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– PósGraduação em Letras Neolatinas

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

O ARQUÉTIPO MATERNO EM CONVERSAZIONE IN SICILIA E GLI

INDIFFERENTI

ANDRÉA CABRAL DE SOUZA GOMES

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O ARQUÉTIPO MATERNO EM CONVERSAZIONE IN SICILIA E GLI INDIFFERENTI

ANDRÉA CABRAL DE SOUZA GOMES

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção: Literatura Italiana).

Orientadora: Profa. Dra. SONIA CRISTINA REIS

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O Arquétipo Materno em Conversazione in Sicilia e Gli Indifferenti

Andréa Cabral de Souza Gomes

Orientadora: Professora Doutora Sonia Cristina Reis

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção: Literatura Italiana).

_____________________________________________________ Presidente, Prof. Dra. Sonia Cristina Reis . UFRJ

_____________________________________________________ Profa. Dra. Flora De Paoli Faria . UFRJ

_______________________________________________________ Profa. Dra. Marinês Lima Cardoso -UFC

_______________________________________________________ Prof. Dr. Frederico A. Liberalli de Goes – UFRJ – Suplente

________________________________________________________

Prof. Dra. Geysa da Silva . UFJF– Suplente

________________________________________________________

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FICHA CATALOGRÁFICA

Gomes,Andréa Cabral de Souza

O arquétipo materno em Conversazione in Sicilia e Gli indifferenti /Andréa Cabral de Souza Gomes- Rio de Janeiro- UFRJ/FL-2013.

130F..:30 cm

Orientadora: Profa. Dra. Sonia Cristina Reis

Dissertação (Mestrado)-Faculdade de Letras, Departamento de Letras Neolatinas,Universidade Federal do Rio de Janeiro,2013.

Referências Bibliográficas: f. 68-70

1-Moravia, Alberto. 2-Vittorini, Elio. 3-Gli Indifferenti 4-Conversazione in Sicilia 5-Narrativas Italianas- Séc.XX 6-Personagens Maternas. I. Reis, Sonia Cristina II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. III. O arquétipo Materno em Conversazione in Sicilia e Gli Indifferenti

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RESUMO

O Arquétipo Materno em Conversazione in Sicilia e Gli Indifferenti Andréa Cabral de Souza Gomes

Orientadora: Professora Doutora Sonia Cristina Reis

Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção: Literatura Italiana).

A Pesquisa de Dissertação de Mestrado estuda a figura materna presente nas obras literárias Conversazione in Sicilia, de ElioVittorini (1908-1966) e Gli indifferenti, de Alberto Moravia (1907-1990), trazendo as personagens Mariagrazia e Concezione, que estão situadas no contexto sócio histórico do fascismo. É por meio destas figuras de mãe que serão discutidas a desconstrução do arquétipo materno tão valorizado pela sociedade na época. O exame cultural e literário da imagem materna servirá para avaliar aspectos arquetípicos, estéticos e extraliterários, que auxiliarão no estudo das obras retratadas. Uma questão que se evidencia é como a imperfeição da família italiana, descrita nessas obras em estudo, é feita a partir da figura feminina. A problematização que a presente Dissertação discute é se a figura materna é um tópico nas construções dessas obras da Literatura Italiana e, ainda se estas figuras maternas da ficção se aproximam ou se distanciam do aspecto de mãe, questões que serão fundamentadas a partir dos pressupostos teóricos de Platão (2012), Bourdieu (2011) e Perrot (2012), possibilitando a identificação de seus elementos característicos.

Palavras-chave: 1-Moravia, Alberto. 2-Vittorini, Elio. 3-Gli Indifferenti

4-Conversazione in Sicilia 5-Narrativas Italianas- Séc.XX 6-Personagens Maternas..

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RIASSUNTO

O Arquétipo Materno em Conversazione in Sicilia e Gli Indifferenti Andréa Cabral de Souza Gomes

Orientadora: Professora Doutora Sonia Cristina Reis

Riassunto da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção: Literatura Italiana).

Questa ricerca tratta dello studio della figura materna nelle opere letterarie Conversazione in Sicilia, di ElioVittorini (1908-1966) e Gli indifferenti, di Alberto Moravia (1907-1990), ed hanno come personaggi materne Concezione e Mariagrazia che si iscrivono nella storia sociale del fascismo. Ed è attraverso queste figure materne che viene discussa la (dis)costruzione dell'archetipo materno tanto valutata dalla società in quell’ epoca. L’esame dell’ immagine culturale e letteraria delle figure materne serve a valutare gli aspetti archetipici, estetici e estraliterari di questa figura, che si appoggiano nello studio di queste opere. Una questione evidente è l'imperfezione della famiglia italiana, descritta in queste opere, a partire dalla figura femminile. La problematizzazione che questa ricerca discute è se la figura della madre sia un argomento per la costruzione di queste opere di letteratura italiana, e anche se queste figure materne della finzione siano più vicino o lontano dall’ aspetto delle questioni materne che vengono discusse in base a Platone (2012), Bourdieu (2011) e Perrot (2012), rendendo possibile l'identificazione dei suoi tratti caratteristici.

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ABSTRACT

O Arquétipo Materno em Conversazione in Sicilia e Gli Indifferenti Andréa Cabral de Souza Gomes

Orientadora: Professora Doutora Sonia Cristina Reis

Abstract da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção: Literatura Italiana).

This Research Dissertation brings the study of maternal figure in the literary works Conversazione in Sicilia, by ElioVittorini (1908-1966) and Gli indifferenti, Alberto Moravia (1907-1990), which bring the maternal characters Mariagrazia and Concezione, who lie in the social historical context of fascism. It is through these mother figures that the deconstruction of the maternal archetype, so valued by society at the time, will be discussed. The cultural and literary examination of maternal image serves to assess maternal archetypal, esthetical and extraliterary aspects, which will help in the study of the portrayed artworks. An issue that is evidenced is how the imperfection of Italian family, described in these works under study, is made from the female figure. The problematization that this thesis discusses is if the mother figure is a topic in the construction of these works of Italian literature, and also if these maternal figures of fiction are closer or more distant of maternal aspects, issues grounded by the theoretical premises of Plato (2012), Bourdieu (2011) and Perrot (2012), enabling the identification of its characteristic elements.

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As

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Agradecimentos

A Deus, em primeiro lugar, pela vida, pela coragem e perseverança nesta Dissertação.

Aos meus pais, pelo carinho e apoio sem igual.

À CAPES, pela bolsa de estudos que financiou parte desta pesquisa.

A todos os meus amigos da Pós-Graduação, da Faculdade de Letras, da UFRJ, pela companhia e atenção no dia-a-dia do curso, principalmente a César Casimiro pela amizade que perdura dez anos e Linda Salette, pela ajuda durante estes dois anos.

Aos meus amigos que contribuíram de alguma maneira, nesta minha empreitada, um agradecimento especial a Ricardo Rocha, Lisandra Mateus, Yara Araújo de Souza e seu filho Humberto Araújo de Souza.

Aos professores do Programa de Pós-Graduação e do Departamento de Neolatinas, pelo incentivo.

Aos professores do Setor de Italiano, pelo apoio e atenção durante todos os meus anos, nesta Instituição.

À minha orientadora Professora Doutora Sonia Cristina Reis, pelo carinho e paciência. Minha eterna gratidão e obrigada por estar presente neste meu percurso.

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É postulando o impossível que o artista alcança todo o possível.

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SINOPSE

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INTRODUÇÃO

A família é um fator preponderante para a congregação do individuo na sociedade. Não é por acaso que o fascismo italiano tem na família, uma das células fundamentais para a sociedade italiana daquela época, centradas na figura da mãe. Por este motivo, é a mãe, o núcleo desta célula e a sua ausência “embaraça” a unidade familiar.

A figura materna está presente nas obras nas obras literárias de ElioVittorini (1908-1966) e Alberto Moravia (1907-1990) com as personagens Mariagrazia e Concezione, que situam-se no contexto sócio histórico do fascismo. É por meio destas figuras maternas que serão discutidas as desconstruções dos arquétipos maternos tão valorizados pela sociedade à época.

As personagens maternas nas ficções de Alberto Moravia e ElioVittorini não eram somente ligadas às tarefas domésticas. Elas também eram reverenciadas por gerar a vida, manter a família e serem portadoras de cultura e educação.

A desconstrução do arquétipo materno que desestabiliza a família italiana, uma das células da sociedade para os anos do fascismo italiano, é feita a partir da figura materna na obra de Alberto Moravia (1907-1990) e Elio Vittorini (1908-1966). O exame cultural e literário da imagem materna servirá para avaliar aspectos arquetípicos, estéticos e extraliterários que auxiliarão no estudo das obras retratadas. Uma questão que se evidencia é a imperfeição da família italiana, descrita nessas obras em estudo, a partir da figura feminina.

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A rigor, essas personagens transgridem um tipo de modelo materno defendido pelo fascismo por meio de vários veículos de informação, inclusive, na arte cinematográfica dos filmes “Telefoni Bianchi”, que era o veículo da publicidade fascista utilizada por Mussolini para reforçar o modelo de mãe para a sociedade italiana.

Esta Dissertação de Mestrado tem o objetivo de analisar e comparar as duas personagens maternas descritas primeiramente em 1929, na obra Gli Indifferenti e depois, no ano de 1941, em Conversazione in Sicilia, no contexto histórico - fascista. Outro objetivo é o de investigar questões sobre a maternidade bem como compreender os novos papeis atribuídos à mulher no mundo contemporâneo.

As duas obras supracitadas, produzidas durante o período fascista, foram censuradas por terem sido entendidas por aquele sistema ditatorial como uma critica ao sistema político e cultural daquele momento histórico.

Assim, esta Dissertação, se organiza em torno de três capítulos a fim de apresentar a discussão sobre a figura materna nas obras que compõem os corpora de análise.

1°) O primeiro capítulo da Dissertação traz a exposição do recorte espaço-temporal, visando a contextualização da questão temática que atravessa as duas obras

dos corpora, que se refere à primeira metade do século XX, mas que sofre com

problemáticas de ordem política e sociocultural e cuja origem remonta à formação da Itália como país. Nesse sentido, neste capítulo, discute-se o contexto sociocultural, descrevendo brevemente o cenário político italiano desde a formação da Itália como país, até o momento do Regime Fascista. Este capítulo divide-se ainda em duas subseções: a primeira trará uma discussão sobre a importância da literatura italiana na primeira metade do século XX, e a segunda, as tessituras neorealistas dos escritores Alberto Moravia e Elio Vittorini, visto que ambos os escritores tiveram a sua produção literária considerada pela critica italiana como pertencentes ao neorealismo1.

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O neorealismo foi um movimento cultural que surgiu na Itália nas primeiras décadas do século XX.

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2°) O segundo capítulo contextualiza-se como o mais teórico desta Dissertação, pois apresentará a problematização da família e a questão materna, para tanto, faz a revisitação teórica em Platão para dar início a discussão trazendo-a para o século XX. Isso porque, conforme serão observadas, no terceiro capítulo, nos dois romances italianos, que serão analisados, as personagens Mariagrazia e Concezione não são correspondentes à construção simbólica de mãe geradora de filhos, cuidadosa da prole, da família e o seu papel na sociedade. Tal constructo se iniciou com Platão (427/347) em sua obra A República e que perpassou séculos chegando até os dias atuais. Nesta obra, o filósofo e matemático grego introduziu o argumento de submissão do feminino pelo masculino. Esta obra platônica será o auxílio para pontuar as reflexões sobre as manifestações femininas contra a sociedade patriarcal e será de grande valia para o entendimento do posicionamento do papel da mulher no contexto sóciocultural das obras dos corpora. Na obra platônica, as mulheres de Atenas eram consideradas menores em relação às crianças e aos escravos. Por esse motivo, eram também consideradas incapazes para administrar os próprios bens, devendo estar sempre sob a tutela de um homem, no caso o pai ou marido, e na ausência desses, obedecer à seguinte hierarquia: o irmão, filho maior de idade e tutor, este último delegado pelas autoridades.

No segundo capítulo, será trazido ainda, para auxiliar na reflexão sobre a questão materna, outro importante texto: A dominação masculina, de Pierre Bourdieu (1930-2002). Essa obra apresenta, por intermédio da teoria nos campos de produção simbólica, as reflexões sobre o feminino e o materno a partir da dominação masculina. Nessa discussão teórica, as considerações de Michelle Perrot sobre a questão do feminino e do materno foram de grande ajuda. Apesar de os posicionamentos teóricos de Bourdieu e Perrot se apresentarem, por vezes, divergentes, são eles precisos, no que se refere à discussão sobre o poder e a dominação os quais perpassam a história das mulheres, desde as primeiras manifestações no século XVIII contra a sociedade patriarcal, chegando até o século XXI, quando a mulher assume novos papéis e contextos na sociedade.

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seus filhos Carla e Michelle, bem como a importância dada pela personagem ao status social. Na segunda subseção, a discussão apresentará análise da figura materna Concezione, do livro Conversazione in Sicilia, do escritor siciliano Vittorini, a partir de sua abnegação em relação à sociedade arcaica siciliana, presente ainda nos anos do fascismo, e ao desajustamento familiar, em decorrência da inconformidade do filho Silvestro, em relação à mãe, que ele encontra após quinze anos de ausência na casa materna.

Ao final da discussão que será apresentada nos próximos capítulos desta Dissertação, no momento das considerações finais, serão trazidos os resultados finais postulados no Projeto de Pesquisa de Dissertação de Mestrado, financiado pela CAPES, sobre os arquétipos das figuras maternas em Moravia e Vittorini.

Após as referências desta Dissertação estão os anexos que trazem informações factuais sobre a biografia dos autores e sobre o momento sócio-histórico-cultural, a saber:

a- Anexo 1 - Fatos históricos sobre a Itália;

b- Anexo 2 - Elio Vittorini e suas principais obras;

c- Anexo 3 - fatos históricos sobre a publicação dos escritores no contexto histórico e literário;

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1 - UM CENÁRIO SOCIOCULTURAL ITALIANO: COMPLEXIDADES E CONTURBAÇÕES

O cenário sociocultural italiano da primeira metade do século XIX é bastante complexo não apenas por ter sido palco de duas grandes guerras. Neste capítulo, a discussão a respeito de tal complexidade se faz necessária, pois questões ligadas à construção da Itália como país em sua unidade territorial, linguística e consequentemente identitária, ainda existiam durante as primeiras décadas do século vinte. Tal cenário complexo ocorria por ter sido o Congresso de Viena, em 1815, o ponto de partida para a unificação italiana. Tal fato, não gerou somente consequências geopolíticas, mas também definiu o atual território italiano.

A contextualização do cenário literário italiano do século XX também não é diferente do campo sóciocultural; portanto, para melhor encaminhar tais reflexões, esta Dissertação irá trazer alguns fatos que contribuíram para a unificação italiana e, também, a sua participação na guerra.

Esses fatos históricos podem ser verificados por intermédio da literatura italiana, que trouxe como tema a guerra e, também, a biografia de artistas, autores e intelectuais que, de alguma forma, tiveram uma participação direta e indireta nesses acontecimentos belicosos. Essa ambientação sócio-histórica irá contribuir para o entendimento da descrição da região siciliana a partir dos olhos de Concezione e do ambiente romano frequentado por Mariagrazia.

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Uma das consequências geopolíticas desse encontro foi a reestruturação geográfica do continente Europeu do Ocidente. A derrota de Napoleão sinalizou uma nova época, que configurou para Itália, uma nova disposição das colônias em seu território, objetivando manter um equilíbrio político, econômico e absoluto entre os países que tinham sido obstaculizados na época de Napoleão.

Após o encontro do Congresso, a península italiana teve as suas fronteiras redefinidas, assim como também a estabilização da política e da economia dos países que possuíam colônias em território italiano. Nesse sentido, observa-se que os espaços geopolíticos da Itália foram divididos em reinos e ducados:

1- O Reino Lombardo-Vêneto era diretamente administrado pelo Império de Habsburgo;

2- O Grão-Ducado da Toscana, o Ducado de Módena e Parma e Massa foram entregues aos membros da dinastia de Habsburgo;

3- O Ducado de Lucca, à Maria Luisa;

4- O Estado Pontifício, com as suas legações, foram devolvidos ao Papa Pio VII; 5- O Sul, no comando do Reino das Duas Sicílias retornou aos Bourbon;

6- Apenas o Reino da Sardenha, que compreendia além da ilha, a região do Piemonte e da Ligúria, manteve a autonomia em relação à Áustria e era comandado pela dinastia de Sabóia.

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Assim, o Congresso de Viena redesenhou o mapa geopolítico da Europa Ocidental baseando-se no princípio da legitimidade, o que significou restituir às dinastias derrubadas por Napoleão às suas colônias. Esse procedimento manteve o absolutismo e conteve as ondas revolucionárias que surgiram na Europa àquele momento.

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difundiram-se e influenciaram os movimentos políticos de democratas e moderados na Itália, despertando nesses o desejo de por fim ao domínio aristocrata e absolutista na Península Italiana.

Nesse território italiano, o clima político de contestação, oriundo de movimentos políticos revolucionários europeus, fez surgir os ideais nacionalistas. Um destes movimentos surgiu em Gênova, caracterizando o movimento denominado

Risorgimento.2

Um dos intelectuais do Risorgimento foi Giuseppe Mazzini (1805 -1872). O democrata genovês ambicionava a unidade nacional na península italiana. Ele tinha o ideal de liberar o território da península italiana da dominação estrangeira e ainda de construir um estado republicano com o fim de todos os Regimes Monárquicos, inclusive o do Estado Apostólico Romano da Igreja Católica.

Naquele momento, da segunda metade do século XIX até a unificação, a exigência de unidade nacional imperava para os italianos, nos âmbitos políticos, cultural e ideológico. Os ideais de Giuseppe Mazzini e da Giovane Italia3 direcionaram os italianos para o sentimento de unificação, no período 1830-1849, com o apoio e a liderança do herói guerrilheiro Giuseppe Garibaldi (1807-1882) que foi a figura militar mais popular na época da unificação.

Após o fracasasso da tentativa de unificação da Península, o idealista Mazzini se exilou na Europa, tendo sido criado em outros países o movimento Giovine Italia. Sua tentativa de libertação gerou outra corrente antagônica aos seus ideais políticos, ou seja, a dos moderados. Assim, ao contrário do entendimento popular da libertação da península italiana, defendida por Mazzini, a corrente dos moderados acreditava que a independência da península deveria vir pelas mãos da aristocracia do Reino Sardo-Piemontês, cujo rei era Vittorio Emmanuele II (1820-1878) e tinha como primeiro ministro Conde Cavour (1810-1861), líder do movimento pela unificação nacional.

2 Movimento de unificação italiana que começou em 1815 e findou em 1870

3 Uma organização política formada por jovens intelectuais que tinham o objetivo de educar o povo com

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Com o interesse de realizar a unificação italiana, o ministro Cavour, por intermédio da Dinastia de Savoia, buscou uma aliança político-militar com os franceses. Em uma manobra política, que dava apoio à França e Inglaterra na Guerra da Criméia (1854-1856), o ministro piemontês garantiu um acordo que teve o apoio militar francês para expulsar os austríacos, realizando assim a segunda guerra de independência no ano de 1859 e conduzida por franceses e piemonteses. Com a vitória, a Áustria viu-se obrigada a entregar aos líderes dos moderados os territórios italianos sob sua dominação, o Reino Sardo-Piemontês, a Lombardia, os ducados de Parma e a Toscana.

Esse processo de libertação da península italiana forçou os líderes moderados a reverem suas estratégias idealistas para a recuperação dos territórios italianos do domínio estrangeiro. Tal episódio distinguiu a figura de Giuseppe Garibaldi (1805 -1872), o heroi da libertação italiana e responsável/ propiciador dos eventos pela unificação da península.

Assim, em 1860, a unificação da península italiana ainda estava incompleta, faltavam para compor unidade, que ficou sendo governado pelo rei italiano Vittorio Emanuele, as cidades de Veneza e Roma, que foram anexadas ao território político italiano em 1866 e 1870, respectivamente.

No momento da unificação italiana, em 1861, a península ainda não tinha uma unidade linguística e cultural. Isto é, existiam diferenças na língua, nas tradições, nos hábitos e no modo de viver, além das diferenças econômicas e sociais, resultado da história e da tradição desses povos, conforme comprova a citação abaixo:

As diferenças linguísticas eram uma marca de que tudo estava por de trás da língua, que é sempre o resultado da historia e da tradição dos povos. Entre vários estados italianos o que tinha em comum era apenas o modelo italiano literário criado pela elite. Faltava quase completamente uma língua de conversação homogênea na vida cível e social.4. (MARAZZINI, 2002: 360)

4 Le differenza linguistiche erano vistoso di tutto quanto stava dietro la lingua,la quale è sempre il

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Essa problemática sóciolinguística foi também discutida por De Mauro (1972:36), quando tratou da dificuldade linguistica encontrada no momento da unificação, pois o número de italofoni era baixíssimo chegando a seiscentos mil em um total de vinte cinco milhões, concentrado na Região da Toscana. Os toscanos tinham o florentino como a língua natural, tendo em vista que havia uma aproximação entre o toscano falado e o literário. Paralelamente, os romanos usavam o fiorentino toscanizzato, ou seja, uma lingua de aproximação da língua nacional. Para os sicilianos, ao contrário, esta língua oficial se apresentava como desconhecida.

Mesmo com a península unificada e dividida em regiões, províncias, comuni ,as unidades político-administrativas, estas possuíam características muito particulares, gerando para o governo italiano um problema para consolidação da identidade nacional nova.

Esse fato pode ser ilustrado por meio das reações antagônicas ao novo governo, motivadas por problemas sociais antigos da região sul do país que o Governo Central Italiano não conseguia resolver, evidenciando uma administração que forçara a imigração de tantos italianos do Sul para outros países da América, por exemplo, Brasil, Argentina e Estados Unidos.

Esse cenário de descontentamento do sul italiano, que se refere à história do Reino da Itália, mesmo quando a península italiana teve redimensionada a sua situação político-econômica na gestão do Primeiro Ministro Giovanni Giolitti (1842-1928), época conhecida como L’ eta Giolittiana (1901-1914), não se modificou tanto nas primeiras décadas do século XX.

Esta época, na Itália, foi marcada por uma série de questões problemáticas de ordem sociopolítica. Tal fato motivou a origem de dois pólos políticos, o do intervencionista e o do neutralista. A este último grupo pertencia o primeiro ministro italiano Giolitti que, tendo demonstrado insatisfação com a entrada do país no primeiro conflito mundial, foi forçado a abandonar o cargo em 1914. Nos anexos desta Dissertação, são indicadas algumas datas e fatos importantes que marcaram esse período

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da histórica italiana.

Assim, a Itália participou da Primeira Guerra e, tendo sido derrotada, viu agravada, a situação econômica da ainda jovem nação. O espaço sociopolítico italiano daqueles anos contribuiu muito para o surgimento de sindicatos, como também do partido popular comunista italiano. Tais acontecimentos políticos foram eminentes para o fortalecimento do militarismo e do autoritarismo. Como exemplo, há o surgimento do fascismo, em março de 1919, na figura emblemática de Benito Mussolini (1883-1945), naquele momento, ex- líder do Partido Socialista expulso por suas posições intervencionistas. A ambição política do Duce fez reunir na cidade de Milão, ex-sindicalistas e revolucionários, e também ex-republicanos a fim de fundar os Fasci di Combattimenti, no final da década de 1920. O idealismo do regime totalitário fascista italiano foi divulgado entre os italianos e teve por objetivo resolver os problemas econômicos e sociais desde a unificação, em 1861.

Contrário às manifestações populares e ao estado liberal na Itália, o Regime Fascista foi apoiado pela pequena burguesia (a dos latifundiários e dos industriais) que temia o avanço popular. Baseando-se em nacionalismo, expansionismo e progresso social, Mussolini conquistou admiração de boa parte da população e de intelectuais, que, naquela época, acreditavam na autoridade do líder fascista a fim de tornar a Itália um país desenvolvido. Mussolini esteve à frente do Estado Italiano de 1920 até 1945, tendo intervindo na política, na sociedade e na cultura italiana, em grande parte da primeira metade do século XX.

Dessa forma, o novo Estado Italiano, após ter sido formado, apresentava ainda muitas contradições internas. Nesse cenário italiano conturbado e complexo, surgiram diversas poéticas que rompiam com o passado e descreviam o momento histórico italiano como, por exemplo, o expressionismo, o futurismo, o dadaísmo e o surrealismo, dentre outras poéticas. É importante não esquecer ainda das revistas literárias, publicadas nesse momento, que contribuíram muito para esta renovação cultural, que serão tratadas mais adiante, na subseção 1.2, deste primeiro capítulo, para tratar da produção literária de Moravia e Vittorini.

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faz-se necessário discutir ainda o contexto sóciocultural italiano, dos primeiros anos do século XX, que ajudaram no entendimento das questões que serão tratadas nos capítulos 2 e 3, desta Dissertação.

1.1-Escritores e escrituras da Primeira metade do século XX

A literatura italiana do inicio do século foi marcada por várias poéticas que surgiram por volta de 1920. Esses novos movimentos literário-artísticos buscavam romper com o tradicionalismo nas artes e nas letras. Tal mudança tinha sido iniciada lentamente desde o século XIX, conforme pode ser observado na citação que segue:

[...] uma ruptura radical das formas de comunicação estética e linguagens artísticas, o que traz a oposição extrema entre a experiência artística e sociedade burguesa já se apresentava durante o século 'XIX. (FERRONI, 1994:16) 5

Naquele momento, assistiam-se na sociedade italiana, os progressos industriais, os avanços tecnológicos e a euforia da mais nova classe social, a burguesia. Tais fatos propiciaram uma atmosfera de efervescência artística que deram origem a novas concepções que se traduziram, por exemplo, em algumas manifestações como o expressionismo, o futurismo, o dadaísmo e o surrealismo, dentre outras, conforme mencionado anteriormente.

5 [...] una frattura radicale delle forme della comunicazione estetica e dei linguaggi artistici, che porta

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Assim, no inicio do século XX, na Alemanha, o expressionismo surgiu a partir de um grupo que valorizava os sentimentos como angústia, medo e solidão, sentimentos oriundos da vida vivida nas grandes cidades. Deste modo, os artistas buscavam captar estas subjetividades. É com o expressionismo que se pode encontrar o berço o Neue Sachlicheit que será mais bem explicado adiante, por ser uma noção importante para a análise das obras dos autores dos corpora da Dissertação.

Não menos importante é o futurismo, que teve o seu maior expoente em Filippo Tommaso Marinetti. Este movimento buscou a exaltação da vida moderna observada por meio da velocidade e das máquinas. O movimento, inaugurado com o “Manifesto Futurista” (1909), no jornal francês Le Figaro, negava todas as formas poéticas do passado e, assim, descreveu uma nova estética, que modificou sobremaneira a visão poética para as artes em geral e repercutiu as suas concepções por todo o século XX, na Itália.

Outro movimento artístico que contribuiu para as transformações das artes foi o Dadaísmo, que surgiu em 1915, na Suíça. Esse movimento teve um papel fundamental ao acusar e escandalizar, por meio da arte, os horrores da humanidade nos anos da Primeira Guerra Mundial. O seu mais importante representante foi o escritor romeno Tristan Tzara (1891-1963). Na Itália, no entanto, esta poética não se manifestou em muitas obras.

A mesma situação de produção artística na Itália já não pode ser verificada em relação ao Surrelismo. Este movimento surgiu na França, em 1924, com a publicação do manifesto Surrealista de Andre Breton (1866-1966), que tinha por objetivo relatar as adversidades protagonizadas no decorrer da Primeira Guerra Mundial.

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A revista La Voce, por exemplo, fundada por Giuseppe Prezzolini (1882-1982) e Giovanni Papini (1881-1956), atravessou diversas fases com variados diretores, assim, assumiu, por esse motivo, diversos posicionamentos para a política editorial da revista objetivando aguçar uma consciência crítica na nova nação e trazer edições cujos temas abordavam a educação italiana.

Outra revista literária importante é La Ronda, inaugurada em 1919, pelo poeta Vicenzo Cardarelli (1887-1959), que tinha por objetivo o retorno à literatura romântica de Alessandro Manzoni (1785-1873) e Giacomo Leopardi (1789-1837).

A revista 900, dirigida pelo escritor italiano Massimo Bontempeli (1878-1960), teve o propósito de assumir o papel de veículo de divulgação da cultura europeia por meio de escritores estrangeiros, como por exemplo, Ulysses de James Joyce (1882-1941). Ela adotava uma postura de embate literário-político em relação às posições de Croce.

Solaria, por sua vez, é uma revista que foi dirigida pelo escritor Alberto Carroci (1904-1972), tendo sido fundada na cidade de Florença, perdurando por duas décadas as edições dos números dessa revista, entre os anos 1920 e 1930. Essa revista tinha em sua proposta dois objetivos precisos: um, se referia à abertura da sociedade italiana para consciência literária europeia; o outro, à busca da renovação literária. Por esse motivo, o corpo editorial da revista valorizava os textos de novos escritores, che se ponevano in

un atteggiamento sperimentale6, como por exemplo, Alberto Moravia e Elio Vittorini,

cujos artigos foram publicados nesta revista.

Essas revistas foram importantes para a divulgação das diferentes motivações da nova narrativa italiana que surgiu por volta de 1930, que, de início, se colocou como um problema para a crítica italiana devido à dificuldade de classificar as novas narrativas. A temática dessas narrativas trazia a mistura de ideologias dos novos escritores que por meio de suas obras abordavam o contexto social, histórico e cultural da primeira metade do século XX.

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Esse tipo de manifestação na narrativa não possibilitava a formulação de um paradigma pela crítica italiana do que poderia ser esse tipo de texto poético. Uma tentativa de organizar o conjunto de produções literárias desse período foi a terminologia Neorealismo. Este termo é a tradução de Neue Sachlichkeit, tendo sido usado, primeiramente, nos anos 1920, na Alemanha, com o objetivo de definir a manifestação do novo no campo artístico. Na Itália, Mario Serandrei (1907-1966) foi um dos primeiros a usar essa nomenclatura em um de seus ensaios de crítica cinematográfica ao se referir às filmagens de Ossessione do diretor Luchino Visconti (1906-1976). É importante observar que esse termo foi usado pela crítica cinematográfica para indicar o novo cinema e, só mais tarde, foi utilizado para algumas obras da literatura, publicadas na primeira metade do século XX.

No entanto, é necessário ressaltar a problemática teórica que existe na definição do que venha a ser o Neorealismo na literatura, em particular. Talvez a ausência de um manifesto e a sua não configuração como escola literária, tenha contribuído para a não definição unívoca para o texto neorealista. A esse propósito, Maria Corti declarou que os críticos literários quando etiquetaram o movimento esqueceram-se de que “a lei constitutiva na qual um texto literário é criado no ponto de encontro entre os níveis temático e formal-ideologico.” 7

Este aspecto característico multifacetado do neorealismo permitiu incluir dentro desta terminologia vários escritores como, Alberto Moravia, Elio Vittorini, Cesare Pavese (1908-1942), Beppe Fenoglio (1922-1963), dentre tantos outros que enriqueceram tal movimento literário.

Um dos escritores que tem suas obras ligadas ao Neorealismo é Beppe Fenoglio que fez parte da resistência italiana. Nascido de uma família humilde e completando os estudos com dificuldades devido à sua situação econômica, estreou no mundo da literatura na revista Il Menabò por intermédio de Elio Vittorini, com o romance I ventitrè giorno della città di Alba (1952) e, dois anos mais tarde, com La Malora.

7Maria Corti 1978: 25 Declara la legge costitutiva di un testo letterario si crea al punto di incontro fra

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De acordo com o critico Asor Rosa, 8 a memória e a invenção sobre a Primeira Guerra se entrelaçam intimamente podendo ser encontradas nas páginas de um escritor como Fenoglio, que tinha uma subjetividade dos fatos vivenciados, sendo este o mote para a sua narrativa engajada na luta partigiana.

Outro escritor que se destacou nesse período foi Cesare Pavese, que teve papel importante na vida cultural italiana em parceria com Elio Vittorini, desempenhando a função de organizador e tradutor cultural, tendo traduzido para a Itália a cultura europeia e a americana. A cultura de Pavese teve suas bases em sua formação universitária em letras e humanidades, apresentando a tese sobre o poeta Walt Whitman. Foi exatamente a publicação dessa tese, que fez Pavese se tornar colaborador da revista La Cultura, com suas traduções de obras americanas e inglesas.

A rigor, a primeira metade do século XX reúne um conjunto de obras e escritores importantes para a Literatura Italiana, que mesmo diante de muitas adversidades advindas do contexto sócio-histórico cultural conseguiram criar algo de novo para a poética italiana e para o público leitor italiano. Exemplo desse fato, são os autores que compõem os corpora desta Dissertação que serão apresentados na próxima subseção.

1.2- Moravia e Vittorini: tecituras no Neorealismo

Nesta subseção, serão apresentadas as informações sobre a biografia e da fortuna crítica dos dois escritores, Alberto Moravia e Elio Vittorini, respectivamente, no campo da narrativa da cultura ou na literatura italiana no século XX.

8 Nel campo in cui memoria e invenzione della guerra strettamente s'intrecciano e si confondono e

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O escritor romano Alberto Pincherle nasceu em 1907, conhecido por Moravia, lançou o seu primeiro romance em 1929. Esta obra, intitulada Gli indifferenti, foi considerada por muitos críticos italianos como sendo a percussora do movimento neorealista, tendo sido tomada por modelo para as narrativas das décadas de 1940 e 1950. A partir dessa primeira narrativa, o escritor romano teve uma grande atuação em diversos campos artísticos, como na literatura, no cinema e no teatro.

Moravia teve uma intensa e profícua produção, e teve sua estreia literária, com o conto Cortigiana Stanca 1927, que o introduziu no ambiente literário e jornalístico. A sua vasta produção literária fez o autor viajar muito. Um exemplo disso foi a sua viagem a Capri para escrever o romance La Mascherata, publicado em 1941. A história dessa obra é sobre um ditador, envolvido em uma conspiração com o chefe de polícia. O romance sofreu a intervenção do regime fascista que proibiu a sua publicação, tendo sido publicado com o fim da ditadura italiana.

O autor romano exerceu um papel importante na vida cultural e intelectual italiana do século XX. Moravia fundou algumas revistas como Prospettivi, Oggi e Nuovi Argomenti. Estes periódicos tiveram a colaboração de Elio Vittorini, Pier Paolo Pasolini, dentre outros novos escritores da época O autor de Gli indifferenti produziu uma série de artigos para revistas e jornais.

Na época da publicação de seu primeiro romance, Moravia, ainda jovem, com apenas 21 anos, abordou o tema da família, um assunto importante para sociedade italiana. É interessante informar que para publicar Gli indifferenti Moravia foi financiado pelo próprio pai, porque o livro já tinha sido recusado por duas editoras italianas.

Para o critico Cesare Segre (2004:28), Moravia usa un linguaggio quotidiano con molti dialoghi, dedica un’ attenzione totale ad ambienti e oggetti, è solo preso dal

suo tema9.O tema usado pelo literato foi o da família. O autor descrevia a sociedade

burguesa dos anos do fascismo italiano, relatando o fracasso familiar, por meio de uma

9

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mãe em estado de alienação e a não comunicação entre os personagens, a preocupação de todos os personagens com a manutenção do status social e, ainda, a indiferença do sentimento materno. Tal descrição despertou a precaução dos líderes fascistas, pois desmistificava a família burguesa italiana, expondo minuciosamente o falso moralismo que existia do regime ditatorial fascista que veiculava uma imagem positiva da família em seus filmes Telefoni Bianchi.

Em uma entrevista ao jornalista Elkann, o escritor romano explica o mote da escolha pelo tema da família, informando que o núcleo familiar é um microcosmo em que se espelha o macroscomo. Isto è, tudo que é particular e privado è característico da instituição familiar a conviver com tudo que é social e publico.10 (ELKANN, 2000: 276)

Em um outro romance Agostini (1944), Moravia também aborda a relação familiar. Esse romance foi escrito em 1942, mas foi publicado em 1943 devido à censura fascista de Mussolini. A história de Agostino é ambientada na cidade de Roma, na Segunda Guerra Mundial, descrevendo a relação de uma mãe com um filho de treze anos. A personagem é um adolescente que descobre em um verão, o sexo. O romance descreve a mudança na relação entre mãe e filho. Gradualmente, Agostino percebe que o seu olhar em relação a sua mãe está mudando. A sua mãe era o seu mundo, e o seu olhar de admiração infantil se transforma em um ciúme púbere. O protagonista tem seu caráter descrito pelo narrador a partir da mistura de sensações, como a atração e repulsão pela mãe.

La disubbidienza (1948) é um romance curto que continua ampliando e aprofundando a aventura já delineada em Agostinho. O protagonista Lucca também é um adolescente que está iniciando a vida sexual. Este personagem é incapaz de encontrar um equilíbrio viável entre o eu e o meio ambiente que está inserido, pois vive entre as suas aspirações e a realidade. Para resolver o conflito causado por sua incapacidade de se adaptar, Lucca, o protagonista, é desobediente aos pais. Esta inquietude e incomunicabilidade contínua fazem com que se distancia dos seus deveres,

10 Perchè il núcleo familiare è un microcosmo in cui,come si dice,si specchia il macrocosmo.Cioè nel

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e afetos dos amigos e da própria família, ou seja, uma recusa à própria vida. O adolescente se encontra, quando conhece o sexo, vivenciando o amor em todos os sentidos.

Outro romance moraviano La ciociara escrito, em 1957, apresenta história de duas protagonistas, Cesira e Rosetta, respectivamente. O contexto sócio - histórico do romance é a Segunda Guerra Mundial, mais precisamente nos anos 1943 e 1944, quando os aliados americanos chegam ao sul da península para libertar os italianos dos alemães.

A personagem central do romance, L’uomo che guarda (1985), chama-se Dodo e é um espectador de si e mesmo e dos outros, os seus complexos fazem com que ele se sinta um inadequado. Invadido por um desejo que o faz refletir e observar não só o mundo, mas entender e justificar o que o oprime. Os seus sentidos estão em ebulição, mas esbarram nos tabus da sociedade. Os desejos do protagonista levam a uma excitação e frustração que coincide com a descoberta que seu pai é amante de sua esposa.

Nesta dissertação, uma das obras em questão é Gli Indifferenti, cujas temáticas principais são a alienação do homem,a desintegração da sociedade e a fragilidade das relações. Esta fragilidade está presente na relação materna de Mariagrazia com os seus filhos.

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De fato, o romance Gli Indifferenti fez um grande sucesso ao ser lançado, isso deveu-se a polêmica causada pela temática que envolvia uma família italiana aristocrática em um contexto político de ditadura fascista vivenciando uma relação de apatia e indiferença.

Nesse romance moraviano, os personagens são cinco: a mãe Mariagrazia, os seus filhos Carla e Michele, o amante da matriarca, que é um homem de negócios chamado Leo, e a amiga de Mariagrazia, Lisa. As relações entre as personagens se revelam desde as primeiras páginas do romance e o tema principal de Gli indifferenti é a relação de indiferença entre eles.

O sobrenome da família de Mariagrazia é Ardengo, e conforme mencionado antes, se trata de uma família aristocrata falida que tem as esperanças investidas em Leo Merumeci. É interessante notar que esses cincos personagens no decorrer da história apresentam o seu olhar, ou seja, as suas reflexões, focadas sobre os fatos narrados, sem, no entanto, assumirem uma atitude que possibilite uma mudança de comportamento deles na narrativa. As atitudes desses personagens retornam ao mesmo ponto de partida, sem que nada tenha sido resolvido.

Desde as primeiras páginas do romance percebe-se o interesse de Leo por Carla “L’apetteremo insieme”, disse l’uomo curvandosi in avanti;”vieni qui Carla, metti qui”

11. – Leo Merumeci é um homem de negócios que obteve sua fortuna em atividades

administrativas e investimentos nas bolsas de valores, isto é, pertencia a nova classe que crescia por toda Europa, a burguesia. Assim, o seu único interesse era o patrimônio da família Ardengo. Por isso, tentou a qualquer custo seduzir Carla. “Tutto quel che vorrai... vestiti, molti vestiti, viaggi...;viaggeremo insieme...;è un vero peccato che una bella bambina come te sia così sacrificata...:viene a stare con me Carla...” 12 eram suas palavras para a jovem que viu crescer, tendo assim idade para ser o seu pai.

11 -Vamos esperar-la juntos - disse o homem, curvando-se para frente. Anda cá, senta aqui. (ALBERTO

MORAVIA,1993:9)

12 Faltava-lhe a respiração.Tudo o que quiseres..vestidos, muitos vestidos, viagens...Viajaremos juntos..È

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Carla é jovem, sendo descrita pelo escritor como tendo “gambe dai polpaci storti, ventre piatto, una piccola valle di ombra fra grossi seni, braccia e spalle fragili e, quella testa totonda così pesante sul collo sottile”. 13 No decorrer do romance, o olhar de Carla sobre Leo muda, quando percebe no amante de sua mãe, o único que pode resolver os seus interesses financeiros.

A matriarca da família, Mariagrazia, não é descrita fisicamente, mas somente a maneira de pentear-se e maquiar-se, sendo apresentada como tendo um comportamento inseguro e indeciso. Além disto, a sua aparência, descrita por meio das roupas de cores vivas, refletia uma máscara estúpida e patética. A personagem é uma pessoa insegura e ciumenta.”Mamma è gelosa di te” disse guardandolo; “per questo ci fa a tutti la vita impossibile.”14

Mesmo sendo um símbolo de decadência, a figura materna dessa obra moraviana está preocupada com as aparências. Por este motivo não enxerga as investidas de seu amante em sua filha Carla. Os filhos de Mariagrazia tem repulsa pelo papel que a matriarca tenta representar na sociedade de mãe cuidadora e zelosa com os filhos.

O filho da personagem Mariagrazia, Michele faz reflexões em que se percebe a falsidade em que estão mergulhadas a sua vida e sua família, sendo um personagem indiferente a tudo, mesmo sabendo que tinha perdido a sua casa para Leo. “Perchè sorrido?” egli ripetè. Perchè tutto questo mi è indifferente...e anzi quasi mi fa piacere.”.15 Embora, o odeie tem admiração pela riqueza do amante de sua mãe.

Lisa é mais uma personagem que vive de aparência na história moraviana, mesmo estando falida após ter tido suas joias levadas pelo seu marido e também ter tido um relacionamento com Leo Merumeci, apaixona-se por Michelle, sendo incapaz de ser correspondida pelo jovem, e estando por isso, desiludida. A personagem mantém uma relação de ciúme e inveja em relação aos Ardengo e a Merumeci.

13 Pernas de barrigas tortas, ventre achatado, um pequeno vale de sombra entre os grandes seios, braços e

ombros frágeis, e aquela cabeça redonda, tão pesada sobre o pescoço delgado. (Ibid,10)

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Um escritor contemporâneo de Moravia é Elio Vittorini (1908-1966), que exerceu várias atividades dentro do campo da literatura, foi escritor, editor, tradutor, ex-militante político, jornalista e diretor de periódicos, atuando na vida cultural italiana a partir da década de 1920 até a sua morte em 1966. Filho mais velho de quatro irmãos, o escritor siciliano, esteve sempre envolvido com as questões do cenário político e cultural italiano.

Vittorini nasceu em 23 de julho de 1908, na cidade de Siracusa na Sicília. O seu nome foi escolhido pelo pai, uma homenagem à cultura grega. Vittorini passou toda a sua infância percorrendo pequenas estações de trens na Sicília com os bilhetes do pai que era um ferroviário.

O escritor siciliano é o autor de uma das obras que compõem os corpora desta Dissertação, intitulada Conversazione in Sicilia, publicado em 1941. Essa narrativa vitoriana é a obra principal, reconhecida pela crítica italiana como um dos vários exemplos da literatura neorrealista italiana, por ter sido escrito em período de guerra.

Vittorini, assim como Moravia atuou ativamente na vida cultural e editorial italiana, tendo fundado os jornais Il Politecnico (1945), Il Menabó (1959) e I Gettoni (1951), veículos que divulgaram as leituras do escritor.

Esse seu interesse pelas letras teve o incentivo paterno, uma vez que, o introduziu na leitura muito cedo e assim o interesse de Vittorini pela literatura começou antes da idade escolar. Uma das primeiras obras lidas e comprada com a mesada paterna foi uma edição da Divina Commedia do escritor fiorentino Dante Alighieri (1265-1321).

Era um escritor incansável que lia e escrevia muito a respeito da literatura e da política, no entanto publicava muito pouco. Para ele, os seus livros nunca estavam perfeitos e passavam por várias revisões e modificações antes de serem publicados.

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principalmente, da americana, Vittorini traduziu e publicou em parceria com Cesare Pavese uma antologia chamada Americana. Pavese e Vittorini com outros escritores daquela época traduziram os principais nomes desta literatura, como William Faulkner (1897-1962), Ernest Hemingway (1899 – 1961), dentre outros nomes importantes para literatura.

No ano da guerra civil espanhola, em 1936, Vittorini escreveu um artigo para a revista Il Bargello, onde colaborava desde 1932, contra o regime franquista ,ou seja, de Franco16. Neste artigo que descrevia «a noi Italiani e Fascisti, non conveniva

qualificare fascista il movimento degli insorti spagnoli» che ci conveniva cautela nei

giudizi di identificazione col Fascismo.» Este artigo contribuiu para a sua expulsão do partido fascista. Assim, no ano de 1943, Elio Vittorini, passou a integrar o Partido Comunista Italiano.

Durante o período da ocupação alemã na Itália, o autor siciliano participou da resistência e também da imprensa clandestina, sendo necessário se esconder para não ser preso. Dessa experiência, surgiu a obra Uomini e No, denominada pelo autor como uma experiência partigiana, que só foi publicada em 1945.

É necessário destacar que para a ensaísta Maria Corti, no livro "Il viaggio testuale", o único romance do escritor siciliano Elio Vittorini que pode ser incluído na rubrica literária do Neorealismo é a obra Uomini e No. Este romance traz a história de um intelectual que se torna um partigiano e descreve a violência em Milão. Ele retrata a guerra e a luta partigiana tendo um narrador psicologicamente hermético.

A literatura partigiana foi uma literatura que nasceu de histórias narradas referentes a acontecimentos vividos pelos escritores que fizeram parte da Resistência, ou seja, da luta armada ou, ainda, estórias que surgiram das experiências de outras pessoas que as narravam no período de 1943/1945. Sobre a literatura partigiana a escritora e filóloga Maria Corti afirma que:

16 Francisco Franco (1892-1975) general, ditador espanhol. O franquismo foi um regime político aplicado

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Una voce che proveniva anche dal basso, dunque, data la mescolanza degli strati sociali nei gruppi partigiani,da attori e testimoni dei fatti,non una voce dall’alto come solo si verifica nei fogli di guerra dell’ esercito “regolare”.(CORTI,1978:35)17

No inicio da década de 30, o escritor siciliano viu a transformação do Partido Fascista em um regime totalitário de direita. Isso, o fez tomar a decisão de se tornar um comunista a partir do início de 1942. Foi neste período da Guerra Espanhola, que Elio Vittorini começou a escrever a sua maior obra, Conversazione in Sicília.

Quatro anos depois, o escritor foi diretor da revista Unità, publicou alguns romances, e fundou Il Politecnico (1945-1947). Este nome fora escolhido por Vittorini em homenagem a Carlo Cattaneo (1801-1869), escritor do século XIX, que atuou nos anos do Risorgimento com artigos sobre a ciência e cultura. O escritor siciliano reeditou o jornal que tinha uma inclinação comunista e cuja duração foi de três anos com a publicação de 39 fascículos, no primeiro ano, semanalmente, depois, mensalmente.

Os temas abordados no jornal Politecnico se referiam à igreja, às políticas regionais da Itália e à educação. De acordo com Maria Corti, esse recorte escolhido por Vittorini define “o engajamento, a consciência e um compromisso absoluto como modelo comportamental de um intelectual e artista” 18 da primeira metade do século XX na Itália.

Vittorini, dessa forma, conseguiu por meio de sua sensibilidade veicular artigos no Politecnico e trazer discussões sobre diferentes formas de arte, ciência e filosofia. O seu maior interesse, no entanto, eram os assuntos socioculturais, visando a dar esclarecimentos aos seus leitores sobre as mudanças ocorridas na sociedade italiana, logo após a Segunda Guerra.

17 Uma voz vinda das misturas de classes sociais nos grupos partegiani, atores e testemunhas dos fatos,

não uma voz de cima como só ocorria nas classes do exército de guerra '"regular".

18 il programma di engagement, la coscienza di un impegno come modello comportamentistico assoluto

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Quatro anos depois, em 1951, fora convidado por Einaudi a dirigir a revista I Gettoni, cuja atividade durou até 1958. A revista tinha como proposta a divulgação de novos talentos da cultura italiana. Segundo o próprio Vittorini, o nome fora proposto por ele porque,

“I Gettoni” per i molti sensi che la parola può avere di gettone per il telefono (e cioè di chiave per comunicare), di gettone per il gioco (e cioè con valore che varia da un minimo a un massimo) e di gettone come pollone, germoglio ecc. (Lettera di Vittorini a Calvino del 25 febbraio 1951) 19

Durante os oitos anos de existência de I Gettoni foram publicados cinquenta e oito livros de quarenta e nove escritores novos, que, até o momento, eram desconhecidos do público italiano, como Italo Calvino (1923-1985), Giovanni Arpino (1927-1987), Beppe Fenoglio (1922-1963), Lalla Romano (1906-2001), Leonardo Sciascia(1921-1989), dentre outros. Desta forma, Calvino veio a ser companheiro de trabalho e amigo de Vittorini, até a sua morte, ocorrida em 1966.

Os livros publicados pela I Gettoni/Einaudi traziam uma abertura para as inovações oriundas da literatura experimental de jovens escritores que não tinham 30 anos. Assim, as publicações traziam temas como a memória de guerra (Fenoglio, Stern), a fantasia (Calvino), o uso do dialeto (Leonetti e Testolo), não deixando de lado os romances que seguiam os temas tradicionais (Cassola, Arpino).

É interessante notar como Il Menabò, a última revista política do escritor siciliano, traz a fusão das propostas vitorianas para os periódicos Il Politecnico e I Gettoni. No entanto, essa publicação não tinha a periodicidade fixa, fundada em Turim em 1959, e apenas foram publicados dez números.

Essa revista teve por diretor e codiretor Vittorini e Calvino, respectivamente. Os dois autores eram amigos e discutiam suas ideais sobre quais textos deveriam ser publicados. A proposta da revista, conforme mencionado antes, pretendia desenvolver na sociedade italiana um papel político e cultural, principalmente em relação ao homem

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e ao mundo, na cultura da década de 1960. Assim, a primeira edição da revista, em 1959, trouxe o texto intitulado Il calzolaio di Vigevano do escritor Lucio Mastronardi (1930-1979), que introduzia a questão do dialeto na Itália daqueles anos.

O livro Diario in pubblico post mortem fora publicado um ano depois da morte do escritor siciliano, em 1967. Esta publicação somente foi possível porque Italo Calvino recolheu seus escritos inéditos, que foram produzidos pelo autor siciliano entre os anos de 1929 até 1965.

Deste modo, pode ser acentuado que Vittorini foi promotor e renovador da cultura e da literatura italiana, pois lançou novos talentos. A produção vitoriana ficou impressa na sociedade italiana, devido ao seu grande empenho e dedicação na vida pública na primeira metade do século XX por ter buscado ideais de igualdade entre os homens.

A sua principal narrativa é Conversazione in Sicília um livro que trata de uma realidade de esquecimento e abandono do governo fascista de Benito Mussolini com o povo do sul da Itália. Por meio de conversas do protagonista é que se percebe a história dessa obra vitoriana que se iniciou com a viagem de Silvestro de Milão para a Sicília. Nesse percurso, o leitor percebe estar percorrendo os níveis que vão do real ao simbólico, ou ainda, visitando as memórias e a fantasia. Num ambiente humorístico descrito num cenário pobre e trágico, Silvestro retorna em direção ao sul, em busca de suas raízes sicilianas e de sua família deixada em Siracusa, em particular, de sua mãe Concezione.

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Esta obra de Vittorini começou a ser escrita em 1937, depois de o escritor ter interrompido a obra de Erica e suoi Fratelli (1931). O romance foi publicado em fascículos em uma revista chamada Letteratura, entre abril de 1938 e abril de 1939. O título da obra vittoriana, inicialmente, era Nome e Lacrime, tendo sido vendidas as 355 cópias em apenas uma semana. O sucesso fez com que a obra fosse reeditada por seu amigo Bompiani, em 1941, dessa vez com o título renomeado para Conversazione in Sicilia. O novo título antecipa ao leitor a estrutura da obra que é constituída basicamente de diálogos e, em poucos momentos, de monólogos.

Conversazione in Sicília divide-se em cinco partes mais um epílogo, que se articulam, inovando, na linguagem, a consciência do “mondo offeso”, questão que motivou Vittorini a escrever este romance. Este mundo da obra do escritor siciliano fazia uma alusão à Espanha em meio à guerra civil que estava sendo apoiada pelo fascismo italiano. O regime político fascista de Benito Mussolini não tinha o apoio de muitos escritores, nem mesmo o de Vittorini. Tais escritores tinham a consciência de que a população italiana era a grande vítima desse processo desde a unificação da península italiana até aquele momento sociopolítico do século XX, agravado pelo período bélico-fascista.

Logo no primeiro capítulo do romance, são expostos os motivos e os acontecimentos, sendo descrito o estado psicológico do protagonista, "io-narrante”, Silvestro Ferrauto, um tipógrafo de 30 anos que resolve retornar a Sicília para reencontrar a própria mãe.

Na cidade de Milão, Ferrauto vive em condição de estranhamento, em uma inquietude, “in preda ad astratti furori”, uno stato di indifferenza, di estraneità a sé stesso e al mondo. O inconformismo do protagonista tem sua origem nas notícias que ele acompanha pelos jornais, “vedevo manifesti squilanti con i massacri e chinavo il capo” (ELIO VITTORINI,1979: 5).

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a partir dessa carta que Silvestro, ao invés de enviar apenas uma mensagem de felicitações por meio de um cartão de aniversário, toma a decisão de encontrar a mãe após quinze anos de ausência.

Na viagem, estando já no sul da península italiana, o protagonista encontra sicilianos no barco, e eles, o fizeram se sentir um estranho. -Ma siete siciliano,voi?-Perchè no?-Un siciliano non mangia mai nella mattina, -egli disse d’un

tratto.-Soggiunse : -Siete americano, voi ? 20

O sentimento de estranhamento que teve com aquele primeiro contato com os sicilianos o fez sentir um senza paese. No norte, ele era apenas mais um imigrante em busca de melhores condições de vida, e durante a viagem percebeu que os meridione não o viam como igual, mas sim como estrangeiro.

Segundo Freud, em Uma Neurose Infantil e outros trabalhos-1917-1918 ( 2006: 139/140), o estranhamento é um fenômeno, uma forma de percepção, um sentimento e consciência seja ela emocional ou estética. É tudo o que deveria permanecer secreto e escondido, manifestando-se para os outros. No romance, Silvestro Ferrauto era um estranho, emocionalmente.

Outra personagem desse romance é o Gran Lombardo. Ele representa um proprietário de terras que tem uma ideologia política e o dever de solidariedade. Com ele, Silvestro inicia assim a sua aprendizagem política. A personagem do Gran Lombardo é o símbolo da humanidade forte que fala com paixão durante o percurso da viagem de Silvestro. Ele adquiri então, “nuovi doveri, e più alti, verso gli uomini”, que o contrapõe aos demais personagens coi Baffi e senza Baffi que são representantes da ditadura fascista. Eles tinham uma descrição de “voci da sigaro, forti e strascicate…tarchiati, in cappello e cappotto…ben messi, floridi, presuntuosi nella nuca e nella schiena”.

20 - Mas o senhor é siciliano?-Por que não?- respondi. Um siciliano nunca come pela manhã.-ele disse.O

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O protagonista chega à casa da mãe Concezione, cujo nome significa aquela que concede a vida. Trata-se de uma mulher “alta, con la testa chiara…il mento duro, il naso duro, gli occhi neri…[e] con una coperta rossa”. A mãe de Ferrauto é uma camponesa, mulher traída, porém orgulhosa de se manter sozinha. Silvestro ao chegar se admira “di essere entrato a viaggiare in una quarta dimensione” (ELIO VITTORINI, 1979:42). O protagonista tem a lembrança da felicidade de estar com a mãe e, por um momento, recorda-se das particularidades da sua infância siciliana.

-Sì –dissi io, e respiravo l’odore dell’ aringa, e non mi era indifferente, mi piaceva, lo riconoscevo odore dei pasti della mia infanzia (ELIO VITTORINI,1979:45)21

Assim, a viagem é uma “conversazione”, ou seja, o encontro do passado com o presente. Silvestro, de volta à sua terra natal, a Sicília, percebe que pode dar um sentido para sua vida: reencontrar a sua própria origem familiar, sua mãe. Para ele, a viagem, além de ser um reencontro com a sua identidade siciliana, é também um mergulho num mundo esquecido e que lhe volta à memória, fazendo-o reviver a infância e a adolescência de 15 ou 20 anos atrás.

Acompanhando a mãe pela cidade nas aplicações das injeções, o protagonista tem a oportunidade de encontrar a realidade: um mundo de miséria, de doença e de fome. Neste momento, o protagonista do romance reflete sobre a vida e sobre o sofrimento das pessoas “genere umano perduto”, mas apesar desse sofrimento, os sicilianos não se deixavam abater.

21 Sim-eu disse, respirava o odor de arrenque e não me era diferente,gostava,reconhecia nele o cheiro das

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Nessa reflexão sobre o passado e o presente, concomitantemente, possibilitada pela revisitação à Sicília, o protagonista vivencia a memória dos momentos da infância, e também os da fase adulta, quando tem contato com a dura realidade da sua terra natal.

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2- DISCURSOS LITERÁRIOS E POLÍTICOS DA REPRESENTAÇÃO DA FIGURA MATERNA

Neste segundo capítulo, serão percorridos caminhos para o entendimento da figura da mulher a partir da construção da maternidade, dos modelos arquetípicos dela na sociedade. No capítulo três, analisaremos os romances Gli indifferenti e

Conversazione in Sicilia, dos escritores Alberto Moravia e Elio Vittorini,

respectivamente.

As construções da figura da mãe, nas obras dos escritores Moravia e Vittorini, não estão alinhadas ao arquétipo materno da sociedade italiana. Os autores não retomam o imaginário coletivo da cultura italiana que foi delineado por particularidades e influências da civilização helênica.

Na cultura italiana, a “mamma” foi consolidada como uma figura imagética que se traduz na luta pela família e na proteção da prole, sem perder a ternura. Esta figura imaginária chegou até os tempos atuais por intermédio do teatro, da literatura e do cinema.

Nesse sentido, o filósofo grego Platão, na obra A Repúbica, é o precursor para a identificação das características dos arquétipos mulher/mãe na sociedade helênica, pré-determinando o papel dela. Assim, ele construiu a noção e a fundamentou no entendimento da mulher como o elemento centralizador da família. Essa concepção perdurou e perdura, nas sociedades, ao longo da história.

Ainda na referida obra platônica, especificamente, no capitulo V, é discutida a construção de uma cidade perfeita e é aludida a possibilidade de execução desse projeto. É, neste momento do texto do filósofo grego, que, por intermédio da interrogação de Glaucon e Adimanto sobre o papel da mulher em todas as atividades da cidade para a construção de uma polis perfeita que vem definido o papel da mulher na sociedade.

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da educação de cada grego que formava a sociedade. Segundo o estudioso grego, três classes sociais estruturavam a polis grega: o povo que deveria produzir para a sustentação da sociedade, os guardiões que deveriam proteger a cidade e os governantes que eram os intelectuais, sempre homens, que constituíam a sociedade grega.

O texto platônico apresenta as diferenças entre o gênero masculino e feminino, no sentido de estabelecer os exercícios pertinentes a cada uma das funções para que a cidade tivesse um bom funcionamento. As funções dos relacionamentos humanos, visando ao fortalecimento da polis grega, foram determinados a partir das castas, conforme pode ser observado na citação que segue:

[. . . ] os homens superiores se encontrem com as mulheres superiores o maior número de vezes possível e inversamente, os inferiores com as inferiores, e que se crie as descendências daqueles, e a destes não, se queremos que o rebanho se eleve as alturas. . . (PLATÃO, 2012: 154)

A rigor, essas castas eram determinadas com o intuito de constituir sociedades fortalecidas. É interessante notar que os relacionamentos entre as castas não eram determinados pelo casamento, que inclusive, não existia; entretanto, havia a indicação para que a mulheres pudessem procriar entre 20 a 40 anos, tendo presente a hierarquia das funções determinadas nas castas.

A construção platônica de idealização da mulher e da figura materna atravessou o tempo, tendo sido repetida na literatura e na sociedade por estudiosos e pensadores. Nessa repetição, foram sendo reafirmadas as posições preconceituosas em relação ao feminino, tendo sido observado em A República, a mulher como um objeto ativo com finalidade de reprodução dentro de um determinado período de tempo, e sido concebido ainda como um ser humano menor, quer moral, quer intelectualmente.

Referências

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