UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL - UNIJUÍ
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS
JOSÉ ROGÉRIO RIGO
“PENSAMENTO FRACO” E EDUCAÇÃO: UMA LEITURA DE VATTIMO
IJUÍ 2015
JOSÉ ROGÉRIO RIGO
“PENSAMENTO FRACO” E EDUCAÇÃO: UMA LEITURA DE VATTIMO
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação nas Ciências da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijuí.
Orientador: Prof. Dr. Paulo Evaldo Fensterseifer
IJUÍ 2015
R572p Rigo, José Rogério.
“Pensamento fraco” e educação: uma leitura de Vattimo / José Rogério Rigo. – Ijuí, 2015. –
83 f. ; 30 cm.
Dissertação (mestrado) – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Campus Ijuí e Santa Rosa). Educação nas Ciências.
“Orientador: Paulo Evaldo Fensterseifer”
1. Pensamento fraco. 2. Hermenêutica. 3. Educação. I. Fensterseifer, Paulo Evaldo. II. Título. III. Título: Uma leitura de Vattimo.
CDU: 37.01
37:165.72
Catalogação na Publicação
Zeneida Mello Britto CRB10/1374
À minha mãe, Aurora Rigo (Lola) [in memorian], e a “todos que coninuam tentando por razão nenhuma, sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões”. (Caio Fernando Abreu – Zero Grau de Libra)
AGRADECIMENTOS
Ao meu Professor Orientador Paulo Evaldo Fensterseifer, que soube conduzir de forma poética os estudos de mestrado inclusive alterando a temática outrora
escolhida para a reflexão acerca do pensamento de Gianni Vattimo.
Ao César Augusto Danelli Jr, Cristina Xavier Noal e Fábio César Junges, que além de incentivadores, foram os que compartilharam comigo uma hermenêutica de confiança, conforme Fábio trouxe no parecer de qualificação da banca ao citar
Adorno e sua relação com Horkheimer e Steuermann.
A Coordenora do Programa de Pós-graduação em Educação nas Ciências, Helena Copetti Callai bem como aos professores Paulo Rudi Schneider, José Pedro Boufleuer, Sidinei Pithan da Silva e as secretárias, Carmen, Ligia e Laura, que além
do excelente desempenho de suas funções, proporcionaram a alegria de me tornar mais um membro da família Unijuí.
A CAPES pelo apoio financeiro que tornou possível esta pesquisa.
Por fim, a todos aqueles e aquelas que, de alguma forma, contribuíram para que o mestrado fosse uma experiência enriquecedora e exitosa.
Allí donde hay un absoluto se encuentra todavía e siempre la metafísica. (Gianni Vattimo)
RESUMO
Este estudo reflete a filosofia que Gianni Vattimo denominou pensamento fraco, no qual está incluída a problemática acerca da vocação niilista da hermenêutica, ao pressupor a ideia de que, a hermenêutica, deve orientar-se a partir do reconhecimento do sujeito ao assumir uma postura niilista ativa, ou seja, que cada experiência de verdade seja uma articulação interpretativa de uma pré-compreensão na qual somos colocados pelo fato mesmo de existirmos enquanto seres-no-mundo. Neste caso, o niilismo é interpretação e não descrição de um estado de fato. Ademais, e não menos importante, aborda-se seus desdobramentos políticos e educacionais, em que se reflete amiúde a abordagem do respetivo estudo orientando-se a partir da perspectiva de situar a hermenêutica como paradigma para a educação, na tentativa de, a partir de Vattimo, refletir sobre a passagem do plano epistemológico para o plano hermenêutico, tal qual o mesmo sugere.
ABSTRACT
This study aims to discuss about the philosophy that Gianni Vattimo called a weak thought, in which it is included the issue on the nihilistic vocation of hermeneutics, to assume the idea that hermeneutics should be directed from the recognition of the subject to take an active nihilistic attitude, in other words, that every true experience is an interpretative articulation of a pre-understanding in which we are placed by the fact we exist as human-beings-in-the-world. In this case, nihilism is not interpretation and description of a state of fact. In addition, it approaches its political and educational developments, as it often reflects the respective study approach is geared from the perspective of placing hermeneutics as a paradigm for education, in an attempt, from Vattimo, to reflect on the passage of epistemological level to the hermeneutical plan, just as it suggests.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 08
1 GIANNI VATTIMO: EXISTÊNCIA E PENSAMENTO ... 11
1.1 Existência e “pensamento fraco” ... 12
1.2 Primeiras propostas teóricas do “pensamento fraco” ... 19
2 O PENSAMENTO FRACO ... 31
2.1 Vocação niilista da hermenêutica ... 33
2.2 “Pensamento fraco” e pós-modernidade ... 37
3 PENSAMENTO FRACO E EDUCAÇÃO ... 54
CONCLUSÃO ... 80
INTRODUÇÃO
A passagem do séc. XX para o séc. XXI parece marcado por problemáticas que revelam a fragilidade das estruturas e esquemas disciplinares em que o saber se tem organizado. Diante das ameaças que sofre o meio-ambiente, por exemplo, as tecnologias produzidas pelas ciências não parecem, pelo menos por si só, capazes de garantir a manutenção e, do mesmo modo, a sobrevivência do planeta. As ciências biológicas, que por um lado se debruça na pesquisa pela criação da vida em provetas, por outro, se vêem incapazes de evitar a morte causada por um mal que não conseguem enfrentar. Não obstante, tanto os estudos políticos como sociológicos presenciam, confusos, a uma reorganização do mundo que acaba por escapar das explicações e construções ideológicas que outrora havia prevalecido em nossas tentativas de sistematizações.
Tais crises, questionamentos e suspeitas, demonstram a necessidade e pertinência de abrir proposições no plano teórico que reflitam e problematizem acerca dos esquemas de pensamento rigorosamente metodológicos, objetivantes e metafísicos enclausurados nos limites estreitos de disciplinas que se pretendem organizar o conhecimento.
Num mundo que se apresenta, no meu entendimento, caótico e em constante transformação, em que se rediscutem suas barreiras sócio-políticas, econômicas e culturais, retomando o debate sobre a questão dos colonialismos de várias espécies, a postura hermenêutica deveria ser a possibilidade de um movimento reflexivo e não totalizante que possa conduzir a uma ação comprometida com o desenvolvimento e permanência da democracia enquanto sistema político para a humanidade.
Assim, o propósito desta investigação é examinar a filosofia de Vattimo e suas apostas políticas esclarecendo os termos nos quais se relacionam esses assuntos e orientam as reflexões do autor a respeito dos temas: hermenêutica e educação.
Deste modo, Gianni Vattimo1 é considerado um dos maiores expoentes da
filosofia contemporânea, propondo um modo de pensar baseado no
1 Nasceu em Turim em 1926. Foi aluno de Luigi Pareyson na Universidade de Turim e de H.-G. Gadamer na Universidade de Heildelberg. Em 1964 começou a ensinar estética na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de sua terra natal, tornando-se mais tarde seu decano. Foi professor-visitante em inúmeras universidades americanas: Yale, Los Angeles, New York
enfraquecimento do ser como chave de leitura da Pós-modernidade. Para ele, a partir das filosofias de Nietzsche e Heidegger, instaura-se uma crise irreversível nas bases do pensamento moderno de caráter racionalista e cartesiano. Em suma, a proposta teórica de Vattimo
[...] dirige-se em direção a uma interpretação do mundo sob a forma de secularização, de pluralismo e de tolerância. Para o filósofo vivemos num cenário de Pós-modernidade, onde a comunicação e os meios adquirem um caráter central. Fazemos parte de uma espécie de “Babel” da informação, que, mais que um transtorno e coação, abrem caminho à liberdade, uma vez que além daquela visão unitária da racional-modernidade. A Pós-modernidade, portanto, segundo Vattimo, abre caminho à tolerância, a diversidade. É a superação do pensamento forte, metafísico, das grandes narrativas, para um “pensamento fraco”, uma espécie de “niilismo fraco”. Aqui se coloca propriamente sua intepretação de Nietzsche, que ao apregoar a morte de Deus fala do fim da metafísica e precisamente o fim do pensamento forte. Essa sociedade pós-moderna dá lugar ao surgimento da cultura da tolerância, baseada na diversidade, e consequentemente menos dogmática.2
Portanto, no percurso do primeiro capítulo, destacamos tanto a vida de Vattimo, na intenção de situar as suas interpretações levando em conta em seu pensamento que o ser não é fundamento uma vez que qualquer relação de fundamento se dá sempre no interior de uma época do ser e, igualmente, as épocas como tais estão sempre num contexto de abertura, tal como proclamava Heidegger, como também, por outro lado, seu pensamento enquanto filosofia, numa metamorfose não dualista que sintoniza vida e pensamento caminhando através de uma simbiose inseparável.
Já no segundo capítulo, estendem-se as reflexões do autor ao encontro de sua ideia principal, cunhada por ele como pensamento fraco, em que, influenciado pelas filosofias de Nietzsche e Heidegger, entende que estes colocaram as bases da hermenêutica filosófica contemporânea. Ademais, persegue-se o conceito de pensamento fraco desde sua proposição inicial, examinando suas características
University e State University de Nova York. Doutor Honoris causa das Universidades argentinas de Palermo e La Plata, e Madri, na Espanha. Vice-presidente da Academia da Latinidade. Escreveu inúmeros livros e artigos. Colaborador em diversos periódicos na Europa, dentre os quais destacam-se La Stampa, La Repubblica, L’Unità e El País. Exerceu também a militância política. Primeiramente como membro no Partido Radical; seguido da Aliança por Turim, e, por último, entre os Democratas de Esquerda no Parlamento Europeu, abandonando o partido em 2004. TEIXEIRA, Evilázio. Vattimo. In: PECORARO, Rossano (org.). Os filósofos: clássicos da filosofia: v. III: de Ortega y Gasset a Vattimo. Petrópolis: Vozes, 2009, p. 376.
norteadoras bem como, subjacente a estas reflexões, prepara-se o terreno para pensar a educação.
Por fim, no terceiro e último capítulo aborda-se a filosofia de Vattimo e seus desdobramentos políticos e educacionais, em que se reflete amiúde a abordagem do respetivo estudo orientando-se a partir da perspectiva de situar a hermenêutica como paradigma para a educação, na tentativa de, a partir de Vattimo, refletir sobre a passagem do plano epistemológico para o plano hermenêutico, tal como o mesmo sugere.
1 GIANNI VATTIMO: EXISTÊNCIA E PENSAMENTO
Neste primeiro movimento, trata-se, em suma, de uma tentativa de síntese da obra “No ser Dios: una autobiografía a cuatro manos”, de Gianni Vattimo e Piergiorgio Paterlini, em que um escritor (Paterlini), e um filósofo (Vattimo), se encontram e dialogam durante dias, surgindo um relato em primeira pessoa onde Vattimo ao completar setenta anos, conta a trajetória da sua vida e de seu pensamento. Tendo isto como horizonte preliminar, a intenção é apresentar de forma geral e ao mesmo tempo entrelaçada estes dois enfoques (vida (existência) e pensamento).
Fundamentalmente, o filósofo italiano Gianni Vattimo tem se destacado mundialmente por sua luta contra a rigidez da objetividade, bem como das verdades absolutas que muitas vezes nos aprisionam. Ademais, o referido livro é uma espécie de homenagem a subjetividade, uma vez que não se trata de uma autobiografia no sentido clássico, já que o escritor é Paterlini, ao mesmo tempo em que, também não é uma biografia, pois Vattimo fala em primeira pessoa. Vattimo, aos poucos, comenta constantemente o problema do “ser”, ao dizer que o mesmo nos aparece pela linguagem, ou seja, pela conversação humana, pelo diálogo; do mesmo modo é a forma como o livro é construído. Ao refletir sobre a chegada dos seus setenta anos, Vattimo dispara “sé que las personas se adaptan a todo, antes o despúes, com tal de sobrevivir. Pero si, por um lado, esto es um gran recurso, por outro, parece como si las cosas, incluso las más importantes, perdieran valor. Es – cómo te diria? – um poço... decepcionante”3. Mesmo se tratando de um pensamento pessoal
sobre sua própria condição, talvez pudéssemos considerar sua utilidade sapiencial de uma forma ou de outra para todos nós, resguardada as particularidades de cada indivíduo, para não cairmos na contradição diante de Vattimo ser um filósofo situado positivamente diante das tentativas de “objetividades”; porém, aqui, reconheço de antemão que versa precisamente sobre este “reconhecimento”, dentro de minha subjetividade, em que suas proposições se metamorfoseiam como apenas uma “objetivação” e nada mais.
Vattimo questiona-se se, frente às intempéries não do tempo, mas da vida: a) o indivíduo sobrevive a tudo? Ou ainda, b) será que conseguimos nos adaptar a tudo? Suspeita constantemente sobre suas dúvidas, mas, mesmo com sua larga experiência “vivendo a vida na vida”4, admite que não tenha qualquer resposta. Por
outro lado, há ainda o que dizer sobre o hoje. Se não, vejamos: “Pero algo se puede decir sobre el hoy – aunque evitando todo absoluto –, algo que sea verdadero, verdadero para mi, para nosotros, compartible y verificable, si bien dentro de los paradigmas de nuestra historicidad, de nuestra cultura y nuestra lenguaje”5.
Assim sendo, conforme o livro se movimenta de página em página, Vattimo pensa sobre muitas coisas, dentre as quais, a morte, por exemplo, ao lamentar que a sua morte não o assusta, mas que as mortes daqueles que o cercam, estas sim, os deixam triste. Ademais, a morte para ele, não é o fim de tudo. Nas palavras de seu grande mestre, Luigi Pareyson: “Si estuviera seguro de que después de la muerte no existe nada, qué feliz sería”6. Para Vattimo, tal compreensão é
inconcebível, uma vez que, para este, “sólo puede proceder de um hombre que tenga um miedo infinito al pecado y um aterrador sentido del mal. Dos cosas que yo, afortunadamente, nunca he tenido”7.Cita também, Hans Georg Gadamer, falando
sobre a morte: “‘el hombre es um ser que a veces vela, a veces duerme’”8. E, por
último, Richard Rorty, em suas conversas viajando juntos pelo estado norte-americano de Utah: “morir es malo sólo porque te queda la curiosidad de saber qué sucederá luego”9.
1.1 Existência e “pensamento fraco”
Gianni Vattimo nasceu em Turim em janeiro de 1936. Presenciou, mesmo sem recordar bem, os horrores da Segunda Guerra Mundial. Com o estouro da
4 Esta expressão, “vivendo a vida na vida”, diz respeito ao fato de que, quando estamos trabalhando, por exemplo, desejamos mais tempo para estudar e vice-versa. Isto se aplica a quase tudo. Portanto, muitas vezes vivemos deslocados, fora do eixo, não vivendo na própria vida, mas metafisicamente projetando nossos desejos no plano do “querer” e não do “que já se tem”. 5 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 16.
6 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 20. 7 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 20. 8 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 20. 9 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 20.
guerra em 1939, tinha três anos, com seu término em 1945, já estava com nove. Suas lembranças sobre este período sórdido remetem a bombardeios, desespero pelo contínuo soar dos alarmes e também, pelos constantes apagões, tendo que se manter sempre alerta para, quando fosse preciso, correr com sua família para se abrigarem nos muitos refúgios espalhados pelo bairro. Logo,
[...] una noche no me dejé la piel com toda mi família de milagro. Por casualidad estábamos en el refugio que se encontraraal lado del nuestro. Por la mañana salimos y nuestra casa había sido arrasada, totalmente destruída. Como todo el barrio, por otra parte.10
Com sua casa destruída, ou, melhor dizendo, com a de tantos outros, o bem mais valioso que se buscava em meio aos escombros era a esperança de ainda acharem os colchões, que, agora, eram raros. Em meio a este contexto, Vattimo convivia com sua mãe, sua irmã oito anos mais velha e sua tia, companheiras a quem amou/ama por toda sua vida. Com a perda de sua casa,
[...] fuimos evacuados. Primero aqui cerca, en el campo, en Bricherasio, en casa de mi tio, y luego al sur. Nuestros parientes de allí escrebían y nos decían que se vivia mejor, tenían corral y huerto, en deefinitiva, había comida. Fuimos a Cetraro, cerca de Paola, en Citino. Salimos en tren por la noche, com mucho miedo, porque bombardeaban las vias.11
As memórias de Calábria foram intensas e belas, ali, Vattimo instalou-se juntamente com sua família aos seus demais parentes que viviam no sul, morando e se alimentando todos juntos, até a oportunidade de se mudarem para uma casa particular. Relata suas idas à igreja local, suas primeiras paixões, suas amizades, seus passeios pelos bosques, suas idas para a escola, as brincadeiras com os amigos, seu contato com o teatro e seu sonho de um dia se tornar escritor e intelectual, até que, em determinado dia, a guerra acabou:
Precisamente estaba jugando con una pelota de trapo cuando llegó la noticia de la bomba atómica sobre Hiroshima y de que Japón se había rendido. Esperábamos el inminente final de la guerra poder jugar finalmente con um balón de verdad, con un balón de cuero.12
Com o término do conflito, ouviam-se gritos pelas ruas: paz, paz! Deste modo, em setembro daquele ano, todos os evacuados se reuniram em Paola no campo de uma escola do interior a fim de reunirem-se num trem militar e regressar ao Norte, a
10 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 25. 11 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 25-26. 12
Turim. De volta a sua cidade, Vattimo estuda no instituto Gioberti, sentindo-se contrariado, pois seu professor gostava de história, e não de filosofia. Mesmo assim, seu primeiro mestre, e amigo, se encontrava fora da escola, chamava-se monsenhor Pietro Caramello, um tomista que dirigia as edições de Santo Tomás de Aquino para o editorial Marietti e padre da Sábana Santa. Vattimo o definia acima de tudo como um filósofo, mestre, diretor espiritual e amigo, vindo, na sua juventude, a aproximá-lo do estudo da filosofia, como também, desde a escola até o término da universidade, indo estudarem juntos ao mesmo tempo em que Vattimo se confessava com o mesmo duas vezes por semana. Já nessa época, o filósofo de Turim iniciava suas críticas a ideia de “teologia natural”, imutável, onde se sentia excluído do movimento do mundo. Entretanto, com relação a sua trajetória na universidade, foi Luigi Pareyson seu grande mestre e depois amigo por toda a vida. Nos anos de universidade,
[...] no sabía todavía muy bien en qué pensar. Me demoraba en el tomismo de Caramello e en la filosofía de Pareyson, leía a Emmanuel Mounier y a Jacques Maritain. Los leía, como muchos católicos de izquierda de aquellos años, en búsqueda de un camino que me liberase de la mordaza entre el liberalismo capitalista y el comunismo burocratizado de la Unión Soviética. No quería que me confundieran con un liberal ni con marxista. Y – como a Maritain – me interesaba, eso si, criticar los dogmas de la modernidad.13
Aos vinte e três anos, em 1959, Vattimo se licencia em filosofia com uma tese sobre “o conceito de ser” em Aristóteles, tese esta, que viria a publicar, dois anos mais tarde, revisada e corrigida. Num segundo momento, com o intuito de direcionar seus estudos numa perspectiva mais centralizada, vai consultar seu mestre Pareyson e afirma:
Quisiera estudiar a Adorno. Había leído los Minima moralia, de los que había comprendido sólo una décima parte, quede claro. Pareyson me contesto: Pero Adorno..., lee algo más actual, estudia Nietzsche. Bien, estudiaré a Friedrich Nietzsche.14
No verão, após finalizar sua licenciatura, ruma sozinho para a montanha, um refugio a três mil metros sobre Cervinia, na região de Theodulo, próximo ao Plateau Rosa, levando consigo a tradução francesa das considerações intempestivas ou extemporâneas de Nietzsche, em especial, a denominada “Vantagens e desvantagens da história para a vida” (Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das
13 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 33. 14 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 34.
Leber). Não obstante, de manhã esquiava, depois se alimentava, conversava com um músico da Ópera de Viena que também estava em “refúgio” e logo depois estudava Nietzsche.
Um verão épico e inesquecível para Vattimo, vindo a descobrir a crítica de Nietzsche à historiografia e suas reflexões contra a modernidade, resultando numa imagem fundamental para ele: “el hombre moderno se mueve en el jardín de la historia como en un almacén de máscaras teatrales cogiendo ésta y aquélla”15. No
mês de dezembro que antecedeu a leitura de Nietzsche, Vattimo leu a “Carta sobre o Humanismo” de Heidegger; uma iluminação, uma autentica conversão segundo ele. “El giro – mejor dicho, el doble giro, junto con el descubrimiento de Nietzsche – más importante de mi experiencia especulativa. Con toda seguridad el origen de todo”16.
Não esquece aquilo que Heidegger escrevera, ao afirmar que não estamos num plano onde existe somente o homem, mas que, em primeiro lugar, existe principalmente o Ser. É a história do Ser que acaba por intrigá-lo, não concluindo nada de forma imediata, mas antevendo agora de forma clara, uma perspectiva filosófica para se debruçar. Este episódio foi intrigante, pois, para ele, parecia recorrer toda sua herança religiosa juntamente com a perspectiva existencial e política de liberdade e libertação. “Esta liberdade não é, pois, uma faculdade de que o homem disponha, mas é ela que dispõe do homem”17. A liberdade, para Vattimo,
nos persegue, não sendo nós que corremos atrás dela, talvez a própria utopia, nesta ótica, seja a própria liberdade. Este descobrimento o fascina. Destarte, então sobrevieram sobre suas mãos dois grandes volumes de Nietzsche escritos por Heidegger, não conseguindo dar sequencia às leituras de Nietzsche antes de saber o que Heidegger escrevia sobre o mesmo. “Me enfrasqué com Heidegger. Y ésta fue la segunda gran aventura erótico-filosófica de mi vida”18.
Sobre Heidegger, chama a atenção no sentido de que a obra “Ser e tempo”, publicado no final da década de 1920, promoveu um impulso quanto à atenção do mundo filosófico como também da cultura não especializada. Coloca que Heidegger
15 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 34. 16 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 34.
17 VATTIMO, Gianni. Introdução à Heidegger. Lisboa: Instituto Piaget, 1996, p. 80. 18
ao ler Nietzsche, reconstrói pouco a pouco a história das ideias de Platão até a modernidade. Começando a dar voltas ao redor deste problema,
[...] que se convertiría en el hilo conductor de todo mi trabajo filosófico. Pienso que Heidegger se contradice en esto; o al menos no llega a extraer todas las consecuencias de sus proprias intuiciones. Precisamente sobre ello comenzó a establecerse – y sigue aún, hasta hoy – toda mi investigación y mi particular lectura e interpretación de Heidegger y, naturalmente, de Nietzsche.19
Para Vattimo, Heidegger não sabe precisamente como resolver o problema do esquecimento do Ser. Assim,
Oscila entre nostalgia y consciencia de que toda la historia de la filosofía de Occidente, la metafísica, há terminado, y es mejor que haya terminado. Se hace borrón y cuenta nueva. Porque, por un lado, el Ser es lo más importante, lo que permite al hombre precisamente ser; es lo que ilumina la realidad y al mismo tiempo el Ser de Platón, las Ideas que están en el “yo pienso” de Descartes, la verdad absoluta o el Paraíso del cristianismo hasta el positivismo de la ciência; todas esas presuntas verdades objetivas son lá negación del Ser y, por lo tanto, sólo merecen morir.20
Já se tratando de Nietzsche, esta dissolução do mundo verdadeiro, na interpretação de Vattimo, supõe uma libertação onde finalmente podemos viver e conviver em um mundo sem limites objetivos e, justamente para suportar esta liberdade, é que devemos nos converter em super-homens. Do mesmo modo, Nietzsche constata a morte de Deus sem nostalgia de qualquer espécie. “Escribe, como lanzando um suspiro de alivio: ‘Dios há muerto, ahora queremos que vivan muchos dioses’”21. Vattimo acredita que tanto Nietzsche quanto Heidegger são
niilistas, porém o primeiro orgulha-se disso, enquanto o segundo nem tanto. “Em conclusión, mientras que Nietzsche está contentísimo de ser nihilista, Heidegger lo está bastante menos; incluso no querría serlo. Pero, de hecho, los es y lo seguirá siendo toda la vida”22.
Vattimo preocupa-se com as interpretações errôneas acerca do pensamento de Nietzsche, como por exemplo, sua afirmação acerca da “morte de Deus”, em que os comentadores a confundem como uma confissão de ateísmo. Segundo Vattimo, este se configura numa falha crônica.
19 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 37. 20 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 38. 21 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 38. 22 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 38.
Nietzsche no afirma que Dios no existia, nunca podría decirlo porque también ésta constituiría uma verdad absoluta idêntica a la afirmación: “Dios Existe”. Lo distinto es el punto de vista. Allí donde hay un absoluto se encuentra todavía e siempre la metafísica, esto es un principio supremo, exactamente lo que Nietzsche descubrió que había devenido superfluo. “Dios ha muerto” significa que no existe fundamento último.23
Igualmente, usando do mesmo artifício interpretativo, ou seja, a crítica a existência de fundamento último, Vattimo começa a relacionar as filosofias de Nietzsche e Heidegger, onde os pensamentos destes se correspondem e se completam principalmente no tocante ao niilismo daquele e na grande revolução deste no que concerne à crítica de uma concepção objetiva estável e estrutural do Ser como possível justificativa da “liberdade”. Dito isto, verifiquemos a seguinte passagem:
Aunque Heidegger no quiera reconocerlo, la afirmación de Nietzsche tiene el mismo significado que su polémica contra la metafísica, contra toda la tradición filosófica occidental, a partir de Parménides, que cree poder aferrar um fundamento último de la realidad en la forma de una estructura objetiva situada fuera del tiempo y de la historia. La gran revolución de Heidegger es el rechazo de una concepción objetiva estable, estructural del Ser, en nombre de la libertad. Si nosotros somos esperanzas, sentimientos miedos, proyectos... seres finitos, con un pasado y un futuro, y no sólo apariencias, entonces el Ser no se puede pensar em los términos de la metafísica objetiva.24
As filosofias de Nietzsche e de Heidegger, que antes possuíam certa sombra de intuição frente à crítica clássica, vieram a adquirir consistência argumentativa quanto à justificação filosófica das preposições de Vattimo, uma vez que muitos aspectos destas filosofias vão se confirmando, devido as configurações dos fenômenos no que hoje muitos, inclusive Vattimo, chamam de pós-modernidade. Quanto a isto, creio ser o primeiro passo no pensamento próprio de Vattimo, um início do que anos mais tarde se denominaria como “pensamento fraco”.
Mas ainda no tocante a formação da filosofia de Vattimo, este pensa que Heidegger imagina a história como relâmpagos, i.é, iluminações imprevistas, acontecimentos. Sendo que dentro destes mesmos relâmpagos se articulam os tempos em épocas históricas. Porém, a época é, em Heidegger, uma suspensão do tempo.
23 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 38-39. 24
El tiempo no es continuo. Como, de algún modo, en san Agustín: el tiempo se vincula a la existencia y a la existencia del hombre. Y el Ser se ilumina de modos distintos en épocas diversas, épocas que no guardam continuidad entre ellas. El Ser no es más que el iluminarse, según las circunstancias, de horizontes históricos determinados, sin continuidad visible entre una época y la outra.25
Vattimo apresenta leituras interessantes e sofisticadas de Heidegger. Cogita um Heidegger niilista, muitas vezes nostálgico diante do problema do Ser. Atrevo-me a dizer que os estudos de Nietzsche e Heidegger o angustiam de maneira especial, o que soa como paradoxo, mas não como contradição. Situando melhor a problemática que se apresenta, em Heidegger, o Ser pode simplesmente ser algo que existia e que esquecemos, porém, ao mesmo tempo, há a possibilidade de recordá-lo e, neste sentido, reside precisamente no não mais Ser, sendo uma coisa qualquer frente a todos. Portanto, Vattimo entende que a saída para o esquecimento do Ser é, para Heidegger, imaginável como a recuperação da memória que trás consigo uma amnésia de séculos de duração. Recordar o Ser significa apropriar-se do mesmo, e neste ponto estamos de novo no labirinto da objetivação.
Sin Duda, Heidegger odia la ideia del Ser como algo que está presente ahí delante, porque esto lo convertiría en objeto. Entonces no puede pensar que regrese em aquel sentido, sólo puede pensar que el Ser mismo cambie su actitud hacia nosotros, que se nos dé de nuevo, no “en presencia”, sino como aperturas en la historia que inauguran una época nueva. Uma gran obra de arte – para él es principalmente esto; yo me quedo fascinado en un primer momento, luego llegaré a otras conclusiones – es, sobre todo, lo que según Heidegger inaugura uma nueva época. Pero sin continuidad con toda la historia, con las iluminaciones precedentes.26
Assim sendo, talvez uma única resposta, para Heidegger, possa ser que não sejamos nós que devemos recordar do Ser, mas dependerá dele mesmo, numa lógica passível de chamar-se de “redenção”, como também de “revolução social”. Vattimo propõe outra proposição anos depois, em que não podemos recordar do Ser, apenas podemos recordar acerca do esquecimento do mesmo. Na tentativa de esclarecimento, eis que
En cualquier caso, para respetar el propósito fundamental de Heidegger – esto es, la diferencia entre el Ser y algo dado objetivamente, ya sean las Ideas de Platón, el Paraíso en tiempos del cristianismo o el experimento científico en la época de la ciencia – sólo se puede pensar – aunque Heidegger nunca llegó a esto – que la única historia posible del Ser es la historia de cómo la verdad objetiva se disuelve progresivamente; es así, el
25 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 41-42. 26 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 44.
nihilismo, la historia del nihilismo bosquejada por Nietzsche. El Ser se confirma como lo que ilumina las cosas sin identificarse com ellas. Una bombilla que ilumina uma silla, que permite a la silla “estar ahí”, pero que no es la silla. Aligeramiento, pues, pero – además – alejamiento.27
Como então sair do esquecimento do Ser? Quem sabe não mediante a preparação de seu retorno, mas somente, de acordo com a passagem supracitada, pensando sua história como algo que se “sustrae y se aleja cada vez más. Si existe una historia del Ser, ésta no es una historia de acercamiento, sino de alejamiento”. El Ser ilumina en la medida em que se sustrae”28.
1.2 Primeiras propostas teóricas do “pensamento fraco”
Com relação à vida de Gianni Vattimo, ao se completar vinte e cinco anos, já se sentia e se anunciava como um filósofo com uma proposta teórica própria e não somente como um bom pesquisador ou apenas um historiador da filosofia. É deste período, mais exatamente no ano de 1961, que ele debutou como conferencista na Biblioteca Filosófica de Turim, proferindo uma palestra intitulada: “quem é o Nietszche de Heidegger”, em que estavam presentes na primeira fila “Nicola Abbagnano, Pietro Chiodi, Carlo Augusto Viano y Luigi Pareyson, naturalmente. Y, asimismo, Norberto Bobbio, y Michele Pellegrino, professor de literatura cristiana antigua que llegaría a ser uno de los más prestigiosos e innovadores arzobispos de Turín”29.
Aos vinte e quatro ou vinte e cincos anos, deixou de ser católico, pois como estava residindo após o término da licenciatura em filosofia em Heidelberg e igualmente estudando em Humboldt na Alemanha, deixou de acompanhar os periódicos italianos. Seu compromisso religioso estava mesclado juntamente com seu compromisso filosófico e político. Assim, quando se afastou da política, suas preocupações cessaram. Conta que em Heidelberg consistiu em outra grande aventura intelectual.
Em Heidelberg, seguía las lecciones del gran filósofo Hans Georg Gadamer (a quien luego traduje y di a conocer en Italia), discípulo de Heidegger. No
27 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 45. 28 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 45. 29
conseguía comprender la pronunciación de Habermas, pero a Gadamer si lo entendia, hablava un alemán especialmente claro, al menos en las lecciones del curso “oficial”. Me cansaba más seguirlo cuando se dirigia a los pocos alumnos de su “seminário restringido”, los cuales iban con él al atardecer, en pleno invierno, a una vieja taberna a comer gulashy pan negro y a beber vino, y em verano, a su casa de la colina.30
Ainda por esta época, comenta que se fazia pouco presente às demais aulas devido ao fato de dedicar-se com frequência aos seminários de Gadamer. Ademais, quando não havia compromissos na universidade, destinava seu tempo na biblioteca lendo textos que não encontrava na Itália e trabalhava no seu livro sobre Heidegger. Lembra de Gadamer como outro grande mestre e por ter traduzido sua obra “Verdade e método” em 1969. Aliás, foi seu primeiro tradutor, tendo seu trabalho reconhecido pelo filósofo francês Paul Ricoeur, que inclusive o cita na sua versão para a língua francesa, passando os dois, muitas tardes de verão discutindo questões acerca da tradução de obras filosóficas. Quanto a Gadamer, sua amizade perdurou por toda a vida deste, sendo um dos três filósofos convidados a pronunciar um discurso em sua honra em homenagem ao seu centésimo aniversário.
Recuerdo que al finalizar la ceremonia se había bebido uma botella entera de aguardiente de manzana. Y a él – que conjugaba distancia y afecto, esnobismo y gran generosidad y honestidad intelectual, cosas todas ellas que encuentro en sus cartas, llenas de observaciones concretas y respetuosas –, a él le debo una de las mayores emociones de mi vida como filósofo. Fue Gadamer, el grand Gadamer quien, escunhándome durante um congresso internacional, comentó com quien estaba a su lado: “Esto si que es un verdadero discurso filosófico”.31
Na universidade em Turim, no ano de 1964, Luigi Pareyson foi transferido para a cátedra de Teorética vindo Vattimo a assumir a de Estética. Tinha vinte e oito anos e se convertia em um dos professores mais jovens da universidade italiana. Vattimo também, em sua juventude, converteu-se ao comunismo, tendo participação ativa em movimentos religiosos católicos, partidos políticos, sindicatos, greves, manifestações, etc., sendo registrado em alguns periódicos italianos por sua militância e vindo-se a se tornar um homem público. No ano de 1976, ocasião das eleições na Itália, Vattimo é lançado candidato sem ser consultado, como se verifica na seguinte passagem:
1976 es el año en que el Partido radical se presentaba por primera vez a las elecciones. Todas las listas – yo no me acuerdo, lo recuerda el turinés
30 VATTIMO; PATERLINI, 2008. p. 50. 31 VATTIMO; PATERLINI, 2008. p. 52.
Angelo Pezzana en su autobiografia – estaban encabezadas por mujeres y em todas había al menos um candidato homosexual. Porque en el Partido radical se presentaba también el FUORI – Fronte Unitario Omosessuale Rivoluzionari Italiani – fundado por Pezzana. Una mañana entre em la junta de la facultad y vi que estaban todos com la cabeza dentro del periódico. Luego me miraron. Yo también mire el periódico y vi el título: “Vattimo candidato por el FUORI”.32
Retrocedendo apenas alguns anos, pelos idos de 1972, Vattimo recebe seu primeiro convite para lecionar nos Estados Unidos da América, vindo a trabalhar na Universidade de Uppsala e na Universidade de Nova Iorque. Retorna no ano de 1973 para continuar proferindo aulas e participa da manifestação em Washington contra a reeleição do presidente Nixon: “Así comenzó mi actividad internacional. Había precedentes, incluso importantes, pero este fue mi verdadero inicio como filósofo itinerante por el amplio mundo”33.
Tendo a base de sua fundamentação filosófica em Nietzsche e Heidegger, seu pensamento começa a tomar forma própria com o desenvolvimento de sua teoria chamada: “pensamento débil”, sendo denominado assim, em 1979. Em 1983, publica um livro intitulado com o mesmo nome, dividindo o prefácio com Pier Aldo Rovatti. Para situar como foi apresentada a ideia de pensamento débil:
En otoño de 1979, más de quince años después de mi primera lectura “debilista” de Heidegger, se precisó en mi la ideia de la historia del Ser como aligeramiento, como alejamiento, y poco a poco todo lo que esta reflexión había arrastado consigo y aún produciría en los años seguientes”.34
Vattimo formula sua teoria a partir da leitura que faz da filosofia de Heidegger, no sentido da debilitação do Ser ao invés da espera de uma nova aparição do Ser. Sua reflexão estende-se para a problemática da ética, numa perspectiva ética não agressiva e suas convicções pessoais com relação ao cristianismo e a religião. No livro mencionado anteriormente (O pensamento débil) em que aparece a proposição da reflexão pela primeira vez, eis o que Vattimo e Pier Aldo sugerem no seu prefácio:
Qué escribimos Pier Aldo e yo en el prefacio? Por ejemplo que “los discursos italianos en torno a la crisis de la razón sienten todavía demasiada nostalgia por la metafísica. Y no llevan hasta el fondo la experiencia del olvido del Ser ni de la ‘muerte de Dios’, anunciadas sobre
32 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 114. 33 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 119. 34
todo por Heidegger y Nietzsche a nuestra cultura”. Motivamos bien nuestras afirmaciones y nos auguramos “un pensamiento capaz de articularse a media luz” (una de mis interpretaciones de Heidegger), um camino que no intentara “reecontrar el Ser originario y verdadero que la metafísica há olvidado en sus resultados científicos y tecnológicos”, sino “una vía para encontrar de nuevo el Ser consumido y debilitado, y sólo por ello digno de atención”, una ética de la debilidad que sabíamos que era “poco sencilla, bastante más costosa y menos reconfortante”. Y aún: “un difícil equilibrio entre la contemplación sumergida propria de lo negativo y la anulación de cualquer origen”. Era y éramos conscientes de que hablábamos de una “metáfora, y en cierto modo de una paradoja”. Pero la conclusión era en positivo porque “el preciso pagado por la razón poderosa es una impresionante limitación de los objetos que pueden verse y acerca de los que se puede hablar”. Amén.35
Com esta proposição, ele acredita apresentar uma proposta filosófica forte, mas que, do mesmo modo, imbuída de um aspecto razoável, dialógico e pouco arrogante. Mesmo assim, sofre ataques na Itália nas mais diversas frentes: pessoais, filosóficas e políticas. Assume sua proposta teórica e aos poucos, vai publicando suas obras a fim de dissipar equívocos e críticas que pensa não serem condizentes com aquilo que está sendo proposto enquanto pensamento. Vattimo acredita que as críticas que recebia do meio intelectual europeu provinha principalmente por sua origem humilde do sul da Itália, como também, por ser órfão de pai desde muito cedo, tendo que levar uma vida sempre com muito trabalho para sustentar-se a si próprio e, não menos importante, por ser homossexual. Fora o reconhecimento internacional que obteve com suas ideias, as críticas ao pensamento fraco e a ele próprio sugerem a mesma coisa. Neste sentido,
Creo que la principal razón de la violencia de los ataques hacia mí y hacia el pensamiento débil, o hacia el pensamiento débil y hacia mí que al fin y al cabo es la misma cosa, se encuentra allí. Hay otras, pero la principal es ésta. Mi prestigio internacional, los congresos, los libros traducidos a decenas de lenguas, incluso mi outing, mi presenciabilidad mediática (no ciertamente el presencialismo), las amistades que se denominarían “prestigiosas” conquistadas durante los años y com el trabajo han abierto uma brecha, es evidente.36
Igualmente, os ataques sugeriam muitas vezes que o pensamento fraco de Vattimo era uma estupidez, o que, para este, não importava, pois se considerava um filósofo popular, do povo, com uma elaboração original e uma filosofia própria, além de que, lotava seminários já na década de 1980 para discutir suas ideias, considerando ainda, o fato de muitos críticos irem num primeiro momento para os
35 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 130. 36 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 135.
ataques e logo após ouvirem atentamente o que se debatia, acabavam por se apaixonar e mudar radicalmente de posição.
Um elemento importante, e que merece ser registrado no escopo do trabalho, diz respeito à terminologia empregada por Vattimo ao denominar o principal conceito de sua teoria, a saber, “pensamento fraco”, sendo que, Carlo Augusto Viano, outro desafeto declarado, antes mesmo daquele, já tinha usado a expressão “razão débil”, como podemos conferir logo na menção abaixo:
Carlo Augusto Viano, que inventó antes de yo la expresión “razón débil”, cuando salió mi definición se lanzó a escribir um libro em mi contra – del que pronto se perdió todo rastro – titulado Va pensiero. Yo le respondi con un artículo “Ma va là pensiero” porque fue algo insoportable. También esta enemistad se diluyó con los años hasta desaparecer.37
Ponderando tudo isto, ou pelo menos o exposto até aqui, levando em conta o aspecto temporal, verifica-se a quebra de distancia com a figura aparentemente longínqua de Vattimo. Isto se deve, acredito, por demonstrar através destes relatos, não somente um pensador sofisticado, mas do mesmo modo, um indivíduo que trás consigo suas inseguranças, seus dilemas e suas crises pessoais. Suas dúvidas giram, na maioria das vezes, sobre sua sensação de auto-exclusão, questionando se isto se deve a sua condição de origem pobre, ou simplesmente por uma mera insegurança psicológica. Por outro lado, pensa nas inúmeras cartas cheias de admiração e respeito de Gadamer, os elogios de seu mestre Pareyson e de seu amigo Richard Rorty, bem como a admiração de tantos outros, se perguntando se, por acaso, não enganou todos eles durante todo este tempo. Mesmo assim, declara: “Sé que no es así; no obstante, esta inseguridad aflora periódicamente”38.
Parece-me, e creio realmente que sim, que estas sensações sobrevêm ora ou outra para todos nós, resguardadas claro, as situações e particularidades de cada um, podendo interpretar-se também “como uma forma de ‘felicidad débil’, fruto de la sorpresa por haber llegado donde estoy y donde nunca habría imaginado llegar”39.
Outra curiosidade peculiar remete ao episódio quando Vattimo, na virada da década de 1970 para 1980, foi convidado para um congresso sobre pós-modernidade na Universidade de Michigan, em Milwaukee. Lá, começando a
37 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 138. 38 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 142. 39
exportar o pensamento fraco para além da Itália, conhece Richard Rorty, a quem, com o passar dos anos, conforme já colocado anteriormente, viria a se tornar um de seus melhores amigos. Assim, após se apresentarem e conversarem, trocando seus textos e conhecendo, cada qual, suas respectivas filosofias, Vattimo se dá conta, que sua condição como filósofo não está mais restrita somente ao país a que pertence, mas projeta-se já em escala internacional, reconhecendo em Rorty, muitas semelhanças com seu trabalho e, também, pela amizade com este, a oportunidade de estudar de maneira mais profunda os pensadores pós-analíticos, surgidos, por consequência, depois da filosofia analítica. Registra-se, além disso, o fato de Rorty ser um dos primeiros filósofos reconhecidos mundialmente, a se auto-proclamar um “pensador fraco” publicamente.
Si piensas en lo que sucede en Italia, donde es peligroso el mero hecho de que alguien te tome por alguno de los del “pensamiento débil”, puedes imaginar qué significa para mí que Rorty – cuya calificación correcta es “neopragmatista” – se autodefiniera, en un encuentro em Londres, “pensador débil”.40
O mundo para Vattimo abria-se de maneira espantosa, além de viajar muito, encontrava pessoas de todos os tipos e de todos os continentes. Lecionava fora da Itália, apresentava conferências e estabelecia extensos debates. Tudo isto promovia uma constelação de diferentes sensações: cansaço, diversão, gratificação, afetos, emoções, preocupações, novidades e, por conseguinte, renovava seu estímulo intelectual para prosseguir sua jornada no mundo da vida. Rememora uma de suas primeiras conferências fora da Itália, talvez a primeira diz ele, na Sorbonne em Paris, onde conheceu Mikel Dufrenne. Ainda na década de 1960, conhece Gilles Deleuze, Michel Foucault, Pierre Kossowski, Henri Birault, Karl Löwith e Gabriel Marcel. Suas palestras já não se dirigiam unicamente aos filósofos, mas, encontrava eco também em eventos para arquitetos e psicanalistas, apenas para citar alguns.
Novamente mesclando sua vida e seu pensamento, na tentativa de não estabelecer uma linearidade entre ambos, mas, pelo contrário, em entrelaçá-los, no intuito de não separar filosofia e vida, seguindo aqui, aquilo que Nietzsche tanto apregoou, Vattimo, outra vez resgatando Heidegger, o entende pensando o Ser não como estrutura, mas sim, como acontecimento, no sentido empregado na história propriamente dita, sopesando que o acontecimento, no qual se refere Heidegger, diz
respeito a um “dar-se” histórico nas culturas e nas diversas épocas. Época, reforçando o já colocado, se remete a época histórica, como também, na noção grega de “suspensão”. Não obstante, ”una época histórica es un detenerse de las constelaciones, un intervalo de movimiento de los cielos. En las épocas hay aperturas de horizontes diversos, con distintos criterios de verdad. Unas veces se piensa que somos vampiros y otras, átomos”41.
Criada a problemática, uma das possíveis grandes questões que surgem sobrevindas desta concepção, é: como se inauguram as épocas históricas? Para Heidegger, tais acontecimentos iniciais ou inaugurais, são as grandes obras de arte, retratando não só uma determinada época, mas, do mesmo modo, instaurando uma época do Ser, ou seja, uma espécie de iluminação que “funda” e faz “acontecer” a verdade. Por outro lado,
Pero en un antiguo ensayo de Heidegger decía que los modos en los que la verdad acontece también pueden ser distintos. Los nombra algo misteriosamente, pero habla de la fundación de un nuevo Estado. O del sacrificio esencial, el acto ético supremo... Sin embargo, después nunca más se refiere a estas cosas.42
Portanto, a verdade enquanto instauradora de sentido fragmenta-se não só pelas manifestações das obras de arte, mas com a fundação de um novo Estado, por exemplo, e, aqui, pensemos como isto é forte em Heidegger, considerando sua filiação ao nazismo na Alemanha, o que, talvez, pode nos levar a outro questionamento: se, para Heidegger, o advento do nazismo não deixa de ser também um acontecimento originário de uma época? Especulações a parte, a fim de não estabelecer uma lógica numa filosofia que se opõe a mesma, a própria Bíblia, ou quem sabe nas obras de muitos poetas em tempo de privações, podem servir como chave de leitura de uma época específica. Vejamos como tudo isto se dá na interpretação de Vattimo:
Si Heidegger sigue mostrándose siempre algo reaccionario – me atrevería a decir: provocativamente – más incluso que por su parêntesis nazi es porque busca el acontecimiento originario de una época en los poetas o en las palabras de los presocráticos. Él pensó siempre que para entender la modernidad se podría leer a Hölderlin, a los “poetas en tiempo privación”. Pensando, en realidad, que la gran obra de arte por excelencia es la Biblia. Y la Biblia es, en efecto, la institución de Occidente, debatiamos sobre el
41 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 153. 42
sexo de los ángeles, matamos por la interpretación de las Escrituras, el gran clásico es éste.43
O ponto crucial, pelo menos estabelecido provisoriamente como tal, concerne no sentido do Ser aparecer na história através das próprias línguas históricas, i. é, pela linguagem, no diálogo entre os homens, ou, ainda, pela conversação humana. Para Vattimo, a palavra que mais lhe agrada é “conversação”, introduzida recentemente por Santiago Zabala, tomada em parte por Rorty e em parte por Gadamer. Estas aberturas se produzem, consequentemente, pela linguagem, vindas a tona pelas linguagens históricas. A título de exemplo, Heidegger pensa a razão kantiana não como algo eterno e do mesmo modo com o “R” de razão maiúsculo, mas como algo produzido e dado historicamente. Os a priori de Kant se dão na linguagem histórica pela qual falamos, de tal modo que
Cuando predico el ser de una cosa – tal cosa es – la verdad está en el juicio, no en la palabra singular. Si digo “hipogrifo”, no digo nada; si digo “El hipogrifo es o no es”, digo algo. Esto significa también suspender la perentoriedad de lo que nosotros décimos “es”.44
Segundo o próprio Kant, as categorias de tempo e espaço são iguais em todos os homens, assim, a ciência para ele, no caso a de Isaac Newton, se reveste de valor universal. “Pero para Heidegger no, ni siquiera como ideia”45. Vattimo deixa
claro que a questão não é propagar que Heidegger seja mais inteligente que Kant, por exemplo, mas que, em Heidegger, que chega cento e vinte anos mais tarde que Kant, já se tem neste intervalo de tempo o desenvolvimento da antropologia cultural, da psicologia como ciência definitiva bem como a metamorfose de muitos saberes convertidos agora em múltiplas ciências. Agora, surge o questionamento da ideia da razão ser sempre a mesma em qualquer época e em todos os seres humanos. Na perspectiva de Heidegger,
se plantea el problema de qué significa el Ser, si debe funcionar también para nosotros que somos entes finitos que nascemos, morimos, tenemos problemas, tiene esto en cuenta. El resultado es que el Ser, para Heidegger, bien... a decir verdad no sé demasaido bien qué es, ni siqueira él lo sabe, lo que sabe con certeza es que no puede ser un objeto. Es, entre comillas, esta “cosa” que se anuncia en los linguajes de las culturas dentro de las cuales estamos siempre arrojados.46
43 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 154. 44 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 156. 45 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 156. 46 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 156.
O Ser, conforme o exposto, acontece na linguagem, onde o mesmo se dá através da conversação. O dizer, colocamos assim, se dá pela língua viva que fala a humanidade. O que precisa ficar claro neste ponto, é que o Ser não deriva disso, mas se dá assim. “Y si el Ser es acontecimiento se puede pensar que no sea más que esto: el significado de la palabra “Ser” en la historia de nuestra lengua y en el uso que hacemos de ella”47. Onde estaria o Ser, senão na história da palavra? Das
tantas provocações de Heidegger, mas uma que merece destaque aqui, se refere em saltar no abismo, ou melhor, saltar no Ser enquanto abismo. Este abismo é o abismo da verdade, o que por si não significa que nos conduz a um ponto mais estável, mas precisamente ao contrário. Neste sentido,
La filosofía termina por ser como una suspensión de la perentoriedad de las cosas que se dan, que están allí. Platón pensaba em la filosofía como lo que fundaba los demás saberes. Yo pienso la filosofía –, yo, no Heidegger – como algo que supera los saberes. En el sentido de que los hace ver como algo dependiente de esa historicidad del Ser que está como perdida en los orígenes poco claros, en el mito...”.48
Deste modo, em qualquer lugar que se instaure uma autoridade, seja ela numa comunidade científica ou em algum outro lugar, impondo algo como uma verdade objetiva, segundo Vattimo, a tarefa da filosofia é proceder na direção contrária, mostrando que a verdade nunca é a objetividade, mas o diálogo intersubjetivo que se dá numa linguagem compartilhada. A experiência a que a filosofia,
(...) em toda a sua história, quis sempre referir-se como ao seu fundamento e à sua legitimidade não pode, pois, entender-se de nenhuma maneira como um encontrar as coisas no tempo e no espaço ou, pelo menos, não primordialmente assim, mas com um escutar a linguagem. O pensamento é fundamentalmente uma escuta da linguagem na sua originária poeticidade, isto é, na sua força fundante e de criação; por isso, o elemento em que se desenvolve a nossa existência, é a proximidade entre o pensar e o poetizar.49
No tocante a ideia de pós-modernidade, Vattimo acredita que a profecia de Heidegger já estava plantada no seu ensaio “A época da imagem do mundo”, mostrando que a sociedade moderna da época deste, consistia na época das ciências especializadas, em que se conhecia cada vez mais e, do mesmo modo,
47 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 157. 48 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 157. 49
estas construções progressivas produziam imagens de mundo irreconciliáveis entre si, o que acabou por produzir uma espécie de explosão que impossibilitou existir uma única imagem do mundo. “En mi opinión, – aunque Heidegger nunca lo dijo – esto es lo posmoderno, la ideia de una sociedad que ya no puede dominarse con un principio único”50. Além de Heidegger, temos em Jean François Lyotard a ideia de
pós-moderno como sendo uma sociedade fragmentada em que a modernidade se desgasta com a dissolução da “racionalidade forte”, da “racionalidade centrada”, oposta também, com a perspectiva de racionalidade descentrada proposta por Jacques Derrida. Assim, esta crise das visões do mundo já não consegue obter uma unificação, tendo por detrás, a constante multiplicação das ciências. “Pero esto es lo bello de lo posmoderno”51. De outro modo, como se vislumbra este entendimento
que Vattimo concebeu a partir de Heidegger?
(...) radical e consequentemente se me afigura o pensamento de Heidegger em relação à experiência que eu fiz e faço da condição humana na modernidade tardia, uma experiência de que me parece evidente os traços niilistas: a ciência fala de objectos cada vez menos equiparáveis aos da experiência cotidiana, razão pela qual já não sei muito bem a que é que devo chamar “realidade”– aquilo que vejo e sinto ou aquilo que encontro descrito nos livros de física, de astrofísica; a técnica e a produção de mercadorias configuram cada vez mais o meu mundo como um mundo artificial, em que também as necessidades “naturais”, essenciais, já não se distinguem das que são induzidas e manipuladas pela publicidade, pelo que também aqui já não tenho nenhum parâmetro para distinguir o real daquilo que é “inventado”; também a história, após o fim do colonialismo e a dissolução dos preconceitos eurocêntricos, já não tem um sentido unitário, desagregou-se numa quantidade de histórias irredutíveis a um único fio condutor.52
Tudo isto também está ligado à noção de deixar de pensar a história como algo unitário e progressivo, que avança no sentido de completar-se, tal qual pensava Hegel. Seguindo o texto supracitado, no momento em que os povos colonizados obrigam os povos europeus a deixar de ser tão somente eurocêntricos, como se havendo uma linha unitária da história que se devia levar adiante a partir da tutela destes mesmos europeus, tem-se, creio, uma espécie de supressão hermenêutica da própria história, em que acaba por se ignorar outros povos, outras visões de mundo, como, por exemplo, as do Oriente, que passam a ser vistos como povos primitivos, bárbaros. Novamente, a ideia se repete:
50 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 159. 51 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 160.
Desde entonces, ya no se puede pensar que la historia sea un processo lineal y unitario, y se entiende por fuerza la importancia de la pluralidad de las culturas y de las lenguas. Tomemos las palabras de otras culturas, mejor dicho, las otras culturas tomam la palabra – incluso tambíen en fusil – y nos obligan a pensar de outro modo.53
O pensamento de Vattimo, que se conecta ou se filia a corrente filosófica pós-metafísica, não deve ser encarada como o momento atual de superação da modernidade e da razão, mas sim, como pensamento fraco, anunciado por Vattimo da seguinte forma: “a revelação de que o que pensávamos ter sido uma Überwindung (superação, aquisição de veracidade e consequente descarte) ainda é somente uma Verwindung, uma longa convalescença que tem de tornar a enfrentar o vestígio de sua indelével doença”54. Ademais, reconhecer que a condição humana
não cria objetividades, mas objetivações, não produzindo verdades absolutas resultantes de uma razão subjetiva técnico-analítica, mas verdades provisórias através da razão intersubjetiva. É este, precisamente, o pensamento fraco de Gianni Vattimo. No projeto do sentido do ser,
(...) o pensamento enquanto exposição do problema do ser, já não é, antes de mais, actividade da qual o homem disponha a seu arbítrio: a metafísica não é um erro deste ou daquele pensador ou de todos os pensadores, mas é primordialmente um modo de se determinar o próprio ser, o que certamente acontece na actividade do homem e de algum modo por obra sua.55
Diante dos argumentos propostos, se constata a necessidade da produção do conhecimento pelo “agir comunicativo”, produzido no diálogo intersubjetivo. Além disso, trazer para a physis, i. é, para a condição humana, aquilo que foi transformado anteriormente em meta-narrativa. Percebendo deste modo, que nossas verdades absolutas e metafísicas são na verdade, apenas frutos de nossas objetivações.
Por derradeiro, depois de sucintamente discorrer acerca da vida e do pensamento de Gianni Vattimo, na intenção preliminar e introdutória de tentar, na construção do texto do primeiro capítulo, ser o menos cartesiano possível, no sentido de, ao combinar de forma não linear um (vida) com o outro (pensamento), a próxima etapa versará basicamente sobre o principal conceito do pensamento
53 VATTIMO; PATERLINI, 2008, p. 160.
54 DERRIDA, Jacques; VATTIMO, Gianni (Org.). A religião. São Paulo: Estação Liberdade, 2004, p. 91.
filosófico de Vattimo, a saber, “o pensamento fraco”, do que se trata especificamente e qual seus desdobramentos para as diferentes áreas do saber, em especial, preparar o terreno argumentativo para, no capítulo final, refletir sobre a educação. Por hora, procurar interpretar as filosofias de Nietzsche e Heidegger como pressupostos justificadores da construção do pensamento fraco, como também, tematizar mais profundamente o fenômeno pós-moderno, suas características e particularidades que se configuram no mundo contemporâneo.
2 O PENSAMENTO FRACO
Traçando um horizonte de sentido(s) naquilo que proponho refletir, eis que, para Gianni Vattimo, vivemos uma espécie de koiné hermenêutica, isto é, como uma família comum que reúne diversos filósofos, uma vez que “são pensadores hermenêuticos, não apenas Heidegger, Gadamer, Ricoeur, Pareyson, mas também Habermas e Apel, Rorty, Charles Taylor, Jaques Derrida e Emmanuel Lévinas”56, o
que de acordo com Vattimo, por um lado, congrega tantos teóricos com pensamentos diferentes, por outro, reunidos sobre o termo difuso da hermenêutica “termina por ser qualquer coisa de inócuo e, frequentemente, fútil”57.
Querer definir, ou simplesmente, conceituar hermenêutica, seria, no mínimo, uma incoerência, considerando que a mesma teoriza justamente sobre a interpretação, o direito de interpretar, ou ainda, como escreve Vattimo: “os direitos de interpretação se configuram mesmo com a liberdade de reconstruir uma forma histórica de fato [...] a liberdade da interpretação é outra coisa que arbítrio, comporta risco e responsabilidade”58, por isso não querendo ter a fidelidade ou a presunção de
construir a melhor teoria sobre hermenêutica, tem-se o cuidado de não colocar fora “um patrimônio de idéias que – claro também com base em determinada interpretação daquilo que podemos ter aí encontrado – parece produzir muito, mesmo quando não o faça”59.
Segundo Vattimo, há uma espécie de arco hermenêutico que vai de Heidegger a Gadamer, ao mesmo tempo em que este arco se sugere a ser pensado através de sua vocação niilista. O arco hermenêutico seria uma espécie de desenvolvimento que permitiria elaborar estes problemas de fronteira e repensar o sentido “originário” da hermenêutica. Assim, este desenvolvimento possibilitou a formulação que o filósofo de Turim cunhou como pensiero debole, ou ainda, como tem se traduzido costumeiramente para o português, sendo pensamento fraco, o qual tematizaremos mais adiante. Retrocedendo um instante, com relação à elaboração da hermenêutica ao longo do eixo Heidegger-Gadamer:
56VATTIMO, Gianni. Para além da interpretação. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994, p. 13. 57 VATTIMO, 1994, p. 13.
58 VATTIMO, 1994, p. 14. 59
No arco dos problemas e soluções elaborados por estes dois autores, pode-se muito coerentemente colocar todos os aspectos e diversos caminhos seguidos pela hermenêutica no curso do nosso século. Heidegger e Gadamer, em outras palavras, não são nem os únicos clássicos da hermenêutica novecentista (já que, junto a eles, deveriam colocar-se ao menos Pareyson e Ricoeur) nem constituem um bloco teórico unitário no qual se buscam os princípios essenciais desta filosofia.60
Vattimo reconhece a vagueza que isto comporta ao falar de eixo e do arco, como também o sentido vago que a hermenêutica assumiu ao tornar-se koiné, ou melhor, a nova koiné61da filosofia. Contudo, quando cita Heidegger e Gadamer, aponta a representação que estes autores comportam, configurando os pólos de uma tensão, ou, um quadro em que muitos outros pensadores se inscrevem geralmente como parte desta corrente, possibilitando então, uma aproximação teórico-propositiva, ou seja, a própria koiné. Isto se verifica na seguinte passagem:
Falar do eixo e do arco, com toda a vagueza que isto comporta (e que corresponde, ainda que em termos um tanto mais rigorosos, ao sentido vago que a hermenêutica assumiu, tornando-se koiné), significa também reconhecer que estes dois autores representam mais os pólos de uma tensão, os limites extremos de um quadro dentro do qual os autores que vêm geralmente inscritos nesta corrente se colocam mais próximos de um ou de outro. Se, pois, não se pudesse dizer que a hermenêutica são Heidegger e Gadamer, não deixaria de ser verdade que um bom modo de representá-la é mesmo o que se refere a estes dois autores como os limites que a definem.62
Para se ter presente as coordenadas gerais e introdutórias daquilo que se pretende especificar no texto, no caso, a “Vocação niilista da hermenêutica”, ou ainda, conforme exposta no primeiro capítulo da obra “Para Além da Interpretação”, no qual aparece como vocação niilística da hermenêutica, Vattimo coloca como “orientações filosóficas” falar tanto da hermenêutica, como de Heidegger e Gadamer enquanto arco, sendo que, olhando desta óptica, a hermenêutica acaba por revelar os seus dois aspectos constitutivos, aparecendo justamente pelas elaborações de Heidegger e Gadamer. Para que isto fique claro, Vattimo assinala que
60 VATTIMO, 1994, p. 14-15.
61 Aliás, para ser mais preciso, segundo sua definição no capítulo três do livro Etica de la
interpratción, em que denomina como: Hermeneutica: nueva koine, “decir que la hermenéutica sea tal koiné sostiene sólo, desde el punto de vista de la descripción factual, que así como en pasado gran parte de las discuciones filosóficas, o de crítica literária, o de motodología de las ciencias humanas, tenían que rendir cuentas al marxismo o al estructuralismo, sin que por ello tuvieran que aceptar sus tesis, como sucedía a menudo, así hoy la hermenéutica parece haber asumido esa misma posición central”. VATTIMO, Gianni. Etica de la interpretación. Barcelona: Paidós Studio. 1991. p. 55-56.