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A VENDA DIRETA E O COMÉRCIO INFORMAL NO CONTEXTO DA GLOBALIZAÇÃO – ―As metamorfoses do Capitalismo‖.

Keila Bonin Reis de Camargo

UNESP – Universidade Estadual Paulista, Rio Claro/SP [email protected]

Resumo

Com este tema temos por objetivo compreender a dinâmica das relações inerentes às práticas do comércio informal e da venda ambulante que se desenvolvem nas cidades e regiões periféricas, a partir da análise das contradições e conflitos que envolvem a reprodução das relações sociais e a produção capitalista do espaço. As formas de comércio e as relações comerciais inerentes a uma sociedade não apenas a caracteriza como também reforçam os elementos que a compõem. Considerando o comércio como um dos componentes do processo de reprodução das relações sócio-espaciais, endentemos que o estudo do comércio, dentro desta perspectiva, nos auxilia a compreender a reprodução da sociedade em sua complexidade sócio-espacial no mundo contemporâneo.

Palavras-chave: Comércio Informal, Venda Direta, Consumo, Distribuição, Produção do Espaço.

O período contemporâneo caracteriza-se por um modo de vida regido e pautado pelo fenômeno do consumo, o qual molda a vida cotidiana, induzindo-a por símbolos e valores que regulam as relações sociais, criam identidades, sustentam estilos de vida e definem segmentos sociais.

Se o consumo sempre acompanhou a história humana, nos dias atuais a exacerbação pelo consumo leva tal sociedade a ser entendida e reconhecida como ―sociedade de consumo‖, pois em nenhuma outra época se presenciou atitudes e padrões de comportamento tão intensamente impulsionados pelos ditames do mercado.

No decorrer dos tempos o conteúdo e o sentido do ato de consumir passaram por transformações. Se o consumo anteriormente era conduzido e motivado para sanar ou minimizar as necessidades humanas, posteriormente, conforme descreve Lipovetsky (2007), o consumo teve por objetivo exibir posição social e, atualmente, a finalidade essencial do consumo é a busca por mais qualidade de vida e maior bem-estar por meio de um consumo intimizado e emocional, voltado para satisfações privadas e impulsionado pelo imediatismo dos prazeres que consolida a ―civilização do desejo‖, a qual se caracteriza pelo hiperconsumo, pela mercantilização dos modos de vida e pela exacerbação do gosto pelas novidades.

O domínio do aspecto econômico sobre os estudos acerca do comércio e do consumo inibe a compreensão do mundo e da produção social em sua complexidade. A

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análise dos espaços do comércio e do consumo ajuda a revelar como o homem vem se produzindo socialmente e permite decifrar que valores têm norteado as decisões políticas, econômicas e sociais que resultam numa sociedade repleta de contradições e conflitos.

Dentro deste contexto, entendemos que o espaço geográfico não pode ser analisado fora de uma visão crítica capaz de abarcar todos os elementos que compõem o conjunto da vida humana, e que considere o espaço como produto e condição da reprodução da vida, visto que nele se materializa a realidade social.

Vivemos num período em que os espaços destinados ao comércio passam por um processo de especialização e complexidade cada vez mais acentuado, de forma a serem reconhecidos como ―templos do consumo‖, em virtude do esplendor de suas estruturas e sua sofisticação arquitetônica e tecnológica.

Desde a origem dos centros especializados para o comércio, como o Whiteley e o

Le Bom Marché (primeiras Lojas de Departamento de Londres e Paris), ou a famosa Galeria Vittorio Emanuele II em Milão, o simples ato de adquirir mercadorias foi-se

convertendo numa conduta social compulsiva pelo ato de comprar, movida por impulsos emotivos e psicológicos. Ao mesmo tempo, os locais de troca também passaram a ser consumidos enquanto mercadoria, pois os lugares especializados para o comércio requerem uma marca distintiva que o valorizem e o identifiquem como centros especializados capazes de valorizar e distinguir as mercadorias que nele se comercializam. Em conseqüência, também valorizam e distinguem aqueles que o freqüentam.

Entretanto, do lado de fora, além das fortalezas do império da sofisticação e do luxo, sobrevivem outras formas de comércio vinculadas a outros estratos sociais, não tão glamourosas ou elegantes, mas nem por isto, menos dinâmicas e efervescentes.

O comércio de rua ou o comércio ambulante traz consigo elementos e características inerentes às relações sociais que neste espaço se realizam, e revela os diferentes usos e significados da rua, que passa a ser utilizada para fins laborais reeditando práticas espaciais relacionadas à precariedade e uso improvisado dos espaços públicos.

Assim, para o estudo dos espaços do comércio é importante contemplar as práticas comerciais que ocorrem além dos espaços especializados, abarcando o papel dos centros urbanos e das novas centralidades, visto que a fragmentação do espaço urbano origina centralidades diferentes e desiguais que acompanha os diferentes

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segmentos sociais. Todavia, os subúrbios, geralmente desprovidos de um comércio mais intenso e de estruturas comerciais mais complexas, também não podem ser desprezadas. As periferias brasileiras postulam características que lhe são inerentes, como pobreza, construções inadequadas, falta de estrutura básica, distanciamento dos centros, precariedade de vias de acesso, enfim, tudo favorecendo o distanciamento no sentido de isolar, ou deixar para além, aquilo que não é visto com bons olhos. Mesmo quando não há contornos visíveis que demarquem a separação, os subúrbios brasileiros encontram-se encontram-separados pelo alijamento sutil, porém proposital, delineado pelas leis de acumulação capitalista que regem o movimento desta sociedade.

Enquanto o processo de acumulação capitalista acentua a concentração do capital nas mãos das grandes empresas e corporações mediante o crescimento contínuo de parcerias e fusões, o espaço geográfico vai-se definindo e se redefinindo, dividido em parcelas, configurando-se de forma segmentada e revelando a fragmentação da vida social que se materializa no espaço. Os investimentos em infra-estrutura física e social acompanham os interesses da acumulação do capital, e se traduz na reestruturação geográfica dos lugares.

As periferias brasileiras revelam o baixo grau de interesse do grande capital e o descaso do poder público, uma vez que a ausência e a carência são características abundantes em tais localidades.

Dentro deste contexto, temos como intuito entender como o comércio ambulante se desenvolve em regiões periféricas, alencando elementos e signos antigos e os que permanecem nesta forma milenar de troca de mercadorias, e compreender seus significados e contradições dentro do contexto da globalização e do momento histórico e social do mundo contemporâneo. Objetivamos, assim, compreender a dinâmica das relações inerentes às práticas do comércio informal e da venda ambulante nas cidades e regiões periféricas, a partir da análise das contradições e conflitos que envolvem a reprodução das relações sociais e a produção capitalista do espaço.

Sabemos que nas localidades mais afastadas dos centros urbanos e além das novas centralidades, há áreas em que o número de estabelecimentos comerciais é bastante restrito e as opções de compra mais reduzidas, principalmente quando nos referimos a cidades ou vilarejos situadas nos Estados do Norte ou do Nordeste Brasileiro.

A grande extensão territorial brasileira e a deficiente estrutura de meios de transporte resultam no isolamento de diversas localidades. Em algumas regiões do

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Norte do país, por exemplo, o acesso a alguns locais só é possível por meio de embarcações fluviais.

Todavia, não é preciso ir tão longe, pois mesmo em regiões próximas aos grandes centros, há bairros mais afastados que sofrem com falta de infra-estrutura básica, carência de acesso e restrição de transporte público.

O distanciamento dos centros urbanos aliado à situação precária de vida dos moradores das periferias, decorrente dos baixos salários e do desemprego que os assolam, favorece a prática do comércio informal que ocorre mediante a venda porta a porta, e os agentes que atuam na comercialização e na venda informal reconhecem na população de baixa renda um grande potencial de consumo incentivado pela abertura e facilidade ao crédito. De outro lado, temos o morador do subúrbio, que, embora tenha um poder de compra reduzido, é instigado ao consumo por intermédio da mídia e, além do acesso ao crédito, pode ter a mercadoria ao alcance de suas mãos, na porta de suas casas, satisfazendo seu desejo e seu ideário em adquirir determinados produtos, mesmo que não sejam de primeira necessidade.

Neste contexto, abordamos duas situações que se entrelaçam enquanto se realizam, visto que ocorrem de forma concomitante em nosso objeto de estudo: a Venda Direta e o Comércio Informal, ou seja, a venda realizada de porta em porta, diretamente na casa do consumidor, e a informalidade que domina este tipo de comércio.

A ênfase, portanto, desta pesquisa, refere-se ao comércio ambulante, que se realiza pela venda ―porta a porta‖, de artigos confeccionados para cama, mesa e banho, os quais são distribuídos por diversos Estados brasileiros e que se caracteriza, em grande parte, por atuar na informalidade, pois age fora dos padrões e normatizações do Estado e, portanto, fora de seu controle, e que se realiza em áreas mais afastadas aos centros urbanos, em locais periféricos.

Uma verdadeira teia de relações se forma, uma vez que diferentes vínculos sustentam os grupos que compõem esta atividade.

A partir de pequenas empresas vinculadas ao ramo de confecção de artigos domésticos para cama, mesa, banho e decoração, localizadas no interior do Estado de São Paulo, mercadorias são adquiridas e comercializados por vendedores autônomos, em diversas regiões, que ultrapassam os limites do Estado de São Paulo.

Como a venda é realizada de porta em porta, rotas são criadas pelos vendedores, sendo que muitos deles possuem seu próprio entreposto, que funciona como um pequeno centro de distribuição. Estes vendedores formam seu grupo, composto por

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―sacoleiras‖ ou ―kiteiros‖, que atuam na venda de porta em porta, formando pequenas ―redes‖ de distribuição.

Em alguns casos os vendedores estão ligados aos proprietários das confecções pelo vínculo de parentesco ou de amizade, o que estabelece uma relação de confiabilidade. Geralmente estes vendedores vivem em cidades próximas às áreas de sua atuação de venda, portanto, distantes do local de aquisição dos produtos que comercializa.

Entretanto, há outros fabricantes que não possuem este tipo de vínculo com os vendedores que também realizam a distribuição da mercadoria em cidades do interior, ou em outros Estados brasileiros, mediante a venda porta a porta, que formam seu grupo de vendas e suas rotas, todavia, o vínculo maior fica estabelecido entre o vendedor principal e os demais, sendo que muitos deles pertencem à comunidade cigana.

As mercadorias comercializadas não são ilegais, pois têm uma procedência legalizada, ou seja, são produzidas por empresas devidamente constituídas, porém o comércio é informal, uma vez que tais comerciantes são autônomos, porém, na maioria dos casos, não oficializados pelos meios legais exigidos pelo Estado. Desta forma, o Estado não tem controle sobre os dados estatísticos deste comércio nem sobre a arrecadação dos possíveis impostos originários destas vendas.

Porém, independente dos vínculos que se estabelecem entre os diferentes tipos de fabricantes e seus clientes (os vendedores ambulantes e informais), surge uma verdadeira rede de distribuição com estratégias definidas que, embora se realize numa escala micro, passa a ser bastante significativa, não apenas do ponto de vista do volume ou dos valores que movimenta, mas principalmente pelos inter-relacionamentos que se estabelecem e que se intercambiam no atual contexto histórico.

A atividade não se estabelece apenas no ato de transportar e comercializar produtos e mercadorias em locais longínquos ou quase inacessíveis, às comunidades distantes dos centros urbanos, como faziam os antigos mascates nas cidades interioranas do Brasil ou nas fazendas de café. Se esta forma de comércio nos remete ao passado, ela também nos revela que hoje se realiza num outro formato, pois outros mecanismos atuam tanto no que diz respeito às práticas de consumo, quanto às formas de distribuição.

Não é o comprador que se desloca para adquirir o produto, é o vendedor que vai até o consumidor, em cujas casas tais produtos já estão presentes por intermédio da mídia e já habitando o imaginário pelo desejo de consumo. O acesso às informações e o

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apelo constante ao consumo, presente em todas as instâncias e esferas, mesmo que em diferentes escalas, levam a novas formas de desejo.

O fenômeno do comércio informal, bem como a venda de porta em porta realizada pelos mercadores ambulantes nos dias atuais, não pode ser analisado fora do amplo contexto da globalização, e de todas as co-relações oriundas deste momento histórico do sistema capitalista de produção. O trabalho informal hoje, sem dúvida, é fruto das desigualdades produzidas pelo capitalismo no caminho de sua expansão. Entretanto, sua dinâmica também se origina ou está vinculada à ―ética‖ capitalista, ou ao ideário que este sistema institui. Se o nega, também o confirma.

O desejo de ser ―independente‖ ou dono de seu próprio negócio, ―patrão de si mesmo‖, concorre com o desemprego como fator que estimula esta decisão. Ou seja, embora tal processo se estabeleça a partir da negação do sistema, ou do que está sendo colocado às margens dele, também o afirma, à medida que confirma a lógica do capital, e atua a partir das mesmas premissas.

Todavia, o exercício do pequeno comércio de rua antecede a idéia de setor informal, bem como as demais atividades que se realizavam a margem do aparato legal vigente. Foi a partir de um determinado momento histórico que o conceito de setor informal se instituiu e abarcou este tipo de atividade econômica.

Desta forma, o conceito de setor informal apareceu como um instrumento explicativo para fenômenos antigos relacionados a atividades econômicas de baixa produtividade e que se desenvolviam a margem da legislação do mercado.

O papel do Estado enquanto facilitador ou redutor das possibilidades destas práticas também constitui um fator fundamental para a análise e compreensão deste fenômeno nos dias atuais.

Os grupos sociais que se inserem na informalidade geralmente estão inscritos numa situação de miséria e precariedade, ou seja, há um movimento de passagem da marginalização ao setor informal. Isto revela uma sociedade que se reproduz socialmente de forma desigual, tendo como subproduto suas próprias mazelas.

Para minimizar o estado de precarização e insuficiência de renda necessária para a própria subsistência, o trabalho informal surge como um subterfúgio na busca por outras possibilidades, mesmo que esteja fora dos parâmetros legais do Estado.

Assim, podemos interpretar o surgimento da informalidade como uma reação ou uma resposta que se contrapõe ao excesso e à ação coercitiva e legal do Estado. Ou seja, uma forma de resistência que se insere na contramão do domínio do Estado.

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Todavia, se a informalidade pode ser o sinal de uma ausência do Estado, por outro lado, ao contrário disto, de acordo com as investigações de Miras (1991), também pode ser parte deste Estado. O setor informal, neste sentido, passa a ser um componente importante e necessário, que faz parte do jogo e que se transforma num objeto de transação entre os agentes institucionais.

Constituindo uma forma especifica de regulação, a informalidade se torna necessária para que o Estado e demais formas institucionais possam promover uma reprodução social imbuída pela existência da desigualdade (MIRAS, 1991, p.104-120).

Para Miras (1991, p.117) o setor informal constitui as ações econômicas e comerciais que escapam às normas legais, em matéria fiscal, social, jurídica ou de registro estatístico.

Entretanto, de acordo com o autor, a existência do setor informal não é resultado apenas da ausência do Estado, ou de sua incapacidade em regular e intervir nas atividades econômicas ou sociais. Pelo contrário, de acordo com o autor (1991, p. 112), ―o setor informal reintegra ideologicamente a pobreza restituindo ao Estado sua capacidade federativa e seu controle do social e do econômico‖.1

Segundo o autor, há um movimento de passagem da marginalidade ao setor informal promovida pelo Estado, que pretende, pela transposição deste conceito, estabelecer um paralelo com a concepção de desenvolvimento, mediante o voluntarismo econômico, ―a partir da intersecção de dois pressupostos: o desenvolvimento como objetivo e o Estado como meio‖.2. (MIRAS 1991, p.111).

Assim, a informalidade que por um lado aparece como um subterfúgio do domínio e controle do Estado é também o resultado de sua ação intervencionista no sentido da promoção do desenvolvimento.

O setor informal passa a ser, assim, uma ferramenta de legitimação do poder do Estado. E a marginalidade um subproduto necessário para a atuação estratégica do poder público na busca pelo desenvolvimento.

―Esta ideologia do setor informal sem dúvida permitiu desenvolver o significado de certas características do sub-desenvolvimento e da pobreza

1

Conforme original: “celle du secteur informel au contraire réintégrait idéologiquement cette même pauvreté em restituant à l´État – au moins dans son imaginaire – as capacite fédérative et de maîtrise du social et de l´économique”.

2

Conforme original: “à l´intersection de deux présupposés: le développement comme objectif, et l´État comme moyen”.

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urbana: a partir desta tese a marginalidade é considerada como um subproduto necessário – no seu sentido intrínseco – ao crescimento periférico, dentro do desenvolvimento social e econômico desigual que pode cindir as sociedades sul-americanas, a temática do setor informal de fato entra no plano das práticas de pobreza e subsistência popular dentro do campo da ideologia das políticas econômicas públicas como um capítulo obrigatório da economia do desenvolvimento‖3

.

Dentro desta perspectiva podemos verificar que o Estado utiliza-se de ferramentas ideológicas para legitimar seu poder, dissimulando os verdadeiros propósitos e objetivos de suas ações.

Tais colocações nos levam a questionar o quanto as ações do Estado podem incentivar ou reprimir, induzir ou conter, acelerar ou retroceder determinadas formas e práticas econômicas e padrões de condutas sociais, pois por meio de sua atuação, o Estado ordena e regula espaços hierarquizados, promovendo a segregação sócio-espacial e instituindo espaços de poder.

―O Estado produz o espaço regulador e ordenador que tende a estabelecer-se no seio do mundial reproduzindo a oposição centro-periferia que se estende das grandes capitais e cidades mundiais até as regiões dos países em desenvolvimento, o que significa a dominação de centros sobre o espaço dominado que exercem controle do ponto de vista organizacional administrativo, jurídico, fiscal e político sobre as periferias, coordenando-as e submetendo-as as estratégias globais do estado. Estratégias de poder fundados no aparelho estatal enquadram territórios e populações reproduzindo um espaço de confrontos e conflitos‖. (CARLOS, 2007, p.28).

As diferentes estruturas e configurações físicas do espaço urbano interferem na dinâmica da atividade comercial, pois os fluxos do comércio e dos serviços dependem da localização e das articulações entre localidades.

Os diferentes lugares, em função de sua ordenação e configuração podem estar mais inseridos na lógica da reprodução do capital, em detrimento a outras parcelas do espaço, que ainda não foram cooptados pelos grandes estabelecimentos comerciais, industriais ou financeiros.

3 “Cette idéologie du secteur informel a sans doute permis de retourner le sens de certains traits du développement et de la pauvreté urbaine: alors que la thèse de la marginalité les considérait comme um sous-produit nécessaire – au sens d´intrinsèque – de la croissance périphérique, avec leur charge centrifuge d´inégalités sociales et économiques et donc de risques d´écartèlement des sociétés sud-américaines, la thématique du secteur informel a fait entrer de plain-pied ces pratiques de pauvreté et de subsistance populaires dans le champ de l´idéologie des politiques économiques publiques comme chapitre obligé de l´économie du développement. ”. (MIRAS, 1991, p.111).

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Assim, a estruturação e reestruturação intra e inter-urbana, em nível local, é necessária para e definição e redefinição dos fluxos materiais e imateriais do comércio, de acordo com as estratégias de expansão do capital, que cria novos espaços de produção, circulação, distribuição e consumo.

Dentro deste contexto, a atuação do Estado tem uma importância fundamental, não apenas como promotor de investimentos, mas principalmente como facilitador e estrategista dos processos de organização e reordenação dos espaços urbanos, muitas vezes vinculados aos interesses do capital privado.

Atualmente estão sendo implementados no Brasil eficientes sistemas e programas de combate à sonegação fiscal, que cruzam e interligam informações com o intuito de evidenciar as atividades que se realizam fora do controle do Estado. Tais programas tendem a inibir a informalidade e, com certeza, trarão elementos de transformação, contradições e conflitos, podendo alterar profundamente a dinâmica deste processo relacionado à informalidade e à venda ambulante.

As políticas públicas de combate à sonegação fiscal estão cada vez mais austeras, com mecanismos e práticas eficientes de fiscalização no intuito de assegurar o aumento da arrecadação de receita. Informações estão sendo cruzadas mediante dados fornecidos por diversos órgãos, agentes e instituições.

Por outro lado, verificamos um outro movimento que começa a tomar forma e a se expandir em algumas localidades do território brasileiro, relacionado à venda direta, de porta em porta, porém agora, lideradas pelas grandes marcas e corporações detentoras do capital.

É o caso, por exemplo, da marca Coca-Cola, que tem apostado na venda porta a porta como canal de venda para aumentar sua penetração entre os consumidores de baixa renda. A atuação da empresa a princípio, está sendo feita por meio de Vans que atuam na venda de refrigerantes em garrafas de vidro e está centrada nos Estados de Pernambuco e Paraíba e no norte da Bahia, porém a meta é ampliar a ação para mais cidades.

Outra empresa que tem voltado seu interesse à venda direta é o Grupo Nestlé, que se declara consciente da importância da população de baixa renda para a expansão de seus negócios no país. Desde 2006 a empresa vem selecionando empreendedores para se tornarem micro-distribuidores que, instalados em bairros periféricos, recrutam mulheres da própria comunidade para trabalhar com a venda de seus produtos em

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carrinhos. A empresa destaca a importância desta modalidade de comércio para gerar empregos e aumentar a renda de famílias nos bairros de periferia.

A empresa de alimentos Batavo (BRF Brasil Foods) também tem acelerado sua atuação no ramo de venda direta, ampliando sua presença nas periferias da região metropolitana de São Paulo. A empresa aponta o aumento do Programa Bolsa Família como um aliado para as empresas que não querem depender apenas do varejo e, assim, obter um lucro maior. A marca começou trabalhando com empresas responsáveis pela distribuição dos produtos, que são vendidos em ―kits‖ previamente estabelecidos pela companhia.

O Grupo JBS Friboi começou por alguns municípios do interior do Estado de São Paulo a venda a domicilio, de diversos cortes de carne bovina através de Vans que circulam pela cidade com o propósito de aproximar a empresa do consumidor final. A empresa tem a intenção de colocar até 10 mil Vans em todo o país para entregar e vender carnes de porta em porta.

Em parceria com a Jequiti, empresa do grupo Silvio Santos, a companhia Unilever também se prepara para lançar produtos para a venda porta a porta.

Este fato pode estar revelando um movimento de intensificação da concentração e acumulação do capital, mediante a cooptação de áreas e de mercados que até então ainda não faziam parte do rol de zonas de interesse das grandes companhias.

No sistema capitalista de produção a acumulação de capital ocupa um espaço central, pois é o motor que alimenta o sistema e que nele se alimenta e se potencializa.

De acordo com Harvey (2005, p.47-48), o sistema capitalista cria novas estratégias no sentido de renovar as condições de acumulação. Uma das estratégias citadas pelo autor é justamente a penetração do capital em novas esferas de atividade mediante a organização de formas preexistentes e a expansão de pontos de troca do sistema de produção com a diversificação da divisão do trabalho.

Neste sentido, pode-se perceber que as grandes companhias começam a expandir suas áreas de atuação para aumentar suas vendas e seus lucros dando continuidade ao processo de reprodução ampliada do capital. Este movimento contraditório revela e acentua os enfrentamentos, as confrontações e as desigualdades que caracterizam a atual sociedade. Concomitantemente, verifica-se uma atuação persistente do poder público incrementando métodos e estratégias no combate à sonegação fiscal para inibir a atuação dos agentes envolvidos no mercado informal.

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A permanência (ou não) deste tipo de comércio, e as possíveis transformações relacionadas ao fenômeno da venda direta gerida pelos agentes que atuam na informalidade compõem um capítulo ainda a ser escrito pela história. Os fatos atuais revelam que os processos de mudanças estão em curso e que novas possibilidades estão postas. Os caminhos que serão percorridos certamente trarão novos subsídios para a análise das relações sociais inerentes a esta prática, e nos ajudarão a compreender um pouco mais acerca da sociedade que estamos produzindo.

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