GRANDE DO SUL
MARJANA DAVID MARTINS
EUTANÁSIA E DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA: CONTORNOS JURÍDICOS - MORAIS
Três Passos (RS) 2014
MARJANA DAVID MARTINS
EUTANÁSIA E DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA: CONTORNOS JURÍDICOS -MORAIS
Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC.
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DECJS- Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientador: Dr. Doglas Cesar Lucas
Três Passos (RS) 2014
Dedico este trabalho à minha família, pelo incentivo, apoio e confiança em mim depositados durante toda a minha jornada.
AGRADECIMENTOS
A Deus por me iluminar e me proporcionar esta oportunidade.
Aos meus pais Gelson e Cleoci, que sempre estiveram presentes e me incentivaram com apoio e confiança em todos os obstáculos da vida, e com isso aprendi que é através dos desafios que adquirimos o aprendizado e assim a evolução pessoal.
Aos meus irmãos Pablo e Gelson, que apesar da distância sempre penso em vocês e agradeço por sempre me incentivar a buscar e materializar os meus sonhos.
Ao meu orientador Doglas Cesar Lucas, por quem eu tive o privilégio de ser orientada e contar com sua dedicação e disponibilidade, me guiando pelos caminhos do conhecimento.
Aos meus amigos que entenderam o meu afastamento e deste modo colaboraram para que eu tivesse persistência para concluir este trabalho.
“O homem, quando virtuoso, é o mais excelente dos animais, mas, separado da lei e da justiça, é o pior de todos.”
RESUMO
O presente trabalho de conclusão de curso faz uma análise sobre a prática da Eutanásia na Constituição Federal frente ao princípio da dignidade da pessoa humana, a liberdade e o direito à vida. Analisa a etimologia da palavra e sua evolução dentro do âmbito histórico, bem como, as modalidades de eutanásia e suas distinções. Aborda os avanços científicos estudados para a solução de conflitos morais impostos pela sociedade como é o caso da bioética e desse modo o biodireito que estuda as normas jurídicas e assim busca disciplinar essas relações com ética e respeito perante a humanidade. Estuda as posições doutrinárias brasileiras sobre o tema, com uma breve análise de doutrinadores penalistas e civilistas, mas, sem fugir do tema proposto que é relacionada à Constituição Federal. Finaliza com os diferentes olhares sobre a eutanásia relacionada aos países que legalizaram alguma conduta e, por fim, as religiões sobre o que elas pensam e orientam referente à prática da Eutanásia.
Palavras-Chave: Eutanásia. Dignidade da Pessoa Humana. Princípios Fundamentais. Constituição Federal.
ABSTRACT
The present study of completion of coursework makes an analysis of the practice of euthanasia in the Federal Constitution against the principle of human dignity, freedom and the right to life. Examines the etymology of the word and its evolution within the historical context as well the methods of euthanasia and its distinctions. Discusses scientific advances studied for solving moral conflicts imposed by society such as bioethics and also biolaw who studies the legal framework and thus disciplinary search these relationships with ethics and respect towards humanity. Studying Brazilian doctrinal positions on the topic, with a brief analysis of criminalists and civilists scholars, but without losing sight of the issue that is related to the proposed Federal Constitution. Finally, ends with different perspectives on euthanasia related to the countries that have legalized some conduct and eventually religions about what they think regarding the practice of euthanasia.
Keywords: Euthanasia. Dignity of the Human Person. Fundamental principles. Federal constitution.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 09
1 ELEMENTOS CONCEITUAIS E HISTÓRICOS DA EUTANÁSIA ... 11
1.1 Etimologia da palavra eutanásia ... 11
1.2 Evolução histórica ... 13
1.3 Bioética e biodireito ... 14
1.3.1 Princípios da Bioética ... 14
1.4 Modalidades de eutanásia e suas distinções...19
2 A EUTANÁSIA E O ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO ... 24
2.1 Liberdade e direito à vida na Constituição ... 24
2.2 Dignidade da pessoa humana e morte digna ... 26
2.3 Posições doutrinárias brasileiras sobre o tema ... 30
3 DIFERENTES OLHARES SOBRE A EUTANÁSIA ... 35
3.1 Países que legalizaram a Eutanásia...35
3.1.1 Casos verídicos de modalidades de Eutanásia...40
3.2 O que as religiões pensam em relação a prática da Eutanásia...42
CONCLUSÃO ... 46
INTRODUÇÃO
O presente trabalho visa estudar a concepção da Eutanásia e suas diversas modalidades, partindo para o entendimento do ordenamento jurídico se é admitida a prática da eutanásia no país, de acordo com análise do que prevê a Constituição Federal. Acredita-se na existência de passagens que admitem a prática da Eutanásia, ou seja, demonstra a liberdade que possuímos de nos expressar e pensar principalmente frente a decisões particulares e íntimas de cada ser humano. Desse modo, haverá breve análise dos princípios constitucionais que revelam a proteção da dignidade da pessoa humana e se isto é relevante no momento de decisões tão difíceis ao tratar da morte.
Para a realização deste trabalho foram efetuadas pesquisas bibliográficas por meio físico e eletrônico, análises a doutrinas referentes à legislação constitucional. Estudo de casos concretos de pessoas com doenças terminais que buscaram a antecipação da morte. Buscando elementos para fins de obter uma visão crítica ao aprofundamento do tema.
De início abordaremos a conceituação da palavra Eutanásia (eu + thanatos) que possui o significado de boa morte ou morte sem dor. Através da definição originária do termo, será apresentada sua prática desde os períodos mais remotos até os dias de hoje com a constante evolução das ciências biológicas e morais aplicadas pelo Biodireito e a Bioética, utilizadas para pôr fim nas discussões polêmicas sobre a vida e a morte, bem como, é importante para o bem da humanidade.
No segundo capítulo é analisada a prática da Eutanásia frente ao ordenamento jurídico constitucional do país. Partindo da premissa de que a Constituição Federal garante inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.
Deixando brechas pela possibilidade de o paciente ter a sua autonomia de decisão, por compreender o direito a vida e a dignidade da pessoa humana.
E, por fim no terceiro capítulo é possível verificar o que as religiões pensam em relação à prática da Eutanásia, permitindo a análise das seguintes religiões: o Cristianismo, o Judaísmo, o Islamismo, o Budismo, o Hinduísmo e as testemunhas de Jeová. Estas que são as mais citadas pelos doutrinadores como é o caso do autor Ronald Dworkin, que possibilitou a ampliação desse trabalho. Neste sentido, foi possível a análise dos países que legalizaram o suicídio assistido diferenciando sua aplicabilidade penal em cada país, reconhecida como uma modalidade de Eutanásia.
Assim, a partir deste estudo podemos ter uma convicção sobre o tema, de sua real importância e conhecimento para melhor entendermos as ocorrências em nossas vidas.
1 ELEMENTOS CONCEITUAIS E HISTÓRICOS DA EUTANÁSIA
Neste primeiro capítulo será apresentada a parte introdutória do tema para que se tenha uma melhor compreensão, conhecimento e uma visão crítica da conduta da Eutanásia e suas outras modalidades. Iniciaremos a partir da origem do termo e seu significado histórico, através de diversas gerações ao longo dos tempos.
No âmbito das ciências biológicas, adentraremos no assunto da Bioética e Biodireito, que consistem na evolução da medicina científica para o bem comum da humanidade. E por último será apresentada a distinção das diferentes modalidades da Eutanásia, que são classificadas em: distanásia, ortotanásia, suicídio assistido, bem como a diferença ente a Eutanásia ativa e a passiva.
1.1 Etimologia da palavra eutanásia
A palavra eutanásia é de origem grega (eu + thanatos) e possui como significado, boa morte ou morte sem dor. A prática da Eutanásia é usada pelo princípio que defende o direito do doente incurável de pôr fim à vida quando alguém estiver passando por sofrimentos físicos ou psíquicos.
É uma forma de interromper a vida, com o intuito de diminuir o sofrimento do paciente e dos familiares. Podem ser distinguidos entre a eutanásia direta, positiva e ativa onde são utilizados meios letais, como por exemplo a injeção letal e uso de medicamentos em dose excessiva. A eutanásia indireta, passiva e negativa ocorre com a morte do doente quando há falta de recursos necessários para manter-se vivo, pode ocorrer por falta de água, alimentos, fármacos ou cuidados médicos.
Neste sentido, Hubert Lepargneur (1999, p. 02), procura o significado do termo, eutanásia, conforme cita:
[...] o adiantamento de um óbito que o sujeito deseja em razão de sofrimentos que suas convicções e sensibilidade não conseguem aguentar e/ou valorizar. [...] o termo eutanásia visa a situação em que o interessado quer livremente morrer, mas não consegue realizar seu desejo amadurecido, por motivos físicos.
Maria Fátima Freire de Sá (2005, p. 39) conceitua a eutanásia do seguinte modo:
É aquele ato virtude do qual uma pessoa dá a morte a outra, enferma e parecendo incurável, ou a seres acidentados que padecem dores cruéis, a seu rogo requerimento e sob impulsos de exacerbado sentimento de piedade e humanidade.
Neste sentido, a obra de Roxana Cardoso Brasileiro Borges (2007, p. 238) busca conceituar o termo Eutanásia como:
A eutanásia verdadeira é a morte provocada em paciente vítima de forte sofrimento e doença incurável. Se a doença não for incurável, afasta-se a eutanásia (que, diante do Código Penal, poderá ser considerada homicídio privilegiado) e se cai na hipótese de homicídio simples ou qualificado, dependendo do caso. Quando se busca simplesmente causar a morte, sem a motivação humanística, não se pode falar em eutanásia.
Conforme Luciano de Freitas Santoro (2010, p. 118) afirma e classifica a eutanásia na sua forma ativa ou passiva:
A eutanásia ativa será aquela em que o evento morte é resultado de uma ação direta do médico ou de interposta pessoa, como, por exemplo, o ato de ministrar doses letais de drogas ao paciente. A eutanásia passiva, ao contrário, é uma conduta omissiva, em que há a supressão ou interrupção dos cuidados médicos que oferecem um suporte indispensável à manutenção vital.
No âmbito da bioética a eutanásia é “ato médico que tem como finalidade eliminar a dor e a indignidade na doença crônica e no morrer eliminando o portador da dor.” (MARTIN, 2004, p. 201).
O Professor Hélio Gomes (1969, p. 220, grifo nosso) nos traz conceitos de vários autores, em sua obra Medicina Legal, quais sejam:
MORSELLI: É aquela morte que alguém dá a outrem que sofre de uma enfermidade incurável, a seu próprio requerimento, para abreviar agonia muito grande e dolorosa.
PINAM: o ato pelo qual uma pessoa põe termo à vida da outra, que sofre de enfermidade incurável ou então a aleijados padecendo dores cruéis, atendendo às suas solicitações reiteradas, levada puramente pelo espírito de piedade e humanidade.
Nesta última citação o autor não traz uma definição desta prática, apenas refere-se ao “direito conferido a uma equipe de médicos de dar a morte suave aos doentes que sofrem de
dores e possuem doença incurável e assim desejam e solicitam esta prática.” (GOMES, 1969, p. 234).
Entende-se que a prática da eutanásia é aquela que provoca a morte visando livrar o adoentado que está para morrer de uma condição insuportável, ou seja, pessoas que se encontram em situações de sofrimento intolerável ou em situação de indignidade e de desamparo extremo provocado pela doença.
Flamínio Favero (ano 1980, p. 283) conceitua Eutanásia da seguinte maneira:
É a morte doce e tranquila, sem dores físicas nem torturas morais, que pode sobrevir de um modo natural nas idades mais avançadas da vida, surgir de modo sobrenatural como graça divina, ser sugerida por uma exaltação das virtudes estóicas, ou ser provocada artificialmente, já por motivos eugênicos, ou com fins terapêuticos, para suprimir ou abreviar uma inevitável, larga e dolorosa agonia, mas sempre com prévio consentimento do paciente ou prévia regulamentação legal.
Os conceitos são os mais diversos, e acabam direcionando para diferentes tipos de atuação da prática da eutanásia, as quais se aproximam do conceito de suicídio, de suicídio assistido, e até homicídio por piedade.
Há outras espécies de Eutanásia quais sejam: Ortotanásia, distanásia e auxílio ao suicídio ou suicídio assistido, métodos esses que serão apresentados de forma individual com suas diversidades (no item 1.4 deste capítulo).
1.2 Evolução histórica
Desde os primórdios temos o conhecimento de que a vida é passageira e que a doença quando incurável ocasiona dor e sofrimento, razão pela qual muitos desejam antecipar a morte, acreditando ser um processo menos doloroso. Neste sentido, pode-se afirmar que sempre houve em todas as civilizações a prática de abreviar a morte, principalmente daqueles que possuíam doenças em fase terminal e até mesmo deficiências. Essa conduta é conhecida como eutanásia.
Os celtas tinham por hábito que os filhos matassem os seus pais quando estes estivessem velhos e doentes. Na Índia os doentes incuráveis eram levados até a beira do rio Ganges, onde tinham as suas narinas e a boca obstruídas com o barro. Uma vez feito isto eram atirados ao rio para morrerem. Na própria Bíblia tem uma situação que evoca a eutanásia, no segundo livro de Samuel.
Havia nos tempos pré-históricos, médicos que apressavam a morte, conforme o costume daquela época. Na antiguidade greco-romana, existia a possibilidade de os pacientes terminais porem fim às suas vidas e podendo existir o auxílio ao suicídio.
Neste sentido, Goldim (2004, p. 01), continua:
No período medieval, os guerreiros feridos em combates eram sacrificados, através de um ato de "misericórdia", ou seja, utilizavam golpes de punhais introduzindo na articulação, abreviando o sofrimento. Na Europa, devido à miséria e as péssimas condições higiênicas existentes, houve grandes epidemias, bem como, o surgimento da Peste Negra, logo, com a disseminação da doença, houve muito a prática da eutanásia, nos adoentados que agonizavam.
Na visão da religiosidade a eutanásia surgiu desde a antiguidade, no entanto o ato passou a ser condenado a partir do surgimento do judaísmo e cristianismo, baseado no princípio de que a vida é sagrada. Já no Direito moderno, a prática da Eutanásia tornou-se um ato considerado como crime e punível conforme a legislação brasileira.
1.3 Bioética e biodireito
A Bioética surgiu nas últimas décadas devido aos grandes avanços tecnológicos da medicina e da Biologia, e o surgimento dos problemas éticos advindos das descobertas e a aplicação da ciência no cotidiano, bem como, no campo da engenharia genética, trazendo vasto poder de intervenção sobre a vida e a natureza.
Através do progresso científico e suas aplicações provocaram o surgimento de diversas discussões entre relações sociais e jurídicas, que envolvem crenças religiosas, culturais e políticas. As questões éticas estudadas pelas ciências biológicas tratam, assim, das interrogações feitas pela sociedade diante dos novos conhecimentos, e também, em cada individuo.
Na visão de Dalmo de Abreu Dallari (2005, p. 03, grifo nosso), sobre o valor ético, diz:
[...] independentemente de crenças religiosas ou de convicções filosóficas ou políticas, a vida é um valor ético. Na convivência necessária com outros seres humanos cada pessoa é condicionada por esse valor e pelo dever de respeitá-lo, tenha ou não consciência do mesmo. A par disso, é oportuno lembrar que tanto a Declaração Universal dos Direitos Humanos, editada pela ONU em 1948, quanto os Pactos de Direitos Humanos que ela aprovou em 1966 proclamam a existência de uma dignidade essencial e intrínseca, inerente à condição humana. Portanto, a vida humana é mais do que a simples sobrevivência física, é a vida com dignidade, sendo esse o alcance da exigência ética de respeito à vida [...]
A bioética trata dos avanços tecnológicos da medicina, utilizada no nascimento e na morte do ser humano. É uma ética aplicada, a qual busca solucionar conflitos e controvérsias morais, ocasionadas na prática do âmbito das ciências da vida e da saúde.
É conhecida como ética prática, no entanto, envolve opiniões polêmicas no mundo inteiro. Possui importante papel em relação à aplicação da ética e da moral ligada à Eutanásia, assunto que interfere no princípio da dignidade da pessoa humana.
Com base nos princípios éticos relacionados ao âmbito da saúde podemos observar e encontrar o sigilo profissional, o respeito à dignidade da vida humana, o aperfeiçoamento dos conhecimentos tecnológicos da ciência para o eficaz tratamento de doenças incuráveis propiciando atendimentos mais humanizados.
É neste sentido, que a bioética tem papel fundamental para terminar com as polêmicas e os pensamentos divergentes sobre a eutanásia, para que sejam discutidas as necessidades de adaptação, dilação ou restrição da legislação brasileira.
Segundo Vicente de Paulo Barreto (2005, p. 05) em Bioética, Biodireito e Direitos Humanos, cita:
[...] que a bioética e o biodireito, não possam ficar prisioneiros da teorização abstrata ou do voluntarismo legislativo, pois ambos são chamados a responder à indagações práticas e imediatas, que nascem de relações sociais, econômicas, políticas e culturais características da civilização atual.
ao âmbito jurídico, podendo ser definido, como o ramo do Direito que trata da teoria, da legislação e da jurisprudência relativas às normas reguladoras da conduta humana em face dos avanços da Biologia, da Biotecnologia e da Medicina.
É uma área que gera diversas abordagens, como por exemplo, assuntos polêmicos como manipulação de embriões, as células tronco, aborto de bebês anencéfalos, transplante de órgãos e tecidos humanos, clonagem, técnicas de alteração de sexo, técnicas de reprodução assistida, bem como a eutanásia.
Assim, descreve o professor Vicente de Paulo Barretto (2005, p. 11):
Encontramo-nos, assim, diante do problema nuclear do pensamento social, qual seja, o da convivência de duas ordens normativas - a moral e o direito - diferenciadas entre si, mas que mantêm um caráter de complementaridade, que impeça, parafraseando Kant, o vazio da bioética sem o biodireito e a cegueira do biodireito sem a bioética.
Por fim, breve conceito, segundo a visão de André Mendes Espírito Santo (2006, p. 08):
É preciso cultivar uma sabedoria que se adapte a contextos pluralistas. O direito necessita entender que tanto a bioética quanto o biodireito representam uma ponte para o futuro e devem ser vistos como pontes de diálogo multicultural e multidisciplinar para que se possa recuperar a tradição humanista e o respeito pela dignidade do homem e desfrutar a vida como conquista, solidária e honradamente. Eis mais um dos desafios dos direitos humanos.
O biodireito trata de um conjunto de normas jurídicas destinadas a disciplinar essas relações, para que exista uma ética onde se tornem legítimas as práticas da ciência e que sejam respeitadas perante a humanidade.
1.3.1 Princípios da Bioética
A visão que a sociedade possui da bioética é de que exista disciplina ética no trabalho de investigação científica e da efetiva aplicação dos seus resultados, protegendo a biologia da ameaça da perda da essência humana, ou seja, a desumanização.
A partir do início da década de 1950, a rapidez e a complexidade das novas descobertas biológicas levantaram indagações morais, que procuraram resposta na formulação de princípios éticos.
O progresso do conhecimento científico, no âmbito do desconhecimento objetivo sobre os resultados da utilização das tecnologias, gerou regras bioéticas ou deontológicas, nas quais se encontram fundamentadas nos princípios da bioética.
A falta de princípios normativos tornou mais evidente a insuficiência da ética médica em lidar com as novas descobertas e as exigências impostas pela sociedade, de utilizarem meios que tornem públicas e transparentes as pesquisas e também na prática médica, fazendo com que aumentassem as necessidades de criar princípios, que, deveriam visar, “eticamente o desenvolvimento da investigação científica e suas aplicações práticas.” (BARRETO, 2005, p. 06).
Os princípios da bioética foram formulados, no ano de 1978, quando a "Comissão norte-americana para a proteção da pessoa humana na pesquisa biomédica e comportamental, apresentou o chamado Relatório Belmont.” (BARRETO,2005, p. 14).
Neste relatório havia a resposta das exigências feitas pela comunidade cientifica e da sociedade para que fixassem princípios éticos a serem obedecidos durante o desenvolvimento das pesquisas e sua aplicação perante a sociedade.
Desta forma ocorreu o estabelecimento dos três princípios norteadores e fundamentais da bioética, quais sejam: o princípio da beneficência; o princípio da autonomia; e o princípio da justiça.
Barreto (2005, p. 14) em seu artigo procura conceituar os princípios, conforme diz:
O princípio da beneficência deita suas raízes no reconhecimento do valor moral do outro, considerando-se que maximizar o bem do outro, supõe diminuir o mal; o princípio da autonomia estabelece a ligação com o valor mais abrangente da dignidade da pessoa humana, representando a afirmação moral de que a liberdade de cada ser humano deve ser resguardada; o princípio da justiça ou da equidade estabelece, por fim, que a norma reguladora deve procurar corrigir, tendo em vista o corpo-objeto do agente moral, a determinação estrita do texto legal.
Os três princípios correspondem a evolução da bioética, e assim consequentemente com a do biodireito, desde a relação entre médico e paciente, e, o momento e a perspectiva da saúde do indivíduo na sua dimensão geral frente a sociedade e a política.
Conforme exposto no texto de Barreto (2005, p. 14, grifo nosso):
[...] a aplicação dos princípios, por sua vez, leva às situações conflitantes, entre si, a partir da constatação de que tomados, separadamente, cada um deles pode ser considerado como superior ao outro. Logo, logicamente, a sua aplicação não pode ser feita de maneira conjunta e não diferenciada, pois implicaria num processo de paralisação mútua do processo decisório. [...] O que se encontra por detrás da aplicação mecânica desses princípios, como se fosse possível a sua aplicação conjunta, é a tentativa de justificar-se a hegemonia de uma das três dimensões da saúde na sociedade contemporânea, o paciente, o médico e a sociedade. Os três princípios somente adquirem sentido lógico se forem considerados como referentes a cada um dos agentes envolvidos: a autonomia, referida ao indivíduo, a beneficência ao médico e a justiça à sociedade e ao Estado. A aplicação isolada de cada um desses princípios, no entanto, terminará por consagrar as situações sociais injustas a que fizemos referência. Torna-se, então, necessário procurar um modelo que não permita a hegemonia de um princípio sobre os dois outros, mas que assegure a justificação, a integração e a interpretação dos três princípios. Em outras palavras, como fazer com que a autonomia seja preservada, a solidariedade garantida e a justiça promovida.
Conforme Barreto (2005, p. 15, grifo nosso) os princípios possuem como origem o seu conceito:
O princípio da beneficência tem suas origens na mais antiga tradição da medicina ocidental, na qual o médico deve visar antes de tudo o bem do paciente - definido pelas luzes da ciência sendo que o principal desses bens é a vida; logo, o compromisso maior do médico é o de envidar todos os esforços e empregar todos os meios técnicos tornados viáveis pela ciência e pela tecnologia para manter vivo o paciente, mesmo contra a vontade deste último. O princípio da autonomia, por sua vez, surge dentro da tradição liberal do pensamento político e jurídico, que por sua vez deita suas raízes no pensamento kantiano; o indivíduo, dentro da concepção liberal, é um sujeito de direitos, que garantem o exercício de sua autonomia, sendo que como paciente deve, também, ter aqueles direitos, que o situam como pessoa e membro de uma comunidade, advindo dessa constatação, o direito do paciente decidir, como sujeito de direito, na relação médico-paciente. O princípio da justiça recebe a sua primeira formulação no bojo da crise do estado liberal clássico, quando o processo de democratização dessa forma de organização política passa a considerar a sociedade e o Estado como tendo a obrigação de garantir a todos os cidadãos o direito à saúde; essa obrigação torna o Estado e a sociedade agentes e responsáveis na promoção da saúde do indivíduo.
Cada princípio possui forma de aplicação diferenciada, deste modo no momento de aplicar os princípios individualmente estaríamos privilegiando um elemento em detrimento de outro, fazendo com que ocorram situações sociais injustas, o que não pode acontecer, ou seja,
o certo é que exista harmonia entre eles para que seja assegurada a interpretação dos três princípios para a correta aplicabilidade.
Para Maria Berenice Dias (2010, p. 04, grifo nosso) a Bioética possui quatro princípios básicos, quais sejam: a não-maleficiência; a beneficência, a autonomia e a justiça. Podendo ser classificados assim:
Não-maleficência significa não fazer o mal; este princípio tem sua expressão no juramento e em sucessivos aforismos de Hipócrates, que podem ser sintetizados em: “Em primeiro lugar, não prejudicar ”. Esse princípio geral - obrigatório não apenas a quem trabalha na área da saúde - significa que não deve o profissional receitar sem antes examinar e diagnosticar, praticar atos desnecessários ou fazer experimentações que levem risco ao ser humano, delineados claramente no Código de Ética Médica vigente. Beneficência é fazer o bem. Novamente algo desejável para ser assumido por todos. No caso do médico, apenas obrigação. Certamente, nesta busca de fazer o bem, entende-se que deva empregar os meios possíveis, sem assumir a obrigação de obter resultados. Autonomia compreende-se como o direito do paciente no uso pleno de sua razão - ou de seus responsáveis, quando faltar consciência - de estabelecer os limites em que gostaria de ver respeitada sua vontade em situações fronteiriças. O mais delicado dos princípios é o da justiça, em face do qual se questiona até que ponto é legal, e não apenas legítimo, suspender os suportes de vida. E até que ponto – e esta é uma faceta que sempre é mistificada e escondida – não se encontram subjacentes motivações econômicas em várias argumentações?.
Assim, se os princípios não forem discutidos, podem tornar-se conflitivos e contraditórios. É através do exame desses princípios que se permite ter uma visão de suas limitações como princípios fundadores de ética e de um biodireito na sociedade democrática e pluralista.
1.4 Modalidades de eutanásia e suas distinções
Existem diversas modalidades interligadas de Eutanásia, no entanto, será delimitado para as principais condutas que são praticadas e reconhecidas de alguma forma nos dias contemporâneos mundialmente. Diante disso, serão apresentadas e analisadas as seguintes modalidades de eutanásia: a distanásia, ortotanásia e o suicídio assistido e os tipos de eutanásia ativa, passiva ou indireta, voluntária e involuntária.
Deste modo, segundo Carlos Fernando Francisconi e José Roberto Goldim (1997-2003, p. 02, grifo nosso) classificam a eutanásia em:
sem sofrimento do paciente, por fins misericordiosos. Eutanásia passiva ou indireta: a morte do paciente ocorre, dentro de uma situação de terminalidade, ou porque não se inicia uma ação médica ou pela interrupção de uma medida extraordinária, com o objetivo de minorar o sofrimento. Eutanásia de duplo efeito: quando a morte é acelerada como uma conseqüencia indireta das ações médicas que são executadas visando o alívio do sofrimento de um paciente terminal.[...]Quanto ao consentimento do paciente: Eutanásia voluntária: quando a morte é provocada atendendo a uma vontade do paciente. Eutanásia involuntária: quando a morte é provocada contra a vontade do paciente. Eutanásia não voluntária: quando a morte é provocada sem que o paciente tivesse manifestado sua posição em relação a ela.
Para Peter Singer (2003, p. 186-189, grifo nosso) podemos apresentar suas concepções sobre eutanásia voluntária, involuntária e não - voluntaria, conforme diz:
Eutanásia Voluntária: a eutanásia feita a pedido da pessoa que pretende ser morta; Eutanásia Involuntária: quando a pessoa morta tem condições de consentir com a própria morte, mas não o faz, tanto porque não lhe perguntam se quer morrer quanto porque perguntam, e ela opta por continuar vivendo. [...] Os casos autênticos de eutanásia involuntária parecem ser muito raros; Eutanásia não-voluntária: Essas duas definições abrem espaço para um terceiro tipo de eutanásia. Se um ser humano não é capaz de compreender a escolha entre a vida e a morte, a eutanásia não seria nem voluntária, nem involuntária, mas não-voluntária. Dentre os incapazes de dar o seu consentimento estariam incluídos os bebês que sofrem de doenças incuráveis ou com graves deficiências e as pessoas que, por motivo de acidente, doença ou velhice, já perderam para sempre a capacidade de compreender o problema em questão, sem que tenham previamente solicitado ou recusado a eutanásia nessas circunstâncias.
Relacionada à eutanásia conhece-se a distanásia, segundo Maria Helena Diniz (2001, p. 193):
a distanásia é o prolongamento artificial do processo de morte e por conseqüência prorroga também o sofrimento da pessoa. Muitas vezes o desejo de recuperação do doente a todo custo, ao invés de ajudar ou permitir uma morte natural, acaba prolongando sua agonia. Para a autora, trata-se do prolongamento exagerado da morte de um paciente terminal ou tratamento inútil. Não visa prolongar a vida, mas sim o processo de morte.
A distanásia é o oposto da eutanásia, baseia-se no prolongamento da morte de pacientes em estágios terminais e sem nenhuma expectativa de melhora, o que ocasiona fortes sofrimentos psicológicos e físicos ao indivíduo.
Muitos doutrinadores acreditam que a distanásia é uma forma inútil, uma vez, que não trata de prolongar a vida e sim a morte, por conduzir ao sofrimento exagerado, através de realizações de cirurgias, exames desnecessários, que somente acarretarão a morte.
Já a ortotanásia é caracterizada por acreditar na morte sem interferência alguma, de medicamentos, tratamentos, cirurgias, ou seja, não utiliza meios artificiais para diminuir o agravamento do seu estado clínico.
Conforme Tereza Rodrigues Vieira (1999, p. 90) em Bioética e Direito, define Ortotanásia:
Significa morte correta, ou seja, a morte pelo seu processo natural. Neste caso o doente já está em processo natural da morte e recebe uma contribuição do médico para que este estado siga seu curso natural. Assim, ao invés de se prolongar artificialmente o processo de morte (distanásia), deixa-se que este se desenvolva naturalmente (ortotanásia). Somente o médico pode realizar a ortotanásia, e ainda não está obrigado a prolongar a vida do paciente contra a vontade deste e muito menos aprazar sua dor.
O paciente busca a morte natural sem interferências da medicina, sem no mínimo procurar possível solução de cura ou de amenizar os sintomas de sua doença. Entende-se que no caso da ortotanásia, não ocorre o prolongamento da morte com o uso de equipamentos artificiais, o que ocorre é o respeito ao processo natural da morte, no qual se evita a realização de procedimentos terapêuticos realizado pelo médico, por compreender que não produzirá alívio do sofrimento de pacientes e nem reverterá o quadro clínico destes.
Diferente do que ocorre no caso do suicídio assistido, quando o paciente de alguma forma manifesta a sua vontade de morrer, ou seja, para que reste configurado o auxílio de terceiro é necessário o consentimento do indivíduo que encontra-se em extrema ânsia de abreviar a morte. O suicídio assistido independe de ação de terceiro, a simples presença no momento do ato, configura a omissão em relação direta com a morte.
Assim, conceitua Maria de Fatima Freire de Sá (2005, p. 255), sobre Suicídio Assistido:
Próximo da eutanásia, encontra-se o suicídio assistido. Contudo, não são figuras equivalentes: Na eutanásia, médico age ou omite-se. Dessa ação ou omissão surge, diretamente, a morte. No suicídio assistido, a morte não depende diretamente da ação de terceiro. Ela é consequência de uma ação próprio paciente, que pode ter sido orientado, auxiliado ou apenas observado por terceiro. Tanto a eutanásia quanto no suicídio assistido, há que ser observada a vontade do paciente, o seu consentimento. E a morte voluntária.
Deste modo, ocorre que o suicídio assistido pode ser confundido com a eutanásia ativa, sendo que no primeiro caso a pessoa doente é assistida para a morte, sendo que todos os atos são realizados por ela. No entanto, como existem casos de pessoas que solicitam o suicídio assistido por não possuir independência automotora suficiente para levar um copo à boca, já foram desenvolvidos, por exemplo, mecanismos que apenas apertando um botão de uma máquina que aciona um dispositivo para injetar o medicamento letal. O que muitos acreditam ser uma forma de não envolver nenhum profissional da saúde no ato da eutanásia. Por tratar que a própria pessoa decidirá e realizará o procedimento para garantir a sua morte.
O auxílio pode ser que necessite de qualquer pessoa do seu meio social ou de relações afetivas assim a assistência ao suicídio pode ser feita por:
prescrição de doses altas de medicação e indicação de uso ou, de forma mais passiva, através de persuasão ou de encorajamento. Em ambas as formas, a pessoa que contribui para a ocorrência da morte da outra, compactua com a intenção de morrer através da utilização de um agente causal.(GOLDIM, 2004, p. 03).
Importante, mencionar que o suicídio assistido trata de pessoas doentes, em estágio terminal, com fortes dores e intenso sofrimento físico, no qual, nem a medicina encontra possibilidades de mudança do quadro clínico do doente.
Neste sentido, existem variados conceitos e significados que diversos autores estabelecem para estas modalidades. Mas, neste trabalho, será delimitado a uma única autora que demonstrou ser mais objetiva ao diferenciar cada conduta deixando bem clara as suas diferenças.
Deste modo, conforme a professora Roxana Cardoso Brasileiro Borges (2005, p. 02, grifo nosso) em sua obra Eutanásia, ortotanásia e distanásia: breves considerações a partir do biodireito, classifica as distinções a seguir:
O auxílio a suicídio de pessoa que não se encontra em estado terminal e com fortes dores, da mesma forma, não se caracteriza como eutanásia, mas como o simples auxílio a suicídio previsto no Código Penal. Quem executa o ato que vai causar a morte é a própria vítima. Para que a ação de auxílio a suicídio tenha a valoração de eutanásia, é preciso que o paciente tenha solicitado a ajuda para morrer, diante do fracasso dos métodos terapêuticos e dos paliativos contra as dores, o que acaba por retirar a dignidade do paciente, segundo seu próprio entendimento. Chama-se de distanásia o prolongamento artificial do processo de morte, com sofrimento do doente. É uma ocasião em que se prolonga a agonia, artificialmente, mesmo que os
conhecimentos médicos, no momento, não prevejam possibilidade de cura ou de melhora. É expressão da obstinação terapêutica pelo tratamento e pela tecnologia, sem a devida atenção em relação ao ser humano. Ao invés de se permitir ao paciente uma morte natural, prolonga-se sua agonia, sem que nem o paciente nem a equipe médica tenham reais expectativas de sucesso ou de uma qualidade de vida melhor para o paciente. Etimologicamente, ortotanásia significa morte correta: orto: certo, thanatos: morte. Significa o não prolongamento artificial do processo de morte, além do que seria o processo natural. A ortotanásia deve ser praticada pelo médico. Na situação em que ocorre a ortotanásia, o doente já se encontra em processo natural de morte, processo este que recebe uma contribuição do médico no sentido de deixar que esse estado se desenvolva no seu curso natural. Apenas o médico pode realizar a ortotanásia. Entende-se que o médico não está obrigado a prolongar o processo de morte do paciente, por meios artificiais, sem que este tenha requerido que o médico assim agisse. Além disso, o médico não é obrigado a prolongar a vida do paciente contra a vontade deste. A ortotanásia é conduta atípica frente ao Código Penal, pois não é causa de morte da pessoa, uma vez que o processo de morte já está instalado. Só é eutanásia a morte provocada em doente com doença incurável, em estado terminal e que passa por fortes sofrimentos, movida por compaixão ou piedade em relação ao doente.
Deste modo, em relação ao auxílio ao suicídio quando a pessoa não se encontra com doença em estágio terminal, ou seja, está em estado saudável, não será configurado como modalidade de eutanásia, mas será enquadrado como conduta criminal tipificada no Código Penal. Já a ortotanásia é considerada conduta atípica frente ao Código Penal, uma vez, a doença já estar instalada de modo avançado no organismo, caracterizando o processo de morte.
Assim, analisadas as distinções de cada modalidade, serão de forma mais compreensível os assuntos abordados nos capítulos seguintes.
2 A EUTANÁSIA E O ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO
Neste segundo capítulo será abordada a forma como a eutanásia está apresentada no ordenamento jurídico constitucional brasileiro. Sabemos da existência dos princípios constitucionais e dentre eles podemos classificar a “Liberdade”, que nos permite ser livres em nossas escolhas e sobre os nossos direitos e deveres em meio à sociedade. Seguindo esta linhagem, podemos observar a Dignidade de Pessoa Humana, que no caso abordado será apresentado de forma questionada, se a morte também é considerada um direito digno da pessoa humana. E por fim, posições doutrinárias que serão transcritas, para melhor configurar a existência de diversos conhecimentos, críticas, favoráveis ou não, da Eutanásia frente à Legislação brasileira.
2.1 Liberdade e direito à vida na Constituição
É importante lembrar que para estudar os direitos fundamentais transcritos na Constituição, ao tratar do direito à vida, devemos ter em mente a dignidade da pessoa humana e a liberdade.
Na Constituição Federal Brasileira está fixada a proteção jurídica do direito à vida sem, no entanto, mencionar com certeza o seu início e o fim. O legislador constituinte menciona como direito à vida todos os direitos desde a concepção do indivíduo.
Conforme a legislação do Código Civil, no artigo 2º “a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida, sendo-lhe garantido os direitos do nascituro.”
Ao nascer já somos detentores de direitos, neste sentido Plácido e Silva (2006, p. 942) define:
nascituro como ser gerado ou concebido no interior do útero, ainda não foi concebido, porém já é reconhecido como pessoa tendo o direito à vida proteção jurisdicional do Estado.
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
[...]
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; [...]
VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício de cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias;
[...]
VIII – ninguém será privado de direito por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se da obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa fixada em lei.
Assim, pode ser observado que os incisos supracitados, estão se referindo à liberdade de pensamento e sobre a liberdade de consciência e crenças religiosas, que transmitem o entendimento sobre o princípio da autodeterminação moral.
O princípio da autodeterminação moral trata dos direitos individuais do homem, o qual cada um possui o seu princípio norteador, o seu pensamento frente às convicções religiosas, políticas e sociais, do qual se originam os seus ideias frente a sociedade, sendo que estes princípios não estão ligados com as concepções formadas pelo Estado, são princípios autodetermináveis.
Neste sentido, Luís Barroso (2001, p. 166) conceitua os princípios como sendo características ideológicas da sociedade, assim diz:
Os princípios dão unidade e harmonia ao sistema, integrando suas diferentes partes e atenuando tensões normativas. De parte isto, servem de guia para o intérprete, cuja atuação deve pautar-se pela identificação do princípio maior que rege o tema apreciado, descendo do mais genérico ao mais específico, até chegar à formulação da regra concreta que vai reger a espécie. Estes os papéis desempenhados pelos princípios: a) condensar valores; b) dar unidade ao sistema; c) condicionar a atividade do intérprete.
O direito à vida é um direito essencial a todos os indivíduos, garantido pelo ordenamento jurídico do Estado, que garante direito à saúde, educação, alimentação, que são direitos fundamentais para a vida até a sua morte.
É através dessa breve explanação dos direitos fundamentais referidos na Constituição Brasileira, que podemos adentrar nas proibições de certos atos frente o entendimento
jurisprudencial do país, levando em consideração assuntos polêmicos como a proibição do aborto, da pena de morte, e também pela prática da Eutanásia.
Deste modo, pode ser observado que os direitos e garantias fundamentais estão descritos na norma jurídica, estabelecendo a inviolabilidade do direito à vida, o que demonstra a garantia constitucional do direito à vida, direito este indisponível, que caracteriza a não aceitação da conduta de Eutanásia na jurisdição Brasileira.
Podemos citar conforme José Afonso da Silva (2004, p. 201), constitucionalista brasileiro, que demonstra o seu posicionamento contrário à prática da eutanásia afirmando:
É, assim mesmo, uma forma não espontânea da interrupção do processo vital, pelo que está implicitamente vedada pelo direito à vida consagrado pela Constituição, que não significa o indivíduo possa dispor da vida, mesmo em situação dramática. Por isso, nem mesmo o consentimento lúcido do doente exclui o sentido delituoso da eutanásia no nosso direito.
O ordenamento jurídico brasileiro não permite a prática de nenhuma modalidade de eutanásia. Sendo todas as formas consideradas como violação do direito à vida e sofrem punições conforme as normas legais, expostas no Código Penal Brasileiro. Configura-se como homicídio privilegiado, a conduta ilegal, por tratar de relevante valor moral da conduta do agente.
2.2 Dignidade da pessoa humana e morte digna
O ato de morrer com dignidade incentiva diversas questões éticas dentro do âmbito jurídico, que vem provocando grandes discussões no mundo inteiro.
Pode ser observado que existem muitos fatores para um melhor entendimento a respeito de morte digna, principalmente questões sociais, morais e religiosas que são motivadores as normas do Código de Ética Médica.
Hoje em dia sabemos da existência de portadores de doenças incuráveis, sofrendo fortes dores ou até mesmo em estado vegetativo que não conseguem sequer manifestar-se sobre a sua vontade, casos estes que acabam originando questionamentos frente à legalização da Eutanásia.
É nesse sentido que nos questionamos: o paciente tem o direito de dispor da sua vida manifestando-se sobre a realização de algum procedimento dentro das espécies da Eutanásia? Este ato é considerado morrer com dignidade? As medidas artificiais para o prolongamento da vida do paciente são um ato digno do indivíduo? Por que lutar contra uma doença sabendo que não existe cura?
São infinitas as questões que pairam frente à discussão do tema Eutanásia e o que significa morrer com dignidade. Sabemos que o Estado é o responsável a proporcionar vida digna com saúde a todos sem distinção.
Importante ressaltar que a vida é um direito fundamental de todo cidadão, sendo dever do Estado protegê-la e garanti-la, conforme estabelecido nas normas legais. O sentido da vida é o modo em que vivemos, em harmonia com as relações entre os indivíduos, costumes, atitudes e atividades exercidas. O ser humano possui a necessidade de viver bem com saúde, estabilidade e tranquilidade. Assim, acreditamos que vida tem de ser útil, produtiva, e prazerosa e comparando com pessoas que se encontram em situações de doenças terminais a qualidade de vida torna-se ruim, sem eficácia.
No entanto a convicção oferecida é de que a vida é, portanto, um direito fundamental e desta forma, não se pode dispor dela de qualquer modo, ou seja, a morte deve ocorrer naturalmente.
Assim, nos casos de pacientes terminais, não é permitida a antecipação da morte pelos profissionais de saúde para aliviar o sofrimento do enfermo. Neste sentido, é importante ressaltar que a Constituição Federal, visa a proteção, da vida de forma geral, principalmente durante a gestação.
Podemos observar neste sentido que “o direito à vida é o mais fundamental de todos os direitos, já que se constitui em pré-requisito a existência e ao exercício de todos os demais direitos.” (MORAES, 2007, p. 76).
Neste sentido, Diniz (2001, p. 22-24), diz:
personalidade. A Constituição Federal de 1988, em seu art. 5", caput, assegura a inviolabilidade do direito à vida, ou seja, a integralidade existencial, consequentemente, a vida é um bem jurídico tutelado como direito fundamental básico desde a concepção, momento específico, comprovado cientificamente, da formação da pessoa.
A vida é um direito personalíssimo, bem como, possui outra definição frente à Constituição Federal, que é a dignidade, ou seja, o legislador luta pela defesa da vida digna.
Assim, Capelo de Souza (1995) comenta sobre o termo “dignidade” com base na Constituição Portuguesa, diz que o termo "dignidade" é mais abrangente que "vida", ou seja, não basta a vida, se esta não é digna todos os seres humanos têm a mesma dignidade vital.
Conforme a interpretação da autora Luciana Mendes Roberto, entre a relação existente direito à vida e a dignidade da pessoa, diz:
Assim, o direito à vida, possui uma íntima ligação com a dignidade, ou poderia dizer, ainda, a plenitude da vida. Isto significa que o direito à vida não é apenas o direito de sobreviver, mas de viver dignamente. (ROBERTO, 2004, p. 02).
Pode ser observado que na Constituição Federal, o direito à vida não está somente referido no Artigo 5º, mas também nos Artigos. 227 “Caput” e o 230 “Caput”, ambos da Constituição Federal de 1988, conforme podemos transcrever:
Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. (BRASIL, Constituição, 1988).
Neste sentido Luciana Mendes Roberto (2004, p. 02), diz:
O direito à vida e o direito ao próprio corpo vivo, estão intimamente ligados, tendo em vista que irão abranger uma série de matérias que consideram: a vida; a condição jurídica do nascituro; o direito à velhice; a eutanásia; o direito ao gene e ao óvulo; a gravidez extra-uterina; a inseminação artificial; o transexualismo, homossexualismo e intersexualismo; o planejamento familiar (esterilização); o aborto; a cirurgia plástica estética e corretiva; transplante de órgãos; a prorrogação artificial da vida; a
reanimação; outros.
O que é necessário lembrar é o fato de que é importante para o homem a proteção ao seu direito à vida digna e plena, direito esse adquirido desde o seu nascimento com vida, até a sua morte, com a extinção da personalidade jurídica.
Deste modo a dignidade consiste em valores morais do indivíduo, busca através do modo de vida, hábitos, o respeito perante outras pessoas com o fim de acabar com as desigualdades sociais.
A dignidade da pessoa humana é o mais importante de todos os direitos fundamentais, constituída pelo ordenamento jurídico brasileiro. A dignidade humana é valor máximo, supremo e serve de base para todo o sistema jurídico.
Podemos observar materializado no art. 1º, inciso III, da Constituição Federal de 1988, sobre a dignidade humana como fundamento da legislação brasileira:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: III – a dignidade da pessoa humana.
É importante ressaltar que o princípio da dignidade da pessoa humana representa o mais importante princípio da ordem jurídica, que é o responsável pelo desempenho de todos os direitos e garantias conferidos aos indivíduos pela norma constitucional englobando o direito à vida, à intimidade, à honra, à imagem, dentre outros.
Estes direitos reportam-se ao respeito à integridade física e psíquica das pessoas que garante os deveres mínimos na lei que são os direitos fundamentais de liberdade e igualdade.
O princípio da dignidade da pessoa humana é considerado a principal garantia constitucional, por que visa proteger os interesses da coletividade.
Neste sentido o Ingo Wolfgang Sarlet (2007, p. 62) procurou conceituar a dignidade da pessoa humana no sentido jurídico:
Temos por dignidade da pessoa humana a qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que asseguram a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos.
Assim, referente à morte digna frente a dignidade humana, temos que levar em consideração quando ocorre a intervenção terapêutica contra a vontade do enfermo, configurando como um atentado contra a sua dignidade.
Desse modo, referente ao direito de morrer com dignidade, devemos observar com cautela que não deve ser confundido com o direito à morte, conforme diz Borges (2005, p. 89):
O direito de morrer com dignidade é a busca de seus direitos, a consciência, a liberdade. É referente ao desejo de se ter uma morte humanizada e sem prolongamento de sofrimento, “defender o direito de morrer dignamente não se trata de defender qualquer procedimento que cause a morte do paciente, mas de reconhecer sua liberdade e sua autodeterminação.
No entanto, não é isso que ocorre na prática em nosso, país. De acordo com o entendimento da Constituição Federal Brasileira, a eutanásia é proibida legalmente. Muito entendem como homicídio doloso, conforme tipificado no Código Penal. O legislador brasileiro não tipificou de forma clara, a prática da eutanásia e também não descreve formas de atenuar o crime, ou seja, não há em nosso ordenamento jurídico nenhuma lei específica que torne lícita a prática de eutanásia, por entender que vida é um dos direitos fundamentais mais importantes, prevalecendo o entendimento de que a liberdade tratada na Constituição Federal, não está ao alcance da disponibilidade da vida, por entender que a vida é intangível e indisponível.
2.3 Posições doutrinárias brasileiras sobre o tema
Atualmente em nosso país as posições doutrinárias são vastas, principalmente por tratar de um tema tão polêmico como a Eutanásia. No entanto as áreas que possuem maior número de manifestações está relacionada ao Código Civil Brasileiro e o Código Penal Brasileiro.
Destarte, cabe mencionar que serão abordados doutrinadores constitucionalistas para que não se perca a linhagem do estudo aqui apresentado, bem como por tratar das três formas que possuem maior aplicabilidade no ordenamento jurídico brasileiro.
Nesse sentido, podemos observar alguns entendimentos sobre doutrinadores penalistas que tratam o crime tipificado no referido código penal, por tratar de bens disponíveis e indisponíveis, neste caso a vida, entendendo que deve ser atenuada quando for considerada Eutanásia, assim caracterizada como homicídio privilegiado, dessa forma podemos ver:
[…] no que refere casos especiais de lesão à vida, como a eutanásia, tem-se reacendido a discussão a respeito da classificação rígida de bens disponíveis e indisponíveis, propondo-se uma atenuação. (MIRABETE 2002, p. 320).
Neste sentido, deve ser levado em consideração de que não importa a forma que a pessoa em estado terminal busca a morte, se é através da ingestão de algum veneno ou medicamento letal, bem como, solicitar ajuda de outra pessoa. Sobre isso podemos observar o seguinte:
reconhecer o intuito caritativo do matador por um motivo de plena exculpação importaria, na adoção de um precedente subversivo em matéria penal. (NORONHA, 2004, p. 107).
Entretanto, esta afirmação não pode ser sustentada, pelo fato de que a jurisdição brasileira não permite a morte no estado de necessidade, ou seja, a morte com piedade, somente nos casos de legítima defesa.
Para a realização da Eutanásia é necessária a autorização do paciente, o consentimento do Estado, existir um mal incurável, desconhecido ou até mesmo conhecido, mas que seja de difícil cura, assim podemos analisar o que a doutrina diz:
Num sistema jurídico em que a lei penal é de ordem pública, e em que a pena se impõe em nome da sociedade inteira, e, por consequência, do Ministério Público, seu representante, não é possível derrotar por convenções particulares as leis de ordem publica. (BIZZATO, 2000, p. 154).
Assim, podemos enxergar nitidamente que não existe o amparo jurídico sobre a concordância e a vontade do paciente. Por entender que a vida possui como base o princípio
da ordem pública, não sendo aceita a possibilidade de negociar particularmente.
Neste sentido, pode ser observado que a lei entende responsabilizar, dependendo do caso criminalmente e/ou civilmente “quando o individuo renuncia á própria vida, a ela não renuncia à vontade comum, que defende com as leis a existência dos indivíduos no interesse público.” (PESSINI, 2009, p. 18).
Assim, os civilistas partem do entendimento da cessação da personalidade jurídica a partir da morte, conforme podemos observar, conforme leciona Rodrigues (2009, p. 224):
A morte marca o término de nossa existência; pelo menos, é desta forma que encaramos a vida e este dado social condiciona o Direito, que, de acordo com o artigo 6º do Código Civil de 2002, estabelece que a existência da pessoa natural termina com a morte. É este o único fato a possibilitar que cesse a personalidade, pois atualmente as ordens jurídicas modernas não aceitam a morte civil ou capitis diminutio como forma de punição ao condenado, resultando na perda do estado de livre ou cidadão. [...]Apesar da
morte em nosso sistema jurídico importar no término da personalidade, o ordenamento jurídico confere tutela à honra, à imagem, ao nome, enfim, a uma série de situações desprovidas de conteúdo patrimonial que são mantidas sob proteção mesmo após a morte do titular.
Neste sentido, referente a extinção da personalidade jurídica podemos dizer:
Sabe-se que, juridicamente, a morte corresponde a fato jurídico, que traz como consequência a extinção da personalidade civil do ser humano, ao mesmo tempo em que acaba com todas as possibilidades de exercício de situações subjetivas, sejam elas direitos subjetivos, faculdades, ônus, direitos potestativos, poderes etc. (SÁ, 2005, p.186).
No entanto, a personalidade jurídica continua após a morte, tendo em vista o ordenamento jurídico garantir a honra do nome e do interesse do morto sucedendo através do cônjuge ou seus herdeiros, podemos dizer assim:
Discute-se a possibilidade de prolongamento da personalidade após a morte da pessoa para proteger-lhe os respectivos direitos da personalidade, e para justificar a condenação à ofensa moral contra o morto. Procura-se, assim, garantir o seu direito à honra e à reputação, agindo o respectivo cônjuge, ou seus herdeiros, em nome e no interesse do defunto. A personalidade humana existe, assim, antes do nascimento, e projeta-se para além da morte. (AMARAL, 2010, p. 221).
artigo 10 do Código Civil o indivíduo deixa de ser sujeito de direitos e deveres, sendo que alguns doutrinadores acreditam no prolongamento da personalidade jurídica, através das sucessões hereditárias, no entanto, “o paciente terminal, em agonia, em grande sofrimento, ainda mantém a personalidade jurídica, pois vive” conforme o entendimento de Raquel Elias Ferreira Dodge (2009, p. 16).
Assim, pode ser visualizada as dificuldades de se afirmar a existência de responsabilidades, deveres, direitos que o ordenamento jurídico impõe à pessoa que possui personalidade jurídica, enquanto está viva, no qual, gera dúvidas aquelas que encontram-se em situações irreversíveis em estado vegetativo.
Já os doutrinadores constitucionalistas, como era de se esperar, não acreditam na prática da Eutanásia, por entender que a Constituição Brasileira, trata a vida como ato indisponível, conforme segue o entendimento de Silva (2004, p. 201):
É, assim mesmo, uma forma não espontânea de interrupção do processo vital, pelo que está implicitamente vedada pelo direito à vida consagrado pela Constituição, que não significa o indivíduo possa dispor da vida, mesmo em situação dramática. Por isso, nem mesmo o consentimento lúcido do doente exclui o sentido delituoso da eutanásia no nosso Direito.
Neste mesmo sentido, podemos citar Alexandre de Moraes (2007, p. 179):
O ordenamento jurídico-constitucional não autoriza, portanto, nenhuma das espécies de eutanásia, quais sejam, a ativa ou passiva (ortonásia).Enquanto a primeira configura o direito subjetivo de exigir de terceiros, inclusive do próprio Estado, a provocação de morte, para atenuar sofrimentos (morte doce ou homicídio por piedade), a segunda é o direito de opor-se ao prolongamento artificial da própria vida, por meio de artifícios médicos, seja em caso de doenças incuráveis e terríveis, seja em caso de acidentes gravíssimos (o chamado direito à morte digna).
Desse modo, podemos citar alguns doutrinadores que apresentam seus ideais frente à Eutanásia, dessa forma veremos:
Assim, qualquer que seja o critério legal adotado, deve ser visto como transitório, pois a Medicina poderá alterar tais critérios e tornar possível a continuação da vida de pacientes que, para o atual estádio de desenvolvimento da Ciência, são considerados mortos, tais como anencéfalos, ou ainda trabalhar com questões complexas suscitadas por estados clínicos, a exemplo dos estados comatosos prolongados. (GEDIEL, 2010, p. 168).
Dessa forma, podemos observar que, existem diversas pessoas no mundo que acreditam na melhora de sua doença, lutam contra a morte, entregando a sua vontade de viver nas mãos de médicos, ou profissionais da saúde, bem como, os familiares, que ao verem seu ente querido em uma cama de hospital, não desistem da possibilidade de reverter o quadro clínico.
Pode ser observado conforme o exposto pelo autor Irlandês Leonard Martin, que atualmente reside no país há mais de 20 anos, no qual possui uma visão da ética frente à Eutanásia, dessa forma diz Martin (1998, p. 191):
O direito de saber e o direito de decidir; direito de não ser abandonado;
direito a tratamento paliativo para amenizar seu sofrimento e dor; direito de não ser tratado como mero objeto cuja vida pode ser encurtada ou prolongada segundo as conveniências da família ou da equipe médica. São todas exigências éticas que procuram promover o bem-estar global do doente terminal e, consequentemente, sua saúde enquanto não morre.
Nesse caso, o autor trata da autodeterminação, quando o próprio paciente decide escolher o que é melhor para a sua vida. Assim, é demonstrado quando o moribundo não tem possibilidade de se expressar, o que ocorre é a determinação da família.
Diante do exposto, observamos a existência de diversos modos de pensar, referente aos doutrinadores, alguns expressaram sua linha de raciocínio frente o direito de morrer com dignidade, e outros com base na lei. Desse modo, é importa mencionar que sempre haverá diversas convicções, modo de viver ou de compreender a vida e que nunca alguém se sentirá satisfeito ao se deparar com direitos indisponíveis violados, que é o caso da Eutanásia.
3 DIFERENTES OLHARES SOBRE A EUTANÁSIA
Neste terceiro e último capítulo iremos adentrar na visão geral frente ao tema abordado, que é a conduta da Eutanásia. Será de forma bem singular a apresentação dos países que legalizaram a prática de Eutanásia e algumas de suas espécies. Lembrando, que ao tratar de um assunto tão polêmico, não existe um alto índice de aprovação nos ordenamentos jurídicos de outros países. No âmbito da religiosidade, observaremos a visão das religiões, que influenciam muito na formulação das leis, bem como, na decisão de cada individuo, que encontra-se em estado de angústia, sofrimento, dor, estado vegetativo, doença terminal, sem nenhuma expectativa de vida, que anseiam uma morte digna e sem sofrimento e em diversos momentos amparam-se na religião para encontrar o verdadeiro sentido de viver.
3.1 Países que legalizaram a prática da Eutanásia
Partindo da premissa da existência de países que autorizam a prática de eutanásia e suicídio assistido no ordenamento jurídico destes, podemos analisar quatro países, são os seguintes: o Estado de Oregon, que pertence ao país Norte-Americano os Estados Unidos, a Suíça, a Bélgica e a Holanda.
Deste modo podemos classificar cada um desses países separadamente. Assim, referente ao ordenamento jurídico do Estado de Oregon, a Lei chamada de “Death With Dignity Act” ou na sua tradução “Lei da Morte com Dignidade”, foi aprovada através de uma movimentação popular no ano de 1994, com a aprovação de 60% dos seus eleitores.
A Lei permite aquelas pessoas que possuem alguma doença sem nenhuma reversão do seu quadro clínico usar através de receitas médicas fornecidas, medicamentos letais. Sendo que a lei legaliza expressamente o suicídio assistido, entretanto não a Eutanásia.
Diante disso, podemos mencionar Goldim (2004, p. 04) que faz referência a história da legalização do suicídio assistido no Estado Norte-Americano, conforme segue:
Em 08 de janeiro de 1997 a Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos, julgando o caso Quill, declarou não haver diferenças morais ou legais entre não implantar ou retirar um tratamento e auxiliar um paciente a suicidar-se. Posteriormente, em 26 de junho de 1997, a Suprema Corte Norte Americana alterou este raciocínio, voltando a admitir que existem diferenças marcantes entre estes procedimentos. Desde 1997 o