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William W. Menzies
Stanley M. Horton
. c :; : > Direitos Reservados. Copyright © 1995 para a língua portuguesa da Casa Pubücadora das Assembléias de Deus.
"P.rolc io original em inglês:
5 ble Doctrines - A Pentecostal Perspective
L gi :n Press/Springfield, Missouri Primeira edição em inglês: 1993 Tradução: João Marques Bentes Capa: Alexander Diniz R da Silva
230 - Doutrina
Menzies, William W., e Horton Stanley M. MENd Doutrinas Bíblicas.../William W. Menzies e
Stanley M. Horton
l.ed. - Rio de Janeiro: Casa
Publicadora das Assembléias de Deus, 1995. p. 312.cm. 14x21
ISBN 85-263-0055-5
1. Doutrina 2. Teologia Cristã CDD
230 - Doutrina
Casa Publicadora das Assembléias de Deus
Caixa Postal 331
20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil 3a Edição 1999
Prefácio...9
Introdução...11
1. A Inspiração das Escrituras...19
A Regra Autorizada... 19
A Revelação de Deus à Humanidade...22
A Verbalmente Inspirada Palavra de Deus .... 24
A Regra Infalível...29
O Canon e as Traduções Mais Recentes...32
2. O Deus Único e Verdadeiro...41
A Existência de Deus...45
A Natureza de Deus... 47
Os Atributos de Deus...50
A Trindade...52
3. A Deidade do Senhor Jesus Cristo...61
A Pessoa de Cristo...61
Os Ofícios de Cristo... 66
A Obra de Cristo...68
4. A Queda do Homem... 79
Doutrinas Bíblicas A Natureza da Humanidade...84 A Imagem de Deus...87 A Origem do Pecado...89 5. A Salvação do Homem...101 O Conceito de Sacrifício... 101 A Expiação...103
Resultados da Obra de Cristo no Calvário... 105
A Conversão... 107
6. As Ordenanças da Igreja... 117
Batismo em águas...118
A Ceia do Senhor...122
7. O Batismo no Espírito Santo...129
A Promessa do Pai... 129
Terminologia Bíblica do Batismo...131
O Propósito do Batismo no Espírito Santo... 132
Recebendo o Batismo no Espírito Santo...136
8. Evidência Física Inicial do Batismo no Espírito Santo...141
Sinais do Derramamento...141
Funções do Falar em Línguas... 145
Questões Sobre o Falar em Línguas...146
9. A Santificação... 153
Definindo Termos... 154
Três Faces da Santificação... 155
10. A Igreja e Sua Missão...167
Como Tomar-se Membro da Igreja... 173
A Obra da Igreja... 174
11. O Ministério...189
Organização da Igreja... 187
Funções do Ministério...193
A Chamada para o Ministério... 195
12. Cura Divina...203
O Argumento em Favor das Curas...203
O Grande Médico...205
Cura na Expiação...207
Curas Disponíveis Hoje...211
Renovação Interior...213
Ajuda à F é...214
As Enfermidades e os Demônios...215
As Curas e a Profissão Médica...217
O Propósito da Cura Divina... 218
Por que nem Todos São Curados?...219
13. A Bendita Esperança...223
A Ressurreição dos Crentes...223
Jesus Voltará...225
O Arrebatamento...229
A Grande Tribulação...232
O Anticristo...235
O Tempo da Vinda de Cristo... 235
14. O Reino Milenial de Cristo...243
A Revelação de Cristo...243
8 Doutrinas Bíblicas
Pontos de Vista do Milenismo...246
Promessas Nacionais de Deus a Israel...251
15. O Julgamento Final...259
O Destino da Raça Humana... 259
Os Julgamentos... 262
A Rebelião Final de Satanás... 264
O Grande Trono Branco...265
Lago de Fogo... 266
16. Os Novos Céus e a Nova Terra...271
O Novo Substitui o Antigo... 271
A Nova Jerusalém...275
Apêndice: A Declaração Original de 1916 sobre as Verdades Fundamentais... 279
Glossário...285
Bibliografia... ...299
O estudo das doutrinas bíblicas faz-se cada vez mais indispensável, especialmente nestes últimos dias, quando se constata um contínuo aumento de falsos mestres e profetas. Conseqüentemente, um número demasiado grande de cren tes acha-se agitado de um lado para outro, “levados em roda por todo vento de doutrina, pelo engano dos homens que, com astúcia, enganam fraudulosamente” (Ef 4.14). Como se não bastasse, alguns fiéis (talvez sem saberem que “doutri na” é apenas outra palavra para “ensino”) fazem objeção ao estudo das doutrinas, tornando-se vulneráveis aos “ventos de doutrina”. Eis a razão pela qual Deus quer que os crentes cresçam. Mas, para isto, faz-se necessário conhecer os ensi nos básicos da Bíblia. Tal conhecimento haverá de prote ger-nos dos falsos mestres e profetas.
O livro intitulado Understanding Our Doctrine, de au toria do Dr. William W. Menzies, foi originalmente escrito para ser utilizado num curso de treinamento intitulado “Pontos Fundamentais para Obreiros da Escola Dominical”. O Dr. Menzies, atual presidente do Asia Pacific Theological Seminary (anteriormente Far East Advanced School of Theology), em Baguio, república das Filipinas, deu-me sua
Doutrinas Bíblicas
bondosa permissão para revisar e ampliar seu excelente livro para uso de todo o povo de Deus.
Os capítulos deste livro seguem os 16 artigos da Declara ção de Verdades Fundamentais, conforme aceitos pelas As sembléias de Deus. Nosso propósito, entretanto, não é pro mover as doutrinas das Assembléias de Deus, mas antes, salientar a base e as aplicações dessas verdades bíblicas fundamentais. Este estudo, pois, será útil para aqueles que crêem na Bíblia, sem importar sua denominação. Os crentes precisam saber onde estão no tocante às doutrinas da Bíblia.
Este livro será útil para os pastores no treinamento de novos convertidos. Os professores de Escola Dominical achá- lo-ão útil tanto para o seu enriquecimento pessoal, quanto para ministrar a seus alunos em idade colegial, proporcio- nando-lhes sólida base para estudos mais vastos e profun dos no campo da teologia. Enfim, esta obra será útil a todos, quer seminaristas, quer leigos, e obreiros de uma forma geral.
Desejo agradecer ao Dr. G. Raymond Carlson, superin tendente geral das Assembléias de Deus nos Estados Uni dos; à Divisão de Missões Estrangeiras das Assembléias de Deus dos Estados Unidos; e a todos que, mediante sua generosidade, tornaram possível este projeto. Agradecimen tos especiais também são devidos a Glen Ellard e sua equipe editorial por sua ajuda técnica.
Para facilitar a leitura, as palavras em hebraico, aramaico e grego foram transliteradas por letras latinas.
Stanley M. Horton, Th.D. Emérito Professor de Bíblia e Teologia no
Assemblies of God Theological Seminary
As Assembléias de Deus vieram à existência em resulta do do reavivamento pentecostal que começou no princípio do século XX. Este reavivamento teve início como a pode rosa e sobrenatural resposta de Deus ao modernismo teoló gico que já estava tomando conta da maioria das denomina ções evangélicas na América do Norte e ao redor do mundo. Livros escritos para defender a fé eram ignorados pelos seminários. A possibilidade de milagres operados por Deus era negada. Um vácuo espiritual, por conseguinte, se estava desenvolvendo de forma irremediável e crônica. Essa época foi assim retratada pelo Dr. William Menzies:
Os Estados Unidos, nos anos entre a Guerra Civil e o término do século [XIX], estavam em estado de fermentação social e religiosa. A corrupção moral, política e econômica aumentava as tensões ocasionadas pela organização das diversas classes, pela industrialização e pela imigração. As grandes denominações, bem sucedidas na cristianização das fronteiras, tornaram-se compla centes e sofisticadas, faltando-lhes a visão e a vitalidade para enfrentarem as necessidades em mutação de uma população aflita. Graus variegados de acomodação à idéias populares, re cen tem en te im portadas da E uropa, que assaltavam o
Doutrinas Bíblicas
evangelicalismo ortodoxo, debilitaram ainda mais as grandes co munhões evangélicas. Contra a erosão na Igreja de Cristo surgi ram os movimentos Fundamentalista e Holiness. Foi principal mente devido às preocupações espirituais geradas por esse seg mento que nasceu o anseio por um novo Pentecoste. Antes do ano de 1900, havia manifestações carismáticas, mas isoladas e episódicas em sua natureza. Mas estava sendo armado o cenário para o grande derramamento do Espírito Santo que, em breve, tomaria conta da terra, trazendo-nos o grande refrigério dos Últimos Dias. (William W . Menzies, Anointed to Serve: The Story of the Assemblies of God, Springfield, Mo.: Gospel Publishing House, 1971, pág. 33).
O atual movimento pentecostal traça sua origem desde o reavivamento no Bethel Bible College, em Topeka, Kansas, que teve início a l°dejaneiro de 1901. Estudantes, com base em seus estudos bíblicos, concluíram que o falar em línguas (ver At lAt) é a evidência física e inicial do batismo no Espírito Santo. Uma das estudantes, Agnes Ozman, decla rou que sentia “como se rios de água viva estivessem saindo de seu ser mais interior”. (Stanley H. Frodsham, With Signs
Following, edição revisada, Springfield, Mo.: Gospel Publishing
Fíouse, 1946, pág. 20).
O reavivamento tornou-se uma verdadeira explosão pen tecostal quando, em 1906, W. J. Seymour obteve um edifí cio de dois andares na rua Azusa, 312, em Los Angeles, Estado da Califórnia. Durante cerca Be três anos, houve cultos quase que continuamente, das dez da manhã à meia- noite. E muitos daqueles que receberam o batismo pente costal no Espírito Santo foram espalhados para propagarem a mensagem. Muitas igrejas pentecostais independentes ti veram início. E então,
Depois que os derramamentos pentecostais começaram, apa receram numerosas publicações advogando seus ensinos e ser vindo de canais para fornecer informações e sustentar missioná rios enviados além-mar. Uma dessas publicações, a W ord and Witness, editada por Eudorus N. Bell, publicou um convite, em
1913, para uma conferência de crentes pentecostais a ser realiza da em Hot Springs, Estado do Arkansas, no ano seguinte. Assim foi realizada a reunião de fundação do Concilio Geral das Assem bléias de Deus (Gary B. McGee, “A Bried History of the M odern Pentecostal Outpouring”, Paraclete 18, primavera de 1984, pág. 22).
Cinco razões básicas foram apresentadas para a convoca ção do Concilio Geral, que funcionou entre 2 e 12 de abril de 1914. Os convocados “(1) deveriam atingir uma melhor com preensão e unidade de doutrina; (2) saber como conservar a obra de Deus na própria pátria e no estrangeiro; (3) consultar os órgãos competentes quanto à proteção de fundos para os esforços missionários; (4) explorar as possibilidades de unificar as igrejas sob um nome legal; e (5) considerar o estabelecimen to de uma escola de treinamento bíblico com uma divisão literária” (In the Last Days: An Early History ofthe Assemblies
of God, Springfield, Mo.: Assemblies of God, 1962, pág. 11).
Mais de trezentas pessoas fizeram-se presentes, e elege ram E. N. Bell como o presidente de sua nova comunhão - as Assembléias de Deus. Em 1916, foi preparada uma “De claração de Verdades”, primariamente por Daniel Warren Kerr, de Cleveland, Ohio (Carl Brumback, Like a River:
The Early Years of the Assemblies of God, Springfield, Mo.:
Gospel Publishing House, 1977, pág. 55).
Este documento foi adotado com o seguinte preâmbulo:
Esta declaração de Verdades Fundamentais não tem por intuito ser um credo da igreja, e nem a base da comunhão entre os cristãos, mas somente o alicerce da unidade para o ministério (ou seja, que todos digamos a mesma coisa, 1 Co 1.10 e A t 2.42). A fraseologia empregada em tal declaração não é inspirada e nem a defendemos contenciosamente, mas a verdade nela expos ta é considerada essencial para o ministério pleno do Evangelho. Embora não contenha ela toda a verdade da Bíblia, cobre nossas atuais necessidades quanto às questões fundamentais básicas da fé (Concilio Geral das Assembléias de Deus, Atos do Concilio
Doutrinas Bíblicas
Geral, 2 a 7 de outubro de 1916. A redação foi levemente modificada na atual declaração apresentada em forma de livre te: The General Council of the Assemblies of God Statement of Fundamental Truths, revisado, Springfield, Mo.: Gospel Publishing House, 1983).
A declaração original serviu às Assembléias de Deus por muitos anos. Havia pouca insatisfação com qualquer dos 16 artigos. (Originalmente havia 17 artigos. A revisão combinou os artigos 2 e 13, adicionou um artigo sobre a deidade de Cristo, e combinou os artigos 10 e 11, restando-assim 16 artigos ao todo.)
Visto que algumas das doutrinas haviam sido formuladas de forma muito sucinta, sentiu-se mais tarde a necessidade de se reescrever e ampliar alguns artigos. Em 1960, pois, uma comis são pôs-se a trabalhar em cima dessas declarações, surgindo daí uma redação nova e mais detalhada. O trabalho foi aprovado e adotado pelo Concilio Geral, em 1961. A única mudança signifi cativa foi o abandono da expressão “inteira santificação”, por quanto era compreendida de diferentes maneiras, gerando ambi güidades. “O esclarecimento de 1961 especificou a crença de que a justiça imputada, outorgada ao crente, por ocasião de sua justificação, deveria ser evidenciada numa vida de santidade”
(Menzies, Anointed, pág. 318).
A preocupação com a preservação da integridade doutri nária, dentro do movimento, também resultou na promulga ção de diversas manifestações. Eram estas feitas por ministros das Assembléias de Deus, que sentiam a necessidade de maior ajuda e esclarecimento sobre vários assuntos atinentes ao campo de trabalho. A maior parte desses documentos foi preparada pela Comissão Sobre Pureza Doutrinária, uma co missão permanente nomeada pelo Presbitério Executivo das Assembléias de Deus. Os mais diversos pastores, oficiais distritais e professores dos colégios bíblicos e seminários já fizeram parte dessa comissão. As declarações daí resultantes foram aprovadas pelo Presbitério Executivo e pelo Presbitério Geral, sendo a seguir publicadas. Todos os documentos, impressos
até 1989, eram coligidos e publicados sob o título Where We
Stand- Onde Estamos (Springfield, Mo.: Gospel Publishing
House, 1990).
Seguem-se os títulos desses documentos: (1) “A Inerrância das -Escrituras”: (2) “Podem os Crentes RegéneradoíTSer Possuídos pelos. Demônios?”; (3) “Divórcio e Novo Casa- mento”: (4) “O Ministério do Corpo de Cristo”; (5) “Curas Divinas: Uma Parcela Integral do Evangelho”; (6) “0~Mo- vimento do Discipulado e da Submissão”; (7) “Meditação Transcendental”; (8) “Diáconos e Encarregados”; (9) “Pu nição Eterna”; (10) “Visão das Assembléias de Deus Sobre a Ordenação”; (11) “A Doutrina da Criação”; (12) “A Segu rança do Crente”; (13) “Homossexualismo”; (14) “O Arre- batamento da Igreja”; (15) “O Crente e a Confissão Positi va”; (16) “A Evidência Física Inicial do Batismo no Espírito Santo”; (17) “Uma Perspectiva Bíblica Sobre o Jogo”; (18) “A Abstinência”; (19) “Uma Perspectiva Bíblica Sobre o Aborto”; e (20) “O Reino de Deus Conforme Descrito nas Santas Escrituras”.
Desde a publicação de Where We Stand, outro docu mento que manifesta posição veio a público: “Papel das Mulheres no Ministério,Conforme a Descrição das Santas Escrituras”. Há ainda outros trabalhos que surgiram em decorrência de várias necessidades. Eles são um valioso suplemento para a nossa compreensão acerca da doutrina e da prática das Assembléias de Deus. Sempre que nos pare cer apropriado, parte do material constante nesses trabalhos e documentos será discutida neste livro.
IBLICAS
1
a
Verdade
Fundamental
As Escrituras Sagradas, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, são inspiradas verbalmente por Deus. Elas são a revelação de Deus à humanidade, e nossa infalível e autorizada regra de fé e conduta (1 Ts 2.13; 2 Tm 3.15,16; 2 Pe 1.21).
A Inspiração das
Escrituras
A REGRA AUTORIZADA
Como posso saber qual a verdadeira religião? Eis uma importante pergunta feita com freqüência. Ela merece ser respondida, visto que o bem-estar eterno de quem a faz está em jogo. A questão real é a da autoridade.
Há três tipos básicos de autoridade religiosa: (1) a razão humana, (2) a Igreja e (3) a Palavra de Deus. Talvez o tipo mais comum, hoje, seja a razão humana. Não perderemos :empo discutindo acerca das realizações do intelecto huma- no. Elas são realmente admiráveis. Nem poremos de lado a r.ecessidade de se manusear os negócios da vida diária de _ma maneira lógica. O processo de se abordar problemas de :: rma a corresponder ao bom senso chama-se racionalidade. Não é pecado agir com a razão. A racionalidade, porém, não deve ser confundida com o racionalismo. O racionalismo é aquela crença que coloca a razão humana como a mais elevada das autoridades. Alegam os racionalistas que, com o :empo, o gênio humano desvendará todos os segredos do L niverso, e conduzirá o planeta a uma vida de paz, saúde e prosperidade para todos.
CAPÍTULO
1
A Inspiração
das Escrituras
Uma forma de racionalismo é o cientismo. Acredita ele que a ciência, com suas metodologias e instrumentos, será capaz de analisar e solucionar todos os problemas que fusti gam a raça humana. Entretanto, tal ponto de vista sofre de severas restrições, pois falha em reconhecer a incapacidade da ciência em analisar determinadas coisas. Não pode, por exemplo, trabalhar diretamente com a cor e o som. E vê-se obrigada a expressar tais qualidades mediante termos quan titativos. Mas qualidades não são quantidades. Exemplificando: apesar de os cegos de nascença serem ca pazes de compreender a ciência e a matemática dos compri mentos das ondas da luz, não significa que possam fazer a mínima idéia sobre o pôr-do-sol, a rosa vermelha ou o estra nho colorido das asas da borboleta. O mesmo se pode dizer dos surdos. Embora possam vir a compreender a ciência e a matemática das ondas sonoras, jamais terão qualquer idéia acerca de uma sinfonia, ou de uma congregação que louva a Deus e glorifica a Jesus, no Espírito Santo. A ciência é incapaz de estudar elementos que não possam ser pesados ou medidos, como a alma humana. E nem pode tratar com ocorrências ímpares, como os milagres, pois estes são uma manifestação distinta e separada da graça e do poder de Deus. Logo, o milagre não pode ser repetido para análise em laboratório.
Na realidade, os que tomam o racionalismo como sua autoridade terminam por aceitar a própria razão como auto ridade suprema. Mas, conforme Salomão observou: “Nada há de novo abaixo do sol”, esse mesmo tipo de arrogância também se manifestava nos tempos antigos. No capítulo 11 de Gênesis, lemos sobre aqueles que tentaram desafiar a Deus, edificando uma torre altíssima, em Babel. Os racionalistas de todos os séculos assemelham-se a estes: põem sua confiança final na própria capacidade de racioci nar. Nos dias dos juizes, “cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos” (Jz 17.6 e 21.25). O caos e a confu são, resultantes dessa atitude, são claramente retratados nas trágicas histórias registradas no livro de Juizes.
A Inspiração das Escrituras 21
A segunda crença comum aponta a Igreja como a auto ridade suprema. Alguns alegam que, já que o Cristo outor- gou sua autoridade a Pedro, este, ao impor as mãos sobre os bispos que ordenara, conferiu-lhes automaticamente a mes ma autoridade. E, assim, surgiu a cadeia sucessória de Pedro. Através da “sucessão apostólica”, a autoridade vem sendo transmitida desde Cristo, através dos doze apóstolos, atra vessando os séculos. Com base nessa idéia, certas igrejas consideram-se acima das demais, arrogando-se como as úni cas representantes autorizadas de Cristo. Seus líderes, por isso, procuram exercer uma autoridade que o Senhor jamais lhes outorgou.
Associada ao ponto de vista da sucessão apostólica, acha-se a asserção de que o Novo Testamento é um produto da Igreja, conferindo a esta uma espécie de prioridade sobre a Bíblia. Devemos observar, no entanto, que a teoria da sucessão apostólica não apareceu senão já no segundo sécu lo de nossa era. Outrossim, o concilio de Cartago, efetuado em 397 d. C., jamais autorizou o cânon dos livros do Novo Testamento que hoje reconhecemos como inspirados pelo Espírito Santo. Limitou-se, porém, a corroborar o que já era reconhecido por todas as igrejas da época. A morte de Cristo pôs a Nova Aliança em vigor (ver Hb 9.15-17). Após a sua ressurreição, Ele e o Espírito Santo trouxeram a Igreja à existência. Ato contínuo, o Espírito Santo inspirou os escritores que nos legaram os livros do Novo Testamento. Atualmente, visto haverem disputas e querelas entre os corpos eclesiásticos, o coração do homem anela por uma autoridade superior a da organização eclesiástica terrena.
A terceira alternativa consiste em se confiar explicita mente na autoridade da Palavra de Deus. Esse ponto de vista encontra-se baseado na convicção de que Deus, por sua natureza, é auto-revelador. (A diferença-chave entre as outras religiões e o Cristianismo é que elas vêem a humani dade no escuro, buscando por alguma coisa dentro de si mesma ou para além de si mesma. O Cristianismo revela o
CAPÍTULO
1
A Inspiração
das Escrituras
CAPÍTULO
1
A Inspiração
das Escrituras
Deus que dissipa as trevas, que intervém na história huma- na e estende seu amor aos que se acham caídos.)
Deus é um Deus que fala; Ele deseja comunicar-se com suas criaturas. Hebreus 1.1,2 disserta sobre esta característi' ca do Supremo Ser: “Havendo Deus, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho. . .”
Sim, Deus falou. Sua declaração final e plena, conforme nos indica Hebreus 1.1,2, foi feita através da pessoa de seu Filho, Jesus Cristo. Chamamos a essa maneira de falar de encarnação, onde o divino foi revestido pelo humano. Essa é a medida mais completa pela qual Deus pode comunicar' se conosco. Trata-se de uma comunicação de pessoa para pessoa. Jesus Cristo, segundo nos lembra o primeiro capítulo do evangelho de João, é o “Verbo”, o mensageiro e a mensa gem de Deus. Ora, assim como Jesus Cristo é a Palavra Viva, assim também a Bíblia é a Palavra escrita de Deus. Na ausência pessoal de Jesus, a Bíblia é a autoridade que o Espírito Santo usa para dirigir o Corpo de Cristo. O apóstolo Paulo, em Romanos 10.8-15, afirmou dramaticamente que, sem a proclamação das Boas Novas - a mensagem da Bíblia - o homem jamais poderá reatar sua comunhão com Deus. Ela é a base da nossa fé. Ela nos leva a confessar que “Jesus é o Senhor”.
A REVELAÇÃO DE DEUS À HUMANIDADE
Se admitirmos que Deus de fato fala, é a Bíblia o único meio de Ele se comunicar conosco? Deus também torna-se conhecido, até certo ponto, a todas as pessoas (1) mediante a criação e (2) através da consciência. Tal maneira de Deus falar é usualmente chamada de revelação geral ou natural. Os capítulos 1 e 2 da epístola aos Romanos esboça a forma pela qual Ele fala conosco. Romanos 1.20 refere-se ao co nhecimento divino disponível a todas as pessoas, em todos os lugares; é o conhecimento colhido junto à natureza:
A Inspiração das Escrituras 23
“Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder como a sua divindade, se enten dem e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis”. Noutras palavras, os seres humanos, sem exceção, têm condições de saber que nenhum deus feito de ouro, prata, bronze, madeira ou barro, poderia ter criado um Universo tão imenso e comple xo como o nosso. E nem os muitos deuses pagãos, represen tados como quem luta uns contra os outros, poderiam ter criado a consistência, a boa ordem e a beleza que encontra mos na natureza. Quem haveria de negar a expressão inspi rada do Salmo 19: “Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos?”
A Bíblia afiança que Deus fala através da consciência do indivíduo: “Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei, os quais mostram a obra da lei escrita no seu coração, testificando juntamente a sua cons ciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer de fendendo-os” (Rm 2.14,15). O próprio fato de que as pesso as, em todos os lugares, possuem uma consciência, uma idéia de certo e errado que se coaduna com a Bíblia, mostra- nos que há uma autoridade acima do indivíduo e das cir cunstâncias. Até aqueles que rejeitam a Bíblia retêm a cons ciência, embora esta opere à base daquilo em que se acredita ser o certo e o errado.
Externamente, Deus fala através do Universo que Ele criou; e, internamente, por intermédio da consciência de cada indivíduo. Entretanto, a tragédia registrada nos capí tulos 1 e 2 da epístola aos Romanos pode ser assim resumi da: a humanidade, tendo recebido a luz difusa disponível no Universo, amaldiçoou a Deus, e rebelou-se contra Ele. Mes mo assim, há uma luz suficiente para que ninguém venha a afirmar que Deus é injusto.
E, por haverem rejeitado voluntariamente a luz, não serão poucos os condenados à punição eterna. Não é Deus
CAPÍTULO
1
A Inspiração
das Escrituras
quem manda as pessoas para o inferno. São elas próprias que exigem que Ele as deixe em paz, para que possam viver de acordo com os seus desejos, luxúrias e concupiscências. E, quando Deus, em meio à tristeza e à relutância, permite que os tais se entreguem aos seus próprios caminhos, só lhes pode restar a perversão, a destruição e o inferno.
Uma mensagem especial, que somente a Bíblia pode transmitir, é a notícia de que Deus interveio no drama humano para redimir-nos. A natureza e a consciência não poderiam jamais revelar semelhante verdade. Mas o Antigo Testamento discorreu demorada e antecipadamente acerca da vinda do Redentor; e o Novo mostra-nos como se deu a sua vinda e revela-nos a plenitude de seu significado.
A VERBALMENTE INSPIRADA PALAVRA DE DEUS
O termo grego que mais se aproxima do vocábulo portu guês “inspiração” acha-se em 2 Timóteo 3.16. E a palavra
theopneustos que, literalmente, significa “soprado por Deus”.
Mediante o hálito e o poder divinos, o Espírito Santo moveu os autores da Bíblia com tal precisão que o que eles deixa ram escrito reflete com exatidão o que o próprio Deus quis dizer. Os profetas e apóstolos deixaram bem patente os sinais da inspiração divina em suas respectivas obras. Isso significa que os 66 livros do cânon sagrado, que compõem a Bíblia, na sua expressão original, são inteiramente dignos de confiança, tanto quanto a voz do Espírito Santo (ver 2 Pe 1.17-21).
Quanto à inspiração, diversos pontos devem ser levados em conta. A teoria do ditado mecânico afirma que Deus falou de tal forma através dos profetas e apóstolos a ponto de lhes suprimir a personalidade. Esta teoria, porém, é errô nea. Personalidades e vocabulários particulares dos vários escritores são facilmente distinguíveis. Entre os aproxima damente quarenta autores das Sagradas Escrituras, pode-se observar suas várias ocupações - pastores, estadistas, sacer
A Inspiração das Escrituras 25
dotes, pescadores, os bem-educados e os de pouca cultura. Os escritores não foram manipulados como se fossem robôs, ou como se estivessem em transe. Deus não os apanhou ao acaso, e ordenou-lhes que escrevessem. Mas separou, por exemplo, a Jeremias para ser um profeta; e, para tanto, começou a prepará-lo desde que ele se encontrava no ven tre materno (Jr 1.5). Enfim, o Senhor Deus preparou os autores das Escrituras através de experiências, separando-os convenientemente a que trouxessem a lume a verdade exa tamente como lhas revelara. Desse modo, a personalidade dos escritores foi cuidadosamente preservada pelo Espírito Santo.
O Espírito Santo “impulsionou o pensamento original na escolha das palavras que melhor o expressassem (Ex 4.12,15). E, finalmente, Ele nos ilumina a mente para que compreendamos a sua Palavra^conforme no-la transmitiram os autores sagrados (1 Co 2.12; Tsf 1.17,18). Assim sendo, tanto o pensamento quanto a linguagem são igualmente inspirados e reveladores” (Where We Stand, Springfield, Mo: Gospel Publishing House, 1990, pág. 7).
Outro ponto de vista largamente defendido é o da inspi ração dinâmica. Esta posição concebe a Bíblia não como a obra que tencionava transmitir “verdades proposicionais” - isto é, informações reais, objetivas e racionais - a respeito do próprio Deus. Os advogados dessa idéia assim a defendem por haverem concluído que Deus se mantém irreconhecível. Alegam que Ele é infinitamente diferente dos seres huma nos, e, que, por isso mesmo, não pode ser reconhecido na Bíblia. Nesta, complementam, Ele não se dá a conhecer; limita-se a mostrar como devem viver os seres humanos.
Essa interpretação é conhecida também como funcio nal, pois a Bíblia, conforme dizem, nada pode revelar-nos sobre o que Deus é, mas somente acerca de seu trabalho. Negando o elemento sobrenatural, constitui-se tal posição no âmago dos temas modernistas ou teologicamente libe rais. Em síntese: dá a idéia de que a Bíblia não passa,
CAPÍTULO
1
A Inspiração
das Escrituras
CAPÍTULO
1
A Inspiração
das Escrituras
basicamente, de um folclore. De acordo com essa teoria, a ética suplanta a doutrina. Assim, abre a porta para o relativismo moral, levando as pessoas a interpretarem, por si mesmas, o que julgam ser apropriado aceitar ou rejeitar, como se tudo não passasse de meras tradições (Jz 17.6).
Uma variante desse ponto de vista é a ênfase sobre a história da salvação. De acordo com esta postura, há de fato inegáveis indícios de que Deus vem atuando na história da humanidade visando a salvação desta. Semelhante teoria aceita a Bíblia como um registro da atividade salvadora de Deus, mas reivindica ser ela apenas um registro humano; logo, passível de erros, limitada pela experiência e visão dos que a escreveram. O aspecto positivo desse posicionamento é a aceitação da Bíblia como o registro dos eventos sobrena turais de Deus em sua obra redentiva. Sua maior falha acha- se em afirmar que até a interpretação dos eventos narrados na Bíblia, tem de ser inspirada pelo Espírito Santo. Visto que os eventos, por si mesmos, são prenhes de ambigüidade, não haverá completa revelação enquanto eles não forem autorizadamente revelados.
O que a Bíblia realmente ensina acerca da inspiração? Ela enfatiza a inspiração real dos escritores. Em alguns ca sos, Deus falou com eles em voz audível. Noutros, deu-lhes revelações por meio de sonhos e visões. Falou-lhes ainda de maneira que lhe viessem a reconhecer a voz. O trecho de Amós 3.8 enfatiza: “Bramiu o leão, quem não temerá? Falou o Senhor Jeová, quem não profetizará?” Jeremias, certa vez, decidiu não mais profetizar; parecia-lhe que ninguém o esta va ouvindo. Mas a Palavra de Deus, em seu coração, tor- nou-se como um fogo que lhe ardia nos ossos, e ele viu-se compelido a dar prosseguimento ao seu ministério (Jr 20.9). Não admira, pois, que declarações como “assim diz o Se nhor” ocorram 3808 vezes só no Antigo Testamento. O trecho de 2 Pe 1.20,21 mostra-nos que nenhum dos autores das Escrituras jamais dependeu de seu próprio raciocínio ou imaginação no processo da escrita: “Sabendo primeiramen
A Inspiração das Escrituras 27
te isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação; porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”. A expressão “movi dos pelo Espírito Santo” pode soar como se eles estivessem no meio da correnteza do Espírito Santo, e fossem impelidos por Ele. Porém, um exame mais detido das Escrituras mos tra-nos que Deus mesmo ensinou-os e guiou-os (Ex 4-15). Voltando a 2 Timóteo 3.16, pode-se ver claramente que a inspiração das Escrituras também se estende às palavras e à inteireza do texto dos documentos originais, ou autógrafos.
Jesus aceitou a plena inspiração do Antigo Testamento nesta sua assertiva: “. . . e a Escritura não pode ser anulada” (Jo 10.35; Mt 5.18). A essa abordagem chamamos de inspi ração plenária (completa, pois envolve até as próprias pala vras). Romanos 3.2 faz eco com essa assertiva quando alude ao Antigo Testamento como “os oráculos de Deus”. Assim também se vê em Hebreus 3.7-11 ao mencionar o Salmo 95.7-11, introduzindo a citação com as palavras “como diz o Espírito Santo. . .”
Alguém poderia perguntar: “Quanto ao Antigo Testa mento, tudo bem. Mas, e quanto ao Novo?” De aldeia em aldeia, ia Jesus ensinando a Palavra de Deus e ministrando os mistérios concernentes ao Reino de Deus. Conforme as necessidades, repetia Ele muitos de seus ensinos, formando assim um corpo de doutrinas e ensinamentos que norteariam a vida de sua Igreja. Antes de sua paixão e morte, prometeu aos discípulos que “o Espírito Santo. .. vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (Jo 14.26). As doutrinas e ensinos de Cristo foram transmitidos
à
Igreja pelos apóstolos (At 2.42). O Espírito Santo também dirigiu os escritores dos evangelhos a selecionarem o materi al indispensável acerca da vida, ministério, morte e ressur reição de Jesus Cristo. Lucas, por exemplo, informa-nos ter feito uma “acurada investigação de tudo, desde o princípio” Cc 1.3). Ele, sem dúvida alguma, foi movido pelo Espírito ianto para assim proceder.CAPÍTULO
1
A Inspiração
das Escrituras
CAPÍTULO
1
A Inspiração
das Escrituras
Durante a era apostólica, havia um processo de revela- ção em andamento, sendo Cristo o fiel cumprimento das profecias da Antiga Aliança. Portanto, o registro de seu nascimento virginal, ensinos, morte e ressurreição (como os encontramos nos evangelhos) fez-se indispensável à Igreja. Fizeram-se necessários também a narrativa da instituição da Igreja com os seus padrões e normas, e um vislumbre da consumação da presente era.
Que os apóstolos reconheceram a realidade de um novo pacto, ou testamento, constatamo-lo em passagens como 2 Pedro 3.15,16: “... e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição”. Note o leitor a expressão “as outras Escrituras”. Tão claro testemunho, prestado na sétima década do pri meiro século d.C., coloca os escritos de Paulo no mesmo plano das demais Escrituras do Antigo Testamento. Aliás, o próprio Paulo já o declarara ter uma palavra do Senhor para apoiar o que escrevia (1 Co 11.23; 1 Ts 4.1,2,15). Embora nem sempre o afirmasse, isso não significa que o restante de seus escritos fosse menos inspirado pelo Espírito Santo (1 Co 7.12).
A própria Bíblia ensina que o Espírito Santo moveu de tal modo os profetas e apóstolos na produção das Sagradas Escrituras, que até as próprias palavras destas, nos docu mentos originais, são plenamente autorizadas. Se elas não fossem inspiradas, teríamos então liberdade de alterá-las para que se ajustassem às nossas idéias e conveniências. Por conseguinte, a inspiração das palavras foi necessária a fim de proteger a verdade. Jesus indicou a importância de cada palavra ao declarar: “Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido” (Mt 5.18).
A Inspiração das Escrituras 29
A REGRA INFALÍVEL CAPÍTULO
A origem divina e a autoridade das Escrituras assegu-
ram-nos ser a Bíblia também infalível, ou seja: incapaz de A
Inspiração
erro, ou de orientar de maneira enganosa, ludibriadora ou
das Escrituras
desapontadora a seus leitores. Alguns eruditos estabelecemdistinção entre a inerrância (“estar isenta de erro”) e a infalibilidade, mas ambos os termos são sinônimos bem pró ximos. “Se existe mesmo alguma diferença de significado entre ambos os termos, a inerrância enfatiza a veracidade das Escrituras, ao passo que a infalibilidade enfatiza quão dignas de confiança são as Escrituras Sagradas. Tal inerrância e infalibilidade aplicam-se a toda a Palavra de Deus, e inclui tanto a inerrância das revelações quanto a dos fatos narra dos. As Escrituras revelam-nos a verdade (2 Sm 7.28; SI
119.43,160; Jo 17.17,19; Cl 1.5)” (Where We Stand, 7,8). A incredulidade engendrada no humanismo é a real fonte das objeções à autoridade e infalibilidade da Bíblia. Seus argumentos não são nenhuma novidade. Escritores cristãos antigos, como Irineu, Tertuliano e Agostinho, tive ram de combater algumas dessas objeções. E, ao fazê-lo, declararam sua plena confiança nas Escrituras. Os reformadores, como Zwínglio, Calvino e Lutero, também aceitaram sem reservas a autoridade das Escrituras (Where
We Stand, 9).
Através dos séculos, os incrédulos vêm fazendo extensas listas do que consideram discrepâncias da Bíblia. Alguns deles, inclusive, ousaram afirmar que a Bíblia era um erro indisputável e singular. Em 1874, J. W. Haley fez um com pleto estudo sobre o assunto, que ainda continua bastante atual (John W. Haley, Alleged Discrepancies of the Bible, Grand Rapids: Baker Book House, 1988).
Haley classificou essas alegadas discrepâncias, e desco briu que eram causadas por várias causas:
1. A falha em se ler exatamente o que a Bíblia diz. 2. Interpretações falsas, especialmente as que não levam em consideração antigos costumes e modos de falar.
CAPÍTULO
1
A Inspiração
das Escrituras
3. Idéias erradas sobre a Bíblia como um todo, e a falha em reconhecer que ela, em várias circunstâncias, registra palavras até de Satanás e de pessoas por ele usadas. Exemplificando, Deus disse aos amigos de Jó: porque vós não falastes de mim o que era reto como o meu servo Jó” (Jó 42.8). A Bíblia, entretanto, fornece-nos um minucioso re gistro do que eles disseram, embora suas opiniões não fos sem corretas.
4- O fracasso em reconhecer que algumas declarações são condensações do que foi dito ou feito.
5. Dificuldades cronológicas devido ao fato de os babilônios, egípcios, gregos e romanos usarem sistemas dife rentes para medir o tempo e marcar datas. Até mesmo Israel e Judá diferiam ocasionalmente em seus métodos de contar os anos de reinado de seus respectivos monarcas. (Quanto a uma boa discussão sobre o assunto, ver Edwin R. Thiele,
The Mysteríous Numbers of the Hebrew Kings, Grand Rapids;
Zondervan Publishing House, 1983.)
6. Aparentes discrepâncias ocasionadas por passagens que usam números arredondados, ao passo que outras for necem cifras mais exatas, dependendo do propósito de cada escritor.
7. Em alguns lugares, os erros dos copistas foram incor porados a manuscritos antigos. Uma comparação entre os manuscritos tem ajudado a corrigir a maior parte desses erros. De fato, a maioria dos eruditos concorda quanto ao que era o conteúdo original desses textos (R. K. Harrison e outros, Biblical Criticism: Historiai, Literary and Textual, Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1980, pág.
150).
8. Finalmente, algumas das chamadas discrepâncias são causadas pelas palavras hebraicas e gregas que apresentam mais de um significado, tal como acontece com o português. A palavra “manga”, por exemplo, pode significar tanto manga de camisa como fruta.
Um após outro, esses alegados equívocos e discre pâncias vêm se mostrando falsos. Vezes sem conta, as desco
A Inspiração das Escrituras 31
bertas feitas pelos arqueólogos e outros eruditos têm de monstrado que os aludidos erros apontados pelos críticos não têm quaisquer consistências. Para exemplificar, o Dr. Stanley Horton ouviu um professor de Harvard dizer que não havia lâmpadas com sete ramos nos tempos de Moisés. Por conseguinte, a Bíblia estava equivocada ao registrar que um candeeiro assim fora no tabernáculo - ver Exodo 37.17- 24. Entretanto, numa expedição arqueológica em Dotã, em 1962, com o Dr. Joseph Free, do Wheaton College, o Dr. Horton observou trabalhadores desenterrarem um candeei ro com sete lâmpadas datado de 1400 a. C., exatamente da época de Moisés (Stanley M. Horton, “Why the Bible is Reliable”, Pentecostal Evangel, 14 de janeiro de 1973, págs. 8-11).
Alguns dos que negam a infalibilidade das Escrituras, acreditam não obstante ser a Bíblia um livro de real valor. Dizem que não importa se a história e a ciência da Bíblia são verdadeiras ou não, pois um pecador pode ser salvo sem conhecer toda a Bíblia ou suas reivindicações quanto à inspiração divina. E verdade que o pecador nada precisa saber acerca do nascimento virginal, das curas divinas, da santificação, do batismo no Espírito Santo e da segunda "inda de Cristo a fim de ser salvo. Mas uma vez que o recador se converta, tais ensinos servirão para torná-lo mais maduro na fé (Hb 5.11 e 6.2).
Para os que se perturbam com o que consideram impre cisões da Bíblia, principalmente quanto à descrição dos renômenos naturais, recomendamos-lhes que levem em conta : seguinte fato: a terminologia científica somente começou a desenvolver-se a partir do início do século XIX. Além do mais, cada ciência adquiriu o seu próprio vocabulário. A palavra “núcleo”, por exemplo, significa uma coisa para o nólogo e outra bem diferente para o astrofísico. Os cientis tas empregam as palavras nos mais variados sentidos. Mas a linguagem da Bíblia não é científica. Ela usa termos como ‘erguer-do-sol” ou “pôr-do-sol”, tal como o fazemos,
embo-CAPÍTULO
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A Inspiração
das Escrituras
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A Inspiração
das Escrituras
ra saibamos que é a terra que se movimenta e não o sol. Todavia, quando a Bíblia declara que “Deus criou os céus e a terra”, não há o que se duvidar: a Bíblia realmente é infalível.
A Bíblia jamais nos induzirá ao erro. Ela é a admirável revelação de Deus como nosso Criador e Redentor; um Deus pessoal que nos ama e se interessa por nós; um Deus que tem um plano e que enviou a seu Filho a fim de morrer em nosso lugar (1 Co 15.3). Um Deus que continuará a operar até que Satanás seja esmagado, e estabelecidos novos céus e nova terra. A Bíblia toda mostra-nos que Ele é digno de confiança; podemos depender totalmente dEle. Sua pró' pria natureza garante a autoridade, a infalibilidade e a inerrância de sua Palavra.
O CÂNON E AS TRADUÇÕES MAIS RECENTES
Embora estejamos convictos de que os autógrafos foram realmente inspirados por Deus, não mais os possuímos. Mui provavelmente hajam sido desgastados devido ao uso e ao trabalho incessante dos copistas. Todavia, como podemos confiar no texto que aparece em nossas Bíblias? A natureza fidedigna das Bíblias atuais está vinculada à história do cânon, à transmissão e às traduções dos livros das Sagradas Escrituras.
A palavra “cânon” significa “regra, padrão, vara de me dir”. Portanto, canônico é o livro que satisfaz a certos crité rios ou padrões. Na época de Jesus, os 39 livros do Antigo Testamento já eram plenamente aceitos pelo judaísmo como divinamente inspirados. O Senhor referiu-se repetidas vezes ao Antigo Testamento, reconhecendo-o como a Palavra de Deus (Mt 19.4 e 22.29). Para se conferir a confiança que os escritores do Novo Testamento tinham no Antigo, basta conferir as centenas de citações da Lei, dos Profetas e dos Escritos feitas por eles. Há apenas uma ocasião em que, talvez, seja citado um livro apócrifo (espúrio ou duvidoso):
A Inspiração das Escrituras 33
Judas vs. 14 e 15, onde parece haver uma similaridade com o livro de Enoque 1.9. E, mesmo nesse caso, não é difícil de se atribuir a ocorrência a uma tradição oral, disponível tanto para o escritor do livro de Enoque quanto para Judas.
E o que dizer do cânon do Novo Testamento? Eis uma história fascinante e toda própria. Movamo-nos, porém, para a conclusão da história, já no século IV. Em 367 d. C., o mais ortodoxo dos teólogos da época, o grande campeão da verdade bíblica, Atanásio, fez uma seleção de todos os livros que até então circulavam no mundo mediterrâneo, e que se diziam documentos apostólicos. Seu exame concluiu que apenas 27 livros (os mesmos que temos hoje no Novo Testamento) podiam ser considerados de fato como a infa lível e inspirada Palavra de Deus (Everett F. Harrison,
Introduction to the New Testament, Grand Rapids: Wm. B.
Eerdmans Pub. Co., 1982, pág. 108).
Trinta anos mais tarde, de forma muito independente de Atanásio, reuniu-se um concilio eclesiástico em Cartago, com o intuito de discutir a genuinidade dos livros tidos como Sagrada Escritura (idem).
Nesse concilio, foram aplicados quatro testes aos docu mentos que reivindicavam inspiração divina: (1) Apostolicidade: O livro era da lavra de um apóstolo ou de alguém relacionado com o colégio apostólico? (2) Universa lidade: O livro era largamente aceito e usado pelas igrejas? 3) Conteúdo: O assunto do livro parece estar em pé de igualdade com as Escrituras conhecidas? (4) Inspiração: O livro trazia aquela qualidade especial que deixa transparecer
a inspiração divina? Note o leitor que dos quatro testes a
que os livros foram submetidos, três eram objetivos, e um implicava numá questão de evidência factual. Somente o quarto teste (o da inspiração) poderia ser considerado subje tivo, ou seja: de juízo pessoal. O concilio de Cartago, após
ievar em conta todos esses fatos, concluiu que os 27 livros,
que atualmente temos em nosso Novo Testamento, eram os únicos que estavam de conformidade com os critérios
esta-Á Inspiração
das Escrituras
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A Inspiração
das Escrituras
belecidos. Para todos os propósitos práticos, a questão do cânon estava devidamente encerrada até ser reaberta pelo racionalismo moderno.
A outra questão que continuava pendente era quanto à exatidão da transmissão do texto sagrado. A inspiração divina estende-se somente até ao autógrafo; nenhum argu mento é apresentado acerca da inspiração das traduções ou versões da Bíblia. Você, então, poderia indagar: Até que ponto minha Bíblia conforma-se aos documentos originais inspirados por Deus?
Examinemos primeiramente o Novo Testamento por estar mais próximo de nós do que o texto do Antigo. O fato mais notável é que há mais de 5.300 cópias manuscritas, de respeitável antigüidade, do Novo Testamento no grego ori ginal. Algumas dessas cópias são dos séculos III e IV. Há um fragmento do evangelho de João, por exemplo, datado de cerca de 125 d. C., ou seja: apenas trinta anos após ter sido copiado. Que tremendo contraste com as cópias de outros escritos. O mais antigo manuscrito de que dispomos - de Virgílio - é de aproximadamente 350 anos após o seu faleci mento. A maior parte dos manuscritos de Platão é de 1.300 anos após a sua morte (Sir Frederic Kenyon, The Story of
the Bible, 2a edição, Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Pub.
Co., 1964, pág. 26).
Sir Frederic Kenyon, notável erudito bíblico, discor rendo acerca das descobertas modernas feitas pela arqueo logia bíblica, afirmou: “Elas têm estabelecido, com uma riqueza de evidências que nenhuma outra obra da literatura antiga é capaz de apresentar, a autenticidade substancial e a integridade do texto sagrado, conforme o encontramos em nossas Bíblias” (Sir Frederic Kenyon, Our Bible and the
Ancient Manuscripts, 5a edição revisada, Londres: Eyre &.
Spottiswoode, 1958, págs. 318 e 319).
O texto do Antigo Testamento alcançou uma dramática e inesperada vitória neste século. Em 1947, nas cavernas de Cumram, já nas vizinhanças do mar Morto, foram
encontra-A Inspiração das Escrituras 35
dos diversos manuscritos dos livros do Antigo Testamento, com exceção do de Ester. Eles eram de 250 a.C., fazendo- nos recuar cerca de mil anos antes dos melhores manuscri tos hebraicos até então disponíveis. A mais importante con tribuição dos papiros do mar Morto foi a luz lançada sobre o texto do Antigo Testamento, proporcionando-nos inequí voca segurança quanto à precisão e autenticidade do texto que aparece em nossas Bíblias. Eles tornaram possível a comparação de um grande número de textos, levando-nos a reconhecer que o texto do Antigo Testamento “permane ceu virtualmente sem mudanças durante os últimos dois mil anos” (Geza Vermes, The Dead Sea Scrolls in English, 2a edição, Harmondsworth, Middlesex, Inglaterra: Penguin Books, Ltd., 1975, pág. 12). De fato, há notável conformi dade entre os documentos do mar Morto e os textos que atualmente conhecemos.
O propósito de Deus, na chamada de Abraão e na esco lha de Israel como seu servo (ver Isaías 44-1), foi preparar o caminho para gerar bênção a todas as nações da terra (Gn 12.3; 22.18). Importava, pois, fosse a Bíblia posta nas lín guas das várias famílias da terra. Todos os povos precisam da Bíblia por ser esta a espada do Espírito (Ef 6.17). Ela é o único meio de ganharmos vitórias espirituais; é igualmente o martelo de Deus. E o instrumento que temos para esmiga lhar a oposição e construir o edifício da fé (Jr 23.29). Sim, a Palavra de Deus é uma lâmpada para iluminar-nos a vereda (SI 119.105). Até mesmo quando as pessoas se acham cegas pelo pecado, e a Bíblia lhes parece loucura, ainda assim Deus usa tal “loucura” para salvar os que confiam em Cristo \ 1 Co 1.18,21). A Bíblia é também necessária para o cresci mento dos crentes. Conseqüentemente, assim que a Igreja começou a espalhar-se por países onde não se falavam nem o hebraico nem o grego, os crentes começaram a reivindicar fosse a Bíblia traduzida aos seus respectivos idiomas.
A história das versões da Bíblia é comovente. (Grande parte da discussão que se segue sobre as traduções foi
extra-À Inspiração
das Escrituras
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A Inspiração
das Escrituras
ida do livro de Stanley M. Horton, “Perspective of Those New Translations”, Pentecostal Evangel, 11 de julho de 1971, págs. 6-8.) Na verdade, essa história começou antes da era cristã. Em virtude das conquistas de Alexandre, o Grande, o grego tornou-se a língua do comércio, dos negóci os e da educação no Oriente Próximo e no Médio Oriente. A cidade de Alexandria, no Egito, veio a tornar-se o grande centro da erudição e da cultura gregas. Foi exatamente nesse período, que vai de 250 a 150 a.C., que veio a lume a famosa versão da Septuaginta (Gleason L. Archer, Jr., A
Survey of Old Testament Introduction, edição revisada,
Chicago: Moody Press, 1981, pág. 44).
A Septuaginta era freqüentemente usada pelos cristãos primitivos na pregação do Evangelho, conforme nos indica o uso que dela faz o Novo Testamento. Ao mesmo tempo, o Espírito Santo dirigiu os autores do Novo Testamento a escreverem não no grego clássico, usado pelos grandes filó sofos, mas no grego falado pelo povo comum nas ruas e mercados.
Deus sempre quis que a sua Palavra fosse pregada na linguagem comum do povo. Moisés, ao escrever a Lei, não se utilizou dos hieroglíficos usados pelos eruditos do Egito, mas lançou mão do hebraico falado nas tendas de Israel. Jesus pregou e ensinou com tal simplicidade que levava a gente humilde a ouvi-lo com deleite (Mc 12.37). Quando o Evangelho se espalhou, os vários povos, naturalmente, co meçaram a traduzir a Bíblia para seus próprios idiomas. Quatro séculos depois de Cristo, quando já não era falado nem o grego, nem o antigo latim, Jerônimo encetou nova tradução da Escritura para o latim “vulgar” ou “comum”. Essa versão tornou-se conhecida como a Vulgata Latina
(idem, pág. 80).
Infelizmente, a Vulgata tornou-se a versão oficial da Europa Ocidental e da Inglaterra. E, assim, as diversas ten tativas para se traduzir a Bíblia para outras línguas foram desencorajadas, embora a população européia já não mais
A Inspiração das Escrituras 37
falasse o latim. O que faltava realmente era colocar a Pala- vra de Deus nas mãos do povo. Foi o que fez o inglês Wycliffe. Ele traduziu a Vulgata Latina para o inglês. E, como resultado desse seu trabalho pioneiro, muitas pessoas converteram-se a Cristo.
Deus, porém, estava trabalhando. A invenção da im prensa foi responsável pela grande mudança. Entre 1462 e 1522, apareceram, só em alemão, pelo menos dezessete versões e edições da Bíblia. Tais versões ajudaram a prepa rar o caminho para a Reforma Protestante que, sob o co mando de Martinho Lutero, levou o povo a compreender melhor a salvação pela graça. O próprio Martinho Lutero apelou para os originais hebraico e grego a fim de preparar uma melhor tradução da Palavra de Deus em alemão. Influ enciado por Lutero, William Tyndale elaborou, em 1525, a primeira tradução impressa do Novo Testamento em inglês
(idem, págs. 20 e 21).
A primeira tradução da Bíblia em português foi iniciati va de um pastor evangélico: João Ferreira de Almeida. Ele nasceu em Portugal, nas proximidades de Lisboa, em 1628. Abraçando os ideais da Reforma Protestante, Almeida pas sou a freqüentar a Igreja Reformada Holandesa, da qual tornou-se ministro.
Um dos maiores anseios de João Ferreira de Almeida era traduzir para o português. Mas, para levar adiante o seu trabalho, viu-se obrigado a refugiar-se na Ilha de Java, no Oceano Indico. E, assim, pôs-se a trabalhar. Primeiro, ele traduziu o Novo Testamento, que foi publicado na Holanda em 1681. Quanto ao Antigo Testamento, não o pôde tradu zir todo. O Senhor o recolheu quando ele completava o livro de Ezequiel.
Mas a sua obra não ficaria imcompleta. Seus amigos encarregar-se-iam de traduzir o restante do Antigo Testa mento. Hoje, onde quer que se fale o português, João Ferreira de Almeida é lembrado pela bravura e pioneirismo de seu espírito.
A Inspiração
das Escrituras
CAPÍTULO
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1
A Inspiração
das Escrituras
A tradução de João Ferreira de Almeida já foi submetida a diversas revisões. Em 1951, a Imprensa Bíblica Brasileira publicou a edição revista e corrigida, mais conhecida como ARC. E, em 1958, era lançada, pela Sociedade Bíblica do Brasil a edição revista e atualizada de Almeida - a ARA. Tanto a ARC quanto a ARA foram relançadas, em segun- da edição, em 1995, pela Sociedade Bíblica do Brasil.
Eis outras versões da Bíblia em português: IBB - Impren- sa Bíblica Brasileira; Tradução Brasileira; Figueiredo; Matos Soares e outras traduções usadas pela Igreja Católica.
PERGUNTAS PARA ESTUDO
1. Por que o racionalismo é insuficiente como base para a autoridade religiosa?
2. Por que a Bíblia é uma base melhor para se funda mentar a autoridade religiosa do que a Igreja? 3. O que a própria Bíblia nos ensina sobre sua inspira
ção?
4. Como devemos cuidar dos alegados erros e discre- pâncias existentes na Bíblia?
5. Quais as principais bases para se aceitar os 66 livros da Bíblia como canônicos?
6. Quais as principais razões por que novas versões da Bíblia têm sido preparadas?
7. Por que é importante obter a Bíblia traduzida na linguagem que o povo realmente fala?
8. Como podemos receber a iluminação do Espírito Santo nos estudos da Bíblia hoje em dia?
BBLICAS
2
-Verdade
Fundamental
auto-existente “Eu Sou”, o Criador dos céus e da terra, e o Redentor da humanidade. Ele também se revelou como aquEle que incorpora os princípios de relação e associação como Pai, Filho e Espírito Santo (Dt 6.4; Is 43.10,11; Mt 28.19; Lc 3.22).
0 Deus Unico e
Verdadeiro
Em 1913, reuniu-se uma grande multidão em Arroyo Seco, no Estado norte-americano da Califórnia, para ouvir a Sra. Maria Woodworth-Etter, durante a realização do Acam pamento Mundial Pentecostal (William W. Menzies,
Annoínted to Serve: The Story of the Assemblies of God,
Springfield, Mo.: Gospel Publishing House, 1971, pág. 111). Numa noite, John Scheppe despertou a todos ao gritar o nome de Jesus. Esse imigrante alemão acabara de ter uma visão de Jesus, que o fez sentir que o Salvador deveria ser verdadeiramente honrado. Frank J. Ewart, ex-ministro ba tista, procurou logo tirar partido da situação, insinuando que a melhor maneira de o crente honrar a Cristo era ser rebatizado na água apenas no nome de Jesus (Menzies,
Anointed, págs. 112 e 113). Tanto Scheppe quanto Ewart
haviam sido influenciados por um sermão de R. E. McAlister sobre o batismo em água no nome de Jesus Cristo.
Não demorou muito, e os mais afoitos já estavam decla rando que os que rejeitassem o rebatismo acabariam por perder a salvação. O incidente foi narrado por Myrle M. Fisher, em 1913. Embora tenha sido rebatizada, ela, através de seus próprios estudos das Escrituras, acabou por retornar
CAPÍTULO
2
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0 Deus Unico e
Verdadeiro
à posição trinitária. A irmã Myrle M. Fisher casou-se pouco depois com Harry Horton, e tornou-se a mãe de Stanley M. Horton, o qual, por muitas vezes, ouviu-a referir-se ao la mentável ocorrido.
Os autores do incidente declararam ainda que só existe uma pessoa na deidade: Jesus, o qual sempre cumpriu os papéis e ofícios do Pai, do Filho e do Espírito Santo, confor me o tempo ou a ocasião o requeressem. Os promotores dessa heresia tornaram-se logo conhecidos como Nome de
Jesus, Jesus Somente ou Unidade. Eles referiam-se à sua
doutrina como “A Nova Questão”, mas na realidade não passava de uma antiga heresia reavivada: era defendida pelos sabelianos e monarquianos do terceiro século. Os cristãos da época condenaram-na energicamente.
Pouco depois de as Assembléias de Deus serem forma das, em 1914, houve ainda quem teimasse em propagar tal doutrina. Para combatê-la, a igreja, em 1916 (quanto à discussão dessa controvérsia ver Thomas F. Harrison,
Christology, 2a edição revisada, Springfield, Mo.: págs. 35-
77), incluiu um artigo, em sua Declaração de Verdades Fundamentais, intitulado “A Adorável Deidade”. Essa de claração, hoje, traz a seguinte redação:
(a) Definição de Termos
Os termos “trindade” e “pessoas”, relacionados à deida de, apesar de não serem encontrados nas Escrituras, acham- se em plena harmonia com as mesmas Escrituras, mediante as quais podemos transmitir nossa compreensão imediata da doutrina de Cristo com referência ao Ser de Deus, distin- guindo-o dos “muitos deuses e senhores”. Professamos, por conseguinte, ser Deus o Único Deus e Senhor, subsistindo Ele na Trindade. Deus, pois, é um Ser composto por três pessoas. E nem por assim professarmos deixamos de ser absolutamente bíblicos (Mt 28.19; Jo 14.16,17; 2 Co 13.
(b) Distinção e Relações Dentro da Deidade
Cristo ensinou como se processa as relações entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Mas tais distinções e relações
O Deus Único e Verdadeiro 4 3
são, em si mesmas, inexcrutáveis e incompreensíveis, por serem inexplicáveis (Mt 11.25-27; 28.19; Lc 1.35; 1 Co 1.24; 2 Co 13.14; 1 Jo 1.3,4).
(c) Unidade do Ser do Pai, Filho e Espírito Santo De acordo com esse pressuposto, há algo específico no Filho que o identifica de fato como Filho, diferenciando-o do Pai. E há, no Espírito Santo, algo que o identifica como o Espírito Santo, diferenciando-o do Pai e do Filho. Portanto, o Pai é o gerador, o Filho é o gerado, e o Espírito Santo é aquele que procede do Pai e do Filho. Visto estarem as três pessoas da Trindade em perfeita unidade, há então um só Senhor Deus Todo-poderoso, e seu nome é um só (Zc 14.9; Jo 1.18; 15.26; 17.11,21).
(d) Identidade e Cooperação na Deidade
O Pai, o Filho e o Espírito Santo não são idênticos como
pessoas; e jamais foram confundidos quanto à relação. Não
estão divididos no tocante à deidade, nem estão em oposi ção no que tange à cooperação. Concernente à relação, o Filho está no Pai e o Pai está no Filho. O Filho está com o Pai, e o Pai está com o Filho, quanto à comunhão. Quanto à autoridade, o Pai não vem do Filho, mas o Filho vem do Pai. O Espírito Santo, por sua vez, vem tanto do Pai quando do Filho, no que tocante à natureza, à relação, à cooperação e à autoridade. Portanto, nenhuma pessoa da Trindade existe, ou trabalha, separada e independentemente das ou tras (Jo 5.17-30,32,37; 8.17,18).
(e) O Título, Senhor Jesus Cristo
O título “Senhor Jesus Cristo” é um nome próprio. Ja mais é aplicado ao Pai ou ao Espírito Santo. Este nome pertence exclusivamente ao Filho de Deus (Rm 1.1-3,7; 2 Jo 3).
Quanto à sua natureza divina e eterna, o Senhor Jesus Cristo é o Unigênito do Pai, mas concernente à sua natureza humana, é Ele o próprio Filho do Homem. Portanto, Jesus é reconhecido tanto como Deus quanto como homem. E por ser Ele verdadeiro homem e verdadeiro Deus, apresenta-se
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como “Emanuel” - “Deus conosco” (Mt 1.23; 1 Jo 4.2,10,14; Ap 1.13,17).
(g) O Título, Filho de Deus
Visto que o nome “Emanuel” abrange a Jesus Cristo tanto como Deus quanto como homem, numa única pessoa, segue-se que o título “Filho de Deus” descreve-lhe a deida- de, enquanto que “Filho do Homem” ressalta-lhe a humani dade. Por isso, o título Filho de Deus pertence à ordem da
eternidade, ao passo que Filho do homem acha-se ligado à ordem do tempo (Mt 1.21-23; Hb 1.1-13; 7.3; 1 Jo 3.8; 2
Jo 3).
(h) Transgressão Contra a Doutrina de Cristo
Constitui-se grave transgressão doutrinária afirmar que Jesus Cristo haja derivado o título “Filho de Deus” de sua encarnação, ou de sua relação com a economia da redenção da raça humana. Negar, pois, que o Pai seja real e eterno Pai, e que o Filho também o seja, significa anular a distinção e relação que existe na divindade. E uma negação tanto do Pai quanto do Filho; é negar que Jesus Cristo tenha vindo em carne (Jo 1.1,2,14,18,29,49; Hb 12.2; 1 Jo 2.22,23; 4.1- 5;2Jo 9).
(i) Exaltação de Jesus Cristo como Senhor
Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, tendo, por si mesmo, nos expurgado de nossos pecados, sentou-se à mão direita da Majestade, nas alturas. Tendo em vista sua exaltação, os anjos, principados e poderes se lhe sujeitaram. E, feito tanto Senhor como Cristo, enviou-nos Ele o Espírito Santo para que, no nome de Jesus, ajoelhemo-nos e confes semos que Cristo Jesus é o Senhor. Mas, quando da consu mação de todas as coisas, o próprio Filho sujeitar-se-á ao Pai para que Deus seja tudo em todos (At 2.32-36; Rm 14-11; 1 Co 15.24-28; Hb 1.3; 1 Pe 3.22).
(j) Honra Igual ao Pai e ao Filho
Visto ter o Pai entregue todo o julgamento ao Filho, não é somente dever expresso de todos, quer no céu, quer na
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indizível, no Espírito Santo, atribuir ao Filho todos os atri-
butos da divindade, e dar-lhe toda a honra e toda a glória contidas em todos os títulos e nomes da divindade, exceto os que servem para individuar as outras pessoas da Trindade (ver os parágrafos b, c e d). Assim agindo, haveremos de honrar tanto ao Pai quanto ao Filho (Jo 5.22,23; Fp 2.8,9; 1 Pe 1.8; Ap 4.8-11; 5.6-14; 7.9,10).
A EXISTÊNCIA DE DEUS
A Bíblia não se preocupa em provar a existência de Deus. O livro de Gênesis começa reconhecendo que Ele é: “No princípio Deus...” E Hebreus 11.6 afirma enfaticamen te: “. . . é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe. . .” As Escrituras deixam bem claro que acreditar na existência de Deus constitui a base da experi ência humana. Dizer que não existe um Ser Supremo - ou viver como se Ele não existisse - eqüivale a negar o que todos sabem de maneira intuitiva (Jo 1.9; Rm 1.19). A existência de Deus é algo tão fundamental ao pensamento humano que abandonar tal conceito significa embarcar no encapelado mar da irracionalidade, onde nada tem signifi cado ou propósito.
Embora a Bíblia não apresente argumentos em favor da existência de Deus, há não poucas implicações que apoiam plenamente tais argumentos. Argumentos clássicos vem sendo apresentados desde a era medieval. Apesar de limitados em si mesmos, provêem eles, em seu conjunto, o apoio intelec tual suficiente para corroborar a verdade da Bíblia. O pri meiro desses argumentos é o ontológico. Defende este que um Ser Perfeito implica numa existência real. A idéia de um Ser Perfeito que não se manifeste genuinamente na realida- ie, pressupõe que este Ser não seja totalmente perfeito. Por conseguinte, para se conceber um Ser Perfeito, é necessário se acreditar que este Ser Perfeito realmente exista (para uma discussão sobre o valor do argumento ontológico, ver James Oliver Buswell, A Systematic Theologyof the Christian
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C APITULO Religion, v o l . 1 , Grand Rapids: Zondervan Publishing House,
1962, págs. 98-100).
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O segundo argumento clássico é o cosmológico. Segue-Verdadeiro
se mane'ra coerente ao ontológico. O universo, comotodos o admitimos, não existe por si mesmo. Todos os even tos que presenciamos dependem de alguma causa além de les mesmos. Se você buscar a origem dessas causas primei ras, eventualmente chegará à Primeira Causa: um Ser auto- existente que não depende de qualquer outra coisa, além de si, para existir.
O terceiro argumento clássico em prol da existência de Deus é o teleológico, ou argumento do desígnio. O mundo maravilhoso descoberto pela inquirição científica desvenda uma notável e espantosa ordem em toda a natureza. As improbabilidades matemáticas de todas estas maravilhas te rem ocorrido por mero acaso, leva-nos a enaltecer aquEle que é o autor de quanto vemos e admiramos. Com o salmista, juntemos nossas vozes: “Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (SI 19.1; quanto a uma discussão acerca do Salmo 19 e outras passagens referentes à revelação geral por meio da natureza, ver Millard
J.
Erickson, editor, Christian Theology, Grand Rapids: Baker Book House, 1986, págs. 166-171).O quarto argumento clássico é o moral. Ele apresenta-se como o senso inato do que é certo e do que é errado. Que ser humano não o possui? A realidade de um grande Legis lador é a evidência mais que lógica da vida moral de nossa consciência. Embora os padrões de moralidade variem lar gamente de cultura para cultura, a consciência dos valores morais permanece intacta.
Similar ao anterior é o quinto argumento. Acha-se ele alicerçado sobre a estética ou beleza. Que todas as pessoas possuam um conceito de valores relativos acerca da beleza (por mais largamente que variem seus padrões), é algo que aponta na direção de alguém que, em si mesmo, é o doador da beleza. Seu amor não conhece limites.