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Paisagens Extraviadas

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Academic year: 2021

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Maria Luiza Berwanger da Silva**

PAISAGENS

EXTRAVIADAS*

Resumo: este trabalho tem por objetivo estudar em Koa’E, de Luis Serguilha,

fatores relacionados a aspectos como a força desestabilizadora do tédio como figura exemplar do desassossego pessoano e nova plasticização da espacialidade e da tempo-ralidade. Esta obra superpõe a voz da fertilidade que o artista extrai das camadas arqueológicas extraídas da ressignificação existencial captada do exercício obsti-nado do escavar. O conjunto de poemas de Koa’E impõe ao leitor uma postura de infatigável desinstalar-se: transparências evidentes da textualidade pessoana sur-preendem-nos sob forma de provocação que estampam impactantes itinerários ain-da à espera de transfiguração artística.

Palavras-chave: Koa’E. Espaço polissêmico. Lírica universalizante. Plasticização

transformadora.

E

m Koa’E (2011), toda busca das Paisagens extraviadas configura o poeta como arqueólo-go que percebe, no larvar e no primitivo, a matriz de irradiação poética do lugar, como o próprio Luis de Serguilha o intitula de “lugares inescritos” (2011, p. 408), na certeza de aí surpreender a “pulsação do inescrito” (2011, p. 444): o poeta considera o pulsar como instância que ressimboliza tempos, espacialidades e sentimentos. Imagens como as de “transmutar” (2011, p. 307), “transmudar” (2011, p. 313), “transmigrar” (p. 368), “transbordar” (2011, p. 374), bem

* Recebido em 03.06.2014. Aprovado em: 23.06.2014.

** Pós-Doutora pela Universidade de Sorbonne Nouvelle – Paris III em 2009. Doutora em Lite-ratura Comparada por esta mesma Universidade. Professora convidada e associada ao projeto de pesquisa do Departamento de Literatura Comparada da Université de la Sorbonne – Paris III.

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como a de “transluzir” (2011, p. 380 ) configuram o gesto poético primeiro de um movimento ou-tro, de uma modulação outra aquém e além do traço crítico da transgressãoT, enquanto um dos traços nucleares e definidores da Arte Contemporânea.

Vistas deste ângulo, reflexões como a de Gérard Genette, em Figuras I (1980), quando, em Espaço e Linguagem, insinua a substituição de espaço por espacialidade, para representar o lugar amplo e polissêmico do espaço na arte de hoje, bem como as de Jacques Derrida em

Shibollet (2010), onde evidencia a transgressão de limiares geográficos e subjetivos como traço produtivo para o saber artístico e não artístico, ou as de George Steiner, nas palavras sobre o eixo do extra e do transterritorial, para quem la vie des arts vit dans une extraterritorialité, este conjunto teórico não traduz o sentido da busca das Paisagens extraviadas. A obra Koa’E, de Louis de Serguilha inclui-se na fisionomia contemporânea do profanar. Como o define Giorgio Agamben:

[...] a profanação implica, por seu turno, uma neutralização daquilo que profana. Uma vez profanado, aquilo que estava indisponível e separado perde a sua aura e é restituído ao uso. [...] Contudo, profanar não significa, apenas, abolir e cancelar a separação, mas também aprender a dar-lhe um novo uso, a jogar com este (AGAMBEN, 2005, p. 109-125).

Transgredir para profanar, eis o itinerário da peregrinação poética efetuado pela dicção lírica universalizante de Louis de Serguilha. Instalo-o no desdobramento dos gigantes mer-gulhados nos anos, épocas tão distantes vividas por eles, entre as quais tantos dias vieram se colocar - no Tempo de Marcel Proust, nesse parágrafo conclusivo de Em busca do tempo

per-dido (1980, p. 796), igualmente no espaço aquém e além do Livro do Desassossego (1998, p. 345), de Fernando Pessoa, quando diz: “cheguei àquele ponto em que o tédio é uma pessoa, a ficção encarnada do meu convívio comigo”, projeto poético residual de Koa’E que, lembrando o elogio ao primitivo de Maurice Blanchot às cavernas de Lascaux, nas quais este crítico vislumbra o lu-gar do nascimento da arte, atravessa a obra Le Temps Sensible (1970), de Julia Kristeva, mediado pela abrangência inesgotável da experiência do vivido, ainda vindo a incidir no desdobramento e na escavação abissal do espaço intervalar ou tierce forme com que Roland Barthes tentou definir a experiência prousteana, no ensaio Longtemps, je me suis couché de bonne heure.

Percebe-se que o caminho trilhado por Koa’E se com base em duas forças articula-doras: o desassossego e a dança, em ritmo de perfeito entrecruzamento que tece e destece o espaço de Koa’E, intermediando, lenta e gradualmente, o mergulho na interioridade da terra:

a poesia reconstitui-se na língua anterior ao conhecimento e esculpe as suas sismologias-tapeçarias no mundo-outro como uma partilha do desassosse-go, uma sanguinidade do poema-poeta-poesia-liberdade na exploração mutual do enigma, na germinalidade do deserto, na actualização do si-labário elementar da harmonia e da vertigem fertilizadora-sacralizadora do olhar-perdido-do(no)-mundo (SERGUILHA, 2011, p. 109).

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Ou ainda na passagem:

os cavalos-poetas-surfistas entregam-se à geografia dos fluxos do invisível, do desassossego poético aliado aos mistérios da natureza, ao poema antro-pofágico que agita e explora a matéria da luz, da sombra, do espaço, do tempo, da gestação ardente das escrituras-pyroclastic (SERGUILHA, 2011, p. 102).

Bem como em: “[...] aspira o desassossego do cosmos de Gaia”, fragmentos que represen-tam o simbolismo do desassossego pela constatação do imaginário estabelecido a ultrapassar.

Já a vitalidade da dança, por sua vez, consiste em se fazer mediadora deste movimento de errância e de transmutação com vistas a efetuar práticas outras além do exercício da transgressão. Figuras como as das “coreógrafos-dançarinos” (p. 47), as das “bailarinas espontâneas” ou a das “processionárias” (p. 293) e as dos “bailados dos animais polares” (p. 76) recolhem da imagem da dança o desejo de inventar a contemporaneidade poética. Neste sentido, se, pelo simbolismo do desassossego, Luis Serguilha transgride o cânone, o instalado e o visto, pelo simbolismo da dança, este poeta ingressa em certo espaço transgredido, profanando-o.

Visto desta perspectiva, à força desestabilizadora do tédio como figura exemplar do desas-sossego pessoano, Koa’E superpõe a voz da fertilidade que Luis Serguilha extrai das camadas arqueológicas a percorrer. Ressignificação existencial captada do exercício obstinado do escavar, o conjunto de poemas de Koa’E impõe ao leitor uma postura de infatigável desinstalar-se: trans-parências evidentes da textualidade pessoana surpreendem-nos sob forma de provocação que estampam impactantes itinerários ainda à espera de transfiguração artística, como que certa matéria bruta sobre a qual o olhar teórico, critico e poético ainda não se projetou, certo renascer a despertar aquém e além do visto, do sentido e do experimentado ou, dito de outro modo, material vulcânico residual a ser examinado metaforicamente e que revela consciência do fato artístico - produto de saberes simbólicos e não simbólicos dispostos em intersecção.

Quando profanar remete ao projeto de resgatar o extraviado, (a exemplo das Paisagens

extraviadas), trata-se de nelas dar a perceber zonas de silêncio. Portanto, se a transgressão libera recriando limites, a profanação funda territórios do imaginário. Extraviado, pois, não como recu-peração do tempo perdido e reencontrado, mas como plenitude lírica a ser tecida, no silêncio de um movimento dançante que lembraria a reflexão de Paul Valéry de que la danseuse n’est pas une

femme qui danse e que ressurge na obra Le danseur des solitudes (2006), de Georges Didi-Huber-man, nas palavras com que busca configurar a imobilidade espacial em seu gesto de produtiva e obstinada procura de fertilidade, de mediatizar singulares re(nascimentos):.

j’ai vu, un jour, dans les Alpujarras, un oiseau immobile dans le ciel. C’était un petit rapace. Son corps, à mieux y regarder, esquissait bien quelques ges-tes intimes: juste ce qu’il fallait pour demeurer dans le ciel en un point aussi précis qu’intangible. Sans doute était-ce le sitio convenable pour bien guet-ter sa proie. Mais il lui avait fallu, pour cela même, renoncer à voler vers

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un but, ne surtout pas « fendre l’air », tout annuler pour un temps indéfini. C’est parce qu’il s’était placé contre le vent – parce que le milieu, l’air, était lui-même en mouvement – que le corps de l’oiseau pouvait ainsi jouer à sus-pendre l’ordre normal des choses et à déployer cette immobilité de funambu-le, cette immobilité virtuose. Voilà exactement, me suis-je dit alors, ce que c’est que danser: faire de son corps une forme déduite, fût-elle immobile, de forces multiples (DIDI-HUBERMAN, 2006, contracapa).

Como relocalizar este traço paradoxal da dança, o da aparente imobilidade, em Koa’E? Trata-se de atravessar distâncias em busca dos lugares inescritos com base no próprio atravessar de geografias estabelecidas, como no fragmento sobre Gaia, lugar de pulsação do inescrito, ou seja, da Gaia ainda a percorrer e a traduzir sob forma de palavra nomeada sobre o oco vazio e silencioso da terra:

GAIA-caminheira-esvoaçante-lendaria-epidérmica a descruzar os trópicos-projectores

das escrituras geográficas e os venenosos esconderijos das garras-dos-caranguejos-iridiscentes atravessam as gôndolas esguichadas dos seios

como um formigueiro-estertor na geografia subterrânea das iluminuras como hélices-dos-tinteiros a fertilizarem as tapeçarias-dos-bichos das sementeiras até ao sangue dos

utensílios das raízes-cometas: trajectórias nativas das gelosias a auscultarem.os cios pendulares

os tigres inaugurais (SERGUILHA, 2011, p. 452-453). do mesmo modo na passagem:

____ paisagem-GAIA-vocabular

a estrangular/fincar a transfusão-cevadura das

locomotivas infinitas dos vulvários (opulenta espadana) ____ fertilidade das

antenas-danças-torrenciais-insubordinadas (SERGUILHA, 2011, p. 461). Culminando na reflexão poética:

os poetas-cavalos-sonâmbulos criam LAHARS contra os sistemas expli-cativos, teoréticos porque reconciliam a luminosidade e a escuridão, os cruzamentos da agramaticalidade, as mutações da plasticização, as pers-pectivas abissais, as correspondências metamórficas com as cavalgadas--flutuações radicais constituídas pela força da linguagem, pelo desassom-bro selvático, pela metamorfose contínua da navegabilidade labiríntica, pelos espelhos do desabrochamento da vida: os espelhos do pensamento--mundo, do silêncio da palavra-imagética, da dança-caleidoscópica. A

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liberdade do corpo vivo do poeta-cavalo-surfista está nas transferências poemáticas-divinas-selváticas, na música do coração do mundo.[...] (SERGUILHA, 2011, p. 95-96).

Surpreendem, em Koa’E, as associações de imagens produzidas pelo jogo articulado entre o desassossego e o dançar, jogo que, por força de abrangência e de polissemia infinitas, efetu-am aproximações e diálogos de natureza intertextual e interdisciplinar. Mistral constitui uma amostragem exemplar do processo imagético no diálogo estabelecido, entre tantos outros, com a poesia de Lautréamont (p. 26) e o cinema de Akira Kurosawa (p. 27). A composição singular da autorreferencialidade, enquanto teoria da arte literária nomeada sobre a página , evidencia uma outra face da poética da poética de Luis Serguilha em Koa’E: tanto a expressa isolada do texto sob forma de nota introdutória explicativa, quanto a dilui textualmente em gesto que intensifica o prazer da descoberta simbólica concedida pela leitura.

A pulsionalidade das escrituras-pyroclastic circula no centro da matéria, nas tonalidades cósmicas, nas transfusões dos magmas secretos, na drama-ticidade da adivinhação onde os cavalos-sonâmbulos-poetas e os poetas-sur-fistas celebram a catarse resplandecente, a reconquista sacralizadora das origens como o alfabeto da interioridade primordial a fundir-se e a regene-rar-se nas correspondências edênicas na energia primitiva, nas combustões das polaridades, na atmosfera orgânica-virginal: eis a linguagem da am-biguidade do deserto erótico-meteórico-musical-isossístico e integrador da visão do absoluto. Cavalos-poetas-surfistas-sonâmbulos a hibridizarem-se na dramatização transformadora do mundo. As cavalgadas e as flutuações reinauguram o simulacro-do-simulacro como a iluminação do impossível diante das infravisualidades, transculturalidades da Mãe-Natureza e da sombra-que-abre-a-sombra. As arquitecturas da enfabulação deflagram-se nas teias das incubações do inconsciente, nas imersões violentas da árvore do corpo, no desapossamento, na ciclicidade subversiva, na eclosão dos es-pelhos, nas fissões atômicas que antecipam a obscuridade orgânica-ciclôni-ca das escrituras-pyroclastic (SERGUILHA, 2011, p. 93-94).

É este fio do pensamento translúcido que lhe assegura lugar na dita “república mundial das letras”. Deste modo, entrelaçamento de campos simbólicos e não simbólicos, de um lado, e tecitura imagética como constelação no rastro de Mallarmé e das “galáxias” na transparência de Haroldo de Campos, de outro lado, mediadas pela visualidade autorreferencial consolidam-lhe o perfil de poeta de hoje e de evidente inserção na comunidade poética universal. No fundo, imagem e autoexplicação de imagem confluem no desejo de efetivar certa experiência subjetiva que en-contra em Georges Bataille sua tradução a mais exemplar quando este crítico diz em L’Expérience

Intérieure (1954): “L’expérience intérieure est la dénonciation de la trêve, c’est l’être sans délai

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Na caracterização de Luis Serguilha, os Lahars (ou críticos dos poetas surfistas) insistem nesta experiência da imaginação, reveladora desta expérience intérieure [...]:

Na caminhada devoradora e criadora do fogo da presença-ausência, nos GIPSOS-LAHARS, das escrituras-pyroclastic do possível e do impossível que irrompem no lugar dramático-primitivo onde as plasticidades das cosmovisões, a cinematografia pensante do universo, o limite dos li-mites, as navegações cósmicas enfrentam a sedução da vertigem, as aberturas permanentes da indefinição e do inexplicável com as linguagens encantatórias dos rituais libertadores da arte da vida. Urge a I-MERSÃO de LAHARS com a potência da substância do mundo, a materialidade flamífera, a geografia celeste, o subsolo terrestre, as circunvoluções alucinantes, a projecção do mundo fractal das caracterizações do desejo, ultrapassando as explicações, os convencionalismos. Aqui despertamos o sublime da massa caótica dos signos e a explosão das energias cosmogónicas que nos provocam a sensação do invisível, dos andamentos utópicos, dos confrontos com o nada, com a incógnita, com os ritmos das danças sacrais [...].

Os LAHARS dos cavalos-poetas-surfistas-sonâmbulos projectam a profun-da imersão corporal, a encruzilhaprofun-da de sentidos e de não sentidos, a fantas-magoria polissémica, os jogos prismáticos da descoberta do mundo. Esta energia transmutadora busca a fascinação do vazio, os mapas arborifor-mes dos espelhos ocultos das palavras, a unidade original da TERRA-MÃE onde a metamorfose é uma vastíssima e sedutora força sobre o deserto so-nâmbulo, um grito ardente no batimento arquitectónico do universo: aqui a teatralidade do desejo, a máquina desejante das fusões imaginárias tentam traçar a mineralização do silêncio informulável, a invenção profunda, as aberturas epidérmicas-explosíveis da língua na língua: eis as escrituras da parábola nas tonalidades do desassossego e na emancipação selvática do poeta-surfista, poeta da diversidade instantânea (SERGUILHA, 2011, p. 96-98).

Sob justamente a figura dos Lahars, compreende-se se a função do poeta-crítico e do crí-tico-poeta articulada pela liberalidade da experiência como estratégia de diluição e, pois, de su-peração do desassossego pessoano cedendo espaço ao trabalho fertilizador da dança com vistas a recartografar as Paisagens extraviadas. Uma vez em ritmo de desassossego e de relocalização, traduzem a matéria residual vulcânica em franca correspondência com a matéria da figuração íntima percebida e a ser nomeada em sua espacialidade abissal. Assim, pois, imagem que difrata e irradia o sentimento do tédio, como representação exemplar da melancolia de Fernando Pessoa, a dança faz-se mediação que interroga, que verifica os limiares a transgredir e que, ao fazê-lo, encaminha a poesia ao sublime:

urge a I-MERSÃO de LAHARS com os sentidos dos cavalos-surfistas-mis-térios que encantam o mundo, que movem o mundo, reconstruindo novos mundos, novas realidades. As ondas, as flutuações, os galopes

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sonâmbu-los recombinam a matéria das imersões, as luminescências do abismo, os territórios obscuros-transgressivos entre o consciente e o inconsciente como a louca circularidade da escrita na imperscrutável espontaneidade. As es-crituras-pyroclastic constituir-se-ão como uma composição interrogativa do silêncio. O silêncio na existência incontaminada onde os cavalos-poetas surfistas regressam continuamente à estonteante transmutação ausencia--presênça ou à dramaticidade-visageidade vibratória-tectónica do desapa-recimento. Será esta a catástrofe-monádica das escrituras-pyroclastic? Será esta a dança sonâmbula que cria corpos selváticos no enigma das escrituras, ou serão as escrituras as danças interiores que se deflagram na cenarização insondável do próprio corpo? Uma dança cega constituída por energias se-dutoras e por artesanias do estranhamento? Será este espelho uma transpo-sição dançante-suprema que transforma a nossa dor num eco de imprevisí-veis direcções, um eco de teatralidades a emergir na experiência-dos-limites da percepção-memória-imaginação-linguagem-pensamento-mundo (SER-GUILHA, 2011, p. 103).

Considera-se o interrogar e o duvidar como traduções exemplares da expressão intermiten-te (a inintermiten-termitência vista aqui pelo ângulo de produtiva ressimbolização do lugar, da poesia e da subjetividade). Como se, ao processar tais ressimbolizações, ao Poeta fosse concedida a plenitude poética que filtra, dando a ver, entre o real e o arqueológico, o território das Paisagens extraviadas, dar a vê-las não pela gratuidade do gesto , mas para mergulhar em zonas até então inexploradas, quando, pois, este exercício do escrever faz-se matriz de fecundação e de irradiação da emoção artística, de rara beleza, hoje, na dicção contemporânea. Dar voz ao primitivo concedendo-lhe vivenciar sua experiência primeira da fertilidade inesgotável além, muito além do desassossego e da dança: Koa’E, mágica palavra com que a voz lírica portuguesa de Luis Serguilha brinda-nos nesta coletânea poética singular que acorda e faz despertar na Poesia de hoje certo efeito de re--encantamento:

Garatujar GAIA nos confins das pedrarias rudimentares/ Incompreensíveis

como uma disposição duradoura a alçar as

derivações lentas das raízes [...] (SERGUILHA, 2011, p. 448).

STRAY LANDSCAPES

Abstract: the purpose of this paper is to study factsrelated to aspects such as the destabilizing force

of boredom as the exemplary figure of Pessoa-esque unrest and new spatial and temporal plasticiza-tion in Koa’E by Luis Serguilha. This work superposes the voice of fertility that the artist draws from the archeological layers extracted from the existential resignification captured in the obstinate task

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of excavation. The group of poems contained in Koa’E impose upon the reader a posture of infati-gable detachment: evident transparencies of the Pessoa-esque textuality surprise us in an underlying provocation that imprints powerful agendas awaiting artistic transfiguration.

Keywords: Koa’E. Polysemic Space. Universalizing lyricism. Transformative plasticization.

Referências

AGAMBEN, Giorgio.Obra. Trad. de Luísa Feijó. Lisboa: Cotovia, 2005.

BARTHES, Roland. Longtemps, je me suis couché de bonne heure.Essais Critiques IV. Paris: Seuil, 1984. BATAILLE, Georges L’expérience intérieure. Paris: Gallimard, 1954.

DERRIDA, Jacques. Shibollet. São Paulo: Perspectiva, 2010.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Le danseur des solitudes. Paris: Les Éditions de Minuit, 2006. GENETTE, Gérard. Figuras I. São Paulo: Iluminuras, 1980.

KRISTEVA, Julia. Le temps sensible. Lisboa: Edições 70, 1970.

PESSOA, Fernando; SOARES, Bernardo. Livro do Desassossego. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998. PROUST, Marcel. Em busca do tempo perdido. São Paulo: Perspectiva, 1980.

SERGUILHA, Luis. Koa’E. Belo Horizonte: Anome Livros, 2011.

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