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A adolescência e o laço social

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Academic year: 2021

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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA

A ADOLESCÊNCIA E O LAÇO SOCIAL

TASSIARA DALLEPIANE CERETTA

Ijuí – RS 2013

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TASSIARA DALLEPIANE CERETTA

A ADOLESCÊNCIA E O LAÇO SOCIAL

Trabalho de pesquisa supervisionado apresentado como requisito parcial para conclusão do curso de formação de Psicólogo na UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

Orientadora: Kenia Spolti Freire

Ijuí – RS 2013

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TASSIARA DALLEPIANE CERETTA

A ADOLESCÊNCIA E O LAÇO SOCIAL

Trabalho de pesquisa supervisionado apresentado como requisito parcial para conclusão do curso de formação de Psicólogo na UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

Banca Examinadora:

______________________________________________________ Kenia Spolti Freire

Docente do Departamento de Humanidades e Educação, Mestre em Educação nas Ciências (UNIJUÍ)

______________________________________________________ Elisiane Felzke Schonardie

Docente do Departamento de Humanidades e Educação (UNIJUÍ)

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APRESENTAÇÃO

O trabalho de pesquisa supervisionado está formatado de acordo com as Normas Atualizadas da ABNT, apresentadas por Furasté (2013) (ANEXO A).

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AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus, que iluminou meu caminho durante todo este percurso.

Aos meus pais, Dimas e Clarice, e ao meu irmão Leonardo, que de forma especial me deram força e acreditaram em meu potencial para a concretização deste trabalho.

Aos meus amigos e colegas, por todo incentivo, reflexões e apoio constante.

Agradeço também, a minha orientadora pela paciência, dedicação, por me dar suporte e subsídios para a realização deste trabalho. À Kenia Spolti Freire, meu agradecimento.

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RESUMO

Este trabalho é estruturado através de uma pesquisa bibliográfica, a respeito do tema: a adolescência e sua relação com o laço social. Está dividido em dois capítulos: o primeiro capítulo aborda a constituição adolescente, através de estudos sobre o Complexo de Édipo, Estádio do Espelho, castração, e aborda também as modificações corporais e psíquicas que constituem o momento da adolescência. O segundo capítulo trata da passagem adolescente ao social, distanciando-se da relação inicial com a família. Não se trata da ausência real dos pais, mas da mudança de relação com eles. Apresentando-se, também, a função do pai na adolescência, passando pela ação psíquica de simbolização do Nome-do-pai. A puberdade e o apelo ao Outro social exigem do adolescente uma nova posição subjetiva, levando-o a responder em nome próprio. Com a desqualificação dos pais da infância, o adolescente busca abandonar a autoridade parental, para assim, ir em direção de um novo laço social e, consequentemente, ao encontro com o Outro sexo. As ideias desenvolvidas neste trabalho têm como base autores como Rassial, Backes, Calligaris, Freud, Mees, Rilho, Corso e Erikson.

Palavras-chaves: Adolescência. Função Paterna. Castração. Estádio do Espelho.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 7

1 A CONSTITUIÇÃO ADOLESCENTE ... 9

1.1 A CONSTRUÇÃO DA POSIÇÃO ADOLESCENTE NO LAÇO PARENTAL ... 12

2 A PASSAGEM ADOLESCENTE: DO OUTRO PARENTAL PARA O OUTRO SOCIAL ... 18

CONCLUSÃO ... 29

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 31

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INTRODUÇÃO

A presente pesquisa aborda a passagem adolescente, a partir de uma leitura psicanalítica, considerando o sujeito adolescente dentro de um contexto de elaboração deste transcurso. A identidade deste sujeito, primeiramente, encontrava-se apoiada na identificação parental. Com a transição adolescente, juntamente com modificações psíquicas e orgânicas, este passa a questionar o lugar destes modelos identificatórios, entrando em confronto com aquilo que é sempre colocado para si a partir do que vem do Outro. Necessitando, assim, abandonar estas identificações infantis. Desta forma, o adolescente passa a assumir uma posição própria e a responsabilidade por seus atos, alterando o seu estatuto social e seu lugar no mundo dos adultos.

Para desenvolver as questões consideradas acima, este trabalho estrutura-se em dois capítulos. O primeiro capítulo refere à constituição psíquica do sujeito adolescente, buscando compreender a adolescência como um trabalho psíquico. Momento este em que o sujeito faz a reedição de seus conflitos infantis, encontrando-se em crise pela sua posição de não lugar e pelas modificações da puberdade. Por mais que seu corpo se assemelhe ao de um adulto, o reconhecimento por este não lhe é concebido.

Ainda neste primeiro capítulo aborda-se a relação do adolescente no âmbito familiar, em que o saber paterno vem sendo substituído por um saber que vem do social. Considera-se estas rupturas com as primeiras ligações familiares necessárias para que o sujeito conquiste este saber que vem do Outro.

No segundo capítulo, busca-se trabalhar as questões em que o adolescente se depara, já inserido no campo do social. E lança-se em busca de novas identificações, já que se viu “traído” pela promessa edipiana e que seus pais da

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infância encontram em uma posição de “desqualificados”. Deste modo, o sujeito encontra-se frente a um processo de reelaboração das significações que o sustentavam na infância, para que, assim, siga seu próprio desejo, autorizando-se a partir de sua inserção no social. E deparando-se com o outro do outro sexo e com a falta.

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1 A CONSTITUIÇÃO ADOLESCENTE

Cansado de correr na direção contrária Sem pódium de chegada Ou beijo de namorada Eu sou mais um cara (...) eu vejo um futuro refletir o passado Eu vejo um museu de grandes novidades O tempo não pára. CAZUZA A adolescência é um tempo de transição em que o sujeito se depara com a passagem do mundo infantil para o mundo adulto, podendo-se perceber, desde já, a posição de não lugar correspondente a esta condição. Algumas vezes os adolescentes são reconhecidos como crianças, em outras, abordados como adultos, ou, até mesmo, não são reconhecidos em nenhuma destas posições. O não reconhecimento por ser, ou considerarem-se já na condição de adultos, é de mais difícil aceitação para o adolescente. Este percebe que o olhar dos adultos não investe nele como seu semelhante. Pode-se pensar a busca por este reconhecimento como uma espécie de recompensa pela perda da identidade infantil, juntamente com a proteção e cuidado que antes eram assegurados pelos pais. Rilho (2004, p. 215) questiona: “Por que a Adolescência? Porque a sua especificidade é o não-lugar do adolescente na organização social. Por não ser nem completamente criança, nem completamente adulto”.

Rassial (1997) nomeia a adolescência como passagem adolescente. Diz-se passagem pelo fato de que é durante esse momento que o adolescente irá se haver com a reedição de seus conflitos infantis. Tal passagem pode ajustar-se como um tempo de espera para chegar à vida adulta, para que, enfim, se possa abandonar essa posição infantil e poder ser considerado como adulto. Em relação a esse não lugar do adolescente, Rassial (1997, p. 21) evidencia: “não totalmente criança, não totalmente adulto, devido a seu estatuto social entre menoridade e maioridade, o adolescente frequentemente tem a tendência em generalizar esse estado de não totalmente”.

Conforme tais considerações pode-se articular que a adolescência passa a ser um “problema” na medida em que os jovens não se veem reconhecidos por seus pais em relação às mudanças que estão enfrentando. Com isso, convém pensar que

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esse reconhecimento se faz referido ao desejo do adolescente de se tornar adulto, buscando o olhar do outro parental para autorizar a passagem à comunidade. O olhar parental evoca uma espécie de validação, para a inserção do adolescente no social. Aqui, pode-se referir a tribo a qual relata Calligaris (2000): por mais que o sujeito já possua tributos físicos suficientes para se sobressair e adquirir destaque na tribo, ainda é necessário esperar mais alguns anos para assim poder fazer parte desta.

Naturalmente, os anciões acrescentarão que esse “pequeno” atraso é inteiramente para seu bem. Eles amam você e por isso querem que ainda por um tempo você seja protegido dos perigosíssimos surubins que andam por aí. Isso sem falar dos berimbaus... (CALLIGARIS, 2000, p. 13).

A transição adolescente remete o sujeito a diferentes situações. Uma delas é o abandono do corpo infantil e a busca para se apropriar desse novo corpo que passa a ser adulto. Esse corpo mudado, através da puberdade, é o que assinala a diferença entre a imagem do corpo jovem e o copo da infância. Essa fase passa a ser vista como um momento de elaboração de lutos, luto dos pais onipotentes da infância, de sua bissexualidade, da identidade infantil; há necessidade de elaborar o luto do corpo que antes assumia na infância e a tomada de um novo corpo adulto – este, vindo com diferentes transformações corporais. Tais mudanças podem se apresentar como um acontecimento infausto para o adolescente. Na medida em que a imagem do corpo que construiu na infância necessita ser reconstruída, a criança se encontra frente a uma realidade distante daquela a qual estava familiarizada durante a sua infância.

As modificações que ocorrem no corpo do adolescente são decorrentes de alterações hormonais, próprias da puberdade, vista como um período que faz parte do desenvolvimento orgânico e corporal. Diante desse processo Rassial (1997, p. 72) ressalta:

Se a puberdade inicialmente perturba a imagem do corpo construída na infância e que deverá ser reconstruída, genitalizada, quer dizer, não mais sustentada pelo olhar e voz da mãe e pelo falo paterno, mas implicada na relação ao outro sexo, como uma renúncia definitiva e difícil da bissexualidade (os riscos homossexuais e perversos da adolescência jogam-se aí), é nesse mesmo movimento que o remanejamento dos ideais impõe-se.

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11 A puberdade demarca o início da adolescência, através destes fenômenos de mudança corporal, tornando-se capaz de impulsionar o adolescente a buscar seu lugar no mundo adulto, mas ao mesmo tempo não sendo suficiente para fazê-lo se inserir neste ideal, condenando-o a viver na dependência familiar por mais algum tempo. É neste ponto que a adolescência apresenta uma espécie de confronto entre as gerações. Seguindo nesse pensamento, Calligaris (2000) ressalta que um sujeito se torna adolescente quando, apesar de seu corpo e se espírito estarem prontos para a competição, não é reconhecido como adulto. Aprende que, por volta de mais dez anos, ficará sob a tutela dos adultos, preparando-se para o sexo, o amor e o trabalho, sem produzir, ganhar ou amar; ou então produzindo, ganhando e amando, só que marginalmente (CALLIGARIS, 2011, p. 15). Assim sendo, esse tempo em que o adolescente tende a permanecer sob tutela do meio familiar é experienciado pelos pais como um tempo de preparação, que se mostra necessário para proteger o adolescente dos perigos que possivelmente encontraria no social, preparando-o melhor para o dia em que finalmente será reconhecido como um adulto e, da mesma forma, para o dia em que seus pais passarão a enxergá-lo como um semelhante.

O que descreve Calligaris (2000) conduz a pensar que a adolescência trata-se de um tempo para emergir o que já está posto. É um tempo de espera, tempo necessário; precisa-se vivenciá-lo para posteriormente receber a autorização para realizar o apelo que vem do social. Ou seja, esse tempo de espera é a adolescência propriamente dita, um momento de contradição para o adolescente, pois ele percebe que seu corpo já se encontra em maturação, mas que só esse fator ainda não é necessário para tornar-se autônomo, independente. Esse ideal imposto pela modernidade, pelo social é reprimido, esperado para mais tarde. Calligaris (2011) aponta que talvez haja maturação, lhe dizem, mas ainda não é maturidade. Por consequência, ele não é mais nada, nem criança amada, nem adulto reconhecido.

Portanto, a transição a ser experienciada entre a dependência e a independência, só será elaborada à perspectiva da maturidade. Até que esta seja concretizada, as contradições próprias da adolescência serão predominantes. Calligaris (2011) ainda ressalta que esta ideia é circular, pois a espera que lhe é imposta é justamente o que o mantém ou torna inadaptado ou imaturo.

Pode-se perceber que a adolescência não está estreitamente ligada aos fenômenos relacionados só a puberdade, ou ao tempo cronológico. O adolescer pode ser um processo que exige um pouco mais de complexidade, que envolve

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questões que estão para além de elementos simplesmente orgânicos, remetendo-se, então, às de ordem subjetiva. A adolescência é reconhecida como um “estado de” crise, em que o adolescente se depara com a responsabilidade de seus atos, encontrando assim, dificuldades em se posicionar nessa nova realidade. Esta nova posição mostra-se diferente do que estavam acostumados em sua infância, quando os pais ocupavam o lugar daqueles que sempre tinham as respostas para todas as perguntas, que tudo sabe, que eram os mais bonitos, os mais espertos. Com a entrada na adolescência, estes pais não deixam de estar presentes, e sim, se retiram da condição de pais da infância.

1.1 A CONSTRUÇÃO DA POSIÇÃO ADOLESCENTE NO LAÇO PARENTAL

O adolescente que tinha até então os pais como modelos identificatórios, encontra-se agora diante da demanda interna de abandonar estas identificações em detrimento de novos modelos identificatórios, que passarão a ocupar o lugar destes. É como se a desidentificação dos valores intrafamiliares fosse a condição para o adolescente poder se reidentificar com novos valores e outros saberes oriundos do social.

Neste movimento é que podemos perceber que a autoridade paterna que vinha sendo construída no seio familiar, cada vez mais vem sendo substituída por um saber que agora passa a vir do campo do social. Mees (2004, p. 21) afirma:

Convocado a responder na posição de responsável por seus atos, o(a) adolescente entra em crise devido à dificuldade de se situar a partir desse novo lugar, ou dito de outra forma, a adolescência é o momento psíquico no qual o jovem busca construir essa nova posição subjetiva. Até então o sujeito estava resguardado desse apelo dirigido a ele, visto sua infância ser protegida pelo Outro.

Neste momento o adolescente vê suas referências deslocarem-se do Outro familiar para o Outro do social, da casa para a rua, igualmente do eu ao outro, sabendo que mesmo com a inserção do adolescente no social, essa condição ainda depende do que se passa no Outro, no que este Outro diz. É como se diante dessa nova condição em que encontra-se fosse confrontado com o antigo, dentro de um processo dialético de construção, e não de pura rejeição ou abandono.

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13 No entanto, o adolescente como um ser de linguagem precisa se apropriar destes discursos que o constituem. Esse deslocamento no qual transita não é só do âmbito da família para o social, mas também um deslocamento do discurso, movendo o sujeito para novas redes simbólicas. Com isso, incorre uma nova posição no social, com novas fixações na cultura, a fim de que possa se fazer operante. Isso implica para o adolescente a ascensão de uma nova posição discursiva, momento em que este não remete mais seu discurso a seus pais, e sim, conduzindo-o ao social, emergindo a possibilidade de novos laços sociais.

As marcas deixadas pelo Outro se farão necessárias para a sustentação do eu, abrindo espaço para que novos valores venham a fazer parte desta passagem, sendo estes relacionados às novas identificações e referências que o adolescente irá se apropriar no campo social. As vivências e emoções que antes eram relativas aos pais, ou até mesmo só a um deles, passam a se deslocar, se transferir para outras pessoas. A partir disso, juntamente com a modificação corporal, o adolescente não encontra-se mais sob o olhar de seus pais e sim de seus amigos, ou até mesmo, do Outro do outro sexo. Com isso ressalta-se que esse é o momento de deixar pra trás a criança que até então era apresentada pelos pais. Deste modo, Rassial (1997, p. 77) apresenta como o adolescente vê tais mudanças em relação a seus pais:

O adolescente é confrontado com a distância entre a realidade de seus pais, que ele começa a perceber como sujeitos comuns, com seus conflitos, seus limites, seus desejos, e os pais ideais ou idealizados da infância que, por um tempo, encarnaram esse estatuto de adulto prometido para mais tarde.

Nesta passagem o adolescente se vê traído pela promessa edipiana. O pai que antes era visto como doador do falo e potente sai desta posição. Deste modo, o adolescente se depara com a falta no Outro, lançando-o ao encontro de seu desejo e assim com o Outro sexo. O grande efeito que o Édipo deixa para criança é a interdição no incesto, juntamente com a justificativa dada pelos pais, quando prometem este gozo para mais tarde, pelo fato de ainda serem crianças. A situação muda, no momento em que o adolescente se vê aparentemente com os mesmos atributos de um adulto, surgindo questões em relação a quem sustentará essa interdição, já que este se assemelha a seus pais. A autoridade dos pais torna-se frágil a partir do advento deste novo corpo do adolescente.

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Diante dos questionamentos vindos do filho, os pais também se encontram em crise, na medida em que precisam reinventar seus lugares dentro do âmbito familiar. Percebem a diferença em serem pais de uma criança e de um adolescente; são convocados a fazer luto das posições materna e paterna, para assim, apoiarem-se sobre suas posições de homem e mulher. Percebe-apoiarem-se, assim, que até os pais apoiarem-se deparam com a incerteza de sua própria posição. De acordo com Rassial (1997, p. 76): “É assim que os pais do adolescente, devido ao que seu filho projeta sobre eles, são conduzidos a interrogar seus próprios pais fantasmáticos, a questionar a ideia mesma do que é ser pai ou mãe”.

Sobretudo, os pais têm dificuldades em se situarem em relação aos seus referencias. O pai se reconhece responsável pela fundação de sua família, este estatuto social encontra-se comprometido com a chegada da adolescência, quando o discurso do filho adolescente contradiz o discurso paterno. Da mesma forma que este também atinge seu pai quando o rebaixa ao lugar de um simples elo na cadeia das gerações. Em relação ao que vivem os pais do adolescente, Rassial (1997, p. 86), ainda ressalta:

Os pais são reenviados, por múltiplas razoes que se combinam, a sua própria adolescência: de um lado, é claro, porque seus filhos mostram-lhes, de um jeito mais ou menos deformado, a imagem de sua própria adolescência, certamente como um momento difícil, mas também como um momento passado de juventude, de invenção e de escolhas, mais difíceis de refazer na idade da maturidade. Os pais podem então reencontrar esses sonhos, essas ambições, esses desejos que recalcaram há um certo tempo e que entendem vir de um outro.

Nesse sentido, os pais encontram-se confrontados com um retorno da idade, pela dificuldade de afirmarem-se em novos referenciais. Entende-se, no entanto, que diante a infância os pais incorram na condição de “deixar de lado” sua masculinidade e feminilidade. Com a chegada da adolescência do filho, isso reacende nos pais, podendo-se perceber tal operação de diferentes formas:

Veremos assim, na cumplicidade ou na competição, tal mãe, renunciando no todo ou em parte sua posição materna e esquecida às vezes no laço conjugal, imitar a invenção da feminilidade que tenta sua filha, pronta em propor-se, para grande perturbação desta, como sua confidente e sua amiga. Veremos assim, certos pais, em uma escala menor, voltar ao esporte, ao exercício de sua força viril ou, de um modo mais amplo, fazer-se tomar pelo famoso démom de midi (idade do lobo), na busca daquela que projetará sobre ele a imagem de um homem ainda jovem, ainda “verde”, como se diz (RASSIAL, 1997, p. 86).

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15 Após a renúncia aos pais da infância, o adolescente encontra-se em uma nova posição. Há que construir um lugar subjetivo, se colocar enquanto sujeito no mundo, na medida em que possa responder por seus próprios atos, confrontando-se com necessidade de escolhas e definições que surgem dele mesmo, da família e do social. Carece definir-se como homem, mulher, fazer escolhas profissionais, posicionar-se politicamente. Trata-se de uma equiparação do sujeito perante a lei, sendo tudo isso que o coloca em crise, havendo dificuldades para se situar, encontrar-se a partir desse novo lugar em que passa ocupar. O mesmo é convocado a buscar um reconhecimento que não seja o dos seus familiares, procurando este junto a seus semelhantes, em especial aos do sexo oposto, identificando-se com os grupos que começam a se formar entre estes adolescentes, compartilhando as mesmas crises. Desta forma, o adolescente vai se inserindo no social e construindo seus laços a partir de suas identificações.

Este também é o momento em que o adolescente traz consigo preocupações, através das modificações que vão aparecendo em seu corpo, deixando-os inquietos em relação ao o que os outros irão falar e como irão lhe olhar após essas mudanças. Tudo isso pelo fato de que o corpo do adolescente só muda de estatuto e valor a partir do olhar do outro do outro sexo, ou seja, só o Outro tem o poder de reconhecer, neste, um corpo maduro, desejável. Em relação a estas inseguranças vividas pelo adolescente, Erikson (1976, p. 129) propõe:

Eles se mostram morbidamente, por vezes curiosamente, quase sempre, preocupados com o que possam parecer aos olhos dos outros, em comparação com o que eles próprios julgam ser, e com a questão de como associar os papéis e aptidões cultivados anteriormente aos protótipos ideais do dia. Em sua busca de um novo sentido de continuidade e uniformidade, que deve incluir agora a maturidade sexual, alguns adolescentes tiveram de enfrentar de novo as crises de anos anteriores antes de poderem instalar ídolos e ideais duradouros como guardiãs de uma identidade final.

Diante desta constituição subjetiva remete-se à passagem do Estádio do Espelho, que é próprio desta constituição, na medida em que se dá pela intervenção do Outro. Com a tomada de um novo corpo que o adolescente passa a assumir, ele se vê na necessidade de fazer um trabalho de reapropriação de sua imagem corporal, construída durante a infância. Como pode-se perceber, a adolescência não diz só da assunção de um novo corpo, mas também de uma nova imagem.

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O estádio do espelho é o momento em que o sujeito assume uma imagem, se reconhece pela primeira vez. Através desta experiência psíquica se dá a inauguração do eu pela imagem especular – como se não houvesse outra saída para se constituir como sujeito sem passar pelo Outro, sem este Outro fazer a inscrição de significantes. Através do toque discursivo, constitui-se um contorno da imagem, inaugurando a constituição da totalidade da imagem corporal no bebê. O Estádio do espelho trata-se de uma experiência psíquica que estrutura a constituição do Eu pela projeção da imagem própria refletida na superfície do semelhante.

Nas considerações de Backes (2004, p. 30):

Quando a criança percebe sua imagem no espelho, nela se reconhece, mas ali também algo se apresenta como uma imagem ideal, como alguma coisa ao mesmo tempo além e aquém dela, como algo frente ao qual ressalta sua própria fragilidade de ser prematuro, de ser que se experimenta a si mesmo como ainda insuficientemente coordenado para responder a essa imagem em sua totalidade. Seria como a defasagem entre o que ela vê e o que é, sendo que o que vê, não deixa de ser ela mesma.

Desta forma, pode-se compreender que este bebê atinge sua constituição de corpo e imagem não somente através do espelho, mas, essencialmente, pela articulação especular sustentada pelo discurso do Outro Primordial. A partir dos significantes referenciados pelo Outro, inscreve-se a imagem que o bebê passa a admitir, se identificar; estabelecendo, através desta operação, a relação do bebê com sua realidade. Depreende-se deste momento a constituição do corpo do bebê, o que possibilita a apresentação deste à criança a partir do discurso e olhar materno. Em momento anterior a esta experiência, o bebê não possuía representação de seu corpo, sua imagem corporal ordenava-se sob forma de fragmentação em decorrência da própria imaturidade neurológica e psicológica. O estádio do espelho, assim, proporciona a primeira possibilidade de reconhecimento de si, momento que, sob o olhar do Outro, o sujeito vai ter que se reapropriar de uma imagem, de um corpo que nunca deixou de ser seu. Tratando-se do adolescente, é como se este reconstituísse o corpo que no infantil estava despedaçado, deparando-se com um novo corpo – adulto –, com todas as transformações. Neste sentido Backes (2004, p. 32) assinala:

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17 Toda a ideia do estádio do espelho é colocar em relevo uma das funções da imagem que é a de estabelecer a relação do organismo com sua realidade, estabelecer a relação do mundo interno (Innenwelt) com o meio circundante (Umwelt). Esta é, de alguma forma, a função preenchida pela Mãe primordial: fazer, para o se pequeno bebê, a ligação entre ele e o mundo, pois esta relação do homem com seu meio, com a natureza, com a cultura, não é tranquila ao contrário, provoca mal-estar.

Este momento faz a passagem do eu especular para o eu do social, pois ao deparar-se com essa fase, a mãe primordial tem a função de fazer a ligação de seu pequeno bebê com o mundo. É através dessas marcas deixadas pela mãe, ou alguém que toma esse lugar de referência materna, que o sujeito conta para construir seu lugar no social, marcando, assim, a passagem do desejo que antes era do Outro, para os impulsos do Eu. Rassial (1997) presume que o laço da mãe com a criança é de início real – a criança é um pedaço destacado do corpo da mãe –, depois imaginário – é a mãe que vai sustentar para a criança a construção do mundo exterior e de seu eu corporal.

Na adolescência ocorre uma reconstituição desta fase, já que durante a passagem adolescente da família para o social o outro familiar passa a ser interrogado na sua competência de fazer a mediação dessa transição. De acordo com Backes (2004), na adolescência, o sujeito sente-se ameaçado em sua identidade. O outro especular que fornecia a identidade imaginária é interrogado. Mas como se constitui nessa passagem, esta “nova identidade”? Esta nova identidade será construída a partir da “invenção” de um lugar: passagem do familiar ao social, da afirmação de si, do falar em nome próprio, numa reelaboração do espelho e uma nova simbolização dos traços que o espelho ofereceu.

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2 A PASSAGEM ADOLESCENTE: DO OUTRO PARENTAL PARA O OUTRO SOCIAL

O sujeito adolescente entra em crise ao deparar-se com a diferença daquilo que ele é na realidade e o que ele vê na sua relação com o outro especular. É o momento em que o corpo infantil se desfaz, é abandonado. Assim como o corpo do espelho, necessita de uma reconstrução da imagem que foi modificada com a chegada da puberdade, período em que o corpo do adolescente transborda e este não tem controle sobre tais efeitos. Assim como o momento do estádio do espelho para o bebê – quando falávamos que ao se deparar com a imagem especular, via um aquém e além dele mesmo – ocorre da mesma forma com o adolescente. Quando se olha com seu novo corpo, estranha o corpo de “agora”, muitas vezes querendo fazer coisas de adulto e ao mesmo tempo não se reconhecendo. Necessita, da mesma forma, da assunção de uma nova imagem e, consequentemente da aprovação desta através do olhar, seu e do Outro. Calligaris (2011, p. 25) em relação a essa dificuldade imposta aos adolescentes discorre que:

O que vemos no espelho não é bem nossa imagem. É uma imagem que sempre deve muito ao olhar dos outros. Ou seja, me vejo bonito ou desejável se tenho razões de acreditar que os outros gostam de mim ou me desejam. Vejo, em suma, o que imagino que os outros vejam. Por isso o espelho é ao mesmo tempo tão tentador e tão perigoso para o adolescente: porque gostaria muito de descobrir o que os outros veem nele. Entre a criança que se foi e o adulto que ainda não chega, o espelho do adolescente é frequentemente vazio.

Ocorre uma mudança das referências na medida em que o olhar e voz da mãe primordial no estádio do espelho passam a ser exercidos pelo semelhante do Outro sexo. O sujeito consegue a significação a partir do significante1 central, para,

através deste ter relações com os demais significantes, viabilizando o sujeito organizar a relação com as outras significações. Se essa passagem não calhasse ocorreria a psicose, pois o que continuaria operando para o sujeito seria a referência materna, ou seja, ele seria mais falado do que falante. O adolescente acaba por

1Elemento do discurso, referível tanto ao nível consciente como inconsciente, que representa e

determina o sujeito. A psicanálise é uma experiência da palavra, o que exige um reexamo do campo da linguagem e de seus elementos constitutivos, os significantes. O termo significante foi retirado da linguística, o qual Lacan retoma dando uma transformação psicanalítica. A psicanálise enfatiza que é a autonomia do significante com relação a significação. É aquilo que representa um sujeito para outro significante (CHEMAMA, 1995, p. 197-198).

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19 reeditar a organização sexual da infância, sendo através das identificações de objeto que a criança deixa a relação alienante de ser objeto de desejo da mãe, para assim tornar-se um sujeito com seus próprios desejos.

Backes (2004), ainda postula que a adolescência é o tempo para que o adolescente se “dê conta” que o Outro não é encarnável, figurável, mas puro efeito da linguagem, de discurso. Que o Outro é Simbólico e não imaginário.

Sendo assim, para intermediar nesta relação estabelecida entre a mãe especular e seu bebê, o pai (re)surge para intervir essa dupla relação simbiótica, possibilitando, deste modo, a criança ter seu desejo não mais ordenado pelo desejo da mãe. É a inscrição do Nome-do-pai que surge para barrar a mãe primordial e fálica. Ou seja, é a castração da mãe que passa a dar ao seu filho o lugar de falo imaginário. De outra forma, podemos dizer que o pai surge para organizar a história do sujeito.

Compreende-se este como um momento de reiteração da função paterna que vem a constituir a passagem adolescente. Propõe-se que essa primeira relação simbiótica da criança com sua mãe, faz-se necessária para que depois disso, com a intervenção do pai, seja possível a operação de separação. Assim, para que a função do pai se realize é preciso que a mesma seja mediada pela mãe, cabendo a esta permitir que a separação aconteça.

Decorre desta operação, a condição para que a dimensão simbólica irrompa na dialética edipiana, que o pai venha para ordenar, limitar como vão funcionar os significantes no processo da estruturação do sujeito através da linguagem. Ou seja, o laço com o simbólico, o qual deve ser sustentado imaginariamente pela mãe. A função simbólica do pai, castradora, é o que barra o acesso ao gozo do filho com a mãe, possibilitando-lhe, assim, a ascensão à condição de sujeito de desejo. Conforme o que diz Rassial (1997, p. 41):

De fato, para que haja metaforização paterna é preciso que, na realidade – quer seja familiar ou apenas verbal no discurso da mãe –, pai exista e que seja qualificado por um tempo de um poder de representar o Pai Simbólico, que se sabe que o único real concebível é o do Pai morto da horda primitiva. A família quer ela seja nuclear, extensa, monoparental ou substitutiva, é a condição da presença dessa metáfora, o pai, bem como os pais encarnado imaginariamente esse grande Outro ao qual se endereça o sentido da existência do sujeito.

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Freud (1923) em suas considerações sobre o Complexo de Édipo propõe que a menina gosta de considerar-se como aquilo que seu pai ama acima de tudo o mais. Já o menino encara a mãe como sua propriedade. Desta forma, sabe-se que a primeira escolha amorosa da criança é de caráter incestuoso. O incesto vem a ser impedido através da função castradora desempenhada pelo pai. A castração é responsável pela renúncia ao gozo incestuoso, permitindo que o sujeito reconheça a lei responsável por esta proibição e delineie sua relação com a sexualidade – o que repercute na condição adolescente frente a esta questão.

Em sua obra Totem e Tabu, Freud (1913-1914) fala sobre a questão da proibição do incesto apresentando o mito da horda primeva de Darwin. Na época das tribos primitivas, cada horda era representada por um chefe, um líder; este despertava nos demais integrantes um sentimento de rivalidade, por ter posse das mulheres do clã e ser detentor de todos os poderes.

Tanta submissão fez com que os integrantes do clã se unissem para reivindicar o poder e posse das mulheres desse chefe (pai), para enfim se apropriarem de tudo que era dele e assumir seu lugar. Assim, assassinaram o pai, tomados pelo ódio. A partir disso, Freud (1913, p. 145) escreve:

O violento pai primevo fora sem dúvida o temido e invejado modelo de cada um do grupo de irmãos: e, pelo ato de devorá-lo, realizavam a identificação com ele, cada um deles adquirindo uma parte de sua força. A refeição totêmica, que é talvez o mais antigo festival da humanidade, seria uma repetição, e uma comemoração desse ato memorável e criminoso, que foi o começo de tantas coisas: da organização social, das restrições morais e da religião.

Após o cumprimento do ato, é despertado nos integrantes do clã, um sentimento de ambivalência: ao mesmo tempo em que odiavam o pai, também o admiravam por ser detentor de tudo que invejavam. Com isso, conseguiam ver-se como culpados. A culpa transformou-se em remorso, os impedindo de ocupar o tão idealizado lugar do pai. Entretanto, o totem pode ser apresentado não só como uma religião que protege o homem no grupo, mas também como a lei, um substituto ao lugar do pai; uma lei que proíbe o incesto, e ao mesmo tempo representa o pai morto, ao qual todos passaram a dever respeito e obediência. A partir do assassinato, se constituiu um ato fundador, capaz de impor as regras de convivência social entre os integrantes da tribo, que passaram de súditos para irmãos. Da

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21 mesma forma, pode-se relacionar o totem como a exogamia, uma lei contra as relações sociais entre os integrantes do mesmo totem.

Pode-se intuir que o pai morto tornou-se mais poderoso do que quando estava vivo, só após o ato do assassinato que seu lugar de pai idealizado passou a ser reconhecido. Foi necessária sua morte, para assim fundar-se a lei, como se sua falta no real fosse necessária para mantê-lo vivo como o pai amado na origem. Ou seja, o que garantiu a lei foi a distância entre o pai do real e o pai morto. Para Rilho (2004, p. 205) a versão ficcional do Pai é um efeito da filiação: é um ato (ou desejo) do filho que produz o reconhecimento do lugar paterno, isto é, a versão do pai idealizado da origem. É a ficção do Pai ideal que coloca o pai no lugar do Outro, no que este tem uma função simbólica estruturante do sujeito.

Todavia, Freud (1913) salienta que criaram assim, do sentimento de culpa filial, os dois Tabus2 fundamentais do totemismo, que, por essa própria razão, corresponderam inevitavelmente aos dois desejos reprimidos do Complexo de Édipo. Ou seja, o falo desaparece tanto do lado do Outro parental, quanto do lado do sujeito; a lei totêmica proíbe esse acesso.

Através do pai totêmico, que necessitou ser morto para instaurar-se a lei, pode-se compreender o que já vinha sendo construindo em relação ao Édipo, em que para a criança o pai era visto como não castrado, sustentado pela mãe no imaginário da criança como detentor do falo. Já na adolescência esta suposição falha, pois a ideia de que o pai sabia sobre o gozo da mãe e teria o falo é uma suposição própria da criança. O adolescente percebe que esse pai é mortal no real, encontrando-se num impasse entre o pai ideal e o pai morto da infância.

O adolescente se decepciona com o pai a partir de uma promessa que não se concretizou, quer dizer, ele não recebeu o falo do pai, e consequentemente não pode se reafirmar numa sexuação feminina ou masculina. Desta forma, é na adolescência que o sujeito é convocado a confirmar essa identidade sexual que foi assumida de forma antecipatória na infância, através da busca do parceiro do outro sexo, juntamente com a busca por reconhecimento de seus pares.

2O Tabu, por um lado, significa “sagrado”, “consagrado”, e por outro, “misterioso”, “perigoso”,

“proibido”, “impuro”. “Tabu”, traz em si um sentido de algo inabordável, expresso em proibições e restrições. A concepção de “temor sagrado” muitas vezes pode coincidir em significado com “tabu”. As restrições do tabu, se impõe por sua própria conta (FREUD, 1913-1914, p. 37).

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O pai do adolescente não encontra-se mais presente no real, nem em sua representação imaginária, mas o adolescente é sustentado por este de forma simbólica, sustentado pelo Nome-do-pai. Nome no sentido de lugar e Pai possibilitando-o condições de sustentar-se no social, através de sua inscrição simbólica. É através da função do pai que se funda a cultura e que dá ao sujeito sua condição de desejante.

Na adolescência, a função do pai é de colocar o adolescente frente à lei, autorizando-o simbolicamente a ressignificar seu lugar de eu na cadeia de significantes. Não somente o lugar que vinha ocupando de filho ou filha, mas ir em busca de referência no campo do Outro, pois é este que dá suporte a sua ruptura do familiar ao social. E os pais? Estes já não ocupam mais o lugar de saber. A partir desta condição o adolescente encontra-se em conflito com si mesmo e com seus pais. Questiona-se, “sem direção” e sem poder mais se sustentar no saber que um dia estava suposto nos pais. Neste momento os pais são aqueles que “não os entendem mais”, não correspondem ao que lhes é demandado pelos filhos.

Esse desprendimento dos pais deve-se a entrada para o campo do social, fazendo com que o próprio adolescente busque condições para se sustentar em uma posição de desejante. Portanto, o retorno ao Édipo que o adolescente passa, é para este reorganizar os lugares parentais e agora do Outro, para que possa construir um lugar e um nome próprio, operando por si mesmo.

Para se apropriar de seus desejos o adolescente precisa fazer uma modificação de valor e função de seu sintoma, que para Lacan, seria signo3. Ao

invés de seguir o que está no desejo dos pais, este necessita tornar-se proprietário de seu próprio sintoma.

Desta forma, é o meio social que dá a base para o adolescente encontrar-se com o objeto, tomando a partir disso, uma posição subjetiva.

O adolescente não segue mais o que dita o desejo de seus pais, pois estes são elevados a uma desqualificação, quando garantem o gozo para mais tarde e este revela-se inexistente, não garantindo relações sexuais. O gozo genital é parcial e o mais tarde prometido, está reenviado à morte. Assim, com efeito da modificação

3O signo faz parte de um sistema de valores. O valor se mede com sua relação com todos os outros

signos, resultando negativamente da presença simultânea deles na língua, que é concebida como a totalidade sincrônica de todos os signos que nela se encontram. A significação se deduz da ligação que existe entre um significante e um significado (ROUDINESCO, 1998, p. 709).

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23 e valor do sintoma, o adolescente busca no Outro do Outro sexo uma nova encarnação imaginária.

A desqualificação em que os pais são elevados faz com que o adolescente busque substituir a família pelo campo do social, podendo encontrar novos significantes na igreja, na escola, ou em outros grupos que remetam à lógica familiar. Mesmo que o adolescente busque seus ideais fora da família, seus novos projetos estarão sempre referenciados aos ideais paternos, substituídos por outras pessoas do social, atribuindo-lhes qualidades que o remetem ao pai enaltecido da infância. Assim, o adolescente vai se constituindo como sujeito, buscando autorizar-se através de sua inautorizar-serção no social, começando a trabalhar, por exemplo. Ato que trataria para si uma identidade, um lugar no laço social.

Entretanto, esse momento de falência dos pais em que o adolescente se encontra gera dificuldades. A principal delas seria a validação da operação Nome-do-pai, quando o sujeito é chamado a se posicionar no social, indo em busca de novas identificações que sustentem a metáfora paterna, não tendo mais o apoio que encontrava na família. Como prova de que o Nome-do-pai teve efeito seria a possível relação do adolescente com o Outro sexo. Em relação a tais considerações Rassial (1997, p. 102) explica:

(...) a desqualificação dos pais em construir o modelo adulto, a decepção frente à promessa edípica que se revela enganadora e por isso mesmo, face a todos os discursos antigos, a saída do lar familiar em direção ao laço social exigem uma nova construção identificatória.

A relação do sujeito com o pai é o que funda o laço social e a cultura. A partir da metáfora paterna, e assim, da inscrição do falo, é que o adolescente terá outras possibilidades de metaforizações. Deste modo, Rassial (1997, p. 54) ressalta: “O adolescente, no mais vivo da aposta da psicanálise, é aquele que deve aprender a dispensar o pai para poder servir-se dos Nomes-do-pai, os quais vão ser para ele pensados, doravante, no plural de suas escolhas de vida”.

Rassial (1997) destaca, ainda, que os Nomes-do-pai no plural irão ter de funcionar, ligando a língua ao discurso, estendendo o fálico ao genital, orientando a relação ao semelhante do Outro sexo, além da metáfora paterna. Deste modo, para se apropriar de novas metáforas, o adolescente reorganiza sua identidade, a partir

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da marca da primeira inscrição, marca esta, que trouxe para o sujeito a ordem do desejo como tal.

Para o adolescente, é como se sua falta fosse compensada em um social que lhe diz ser possível o gozo que ele busca, podendo também, através deste, punir um pai que se mostrou em falta – o social surge como promessa de completude.

A partir dessa concepção de inserção no social, o que vem dos pais e adultos poderá ser contestado pelo adolescente. A fala que a criança estava alienada no discurso materno, já foi barrada pela lei edípica, perdendo assim seu valor, restando para o adolescente uma língua outra, novos significantes. Rilho (2004, p. 179) entende que cada um precisa de um lugar singular, para se inserir nas formas de representação social que tem. Que alguém escolha tatuar-se, ou mesmo escrever um diário, essas escolhas vão inserir-se em formas diferentes de se fazer circular em relação ao olhar do Outro.

O adolescente passa a encarar a leitura e a escrita de outro modo, mudam de valor, recebendo outro significado para este. Os personagens em que se deparam podem ser investidos como figuras ideais, em que o adolescente passa a se identificar, ou até mesmo projetar seus próprios desejos.

Com efeito, a adolescência é o momento de uma tripla investida, do supereu, do ideal do eu e do eu ideal, tal como estavam construídos na infância, orientada pelo Édipo. Ora, uma das dimensões da escrita – é a que nós abordaremos sem que seja preciso negligenciar as outras dimensões, estilística, poética etc. –, é de propor personagens, narrativas sobre as quais o leitor poderá, ao mesmo tempo, projetar-se e sustentar suas identificações (RASSIAL, 1997, p. 98).

O adolescente passa a transformar sua identidade, seus ideais e o mundo infantil. O mundo da infância, juntamente com o Complexo de Édipo, traz como herança o supereu parental, aquele proibidor. Este é ao mesmo tempo consolador, pois, ao mesmo tempo que interdita, promete que ao respeitar essa proibição haverá gozo mais tarde. Já o supereu coletivo vem para completar tais proibições, não prometendo nada de diferente. A grande diferença que marca tais conceitos é que o supereu parental assegurava uma proteção e o coletivo exige do adolescente uma inserção. O supereu que é de origem parental é enunciado pelo discurso-do-pai e o supereu coletivo – enunciado pelo discurso-do-mestre – funda o laço social.

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25 Rilho (2004, p. 185) em relação ao superego, aborda:

Freud propõe a condição de superego como uma consciência moral, como estando no lugar de terceiro. Ele também propõe que nesse lugar colocam-se duas referências: a proibição, mas ao mesmo tempo os ideais. O lugar de terceiro, na construção freudiana, é essa interrelação entre supereu e ideal de eu. Aí que Freud vai fundamentar a passagem à cultura: como a transposição do lugar dos pais para os professores, para outras figuras de autoridade, e para as produções culturais.

Nessa perspectiva, a procura do adolescente por completude no laço social se dá por não poder mais contar com a consistência ao ideal do eu que os adultos do mesmo sexo, tantos os reais quanto os ideais, os proporcionavam na infância. Agora o adolescente consegue perceber que estes também têm incertezas e são feitos da mesma matéria. O lugar que seria dos pais, que agora foram desqualificados, está vago para um novo objeto de amor, sendo nesse lugar ideal que o supereu se positiva.

O ideal do eu que na infância projetava nos pais seres heroicos, trouxe com a adolescência, a mudança destes heróis para pessoas solitárias, sem lugar. Assim, o adolescente se utiliza da escrita para construir esses lugares, reconstruindo o lugar do referente. Ou seja, a escrita passa a se dirigir ao laço social.

Além da construção de novos lugares, o direcionamento do adolescente ao campo do social se dá pela falta de reconhecimento que o adolescente esperava dos adultos. Não tendo esta, vai à busca de novas condições sociais, sendo uma delas o grupo social. No grupo o adolescente exclui os adultos, buscando o reconhecimento entre os pares.

Por outro lado, o grupo de adolescentes vai ser o lugar de experimentar a apropriação de um saber, porém, um saber exclusivamente compartilhado pelo grupo de pares, deixando os adultos do lado de fora. Trata-se aí do exercício de uma comunidade de código, de língua, de jeito ser e vestir, de um saber em comum (RILHO, 2004, p. 215).

A inserção do adolescente nos grupos sociais traz para este a prospecção de que a autorização esperada dos pais para fazerem parte da “comunidade” é alcançada de forma mais instantânea, rápida. Eles supõem encontrar desta forma o que os adultos pediam para que deixassem pra mais tarde. Esta privação vinda dos adultos é o que os impulsiona à formação de grupos, por existir algo em comum

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entre os membros, e logo, sendo reconhecidos como iguais. A semelhança entre os pares encontrada nos grupos leva ao caminho da uniformidade, às vezes sendo até exigida para fazer parte do grupo. A uniformidade pode ser encontrada nas roupas, em tatuagens que demonstram um traço em comum entre o grupo. Erikson (1976, p. 184) ressalta que com a uniformidade uma completa incerteza pessoal pode, por algum tempo, esconder-se numa certeza grupal.

Pelas colocações anteriores, percebe-se que o adolescente, através da formação de grupos, busca suprir a sua ausência de posição na organização social. A resposta dos adultos para sua admissão no social, não é encontrada, restando ao adolescente se impor violentamente em relação a esta rejeição. Ou seja, o não reconhecimento almejado pelo adolescente dentro do social, o lança para a busca de um reconhecimento fora do campo social, ou até mesmo contra ele.

As ações delinquentes que vêm sendo percebidas entre os adolescentes trazem consigo a ilusão de que assim este alcançará um status de independência e destaque dentro do campo social, pois desse modo ele está indo contra as leis de convivência social. Rassial (1999, p. 63) afirma:

O delinquente, quer esteja ou não integrado a um bando, e o próprio bando delinquente são figuras inventivas, ativas, cuja dinâmica é a de uma mudança de lugar, pois o adolescente – delinquente ou não – está sempre numa tal mudança estrutural que as instâncias sociais não simbolizam, ou simbolizam mal. Como assinala Winnicott, o ato delinquente deve ser concebido como sintoma, em sua positividade: é ainda um apelo, até mesmo uma interpelação à sociedade.

Os atos delinquentes podem ser observados como tentativas de participação no campo social, a partir da situação de não-lugar em que o adolescente se encontra, justamente em uma sociedade que preza pela liberdade, autonomia. Ao dispensarem a tutela de seus pais, encontram na rebeldia uma referência de ideal cultural, ou seja, algo que vai contra ao que os adultos ditam como lei.

O Nome-do-pai é uma metáfora, um significante que substitui outro significante, e os atos delinquentes são como as outras metáforas que vem ocupar este lugar paterno. Ou seja, a lei simbólica, que antes era exercida pela função paterna, acaba por se deslocar para outras instâncias do campo do social.

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27 A função Nome-do-pai para o adolescente se dá a partir de uma busca para reorientar seu desejo. Isso se dá no momento em que o sujeito deixa de querer ser o pai para ter a mãe, encontrando um significante Nome-do-pai que faça essa substituição, uma substituição simbólica. Retomando ao que afirma Rassial (1997) o adolescente passa a dispensar o pai, para poder servir-se dos Nomes-do-pai. Neste ponto, percebe-se que o adolescente revive antigos conflitos da infância. Entra em questão: quais serão os caminhos que a cultura oferece para os jovens superarem as forças que os atraem para regressões da sua infância e também buscarem processos que os motivem para construir seu futuro?

Em relação a estas escolhas em que o adolescente é lançado a buscar no meio social, reflete-se: para fazer parte do social, o adolescente precisa encontrar Nomes-do-pai que tem função de orientar seu desejo e isso ele sabe que só encontrará na cultura. Mas afinal, com qual cultura ele se depara hoje?

Neste momento, considera-se que a cultura é organizada em dois tempos, o tempo da instalação da justiça e o tempo de seu efeito de coerção. Tempos que podem ser encontrados no “Mito da horda primitiva”, fundador das organizações sociais. Dado que num primeiro momento do mito ocorre o assassinato real do pai da horda, e no segundo tempo dá-se a entrada do supereu, quando se estabelece a culpa coletiva pela internalização dos impulsos agressivos, e assim o retorno do pai em forma de Lei torna-se se responsável pela organização social.

Através do “Mito da horda primitiva” pode-se compreender que a cultura se dá a partir do assassinato do pai, e o laço social se configura decorrente de suas restaurações históricas. A lei moral que vem como ideal do eu coletivo, é o retorno do recalcado da morte primitiva do pai. E é justamente a referência a este ideal que constitui a cultura e o laço social, legitimando simbolicamente a autoridade paterna.

Deste modo, para compreender a adolescência é preciso pensá-la em seu contexto, isto é, o cenário em que os jovens encontram-se inseridos. O sujeito moderno está inserido em uma cultura concebida como individual, diferentemente das culturas que antes eram integrantes de um todo. Isto é, o sujeito está desamparado, fazendo parte de uma cultura que preza pela liberdade e autonomia.

Assim, para ser independente o sujeito tem de ignorar tudo que lhe garantiu um lugar no social, desde a educação, os valores transmitidos pelos pais, a sua tradição, mas principalmente, abandonar a referência a este ideal paterno que antes vinha organizando suas relações sociais. O social, da forma que hoje vem se

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estabelecendo, retira do pai a sua função de autoridade, diferentemente de como se encontrava na família tradicional. É como se a família originária precisasse morrer para advir uma nova família: a sociedade.

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CONCLUSÃO

Ao concluir este trabalho retrocede-se ao tema que motivou a pesquisa: “A adolescência e o laço social”. Através deste, procurou-se abordar a questão da passagem adolescente e, com isso, o efeito desta reorganização que o sujeito vivencia.

Este processo de passagem implica para o adolescente a construção de um novo lugar no social, uma nova posição discursiva, para que possa falar em nome próprio, seguindo seus próprios desejos. Esta construção se dá em resposta ao conflito interno que o adolescente vive em relação à comparação entre os pais idealizados da sua infância e os pais reconhecidos nesta fase como reais, ou seja, os pais da realidade não dão mais conta de sustentar a encarnação dos pais da infância, passam de pais idealizados para sujeitos comuns, que também possuem conflitos, limites e, assim, restando ao adolescente, à busca por substituir o referencial familiar, por novas referências no Outro social.

Em decorrência desta elaboração pode-se perceber que a adolescência é um momento de trabalho psíquico, em que o sujeito necessita dar conta da demanda social que lhe convida a responder de uma posição adulta, tornando-se responsável pelos seus atos. Neste momento, o jovem, de um lado deseja conquistar sua autonomia, buscando uma identidade que o diferencie dos demais, como também, diferenciar-se de seus pais, mas por outro lado, e de forma contraditória, sente-se inseguro para viver sem o apoio familiar.

Nesse sentido, pode-se afirmar que a passagem que o adolescente faz do campo familiar ao campo do social, é o que permite que este se desprenda dos pais, sendo este processo que impulsiona o sujeito a ter condições de se expressar e seguir seus desejos, ao mesmo tempo, sem precisar romper totalmente com os

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laços familiares. Ao lançar-se no social este encontra possibilidades de encontro com o coletivo, tendo como referência, neste momento, as figuras grupais, as quais influenciam a representação no sujeito no mundo.

Chegando a conclusão deste trabalho, pode-se dizer que a partir das leituras e reflexões desenvolvidas sobre o tema, foi possível compreender um pouco mais do relacionamento adolescente, assim como suas angústias, crises, como também, sua relação com a família, com o social e tudo que permeia sua constituição. Entende-se, que tal trabalho traz uma boa contribuição para quem deseja entender um pouco do que ocorre na passagem adolescente. Tendo conhecimento de que este não é um fechamento, pois o tema desenvolvido abre um vasto caminho para diferentes colaborações e reflexões.

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ANEXO A – Normas Atualizadas da ABNT

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Referências

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