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DEMOCRACIA E SEGURANÇA PÚBLICA: PARADOXOS SOB DISCURSOS CRIMINOLÓGICOS

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Academic year: 2021

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CRIMINOLÓGICOS

Resumo: O presente trabalho pretende analisar as novas e difíceis tarefas

agregadas à Segurança Pública, exercidas pelos órgãos do sistema criminal e considerada uma das mais complexas missões dos Estados Democráticos de Direitos Contemporâneos, na promoção da ordem e segurança sociais. Para tanto, analisamos a questão sob a perspectiva do Estado e seu desenvolvimento. Tendo em vista que a promoção da Segurança Pública nos contextos hodiernos impõe a conjugação de um paradoxo entre a violência e a democracia, buscamos demonstrar que a manutenção da ordem há que perpassar conjuntamente com a ideia de maior implemento dos direitos fundamentais individuais. Assim, a problemática consiste em desvendar quais seriam as melhores propostas para se conciliar o papel da Segurança Pública com os direitos e garantias individuais. Para tanto, o estudo se pautou no método dedutivo, a partir do levantamento teórico-bibliográfico atinente a temas de Segurança Pública, Direito Penal, Criminologia, Sociologia Criminal etc; bem como, consistiu em fazer o levantamento de alguns dados documentais estatísticos e fontes legislativas. Como resultados parciais da pesquisa pode-se depreender dos apontamentos que, esta conciliação não só deve ser tentada, como é necessária para o cumprimento dos fins que o sistema penal pretende, legitimamente apresentar, na sociedade contemporânea.

Palavras-chave: Segurança Pública; direitos individuais; controle social;

violência; democracia.

1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho intenta analisar o papel do Estado através da sua função de promover Segurança Pública, tarefa que deve ser conjugada, contemporaneamente, na proteção de determinados direitos fundamentais essenciais ao indivíduo e à sociedade. Tal análise por vezes se demonstra desacreditada, seja por influência de um discurso progressista da Criminologia Libertina, que visa atrelar às causas da criminalidade apenas a pobreza material gerada pela desigualdade de classes; seja pela relação paradoxal entre o aumento da violência ao mesmo tempo em que se aumenta o avanço da participação democrática e o incremento dos direitos.

O tema justifica-se pela atual situação de crescente combate ao crime por parte dos Estados democráticos, os quais se valem, prioritariamente do

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sistema penal como recurso de controle social. A insegurança social requer cada vez mais medidas eficazes no controle do crime, gerada pelo cenário caracterizado pela cultura do medo. Além disso, vive-se, nos cenários academicistas, uma total descrença pelos instrumentos de controle social, gerados pelas críticas aos modelos tradicionais de Segurança Pública e Política Criminal, de cunho elitista e seletivo.

Entretanto, a partir das lições contemporâneas, um novo parâmetro sobre o enfoque das políticas sociais de Segurança Pública parecem necessitar tomar, já que, diferentemente da maioria dos criminólogos e sociólogos contemporâneos, não se vê na pobreza material a única causa ou fator principal da criminalidade ou mesmo atribui a fatores exclusivamente de ordem socioeconômica. Além disso, também não se vislumbra que a criminalidade esteja relacionada a traços fenotípicos, meramente biológicos. Antes de se pensar no controle do crime, é preciso compreender toda a miséria moral que a sociedade contemporânea que passou a adotar modos de comportamento egoísticos, libertinos, irresponsáveis e ao mesmo tempo, justificáveis por academicistas como “próprios das classes”.

A partir destas considerações, preciso se faz analisar o paradigma e as características da sociedade hodierna, especialmente a ocidental, para não só se compreender a realidade criminógena como também, analisar o perfil do Estado consentâneo a este novo cenário. Apenas a partir destas complexidades, é que se perceberá onde os programas de Segurança Pública têm errado e como fazer para conciliar as pautas de promover a ordem e a paz social, ao mesmo tempo em que os Estados Democráticos demandam por democracia, cidadania e a tutela dos direitos humanos individuais.

A problemática do trabalho reside no seguinte questionamento: em razão da complexidade social e das características das pautas contemporâneas dos Estados Democráticos de Direitos, como se conciliar a Segurança Pública com a proteção dos direitos individuais em meio à críticas e descrédito por parte de teorias criminológicas liberais?

A fim de responder ao questionamento principal, o trabalho foi construído em quatro partes para possibilitar uma melhor análise do problema, bem como, lograr solucioná-lo através de intensa pesquisa teórico-bibliográfica, consistente na leitura de livros, artigos e outras publicações científicas

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brasileiras e estrangeiras relacionadas ao tema e a assuntos correlatos; bem como, no levantamento documental, consistente na análise dos dados empírico-estatísticos sobre Segurança Pública no Brasil nos últimos anos, e, em dado grau, o exame de conteúdo de algumas legislações atinentes ao desenvolvimento do que foi aqui proposto.

Na primeira parte do trabalho, foram lançadas as bases sobre as características da Segurança Pública e a relação com a sociedade diante da passagem de paradigmas do Estado Liberal ao Estado “Punitivo”, analisando-se os discursos contemporâneos das Criminologias Críticas e os desdobramentos que tais teses geram na compreensão dos novos papéis da Segurança Pública. Em relação à segunda parte do trabalho, o trabalho logrou analisar a Segurança Pública diante do paradoxo revelado pela doutrina: entre o combate e o uso da violência e a preservação de direitos dos cidadãos numa democracia. No terceiro momento, o estudo tratará dos sinais de mudança, ou seja, das propostas para a necessária conciliação da Segurança Pública com os interesses individuais.

2. ESTADO, SEGURANÇA PÚBLICA E CONTROLE SOCIAL

2.1 Análise da Segurança Pública sob o Paradigma Estatal

O tema “Segurança Pública” sempre esteve atrelado à concepção do Estado. Desde as concepções liberais de Estado em Hobbes, com a presença do chamado “Leviatã”, imprimia-se a este ente o monopólio da força1

para a manutenção da ordem pública e sob o pretexto da defesa social. Para Hobbes, o sentido da própria existência do Estado era promover a segurança dos cidadãos (apud VILARDI, 2010, p. 13).

No ordenamento jurídico brasileiro, o constituinte tratou o tema como defendendo que a Segurança Pública é “dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio” (art. 144 da CF/88). Já o ilustre

1 O termo “monopólio legítimo da força” é atribuído, originalmente, à Max Weber. Por esse

motivo os cidadãos não andam armados nem estão aptos a “fazer justiça com as próprias mãos”, delegando as prerrogativas da Segurança Pública ao Estado (o Exército, em âmbito exterior, e a polícia, no âmbito interno).

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jurista José Afonso da Silva (1994, p. 635) entende que “Segurança Pública é manutenção da ordem pública interna”, sendo que tal ordem é definida por ele como um estado de paz, isento de ameaça de violência.

O relevante sociólogo brasileiro Sérgio Adorno (2002), ao assinar o prefácio da obra “Polícia e Democracia: desafios à educação em direitos humanos”2

aborda o desenvolvimento do Estado de Direito paralelamente à Segurança Pública3. Para tanto, o sociólogo remonta os primórdios da sociedade como a conhecemos, datada da transição feudalismo-capitalismo, destacando a busca por políticas eficientes na imputação penal ao longo do desenvolvimento do Estado moderno, que por sua vez “constituiu-se como centro que detém o monopólio, quer da soberania jurídico-política, quer da violência física legítima” (p. 8), exercida por meio da polícia4

.

A partir das considerações da sociologia contemporânea, precipuamente as de autores como: Beck (2010), Bauman (1998), Wacquant (1999), Garland (1999), Christie (1999) principalmente, verifica-se que nas últimas décadas, ocorreu um aumento do controle penal legitimado pelos Estados de Direito, em nome da pretensão de segurança nas diversas relações sociais. Entretanto, as noções de segurança e insegurança como objeto das pautas de atuação

2

A obra desenvolve profundo debate a respeito de conceitos que habitam nas raízes das principais questões sociais da modernidade, a saber: direitos humanos, democracia, cidadania e, por fim, a questão da Segurança Pública, sendo a base empírica de tal estudo o curso “A Polícia como Protetora dos Direitos Humanos”, desenvolvido pela Comissão de Direitos Humanos da Universidade Federal de Sergipe, direcionado às Polícias Militar e Civil daquela cidade. Entre os autores partícipes aqui citados estão estão Sérgio Adorno, Paulo Sérgio da Costa Neves, Giuseppe Tosi (também publicou no livro como Tosi e Silva, Fábio F. B. Freitas e Marcelo Ferreri).

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Lima, Silva e Oliveira (2013) anotam importante distinção entre os conceitos de Segurança Pública e Ordem Pública3, sendo que aquela pertence à essa. Em análise sistemática, o doutor em Direito do Estado apresenta análise sistemática jurisprudencial, bem como de dispositivos legais (CPP, LEP, ECA e outros). Conclue que ambos os conceitos são autônomos, com pontos de intersecção, embora sejam tratados como sinônimos pela legislação em alguns momentos. A Ordem Pública não encontra conceituação expressa constitucional ou legalmente, revelando-se fungível e, segundo o jurista, passível de interpretação adequada no caso concreto. Em sentido semelhante, Segurança Pública adota diferentes sentidos além da incolumidade das pessoas e do patrimônio, sendo que, para desdobrar-se de direito fundamental (segurança), demanda grande ampliação conceitual e de aplicabilidade.

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Paulo Sérgio da Costa Neves, na mesma obra, destaca a relação entre as polícias em um contexto de “Não-Estado de Direito”, apontando a timidez na implantação de medidas que encontram-se exclusivamente na pauta de grupos associados à defesa dos direitos humanos e combate à violência policial (vide propostas de desmilitarização da Polícia Militar, de unificação das polícias, de criação de controles externos – tais como as ouvidorias –, de ampliação dos poderes das corregedorias, de implantação do policiamento comunitário e interativo etc), muitas vezes respaldada pela opinião pública que “vê na ação violenta da polícia o único meio para combater a criminalidade” (p. 14).

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estatal passaram a requerer, nos últimos anos, a ameaça penal como uma esfera de tranquilização simbólica dos novos riscos sociais.

Essa obsessão por segurança é característica da denominação da “sociedade de riscos”, tal como definida por Ulrich Beck, para quem “na modernidade tardia, a produção social de riqueza é acompanhada sistematicamente pela produção social de riscos” (BECK, 2010, p. 23 e ss.). Assim, enquanto que nos modelos anteriores de sociedade (de classes) buscava-se o ideal de igualdade, ou de oportunidades, na sociedade de riscos, o que lhe serve de base e de impulso é a “segurança” (BECK, p. 59).

Bauman (1998, p. 33-42), com outra tonicidade, traz que a sensação de insegurança trazida na pós-modernidade é caracterizada, principalmente, como uma “incerteza presente” pelos seguintes fatores: a) a desordem no mundo, gerada pelo fim da divisão em blocos e pelo avultamento da força do “Terceiro Mundo”, com uma perda de identidade dos antigos países ricos, que se veem assolados pela chamada “periferia do mundo”; b) a desregulamentação universal, onde se percebe uma cegueira moral da competição de mercado; c) o fim das “redes de seguranças” promovidas pelas relações familiares ou afetivas interpessoais, que, pela ótica do consumismo, passaram a ser rapidamente desfeitas ou perderam o caráter de durabilidade, o que, gerou uma instabilidade pessoal nos indivíduos; d) a incerteza sobre os mundos material e social, já que, neste novo cenário, poucas são as coisas que outrora eram tidas como certas e que agora não o são mais.

Percebe-se, portanto, na fala dos grandes expoentes da Sociologia Criminal contemporânea, que, no final do século XX, em se tratando dos patamares de Segurança Pública e controle social, identifica-se a passagem do Estado de Bem-Estar Social, no qual se determinava pautas prestacionais aos indivíduos, o chamado “Estado Providência”, para que, em nome de políticas penais mais repressivas, surgisse o “Estado Punitivo” (GARLAND, 1999, p. 60), também denominado “Estado Penitência” (WACQUANT, 1999)5

.

A fim de legitimar essa atuação estatal incompatível com um Estado de Direito, sugere Bittencourt (2010), a partir de Bauman, que a manutenção de

5 Segundo Wacquant (1999), o “Estado Penitência” é direcionado aos “inúteis e aos

insubordinados à ordem econômica e étnica que se segue ao abandono do compromisso fordista e à crise do gueto” como se o processo de aprisionamento fosse um “aspirador social” limpando as “sujeiras” frutos da sociedade de mercado.

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um elevado “índice de medo” trabalha de forma a conquistar o respaldo da população às medidas de exceção adotadas pelos detentores do poder a fim de exercer o controle social. No entanto, essa política de medo não trabalharia para proteger a vida e patrimônio daqueles que legitimam a coerção “contra a grande massa humana considerada econômica e existencialmente descartável”, mas sim como forma de dominá-los por meio do medo. Dessa forma, as classes dominantes reúnem oprimidos e opressores em uma mesma massa de manobra, desarmada de sua capacidade de se mobilizar socialmente.

Zaluar (2002, p. 22)|, ao analisar a questão do Estado como tradicional monopólio da Segurança Pública6 e da força institucional, ao contrário do que se afirma que “o monopólio do uso da violência é que gera o medo a e violência disseminados no social”, na verdade, nunca houve no Brasil um monopólio do uso da força, pois ainda mais agora que coexistem o crime organizado, os grupos de extermínio, as empresas de segurança privada e os justiceiros, não vai continuar existindo. Segundo a autora, o Estado brasileiro nunca foi forte o suficiente para barrar o uso de violência ou armas por particulares7.

Assim, em um contexto de riscos, insegurança e anomia, os grupos criminosos por vezes preenchem os espaços vazios deixados pelo Estado, especialmente em regiões marginalizadas e invisíveis às políticas públicas. Esse fenômeno de ocupação de vazios é relacionado por Tosi e Silva na obra anteriormente aqui citada8 como aquele observado pelos físicos antigos quanto à natureza e seu horror vacui. Da mesma forma, a sociedade também não admite o vácuo de poder, e tende a preenchê-lo imediatamente.

6 O termo “monopólio legítimo da força” é atribuído, originalmente, à Max Weber. Por esse

motivo os cidadãos não andam armados nem estão aptos a “fazer justiça com as próprias mãos”, delegando as prerrogativas da Segurança Pública ao Estado (o Exército, em âmbito exterior, e a polícia, no âmbito interno).

7 Nesse sentido, Zaluar Assevera arduamente ainda que, o Estado Brasileiro “nunca cumpriu

nem medianamente a principal função de todo Estado: dar segurança a seus cidadãos, um direito muito valorizado por todos – sem importar a escolha sexual, a religião, a cor da pele, o gênero, o nível de renda, a escolaridade etc -, mas particularmente importante para todas as categorias minoritárias que não possuem os meios para sua defesa do ataque de quem está mais bem armado. Esses grupos precisam da proteção estatal contra seus predadores” (ZALUAR, 2002, p. 22).

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Enfim, faz-se pertinente destacar ainda nessas considerações iniciais que, não obstante a Constituição Federal versar sobre os papéis desempenhados pelas Polícias (Judiciária ou Investigativa, Rodoviária, Ostensiva etc.), bem como assinalar suas funções na proteção do bem comum, tal dispositivo constitucional deve ser iluminado sob leitura atenta de Janaína Paschoal (2002, p. 63) a respeito do dever de promoção da Segurança Pública. Para Paschoal, embora muito tem se cobrado e se exigido do Estado, não deve-se olvidar que, no art. 144 da Carta Magna de 1988, tal dever não é apenas do Estado, mas também de “todos”. Desta forma, tratar de Segurança Pública, exige, necessariamente, uma visão cooperativa entre as demais tarefas do Estado e a participação dos cidadãos.

2.2 Direito Penal, Sistema Penal e Segurança Pública: Discursos Criminológicos sobre as funções reais e ilusórias

O Direito Penal possui objetivos declarados (ou manifestos), propagados pelo discurso oficial da teoria jurídica da pena, e objetivos reais (ou latentes), enunciados pela criminologia crítica. O papel declarado do Direito Penal na sociedade capitalista contemporânea é a proteção subsidiária de bens jurídicos considerados essenciais ao desenvolvimento do indivíduo no contexto social.

Todavia, esse papel declarado do Direito Penal relacionado à tutela de bens jurídicos fundamentais serve tão somente para legitimar o discurso oficial criminalizante e, assim, permitir que o Estado possa exercer o controle sobre as camadas mais pobres da população, reproduzindo a estrutura social do modelo de capitalista de produção.

Assim, vê-se que o objetivo real ou latente do Direito Penal é o controle social da classe subalterna na sociedade contemporânea, funcionando como instrumento de perpetuação da estratificação social, da desigualdade, da exploração e da opressão das classes sociais desprovidas dos meios de produção pela classe dominante, detentora do poder político e econômico (cf. ZAFFARONI, 1989; BARATTA, 1999).

Nesse sentido, é que os sistemas jurídicos e políticos de controle social adotados pelo Estado, dentre os quais o Direito Penal é o mais invasivo e

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deletério, instituem e reproduzem as condições materiais da vida social, protegendo os interesses e as necessidades das classes sociais dominantes e desprezando os interesses e necessidades das classes subalternas.

Esse papel de controle social não é desempenhado apenas pelo Direito Penal e pelos agentes do sistema penal (polícia, Ministério Público, Judiciário, advogados), sendo fomentado por outras instituições da sociedade civil, com a imprensa, a escola, a Igreja, os partidos políticos, a família, etc. No entanto, o Direito Penal e o sistema de justiça criminal constituem o principal instrumento de controle social, posto que a pena constitui a resposta estatal mais severa para combater as violações dos direitos e as lesões aos bens juridicamente protegidos.

Os objetivos manifestos do Direito Penal trazem uma aparência de imparcialidade ao sistema de justiça penal, incutindo na sociedade a falsa ideia que a lei penal aplica-se a todos indistintamente e serve para proteger bens jurídicos de toda a generalidade de pessoas, sejam elas ricas ou pobres. Essa aparente neutralidade e igualdade do Direito Penal reforça e legitima o poder punitivo estatal, que passa a ser compreendido como a principal solução para tutelar os direitos fundamentais e garantir a ordem social (BARATTA, 1999).

Assim, o papel declarado do Direito Penal de proteção dos valores essenciais ao desenvolvimento digno do indivíduo e da sociedade, que se traduzem nos bens jurídicos tutelados nos tipos penais, é legitimado pelo discurso da igualdade, da liberdade e do bem comum, que tem como pressuposto a falaciosa ideia de que vivemos em uma sociedade livre, justa e igualitária.

No entanto, o que se tem na realidade é uma sociedade estratificada em classes, as quais possuem diferentes graus de acesso ao poder político e econômico, e consequentemente, quanto maior o acesso a esse poder, maior será o acesso aos direitos enunciados pela Constituição, resultando em uma desigualdade social endêmica. Por sua vez, a desigualdade entre as classes enseja a opressão da camada subalterna, expropriada de bens e direitos, pela camada dominante, aquela que detém o poder político e econômico do Estado, implicando na redução da esfera de liberdade de ação daqueles indivíduos pertencentes às classes mais pobres (cf. ZAFFARONI, 1989; BARATTA, 1999).

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Dessa forma, vê-se que a função declarada do Direito Penal serve para encobrir sua função real de controle social, o qual é realizado por meio do processo seletivo de criminalização do sistema penal que, segundo Zaffaroni e Nilo Batista (2003), se desenvolve em duas etapas denominadas de criminalização primária e criminalização secundária.

A criminalização primária é a escolha de determinadas condutas que serão criminalizadas através de uma lei penal material. É exercida pelas agências políticas (Poderes Legislativo e Executivo) (ZAFFARONI, 2003; BARATTA, 1999). Já a criminalização secundária é a imposição da pena cominada na lei penal material no caso concreto, a qual se inicia a partir da investigação policial e se estende até a execução da pena. Esse processo de criminalização é operacionalizado pela polícia, pelo Ministério Público, Judiciário, advogados, agentes penitenciários, e até mesmo pelas agências de comunicação social (ZAFFARONI, 2003; BARATTA, 1999).

Assim, na medida em que as agências de criminalização secundária não detêm capacidade operacional para exercer o poder punitivo sobre todas as pessoas que praticam as condutas abarcadas pela criminalização primária, elas se veem obrigadas a agir de modo seletivo, decidindo que serão os indivíduos criminalizados e as vítimas potencialmente atingidas.

De fato, uma vez que o sistema penal não tem condições de prender, processar, julgar e executar todos aqueles que praticam as condutas tipificadas na lei penal, as agências de controle devem optar entre a inatividade e a seletividade. Como a inatividade ensejaria a própria inutilidade dessas agências, optou-se pela seleção.

Esse poder de seleção encontra-se essencialmente nas mãos das agências policiais, que, por estarem em contato direto e pessoal com os autores de delitos, acabam por decidir quem será processado e julgado. A seletividade punitiva se orienta, ainda, pela condição de maior vulnerabilidade econômica, social e política do agente que pratica a conduta incriminada, a qual está intimamente relacionada com a sua correspondência ao estereótipo do criminoso.

Nesse sentido, ao tratar da seletividade do sistema penal de acordo com a vulnerabilidade do agente, Raúl Zaffaroni, Nilo Batista, Alejandro Alagia e Alejandro Slokar (2003) afirmam que:

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O sistema penal opera, pois, em forma de filtro para acabar selecionando tais pessoas. Cada uma delas se acha em um certo

estado de vulnerabilidade ao poder punitivo que depende de sua

correspondência com um estereótipo criminal: o estado de vulnerabilidade será mais alto ou mais baixo consoante a correspondência com o estereótipo for maior ou menor. No entanto, ninguém é atingido pelo poder punitivo por causa desse estado, mas sim pela situação de vulnerabilidade, que é a posição concreta de risco criminalizante e que a pessoa se coloca.(Ibidem, 2003, p. 49)

Assim, durante o processo de criminalização primária que consiste na tipificação dos crimes e das penas, o legislador protege os interesses e necessidades da classe detentora do poder econômico, incriminando condutas que causem danos ou criem obstáculos ao sistema de produção capitalista e à concentração de riquezas, condutas essas típicas da classe menos abastada9.

Assim é que o papel declarado do Direito Penal de garantir a ordem e a paz social através da proteção de bens jurídicos gerais, visando o bem comum, acaba sendo legitimada pelo discurso oficial da teoria do crime e da teoria da pena, que fundamentam a imposição da sanção penal nas ideias de retribuição e prevenção geral e especial.

Nesse contexto, o encarceramento, adotado hoje como a sanção penal por excelência, mostra-se como um instrumento fracassado para cumprir seu objetivo declarado de correção do apenado e prevenção de crimes. No entanto, trata-se de um projeto bem sucedido quando se pensa no seu papel real de controle social e de manutenção das relações sociais desiguais do sistema de produção capitalista.

3. CRISE NA SEGURANÇA PÚBLICA: VIOLÊNCIA, DIREITOS E DEMOCRACIA – PARÂMETROS COEXISTENTES E PARADOXAIS

Tratar de Segurança Pública na atual compleição do Estado de Direito, é conciliar dois fenômenos que coexistem, e que, a um primeiro olhar, são paradoxais, quais sejam: o aumento da violência e a implementação das pautas de cidadania e democracia.

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Ao legislador penal fica incumbido, também, uma tarefa que o aparato social é falho em cumprir: oferecer à população sensação de segurança. Essas respostas legislativas, geralmente provocadas por problemas sociais que deveriam ser resolvidos de maneira mais efetiva, são chamadas leis penais simbólicas, cumprindo a finalidade de acalmar os ânimos sociais e dar uma resposta célere e austera à população.

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Na visão de Alba Zaluar (2002, p. 23), existe um mito divulgado corriqueiramente de que “a Segurança Pública não pode ser a preocupação central dos que atentam para a consolidação da democracia no país”. Ao contrário, a autora afirma que este é o “ponto nevrálgico” para que se continue o processo que se “interrompeu por causa das indefinições e oscilações das políticas públicas no Brasil” (2002, p. 23).

Teresa Caldeira (2002, p. 44) bem observou esta situação: no Brasil contemporâneo dos últimos vinte anos, “a violência e a democracia expandiram-se de maneira interligada, complexa, paradoxal e, às vezes, simplesmente surpreendente.” Isso se deve, segundo Teresa Caldeira, de um lado, à violência urbana, que requerem que as instituições de ordem – Polícia e Sistema Judiciário, tome medidas eficazes à Segurança Pública, apesar de que, salienta a autora, nem os parâmetros mínimos foram alcançados. Por outro lado, o processo de redemocratização com a Constituição de 1988 e o fim do regime militar, gerou um “imaginário de cidadania e direitos”, o que levou à interpretações de que os direitos humanos, que perpassaram até aos muros dos ambientes prisionais, foram equacionados a “privilégios de bandidos” (2002, p. 44).

Além disso, o entrelaçamento entre criminalidade e democracia, gerou a uma mudança crucial no papel das polícias, em especial, com o exemplo da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que implantou Ouvidoria, Treinamento em Direitos Humanos, etc, na tentativa de atender aos anseios do constituinte de 1988 (CALDEIRA, 2002, p. 45)

Curiosamente é que, mesmo ampliando-se a participação da população e aproximando-se os órgãos de Segurança Pública dos contextos comunitários, Caldeira adverte que o número de mortos de civis por Policiais não diminuiu10, nem mesmo impediu as atrocidades praticadas por membros do PCC, por exemplo, de continuarem a existir dentro dos estabelecimentos penais (2002, p. 45)11.

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Dados do 8º Anuário de Segurança Pública (LIMA, 2014, p. 6), atestam que pelo menos 6 pessoas foram mortas por dia por polícias brasileiras em 2013, sendo que 81,8% destas foram praticadas por policiais em serviço.

11Ao tratar de uma “escalada ímpar da violência policial”, Adorno problematiza que

“para conter esse crescimento da criminalidade violenta tem-se recorrido, não raro, a um controle igualmente violento da ordem pública, cujos resultados se espelham no emprego, não raro, desproporcional das forças policiais repressivas. Muitas vezes, sob pressões da “opinião

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Ao questionar, então, sobre qual política seria compatível com a sociedade democrática, que alinha as necessidades repressivas à proteção dos direitos humanos, Adorno anota que, embora o Estado de Direito, como detentor do monopólio da soberania jurídico-política e da violência física legítima, venha cumprindo papel importante na pacificação da sociedade, a questão do respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana, bem como a oferta de serviços de Segurança Pública eficientes distanciam a Segurança Pública no Brasil de uma política isenta de deficiências nesse sentido12.

Além disso, para Adorno, impedem o desenvolvimento necessário da polícia as demandas dos próprios policiais e da sociedade civil, que centram-se exclusivamente na melhoria do aparato técnico, de forma que, ao longo dos últimos anos, a modernização da Segurança Pública no Brasil reduziu-se a um projeto limitado à expansão do física, cujas necessidades estariam ligadas a novas instalações, contratação e treinamento de pessoal, renovação da frota e de todo o aparato técnico da polícia. Diante disso, o que o sociólogo propõe é uma “reversão de rota”, ou seja: ao invés de braço armado do Estado, é necessário que a polícia e demais atores “se convertam em serviço público de proteção dos direitos fundamentais do cidadão” (p.11).

Paulo Sérgio da Costa Neves, por seu turno, destaca a relação entre as polícias em um contexto de “Não-Estado de Direito”, apontando a timidez da implantação de medidas que encontram-se exclusivamente na pauta de grupos associados à defesa dos direitos humanos e combate à violência policial13, sendo que a opinião pública “vê na ação violenta da polícia o único meio para combater a criminalidade” (p. 14).

pública”, as políticas públicas de segurança formulam diretrizes às agências policiais no sentido de conter a violência a qualquer custo, mesmo que para isso seja necessário comprometer vidas de indivíduos suspeitos do cometimento de crimes (2002, p. 9).

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O sociólogo destaca ainda o desequilíbrio entre o crescimento dos crimes, sobretudo violentos, e a capacidade do poder público em investigar e processar penalmente seus possíveis responsáveis devido a “uma série de circunstâncias que turvam o prosseguimento regular dos inquéritos policiais e do processo penal” (p. 10). Não obstante, “inadequadas condições de trabalho contribuem para reter a produtividade em níveis muito aquém do esperado”, sendo que o estudioso denomina “círculo vicioso” os entraves burocráticos associados a precárias condições de trabalho, rapidamente assimilados pelos novos funcionários, que se adequam ao ritmo imposto por tal círculo, marcado por relações autoritárias e viciadas, que impedem as melhorias.

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Dentre essas pautas estão as propostas de desmilitarização, de unificação das polícias, de criação de controles externos – tais como as ouvidorias –, de ampliação dos poderes das corregedorias, de implantação do policiamento comunitário e interativo etc.

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Essa abordagem crítica não pode perder de vista que o compromisso histórico do Estado com a proteção do cidadão e com a Segurança Pública tem sido orientado pelas relações de produção do capital, principalmente quanto à preservação da propriedade privada14.

Nesse sentido, ao analisar a questão da criminalidade sob a perspectiva do mercado de consumo, Bauman (1998), entende que tal critério subordina qualquer outro no mundo atual, de forma a agravar a distância entre as classes sociais, tendo em vista que a diretriz global da economia neoliberal favorece a concentração da riqueza e o crescimento de processos excludentes. Nesse sentido, os excluídos – a saber, estranhos ao mundo do consumo – passam a ser o “retrato falado da criminalidade”, sobre os quais repousa o único medo legítimo – o das elites. Assim, desprivilegiados pelo mercado de consumo - os pobres - são a clientela preferida dos planos de Segurança Pública, bem como da ação direta dos agentes dessa área, em acordo com os ensinamentos de Baratta, Batista, Carvalho, Sheccaira, Wacquant, Zaffaroni e Zaluar15. Para a última, a pobreza não seria necessariamente criminalizada, mas certamente penalizada, em detrimento da impunidade dos criminosos de colarinho branco.

Acrescenta Marcelo Ferreri que as ações de Segurança Pública

estiveram historicamente a serviço da conservação da ordem, e essa se estabeleceu hegemonicamente nos termos da

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Sob essa lógica marxista, posto que a atenção policial se dirige aos estranhos àquilo que se considere como controlado, “a relação tradicionalmente apontada da ação da polícia com os interesses das elites no domínio público, no mais amplo sentido faz supor que o desafio à visão crítica se incremente também da, uma vez que a função pública do policial, para além do que se delineia nessa relação, parece algo a ser ainda formulado, dada a magnitude com que esse papel foi assumido. Decorre, daí, que a missão policial se coloca a questão da proteção ao que é de domínio público e privado; se for verdadeira a associação com a lógica do capitalismo, então passa a ser legítimo afirmar certa relação de dominância e prioridade da lógica do privado sobre a do público; eis outro ponto a ser pensado na missão policial (FERRERI, 2002, p. 115).

15 Essa “tradição da periculosidade dos pobres” encontra respaldo em diversos setores da

sociedade, porém não se sustenta cientificamente (vide teorias do Labelling Approach), nem sob a luz das estatísticas criminais, que mesmo que envoltas em cifras ocultas, revelam a maior parte dos crimes violentos advindos de brigas (passionais, entre vizinhos ou no trânsito, por exemplo). Dessa forma, a Criminologia Crítica (ou Radical) abandona a crença de que o “mal”, ou crime não é um fator decorrente apenas da conjuntura socioeconômica do capitalismo e da anomia gerada por este. Baratta (2002) critica que, sob essa perspectiva, crimes de

colarinho branco, permanecem não explicados, sendo limitados a um “mero problema de

socialização e interiorização das normas” (p. 67). Nesse sentido, Baratta (2002) cita ainda a crítica feita por Sutherland (1883-1950), autor do termo white colar crime, às teorias existentes do crime. Para o criminologista, essas teorias se baseiam em uma amostra enviesada, vez que esse tipo de crime aparece em proporções mínimas nos números da criminalidade oficial, mas essa mesma proporção não condiz com a realidade, onde os mesmos são recorrentes e cometidos sobretudo por pessoas provenientes de classes sociais mais abastadas ou em condições de prestígio social, como políticos e grandes empresários/administradores.

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proteção às elites – em especial às políticas –, é lícito, então, afirmar que o olhar crítico das relações de produção teve pouco espaço diante de uma racionalidade primordialmente técnica, que cumpriria o papel de instrumentalizar a coerção e responder às específicas necessidades de aprimoramento na missão de salvaguarda dos poderosos (117).

É, então, nesse cenário esquizofrênico e que “a violência cresce e a democracia agoniza”, marcado pelo controle social por meio dos sistemas penais, que não há espaço para as medidas preventivas. Isso porque “a sociedade atribui à polícia um papel principalmente repressivo e punitivo e, somente de forma secundária, uma ação preventiva” (OLIVEIRA, 2002, p. 245). Assim, na medida em que a democracia no Brasil se revela como um “projeto inacabado”,

os policiais, como membros da sociedade, são mais receptivos aos valores que tenham reconhecimento social que aos valores defendidos em termos estritamente ético-legais, mas sem legitimidade efetiva no imaginário de uma parte dos brasileiros (como é o caso do respeito aos direitos dos presos). Ou seja, embora isso não explique tudo, não se pode perder de vista que muitas das práticas policiais ilegais têm uma aceitação tácita por parte da população brasileira (ibdem, p. 159).

Para além das reflexões acima elencadas a respeito da função da polícia e suas distorções ser/dever ser, não pode-se olvidar que a Segurança Pública, na forma como ela se apresenta no Brasil hoje, com dito anteriormente, está indissoluvelmente ligada ao sentimento de insegurança provocado pelo aumento da violência.

Difícil é, no entanto, conceber uma humanidade livre da violência, sendo que em breve visita à doutrinas filosóficas e religiosas, observa-se o mal como intrínseco à natureza humana (a da tradição judaico-cristã justifica, que enuncia o pecado original, que teria quebrado a harmonia entre terra e paraíso, trazendo a violência ao mundo. Uma das primeiras narrações bíblicas dá conta de um fratricídio: Caim mata o irmão Abel. Aqui se enquadra o contrato social em Hobbes, que acredita que o homem é naturalmente ruim, cabendo ao Estado (Leviatã) impor comportamento adequado à vida em sociedade e, por conseguinte, as sanções cabíveis.

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Faz-se pertinente nesse momento, distinguir violência de criminalidade16, uma vez que enquanto essa pode ser entendida como um “fenômeno de desvio e de estigmatização social”, aquela, “ao menos quando atinge os níveis atuais no País – é antes de tudo uma questão de crise de sociabilidade”17 (NEVES, 2002, p. 145).

À respeito das peculiaridades do fenômeno da criminalidade e da violência no Brasil, o sociólogo Paulo Sérgio da Costa Neves destaca as “causas históricas e sociais muito profundas que não são passíveis de resolução com a simples ação policial”, sendo que a primeira poderia ser compreendida “como uma forma de sociabilidade que se cria entre indivíduos marginalizados pela sociedade”, uma vez que esses veriam no crime “ uma forma não só de aumentar seus recursos materiais, como também de reforçar certos elos sociais”.

Independente de sua origem, como ensinam Tosi e Silva (2002), a violência e criminalidade devem ser contidas – e não apenas por meio da punição, mas também da prevenção, como conscientização pública, uma vez que é por meio das ações preventivas que “a polícia e a comunidade exercitam o diálogo e utilizam as armas da crítica deixando de lado, por um momento, a crítica das armas” (p. 245).

Assim, quanto à necessária e criticada instituição da Polícia, há que se salientar que existe um esforço em se adequar às transformações sociais por meio de incorporação de novas demandas em deu Regimento, por exemplo, embora por meio de conteúdo meramente “programático para formação de

16

Enquanto a criminalidade, na maior parte do tempo, envolve a formação de elos societários entre grupos marginalizados, a violência socialmente difusa expressa apenas a anomia social. Além disso, há de se levar em conta que existem formas não violentas de crimes (os chamados crimes de colarinho branco, por exemplo) e violências que não são tipificadas como crimes pela sociedade (o uso da força pelos poderes constituídos). Sem contar que podemos falar, também, em formas de violências cotidianas que normalmente não são concebidas como tal. Assim é com a violência impetrada pelo Estado contra a população mais carente no que concerne ao não-cumprimento de suas responsabilidades em termos de educação, saúde, Segurança Pública (NEVES, 2002, p. 147)

17

Em outro sentido, recorremos aos escritos de Freud nos anos 1830, que dão conta de um “mal-estar na civilização”, moderna decorrente da abdicação do homem de sua natureza, seus instintos, liberdades e prazeres. Nesse contexto, a segurança só é possível em uma sociedade delimitada por uma ordem vigente, em que os elementos renunciados pelo homem configuram ameaça à ordem. A instabilidade desse estado de paz social está presente em todas as esferas (trabalho, relações afetivas etc), sendo as reivindicações do âmbito da Segurança Pública apenas fração de um todo. Esse mal-estar, denominado por Buarque (1991) como “ressentimento social”, estaria na origem de casos de violência gratuita. Some-se a isso o contexto de sociedade de risco, enunciado por Ulrich Beck, em que as ameaças são iminentes.

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policial e em uma prática que se apresenta como rígida e invulnerável a qualquer reestruturação, principalmente dos contrapontos resultantes das percepções de diferentes grupos sociais”18

.

A instituição teria absorvido, nas palavras de Neves, “ideologia individualista que perpassa nos discursos centrados na lógica do mercado” entre os ideais de coletividade e comunidade seriam incabíveis. Sob a lógica do Estado mínimo, ao combater o corporativismo e o autoritarismo, no entendimento do sociólogo, o Brasil teria também perdido de vista o “espírito público”, não apenas nesse órgão, mas como em todo seu aparato estatal19

. Como agravante, destaca-se o fato de que alguns direitos, constitucionalmente garantidos para todos os cidadãos (ainda que no plano meramente fictício), não conferidos aos militares por meio de sua legislação específica (DECRETO-LEI Nº 1.001/1969) – ou seja, alguns direitos conferidos a outros trabalhadores, ainda que simbólicos, não são conferidos aos militares “nem no papel”. A aberração é ainda mais evidente ao tratar de violação a direitos humanos por civis e policiais, sendo que os últimos, quando envolvidos em chacinas, massacres, execuções sumárias, tortura etc, são defendidos por legislação específica que lhe garantem juízo especial, quando deveria ser devidamente punido.

Como último caractere da instituição em tela, enunciemos a militarização, definida por Bobbio (1995, p. 748) como “interesses, ações e pensamentos associados com o uso de armas e com a guerra, mas que transcende os objetivos puramente militares”20

.

18 “Seu caráter histórico propicia a negação – não no discurso (sempre atualizado e

sintonizado, ao modo da instituição, com as transformações da sociedade), mas na atuação – a qualquer abertura, a qualquer possibilidade de ampliação da visão de mundo principalmente no que se refere à construção cidadão/policial” (SILVA, p. 136).

19

Ou seja, a situação atual das polícias não seria nada mais, nada menos do que a imagem refletida das práticas cotidianas do sistema judiciário e político, marcadas pela corrupção e pela arbitrariedade. Com isso, admitia-se que as práticas ilegais dos policiais seriam uma consequência das práticas de outros agentes públicos (p. 157).

20 Nas palavras de Oliveira, “o problema não é ser militar, mas sim o „atrelamento das Polícias

Militares às Forças Armadas‟; e na formulação da Constituição Federal de 1988, a proposta inicial era que as Polícias Militares não continuariam sendo controladas pelo Exército, contudo, depois da pressão de diversos parlamentares, aqui incluído o deputado Ricardo Fiúza (PFL-PE), o controle foi mantido (Zaverucha, 1998, p. 124). Explicamos, ainda, que institucionalmente os militares do Exército são responsáveis pela ordem interna e externa, e os policiais militares são forças auxiliares do Exército mesmo em tempo de paz. Em países democráticos, ocorre o inverso. O que a Constituição de 1988 permitiu foi o fortalecimento da autonomia das Forças Armadas” (2002, p. 197).

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No entanto, para além das questões concernentes à instituição policial, alguns outros paradoxos entre violência e democracia também podem ser extraídos das observações de Dalrymple, decorrentes da conjugação do multiculturalismo e as pautas de Segurança Pública, uma vez que em uma sociedade cada vez mais dividida, “muitas vezes surgem conflitos entre os indivíduos e grupos por padrões culturais, crenças e expectativas diferentes” (2014, p. 49-50).

Com esta passagem percebe-se o quanto o mito da democracia e do multiculturalismo, gera falsamente a ideia de que as pessoas vão se respeitar mais e a violência entraria em declínio. Pelo contrário, o que se observa é que os conflitos não desaparecem porque se permitem a conjugação de várias crenças e etnias ao mesmo tempo, os choques culturais continuam existindo. Principalmente em se tratando de violência gerada por intolerância religiosa. Como bem acentua Dalrymple, “a tolerância religiosa não é um valor universalmente admirado. Não só ela não é imitada ou praticada, como o ceticismo polido, ou seja, a indicação de uma absoluta falta de fé, é visto por muitos como anátema” (2014, p. 55).

Cabe destacar aqui, que a ênfase nos direitos fundamentais nos últimos anos, proclamada pelos grupos sociais, em especial, à igualdade de gêneros e à liberdade sexual21, também não representou de forma alguma o fim da violência física e sexual22 contra a mulher.

Outro resquício grave deste abrandamento de imposições sociais, dado o respeito à diversidade cultural e das diferenças nos processos de

21 “(....) todos estes entusiastas acreditavam que, se as relações sexuais pudessem ser

libertadas das inibições sociais artificiais e das restrições legais, algo belo surgiria (...) o conflito e a desigualdade entre os sexos desapareceriam, porque todos teriam aquilo que ele ou ela quisessem, quando ele ou ela quisessem. Os motivos das emoções burguesas triviais, como o ciúme e inveja, desapareceriam: num mundo de perfeita satisfação, cada pessoa seria tão feliz quanto a oura (DALRYMPLE, 2014, p. 63-65). O referido autor bem aponta que, o programa “revolucionário” de libertação sexual foi mais ou menos aceito, principalmente pelas classes menos abastadas, porém, o motivo pelo qual ainda assim a violência aumentou, se deve ao ciúme, decorrente da tensão entre: de um lado as pessoas querem liberdade sexual, mas de outro querem fidelidade sexual, o resultado é a excitação pelo ciúme, “o precipitador mais frequente da violência entre os sexos” (DALRYMPLE, 2014, p. 65). Aliás, destaca Dalrymple (2014, p. 69) que o papel destes movimentos de liberação sexual levou ao enfraquecimento dos laços familiares, e, por conseguinte, a uma estabilidade que fazia com que muitas pessoas saíssem da zona de pobreza.

22

A citar como prova dos delitos sexuais, de 2012 para 2014, comparando-se os dados do Anuário de Segurança Pública, percebe-se quem em 2013 foram registrados 50.320 estupros e em 2012 haviam sido registrados 50.224 casos. Mas o mais alarmante é que apenas 35% das vítimas relatam à Polícia terem sido vítimas de estupro, o que torna o número real muito maior.

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aprendizagem, se deu numa das áreas consideradas a mais elementar na evitação dos crimes: a educação. Como bem adverte Dalrymple: “no passado a ignorância era puramente passiva; mera ausência de conhecimento. Recentemente, no entanto, assumiu uma qualidade mais positiva e maligna: uma profunda aversão por qualquer coisa que cheire à inteligência, educação ou cultura” (2014, p. 91).

Com esta passagem, Dalrymple enfatiza que o semianalfabetismo e a ignorância não têm impedido os jovens de serem aprovados na maioria das escolas inglesas, e, no Brasil, este cenário não é diferente. Com as “novas” tendências da pedagogia em se explorar ao máximo a criatividade e a autoexpressão humana, erros de português e outras incoerências dos alunos não podem ser objeto de correção. Duramente, Dalrymple critica que esta cultura da não punição só acaba por deixar os indivíduos mais inflados nos seus egos, querendo impor suas vontades uns aos outros: “o que a criança certamente nunca aprenderá, no entanto, é que a disciplina tem um significado além da capacidade física (...)” (DALRYMPLE, 2014, p. 95).

4. O FUTURO DA SEGURANÇA PÚBLICA: NECESSIDADE DE VISÃO MAIS PRAGMÁTICA

Para além de um dos grandes entraves para se tratar dos problemas relacionados à Segurança Pública, são a tendenciosidade de seus dados. Muitas vezes, em razão dos problemas das amostragens, destaca-se mais o papel de uma espécie de crimes ou da classe de pessoas, o que nem sempre, confere com a realidade. Entretanto, ainda deve-se recorrer às estatísticas como ponto de parâmetro para qualquer programa de Segurança Pública.

Há que se ter em mente que as estatísticas criminais encontram-se envoltas em atribuído ao conceito de cifra oculta ou cifra negra, que no caso dos crimes de colarinho branco correspondem às cifras douradas. Figuram entre os crimes que não são punidos ou que sequer chegam ao conhecimento das autoridades competentes, os crimes fiscais, financeiros, contra o meio ambiente e outros cometidos por estratos mais privilegiados da sociedade, seja porque esses crimes ou as pessoas que os cometem não são estigmatizadas e

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selecionadas pelo sistema penal, seja porque dispõem de recursos que os blindam das sanções23.

Assim, adverte Dalrymple (2014, p. 265): “a experiência de todos nós está fundamentada em amostras tendenciosas”. Veja-se por exemplo, dados do Anuário da Segurança Pública (LIMA et all.(org.), 2014-2013) em contraste com os apontados pela Política Nacional de Segurança Pública. Nestes, se revelam a “democratização” da violência criminal, ou seja, que esta atinge todos os estamentos sociais, sendo que a insegurança é algo partilhado.

Desse problema, decorre outro, porque em não havendo estatísticas fidedignas que auxiliem ao desenvolvimento de políticas públicas, as mesmas acabam se direcionando de maneira orientada por um desenho descolado da realidade. Silva (2002) adverte, nesse sentido, que “falar de público e espaço exige um mapeamento dos objetivos, das necessidades e da aplicabilidade posterior de quem solicita, bem como dos objetivos, das metas e perspectivas de quem oferece” (p. 141), sendo necessário “estabelecer a simbiose entre o ser e o agir, dentro do contexto coletivo” (p. 146).

Salienta pertinentemente Dalrymple, no entanto, que tanto o sistema penal, quanto as estatísticas acerca das questões criminais, não são insuscetíveis a erros: “qualquer sistema que lide com um grande número de casos irá, ocasionalmente, cometer erros, e até erros graves, já que as instituições humanas são imperfeitas” (2014, p. 221).

Sobre as causas da criminalidade mais amplamente justificadas pelos acadêmicos hodiernamente, tem-se que, de um lado, “todos somos criminosos; e quando todos são culpados, todos são inocentes” (DALRYMPLE, 2014, p. 226). O segundo argumento, de cunho marxista, é que a lei penal não possui conteúdos meramente morais, sendo, na verdade, uma fonte de expressão de poder de certos grupos de interesse.

No entanto, se ninguém é imune à violência criminal, certamente, políticas públicas que protegem unicamente as elites, não podem subsistir.

23 A sociedade, em sua totalidade, não sabe que determinados crimes não são

combatidos pela polícia, pois geralmente a opinião pública só questiona os crimes mais visíveis, como “assaltos e homicídios”. O universo da sociedade, mesmo alguns setores não aceitando a ação policial democrática liberal, tem a falsa idéia de que o crime está sendo combatido no todo social. E na verdade, não está (OLIVEIRA, 2012, p. 201).

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Outro fator apontado pelos dados pesquisados é o caráter de truculência das polícias sobre as periferias (BISCAIA, 2010). Neste mesmo sentido, já havia apontado Janaína Paschoal (2002), relatando que só se costuma tornar extremamente grave e passível de tomada de atitude repressivo-penal em relação à Segurança Pública, se um delito é praticado contra as elites.

Assim, é necessário lançar um olhar as instituições penais, especialmente a Polícia24, cujas mazelas devem ser enfrentadas emergencialmente, visto que sua ação é a própria materialização das políticas de Segurança Pública. A população em geral, conforme mandamento constitucional, também deve se responsabilizar e se integrar às políticas de Segurança Pública, superando os desafios do multiculturalismo e fomentando a educação como via de saída da atual crise de sociabilidade (cf. DARLYMPLE, 2014; BAUMAN, 1998).

Em sentido semelhante, Zaluar alerta para a necessidade de refazer os circuitos da reciprocidade positiva25, de forma a colocar a questão da Segurança Pública no centro das discussões e ações sociais como condição irrenunciável à consolidação da Democracia.

Assim, a segurança é um bem não apenas desejado, mas necessário em uma sociedade democrática, um direito fundamental, necessário à concretização da cidadania. Portanto, democrática como deve ser, a segurança

24

Para Ferreri (2002), o famigerado maniqueísmo polícia x sociedade, precisa estar na pauta da literatura especializada, estudiosos do assunto, educadores e sociedade em geral (sob uma perspectiva crítica), tendo em vista que “a reflexão sobre a missão policial é, na verdade, ponto central de qualquer ação voltada para a problemática de Segurança Pública” (p. 114).

25

Refazer os circuitos da reciprocidade positiva significa integrar a população nas próprias atividades da Segurança Pública. Uma estratégia que não negue o conflito, e sim socialize os jovens na forma mais civilizada de lidar com ele, o que inclui os jovens que aderem às forças policiais. É preciso mais atenção à pedagogia e à formação oferecida nas escolas e quartéis no que diz respeito à socialização (2002, p. 23) para uma sociedade em que a civilidade, a confiança mútua e a previsibilidade dão as condições básicas para novos arranjos e práticas sociais. A participação é importante na medida em que não há segurança sem que as pessoas compreendam os perigos e riscos que correm e façam, elas mesmas, o que podem para controlá-los ou evitá-los. A participação é igualmente importante, pois é o que permite passar da normatividade burocrática e autoritária para uma normatização melhor aceita pelos que devem internalizar e praticar suas regras. Bairrismos só atrapalham. Preparar cidadãos e policiais para a cooperação que se faz mais que imprescindível é condição sine qua non. O modelo da polícia comunitária não funciona onde os traficantes controlam militarmente o território e impõem medo aos moradores. O alcance do trabalho policial é pequeno e ainda se expõe a acusações de conluio com os criminosos, Antes, faz-se preciso tirar as pessoas de seus refúgios privados, onde se aprisionam naquilo que N. Elias chamou de homo clausus e H. Arendt, a solidão organizada, base do totalitarismo moderno. Esse é o grande desafio e o grande passo a ser dado no Brasil, em todos os seus estados, em todos os pequenos, médios e grandes municípios (2002, p. 24).

(21)

deve alcançar a todos, e não a uns poucos privilegiados – do contrário, ela não será uma realidade para ninguém no país. Indubitavelmente necessária, a conciliação entre Segurança Pública e Democracia, nesses moldes, há que ser entendida para além da obrigação constitucional do Estado, mas também, como dito, como responsabilidade dos cidadãos (BISCAIA, 2010).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante dos levantamentos realizados e, sobejamente com os esclarecimentos críticos, sobejamente após a leitura de Theodore Dalrymple, médico psiquiatra que atuou em diversos presídios ao longo de sua carreira, alguns dogmas tradicionais sobre crime, Segurança Pública e criminalidade puderam ser rechaçados ao longo deste estudo.

O primeiro ponto a ser considerado é, de fato, a atual situação de insegurança social gerada pela complexidade de interações típicas da globalização e advindas do neoliberalismo econômico. Não se refuta, aqui, que vivemos uma sociedade diversa dos moldes clássicos da modernidade, porém, vários dos riscos gerados foram fruto da própria ambição humana, na tentativa de alcançar o máximo de satisfação hedonística (busca por prazeres, pelo fim de padrões tidos como antigos etc.). Esta ausência de ordem social, gera sim, uma sensação de insegurança.

Entretanto, muito se percebe que parte desta insegurança é real, e parte é meramente subjetiva, e, portanto, irreal, muitas vezes fomentada pela cultura do medo como requisito disciplinar e de legitimação de controle social.

Este discurso, entretanto, não pode ser levado às últimas consequências, nem para o bem, nem para o mal. Por exemplo, não se pode simplesmente negar os riscos advindos da instalação de uma empresa que utilize de partículas nucleares, como também não se deve alardear que a violência aumentou simplesmente por dados noticiados nas redes de comunicação. Alguns riscos são reais, outros meramente disuassórios para possibilitar maior controle social.

O segundo ponto conclusivo, é acerca dos discursos criminológicos que ganharam força nos últimos anos. A grande matriz dos mesmos é de ordem “Crítica” ou “Radical” ou ainda “Liberal”. Com base nestes estudos,

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deslegitima-se a atuação do sistema penal, seja pelo fracasso das funções preventivas das penas, seja pelo descrédito ao papel dos órgãos de controle, por acreditar-se, numa postura marxista, de que o crime é apenas um produto de um processo de dominação de classes dominantes. Este discurso, ainda que tenha sido muito útil para dar viés a políticas criminais mais adequadas, de redução da utilização da pena privativa de liberdade e substituição por formas não-penais de controle, promove, sem sombra de dúvidas, um desmérito muito grande por parte daqueles que fazem parte dos órgão da Segurança Pública, como a polícia e seus agentes.

Em outras palavras, a generalização dos discursos criminológicos críticos, serve, como técnica de neutralização das classes oprimidas que cometeram crimes, contra as autoridades que as prenderam e lhes aplicaram as leis. Ou seja, sente-se, hodiernamente, que os discursos criminológicos possuem uma grande “simpatia” pelos criminosos, tentando amenizar, de alguma forma, o delito que cometeram, em razão das abnegações sociais por eles sofridas, dadas à sua predominante origem social ser subalterna.

Um outro ponto a ser considerado, a partir das leituras realizadas para este trabalho, notadamente as de Teresa Caldeira, Zaluar, Adorno, Bauman e Theodor Dalrymple, foi de analisar o difícil contexto da Segurança Pública nos Estados de Direito Contemporâneos: ao mesmo tempo que se amplia as lutas por novos direitos, a democratização e participação popular, também cresce a violência, que, ao contrário, esperava-se ser evitada pelo maior discernimento e educação cívica das pessoas.

Dalrymple sintetizou, claramente, os efeitos adversos dos discursos democraticistas, libertinos, progressistas em diversas situações, como nos casos da violência de gênero, sexual e do acesso à educação (reformada atualmente por pretensões de uma “nova” pedagogia). Essa “inflação” de direitos nem sempre esteve atrelada às obrigações que cada ente possui na sociedade. O papel crucial de que cada um de nós possui, as responsabilidades pessoais, as contribuições que temos com algumas situações, seja no sentido de evitar com que elas aconteçam ou minimizar seus efeitos danosos, é simplesmente relegado. Em outras palavras, as pessoas querem exigir direitos, como o Direito à Segurança Pública, mas não contribuem, de forma individual, para que os delitos não ocorram.

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Estas teorizações progressistas e liberais de mais, por vezes, geraram resultados desastrosos, mais do que se as velhas tradições tivessem sido mantidas. Um exemplo, como dito, foi a mudança do enfoque da educação nas escolas, que deixou os indivíduos mais semianalfabetos do que a educação que era dada outrora. Além disso, gerou-se um descrédito à disciplina nas escolas, como se elas fossem transgressoras de direitos individuais.

Ou seja, a necessidade de disciplina, em qualquer contexto, é necessária. Assumir as próprias responsabilidades, também.

A Segurança Pública não pode, simplesmente, ser encarada como um dever do Estado isolado da contribuição individual de que cada um possui, ao ser responsável pelos seus atos e procurar, na medida do possível, não se justificar pelas mazelas sociais, aguardando sempre a postura de um “Estado Providência” ou “Estado que tudo provê”. Esta sensação de provimento estatal retira dos indivíduos a capacidade de, por si mesmos, buscarem a sua própria felicidade, lembrando sempre, que felicidade e responsabilidade caminham juntas.

Acredita-se que o papel da Segurança Pública neste contexto de democratização e “inflação” de direitos não é fácil, até porque, ela passa a ser considerada um produto, do qual as pessoas, na mesma lógica, querem, e, descartam, com rapidez, a sua utilidade social e o seu respeito. Em outras palavras, as pessoas são altamente paradoxais no atual cenário social: querem um Programa de Segurança Pública extremamente eficiente, mas, ao mesmo tempo, criticam o papel da Polícia se lhes desagrada em suas particulares acepções.

A visão da Segurança Pública, para a modernidade, deve, no caminho que aqui se intentou percorrer, de um sistema que busque a ordem social com maior participação comunitária, mesmo que isso ainda se apresente tortuoso ou de difícil conjugação, até porque, o viés democrático, por mais que gere conflitos, parte da consagração da liberdade. O que não se pode, contudo, é pensar na pauta de Segurança Pública apenas como proteção de liberdades, mas que, em parceria, toda a comunidade assuma responsabilidades e atue dentro dos moldes disciplinarmente adequado para a consecução de resultados mais satisfatórios.

(24)

E, por fim, não só na Segurança Pública, mas em qualquer situação, as generalizações de teorias ou de conceitos, dados ou informações, em visões monolíticas, sempre parecem arraigadas de um vício que lhes é próprio, o vício de chegar a cometer absurdos e extremismos. Todo assunto que pertence à sociedade, deve, no mínimo, contar com a maior leitura de dados possível, todo unilateralismo das ideias goza de incongruências. Principalmente, quando estas incongruências advêm de cenários academicistas, que, pela atribuição de serem adotados com padrões “científicos”, são muito mais perniciosos, por influenciarem uma maior quantidade de pessoas em termos de credibilidade.

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