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(2) ©2009 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais.. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ G612L Gomes, Anderson Soares Literatura norte-americana / Anderson Soares Gomes. – Curitiba, PR: IESDE Brasil, 2009. 216 p. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-0383-9 1. Literatura americana - História e crítica. 2. Literatura americana - Aspectos sociais. 3. Literatura e história - Estados Unidos. 4. Estados Unidos - História. 5. Cultura - Estados Unidos. I. Inteligência Educacional e Sistemas de Ensino. II. Título. 09-2430. CDD: 810.9 CDU: 821.111(73).09. Capa: IESDE Brasil S.A. Imagem da capa: Júpiter Images. Todos os direitos reservados.. IESDE Brasil S.A.. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br.
(3) Anderson Soares Gomes. Doutor em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRio), Mestre em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Bacharel em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)..
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(5) Sumário Literatura colonial e a América puritana........................... 11 A chegada do Mayflower......................................................................................................... 12 O estabelecimento das treze colônias................................................................................ 14 A literatura colonial: o puritanismo e o Great Awakening............................................ 18. O período revolucionário....................................................... 29 Os conflitos com a Inglaterra e a luta pela independência......................................... 29 Os “Pais Fundadores”................................................................................................................. 33 Os textos revolucionários........................................................................................................ 37. A prosa romântica..................................................................... 47 O ideal romântico e a construção da identidade norte-americana......................... 47 O transcendentalismo.............................................................................................................. 52 A inspiração gótica.................................................................................................................... 59. A poesia romântica................................................................... 69 A poesia de Edgar Allan Poe................................................................................................... 69 Walt Whitman: a busca por uma voz norte-americana................................................ 73 Emily Dickinson: a poesia de cunho metafísico.............................................................. 76.
(6) A Guerra Civil e a literatura correspondente................... 87 Diferenças entre o norte e o sul dos EUA.......................................................................... 87 A escravidão e os textos abolicionistas.............................................................................. 90 Consequências do conflito: textos literários de temática da Guerra Civil............. 95. O Realismo norte-americano..............................................103 As mudanças socioeconômicas..........................................................................................104 Uma voz nacional: Mark Twain............................................................................................107 O Naturalismo............................................................................................................................112 Henry James: a literatura entre os Estados Unidos e a Europa................................116. A prosa norte-americana na 1.ª metade do século XX.................................................125 F. Scott Fitzgerald e a Jazz Age.............................................................................................126 Ernest Hemingway e a precisão da escrita......................................................................130 William Faulkner e a tradição sulista.................................................................................133 John Steinbeck e a Grande Depressão.............................................................................136. A poesia norte-americana na 1.ª metade do século XX.................................................147 Robert Frost: a natureza como poesia..............................................................................147 T.S. Eliot & Ezra Pound: trilhando caminhos modernos..............................................151 Elizabeth Bishop e sua relação com o Brasil...................................................................158.
(7) O teatro e as vertentes da prosa norte-americana na 2.ª metade do século XX.........................167 O teatro de Arthur Miller e Tennessee Williams............................................................168 A ascensão da literatura afro-americana.........................................................................174 Inovações na prosa: J.D. Salinger e New Journalism....................................................178. Possibilidades de ensino de literatura norte-americana no ensino médio...................................189 A obra literária como produto de um momento histórico........................................190 Abordagens para o ensino da literatura norte-americana........................................194. Gabarito......................................................................................205. Referências.................................................................................213.
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(9) Apresentação No mundo contemporâneo, onde a cultura norte-americana se encontra praticamente onipresente nas formas de expressão ocidentais, é cada vez mais importante investigar as maneiras através das quais os Estados Unidos se desenvolveram (historicamente, socialmente e artisticamente) de colônia inglesa à maior potência mundial. Tal desenvolvimento pode ser visto especialmente através de sua literatura. É na literatura norte-americana que podemos aquilatar a quase totalidade do processo histórico cultural dos Estados Unidos. A partir de seus principais textos (ficcionais ou não) e do pensamento de seus autores mais significativos, é possível compreender como a identidade norte-americana foi sendo construída através dos séculos. Este material, portanto, se propõe como um estudo das mais relevantes obras literárias produzidas nos Estados Unidos numa perspectiva histórico-social, para assim se traçar um panorama do “homem norte-americano” – seus valores, suas formas de expressão e sua visão de mundo. Veremos neste trabalho a criação de um ideal para a América através da literatura, começando com a saída dos peregrinos da Inglaterra e seu estabelecimento nas treze colônias. Analisaremos então o processo de independência norte-americano, suas ideologias, seus principais nomes e textos. Assim, vamos estudar como se deu a consolidação dos Estados Unidos através da literatura, passando pelo período da Guerra Civil, o Romantismo e o Realismo. Por fim, no século XX, trataremos da ascensão de novos estilos literários que se tornaram essenciais para o reconhecimento da escrita norte-americana como uma das mais representativas da contemporaneidade. O presente trabalho também abordará como a literatura dos Estados Unidos se relaciona com outras formas de representação artísticas, como o cinema, a música e o teatro. Dessa forma, será possível estabelecer uma ampla perspectiva das mudanças e do desenvolvimento da cultura norte-americana. Que este trabalho sirva de inspiração e estímulo para que futuros profissionais da área de Letras possam, de forma crítica e complexa, percorrer os sinuosos – porém enriquecedores – caminhos traçados pelos principais nomes da literatura produzida nos Estados Unidos. Anderson Soares Gomes.
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(11) Literatura colonial e a América puritana Refletir sobre as expressões literárias da cultura norte-americana é, mesmo que de forma subconsciente e intrínseca, refletir sobre a própria natureza do nome do país que lhe deu origem. Os Estados Unidos da América são um país que já em seu nome, no plural, prenunciam uma natureza múltipla e variada, indicador que a formação de seu território, seu povo e sua identidade foi construída através da união de objetivos comuns e superação de diferenças. Uma das poucas nações do mundo reconhecida por uma sigla (EUA, ou “USA” em inglês), os Estados Unidos também têm por hábito referirem-se a si próprios como “América”, e seus cidadãos como americanos. Se o fato de se intitular “América” acaba gerando uma insatisfação por parte de seus vizinhos da América Central e da América do Sul, não há como negar que os Estados Unidos acabaram criando um novo significado para o termo “América”, que ultrapassa os limites geográficos: a América é a terra da democracia, da liberdade individual e da oportunidade. É claro, contudo, que nem sempre foi assim. Apesar de existirem evidências de que o território da América do Norte já havia sido visitado pelos vikings no século IX, é apenas com Cristóvão Colombo, em 1492, que a Europa finalmente descobre o novo continente. A Inglaterra a princípio ocupa um papel secundário na ocupação da América, já que Portugal e Espanha tomam para si a maior parte do território. Inicialmente, os ingleses se dedicam à pirataria, roubando ouro e prata de navios espanhóis e portugueses. Posteriormente, no entanto, a Inglaterra concentra-se na exploração e investigação do território do Novo Mundo. Primeiramente com John Cabot e depois com Walter Raleigh (que nomeia a região a que chega de Virgínia, em homenagem à rainha Elizabeth I, a “rainha virgem”), há uma tentativa real de colonização da América do Norte por parte dos ingleses. Porém, as situações extremas a que esses primeiros colonos foram submetidos (doenças, ataques de nativos, fome) puseram fim a esse primeiro esboço de uma colônia de domínio inglês na América..
(12) Literatura Norte-Americana. Com outro monarca no poder (James I), a Inglaterra tenta novamente implantar uma colônia na América. A estratégia e a natureza desta nova empreitada, no entanto, são diferentes daquelas usadas durante o reinado de Elizabeth I. Ao invés de nobres desbravadores, esses novos colonizadores eram representantes de empresas inglesas que, num esquema pré-capitalista, tinham autorização da Coroa para explorar as terras do Novo Mundo. Assim, os ingleses finalmente alcançam o sucesso em seu processo de colonização e uma nova fase começa para a América do Norte.. A chegada do Mayflower. Domínio público.. O primeiro povoado inglês de caráter permanente na América do Norte foi Jamestown (assim chamado em homenagem ao rei James I), na Virgínia em 1607. Patrocinado pela Virginia Company of London, Jamestown tem outro significado muito especial: um dos colonos do povoado foi John Smith (1580-1631), um dos mais importantes personagens da história colonial norte-americana.. John Smith.. John Smith foi um capitão inglês que, através de seus textos e sua fabulosa biografia, definiu o perfil dos primeiros colonos americanos: aventureiro, des12.
(13) Literatura colonial e a América puritana. temido e promotor das belezas e das promessas do Novo Mundo. Em sua produção textual sobre a América (de cunho notadamente propagandista, já que havia enorme interesse em atrair mais e mais colonos ingleses para o novo continente), Smith cria cenários, eventos e personagens de natureza quase mítica, que servem de fundação não só para a literatura, mas também para a identidade norte-americana. A América de John Smith é a “terra de oportunidades”, expressão que até hoje ecoa na mente daqueles que buscam nos Estados Unidos um horizonte para um futuro de prosperidade. O trabalho mais significativo de Smith é The General History of Virginia. Esta obra, escrita quando Smith já havia retornado à Europa, serve não só como registro de sua permanência na colônia, mas também como artifício para tornar o novo continente um lugar atraente para prováveis novos exploradores. É com esse trabalho que Smith consolida a visão da América como o lugar da riqueza abundante, da vida selvagem, dos prazeres e da liberdade individual. Também é em The General History of Virginia que John Smith conta uma das mais famosas narrativas da história norte-americana: sua aventura romântica com a índia Pocahontas. O livro relata como Smith foi capturado por índios liderados pelo chefe índio Powhatan e feito prisioneiro. Pouco antes de ser morto pelos indígenas, a filha de Powhatan, Pocahontas, se coloca entre Smith e os índios e salva o capitão inglês da morte. A partir daí é construída uma narrativa que indica uma história de amor entre os dois, já que a princesa indígena se torna responsável por um maior contato entre sua tribo e os ingleses. Essa história de amor, no entanto, não tem um final feliz: Pocahontas se casa com outro homem – um agricultor inglês – e vai para a Inglaterra, aceitando a fé cristã. Diz-se que lá viveu infeliz, alimentando um desejo de retornar à América até o momento de sua morte. Atualmente, por mais que a história de John Smith e Pocahontas seja questionada por historiadores, e que muito da narrativa de The General History of Virginia seja vista como ficção, não há como negar que o possível amor entre o capitão inglês e a princesa indígena representou, de forma mitológica, a possibilidade de união e prosperidade entre povos tão diferentes nesse Novo Mundo. Os textos de John Smith sobre essa nova terra repleta de riquezas e oportunidades em muito serviam para criar expectativas em futuros colonos. Contudo, essa produção de literatura propagandista não foi a única razão para a ida de ingleses para a América. Na Inglaterra, o crescimento das cidades com o êxodo rural estava criando um excedente de mão de obra que não interessava à Coroa. Órfãos e pessoas muito pobres (indo trabalhar em condições de semiescravidão) 13.
(14) Literatura Norte-Americana. também partiam em direção ao Novo Mundo. A ida de ingleses para a América não era apenas uma busca por melhor qualidade de vida, mas também uma fuga da situação econômico-social predatória em que se encontravam as classes menos favorecidas. Outro fator importantíssimo para a ida de ingleses para o novo continente foi a perseguição religiosa. A Inglaterra, desde o reinado de Henrique VIII, tem o anglicanismo como sua religião oficial. A criação da igreja anglicana coloca diferentes grupos religiosos em conflito com a Coroa inglesa, em especial os puritanos, assim chamados porque acreditavam numa igreja mais simples e pura, e que tinham como base os textos de Calvino escritos durante a Reforma Protestante. Exercer sua fé na Inglaterra se tornava cada vez mais difícil, já que aqueles que não praticavam a religião anglicana passaram a ser perseguidos, sendo puníveis até mesmo com a pena de morte. Depois de uma tentativa fracassada de estabelecimento na Holanda, os seguidores do puritanismo partem então para o Novo Mundo. Em 1620 chega ao porto de Plymouth, em Massachusetts, o Mayflower – navio inglês que traz o primeiro grupo de “peregrinos” para o novo continente. Esses colonos, conhecidos historicamente como Pilgrim Fathers (Pais Peregrinos) serão responsáveis por formar a primeira fase da identidade norte-americana e seus ensinamentos permanecem no imaginário dos Estados Unidos até hoje. Esses peregrinos chegam à America determinados a fazer da América a “Terra Prometida”, um novo começo para a história e para sua religião. Ao mesmo tempo buscando a concretização de sua fé e um despertar de um novo ideal de sociedade, esses peregrinos – assim chamados porque acentua sua natureza religiosa – são os pastores, professores e empreendedores responsáveis pelo sucesso da colonização na América do Norte.. O estabelecimento das treze colônias É preciso fazer uma importante distinção aqui no que concerne à colonização ibérica (Portugal e Espanha) e à colonização inglesa. Portugueses e espanhóis tinham um modelo de conquista do novo território claramente mais exploratório, o que fazia com que as regiões sob o seu controle (a América Central, a América do Sul e até mesmo algumas partes da América do Norte, como a Flórida) fossem vistas como grandes áreas de extração de riquezas para serem enviadas para a Europa. A colonização inglesa na América do Norte, por outro lado, tinha 14.
(15) Literatura colonial e a América puritana. como objetivo central o povoamento daquela região, especialmente porque a partir da chegada do Mayflower, as pessoas que chegavam àquela terra pouco conhecida estavam em busca de um novo recomeço, longe das problemáticas religiosas que tanto sofriam no velho continente. A terra é conquistada para se morar nela. No entanto, pode-se dizer que esses diferentes modelos de colonização não eram em sua totalidade apenas de exploração ou apenas de povoamento. Nas regiões controladas por portugueses e espanhóis, mesmo para extrair o ouro, a prata ou pau-brasil, existia a necessidade de criação de cidades (como o Rio de Janeiro ou a Cidade do México) e a miscigenação dos povos em muito contribuiu para a criação de uma nova identidade nacional. Já nas colônias inglesas, o povoamento da região foi especialmente difícil, já que não havia um suporte do Estado como na colonização ibérica (a viagem era feita por companhias particulares) e não haviam riquezas abundantes facilmente encontráveis. Apenas anos depois, com a expansão para o oeste americano e com a descoberta de ouro e petróleo, o caráter exploratório da ocupação da terra se intensifica. O início da colonização por parte dos peregrinos foi bastante difícil. Os invernos eram bem rigorosos na região e vários colonos morriam de frio e de fome. Além do mais, os variados conflitos com os nativos indígenas ainda era um fator extra de perigo que os colonos tinham de lidar. Mesmo assim, o embrião dos Estados Unidos se expande: mais e mais colonos chegam à América, fugindo da perseguição religiosa, buscando melhor condição econômica ou simplesmente em busca de um novo começo numa terra inexplorada. Na Baía de Massachusetts, em 1630, ocorre uma imensa imigração puritana que consolida de vez o protestantismo de Calvino por quase todo o território. Outras regiões, porém, eram adeptas de outras religiões: em 1633, é fundado na colônia de Maryland um povoado seguidor do catolicismo; em 1681, William Penn funda na Pennsylvania uma colônia onde a população segue os preceitos da doutrina Quaker. Mesmo entre os protestantes calvinistas existiam diferenças que levaram à expansão do território. Roger Williams, por exemplo, era um puritano em desacordo com a íntima ligação entre a esfera política (o Estado) e a esfera religiosa (o puritanismo) existente na região de Massachusetts. Ele parte em exílio e funda uma nova colônia – Rhode Island. Essa diversidade religiosa, ao contrário do que poderia imaginar, em muito contribuiu para a necessidade de tolerância entre os territórios e a aceitação das 15.
(16) Literatura Norte-Americana. diferenças religiosas. Assim, cada cidadão tinha o direito de exercer sua liberdade religiosa sem correr o risco de sofrer perseguição e discriminação – exatamente a razão primordial da saída desses peregrinos da Europa, daí a necessidade de evitar o mesmo erro que os ingleses.. Temática Cartografia.. Com a chegada de mais e mais colonos e a criação de novos territórios, os Estados Unidos se expandem e então seu território se estabelece no que é chamado de “treze colônias”. É interessante notar que, diferentemente do que aconteceu com outras regiões (como o Brasil, por exemplo), não há apenas uma grande colônia sob domínio de uma nação europeia. O que existe é uma extensa região que consiste em treze colônias distintas, cada uma com suas peculiaridades e características – fator que em muito vai influenciar a história e a literatura dos Estados Unidos até hoje.. 16.
(17) Literatura colonial e a América puritana. Mas nem só de colonos europeus e puritanos consistiam os Estados Unidos. Essa parte da população é o que se costumou chamar de WASP, sigla que significa White-anglo-saxon-protestant (branco-anglo-saxão-protestante). Membros desse grupo acabaram constituindo a parte mais rica e representativa do país, deixando outras partes da sociedade à margem do progresso norte-americano. Embora a chegada dos “Pais Peregrinos” tenha dado um impulso desenvolvimentista à América do Norte, existiam outros grupos também responsáveis pela criação dos Estados Unidos – através de uma cultura, um estilo de vida e uma visão de mundo bem distinta daquela apresentada pelos puritanos vindos da Inglaterra. Talvez o mais importante desses grupos seja o dos índios norte-americanos, atualmente chamados de Native-Americans (Nativos-Americanos). Como o próprio nome já indica, eles eram nativos da terra e já se encontravam no território da América do Norte bem antes da chegada dos primeiros colonizadores europeus. O conhecimento que temos hoje da sociedade e da cultura do índio nativo norte-americano passa inevitavelmente pelo olhar que o homem branco lançou sobre ele assim que chegou à América. Portanto, é importante que a leitura de textos que tratem do encontro entre colonizadores e indígenas sempre seja feita com um olhar crítico, levando em consideração não só o período histórico, mas também os interesses envolvidos. Em The General History of Virginia, John Smith fala dos índios utilizando termos como “bárbaros” e “selvagens”, enfatizando a natureza pagã e violenta dos nativos, enquanto descreve a si mesmo sempre envolto em termos cristãos. Esse estilo narrativo é ainda mais notório no episódio em que é salvo da morte por Pocahontas, como se Smith fosse uma espécie de “novo salvador” posto em calvário. Essa visão do indígena como selvagem por muito perdurou no imaginário norte-americano. Dentre as várias razões para isso, está o fato de os colonos ingleses não terem interesse em catequizar os nativos, como ocorreu no Brasil por exemplo. Os índios eram sempre mantidos à distância, e o contato com eles era feito apenas no que se relacionava à troca ou compra de mercadorias. Quando se deu a expansão para o oeste norte-americano, a relação entre nativos e colonizadores alcançou seu ponto mais conflituoso, com o extermínio de milhares de indígenas. Felizmente, boa parte da cultura indígena foi preservada, especialmente através da ficção mantida inicialmente através da tradição oral (histórias passadas de geração em geração), que posteriormente serviriam como base para o surgimento da native-american literature (literatura nativa-americana). Várias das 17.
(18) Literatura Norte-Americana. obras da literatura indígena norte-americana têm origem anônima, e misturam mitos de criação de heróis com a própria história da sociedade nativa. Diferentes tribos também possuem diferentes histórias de criação do mundo e do universo, como a Gênese da tribo Blackfeet. Outro grupo cuja importância é crescente nesse período inicial da colonização dos Estados Unidos é o dos negros, cuja presença na América se fazia através da escravidão. Eles vinham trazidos por navios ingleses que partiam para a África, capturavam os escravos e os deixavam nas colônias americanas, para lá buscar algodão, tabaco e outros produtos. A escravidão na América durou até 1861, mas até lá os negros viviam em condições degradantes de servidão, já que não eram considerados capazes das mesmas atividades sociais e intelectuais que os brancos e, portanto, não merecedores do termo cidadão. Esses grupos, todavia, permanecem sempre à margem da sociedade branca e protestante, que espalha por todas as treze colônias seu estilo de vida e seus ideais de sociedade. Sociedade esta cuja mais importante característica é a presença da crença religiosa puritana em todas as esferas, da política ao lazer. É o puritanismo que molda a vivência dos cidadãos dos Estados Unidos e serve de impulso para os primeiros textos escritos em solo norte-americano.. A literatura colonial: o puritanismo e o Great Awakening O puritanismo é a força motriz da sociedade norte-americana. É através dos ideais norte-americanos que os primeiros peregrinos constroem não só escolas, igrejas e universidades: eles constroem também uma ideia da América. Os Estados Unidos são mais do que um novo lar para esses colonos – são uma região onde eles finalmente poderão construir a “nova Canaã” bíblica, já que eles acreditam ser as pessoas escolhidas por Deus para concretizar um reino de prosperidade na terra seguindo fielmente às leis cristãs. Na Europa, os puritanos muito sofreram com a perseguição religiosa, já que como adeptos do protestantismo calvinista, renegavam a doutrina do catolicismo e do anglicanismo, as duas religiões predominantes da Inglaterra. Vários puritanos chegaram a ser torturados e até mesmo enforcados por exercer a sua fé. Mesmo dentro de sua própria religião, existiam diferenças nas formas com que as pessoas deveriam seguir os ensinamentos da Bíblia. Isso se dava porque, diferen18.
(19) Literatura colonial e a América puritana. temente do catolicismo (em que predomina uma interpretação dos textos bíblicos e se deve respeitar a palavra do Papa), o puritanismo admite leituras pessoais e individuais da Bíblia, fazendo com que formas de entendimento distintas surjam de mesmos textos religiosos. Assim, dentro do movimento puritano surgem diferentes segmentos como os amish e os quakers, que possuem uma outra visão de como as lições das parábolas da Bíblia devem ser incorporadas no seu cotidiano. Alguns preceitos religiosos estabelecidos por Calvino, entretanto, estavam presentes na maior parte da sociedade puritana, dentre eles, a ideia de que o pecado original manchou toda a existência humana, e por isso o homem era naturalmente corrupto e sujeito à maldade. Os puritanos também acreditavam que o sacrifício de Jesus acabou por garantir o perdão de Deus, mas esse perdão não é estendido a todos os homens – só alguns eleitos o ganhariam. Além disso, é clara no puritanismo a ideia de que Deus escolhe, desde o princípio dos tempos, aqueles que vão para o céu e aqueles que vão para o inferno. É interessante comparar e contrastar os dogmas puritanos e católicos, especialmente ao considerarmos como a influência religiosa se fez tão presente no período colonial das Américas. De forma geral, o catolicismo se volta mais para o mundo após a morte, em que Deus julga-nos pelos atos que tivemos em vida. Já a vida puritana se concentra nas provas terrenas da benção de Deus, através do trabalho e da prosperidade. O puritanismo também acredita que o bom cristão é aquele que vive bem com os frutos do trabalho, produzindo, através de seu esforço e seus méritos, seus meios de subsistência e conforto. Para o catolicismo, existe uma visão subjacente de que o trabalho é punição, e de que a riqueza carrega em si um estigma negativo, uma culpa. Essas crenças calvinistas estiveram presentes em diversos estágios da colonização dos Estados Unidos. Os puritanos construíram seus vilarejos e depois suas cidades acreditando que assim estariam realizando, através de seu trabalho, o desejo de Deus de criar um novo paraíso, onde os homens viveriam seguindo as leis bíblicas. Assim sendo, o próprio governo tinha o dever de fazer as pessoas obedecerem à vontade divina. Existiam leis, por exemplo, que obrigavam as pessoas a irem à igreja, ou que puniam adúlteros. Tal comunhão entre religião e governo foi crucial para que um episódio como o dos julgamentos das bruxas no vilarejo de Salem fosse permitido. Um dos mais vergonhosos momentos da história dos Estados Unidos, a série de julgamentos e execuções de dezenas de colonos por bruxaria ocorridos em 19.
(20) Literatura Norte-Americana. Salem, Massachusetts, hoje é visto como consequência dos excessos da presença puritana na administração das colônias. Por outro lado, esse sentido de autodeterminação e trabalho recompensado ajudou a estabelecer ideais de independência e liberdade que os norte-americanos consideram seus principais legados para o mundo ocidental. É através da experiência puritana, com sua promessa de felicidade e recomeço, que os Estados Unidos se formam sob a égide (amparo) do american dream (sonho americano) – em linhas gerais, a ideia de que qualquer pessoa, não importa o seu passado ou condição social, pode ser bem-sucedida. É através da literatura que os homens e mulheres recém-chegados a essa nova terra de oportunidades, mas também de perigos, iriam definir a América. As colônias seriam o local onde não só a fé puritana seria testada, mas também a língua inglesa e suas narrativas. Com seus textos, os primeiros escritores dos Estados Unidos procuravam compreender e descobrir a natureza e os propósitos desse novo mundo que se apresentava a eles. Uma das figuras mais proeminentes deste período inicial foi William Bradford (1590-1657). Eleito governador da colônia de Massachusetts por várias vezes, Bradford também tem uma enorme importância histórica por ser um dos idealizadores do chamado Mayflower Compact, o primeiro documento oficial composto pelos peregrinos da colônia de Plymouth. A mais importante obra de William Bradford, contudo, foi Of Plymouth Plantation, um diário pessoal escrito entre 1620 e 1647, narrando a permanência dos colonos na região de Massachusetts. O diário de Bradford conta a história da partida do Mayflower, a difícil viagem, sua chegada na América e o posterior povoamento e desenvolvimento da colônia. Of Plymouth Plantation é uma obra extremamente rica por dois motivos fundamentais. Primeiramente, porque é o mais vívido e detalhado documento descrevendo o cotidiano, os problemas e o progresso em uma das mais importantes das treze colônias no século XVII; a outra razão para a natureza complexa dos escritos de Bradford é a mescla desse aspecto factual com os comentários e as interpretações do autor, o que leva a um entendimento mais completo do período. Dessa forma, enquanto do ponto vista histórico, Of Plymouth Plantation pode ser considerada como anais do período colonial; do ponto de vista literário os diários de William Bradford são um material que atestam o estilo e a linguagem de formação da literatura norte-americana.. 20.
(21) Literatura colonial e a América puritana. O subtexto dos escritos dos diários indica uma forte influência dos ideais do protestantismo calvinista, especialmente no que concernem aos objetivos puritanos para a América. A narrativa de Bradford em muito lembra as grandes narrativas bíblicas, com a busca da Terra Prometida pelo povo eleito, sendo guiado pela mão divina em sua longa jornada. O estilo e a linguagem dos escritos de Of Plymouth Plantation é aquele característico de todas as expressões artísticas realizadas por puritanos: simples e livre de adornos. Bradford afirma que seus relatos vão atestar apenas a “simples verdade”. Essa crença na unicidade dos fatos e no que é naturalmente verdadeiro é um reflexo da presença dos ensinamentos da Bíblia no raciocínio do puritanismo, em que é bem clara a distinção do que é certo e errado. Como o próprio William Bradford pôde ver posteriormente, contudo, a verdade não se mostrou de forma tão simples assim. À medida que os colonos se estabelecem de forma mais bem sucedida na América e novas gerações sucedem os “Pais Peregrinos”, a criação de uma estrutura comercial e lucrativa, o acúmulo de terras e a busca pelo sucesso econômico são para o autor um distanciamento do sonho de uma comunidade perfeita sob as leis de Deus. Assim, ao final de Of Plymouth Plantation, a escrita de Bradford adquire um tom de lamento e decepção, já que mais e mais as ações das novas gerações se afastam dos ideais dos primeiros puritanos que desembarcaram do Mayflower. Sobre essa nova perspectiva da vivência puritana nas treze colônias, o escritor Malcolm Bradbury afirma: The puritans persist in writing for themselves a central role in the sacred drama God had designed for man to enact on the American stage, the stage of true history. In that recurrent conflict between the ideal and the real, the utopian and the actual, the intentional and the accidental, the mythic and the diurnal, can be read […] an essential legacy of the puritan imagination to the American mind. (BRADBURY; ROLAND, 1992, p. 13-14). A Nova Inglaterra (região nordeste da América do Norte) vinha então crescendo e, neste processo, procurava conciliar os preceitos bíblicos com o surgimento de novas formas de relacionamento em sociedade. Se William Bradford tratou dessa tensão através de entradas em seu diário, outros autores viram a situação como uma grande oportunidade para expressar sua subjetividade e imaginação poética. A mais bem sucedida nesta tarefa foi Anne Bradstreet (1612-1672), reconhecida até hoje como um dos maiores nomes da poesia, não só norte-americana, mas de toda a língua inglesa. Nascida na Inglaterra, Bradstreet chega acompanhada. 21.
(22) Literatura Norte-Americana. de seu marido ao novo continente em 1630. Embora seu pai e seu marido tivessem fortes ligações políticas na América (ambos foram governadores da Baía de Massachusetts), esse não é um aspecto particularmente importante nos textos de Anne Bradstreet. Grande parte da riqueza de seus trabalhos poéticos encontra-se na forma que ela escreveu sobre a atmosfera doméstica da vida puritana. Com extrema sensibilidade ao tratar das adversidades presentes no cotidiano do novo continente e com um tom metafísico que a permite ultrapassar a mera descrição de eventos, Bradstreet desperta interesse não só pela importância histórica, mas também pela qualidade de sua escrita. Os poemas de Anne Bradstreet atestam de forma clara a complexidade da realidade puritana. Sua escrita revela um pensamento livre, dotado de considerável conhecimento poético (era admiradora de grandes poetas ingleses como Philip Sidney e Edmund Spenser), mas que contrasta com a rigidez das regras puritanas, especialmente quando se considera o papel de submissão a que as mulheres eram relegadas. As regras rigorosas do puritanismo, pelo contrário, não ofuscam o talento de Bradstreet. Seus poemas sobre o cotidiano e acontecimentos marcantes do período são sempre tocantes porque, através deles, a autora reforça sua fé nos ideais divinos em busca de consolo, proteção ou coragem. Os trabalhos mais reconhecidos de Bradstreet, no entanto, são aqueles em que a autora celebra o matrimônio como instituição, reafirmando o profundo amor que tinha por seu marido, Simon. Como o marido costumava ficar longe em viagens de trabalho, a autora dedicava-lhe grande parte de seus poemas para aplacar a dor da distância. Um dos mais famosos, To My Dear and Loving Husband, aborda o relacionamento do casal ligado a elementos da natureza, como se o próprio amor de marido e mulher fosse necessário a um equilíbrio natural das coisas: If ever two were one, then surely we. If ever man were loved by wife, then thee; If ever wife was happy in a man, Compare with me, ye women, if you can. I prize thy love more than whole mines of gold Or all the riches that East doth hold. My love is such that rivers cannot quench, Nor ought but love from thee, give recompense. Thy love is such I can no way repay, The heavens reward thee manifold, I pray. Then while we live, in love let’s so persevere That when we live no more, we may live ever. Anne Bradstreet. 22.
(23) Literatura colonial e a América puritana. Curiosamente, não foi por vontade própria que Anne Bradstreet se tornou a primeira poetisa do novo continente a ter seus trabalhos publicados. Na verdade, foi seu cunhado que levou os manuscritos de seus poemas para a Inglaterra e lá os teve publicados sob o título de The Tenth Muse Lately Sprung Up in America, em 1650. Seus trabalhos desde então permaneceram cruciais para um maior entendimento do período colonial e para o despertar de uma sensibilidade metafísica que tanto influenciaria outros poetas americanos nos séculos seguintes. A mais popular produção literária do período puritano, no entanto, não foi nem o relato em forma de diário e nem a poesia – foi o sermão. Considerando a presença das crenças e do estilo de vida puritano em todas as esferas da sociedade, nada mais natural que a forma de expressão máxima da América colonial fosse a produção de textos religiosos para serem lidos nas pregações. O centro da vida puritana era a igreja, e era lá que um dos atos mais essenciais para o homem cristão acontecia: ouvir os sermões. Dada a natureza do puritanismo, toda a atenção da cerimônia religiosa se voltava não para um altar, mas para o púlpito; a força da fé se revelava não por imagens, mas pela palavra. O sermão atinge o ápice de sua popularidade durante o movimento chamado de Great Awakening (Grande Despertar). Fenômeno sociorreligioso ocorrido no século XVIII, o Great Awakening foi uma reação por parte de pastores e homens religiosos contra o formalismo a que o puritanismo estava sendo submetido, com seus principais ideais sendo esquecidos ou adquirindo pouca importância. Assim, pastores itinerantes iam de cidade em cidade pregando, de forma carismática, sermões que em muito exaltavam os fiéis e renovavam sua fé. Apesar de vários historiadores afirmarem que o Great Awakening não foi um movimento organizado, não há como negar que a necessidade por parte de uma nova geração de pregadores foi essencial para revitalizar o puritanismo. Uma das mais importantes figuras não só do Great Awakening mas de toda a América Colonial foi Jonathan Edwards (1703-1758). Pastor, intelectual e teólogo, ele é considerado um dos símbolos do puritanismo na América. Uma análise artificial pode classificar Edwards como um estereótipo do rígido pregador puritano que, do alto de seu púlpito, incutia o medo e a culpa nos fiéis através de exagerados sermões. Um olhar mais atencioso, todavia, indica que os textos de Edwards (apesar de ratificarem a doutrina puritana do homem pecador e de um Deus punitivo) também partilham muito da herança de John Locke e Isaac Newton, dois nomes cruciais do racionalismo inglês que, entre outros pressupostos, acreditavam que o homem poderia trilhar o caminho da bondade. 23.
(24) Literatura Norte-Americana. É importante lembrar que os sermões são, essencialmente, textos para serem lidos em público. Jonathan Edwards talvez tenha sido o pastor que melhor entendeu esse propósito da pregação, já que seus textos imediatamente estabelecem com quem os ouve uma ligação emocional pouco comum em outros sermões do período. Esses escritos de Edwards seguem, em sua maior parte, o formato clássico do sermão puritano: primeiramente há o texto, (i.e.)isto é, a passagem da Bíblia que vai servir de tópico central do trabalho escrito; a seguir, aparece a doutrina, i.e. a lição que deve ser apreendida do texto; a terceira parte é a das razões, i.e. provas ou fatos que confirmam a doutrina; finalmente, aparecem os usos, i.e. a aplicação da doutrina por parte dos fiéis. Utilizando essa estrutura clássica, o autor enfatiza o caráter irado de Deus e o pecado inerente a todos os homens, que já nascem culpados. Essa atitude calvinista conservadora, no entanto, é aliada ao pensamento mais racionalista de Locke. Assim, Edwards também acredita, em seus sermões, que o homem pode se aperfeiçoar e melhorar seus traços de caráter. O sermão mais marcante de Jonathan Edwards é Sinners in the Hands of an Angry God. Nesse texto, dirigido a uma congregação em Massachusetts, Edwards se utiliza de todo um arsenal imagístico para traduzir para os fiéis o poder e a ira de Deus que, por um mero capricho, pode lançar todos os pecadores às fornalhas do inferno. A presença dos homens no plano terreno, afirma Edwards, se dá apenas pelo prazer de Deus, porque nada o impede de fazer com que os homens impuros tenham o chão aberto sobre eles para que caiam nas chamas eternas infernais. Sinners in the Hands of an Angry God ilustra um dos pontos centrais do puritanismo (levado ao extremo pelos pastores do Great Awakening): o poder de Deus está sempre em eterno contraste com a devassidão e a maldade humana. Essa tensão é consequência do pecado original, mas também é a grande causadora da culpa que atormenta o homem. Por outro lado, é essa mesma culpa que leva o homem a buscar a redenção, o trabalho e o recomeço. Assim os Estados Unidos, em seu começo, constroem toda uma organização social em que a religião é ao mesmo tempo uma força motriz, mas também um agente regulador de seu desenvolvimento. As lições da era puritana permanecem até hoje no imaginário norte-americano, promovendo um material vastíssimo para que a literatura do país se tornasse uma das mais ricas e complexas do mundo.. 24.
(25) Literatura colonial e a América puritana. Texto complementar Sinners in the hands of an angry God (EDWARDS, 1989). The wrath of God is like great waters that are dammed for the present; they increase more and more, and rise higher and higher, till an outlet is given; and the longer the stream is stopped, the more rapid and mighty is its course, when once it is let loose. It is true, that judgment against your evil works has not been executed hitherto; the floods of God’s vengeance have been withheld; but your guilt in the mean time is constantly increasing, and you are every day treasuring up more wrath; the waters are constantly rising, and waxing more and more mighty; and there is nothing but the mere pleasure of God, that holds the waters back, that are unwilling to be stopped, and press hard to go forward. If God should only withdraw his hand from the flood-gate, it would immediately fly open, and the fiery floods of the fierceness and wrath of God, would rush forth with inconceivable fury, and would come upon you with omnipotent power; and if your strength were ten thousand times greater than it is, yea, ten thousand times greater than the strength of the stoutest, sturdiest devil in hell, it would be nothing to withstand or endure it. The bow of God’s wrath is bent, and the arrow made ready on the string, and justice bends the arrow at your heart, and strains the bow, and it is nothing but the mere pleasure of God, and that of an angry God, without any promise or obligation at all, that keeps the arrow one moment from being made drunk with your blood. Thus all you that never passed under a great change of heart, by the mighty power of the Spirit of God upon your souls; all you that were never born again, and made new creatures, and raised from being dead in sin, to a state of new, and before altogether unexperienced light and life, are in the hands of an angry God. However you may have reformed your life in many things, and may have had religious affections, and may keep up a form of religion in your families and closets, and in the house of God, it is nothing but his mere pleasure that keeps you from being this. 25.
(26) Literatura Norte-Americana. moment swallowed up in everlasting destruction. However unconvinced you may now be of the truth of what you hear, by and by you will be fully convinced of it. Those that are gone from being in the like circumstances with you, see that it was so with them; for destruction came suddenly upon most of them; when they expected nothing of it, and while they were saying, Peace and safety: now they see, that those things on which they depended for peace and safety, were nothing but thin air and empty shadows.. Dicas de estudo O site da Biblioteca do Congresso Norte-Americano tem análises bem completas e interessantes sobre o período colonial dos Estados Unidos, incluindo textos de fundação do país e biografias dos Founding Fathers. Disponível em: <http://www.americaslibrary.gov/cgi-bin/page.cgi/jb/colonial> HYTNER, Nicholas. As Bruxas de Salem. 1992. Baseado na peça do dramaturgo Arthur Miller, este filme concentra-se no julgamento e execução de vários colonos na colônia de Salem no fim do século XVII, acusados de bruxaria. Exemplo mais famoso dos excessos do puritanismo, esse triste episódio da história dos Estados Unidos é sempre lembrado quando o país encontra-se envolto em uma atmosfera de perseguição e intolerância.. Atividades 1. Como os escritos de John Smith serviram para construir uma visão particular da América no imaginário europeu?. 26.
(27) Literatura colonial e a América puritana. 2. Qual a importância do puritanismo para o desenvolvimento da literatura dos EUA?. 3. Como a passagem do sermão Sinners in the Hands of an Angry God (texto complementar) ilustra a relação de Deus com os pecadores de acordo com o puritanismo?. 27.
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(29) O período revolucionário Se no século XVII a América começa de forma gradual a desenvolver uma literatura baseada, entre outros aspectos, no choque civilizatório entre o Velho e o Novo Mundo, no século XVIII essa literatura vai ter como matéria-prima uma nova forma de pensamento que levará a grandes mudanças políticas – especialmente à independência dos Estados Unidos. Este foi um período de muita turbulência na Europa, com diversas guerras e atritos políticos que levaram a diversas mudanças no governo inglês, o que acabou afetando diretamente a relação que a Inglaterra tinha com as colônias. Eventualmente, foi o conflito de interesses entre o governo inglês e os políticos e pensadores da América (altamente influenciados por uma perspectiva iluminista) que levou ao desejo das colônias declararem independência. Foi um processo muito difícil e trabalhoso – não só pelo inimigo externo (a Inglaterra), mas também pela desconfiança dentro do próprio território com relação à criação de um país único formado por treze colônias diferentes. A literatura dos Estados Unidos foi mais que influenciada por essa agitação política – ela exerceu um papel fundamental na divulgação e consolidação das ideias revolucionárias que davam legitimidade à independência. Foi com essa literatura, altamente baseada em conceitos racionais, mas também tendo a rebelião contra a injustiça como uma questão central, que uma nação finalmente se constituiu.. Os conflitos com a Inglaterra e a luta pela independência Em meados do século XVIII, as colônias da América se encontravam numa situação bem diferente daquela que os primeiros peregrinos viram quando desembarcaram do Mayflower em 1620. Os primeiros povoados já tinham se tornado grandes cidades, não só em termos de extensão, mas.
(30) Literatura Norte-Americana. também em número de pessoas: na década de 1760, por exemplo, haviam 1,5 milhões de pessoas nas treze colônias – número seis vezes maior que em 1700. Politicamente, as colônias já se encontravam em um confortável nível de organização. Depois de décadas de experiência de governo, os americanos já haviam se acostumado a uma estrutura colonial na qual eles possuíam uma certa autonomia política. Em termos econômicos, a América também se encontrava em um estágio bem desenvolvido. As colônias do norte estabeleceram, por um lado, um forte mercado interno (com a presença de manufaturas) e por outro lado, exportavam peles e construíam navios para serem vendidos na Europa. As colônias do sul também tinham um importante papel econômico, pois delas é que saíam o principal produto de exportação das colônias: o tabaco. Dessa forma, as treze colônias desfrutavam de um grau de liberdade e autonomia pouco visto em outras regiões das Américas. Essa prosperidade e capacidade de se autogovernar serviu para criar entre os colonos a sensação de que todos faziam parte de um grande projeto – o projeto americano. Eles estavam concretizando, de certa forma, o ideal puritano de construir uma nova sociedade, onde um “povo eleito” viveria em paz e igualdade. Por mais que as treze colônias tivessem diferenças entre si (e em especial se compararmos as da região norte com as da região sul), começa a se formar um senso de nacionalidade até então inédito entre os colonos. As razões internas para esse crescente nacionalismo vão se encontrar então com um motivo externo para unir ainda mais a população: um inimigo em comum, a Inglaterra. A Inglaterra, na metade do século XVIII, vinha de um grande conflito em terras norte-americanas: foi a chamada Guerra dos Sete Anos (1756 – 1763). Neste confronto, a França perde seu domínio sobre extensas faixas de terra que possuía na América do Norte – entre elas, toda a região em torno do rio Mississipi e o atual território do Canadá. O fim da Guerra dos Sete Anos também serviu, de certa forma, para marcar o fim do velho sistema de colonização inglês. A ideia de dotar as colônias de uma considerável autonomia e de haver pouca influência da Coroa britânica em assuntos que tivessem relação exclusivamente à população da América é abandonada. Passa a haver, por parte da Inglaterra, um maior controle, em diversos aspectos, da vida colonial norte-americana. Diversos fatores levaram a essa perda de liberdade política e econômica das colônias inglesas. Primeiramente, o domínio territorial britânico na América au30.
(31) O período revolucionário. mentou consideravelmente. O que antes era uma pequena faixa de terra beirando o Atlântico (as treze colônias), tinha se tornado toda a atual região do Canadá e a região em torno do rio Mississipi. Para manter o controle sobre essa extensa área, a estratégia de colonização antiga, utilizando empresas privadas para levar colonos, não seria bem sucedida. Além disso, os ingleses teriam de lidar dessa vez não com separatistas religiosos, mas com toda uma nova cultura indígena presente nas novas regiões, assim como a população católica que havia sido colonizada pelos franceses mais ao norte. As consequências da Guerra dos Sete Anos, em especial, também afetaram de forma direta a tranquilidade entre a Inglaterra e as colônias. Com o fim da guerra, várias tropas britânicas permaneceram em território norte-americano, o que aumentava a presença inglesa e servia para intimidar os colonos. Tributos maiores também foram impostos para manter os soldados na América. A interferência britânica em assuntos internos das colônias, até então pouco vista, passa a ser a regra. Um dos principais conflitos nesse aspecto foi o desejo de expansão por parte dos colonos para as novas regiões conquistadas, em especial aquelas que se estendiam até o rio Mississipi. Inicialmente, vários confrontos surgiram entre indígenas e colonos, até que em 1763 o rei George III da Inglaterra, por decreto, afirma que os povos nativos têm soberania sobre as novas áreas anexadas a oeste. Essa decisão do rei procura não só evitar novas guerras entre índios e colonos (o que dificultaria a consolidação do império britânico), mas também garantir o controle administrativo dessa imensa região ainda pouco explorada. Assim, os colonos norte-americanos são proibidos de migrar para o oeste e têm sua autonomia altamente ameaçada. Mudanças no governo e na economia britânica também acabaram por afetar a forma com que as colônias eram administradas. Com a ascensão da burguesia a posições de poder, o comércio e a indústria inglesas começam um período de grande desenvolvimento, com a construção de fábricas e uma crescente necessidade de produção. Apesar de possuírem capital e mão de obra, faltava aos ingleses a matéria-prima, que vai ser buscada exatamente na América. Acentua-se então o caráter exploratório por parte da Inglaterra. Duas leis marcam de forma definitiva essa nova abordagem da colonização inglesa. A primeira é a Lei da Moeda, de 1764, que impede que títulos de crédito sejam emitidos nas colônias. Esses títulos eram usados como moeda corrente e já estavam em falta. Com a promulgação da lei, a economia colonial é altamente prejudicada. A segunda lei criada pelos ingleses é a Lei do Selo, de 1765. De 31.
(32) Literatura Norte-Americana. acordo com essa lei, todos os jornais, panfletos, contratos, licenças e outros documentos públicos passariam a receber um selo de cobrança e, portanto, seriam taxados. É a partir dessa lei que ocorre a primeira organização das colônias para resistir e protestar contra os abusos da Inglaterra. Protestos e passeatas tomaram as ruas e a elite colonial (que viu seus negócios serem taxados) ficou contra os interesses do império britânico. Um massivo boicote aos produtos ingleses foi realizado, dando imenso prejuízo à Coroa. A Lei do Selo é então revogada e as colônias mostram a sua força. No entanto, nenhum evento foi mais fundamental para provar que as colônias estavam firmes em continuar garantindo seus direitos de escolha e liberdade que o chamado Boston Tea Party (Festa do Chá de Boston). O chá era um produto muito consumido nas colônias, não só devido à tradição inglesa, mas também pelo preço acessível. Todavia, quando a Inglaterra decide dar o monopólio da venda do chá exportado para a Companhia das Índias Orientais (que se encontrava à beira da falência), os preços inevitavelmente sobem. Como reação a mais esse abuso praticado pela Inglaterra, um grupo de homens disfarçados de indígenas sobe a bordo de navios ingleses ancorados no porto de Boston e despeja todo o carregamento de chá no mar. Esse episódio, conhecido como Boston Tea Party, fez com que a Coroa britânica tomasse uma série de medidas para punir essa rebeldia por parte dos colonos. Essas medidas, que ficaram conhecidas como Coercive Acts (Leis Coercitivas), incluíam o fechamento temporário do porto de Boston e a proibição de reuniões de assembleias. A situação entre a Inglaterra e as colônias norte-americanas chega então a um ponto crítico, e a ideia da independência dos Estados Unidos passa a ser articulada. Representantes das colônias se reúnem no Congresso Continental da Filadélfia para redigir um documento contra as medidas restritivas inglesas. Em resposta, a Inglaterra aumentou o número de tropas na América. Assim, em maio de 1775, é realizado o Segundo Congresso Continental da Filadélfia, em que é feita uma declaração de guerra. Três meses depois, o rei declara que as colônias norte-americanas encontram-se em estado de rebelião. É importante lembrar, porém, que ainda havia certa resistência por parte de vários setores norte-americanos quando se tratava da questão da independência. As elites sulistas não estavam totalmente seguras de que a separação com a Inglaterra seria benéfica, já que o grande mercado consumidor de seus produtos poderia ser perdido. Além disso, havia o receio de que o espírito de justiça 32.
(33) O período revolucionário. crescente poderia fazer com que os menos favorecidos (especialmente escravos) começassem a lutar também por direitos iguais. Em 4 de julho de 1776, é aprovada a Declaração de Independência dos Estados Unidos. Os conflitos com a Inglaterra se intensificavam, e os Estados Unidos tinham formado o seu próprio exército – o chamado Exército Continental, sob liderança de George Washington, que seria posteriormente o primeiro presidente da nação. A vitória norte-americana nas batalhas não foi fácil. Contudo, três fatores foram cruciais para a vitória dos agora ex-colonos: maior conhecimento do território, o apoio das tropas sulistas (que os ingleses acreditavam que se manteriam leais) e a ajuda militar da França, Espanha e Holanda. Dessa forma, os Estados Unidos da América se tornam finalmente uma nação independente. As pequenas treze ex-colônias inglesas têm agora o direito de exercer a sua liberdade política, assim como a população adquire o direito de se expandir pelo território da América do Norte. Mais do que a criação de um país, a independência dos Estados Unidos garantiu o surgimento da primeira revolução moderna, que serviria de base para várias outras nações do ocidente.. Os “Pais Fundadores” O processo de independência dos Estados Unidos garantiu aos norte-americanos mais do que a libertação do controle inglês – ele serviu para unir todos os estados sob um objetivo comum e criar entre eles um vínculo crucial para que uma verdadeira nação, com uma identidade única, fosse estabelecida. Mais do que ter um grande inimigo em comum (a Inglaterra) e ideais que os associassem (liberdade, direitos iguais), era necessário que os Estados Unidos tivessem figuras públicas representativas que o público não só reconhecesse como indiscutivelmente icônicas, mas também as usassem como base para a criação de um novo homem norte-americano. Esses homens públicos foram fundamentais para a consolidação dos diferentes estados sob apenas uma nação. Símbolos do espírito republicano norte-americano, historicamente eles são conhecidos como Founding Fathers (Pais Fundadores). Essa ideia de “pais da nação” não é inédita na história norte-americana. Os primeiros habitantes das colônias receberam o nome de “Pais Peregrinos”. É interessante notar a necessidade de marcar o nascimento de uma nova fase da nação através dessas pessoas que, seja por sua coragem, determinação, ou senso de justiça, se destacam de todas as outras para iniciar um período de rompimento histórico com um passado de tirania. 33.
(34) Literatura Norte-Americana. No entanto, diferentemente dos peregrinos de Massachusetts que chegaram a bordo do Mayflower, esses Pais Fundadores vão servir como emblemas de um país recém-criado em busca de uma identidade própria. Eles serão consagrados pelo povo norte-americano como os grandes heróis da nação e servirão como exemplo de retidão e perseverança não só para políticos, mas para qualquer cidadão dos Estados Unidos. Os Pais Fundadores são reconhecidos como os homens que assinaram a Declaração de Independência em 1776, participaram como líderes da guerra revolucionária contra a Inglaterra, ou foram responsáveis pela criação da Constituição dos Estados Unidos, em 1787. Eles foram militares, proprietários de terra, mercadores, cientistas – e não coincidentemente, alguns deles se tornaram os primeiros presidentes daquele jovem país. Dentre os Pais Fundadores (cujo número quase chega a uma centena), três merecem destaque especial por sua contribuição militar, política e filosófica para a realização de um ideal norte-americano: George Washington, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson.. Domínio público.. George Washington (1732-1799) foi uma das mais importantes figuras do período revolucionário norte-americano. Militar exemplar, participou na Guerra dos Sete Anos lutando contra os franceses e tornou-se símbolo máximo da vitória norte-americana sobre os ingleses durante a guerra pela independência. Foi o presidente da convenção que criou a constituição norte-americana e também tornou-se o primeiro presidente dos Estados Unidos.. George Washington. 34.
(35) O período revolucionário. Washington é considerado um modelo para todos os presidentes norte-americanos pois, num período crucial do país, conseguiu um acordo de paz com a Inglaterra, reuniu todos os estados sob um único governo republicano e criou um banco nacional. Mesmo que representante da elite colonial (era latifundiário e proprietário de escravos), até hoje George Washington continua sendo um ícone da formação dos Estados Unidos. Contudo, se Washington foi responsável por organizar o governo norte-americano, Benjamin Franklin (1706-1790) criou grande parte do arcabouço filosófico e intelectual por trás dele. Talvez o nome mais significativo do século XVIII nos Estados Unidos, Franklin permanece até hoje como um ícone da política, da literatura e do pensamento norte-americano, não só pelo papel que desempenhou no processo de independência, mas também por possuir ideias novas que vão romper com a influência puritana e conceber ideais que permanecem no imaginário ocidental até hoje.. Domínio público.. Jornalista, cientista, diplomata e escritor, Benjamin Franklin nasceu numa família pobre de Boston para tornar-se uma das grandes mentes da história dos Estados Unidos. Começou a trabalhar escrevendo ensaios e gradualmente se tornou o mais bem-sucedido editor do século XVIII na América do Norte. Ele possuía seu próprio jornal (o Pennsylvania Gazette), e eventualmente publicava nele seus artigos e sátiras.. No entanto, uma das obras mais famosas de Franklin é o Poor Richard’s Almanac (Almanaque do Pobre Ricardo). O almanaque era provavelmente o tipo de publicação mais popular nos Estados Unidos no século XVIII. Espécie de revista que incluía diferentes tipos de informação (desde a previsão do tempo até piadas e receitas culinárias), o almanaque foi a forma de expressão que Franklin utilizou para articular seu ponto de vista de maneira bem-humorada, porém certeira. 35.
(36) Literatura Norte-Americana. O autor começou a publicar o Poor Richard’s Almanac em 1732 sob o pseudônimo de Richard Saunders e até o fim de sua publicação em 1758, ele foi o almanaque mais lido do período colonial. Para cada edição do almanaque, Franklin criava provérbios e frases de efeito para preencher os espaços da publicação. Em 1758 o autor coleta todos os ditados publicados nos 25 anos do Poor Richard’s Almanac e os reúne no ensaio intitulado The Way to Wealth (O Caminho para a Fortuna). Nesse ensaio, o personagem Father Abraham (Pai Abraão) se aproxima de um grupo de fregueses à porta de uma venda, esperando o momento de abertura do local. A partir daí, Father Abraham começa a disparar suas máximas sobre dinheiro, sucesso, prosperidade, trabalho e lazer. Pode-se dizer que Father Abraham é um alter ego de Benjamin Franklin, pois os conselhos proferidos pelo personagem são um reflexo direto do pensamento do autor. Franklin é uma “personificação do ideal prático americano” (NABUCO, 2000, p. 32) e sua visão de mundo serviu para criar uma das mais importantes contribuições do pensamento dos Estados Unidos para o ocidente: a ideia do self-made man, isto é, o homem que triunfa através do seu próprio esforço. Por isso os provérbios presentes em The Way to Wealth se estabelecem sobre dois pilares fundamentais: a frugalidade (ou seja, ser prudente e econômico) e o trabalho duro. Várias das máximas criadas por Franklin permanecem famosas até hoje no mundo todo, o que indica como essa tradição do pensamento norte-americano se tornou universal. Frases como “time is money” (tempo é dinheiro) ou “have you somewhat to do tomorrow, do it today” (o que tiver para fazer amanhã, faça hoje), entre outras, servem como exemplos da visão de mundo de Franklin, propagando uma perspectiva de sucesso tipicamente fabricada nos Estados Unidos. Ainda que essas ideias de Benjamin Franklin também sejam muitas vezes alvo de críticas (especialmente no que concerne à obsessão dos americanos pelo dinheiro e bens materiais), é inegável que os provérbios de seu almanaque servem como símbolos da estrutura capitalista e foram muito significativos no desenvolvimento de uma nova ideia de nação que estava surgindo. Franklin também se destacou como cientista e inventor, pois sua visão humanista ultrapassava a mera discussão de ideias – sua preocupação com o mundo e com as pessoas que nele habitavam o impeliam a tomar soluções práticas na resolução de problemas. Assim, Franklin inventa o para-raios e as lentes bifocais; idealiza uma nova teoria de eletricidade, provando que os raios são de natureza elétrica; funda a primeira biblioteca pública e o primeiro corpo de bombeiros da 36.
(37) O período revolucionário. Pennsylvania; concebeu inovadores mapas meteorológicos capazes de prever tornados e tormentas. Além disso, Benjamin Franklin foi um dos artífices da independência e pode-se dizer que sem sua presença ativa e sua perspicácia o processo revolucionário teria sido ainda mais difícil. Até 1775 Franklin representou os interesses das colônias na Inglaterra, chegando a ser visto como um dos principais propagadores da rebelião na América. Posteriormente, foi enviado à França com o objetivo de conseguir apoio para a iminente revolução. Mais do que ter auxiliado na realização da Declaração de Independência, Franklin também é o único dos Pais Fundadores a assinar os quatro documentos que propiciaram a criação dos Estados Unidos: além da Declaração de Independência (1776), o Tratado de Aliança com a França (1778), o Tratado de Paris (1782) que dava fim à guerra com a Inglaterra, e a Constituição Norte-Americana (1787). Com uma vida tão rica, o autor ainda deu aos Estados Unidos o que alguns críticos consideram o primeiro grande livro norte-americano: a Autobiografia de Benjamin Franklin. Esta obra, publicada postumamente, é o trabalho mais conhecido de Franklin e uma das mais lidas autobiografias do mundo. Na verdade, o livro praticamente estabelece a autobiografia como gênero literário, dando-lhe um estilo e formato próprios. Na Autobiografia, a escrita de Franklin é simples e direta, narrando desde os antecedentes puritanos de sua família até o papel que desempenhou na independência norte-americana. O livro tornou-se um exemplo da realização do American Dream (Sonho Americano), tendo Franklin como seu maior exemplo – de filho de pais pobres passando pelo sucesso no mercado editorial até ser um dos responsáveis pela criação da nação. A Autobiografia de Benjamin Franklin pode ser lida como uma obra que serve de exemplo de superação para os jovens norte-americanos, mas seu significado é ainda mais amplo: ela constitui o próprio processo de desenvolvimento dos Estados Unidos.. Os textos revolucionários Thomas Jefferson (1743-1826), juntamente com George Washington e Benjamin Franklin, forma o trio de notáveis entre os “Pais Fundadores” responsáveis pela criação e consolidação dos Estados Unidos assim que o país se torna independente. Jefferson, porém, destaca-se por pensar toda a estratégia social e intelectual que serão os pilares dessa nova nação. A visão nacionalista de Jefferson 37.
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