e um devir de nosso ser. No caso, ela é a expressão criada do ser (BACHELARD, 1978, p. 188).
RESUMO:
Nesta pesquisa analisa-se a obra Saciologia goiana de Gilberto Mendonça Teles associada a alguns poemas de Edival Lourenço, sob o aspecto de ecopoesia e da teoria do imaginário de Gilbert Durand. Para isto, entramos no fio condutor da imaginação poética, da fenomenologia de Bachelard. O objetivo é analisar as poesias sob a teoria do imaginário de Gilbert Durand, pelo recurso do devaneio de Bachelard, no aspecto da ecocrítica. De início, fizemos a leitura dos poemas do livro Saciologia goiana de Gilberto Mendonça Teles, e Poesias Reunidas de Edival Lourenço, destacando os poemas que trazem uma (re)apresentação de uma realidade sobre a relação do homem com a natureza. Exploramos os elementos relacionados às plantas, frutos, frutas, rios, animais, comidas, poluições, que implicam em comportamentos culturais e do imaginário de um povo, no cenário do cerrado goiano e, em seguida analisamos estas imagens a partir dos símbolos do regime diurno e noturno de Gilbert Durand. Dividimos a pesquisa em quatro capítulos, sendo que no primeiro abordamos o conceito de poema e poesia, e contextualizamos ecopoesia e ecocrítica e, o imaginário de Gilbert Durand, como fundamento que norteia a pesquisa. No segundo capítulo exploramos o poema O Mato Grosso de Goiás de Gilberto Mendonça Teles, em sua obra Saciologia goiana, explorando a gênese e algumas ideias homólogas à teoria do imaginário de Gilbert Durand. No terceiro capítulo, analisamos as ecopoesias Habeas Lenhus, Agricultor de estrelas, e O vento e a voz de Edival Lourenço, em sua obra Poesias Reunidas, nele exploramos a imagem rizomática, as metáforas, a eufemização do sopro do vento e as imagens dinâmicas. No quarto capítulo, analisamos a relação entre a literatura e o meio ambiente. Exploramos nos poemas as imagens que avançam para as questões do comportamento do homem e do ecossistema, que impactam em repensar posturas que interferem em promover a sustentabilidade. Diante disso, analisamos os poemas Salmo Césio 137, na obra Saciologia goiana de Gilberto Mendonça Teles, e Ode a Goiânia na obra de Edival Lourenço Poesias Reunidas.
ABSTRACT:
This research analyzes the work Saciologia goiana Gilberto Mendonça Teles associated with some poems of Edival Lourenço, under the aspect of ecopoetry and the imaginary theory of Gilbert Durand. For this, we enter the thread of poetic imagination, Bachelard's phenomenology. The aim is to analyze the poems under Gilbert Durand's imaginary theory, through the use of Bachelard's reverie, in the aspect of ecocritics. Initially, we read the poems from the book Saciologia goiana by Gilberto Mendonça Teles and Poetry Collected by Edival Lourenço, highlighting the poems that bring a (re) presentation of a reality about the relationship between man and nature. We explored the elements related to plants, fruits, fruits, rivers, animals, food, pollution, that imply in cultural behaviors and the imaginary of a people, in the scenery of the Goian savannah, and then we analyze these images from the symbols of the diurnal regime and Gilbert Durand's nightclub. We divide the research into four chapters. In the first one we approach the concept of poem and poetry, and contextualize ecopoiesis and ecocritics, and the imaginary of Gilbert Durand, as the guiding principle of the research. In the second chapter we explore the poem O Mato Grosso de Goiás by Gilberto Mendonça Teles, in his work Saciologia goiana, exploring the genesis and some ideas homologous to the imaginary theory of Gilbert Durand. In the third chapter, we analyze the ecopoiesias Habeas Lenhus, Farmer of stars, and The wind and the voice of Edival Lourenço, in his work Poetry collected, in him we explore the rhizomatic image, the metaphors, the euphemisation of the blow of the wind and the dynamic images. In the fourth chapter, we analyze the relationship between literature and the environment. We explore in the poems the images that advance to the questions of the behavior of the man and the ecosystem, that impact in rethinking postures that interfere in promoting the sustainability. In the light of this, we analyze the poems Psalm Césio 137, in the Saciologia goiana of Gilberto Mendonça Teles, and Ode to Goiânia in the work of Edival Lourenço Poetry collected.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 11
I - A ECOPOESIA E O IMAGINÁRIO ... 15
1.1- Poema e Poesia ... 15
1.2 - Contextualizando ecopoesia e ecocrítica... 21
1.3 - Poesia e meio ambiente, ecopoesia sob o contexto da aceleração ou desaceleração ... 27
1.4 - O Imaginário em Gilberto Mendonça Teles e Edival Lourenço ... 35
II - O IMAGINÁRIO NA POESIA DE GILBERTO MENDONÇA TELES ... 48
2.1- O Mato Grosso de Goiás na imagem do regime diurno de Durand ... 48
2.1.1 - A Gênese do poema Mato Grosso de Goiás ... 49
2.1.2 - O poema em série ... 53
2.2 ± As frutas em Saciologia goiana ... 67
2.2.1 - Fruta ... 67
2.2.2 ± Fruta do cerrado ... 69
2.3 ± A imagem da voz performática do cerrado no poema Linguagem... 82
III - O IMAGINÁRIO NA POESIA DE EDIVAL LOURENÇO ... 92
3.1 ± A imagem rizomática da árvore no Poema Habeas Lenhus ... 92
3.2 - O trajeto do sentido abstrato espontâneo de arar no poema Agricultor de estrelas. ... 103
3.3 - O processo de eufemização do sopro do vento no poema O vento e a voz ... 113
IV ± A ECOPOESIA EM GILBERTO MENDONÇA TELES E EDIVAL LOURENÇO ... 124
4.1 - O espaço fantástico em Salmo-Césio 137 em Gilberto Mendonça Teles ... 124
4.2 ± Os costumes que impactam em desgastes da natureza em Gilberto Mendonça Teles ... 141
4.3 - O paradoxo do bom senso que destrói o sentido único na imagem no poema Caminhos de Gilberto Mendonça Teles... 151
CONCLUSÃO ... 163
REFERÊNCIAS ... 169
INTRODUÇÃO
Nesta pesquisa analisaremos alguns poemas das obras Saciologia goiana, de Gilberto Mendonça Teles, e Poesia Reunida de Edival Lourenço, sob a perspectiva da ecopoesia, que aborda a poesia e o meio ambiente, tendo como instrumento teórico O imaginário de Gilbert Durand, e outras teorias que se conectarem com o ritmo da própria poesia a ser analisada.
O trabalho se justifica pela temática sobre o meio ambiente, frente às grandes catástrofes que estamos vivenciando nos últimos tempos e a relação do homem com a natureza, que tira dela o sustento e muda seu curso diante da ideia de progresso. Este trabalho se mostra possível, pois literatura e meio ambiente são um modelo de análise que vem chamando a atenção de grandes estudiosos, como Glotfelty, Goodbody, Greg Garrard, e outros que estão surgindo no campo da ecopoesia como Olga Marisa Santos Cardoso. Além da ecopoesia, este trabalho também explora o campo do imaginário, seguindo os estudos levantados por Gilbert Durand, Wunenburger, Danielle Perin Rocha Pitta, Michel Maffesoli, e outros.
Iniciamos o trabalho com a leitura do livro Saciologia goiana de Gilberto Mendonça Teles, uma obra de poemas que se apresenta como uma verdadeira imaginação simbólica. Através dela podemos conhecer uma realidade como representação da relação do homem com a natureza. No mesmo sentido, exploramos alguns poemas de Edival Lourenço, nesta perspectiva de ecopoesia e imaginário.
Analisamos as obras a partir dos elementos relacionados às plantas, frutos, frutas, rios, animais, comidas, poluições, que implicam em comportamentos culturais e do imaginário de um povo no cenário do cerrado goiano.
Inserimos, nesta análise, a leitura da obra As estruturas antropológicas do imaginário de Gilbert Durand. Procuramos perceber as imagens em suas estruturas de símbolos diurnos e noturnos, os seus exemplos de abordagens em obras literárias, e a partir dessas imagens simbólicas devaneamos sobre os poemas.
Em seguida, fizemos o levantamento de dados, pesquisas e teorias relacionadas à ecopoesia, imaginário, imaginação, imaginação simbólica, meio ambiente, impactos ambientais, devaneio e outras que mantêm relação de interesse às temáticas apresentadas pelos poemas em questão.
Após o estudo deste material, passamos a analisar os poemas dentro da proposta do devaneio na poesia, extraindo os elementos da natureza, como representação da relação do homem com o meio ambiente, assim como o imaginário na obra Gilberto Mendonça Teles e Edival Lourenço.
Todo esse imaginário, só é possível graças à facilidade que o homem tem em dar vazão à imaginação. Para Bachelard (1988, p. 2)1, ela pode ser percebida como a entrada ao mundo GRGHYDQHLR³3HODLPDJLQDomRJUDoDVjVVXWLOH]DVGDIXnção do irreal, reingressamos no mundo GDFRQILDQoDQRPXQGRGRVHUFRQILDQWHQRSUySULRPXQGRGRGHYDQHLR´1HODRDUWLVWDYLDMD em seu profundo devaneio e traz um imaginário como representação de um real. Para extrair as imagens desse universo imaginário, também é preciso seguir esse caminho, como Bachelard (1988, p. 2) nos mostra ao falar da fenomenologia:
A exigência fenomenológica com relação às imagens poéticas, aliás, é simples: resume-se em acentuar-lhes a virtude à origem em apreender o próprio ser de sua originalidade e em beneficiar-se, assim, da insigne produtividade psíquica que é a da imaginação (BACHELARD, 1988, p. 2).
Diante desta ideia de apreender o ser em sua originalidade, ele nos apresenta o método, que é voltar ao início do caminho da construção poética. Isto, não é uma tarefa muito fácil, pois requer o devaneio e a sensibilidade da própria poesia, e ainda, entrar no mundo da fantasia do poeta.
A dissertação apresenta, no primeiro capítulo, uma discussão sobre poema e poesia, o texto poético, conceitos, origem, linguagem e função. Também como parte deste capítulo, desenvolvemos algumas abordagens teóricas sobre imaginário, imaginação e imaginação simbólica.
No segundo capítulo, o poema ³O Mato Grosso de Goiás´ de Gilberto Mendonça Teles, na obra Saciologia goiana, é analisado a partir de sua gênese e algumas ideias homólogas à teoria do imaginário de Gilbert Durand. Ainda dentro desta obra, exploraremos o poema ³Linguagem´, como a imagem da voz performática que canta o cerrado goiano.
Analisamos também o poema ³Frutas´, do mesmo autor, e exploramos a imagem dos elementos da natureza como a terra, o homem e as frutas do cerrado. Buscamos extrair da força dessas imagens, o inesgotável, atualizado pela imaginação dinâmica. Seguindo o método da
1BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Tradução Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes,
fenomenologia, pelo recurso do devaneio de Bachelard, no sentido da construção poética das imagens que surgem no próprio texto.
No terceiro capítulo, analisamos a ecopoesia ³Habeas Lenhus´, de Edival Lourenço, em sua obra, Poesias Reunidas, nela exploramos a imagem rizomática que perpassa pela estrutura do poema no patamar jurídico, social, econômico e do meio ambiente, que se relacionam com o título, e mostram a relação do homem com a natureza.
Nesta mesma obra de Edival Lourenço, exploramos a ecopoesia ³Agricultor de estrelas´, seguindo o trajeto do sentido abstrato espontâneo de arar no poema para compor o ³GLVFR GH PHWiIRUD´ 3DUD LVVR HQWUDPRV QR WUDEDOKR GR DJULFXOWRU TXH QRV HQVLQD FRPR encontrar as metáforas que se encontram nos sonhos.
Outro poema que escolhemos neste capítulo foi ³O vento e a voz´, nele encontramos o processo de eufemização do sopro do vento, que vai denunciando uma afinação musical, que para isto utiliza os mais variados objetos para sua inspiração. Nestas abordagens, utilizaremos o plano dos sonhos, das imagens dinâmicas, nesta aragem inesgotável no fundo do brilho das estrelas, pelo trabalho da imaginação que segue a intuição poética.
No quarto capítulo, levantamos algumas análises entre a literatura e o meio ambiente. Exploramos nos poemas as imagens que avançam para as questões do comportamento do homem e do ecossistema, que impactam em repensar posturas que interferem em promover a sustentabilidade.
Analisamos os poemas ³Salmo Césio 137´, na obra Saciologia goiana de Gilberto Mendonça Teles, e ³Ode a Goiânia´ na obra de Edival Lourenço Poesias Reunidas. Ambas ecopoesias trazem uma representação de uma realidade de acidente ambiental que aconteceu em Goiânia. Isso nos despertou o interesse em explorar as imagens dinâmicas e as estruturas do imaginário de Gilbert Durand.
Outra imagem que surgiu ao longo da obra de Gilberto Mendonça Teles, em Saciologia goianapDGR³FRVWXPH´FRPRSUiWLFDVUHLWHUDGDVTXHLPSDFWDPHPGHVJDVWHVGDQDWXUH]D como as queimadas, os desmatamentos de árvores de lei para fazer cinza e utilizar como adubo e, a contaminação dos rios pelo mercúrio.
E no poema ³Caminhos´, em Saciologia goiana, de Gilberto Mendonça Teles, os impactos podem ser percebidos no sentido do caminho que o homem vai construindo na natureza, esses caminhos, que às vezes, são construídos por necessidade de um trânsito ou ainda pelo desmatamento que por si só montam o caminho pela mata.
Diante das análises aos poemas de Gilberto Mendonça Teles e de Edival Lourenço experimentamos entrar na fenda que se abriu entre a primeira e a segunda imagem, que os poemas nos forneceram. Entrar nesta fenda só foi possível pelas leituras teóricas em Gilbert Durand sobre o imaginário e o regime das imagens, e ainda pelo recurso da fenomenologia, experimentado por Bachelard, sob o percurso do devaneio. Concomitante a isto, as teorias de alguns estudiosos que os poemas nos permitiram conhecer.
I - A ECOPOESIA E O IMAGINÁRIO
Abrimos este capítulo inicial para contextualizarmos a ecopoesia e o imaginário, e para isto realizamos uma discussão sobre o texto poético, conceitos, origem, sua linguagem e função. Também como parte deste capítulo, traremos algumas teorias sobre imaginário, imaginação e imaginação simbólica. Teceremos os comentários mantendo o comportamento de conduzir as considerações para as obras Saciologia goiana de Gilberto Mendonça Telles, e Poesias reunidas de Edival Lourenço.
1.1- Poema e Poesia
Para Domingues Carvalho da Silva (1989, p.20)2 RSRHPDp³XPDHVWUXWXUDGHSDODYUDV TXHVHRUJDQL]DPHSHUPDQHFHPHPERUDGHSHQGHQGRVHPSUHGHHVWtPXORVH[WHULRUHV´&RP este conceito abrimos aqui uma discussão sobre o poema, e conhecer um pouco mais sobre este objeto, seu modo de existir, processado pelas diversas leituras que o leitor debruça sobre ele. Como nos diz Paz (1982, p.17)3, ³FDGDSRHPDpXPREMHWR~QLFRFULDGRSRUXPDWpFQLFDTXH PRUUHQRH[DWRPRPHQWRGDFULDomR´1RPRPHQWRTXHHOHpFULDGRHOHJDQKDYLGDVHWRUQD único e, em cada universo de leitor ele ganha as mais diversas análises.
Nessa estrutura e organização de palavras, ele também é um objeto capaz de nos trazer XPDUHODomRGHLPDJHQVTXHLPLWDPXPDUHDOLGDGHDVVLPFRPR3D]QRVWUD]³R poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas FRUUHVSRQGrQFLDV HFRV GD KDUPRQLD XQLYHUVDO´ 1HVVD FLWDomR DOpP GH DSUHHQGHUPRV R conceito de poema, ela também nos faz perceber que poema é o corpo, que canta uma música e traz o seu ritmo. E podemos sentir essa canção como a própria poesia, que sai do poema quando o lemos.
É dessa forma, também, que Domingos Carvalho da Silva nos fala que a poesia está no SRHPD³SRHPDpDIL[DomRPDWHULDOGDSRHVLDpDGHFDQWDomRIRUPDOGRHVWDGROtULFRVmRDV palavras, os versos, as estrofes, que se dizem e que se escrevem, e assim fixam e transmitem o
2 SILVA, Domingos Carvalho da. Uma teoria do poema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989. 3 PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. [Col. Logos].
HVWDGROtULFRGRSRHWD´6,/9$S Enfim, sintetiza, que a poesia está no espírito do poema entre as palavras, versos, estrofes e a interlocução com o eu lírico.
E nesse teor, sobre entender a poesia, levantamos conceitos de alguns estudiosos, e iniciamos com Gilberto Mendonça Teles (2017, p. 16)4, que em sua obra Defesa da poesia nos traz a poesia sob o contexto da tradição oral, no tempo, em que tudo era reportado pela voz, ³7RGRVRVUHJLVWURVHUDPRUDLVHRVFDQWRVUHOLJLRVRVHSURIDQRVDVFHULP{QLDVI~QHEUHVDV comunicações, os códigos de relações políticas e sociais, tudo era transmitido pela voz, palavra que chegou até nós por intermédio do latim...´Podemos ver com isso, que a poesia esteve presente desde os primórdios da tradição oral.
Nesse contexto da tradição oral, Gilberto Mendonça Teles (2017, p. 16) traz a definição GHSRHVLDXWLOL]DQGRGDHWLPRORJLDHVRWpULFD³SRHVLDGHphono = boca, e ishi corruptela de Ísis, DGHXVDHJtSFLDYHQHUDGDDWpRVpF,G&QRVGRLVODGRVGR0HGLWHUUkQHR´$OpPGH7HOHV Alfredo Bosi também nos fala do surgimento da poesia, que mantem relação do gesto da voz com a palavra:
Os estudiosos de pré-história têm confirmado a intuição genial de São Gregório de Nissa, que, no Tratado da Criação do Homem (379 d.C.), associa o gesto à palavra: desenvolvendo as mãos e os instrumentos que estendem o seu uso, os homens puderam exercer mais eficazmente a sua ação sobre o mundo exterior. O resultado foi a liberação dos órgãos da boca (outrora só ocupados na preensão dos alimentos) para o serviço da palavra. Em posição ereta e com a face distanciada do solo, o homem pôde, mediante a voz, criar uma nova função e codificar o ausente (BOSI, 2000, p. 21)5.
Percebemos que houve uma evolução da tradição oral para a escrita, e que os órgãos da boca foram liberados do serviço da palavra. Isso implica dizer que os poetas na tradição oral, tinham a preocupação em desenvolver o corpo para uma boa postura e eloquência, que exigia a expressão facial, corporal nos gestos das mãos e, nos pés, para dar mais ênfase na representação. E, além disso, em contato com a palavra, o homem também se aproxima do mundo exterior, apreendendo-o em suas sensibilidades, em sua imaginação e desenvolvendo a tradição escrita.
É possível entender que a tradição da escrita busca uma imitação tão perfeita do ausente, que ele se torna uma verossimilhança de ações humanas, assim como Aristóteles (2002, p. 35)6 nos traz em sua definição de poesia:
4 TELLES, Gilberto Mendonça. Defesa da poesia. Brasília. Senado Federal, Conselho editorial, 2017. 5 BOSI, Alfredo. O Ser e o Tempo da Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
6 ARISTÓTELES. Poética. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Julho de 2003. Disponível em: https://yadi.sk/i/mWq71LBMk9wJW Acesso em 17/08/2018
imitação de ação, praticada mediante a linguagem, a harmonia e o ritmo, ou só por dois destes meios, divide as espécies de poesia pelas qualidades dos indivíduos que praticam a ação (objeto), do meio por que se imita e do modo como se imita; e essas espécies vêm a ser: ditirambo, nomo, comédia, tragédia, epopeia... (ARISTÓTELES, 2003, p. 35).
Para ele, a poesia é uma imitação de ação, e ela tem relação com as qualidades dos indivíduos, que praticam a ação. Ela imita com linguagem, com harmonia, ritmo e sensibilidade as coisas. Para Paz (1984, p. 11)7, o poema segue esse mesmo sentido, mas acrescenta as crenças, e a característica de ser anti-história:
O poema é um objeto feito da linguagem, dos ritmos, das crenças e das obsessões deste ou daquele poeta, desta ou daquela sociedade. E o produto de uma história e de uma sociedade, mas o seu modo de ser histórico é contraditório. O poema é uma máquina que produz anti-história, ainda que o poeta não tenha essa intenção. A poesia, assim, é aquela que dá à coisa imitada, uma nova roupagem, em que as imagens simplesmente deixam de ser coisas comuns, e se tornam uma face de visibilidade ofuscante, conforme o meio em que se encontram. E então, ela passa a ser a representação desse meio, expressando-o em suas próprias estruturas, em seu ritmo de sensibilidade, como nos traz Lefebve (1980, p.68)8³a imitação não se contenta com copiar o mundo nas suas estruturas... ela projeta as suas próprias sobre o mundo, ela é tentativa de constituir o mundo a partir da OLQJXDJHPHPRVWUDUFRPRHIHWLYDPHQWHHOHVHFRQVWLWXL´
Através da linguagem, a poesia pode ser percebida como o mundo em sua estrutura de signo, símbolos e imagens, que trazem em si a representação de objetos, coisas, pessoas, meio ambiente social político e econômico. A qual, vem carregada de uma criação artística com sensibilidade tão profunda, capaz de mudar a visão que se tem do que é representado.
Como na ilustração dH /HIHEYH S VREUH D LPLWDomR j QDWXUH]D ³R TXH chamamos de natureza é já uma criação cultural: o mundo contém estruturas que, sob um certo olhar, se constituem numa série de signos comportando um sentido simbólico. A natureza é (e torna-se cada vez mais a partir do pré-romantismo) um repertório de símbolos dando lugar a XPDQRYDUHWyULFD´(LEFEBVE, 1980, p.15). Ela, então, é vista por ele como pura expressão poética, apreendida sob a visão do poeta, que a tira do mundo comum e a conduz para o devaneio.
7 PAZ, Otavio. Os Filhos do barro: do romantismo à vanguarda. Tradução de Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
8 LEFEBVE, Maurice-Jean. Estrutura do discurso da poesia e da narrativa. Trad. José Carlos Seabra Pereira. Coimbra, 1980.
Como nos diz Bachelard (1978, p. XII)9HODpDLPDJLQDomRRFDPSRGRGHYDQHLR³1R terreno da poesia, do devaneio, do onirismo é que se manifestaria a LPDJLQDomRPDWHULDO´. E QRVDFUHVFHQWD³RSRHPDpHVVHQFLDOPHQWHXPDDVSLUDomRDLPDJHQVQRYDV. Corresponde à QHFHVVLGDGH HVVHQFLDO GH QRYLGDGH TXH FDUDFWHUL]D R SVLTXLVPR KXPDQR´ BACHELARD, 2001, p. 2)10. Nesse devaneio, as imagens da poesia, não são as mesmas do mundo representado, ela é como uma imagem de retorno em si mesma, mas que sempre se faz outra, sempre se recarregando de outros sentidos. E com esse recurso ela é capaz de trazer a novidade, se fazer sempre nova.
Nesse mesmo sentido do retorno, o poema relido traz uma leitura mais demorada que a SULPHLUD³RYHUGDGHLURSRHPDGHVSHUWDXPLQYHQFtYHOGHVHMRGHVHUUHOLGR1HOHRYHUERUHIOHWH e reflui. Nele, o tempo se põe a esperar. O verdadeiro poema desperta um invencível desejo de VHUUHOLGR´ (BACHELARD, 2001, p. 260). Com isso as imagens do poema são como ímãs que atrai o leitor para dentro delas. E cada vez que ele retorna para o poema, as imagens não são as mesmas, e elas começam a tecer um rio de imaginação cada vez maior e dinâmico.
E nesse universo da imaginação e da releitura, que podemos sentir a poesia, como uma novidade da imagem que atrai o leitor a fazer o retorno, como a imagem do camaleão, que vai mudando de cor conforme o ambiente em que ele se encontra, assim são as imagens que vão mudando seu significado conforme o contexto e a imaginação dinâmica.
Como nascer e renascer, temos a poesia pela ideia da imagem como campo inesgotável de mergulhos, como nos disse Blanchot (2005, p. 102)11 ³REMHWLYR GD SRHVLD QmR p R TXH Baudelaire gostaria que fosse: mergulhar no fundo do infinito para encontrar o novo, mas "mergulhar no fundo do definido para aí encontrar o inesgotável". Neste entendimento, é perceptível que a poesia está na imagem como esse inesgotável sentido fluorescente, que brilha aos olhos da imaginação, como caminho do inesgotável.
Em Durand (1996, p.40)12 temos a definição de poesia como FRQWHPSRUkQHDFRPR³UH-evocação pelo verbo de um sentido senão mais puro, pelo menos mais autêntico, conferindo às
9 BACHELARD, Gaston. A filosofia do não; O novo espírito científico; A poética do espaço. Seleção de textos de José Américo Motta Pessanha; traduções de Joaquim José Moura Ramos (et al.). São Paulo: Abril Cultural, 1978.
10 BACHELARD, Gaston. O ar e os sonhos: ensaio sobre a imaginação do movimento. Trad. Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
11 BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Tradução Leyla Perrone- Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005. (Tópicos)
12 DURAND, Gilbert. Campos do imaginário. Textos reunidos por Danièle Chauvin.Tradução Maria João Batalha Reis. Lisboa, 1996.
palavras do JUXSRVRFLDO´3DUD Bachelard, Blanchot e Durand, a poesia tem essa imagem de nascer e renascer, de encontrar o novo e um re-evoção, como o eterno retorno de Nietzsche (2008, p. 12)13, evocação de um ciclo incondicionado, onde as coisas nunca são as mesmas, sempre ganham um vigor se renovam, e trazem novos sentidos:
Em Ecce Homo, Nietzsche assimila Zaratustra a Dioniso, concebendo o primeiro como o triunfo da afirmação da vontade de potência e o segundo como símbolo do mundo como vontade, como um deus artista, totalmente irresponsável, amoral e superior ao lógico. Por outro lado, a arte trágica é concebida por Nietzsche como oposta à decadência e enraizada na antinomia entre a vontade de potência, aberta para o futuro, e o "eterno retomo", que faz do futuro uma repetição; esta, no entanto, não significa uma volta do mesmo nem uma volta ao mesmo (NIETZSCHE, 2008, p. 12). Nesse contexto do retorno à obra, nem ela e nem o leitor são os mesmos, ela traz objetos que traduzem ideias e sensações renovadas. Ela vai se moldando outra, e se mostra uma obra como fonte inesgotável, que se comunica com outras realidades. A poesia, tem isso de extrair uma realidade já existente, e ao mesmo tempo é capaz de trazer imagens inusitadas. Assim, sua linguagem poética, como diz Lefebve (1980, p. VH WRUQD PDLV ULFD ³p PDLV ULFD PDLV perfeita, mais abundante em significações e em matizes. Pinta o mundo interior com tanto cuidado comRRPXQGRH[WHULRU´$RYROWDUSDUDVXDOLQJXDJHPHDRPHVPRWHPSRSLQWDUVHX mundo exterior, realiza dois movimentos contraditórios, que podemos sugerir como um ritmo centrífugo e centrípeto, o ritmo que se conecta com ela mesma, e um outro que se abre para o mundo exterior a ela. Como nos ilustra Lefebve (1980, p.39), ao dizer que a obra se divide ao mesmo tempo em dois movimentos:
a obra é sempre o lugar e como que a intersecção de dois movimentos de sentidos opostos, de cuja natureza teremos de nos ocupar ainda: um, que a dobra sobre si mesma, em puro objeto de linguagem (o que poderíamos chamar a sua materialização); o outro, que, ao contrário, a abre para o mundo interrogado na sua realidade e na sua presença essencial (o que designaremos por presentificação): movimentos contraditórios e todavia solidários, polos simultaneamente complementares e antagônicos, criadores de um campo dinâmico que, ele só, permite compreender os diversos aspectos do fenômeno literário... a obra, já o vimos, é campo de dois movimentos ou tendências contraditórios: por um lado, fecha-se sobre si mesma enquanto linguagem; por outro, abre-se para as coisas do mundo, reproduzidas QXPDSUHVHQoDWRWDOHQXPDUHDOLGDGHLQLJXDODGD´LEFEBVE, 1980, p.39).
Nesses movimentos, simultaneamente, ela se abre para mostrar sua estrutura, sua linguagem, seu ritmo, sua essência. Por outro lado, seu movimento se conecta com as representações das coisas do mundo exterior a ela. Nisso, essa força de seus movimentos, traduzem verdadeiras lições de poema e poesia, em que se utiliza de sua própria linguagem para refletir o poema e o mundo e mostrar sua função poética.
13 NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
A função poética, pode ser apreendida como uma função da linguagem, que se utiliza do significante para dar outros sentidos de significações inesperadas, assim como nos ilustra Baudrillard (1986, p.271)14 ao falar sobre essa função:
aparência da mensagem enquanto tal, por meio da qual Jakobson define a função poética, não faz senão, ao dar autonomia a operação do material significante, remete-la a um efeito de significação suplementar. Passa alguma outra coisa além do conceito, porém alguma outra coisa ainda - outro valor atualizado pelo jogo do significante, porém valor ainda; o material significante funciona em outro nível, seu nível próprio, porém continua a funcionar: por outro lado, Jakobson faz dessa função poética uma função da linguagem entre outras, suplementar e não alternativa - mais-valia de significação decorrente do fato de o próprio significante ser levado em conta como valor autônomo. O poético nos proporciona mais do que isso!
Com isso, podemos dizer que a função poética é essa que extrai os recursos intrínsecos ao texto, o material de significantes, necessários, para levar a mensagem ao leitor. Ela se mostra como provocadora de mensagem, e desperta no leitor o interesse em apreender as diversas leituras que o texto pode proporcionar. Como nos traz Duarte (1998, p.202)15, ela pode ser SHUFHELGDFRPRSUy[LPDjPHWDOLQJXDJHP³&UHPRVTXHRSULPHLURSDVVRSDUa reconhecer a especificidade da função poética consiste em vê-la como uma função que, por guardar vínculo especial com a mensagem, estreita laços coma função metalinguística. Em que termos, WRGDYLD"´&RPLVVRDIXQomRSRpWLFDWUD]RVHQWLGRGHGL]HURTue o poema quer dizer, por isso que ela se aproxima da metalinguagem.
Na metalinguagem, temos essa ideia de linguagem que se serve para explicar outra linguagem, como nos diz Rodrigues (2016, p.12)16, essa que já é ressignificada, ³PHWDOLQJXDJHP QD TXDO D própria escrita-arte diz de si como escritura, de forma re-ressLJQLILFDQWH´'RPHVPRPRGRDFRQWHFHFRPDSRHVLDHQTXDQWRHVFULWD-arte ela mesma fala de si, e traz outras mensagens re-ressignificantes.
Ao ressignificar, ela aproxima esse entendimento do conceito de símbolo, ilustrado por Durand (2012, p. 31)17 que o traz como aquele que possui uma essência de reflexão espontânea, OLJDGR D XPD LGHLD GH GLQDPLFLGDGH ³Pode-se dizer que o símbolo não é do domínio da semiologia , mas daquele de uma semântica especial, o que quer dizer que possui algo mais que XPVHQWLGRDUWLILFLDOPHQWHGDGRHGHWpPXPHVVHQFLDOHHVSRQWkQHRSRGHUGHUHSHUFXVVmR´3HOD
14 BAUDRILLARD, Jean. A troca simbólica e a morte. Tradução: Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1986.
15 DUARTE, Paulo Mosânto Teixeira. A função poética e a gramática da poesia. Artigo Revista da ANPOLL, n. 5, p. 195-216, jul. de 1998.
16 RODRIGUES, Maria Aparecida. Escritas e escrituras: sobre artes, literatura e outras linguagens / organização: Maria Aparecida Rodrigues, colaboração João Edésio de Oliveira [et al.]. Goiânia: Ed. da PUC Goiás, 2016. 17 DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. Trad. Hélder Godinho. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
sua força, o símbolo também traz o ritmo para a poesia, dando uma valorização à composição poética, como a verdadeira alma do poema.
O ritmo, segundo Mello (2002, p. 127)18 ³pFRQVWLWXtGRSRUXPUHWRUQRHPLQWHUYDORV regulares, de um som mais forte que os outros... costuma-se chamar, então, de ritmo toda alternância regular: o ritmo musical é alternância no tempo; o poético, alternância de sílabas no WHPSR´1LVVRRULWPRQRSRHPDSRGHVHUSHUFHELGRSHORVGLYHUVRVUHWRUQRVHFRQWRUQRVGH leitura, quando o leitor volta ao poema e encontra o clímax ao recitá-lo. Dessa forma, podemos dizer, que ele está na emoção que o leitor leva na leitura da poesia, com suas entonações.
De acordo com Mello (2002, p. 129), o ritmo está na leitura do verso, tem relação com a sua duraçãR³DGXUDomRPDQLIHVWD-se na redução da velocidade ou na aceleração do verso, processo marcado pela alternância de sílabas longas e breves ou predominância de uma ou outra QRYHUVR´,VVRLPSOLFDREVHUYDUTXHDFHQWXDomRUtWPLFDGHSHQGHGDHQWRQDomRGROHitor, e não das sílabas de uma palavra. Com isso, se uma palavra for repetida no poema, nem sempre são as mesmas sílabas rítmicas.
Com isso, Mello (SREVHUYDTXH³DQRomRGHULWPRDQWHVUHVWULWDDRVLVWHPD de acentuação, alargou-se e tornou-se mais complexa, a partir da constatação de que outros HOHPHQWRVDOpPGDDFHQWXDomRSDUWLFLSDPGDFRQVWUXomRUtWPLFD´'HVWDIRUPDpTXHSRGHPRV entender que o ritmo pode permitir uma viagem dinâmica do símbolo dentro do poema, cada vez que o leitor volta ao texto e encontra uma re-leitura e um novo contexto.
É nesse ritmo dinâmico, que percebemos os símbolos nas obras de Gilberto Mendonça Telles e Edival Lourenço. Apesar delas se mostrarem como poesias que cantam o cerrado, os seus ritmos nos levam a outras leituras e a outros contextos. Isso se mostra possível pela dinamicidade tanto do símbolo, da pluralidade semântica dos poemas, quanto do ritmo.
1.2 ± Contextualizando ecopoesia e ecocrítica
Abrimos uma discussão aqui para levantarmos o conceito de ecopoesia, e de ecocrítica, além de identificarmos como Gilberto Mendonça Teles e Edival Lourenço constroem seus imaginários ecopoéticos.
A nossa discussão, não espera dar uma resposta a nenhuma crise ambiental, mas tentar mostrar como o meio ambiente é percebido pelo autor em sua construção poética. Mostrar que
a literatura, enquanto obra de arte, não imita o real, pode partir de uma possível realidade e extrair realidades pois ela imita o real, e dela podemos extrair elementos para uma reflexão poética.
Utilizar da análise da obra de arte neste trabalho é extrair sua força dinâmica, essa que tem a capacidade de se comunica com os diversos contextos e realidades. E é nessa dinamicidade que a obra vai se abrindo para as questões ambientais que estão em seu conjunto, e que se comunica com o mundo exterior a ela.
A preocupação que vem crescendo sobre os temas ambientais, e as discussões sobre a Ecocrítica, aportadas em diversas áreas do conhecimento, chegou à literatura. Isso se deve à grande preocupação sobre os problemas ambientais que estamos enfrentando nessas últimas décadas, com enchentes, queimadas, terremotos, poluições, lixos, escassez de água e energia, e uma série de catástrofes ecológicas.
A literatura, não está alheia às questões ambientais, desde há muito tempo, as obras literárias trazem a natureza em seu corpo, como um contexto paisagístico, urbano ou rural, e realçam o envolvimento do homem com ela, que em cada época, permite-nos observar seus traços peculiares. Esse recurso surge, na maioria das situações, como uma tendência em pairar uma sensibilidade poética. Segundo Rueckert (1996, p.108)19 a literatura, especificamente o poema, é como um caminho cheio de energia, vindo da fonte geradora linguagem e imaginação, que possibilita esta análise ecocrítica:
A poem is stored energy, a formal turbulence, a living thing, a swirl in the flow. Poems are part of the energy pathways which sustain life. Poems are averbal equivalent of fossil fuel (stored energy), but they are a renewable source of energy, coming, as they do, from those ever generative twin matrices, language and imagination. Some poems-s ay King Lear, Moby Dick, Song of Mypoems-self-poems-seem to be, in thempoems-selvepoems-s, ever-living, inexhaustible sources of stored energ/r whose relevance does not derive solely from their meaning, but from their capacity to remain active in any language and to go on with the work of energy transfer, to continue to function as an energy pathway that sustains life and the human community(RUECKERT, 1996, p.108).
Para Rueckert, o poema é como fonte inesgotável de energia, que possibilita o caminho da imaginação que sustenta a vida. E faz uma comparação do poema com a natureza:
Poems are green plants among us; if poets are suns, then poems are green plants among us for they clearly arrest energy on its Path to entropy and in so doing, not only raise matter from lower to higher order, but help to create a self-perpetuaring and evolving system (RUECKERT, 1996, p.111).
19 RUECKERT, William. The Ecocriticism Reader. landmarks in literary ecology. Edit. Cheryll Glotfelty, ed., Harold Fromm, ed., 1996.
Rueckert ainda acrescenta que o poema é como planta verde, e o poeta é o sol. Essa ilustração soa como a própria força do poema, que se conecta com o mundo contextualizado na ecologia. Isso nos dá a possibilidade de perceber o texto numa extensão de entrelaçamento da literatura e o meio ambiente. É nesse comportamento, de ver o texto desta forma, que muitos estudiosos da literatura estão abrindo um olhar para as questões sobre o ecossistema. Nesse sentido, é que Cardoso (2012, p.18)20 nos mostra esse universo como uma possibilidade de análise do texto literário e o meio ambiente:
A análise do texto numa dimensão poética centra a atenção na escrita literária enquanto processo estético de representação do universo não humano. As propriedades estéticas são exclusivas dos textos literários. É esta preocupação com a escrita e com a especificidade do texto literário relativamente aos textos de caráter científico ou tecnológico que justifica que os autores francófonos que temos vindo a citar preferiram o termo ecopoética para designar um texto literário com manifestas preocupações ambientais.
Com isso, a ecopoesia, traz essa ideia de estudar o texto literário, extraindo as questões sobre o meio ambiente. E a análise neste trabalho, não se prende em mostrar apenas as questões que nos remete ao caminho das reflexões ecológicas, mas viajar no devaneio das imagens que traduzem a natureza através das plantas, das frutas, frutos, da água e do ar. Percebe essas imagens dentro do imaginário poético, na desenvoltura de suas características próprias, que se mostram em cores, texturas, sabor, cheiro e até mesmo nos sons que provocam na natureza.
Na ecopoesia a imagem dinâmica, é visível a partir da força das imagens que nos levam a outros campos imaginários, dando a elas um valor a mais, o ecológico. Para Cardoso (2012, p.11) isso se justifica pelos interesses e preocupações ambientais:
Esse valor ecológico do texto decorre de novas formas de representação da natureza, rejeitando o estatuto de objeto a que era remetida numa relação de poder em que o homem aparecia no topo da hierarquia, de simples cenário indiferente às situações representadas ou de espelho refletor de sentimentos e emoções(CARDOSO, 2012, p. 11).
Nessas novas formas de representação da natureza, a visibilidade que se dá ao homem, é sobre o seu comportamento em relação a ela. Esse homem, que desde os primórdios da humanidade, mostra um homem que tira dela sua subsistência, tanto alimentar quanto financeira. Ele vende a natureza o tempo todo. Extirpa-a, com os agrotóxicos, as fumaças, os necrochorumes, o desmatamento e as queimadas e outros procedimentos a curto, médio e longo prazo, que impactam em desequilíbrio ambiental.
20 CARDOSO, Olga Marisa Santos. Dissertação: Abordagem Ecopoética da Obra de Sophia de Mello Breyner Andersen. Universidade de Aveiro. 2012.
O desequilíbrio no ecossistema surge como essa crise ambiental, que Cardoso (2012, p.14) aponta como um papel que a literatura assume ao registrar a realidade como uma crise cultural:
A literatura assume desta forma um papel de reconhecida relevância no contexto da crise ambiental, que também é uma crise cultural, contribuindo para um conhecimento holístico do mundo. O texto literário tem a particularidade de, através de um universo ficcional, denunciar o real. No caso da ecocrítica, abre um caminho na denúncia de uma realidade ambiental comprometida pela ação do homem e permite novas abordagens do texto literário. O pensamento ecocrítico denota, portanto, um novo comprometimento político, que faz apelo, de forma sustentada, a novos modelos de comportamento societal (CARDOSO, 2012, p.14).
Tem assim, o texto literário se servido como mais um caminho, em que os ecocríticos passam a analisar a literatura sob esse aspecto do meio ambiente e da cultura dos povos em relação a ele. Eles levantam indagações sobre as análises entre literatura e o meio ambiente, o que muitos teóricos definem como ecocrítica. Assim como Alex Goodbody21, nos traz em seu artigo sobre A Ecocrítica alemã³(FRFUtWLFDpRWHUPRXWLOL]DGRSDUDGHILQLURHVWXGRGDUHODomR entre a literatura e o meio-ambiente, posicionando a natureza em um ponto central dos LQWHUHVVHVGRKRPHP´1RPHVPRVHQWLGRWHPRVRFRQFHLWRGHGlotfelty (2018, p. 1) 22, em um de seus ensaios, para o leitor de ecocrítica:
O que é então ecocrítica? Simplificando, ecocrítica é o estudo da relação entre a literatura e o ambiente físico. Assim como a crítica feminista examina linguagem e literatura de uma perspectiva consciente de gênero, e a crítica marxista traz uma consciência dos modos de produção e econômica. Para a leitura de textos, a ecocrítica adota uma abordagem centrada na terra aos estudos literários.
Ambos estudiosos da Ecocrítica, trazem o mesmo entendimento, acrescentando Glotfelty, que essa pesquisa que aproxima literatura e meio ambiente, seria do mesmo modo que se realizou com a crítica feminista e marxista, como representação do pensamento e comportamento da sociedade em relação ao meio ambiente.
Outro estudioso que temos sobre ecocrítica é Greg Garrard23, um precursor em trazer essa visão sobre o ecocriticismo. E desses estudos, surgem vários outros estudiosos como
21 University of Bath (UK), Department of Politics, Languages & International Studies. Email: [email protected]. N. d. E.: Agradecemos a OUP pela permissão para publicar a tradução do artigo: GOODBODY, A., 2014. German ecocriticism : an overview. In: GARRARD, G., ed. The Oxford Handbook of Ecocriticism. Oxford, U. K.: Oxford University Press, pp. 547-559. Este texto possui a licença FREE TO VIEW ONLY; outros usos do mesmo devem obter a permissão da Oxford University Press, e não são de responsabilidade da Revista Pandaemonium germanicum.
22 Glotfelty, Cheryll e Fromm, Harold. O Leitor de Ecocriticismo. editado por Cheryll Glotfelty e Harold Fromm Disponível em: < http://www.ecobooks.com/books/ecocrit.htm> Acesso em: 13/07/2018
Lawrence Buell que escreve sobre ecocrítica, The Future of Environmental Criticism ³2 IXWXURGDFUtWLFDDPELHQWDO´HP
Toda essa discussão partiu de Rachel Carson24, quando escrevia literatura infantil trazendo em seu bojo questões sobre a preocupação com o meio ambiente. Em 1962, ela escreve contos de fadas procurando enfatizar a harmonia que existia entre o homem e a natureza, com imagens de encantamento natural, essa harmonia então é quebrada por catástrofes como ³PROpVWLDV PLVWHULRVDV´ TXH PDWDP RV DQLPDLV H SUHMXGLFDm o homem e o meio ambiente, causadas pelos pesticidas.
Esse imaginário de Carson, chamou a atenção dos estudiosos, pelas afirmações sobre os impactos ambientais causados por pesticidas. Estes estudos chegaram a várias áreas do conhecimento, que estão buscando analisar a literatura e o meio ambiente. Como temos com Garrard (2006, p.12)25, grande estudioso ambientalista, que percebe o texto de Carson como fundador para a Ecocrítica, pois traz algumas imagens que traduzem o comportamento do homem com a natureza:
Assim, o texto fundador do ambientalismo moderno não só começa com uma parábola decididamente poética, como apoia-se também nos gêneros literários da pastoral e do apocalipse, formas preexistentes de imaginar o lugar do ser humano na natureza que remontam às origens como o Gênesis e o Apocalipse, primeiro e último, livros da Bíblia (GARRARD, 2006, p.12).
Com isso, Garrard, reconhece que é possível a análise literária ou cultural, através da literatura e o meio ambiente. E levanta o conceito de Ecocrítica vinculado a uma concepção de ideal, peculiarmente, político ambientalista, em que visa extrair elementos para projetos, como podemos ver em sua definição:
A ecocrítica, portanto, é uma modalidade de análise confessadamente política, como sugere a comparação com o feminismo e com o marxismo. Os ecocríticos costumam vincular explicitamente suas análises culturais a um projeto moral e político "verde". Nesse aspecto, ela se relaciona de perto com desdobramentos de orientação ambientalista na filosofia e na teoria política (GARRARD, 2006, p.14).
Ao falar assim ele concorda com Glotfelty, e mostra que a Ecocrítica visa então, estender argumentos, reunir elementos necessários para direcionar caminhos às preocupações ambientalistas e científicas. Ele, ainda acrescenta que o problema ecológico, a nível de estudo científico, implica fazer uma afirmação sobre a hipótese de resoluções:
Descrever algo como um problema ecológico é fazer uma afirmação normativa sobre como gostaríamos, que as coisas fossem, e, embora isso provenha das afirmações dos
24 Rachel Carson: Cientista que Ajudou o Mundo a Construir uma Consciência do Meio Ambiente. Acesse o conteúdo completo em: http://animamundhy.com.br/blog/rachel-carson-cientista-meio-ambiente Acesso em 11/08/2018.
cientistas ecológicos, não é definido por eles. Uma "erva daninha, não é urna espécie de planta, mas apenas a espécie errada no lugar errado. Eliminar ervas daninhas é, obviamente um problema de jardinagem, mas defini-las, em primeiro lugar, requer uma análise cultural, e não horticultural. Similarmente, a "poluição" é um problema ecológico, porque não designa uma substância ou uma classe de substâncias, mas representa uma afirmação normativa implícita de que há um excesso de coisa presente no ambiente, em geral no lugar errado (GARRARD, 2006, p.17).
Essa comparação similar, entre a erva daninha e a poluição ilustra como não sendo só um problema de interesse ecológico, como substância em lugar errado, mas de estrutura, da cultura de um povo, que passa de geração a geração, atitudes comportamentais intempéries, que refletem também no comportamento da natureza. Com isso, Garrard traz os modelos, que chama de tropo.
No tropo da poluição, ilustra a destruição e à salvação do meio ambiente. Na pastoral, realça a vida no campo, e ofusca a realidade do trabalho pastoril. Já a apocalíptica, por exemplo, está relacionada com as grandes catástrofes. Além desses tropos, ele traz temas de relevância social, como a relação com os animais, e o futuro da terra, todos abordados em ecocrítica.
Diante disso, podemos considerar que ao analisar o texto literário, dentro de uma perspectiva Ecocrítica é esperar que ele aponte os problemas ambientais, e as maneiras como as coisas deveriam ser, numa perspectiva de modelos e projetos. Nesse sentido, consideramos falar que a ecopoesia além de trazer elementos que demonstram a relação do homem com a natureza, traz a representação de uma realidade, ou conteúdo de afirmação normativa, ela ultrapassa um ideal político, ela traz em seu bojo uma potência muito maior, onde o verde, não é simplesmente verde, mas pode representar outros sentidos.
Ela se mostra permeada de imagens dinâmicas e caminha no devaneio, por isso ela não se prende a modelos de abordagens, nem espera atingir uma determinada classe e objetivos, mas pela sua dinamicidade, ela se mostra em arquétipos com estruturas quelantes, como a imagem de íon metálico, que se liga às várias outras ligações covalentes.
A ecopoesia é a energia que atravessa a natureza, e repousa no pensamento do homem, que se vê em desdobramento de um ser do passado e do presente ao mesmo tempo. Esse, que é FDSD]GHHQWUDUHPVXDSURIXQGLGDGHEDWL]DUQDViJXDVGR³HFR´HVHSHUFHEHUXPRXWURDR retornar para o horizonte de seus olhos, que já não são mais os mesmos, mas aquele, capaz de se lê no espelho do meio ambiente.
A ecopoesia tece as emoções que surgem da natureza, ela se serve como médium do meio ambiente, que se comunica com o homem, fala de encantamento e, também de suas dores,
de seu desespero. É esse imaginário que é capaz de trazer imagens dinâmicas, que se conectam com vários contextos e sentidos. E nos traz ao mesmo tempo, a aura de um encantamento sublime.
Nesse diálogo entre a literatura e o meio ambiente, e particularmente entre poesia e o ecossistema, salientamos que ela recebe um importante papel ao contribuir para as pesquisas científicas, enquanto fonte inesgotável de conhecimento, que além dos recursos teóricos literários, também se apresenta como campo aos interesses de outras áreas sobre o meio ambiente. Nessa interação ecopoiética, a poesia se mostra com uma força transformadora capaz de levar à reflexão, mudar pensamentos, trazer novos conhecimentos e transformar o mundo.
1.3 - Poesia e meio ambiente, ecopoesia sob o contexto da aceleração ou desaceleração
Partimos agora para perceber a poesia como imitação da representação da relação do homem com a natureza, que traz um ritmo que muito se assemelha a uma aceleração e uma desaceleração diante da força das imagens, que se abrem em outras imagens, estampando universos novos. São como as imagens que retratam os elementos da natureza que estão presentes no texto, e nos trazem a ideia de um ritmo que se aponta na direção de um sentido, mas que se desaceleram quando estas se destroem e se reconectam a um novo horizonte de sentidos, ou ainda na tensão entre imagens fortes e fracas, que exprimem ideias de euforia e disforia.
Esses ritmos são como efeito da poesia como nos diz o próprio Borges (1999, p. 288) ³ um dos efeitos da poesia deve ser dar-nos a impressão não de descobrir algo novo, mas de recordar algo esquecido. Quando lemos um bom poema, pensamos que também nós poderíamos tê-ORHVFULWR´,VWRSRGHVHH[SOLFDUSHORIDWRGHTXHQDFRQVWUXomRGRSRHPDHla surge quando o poeta se posta a entalhar as palavras na representação da realidade.
Essa representação de uma realidade, como o próprio Borges nos diz, sugere que as palavras que compõem o poema, tem relação com o quotidiano do homem. Para Borges (2000, p.83)26 DSRHVLDWHPPDLVFRQWDWRFRPDVFRLVDVVLPSOHVGDYLGD³pPDLVSUy[LPDDRKRPHP comum, ao homem das ruas. Pois o material da poesia são as palavras, e essas palavras são, diz
26 BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso. Org. Calin-Andrei Mihailesar. Trad. José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
HOHRSUySULRGLDOHWRGDYLGD´3RGHPRVGL]HUWDPEpPTXHHODVXUJe a partir da percepção às coisas que estão presentes em nosso cotidiano, e que por vezes, nem notamos que essas coisas são como imagens que possuem uma força dinâmica, que nos dá a possibilidade de percebê-las se transformando em desenhos de outras imagens, que representam outros sentidos.
É neste processo de construção dinâmica, que essas imagens espontâneas mostram, no espaço do texto, os mais variados sentidos e ritmos, o que dá à poesia esse caminho do devaneio, em que podemos perceber as imagens se transformando em outras e apreendendo uma outra realidade, assim como nos diz Mello (2002, p. 96)27³pQRHVSDoRWH[WXDOTXHDLPDJHPJDQKD sentido, e o estudioso tem de percorrer, no texto, os itinerários do poeta, tentando apreender as forças de ação do WH[WR H FDSWDU R DSDUHFLPHQWR GH XPD UHDOLGDGH VXSOHPHQWDU´ e QHVVH percurso que as imagens constroem um itinerário, dentro de uma tensão de forças, que desenham imagens fortes e fracas na tessitura do texto, e nisto podemos sentir o ritmo do poema. É nesse sentido que podemos traduzir uma ideia de aceleração ou desaceleração, voltada para a ideia de movimento. Isso acontece quando o leitor faz a leitura do poema, e transporta seus sentimentos para as imagens de dor ou de alegria, que se arrastam em imagem de tristeza ou saltitam nas emoções de alegria, como nos coloca Mello (S³VyRGLVFXUVRHQmR RVHXUHVXOWDGRJUiILFRSRGHVHUDSUHVHQWDGRFRPRULWPR´1HVVHHQWHQGLPHQWRXPDHFRSRHVLD pode nos trazer os mais variados ritmos, tanto de aceleração, quando desenha uma representação da natureza que festeja a sua fertilidade nas imagens dos singulares frutos, que a terra pode nos presentear, quanto de tristeza ao representar os gritos de socorro quando ela sofre os impactos ambientais.
É nessa expressão de sentimentos de aceleração ou de desaceleração, que podemos perceber a relação do homem com a natureza, em atitudes que implicam cuidar do meio ambiente, ou mesmo de impactar reações a curto, médio ou longo prazo de intervenção, que comprometem a vida do ecossistema e ou do próprio homem. É também nessa relação que vamos reconhecer a ecopoesia, em que a natureza ganha um destaque central dentro da poesia, como nos diz Cardoso (2012, p. 18)28:
A análise do texto numa dimensão poética centra a atenção na escrita literária enquanto processo estético de representação do universo não humano. As propriedades estéticas são exclusivas dos textos literários. É esta preocupação com a escrita e com a especificidade do texto literário relativamente aos textos de caráter científico ou tecnológico que justifica que os autores francófonos que temos vindo a
27 MELLO, Ana Maria Lisboa de. Poesia e imaginário. Porto Alegre. EDIPUCRS. 2002.
28 CARDOSO, Olga Marisa Santos. Abordagem ecopoética da obra de Sophia de Mello Breyner Andresen. Dissertação apresentada à Universidade de Aveiro. 2012.
citar preferiram o termo ecopoética para designar um texto literário com manifestas preocupações ambientais.
Isso insurge em perceber a poesia enquanto arte, que transfigura a realidade do universo, do meio ambiente, traz a ideia de mostrar a relação do homem com a natureza, no sentido de propor uma reflexão sobre esse comportamento, e um novo olhar sobre o ecossistema. Utiliza de sua linguagem poética para alcançar o leitor a desenvolver uma consciência ambiental, assim como na ilustração de Cardoso (2012, p. 18):
Trata-se de dizer através do discurso literário, ou seja, numa linguagem poética, aquilo que outras formas de discurso não conseguem traduzir. A subjetividade do texto literário permite ao leitor criar a sua própria consciência ambiental, contribuindo para ultrapassar o distanciamento que se foi criando entre o homem e o seu ambiente natural. A escrita literária assume, desta forma, uma dimensão interventiva na mudança de mentalidades, condição essencial para que o paradigma relacional entre homem e natureza se fundamente em valores de respeito e equidade.
Com essa ideia, a ecopoesia, assume o papel de ser aura e promover reflexão sobre as preocupações que estendemos sobre o meio ambiente. Mostra a relação do homem com esse universo, e promove uma reflexão sobre mudanças de comportamentos, como podemos ver através do poema de Gilberto Mendonça Teles, ³Ser Tão Camões´.
O texto ³6HU7mR&DP}HV´ aponta para uma natureza rica ao falar sobre rio, peixe, terra, sal, éguas, e porteiras, elementos estes que somem do cerrado goiano, e causam impacto no meio ambiente.
Os problemas ambientais ganham visibilidades no poema e permite a leitura conjunta com a imagem da ubiquidade do imaginário de Gilbert Durand, pois com esse recurso da ubiquidade elas ganham um foco especial, diante de outras imagens que se apresentam no texto.
A imagem de ubiquidade pode ser comparada com o umbigo humano, que fica no centro do corpo, é nesse sentido do centro em que todos os olhares são voltados para ele, como centro das atençõesFRPRSRGHPRVYHUQDLOXVWUDomRGH'XUDQG³TXDOTXHUiUYRUHRXTXDOTXHUFDVD SRGHVHWRUQDURFHQWURGRPXQGR´DURAND, 2012, p. 411)29, é com essa imagem no sentido de centro, que exploramos os elementos da natureza como imagens que atraem os olhares de vários estudiosos.
29 DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. Trad. Hélder Godinho. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
Ser Tão Camões
Um rio se levanta da planície goiana e se detém calamitoso para lutar comigo e revelar-me o mistério mais fundo do sertão. Primeiro, fez sumir dos meus anzóis os beliscões dos peixes e sereias. Fez crescer a zoada dos mosquitos e a sensação de vento nos cabelos. E me armou no mais íntimo do ser a máquina do medo, me ocultando o amoroso espetáculo dos botos e a legenda da lua nos remansos. Depois foi me atirando as suas ondas, foi-me arrastando pela correnteza e me foi perseguindo nas vazantes, como o rio de Homero ou como aquele piscoso e grande rio a que os indígenas chamaram de Araguaia, pronunciando o dialeto das aves que povoam os longos descampados.
Talvez sonhe el-rei com seus dois rios de altas fontes. Talvez ouça o silêncio das iaras dormindo nos peraus. E talvez chore toda aquela apagada e vil tristeza de quem penetra a solidão noturna do canto da jaó, sem perceber o discurso do rio que me grita do barranco:
³1mRSDVVDUiV6DFL destes vedados términos. Goiás! eis o sinal que vibrará canoro e belicoso, abrindo na tua alma vastidões e limites.
Terás sempre o sal da terra e a luminosa sombra que te guia e divide, e te faz duplo, real e transparente, mas concreto nas tuas peripécias.
Nada valem tua cabaça de mandinga, o aroma de teu cachimbo e o mágico rubor de tua carapuça. Nada vale a tua perna fálica, pulando nos cerrados.
Há vozes que te agridem e dedos levantados te apontando nas porteiras, nas grotas, na garupa das éguas sem cabeça, como há sempre uma tocaia, um canivete, um susto, uma bala perdida que resvala em tuas costas.
Mas ainda tens de nutrir tua vida nas imagens
da terra. Ainda queres como nunca alegres campos, verdes arvoredos, claras e frescas águas de cristal Que bebes em Camões.
Todo o teu ser tão cheio de lirismo e de epopeias tenta escapar-se em vão aos refrigérios dos fundões de Goiás.
Assim me disse e, queixoso, voltou ao leito antigo, deixando-me perplexo e mudo, como se, junto de um penedo, outro penedo! Minha pe(r)na se foi enrijecendo, foi-se tornando longa feito um veio, uma pepita de ouro, o estratagema de uma forma visual que vai possuindo as entranhas do mapa e divulgando a beleza ideal destas fantásticas e vãs façanhas, velhas, mas tão puras, tão cheias de si mesmas, tão ousadas como o rio de lendas que se cala mitoso na linguagem.
Essa ecopoesia pode ser entendida como a ideia de análise entre a poesia e o meio ambiente. Nela é o próprio meio ambiente que dá o ritmo à poesia, com movimentos que se percebe na extensão dos versos e nas entrelinhas das imagens poéticas que trazem encantamento, e dor. Ele se mostrar em matizes, que montam o cenário do meio ambiente do cerrado goiano. O poema nos traz alguns elementos que irradiam luz para uma reflexão sobre o que está acontecendo com a natureza.
Entre as imagens de encantamento e de dor encontramos a ideia de aceleração e desaceleração, que dão ritmos nos versos e traduzem um movimento contínuo³8PULR se levanta da planície/goiana e se detém calamitoso/para lutar comigo e revelar-me/o mistério mais fundo do VHUWmR´eRULRTXH³VHOHYDQWD´H³VHGHWpPFDODPLWRVR´&RPR podemos ver, é a própria natureza que reage, toma a atitude de levantar-se, de lutar, de revelar-se como imagem de euforia e de aceleração, e ao mesmo tempo, nos traz uma ideia de desforia e desaceleração quando traz os ritmos freantes na imagem de se deter, e se fazer ³FDODPLWRVR´RHXOtULFRVHUHFROKHHPWULVWH]DSHORTXHHVWiDFRQWHFHQGRQR cerrado.
O eu lírico pDVVD D QRV PRVWUDU TXH ³3ULPHLUR IH] VXPLU GRV PHXV DQ]yLVRV beliscões dos peixes e sereias. /Fez crescer a zoada dos mosquitos/e a sensação de vento QRVFDEHORV´6HDQWHVSHUFHEHPRVXPDLPDJHPGHUHFROKLPHQWRnesses versos estamos diante do ritmo de desaceleração, que faz com que a natureza se recolhe ainda mais, quando somem os peixes do cerrado. E, consequentemente, as imagens que surgem nos versos trazem uma aceleração, mas que não trazem uma representação de alegria, mas de dor, como o pulsar do coração do leitor diante de uma tragédia, que podemos encontrar com a preocupação tecida na expressão ³]RDGDGRVPRVTXLWRV´7HPRVDVVLPXPULWPR de ir e vir, que se mostra em sumir peixe e aparecer mosquitos. Esse ritmo nos lembra o ritmo digestivo do engolimento e do refluxo que Durand (2012, p. 60) ilustra como sendo gesto da reflexologia:
A diferença entre os gestos reflexológicos que descrevemos e os esquemas é que estes últimos já não são apenas engramas teóricos mas trajetos encarnados em representações concretas precisas, Assim, ao gesto postural correspondem dois esquemas: o da verticalização ascendente e o da divisão quer visual quer manual, ao gesto do engolimento corresponde o esquema da descida e o acocoramento na intimidade, Como diz Sartre, o esquema aparece como o "presentificador" dos gestos e das pulsões inconscientes (DURAND, 2012, p.60).
Nesse movimento das pulsões, a desaceleração pode ser sentida na verticalidade do ser, DWUDYpVGDLPDJHPGRPHGR³(PHDUPRXQRPDLVtQWLPRGRVHUDPiTXLQDGR PHGRPHRFXOWDQGRRDPRURVRHVSHWiFXORGRVERWRVHDOHJHQGDGDOXDQRVUHPDQVRV´ Nestes versos, o medo desenha uma imagem de engolimento desacelerado vertical, que apaga o espetáculo do meio ambiente e, as imagens únicas que as auras de uma obra de arte podem oferecer ao leitor, assim como apaga R³HVSHWiFXORGRVERWRVHGDOXD´ como beleza da natureza, que não é percebida diante do espetáculo do medo pela viagem que povoa o imaginário do povo do cerrado goiano com suas lendas.
São essas imagens que sugerem um ritmo de ir e vir, que se repetem em outras FRPSRVLo}HVGHLPDJHQV³'HSRLVIRLPHDWLUDQGRDVVXDVRQGDVIRL-me arrastando pela correnteza/e me foi perseguindo nas vazantes,/como o rio de Homero ou como aquele/piscoso e grande rio a que os indígenas/chamaram de Araguaia, pronunciando/o GLDOHWRGDVDYHVTXHSRYRDPRVORQJRVGHVFDPSDGRV´$TXLDLPDJHPGDRQGDWDPEpP tem essa ideia rítmica de aceleração e desaceleração, que se encontra na imagem do rio, que surge na planície. E ao mesmo tempo essa onda sugere a ideia de aceleração como representação de um vômito do rio, que vomita o eu lírico, ele arrasta-o para as suas próprias margens, para o seu eu, para o seu engolimento.
O engolimento continua no ritmo de desaceleração quando temos a imagem do ³VLOrQFLRGDVLDUDV´³FDQWRGDMDy´TXHWUDGX]DH[WUHPDWULVWH]DTXHRHXOtULFR sente. O cerrado emudece, suas águas, que não trazem mais o canto da iara. Por outro lado, encontramos o ritmo aceleração que de certa forma comporta as tradições lendárias de um povo que conta suas histórias, passando de geração para geração, como parte do relacionamento familiar.
A lenda da Iara30, ao mesmo tempo que o seu canto pode ser reconhecido como ritmo de aceleração, a falta dela no cerrado goiano nos remete à ideia de uma desaceleração, ao ganhar contornos de um engolimento arrastado, que some do cerrado, deixando uma imagem depressiva. Assim como a imagem da Iara nos mostra um ritmo
30 Lenda da iara. A Iara costuma tomar banho nos rios e cantar uma melodia irresistível, desta forma os homens que a veem não conseguem resistir aos seus desejos e pulam para dentro do rio. Ela tem poder de cegar quem a admira e levar para o fundo do rio qualquer homem com o qual ela desejar se casar. brasilescola.uol.com.br. Iara.Disponível em: < https://brasilescola.uol.com.br/folclore/iara.htm> acesso em: 05/09/2018
de desaceleramento, o mesmo acontece com a imagem do Jaó31, que se amplia no seu pio prolongado e melancólico.
Tanto o silêncio da Iara, quanto do Jaó, ilustra o gesto de profundidade de Durand ( S TXDQGR QRV UHPHWH D XPD GHVFLGD LQWHULRU ³2 VHJXQGR JHVWR OLJDGR j GHVFLGD GLJHVWLYD LPSOLFD DV PDWpULDV GD SURIXQGLGDGH´ e DVVLP FRPR XP HFR QR profundo do ser, que o silêncio vai apagando a canção do cerrado, na voz da Iara e do Jaó, essa mudez até nos conduz a uma cavalgada fantástica pela planície do cerrado goiano, que abre um campo para percebermos a desaceleração na ideia da prosperidade do meio ambiente, que se esgota em um deslizamento lento para dentro do próprio ser da natureza, quando desaparece o espetáculo da natureza na imagem dos peixes, da Iara e o do Jaó.
Como podemos notar, o eu lírico ao nos trazer a situação da natureza do cerrado, que lentamente vai sumindo, ele utiliza da função fantástica, no sentido de amenizar a dor tão profunda que sente, utilizando o recurso do eufemismo. O eufemismo é ilustrado por Durand (2012, p. 404) como o poder de melhoria de uma situação gravosa para menos JUDYRVD QRV GL] ³2 VHQWLGR VXSUHPR GD IXQomR IDQWiVWLFD HUJXLGD FRQWUD R GHVWLQR mortal, é assim o eufemismo. O que quer dizer que há no homem um poder de melhoria do mundo. Mas essa melhoria também não é a vã especulação "objetiva", uma vez que a UHDOLGDGHTXHHPHUJHDRVHXQtYHOpDFULDomR´(VVHVHQWLGRGHYHUPHOKRUXPDVLWXDomR SHOR UHFXUVR GR HXIHPLVPR SRGHPRV SHUFHEHU QR YHUVR ³RV EHOLVF}HV GRV SHL[HV H VHUHLDV´, quando a morte dos peixes é amenizada com a representação dos beliscões.
Podemos ainda, perceber o efeito da eufemização QD H[SUHVVmR ³VHQVDomR GH YHQWRVQRVFDEHORV´TXDQGRRYHQWR balança ou levanta os cabelos podemos sentir a imagem de um espaço vazio por onde o vento explora seus espaços. Com isso podemos imaginar a falta de árvores, situação que podemos encontrar no próprio vão, onde o vento circula com força e facilidade, por não existir barreiras de árvores e vegetação. Assim como na cena do vento nos cabelos, o recurso do eufemismo está estampado no verso
31 Jaó. Mede cerca de 31 cm de comprimento. O jaó desloca-se pelo chão da floresta quase sem fazer ruído, apesar de ser relativamente corpulento. Sua plumagem cinza amarronzada do dorso é finamente estriada. Seu nome comum deriva do pio longo, assobiado e um pouco melancólico, emitido o ano todo, com mais IUHTrQFLD QR SHUtRGR UHSURGXWLYR 3DUHFH TXH HVWi GL]HQGR ³(X VRX -Dy´ FRP PDLRU rQIDVH QR ILQDO Escutado no início da manhã e do meio da tarde até o escurecer. Algumas vezes, pia em noites de lua cheia (wikiaves.com).