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A poesia de Edgar Allan Poe

Um dos pontos altos da poesia norte-americana foi com as obras de

Edgar Allan Poe (1809-1849). Mestre do conto e da ficção no século XIX, o

trabalho poético de Poe também deixou uma marca definitiva na literatu- ra do período. Além de seu impressionante talento lírico (que infelizmen- te só viria a ser totalmente reconhecido após sua morte), Poe também

contribuiu com uma teoria poética para os Estados Unidos que durante muito tempo ecoou nos trabalhos de autores não só norte-americanos, mas também europeus.

Um dos conceitos centrais de Poe sobre a natureza poética é o que procura definir o próprio conceito de poesia. Para o autor, a essência do trabalho poé- tico encontra-se na poesia em si – na sua estrutura, composição e leitura. Não haveria a necessidade de constituir o significado da poesia com relação a um conceito de verdade exterior a ela:

The simple fact is, that, would we but permit ourselves to look into our own souls, we should immediately there discover that under the sun there neither exists nor can exist any work more thoroughly dignified – more supremely noble than this very poem – this poem per se – this poem which is a poem and nothing more – this poem written solely for the poem’s sake. (POE

In: BRADBURY; RULAND, 1992, p. 131)

Essa noção de que um poema é um poema e “nada mais” afasta as obras de Poe de uma verdade exterior que precisaria necessariamente estar atrelada a seu trabalho. Isso afetaria profundamente a composição poética, pois marcaria a as- censão de um certo moralismo que certamente prejudicaria a qualidade imagi- nativa de sua produção. O verdadeiro valor da poesia encontra-se nela própria.

A poesia de Poe tem como síntese o tormento e a melancolia causada pela aproximação de uma esfera sobrenatural ao tema da beleza e da paixão. É nesse espaço limítrofe que o poeta vai traçar toda uma rede simbólica que em muito vai influenciar especialmente poetas franceses do fim de século e vai servir de base para um forte movimento simbolista após a morte de Poe. A atmosfera altamente imaginativa e um tanto surreal de suas obras em muito se distingue do transcendentalismo, que aproxima o homem da atmosfera natural que o cerca. Por isso, a obra de Poe é considerada visionária – além de escrever os poemas, o poeta ainda descrevia seu método de composição.

O melhor exemplo disso é The Raven (O Corvo). Um dos poucos poemas de Poe reconhecidos durante sua vida, este trabalho se tornou o símbolo máximo da obra do autor. O eu lírico de The Raven em muito se assemelha aos narradores dos contos de Edgar Allan Poe: ele encontra-se no limite entre a sanidade e a loucura, é assombrado por um evento do passado e está inserido num contexto de profunda melancolia.

The Raven é um poema narrativo cuja ação principal se desenrola em apenas

uma noite, quando o narrador encontra-se lendo para tentar esquecer a morte de sua amada, Lenore. Primeiramente, ele escuta um barulho como se alguém estivesse a bater à sua porta, mas ao abri-la, não encontra ninguém. A seguir, ele

escuta outras batidas, dessa vez mais fortes, na janela. Ao investigar o som, um corvo entra no seu quarto e vai pousar diretamente no busto de mármore da deusa Pallas em cima de sua porta:

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter, In there stepped a stately raven, of the saintly days of yore.

Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he; But with mien of lord or lady, perched above my chamber door. Perched upon a bust of Pallas, just above my chamber door, Perched, and sat, and nothing more.

Inicialmente, o narrador acha divertido o inusitado da cena e, quase como piada, pergunta ao pássaro o seu nome, ao que o corvo responde: “nevermore”, ou seja, “nunca mais”:

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling, By the grave and stern decorum of the countenance it wore, “Though thy crest be shorn and shaven, thou,” I said, “art sure no craven, Ghastly, grim, and ancient raven, wandering from the nightly shore. Tell me what thy lordly name is on the Night’s Plutonian shore.” Quoth the raven, “Nevermore.”

Surpreso pela capacidade de fala do animal, o narrador presume que aquela deva ser a única expressão que o corvo consegue emitir, provavelmente apren- dida por causa de um antigo dono que assim o ensinou. Ele acredita então que, assim como amigos que já partiram de sua vida, o corvo também partirá, ao que ao pássaro responde: “Nevermore”. Essa palavra servirá como refrão do poema, e a partir de então para toda a pergunta e comentário feita pelo narrador o corvo responderá “Nevermore”. A atmosfera sobrenatural do poema se torna mais clara, com o ar do quarto se tornando pesado e o personagem sentindo a presença de anjos, cada vez mais atormentado pela ausência de sua amada. Ao perguntar ao corvo se ele um dia se reencontraria com Lenore, ele responde “Nevermore”.

O narrador então se enraivece e pede ao corvo para retornar para o lugar de onde veio:

“Be that word our sign of parting, bird or fiend!” I shrieked, upstarting – “Get thee back into the tempest and the Night’s Plutonian shore! Leave no black plume as a token of that lie thy soul spoken! Leave my loneliness unbroken! – quit the bust above my door! Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!”

O pássaro então responde mais uma vez: “Nevermore”. E assim o poema termina, provavelmente com o pássaro ainda em cima do busto de mármore no momento em que o narrador conta sua história, afirmando que a sua alma nunca mais se tor- naria livre da sombra daquele corvo presente em seu quarto e na sua vida.

A leitura de The Raven, no entanto, é praticamente indissociável da leitura de um dos mais significativos ensaios de Edgar Allan Poe, The Philosophy of Compo-

sition, de 1846. Esse texto tem ao menos duas funções fundamentais que ajudam

a mapear o método e o pensamento do autor: organizar uma teoria crítica em relação à escrita da poesia e servir de análise para The Raven. Com esse ensaio, o autor procurou mostrar o processo de criação de sua obra mais famosa não como um produto da inspiração ou meramente associado a sentimentos intuiti- vos (teoria em voga durante o Romantismo), mas sim como fruto de intenso tra- balho e raciocínio lógico, chegando a comparar o poema a uma equação mate- mática: “It is my desire to render it manifest that no one point in its composition is referrible either to accident or intuition – that the work proceded, step by step, to its completion with the precision and rigid consequence of a mathematical problem.” (POE In: McMICHAEL et al., 2001, p. 605)

Usando então o método de criação de The Raven como melhor exemplo, Poe estabelece em The Philosophy of Composition uma série de regras através das quais a poesia de qualidade seria produzida.

Primeiramente, o autor afirma que todo trabalho literário deve ter um limite sobre sua extensão, portanto ele não deve ultrapassar the limit of a single sitting, ou seja, o leitor deve ser capaz de ler uma obra entre o momento em que decide sentar para lê-la e antes de levantar-se. Portanto, um número de linhas ideal para um poema seria 108 linhas. Sobre o tema final de um trabalho poético, não havia dúvidas para Poe de que este era a beleza. E a forma mais completa de manifes- tação da beleza é através de um tom triste e melancólico.

No poema, o efeito artístico que melhor representa essa atmosfera seria o refrão, mas esse refrão consistiria na repetição de uma palavra, aplicada de formas variadas – daí o constante uso da palavra nevermore. No entanto, teria que haver uma razão plausível para que a palavra fosse continuamente repeti- da, e Poe afirma que imediatamente lhe veio a ideia de uma criatura irracional responsável pela repetição de nevermore. O poeta pensou primeiro em um pa- pagaio, a escolha mais natural, mas em seguida escolheu definitivamente pelo corvo por ser um animal cuja conotação sinistra condizia mais com o tom do poema. Como uma grande estrutura arquitetônica, Poe já possui então os pi- lares de sua poesia construída de forma completamente racional e metódica: “I had now gone so far as the conception of a Raven – the bird of ill omen – mono- tonously repeating the one Word, ‘Nevermore’, at the conclusion of each stanza, in a poem of melancholy tone, and in length about one hundred lines.” (POE In: McMICHAEL et al., 2001, p. 608)

Poe passa então a discutir o tópico do poema. Considerando que o tom esco- lhido para o poema é o da melancolia, não havia dúvida de que o assunto central

morte é relacionando-a a bela mulher. A partir daí, ele vai passo a passo anali- sando as estratégias temáticas estruturais através das quais resolveu construir o poema, desde a organização das estrofes à presença do busto da deusa Pallas.

É interessante notar que Edgar Allan Poe, em The Philosophy of Composition, constrói uma narrativa baseada em princípios lógicos assim como vários dos personagens que se encontram à beira da loucura em seus contos. É através do raciocínio totalmente estruturado que o narrador de The Philosophy of Compo-

sition planeja sua poesia, assim como de certa forma os narradores da ficção de

Poe planejam seus crimes (The Tell-Tale Heart) ou a investigação sobre eles (The

Murders of Rue Morgue). Porém, fato é que o grande protagonista desse famoso

ensaio de Poe é o próprio escritor: “The importance of the piece is its penetration of the poetic process and its protagonist: the writer himself, in his imaginative quest for meaning and signification.” (BRADBURY; RULAND, 1992, p. 136)