PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC- SP
Irene de Lima Freitas
A construção discursiva do sistema de cotas na revista
“
Caros Amigos
”
Irene de Lima Freitas
DOUTORADO EM LINGUÍSTICA APLICADA E ESTUDOS DA
LINGUAGEM
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Irene de Lima Freitas
A construção discursiva do sistema de cotas na revista
“
Caros Amigos
”
DOUTORADO EM LINGUÍSTICA APLICADA E ESTUDOS DA
LINGUAGEM
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem, sob a orientação da Profª Drª Elisabeth Brait.
BANCA EXAMINADORA
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Aos meus filhos, Mateus, Gabriela e Letícia
O homem é capaz de partir e de chegar.
Mas, o que o define mesmo é a estrada. Mais do que ser de chegada e de partida,
o homem é um ser da estrada. É um eterno caminhante.
É um peregrino obstinado. É um estradeiro infatigável.
Não resiste ao apelo do horizonte
misterioso que lhe pede novos passos.
AGRADECIMENTOS
A Deus, que me iluminou e me protegeu em cada passo dessa trajetória;
À CAPES, pelo apoio financeiro para o desenvolvimento desta pesquisa;
À minha orientadora, Profa. Dra. Beth Brait, por acreditar em mim desde o primeiro momento, por me conduzir com sabedoria e carinho na elaboração deste trabalho e pelas portas que abriu em minha caminhada...
À minha co-orientadora, Profa. Dra. Marília Amorim, pelas contribuições tão valiosas;
Às Profas. Dra. Maria Inês Batista Campos, Dra. Sheila Vieira de Camargo Grillo e Dra. Maria Cecília P. de Souza-e-Silva, pelas enriquecedoras contribuições e sugestões a esta pesquisa nos exames de qualificação;
Ao Prof. Dr. Anselmo Pereira de Lima, pela solicitude, pelo apoio e pelo incentivo em várias etapas do curso de doutorado;
À Profa. Dra. Fernanda Coelho Liberali, pela disposição em participar da banca de defesa.
Aos meus filhos, Mateus, Gabriela e Letícia, pelo carinho, pelo afeto, pelo incentivo, e pela participação amorosa na construção deste trabalho...
À minha mãe, pelo exemplo, pelo apoio e pela presença constante em todos os instantes de minha caminhada;
Ao meu pai (in memorian), pelo incentivo e pelo compartilhamento das buscas incessantes;
Aos meus irmãos e familiares, pela amizade e pela compreensão de minha ausência;
À Toninha, terapeuta amiga, pela pesença e apoio nos momentos mais difíceis;
Às amigas Teresa, Vera e Zaina, pelas interlocuções de amizade, pelo compartilhamento de alegrias e tristezas, pela compreensão de minha ausência;
À Celeste, pelo auxílio nas manobras do computador em dias de grande sufoco;
Ao colega Giovanni, pela leitura atenta e pela ajuda na organização deste trabalho;
Às colegas Maria Inês Otranto, Adriana Pucci, Denísia e Regina, pela amizade e pelo compartilhamento de ideias;
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A construção discursiva do sistema de cotas na revista “Caros Amigos”
Irene de Lima Freitas RESUMO
Esta pesquisa tem por objetivo discutir como se dá, na mídia, a construção do discurso sobre o sistema de cotas no Brasil e como ele se insere no debate sobre a exclusão/inclusão dos negros na sociedade brasileira. Dada à amplitude da questão, o objeto de estudo foi escolhido tendo em vista, primeiramente, o ano de 2002, período de efervescência, na mídia, do embate discursivo da exclusão, tendo como pano de fundo o tema das cotas. Nesse ano, um periódico que sistematicamente se ocupou do assunto foi a revista Caros Amigos. Assim, considerando que a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro instituiu cotas de até 40% para as populações negras e pardas no acesso à Universidade do Estado do Rio de Janeiro e à Universidade Estadual do Norte Fluminense, com base na Lei nº 3.708, de 09 de novembro de 2001, a revista foi a escolhida para ser analisada a partir dos números veiculados nos meses de junho a novembro de 2002. Antes da análise propriamente dita, e para poder fundamentá-la historicamente, buscamos informações sobre os antecedentes dessa política denominada ação afirmativa, com o objetivo de entender que elementos colaboraram para que medidas nessa direção fossem sendo adotadas no Brasil. Em seguida, escolhemos, no universo dos números selecionados, 5 artigos, 6 cartas de leitores e 6 capas, conjunto voltado para a questão das cotas, e consideramos cada um deles como enunciados verbais e/ou verbo-visuais. Entendemos enunciados como práticas discursivas que possibilitam o estudo e a compreensão de seu funcionamento a partir do entrecruzar da materialidade da língua neles presente e das condições de produção, circulação e recepção que os abrigam. A perspectiva teórica e metodológica de base é a teoria/análise dialógica do discurso, conforme depreendida dos trabalhos de M. Bakhtin e do Círculo, especialmente no que se refere às noções de interação verbal, enunciado e formas de presença do discurso de outrem. A relevância social dessa pesquisa deve-se à importância que a política de cotas assumiu na sociedade brasileira e, também, ao fato de explorar o tema em perspectiva dialógica, ou seja, concebendo a interação como o princípio fundador da linguagem que se articula em contextos históricos, sociais e culturais específicos. É relevante, ainda, investigar textos/discursos verbais e verbo-visuais, considerando uma revista de cultura, no caso, Caros Amigos. Como resultado do trabalho, podemos afirmar que: as múltiplas vozes e sentidos presentes nesses textos que compõem o corpus – capas, artigos, cartas de leitores - demonstram que a revista constroi seu posicionamento editorial diante do objeto do discurso, a partir do valor que os interlocutores atribuem à sua construção; a polêmica é constitutiva da linha editorial da revista; os embates entre os interlocutores determinam a construção dos enunciados; ao abrir espaço para discussões de diferentes visões de mundo, contribui para as transformações sociais; a análise dialógica de enunciados da mídia contribui para uma melhor compreensão da natureza social do discurso e dos temas relevantes para a sociedade, no caso das cotas.
Discursive construction concerning the system of quotas in the magazine
“Caros Amigos” (Dear Friends)
Irene de Lima Freitas ABSTRACT
This research aims at discussing how the construction of the discourse concerning quotas in Brazil happens in the media, and how it is fits into the debate about exclusion/inclusion of the Negroes in the Brazilian society. Due to the vastness of the issue, the object of the study was chosen, taking into consideration, firstly, the year 2002, the period of most commotion in the media, relating to the discursive impact of exclusion, having as the background the issue of the quotas. During this year, a publication that systematically wrote about the subject was the magazine Caros Amigos. Thus, considering that the Legislative Assembly of the State of Rio de Janeiro instituted quotas of up to 40% for the access of the Negro and dark population to the Federal University of the State of Rio de Janeiro, based on Law number 3,708, dated 9th November 2011, the magazine was the one chosen to be analyzed, as from the editions published in the months of June to November 2002. Before the analysis in itself, and in order to fundament it historically, we searched for information about the antecedents of this policy called affirmative action aiming at understanding which elements helped to bring about the fact of such measures being taken up in Brazil. Secondly, we chose, in the total of editions selected, 5 articles, 6 letters from readers and 6 magazine covers, all dealing with the matter of quotas and we considered each one of them as verbal and/or verbo-visual utterances. We understand utterances as discursive practices that enable the study and understanding of their functioning as from the crisscrossing of the materiality of the language present in them, as well as the conditions of production, circulation and reception that serve as background. The basic theoretical and methodological perspective is the dialogical theory/analysis of discourse, as put forward in the works of M. Bakhtin and his Circle, especially in that it refers to the notions of verbal interaction, utterance and forms of presence in the discourse of the other. The social relevance of this research is due to the importance that the policy concerning quotas took on in the Brazilian society and also due to the fact that it explores the issue in a dialogic perspective, in other words, understanding interaction as the founding principle of language which articulates in specific historical, social and cultural contexts. It is also relevant to investigate verbal and verbo-visual texts/discourses considering a culture magazine, in this case, Caros Amigos. As a result of the study, it may be stated that the multiple voices and senses present in the texts that make up the corpus – magazine covers, articles, letters from readers – show that the magazine builds up its editorial positioning before the object of discourse, as from the value that interlocutors attribute to its construction; the polemic is part of the magazine editorial line of thought; the opposition between interlocutors determines the construction of the statements; while opening up space for discussions concerning different visions of the world, it contributes to social transformation; the dialogic analysis of the statements in the media contribute to a better understanding of the social nature of discourse as well as the subjects which are relevant to society, like the quota issue.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Capa Caros Amigos Nº 1 – abril 1997 ... 136
Figura 2 - Editorial Caros Amigos Nº 1 – abril 1997, p. 3 ... 139
Figura 3 - Autores 1ª Edição - Caros Amigos Nº 1 – abril 1997, p. 4 ... 141
Figura 4 - Capa 4 C4 – Caros Amigos- setembro, 2002 ... 158
Figura 5 - Capa1- C1 Caros Amigos – junho, 2002 ... 163
Figura 6 - Capa 3 C3 – Caros Amigos- agosto, 2002... 168
Figura 7 - Capa2- C2 Caros Amigos - julho, 2002 ... 172
Figura 8 - Capa 5 C5 – Caros Amigos- outubro, 2002 ... 175
Figura 9 - Capa 6 C6 – Caros Amigos- novembro, 2002 ... 178
Figura 10 - Texto1- T1 Caros Amigos - junho, 2002, p.13 ... 183
Figura 11 - Texto 2- T2 Caros Amigos – julho 2002, p. 30 ... 197
Figura 12 - Texto 3 T3 – Caros Amigos- setembro, 2002, p.18 - 19 ... 206
Figura 13 - Texto 4 T4 – Caros Amigos- setembro, 2002, p.20 ... 214
Figura 14 - Texto 5 T5 – Caros Amigos- setembro, 2002, p.21-22 ... 219
LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Textos que compõem o corpus de estudo: conjunto de Capas, Textos e Cartas de Leitores da Revista Caros Amigos. ... 128
Quadro 2 - Vozes reportadas em T1 ... 195
Quadro 3 - Vozes reportadas em T2 ... 203
Quadro 4 - Vozes reportadas em T3 ... 213
Quadro 5 - Vozes reportadas em T4 ... 218
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 11
CAPÍTULO 1 ... 19
CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROBLEMA ... 19
1.1 Retrospectiva histórica ... 19
CAPÍTULO 2 ... 80
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 80
2.1 Teoria dialógica do discurso ... 81
2.2 O discurso de Outrem ... 99
2.3 Discurso, história e memória ... 114
2.4 A perspectiva do verbo-visual ... 120
CAPÍTULO 3 ... 125
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 125
3.1 Caracterização da pesquisa ... 126
3.2 Procedimentos para coleta dos dados e seleção do corpus ... 126
3.3 Descrição do contexto de pesquisa ... 131
3.3.1 A revista Caros Amigos ... 131
3.3.2 Descrição histórica da revista Caros Amigos ... 134
3.3.3 Os cinco Textos/artigos (T) e seus autores- criadores ... 144
3.3.4 As seis Cartas de Leitores (CL) ... 148
3.3.5 As seis Capas da revista - C ... 149
3.4 Coleta de dados e método de análise ... 150
CAPÍTULO 4 ... 153
A PRESENÇA DO(S) OUTRO(S) NO DISCURSO DE UM(NS) ... 153
4.1 A construção discursiva do sistema de cotas ... 155
4.1.1 As capas ... 155
4.1.2 Os artigos ... 180
4.1.3 As Cartas de Leitores ... 226
4.3 Discurso, história e memória ... 237
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 242
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 249
11 INTRODUÇÃO
Neste novo milênio, em que o homem vive um tempo de perplexidade e de impactos profundos nas percepções e expectativas, emerge, mais do que nunca, uma série de paradoxos, ambiguidades, antagonismos sociais, culturais e econômicos que, materializados pelas criações midiáticas, parecem configurar novos contornos, novas reflexões e novas ações para antigas lutas, diante de um insistente cenário global de dominação, de controle, de desigualdades e de exclusão social.
Em vista da heterogeneidade do discurso da mídia - nele falam o jornalista, o fotógrafo, o chargista, o sociólogo, o historiador, o intelectual, dentre outros -, torna-se inegável torna-seu papel na construção, circulação e reprodução de sistemas de conhecimentos, valores e crenças, bem como na construção de identidades, constituição dos sujeitos, relacionamentos e transformações sociais e culturais.
A mídia tem colocado de forma tensa e conflituosa, nos últimos anos, o que se tornou uma grande polêmica a respeito das políticas públicas referentes aos processos de inclusão social por meio do sistema de cotas: Cota para negro volta polêmica e indefinida; Lei de cotas esbarra na mistura de raças; As cotas e a história nacional; Cotas para negros não resolvem a desigualdade, diz ministro da Educação; Advogados entram com ação contra lei de cotas para negros; Critério de cotas leva maioria das vagas da Uerj; Cota para negro embala polêmica; Para Uerj,
cotas podem ser „desastrosas‟; ONG vai conferir cor de aluno na matrícula; UFBa
12 O processo histórico por que passou o negro no Brasil, durante a escravidão,
é fator determinante da situação de “excluído” ainda enfrentada por ele na sociedade
atual, tida por alguns como que ofuscada por um amplo processo de mestiçagem. No Brasil pós-escravista, aparecem estatísticas que colocam em destaque a vulnerabilidade social da maior parte da população negra.
Num cenário de mudanças político-sociais em que, na defesa de direitos individuais e coletivos, o Estado propõe políticas reparatórias, visando ao direito de igualdade, à inclusão social e à inclusão escolar previstos na Constituição Federal do Brasil de 1998 – Artigo 3º que prega: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação; Artigo 5º que
defende o direito à igualdade “todos são iguais perante a Lei sem distinção de qualquer natureza”; e o Artigo 206, do Capítulo da Educação que prescreve um ensino ministrado com base no “princípio de igualdade de condições para o acesso
e permanência na escola”; ou de legislações específicas como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, instaurou-se, na sociedade brasileira, um intenso debate motivado pela aprovação, em novembro de 2001, da Lei Estadual nº 3.708 de 09/11/ 2001 - sancionada pelo então governador do Estado do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho.
A Lei institui a cota mínima de até 40% para as populações negra e parda no preenchimento das vagas relativas aos cursos de graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e da Universidade Estadual do Norte Fluminense
– UENF, e estabelece que nessa cota mínima estão incluídos também os negros e pardos beneficiados pela Lei nº 3524/2000.1
Emolduram esse debate alguns indicadores sociais que revelam a assimetria existente entre a situação dos brancos e dos não brancos na sociedade brasileira, tais como: O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)2, que, num ranking entre
1
Essa Lei nº 3524, de 28 de dezembro de 2000, é a que dispõe sobre os critérios de seleção e admissão de estudantes da rede pública estadual de ensino em universidades públicas estaduais do Estado do Rio de Janeiro. No Art. 1º prevê que os órgãos e instituições de ensino médio oficiais em articulação com as universidades públicas estaduais, instituirão sistemas de acompanhamento do desempenho de seus estudantes, atendidas as normas gerais da educação nacional. E no Art. 2º, que as vagas oferecidas para acesso a todos os cursos de graduação das universidades públicas estaduais serão preenchidas observado o critérios de 50% (cinquenta por cento), no mínimo por curso e turno, por estudantes que tenham cursado integralmente os ensinos fundamental e médio em instituições da rede pública dos Municípios e/ou do Estado. Disponível em: alerjln1.alerj.rj.gov.br/contlei.../92c5d19ef1cac546032569c40069afa7?...Último Acesso em 05 de janeiro de 2011.
13 174 países, levando em conta três variáveis: renda per capita, longevidade e alfabetização - combinada com a taxa de escolaridade -, classificou o Brasil em 74º lugar, o que o caracteriza como um país de médio índice de desenvolvimento humano.
Os dados obtidos em Censo Demográfico de 2000 (IBGE), segundo os quais negros e pardos no Brasil são cerca de 45% da população, perfazendo algo em torno de 70 milhões de pessoas. Esses dados evidenciam que o Brasil possui a maior população negra fora da África e a segunda maior população negra do mundo - só inferior numericamente à população da Nigéria, que é o país africano mais populoso.
Em trabalho intitulado “Mapa da População Negra no Mercado de Trabalho”, o “Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial“ (INSPIR - 1999), concluiu que existe reiterada desigualdade para negros, de ambos os sexos, no mercado de trabalho. A população branca que trabalha tem rendimento médio de cinco salários mínimos, enquanto os negros e pardos alcançam valores em torno de dois salários mínimos.
No mesmo sentido, a “Inter-American Commission on Human Rights”
(IACHR), no relatório sobre a situação dos direitos humanos no Brasil, observa que "a expressão principal das disparidades raciais é a distribuição desigual da riqueza e
de oportunidades”.
Além disso, recentes censos étnicos realizados em universidades revelam um perfil racial no ensino superior, uma vez que há uma sub-representação de negros, se comparados, os resultados, com o perfil da população em geral (Turra e Venturi, 1995). Outros dados estatísticos evidenciam que os negros são maioria entre os desempregados, têm menos acesso à renda, à educação e à moradia (INSPIR,1999); apresentam baixa mobilidade social (Hasenbalg, 1980); são
14 discriminados na maneira como são retratados em livros didáticos (Silva, 2001) e também no acesso à justiça penal (Adorno, 1996).
Diante desses indicadores, que desenham um quadro de permanência das desigualdades sociais e de participação mínima do negro no cenário sociocultural, a discussão sobre as políticas de inclusão ganhou espaço na mídia impressa, principalmente no ano de 2002, época em que a primeira universidade pública –
Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ - passou a adotar o sistema de cotas previsto na já mencionada Lei Estadual nº 3.708, causando polêmicas, críticas, questionamentos e sugestões, tanto no que se refere aos princípios gerais como aos aspectos pontuais.
Nesse cenário discursivo, autores, legitimados pelo status que possuem dentro de determinada esfera de comunicação – autoridade, intelectual, conhecedor do assunto, jornalista, representante de órgão oficial, representante de entidades classistas –, enunciam posições conflitantes, motivando embates que foram amplamente divulgados pelos principais órgãos de comunicação impressa, tais como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Veja, Exame, IstoÉ.
Em fevereiro de 2003, assim que o resultado do vestibular da UERJ evidenciou a aprovação de candidatos - com notas aquém da linha de corte dos diferentes cursos - e reprovação de estudantes que, sem pertencer a nenhuma cota, obtiveram notas altas, o assunto foi recolocado em pauta. Uma avalanche de artigos, reportagens e entrevistas, contendo depoimentos e/ou fotos de alguns candidatos beneficiados e de outros prejudicados pelo novo sistema étnico de ingresso à universidade, começam a pulular na imprensa nacional. O tom apreciativo de denúncia dado a essas matérias incitou mais ainda a polêmica, motivando os leitores a enviarem cartas aos jornais e às revistas, tecendo manifestações de diferentes natureza e ordem discursiva.
15 Como tivemos uma longa trajetória no exercício do magistério de ensino básico - fundamental e médio - em diferentes escolas públicas e privadas de
diferentes cidades, e, acostumados que fomos a “preparar” os alunos do terceiro ano
do ensino médio para o temido concurso vestibular, chamou-nos a atenção a promulgação dessa nova lei. Nas turmas em que ministráramos aulas, sempre encontrávamos jovens de diferentes situações econômicas e de diferentes etnias que eram ávidos por uma passagem de acesso ao mundo acadêmico universitário.
Da mesma forma, nos últimos anos, já ministrando aulas na universidade, e, habituados a conviver com a inclusão de alunos portadores de necessidades especiais como os deficientes auditivos, os deficientes visuais e os deficientes físicos, causou-nos certo estranhamento uma política pública de inclusão baseada na cor da pele.
Além disso, fazendo parte da equipe de elaboração e de correção de provas dos processos seletivos da universidade em que trabalhamos, e familiarizada com a aprovação dos candidatos baseada no mérito de cada um, víamos avolumar os questionamentos que pairavam em nossas elucubrações a respeito das cotas.
Como nosso interesse pela questão das cotas tornou-se mais intenso, passamos a arquivar vários textos que tratavam desse tema. De início, reunimos um total de vinte e seis, dentre os quais onze eram artigos, entrevistas e reportagens, e os outros quinze eram cartas de leitores. Todos foram publicados no período de junho de 2002 a março de 2003, nos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo e nas revistas Veja, IstoÉ, Caros Amigos.
16 Ingressamos no PEPG em LAEL/PUC, tendo como orientadora a Professora Doutora Beth Brait. Nosso projeto foi inserido na linha de pesquisa Linguagem e Trabalho e vinculado ao Grupo de Pesquisa Linguagem, Identidade e Memória/CNPQ, por ela liderado, articulando abordagens bakhtinianas em estudos de enunciados verbais e verbo-visuais.
Para cumprir as exigências do programa, no que diz respeito à obtenção de créditos, começamos a frequentar as aulas de nossa orientadora e, entre uma aula e outra, uma leitura e outra, um seminário e outro, uma orientação e outra, um semestre e outro, fomos nos familiarizando e nos entusiasmando cada vez mais com as abordagens da teoria dialógica desenvolvida por Bakhtin e seu Círculo.
A partir dos estudos da teoria baktiniana – novas lentes nos fizeram enxergar mais longe – pudemos perceber a revista Caros Amigos como um grande enunciado, motivo pelo qual não poderíamos deixar de incluir os aspectos não-verbais que se relacionavam com os enunciados não-verbais selecionados, pois, certamente, teriam importante papel na construção dos sentidos.
Nosso entusiasmo pela nova perspectiva teórico-metodológica bakhtiniana intensificou-se, também, quando tivemos a oportunidade de desenvolver um estágio/doutorado/sanduíche, de quatro meses, junto à Equipe de Recherche
Paideia de Philosophie de L‟Education, no Département de Sciences de L‟education
da Université Paris VIII, participando do seminário de pesquisa Sémiologie et recherche – Langage e Societé, dirigido pela Professora Doutora Marília Amorim, cujas abordagens dialogam com a teoria do Círculo.
No processo de delimitação do corpus, optamos por 6 capas, 5 artigos e 6 cartas de leitores da revista Caros Amigos, editados no período de junho a novembro de 2002, justamente porque esses textos estão inseridos em uma cadeia discursiva de conflitos e embates que polemizam o sistema de cotas. As especificidades do objeto de estudo apontaram para a teoria dialógica, desenvolvida por Bakhtin e seu Círculo, como fundamentação teórico-metodológica pertinente para dar suporte à nossa pesquisa.
17 a par dos acontecimentos, mas, principalmente, proporcionar a interpretação de fatos relevantes que ocorrem no cotidiano das cidades e países e que são colocados em pauta pela mídia, em geral.
O peso e a importância desse veículo de comunicação –Caros Amigos - resume-se bem nas palavras de Muniz Sodré em depoimento a Pereira Filho (2004,
p. 29): “o jornalismo feito pela revista garante a sobrevivência de um estilo de
publicismo no interior de uma mídia que está por demais comprometida com a tecnologia, o espetáculo e o mercado; Caros Amigos tem compromisso com o pensamento crítico humanista, é um jornalismo de ideias e debates, sem ser
panfletário. Ela se dirige a cidadãos e não a consumidores.”
Partimos, então, da hipótese de que a questão do sistema de cotas na mídia, de forma especial na revista Caros Amigos, é entretecida por vozes que se articulam em interações discursivas tensas e conflitantes o que, além de refletir e refratar a polêmica da identidade brasileira, possibilita reflexões de como se dá a formação dos discursos e da opinião dos interlocutores a respeito da inclusão/exclusão do negro na sociedade brasileira.
Para trabalhar essa hipótese, diante do corpus estabelecido, tomamos uma questão geral como norteadora da pesquisa e algumas específicas para respondê-la.
Questão geral:
De que maneira se dá a construção dos discursos sobre as cotas nos processos enunciativo/discursivos da mídia impressa e mais especificamente em Caros Amigos?
Questões específicas:
1) Quais são as vozes presentes nos enunciados que constituem o corpus (artigos, capas, cartas) e que contribuem para a construção desses discursos sobre as cotas?
2) Quais são as marcas verbo-visuais (linguísticas, enunciativas e discursivas) que evidenciam essas vozes e o que elas revelam a respeito do sistema de cotas?
18 que aí se estabelecem. A segunda pergunta específica tem como objetivo ressaltar os principais mecanismos linguísticos, enunciativos e discursivos que expressam o confronto de vozes e de discursos na construção do discurso sobre as cotas.
Assim, o objetivo desta pesquisa é verificar como se dá na mídia a construção do sistema de cotas no Brasil e como ele se insere no debate sobre a exclusão/inclusão do negro na sociedade brasileira.
Para nosso intento, selecionamos enunciados que se inserem em um processo de interação verbal entre textos, autores, editores e ilustradores e que se organizam em uma sequência discursiva polêmica procurando descrever, analisar e interpretar as diferentes formas de presença do outro - a multiplicidade de vozes - que entram na construção do discurso sobre as cotas, na revista Caros Amigos. Abordamos os aspectos verbais e verbo-visuais, utilizando os conceitos da teoria dialógica desenvolvidos por Bakhtin e seu Círculo.
Organizamos nosso estudo em quatro capítulos. No primeiro, examinamos as bases sócio-históricas do sistema de cotas – que se insere na política denominada ação afirmativa – e sua influência nos movimentos sociais e na adoção da medida no Brasil. Buscamos uma bibliografia a partir de artigos acadêmicos, livros, dissertações e teses que abordam o tema das cotas raciais.
No segundo capítulo, discorremos, em linhas gerais, sobre a teoria dialógica do discurso de M. Bakhtin e seu Círculo, procurando compreender os conceitos fundamentais que dão suporte às nossas análises, especialmente as noções de: interação verbal, enunciado, formas de presença do discurso de outrem, polêmica velada e polêmica aberta.
No terceiro capítulo, descrevemos a metodologia usada em nossa pesquisa, ressaltando o processo de coleta e seleção, a natureza e descrição dos dados, os procedimentos para a análise, bem como as características do contexto em que se insere o corpus de estudo.
19 CAPÍTULO 1
CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROBLEMA
O domínio cultural
está inteiramente situado sobre fronteiras que passam por todo lugar,
através de cada momento seu, e a unidade sistemática da cultura se estende aos átomos da vida cultural, como o sol se reflete em cada gota.[...] como uma mônada que reflete tudo em si e que
está refletida em tudo.
Bakhtin
O objetivo deste capítulo é fazer uma retrospectiva histórica, a fim de contextualizar a questão do sistema de cotas - que nos propusemos estudar por meio de um veículo de comunicação - buscando suas bases e investigando fatos e antecedentes que possam ter sido determinantes para sua origem e/ou que tiveram influência na divulgação do tema, e/ou que colaboraram para que medidas fossem tomadas e movimentos sociais fossem criados. Ao delinear essas condições sócio-históricas dessa política de ação afirmativa e o significado que ela adquire em determinadas esferas de circulação, ocorreram-nos algumas perguntas, para compor este capítulo, que podem ser assim formuladas: (i) o que são as cotas? (ii) quando e onde surgiram? (iii) em que fundamentos legais e éticos se apoiam? (iv) qual é o papel primordial de sua implementação no Brasil? (v) como a imprensa se insere nesse debate?
A partir da abordagem dessas questões, chegaremos, no final deste capítulo, à justificativa e às perguntas de pesquisa.
1.1 Retrospectiva histórica
A partir da Segunda Guerra Mundial, 1945, em que, com o fortalecimento do Estado de Bem Estar Social, criaram-se diferentes organismos internacionais como a ONU – Organização das Nações Unidas - e da UNESCO3 (16-11-45) –
20 Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a qual torna-se referência em Direitos Humanos com a premissa de sua Constituição : “se a
guerra nasce na mente dos homens, é na mente dos homens que devem ser
construídas as defesas da paz”, ganha força a noção de remediar as desigualdades
e sofrimentos deflagrados pela Guerra. Assim, a cada dois anos, os 191 Estados, membros da UNESCO, reúnem-se para deliberar propostas e ações para os principais problemas que afligem as sociedades, visando à melhoria das condições sociais.4
Na década de 60, a esses primeiros movimentos seguiram outros, com cunho reivindicatório de igualdade de direitos e oportunidades (negros, mulheres e homossexuais), dando lugar a uma reflexão acerca do caráter etnocêntrico e hierarquizante das categorizações étnicas, identitárias, literárias, artísticas, religiosas, linguísticas, etc. (FRANCO, 2006)
No mesmo período, os norte-americanos viviam um movimento de reivindicações democráticas internas, e, então, surge nos EUA a “positive action” –
bandeira de luta pela igualdade social e resposta ao problema da segregação. Dessa forma, o país pioneiro na adoção das políticas sociais denominadas “ações afirmativas” foram os Estados Unidos. Tais políticas foram concebidas inicialmente com mecanismos tendentes a solucionar aquilo que um célebre autor escandinavo
qualificou de “dilema americano”: a marginalização social e econômica do negro.
Posteriormente, as reivindicações foram estendidas às mulheres e a outras minorias étnicas e nacionais, índios e deficientes físicos. Segundo Gomes (2001), as ações afirmativas se definem como políticas públicas (e privadas) voltadas à concretização do princípio constitucional da igualdade material e à neutralização dos efeitos da discriminação racial, de gênero, de idade, de origem nacional e de
formar acordos universais nos assuntos éticos e serve como uma agência do conhecimento – para disseminar e compartilhar informação e conhecimento e promover a cooperação internacional entre seus 192 Estados Membros nas áreas de educação, ciências, cultura e comunicação.( http://www.unesco.org.br/unesco/sobreaUNESCO/index_html/mostra_documento. Acesso em 22 de janeiro de 2010).
4Consideramos importante ressaltar as observações de Franco ( 2006, p. 12) ao destacar que, embora a ONU e UNESCO sejam apontados como referência em Direitos Humanos, em outros momentos - em episódios históricos e em conflitos internacionais - foram rechaçadas. “ Não se consideram os aspectos constitutivos de sua fundação: a manipulação dos países membros nem o montante de orçamento disponibilizado anualmente por parte dos países integrantes para sustentar uma estrutura bem mais burocrática do que efetivamente destinada a ações concretas na intervenção e melhoria das condições de
vida das populações e segmentos necessitados”. Além disso, não se leva em consideração o cunho assistencialista desses
21 compleição física. Na sua compreensão, a igualdade deixa de ser simplesmente um princípio jurídico a ser respeitado por todos, e passa a ser um objetivo constitucional a ser alcançado pelo Estado e pela sociedade5.
Nesse contexto, o conceito de “minoria” ganha força. Aqui, vale fazer uma breve retrospectiva histórica ressaltando que, segundo Remillard (1986), a proteção internacional dos direitos das minorias teve início nos séculos XVI e XVII, tendo como foco as minorias religiosas, quando em 1648 o Tratado de Westphalia6 declarou o princípio de igualdade entre católicos e protestantes. Nos anos posteriores, surgiram outros tratados que tinham a preocupação de garantir a liberdade religiosa e a celebração da paz, embora não se possa dizer que nessa época já houvesse um amparo específico a determinada minoria.
Pode-se considerar que uma primeira preocupação mais direta de proteção aos grupos minoritários tenha sido a Conferência da Paz, em Paris, no ano de 1919, quando houve a declaração da igualdade de todas as pessoas perante a lei, a igualdade dos direitos civis e políticos, a igualdade de tratamento e de segurança.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos,de 1948, não mencionava de forma expressa o direito das minorias, embora em 1947 a Comissão de Direitos
Humanos tenha criado uma Subcomissão para Prevenção da Discriminação e
Proteção das Minorias das Nações Unidas7. Só quase vinte anos depois, em 16 de
5Ellis Cashmore , em seu Dicionário de relações étnicas e raciais, no verbete “ação afirmativa” diz que esta “visa ir além da tentativa de garantir igualdade de oportunidades individuais ao tornar crime a discriminação, e tem como beneficiários os membros de grupos que enfrentam preconceitos”. (CASHMORE, 2000, p. 31).
6Firmado entre os dias de 15 de maio a 24 de outubro de 1648, nas cidades alemãs de Munster e Osnabruck
esse grande tratado de paz fez história: a Paz de Westfália. Com ela puseram fim à Guerra dos Trinta anos, tida como a primeira guerra civil generalizada da Europa, acordaram a igualdade das três confissões religiosas dominantes no Sacro Império, o catolicismo, o luteranismo e o calvinismo, e abriram caminho para a concepção de tolerância religiosa que, no século seguinte, tornou-se bandeira dos iluministas, como John Locke e Voltairea A Paz de Westfália marcou, em sentido mais amplo, o início do sistema laico de Relações Internacionais.
Disponível em:www.educaterra.terra.com.br/vizentini/.../artigo_75.htm .Acesso em 14 outubro de 2010.
7
A Subcomissão para Prevenção da Discriminação e Proteção das Minorias das Nações Unidas é o principal órgão subsidiário da Comissão para os Direitos Humanos e foi criada em 1947, sob a autorização do ECOSOC (Conselho Económico e Social das Nações Unidas). Em 1999, o ECOSOC alterou-lhe o nome para Subcomissão para a Promoção e Protecção dos Direitos Humanos. Sua principal função elaborar estudos e recomendações à Comissão relativas à prevenção da discriminação no âmbito dos direitos humanos e liberdades fundamentais e protecção das minorias raciais, nacionais, religiosas e linguísticas. A Subcomissão congrega 26 peritos - escolhidos de acordo com um critério de distribuição geográfica equilibrada - que se reúnem em Genebra anualmente por três semanas e conta com a presença de representantes de estados observadores, de órgãos da ONU e agências especializadas e de outros organismos intergovernamentais e organizações não-governamentais. Atualmente, a Subcomissão é assistida por seis grupos de trabalho: Grupo de trabalho para comunicações (que lida com queixas consistentes sobre violações de direitos humanos); Grupo de trabalho sobre formas contemporâneas de escravatura; Grupos de trabalho sobre povos indígenas; Grupo de trabalho sobre minorias; Grupo de trabalho sobre administração da justiça, e Grupo de trabalho sobre empresas multinacionais.
22 dezembro de 1966, é que foi dado um grande salto com o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos adotado pela Resolução n.º 2.200 - A da Assembléia Geral das Nações Unidas. O artigo 27 desse Pacto estabelece que, nos Estados em que haja minorias étnicas, religiosas ou linguísticas, as pessoas pertencentes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter sua própria vida cultural, conjuntamente com outros membros de seu grupo, de professar e praticar sua própria religião e de usar a sua própria língua.
Todavia, a não regulamentação desses direitos deveu-se à falta de consenso sobre os elementos centrais do conceito de minoria, o que dificultou a elaboração de uma definição universalmente aceita, conforme expressa Rémillard (1986, p. 14) “il n'est pas facile de trouver tant sur le plan national qu'international le consensus qui puisse garantir les droits de ceux qui ne font pas partie de la majorité. Une des difficultés premières est de définir ce qu'est une minorité”
Francesco Capotorti8(1979), membro da Subcomissão para Prevenção da Discriminação e Proteção das Minorias da ONU, propõe dois tipos de critérios para definir as minorias. Primeiramente, os critérios objetivos que compreendem três aspectos: 1º) a existência de um grupo de pessoas com características étnicas, religiosas ou linguísticas, distintas do resto da população em um determinado Estado; 2º) esse grupo minoritário deve ser numericamente inferior ao resto da população; 3º) esse grupo minoritário deve ocupar uma posição de não dominação. O critério subjetivo é definido como sendo o desejo manifesto pelos membros das minorias de preservar suas especificidades, ou seja, a solidariedade dos membros do grupo e sua vontade de contribuir para preservar seus traços distintivos.
Em um trabalho divulgado em 1979, Capotorti, fundamentando-se nesses critérios, define minoria como
[...]un groupe numériquement inférieur au resto de La population d‟un Etat, en position non dominante, dont les membres – ressortissants de l‟Etat –
possèdent du point de veu ethnique, religieux ou linguistique, des caractéristiques qui diffèrent de celles du reste de la populatioon et
8
23
manifestent même de façon implicite un sentiment de solidarité, á l‟effect de
preserver leur culture, leurs traditions, leur religion ou leur langue.
Jules Deschênes9, especialista da ONU, e igualmente membro da Subcomissão para Prevenção da Discriminação e Proteção das Minorias das Nações Unidas, propõe à Subcomissão, em 1985, uma definição de minoria fundada em critérios de cidadania, de solidariedade, de vontade coletiva de sobreviver, tal como expressa em suas palavras
[une minorité] c‟est un groupe de citoyens d'un État, en minorité numérique et en position non dominante dans cet État, dotés de caractéristiques ethniques, religieuses ou linguistiques, différentes de celles de la majorité de la population, solidaires lês uns des autres, animés, fût-ce implicitement, d'une volonté collective de survie et visant à l'égalité en fait et en droit avec la majorité.
Nesse sentido, os conceitos trabalhados pelos especialistas da ONU, Capotorti e Deschênes assemelham-se aos conceitos desenvolvidos pelos antropólogos Wagley (1952) e Harris (1952) os quais estabelecem cinco características para as minorias: 1) são segmentos subordinados de sociedades estatais complexas; 2) as minorias têm traços físicos ou culturais especiais que são pouco considerados pelo segmento dominante da sociedade; 3) as minorias são unidades auto-conscientes ligadas pelos traços especiais que seus membros partilham e pelas restrições que os mesmos produzem; 4) a qualidade de membro de uma minoria é transmitida pela regra de descendência, a qual é capaz de afiliar gerações sucessivas, mesmo na ausência de aparentes traços físicos ou culturais; 5) os povos minoritários tendem a casar dentro do grupo.
De modo geral, nas concepções antropológicas, o conceito de minoria não é tratado apenas quanto aos aspectos puramente quantitativos, mas também quanto aos qualitativos. A ênfase é dada aos aspectos qualitativos porque consideram que a diferença está no tratamento recebido, no relacionamento - ou fricção - entre os vários grupos, levando-se em conta a existência de uma relação de
9
24 dominação/subordinação em que a maioria é quem domina - não importa seu número - e a minoria é dominada.
Segundo abordagens de Muniz Sodré (2005, p. 11), no texto denominado Por um conceito de minoria, se se pensar na palavra minoria, tomada como o contrário de maioria, tem-se como ponto de partida um sentido de inferioridade quantitativa. Sodré considera que essa noção é importante para a clássica democracia
representativa porque “na democracia, diz-se, predomina a vontade da maioria”.
Considera, também, que este é um argumento quantitativo porque, qualitativamente, democracia é um regime das minorias, já que só a minoria pode-se fazer ouvir.
A noção atual de minoria, desenvolvida por Sodré (idem) é a que perpassa esta nossa pesquisa. Esse autor alega que minoria refere-se à possibilidade de os setores ou fração de classes, comprometidos com as diferentes maneiras de luta pela questão social, terem voz ativa ou intervirem nas instâncias decisórias do Poder. Assim sendo, são considerados minorias os negros, os homossexuais, as mulheres, os povos indígenas, os ambientalistas, os antineoliberais, entre outros.
O autor cita o conceito de “devir minoritário”, desenvolvido por Deleuze e
Guattari, para os quais a minoria é tomada como um impulso de transformação que atravessa um grupo e não como um sujeito coletivo absolutamente idêntico a si mesmo e numericamente definido. Sodré ressalta que minoria é um fluxo de
mudança, um “lugar” de transformação e passagem, polarizador de turbulências,
conflitos, fermentação social. Lugar que, diferentemente de espaço abstrato ou de uma localização concreta, é a localização de um corpo ou de um objeto e, portanto, um espaço ocupado. Não é, necessariamente, uma localização topográfica, mas sim
topológica: “um espaço afetado pela ação humana, um campo de fluxos que polariza
as diferenças e orienta as identificações”. (SODRÉ, 2005. p.12).
Dessa forma, o conceito de minoria implica uma tomada de posição grupal
no interior de uma dinâmica conflitual em que “lugar” é tomado como uma
25 denominados de minorias, mesmo que sejam de oposição ao regime dominante, porque ocupam um lugar na ordem jurídico-social instituída.
Para esse autor, existem quatro características básicas do conceito de
“minoria”. A primeira é a vulnerabilidade jurídico-social, já que o grupo minoritário não é institucionalizado pelas regras jurídico-sociais vigentes e, portanto, torna-se vulnerável diante das políticas públicas ou da legitimidade institucional. Por esse motivo, as minorias lutam por uma voz, ou seja, pelo reconhecimento societário de seu discurso.
Quanto à segunda característica das minorias, denominada identidade em status nascendi, o autor esclarece que, do ponto de vista da identificação social, a minoria apresenta-se sempre em status nascendi, ou seja, na condição de uma entidade em formação que se alimenta da força e do ânimo dos estados em formação. “Mesmo quando já existe há muito tempo, a minoria vive de um eterno recomeço” (SODRÉ, 2005, p.12).
A terceira característica é a luta contra-hegemônica: a minoria luta pela redução do poder hegemônico, mas, em princípio, não há nessa luta o objetivo de tomada do poder pelas armas. Aqui, Muniz Sodré reconhece a mídia como um dos mais relevantes territórios dessa luta, principalmente nas tecnodemocracias ocidentais. Nesse sentido, ressalta um aspecto importante que diz respeito a este nosso trabalho, já que elegemos o discurso da mídia para nossos estudos. Porém, o autor chama a atenção para o fato de que há o risco de que as ações minoritárias possam ser empreendidas apenas em virtude de sua repercussão midiática, o que, de certa forma, esvaziaria a possível ação no nível das instituições da sociedade global.
E a quarta característica - estratégias discursivas – como o próprio nome indica, configura-se como uma intensa utilização das estratégias discursivas e dos principais recursos de luta permanente, tais como passeatas, programas de televisão, manifestos, revistas, jornais, campanhas por meio da Internet, invasões episódicas, gestos simbólicos (fazendo da mídia - conforme dito na característica anterior - um dos principais territórios de luta) (SODRÉ, 2005, p.13).
Tendo feito algumas considerações sobre o conceito de “minoria” e
retomando nossas abordagens a respeito do pioneirismo na adoção das políticas
26
de experiências com essas políticas, por meio das quais as “minorias” ganham cada
vez mais espaço.10
O movimento “positive action” atinge grandes proporções, após pressão de
grupos organizados da sociedade civil, principalmente os chamados “movimentos negros” idealizados por lideranças como Martin Luther King e Malcom X.
Nascido em Atlanta, em 1929, Martin McLuther King Jr. foi um pastor protestante que tornou-se um dos mais importantes líderes políticos do ativismo pelos direitos civis nos Estados Unidos e no mundo, por meio de uma campanha de não-violência e de amor para com o próximo. Considerado a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz (1964), foi assassinado em Memphis, em 4 de abril de 1968. O seu discurso mais famoso e lembrado é "Eu Tenho Um Sonho".
Malcolm X ( El Hajj Malik El Shabazz, mais conhecido como Malcolm X ou Malcolm Little), nasceu em 1925, em Omaha, Nebraska, e foi assassinado em 1965, em Nova Iorque. Foi um dos maiores defensores dos direitos dos negros nos Estados Unidos. Fundou a Organização para a Unidade Afro-Americana, de inspiração socialista. Além desses dois líderes, é necessário citar um importante grupo pela luta dos direitos civis dos afro-americanos,“Panteras Negras”, partido negro revolucionário estadunidense, fundado em 1966 em Oakland, Califórnia, por Huey Newton e Bobby Seale, originalmente chamado Partido Pantera Negra para Auto-defesa ("Black Panther Party for Self-Defense"), depois, mais conhecido como "Black Panther Party" - Panteras Negras.
Em vários países da Europa Ocidental ocorreram experiências semelhantes, sendo que a noção que congrega todas essas experiências é o conceito geral de inclusão11. Em princípio, timidamente, as ações afirmativas chegam ao Brasil, na
10
Nesse sentido, o filme Um dia sem Mexicanos - de Sérgio Abreu - mostra o episódio em que a população latina da Califórnia - 14 milhões de imigrantes, um terço da população ativa do Estado - desaparece da noite para o dia. Os desaparecidos têm em comum as raízes hispânicas: são policiais, médicos, operários e babás que garantiam o bem-estar da população californiana . Enquanto autoridades procuram explicações para o caso, os nativos começam a perceber a importância dos chicanos que antes eram desvalorizados. A ideia foi não só de “fazer falta” e protestar contra a polêmica decisão do Tribunal Norte Americano de considerar crime a condição de imigrante ilegal no país, mas também de firmar-se como grupo minoritário e com poder” (Plural Entertainment Espana & Eye on the Ball Film, 1998). Disponível em www.filmesdecinema.com.br ›Acesso em 26 de julho de 2008)
11
27 década de 80, momento em que o país vivia o processo de redemocratização. A
chamada “Inclusão Escolar” faz parte desse contexto e já está expressa na
Constituição de 1988.
Em diversas partes do mundo, a partir da década de sessenta, os deficientes - organizados de forma semelhante a outros segmentos minoritários - iniciaram um movimento de reivindicações de direitos. No Brasil, juntamente com as APAES (Associação de Parentes e Amigos dos Excepcionais), o movimento reivindica o
acesso dos chamados “deficientes” a um sistema educacional público e de
qualidade. Da mesma forma, a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (4024/61) já dava indícios, ainda que timidamente, de amparo à educação desse segmento, porém colocava ênfase no financiamento, por parte do Estado, de instituições educacionais privadas, assistencialistas, para incluir a representação dos
“deficientes” como“excepcionais”.
Por outro lado, a Constituição Brasileira de 1988 procura mudar esse cenário e avançar na proposta da chamada “Inclusão”, atendendo a diferentes decisões de Organismos Internacionais expressas em diversas Declarações de Direitos, tais como a Declaração de Educação para Todos, na Tailândia, em 1990, e a Declaração de Salamanca, na Espanha, em 1994.
Nesse sentido, o artigo 208 da Constituição Brasileira de 1988, inciso III,
estabelece o atendimento educacional dos “portadores de necessidades educativas especiais” preferencialmente na rede regular de ensino, tendo o sistema de ensino
não só a obrigatoriedade da matrícula (Lei 7.853/1989)12, como também de atender e se adequar às diferentes necessidades educacionais deste grupo. Avançando nessa direção, corroborando essas deliberações, a nova LDB 9394/96, em seu
artigo 58, transforma a chamada “educação especial” numa modalidade de ensino. Em meio a esse cenário ”inclusivo”, a escola passa a ser vista, cada vez mais, como
um espaço de afirmação da “tolerância”13, em vez de ser uma arena de conflitos e
12
A Lei 7.853/1989dispõe sobre o apoio às pessoas portadoras de deficiência, em sua integração social, e institui a tutela jurisdicional de interesses coletivos ou difusos dessas pessoas, disciplina a atuação do ministério publico, define crimes, e dá outras providências. Disponível em:
http://www. legislacao.planalto.gov.br/.../lei%207.853-1989?... Acesso em 19 de dezembro, 2010.
13
O Segundo o dicionário Aurélio (1994, p. 1385), tolerância é: qualidade de tolerante; ato ou efeito de tolerar; tendência a admitir modos de pensar, de agir, e de sentir que diferem dos de um indivíduo ou de grupos determinados, políticos ou religiosos; margem especificada como admissível para o erro em uma medida ou para discrepância em relação a um padrão. E o dicionário Michaelis de Língua portuguesa traz as seguintes acepções para o termo tolerância: 1 Qualidade de tolerante. 2 Ato ou efeito de tolerar, de admitir, de aquiescer. 3
28 lutas pela afirmação ou pela resistência aos sistemas dominantes ou hegemônicos.
A UNESCO elegeu a década de 90 do Século XX como a Década da Tolerância entre os povos e os indivíduos, deflagrando uma série de ações e tratados mundiais em torno do conceito. A Declaração de Princípios sobre a Tolerância foi aprovada em 16 de novembro de 1995, pelos Estados Membros da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, em sua 28ª reunião da Conferência Geral, em Paris, explicitando, em seu artigo primeiro, o que é e o que não é tolerância, nos seguintes termos:
Artigo 1º - Significado da tolerância
1.1 A tolerância é o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade da cultura de nosso mundo, de nossos modos de expressão e de nossas maneiras de exprimir nossa qualidade de seres humanos. É fomentada pelo conhecimento, a abertura de espírito, a comunicação e a liberdade de pensamento, de consciência e de crença. A tolerância é a harmonia na diferença. Não só é um dever de ordem ética; é igualmente uma necessidade política e jurídica. A tolerância é uma virtude que torna a paz possível e contribui para substituir uma cultura de guerra por uma cultura de paz.
1.2 A tolerância não é concessão, condescendência, indulgência. A tolerância é, antes de tudo, uma atitude ativa fundada no reconhecimento dos direitos universais da pessoa humana e das liberdades fundamentais do outro. Em nenhum caso a tolerância poderia ser invocada para justificar lesões a esses valores fundamentais. A tolerância deve ser praticada pelos indivíduos, pelos grupos e pelo Estado14.
A respeito do termo “tolerância” e os significados que ele adquire em diferentes contextos, vale ressaltar as abordagens de Skliar (2004) para quem tolerância é uma palavra elaborada e pronunciada diariamente pelos tecnocratas de turno das democracias ocidentais atuais; palavra que impõe; palavra que desde a sua primeira sílaba obriga uma positividade, uma trajetória auto-referencial, no sentido de que ela parece indicar unicamente uma qualidade e/ou uma virtude de
Boa disposição dos que ouvem com paciência opiniões opostas às suas. 5 Disfarce ou dissimulação a respeito de uma coisa proibida. 6 Permissão concedida ao estudante militar para frequentar a cadeira ou disciplina em que foi reprovado. 7 Pequenas diferenças para mais ou para menos, legalmente permitidas no peso ou no título das moedas. 8 Sociol Atitude social de quem reconhece aos outros o direito de manifestar diferenças de conduta e de opinião, mesmo sem aprová-las. T. civil: permissão concedida pelo governo para uso de cultos que não são do Estado. T. eclesiástica: o mesmo que tolerância teológica. T. medicamentosa: aptidão para suportar doses exageradas de uma substância, ou suportá-la por muito tempo. T. política: atitude do governo ou partido político que admite a existência de outros partidos que não concordem com seus princípios. T. religiosa: atitude governamental em que se concede plena liberdade de culto. T. teológica: condescendência em consentir todas as opiniões que não são abertamente contrárias à doutrina da Igreja.Disponível em: michaelis.uol.com.br/ - Acesso em 15 de dezembro 2010.
14
A Declaração de Princípios sobre a Tolerância é encontrada, na íntegra, em
29 nós mesmos, da nossa bondade, na medida em que nos define como sujeitos, sociedades e/ou culturas que se reconhecem “tolerantes”. Uma palavra que se
mistura rápido demais com aqueles discursos que consistem em disseminar a ideia
de “termos que, inevitavelmente, tolerar o outro”, “tolerar os outros”, e que marca, de
forma categórica e definitiva, a distância entre o “eu” e o “outro”, entre o “nós” e o “eles”. Skliar chama a atenção para o uso indiscriminado do que denomina “verbos democráticos” – do eu para o outro, do nós para eles – tais como respeitar, aceitar, reconhecer etc., que predominam nesses contextos” ( SKLIAR, 2004, p.82-83).
No Brasil, em 20 de novembro de 1995, o Grupo de Trabalho Interministerial de Valorização da População Negra (Ministério da Justiça) participa da marcha Zumbi contra o racismo, pela cidadania e pela vida, coincidindo com a comemoração de trezentos anos da morte de Zumbi. Era o primeiro ano de Fernando Henrique Cardoso na Presidência da República.
Nessa época, intensificam-se slogans e apelos midiáticos: “Escola para Todos”; “Escola Inclusiva”, que de forma reducionista passam a indicar um ganho político na luta pelos direitos humanos e sociais. Segundo abordagens de Franco (2006), as Escolas Especiais passam a ser representadas como locais segregadores, paternalistas, assistencialistas que favorecem a exclusão e a guetificação de certos segmentos e não um espaço de possibilidade de uma educação especializada, pautada em diferentes aspectos cognitivos, culturais e identitários. A partir da nova Lei de Diretrizes e Bases - Lei 9394/96 - os portadores de necessidades educativas especiais, ou “deficientes”, deveriam ser preferencialmente matriculados na rede regular de ensino, com objetivo de acabar com a suposta segregação à qual estariam submetidos nas Escolas ou classes Especiais. Para esse intento, o destaque é dado ao ideário da igualdade e do respeito às diferenças.
A respeito dessas normatizações, Franco (2006) questiona se a chamada
“Inclusão”, além de ser uma política que desonera o estado – porque o ensino especial é caro - não estaria promovendo uma “exclusão velada” e a normatização
dos “deficientes”, naturalizando e desrespeitando as características identitárias que os constitui como grupo minoritário.
Em meio a essa diversidade de ações, nesse contexto de luta pela
30 Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância (ONU).
A mídia, em consonância com o debate social, passa a dar destaque às políticas de ação afirmativa15, evidenciando seu papel na construção do discurso inclusivista e normatizador: televisão, jornais, revistas abordavam de forma persuasiva o discurso da inclusão. O destaque para políticas de ação afirmativa era cada vez maior nos espaços discursivos midiáticos, destacando-se entre essas ações, a política de cotas na universidade pública, que passara a fazer parte das promessas e campanhas de candidatos às novas eleições presidenciais, no ano de 2000.
Surgem, então, no governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eleito em 2002, projetos de lei que dão amparo ao sistema de cotas. Primeiramente, a já referida Lei nº 3.708 de 09 de novembro de 2001, por meio da qual a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro institui cota de até 40% para as populações negras e pardas, no que se refere ao acesso à Universidade (UERJ e UENF). Em seguida, o Projeto de Lei Nº 135/2003 altera a Lei 3.708 e a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro estabelece a cota mínima de até 10% (dez por cento) para as populações negra e parda no preenchimento das vagas relativas aos cursos de graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF.
Silva (2004, p.4) observa que, mesmo não sendo denominadas de cotas ou
ações afirmativas, “o legislador pátrio já editou diversas leis e outros tipos
normativos que reconhecem o direito à diferença de tratamento legal para diversos
grupos vulneráveis”. Esse autor destaca os seguintes princípios normativos:
Decreto-Lei 5.452/43(CLT), que prevê, em seu artigo 345, cota de dois terços de brasileiros para empregados de empresas individuais ou coletivas.
15
31 Decreto-Lei 5.452/43(CLT), que estabelece, em seu artigo 373-A, a adoção de políticas destinadas a corrigir as distorções responsáveis pela desigualdade de direitos entre homens e mulheres.
Lei 8.112/90, que prescreve, em seu artigo 5º § 2º, cota de até 20% para os portadores de deficiências, no serviço público civil da união.
Lei 8.213/91, que fixou em seu artigo 93, cotas para os portadores de deficiência, no setor privado.
Lei 8.666/93, que preceitua, em seu artigo 24, inciso XX, a inexigibilidade de licitação para contratação de associações filantrópica de portadores de deficiência.
Lei 9.504/97, que preoconiza, em seu artigo 10, § 2º, cotas para mulheres nas candidaturas partidárias.
A amplitude que a política de cotas assumiu, a partir da aprovação - pela Assembleia Legislativa do Estado do Estado do Rio de Janeiro - da Lei nº 3.708, de 09 de novembro de 2001, que instituiu cotas de até 40% para as populações negras e pardas no acesso à Universidade do Estado do Rio de Janeiro e à Universidade Estadual do Norte Fluminense, provocou, na mídia, uma efervescência do embate discursivo da exclusão dos negros na sociedade brasileira.
Os discursos sobre o sistema de cotas, advindos de diferentes fontes midiáticas e de diferentes esferas de pesquisas científicas, evidenciam uma multiplicidade de vozes e de sentidos deixando transparecer as intrincadas tramas sociais, políticas e ideológicas que produzem efeitos de sentido sobre a constituição da linguagem, dos parceiros discursivos e das identidades sociais, nesse processo de construção e transformação de valores sociais e culturais diversos.
Dentre o vários discursos que se entrelaçaram no cotidiano brasileiro, no período de aprovação da citada Lei nº 3.708, de 09 de novembro de 2001, e das primeiras adesões ao sistema de cotas por algumas universidades já mencionadas, apresentamos, a seguir, alguns desses discursos da esfera jornalística e da esfera acadêmica. A pertinência de trazer para nossas reflexões, também os textos midiáticos e não apenas os de natureza científica, justifica-se pelo fato de que nosso objetivo é discutir como se dá na mídia, a construção do discurso sobre as cotas e como ele se insere no debate sobre a exclusão/inclusão dos negros na sociedade brasileira.
32 sociais em todos os domínios. Assim, na ininterrupta cadeia da comunicação discursiva, a mídia, em contato direto com a ideologia do cotidiano, dela se alimenta, tece novos fios e os estende ao universo científico que, por sua vez, também os faz repercutir na própria imprensa e em diferentes esferas das diversas instituições ideológicas. A palavra é capaz de registrar as diferentes fases que se operam em quaisquer transformações sociais.
O enunciado - produto ideológico da interação - precisa ser submetido à avaliação dos agentes de uma dada esfera. Só assim ele conserva o vínculo
orgânico necessário à sua existência e se mantém vivo nessa esfera. “É apenas na
medida em que a obra é capaz de estabelecer um tal vínculo orgânico e ininterrupto com a ideologia do cotidiano de uma determinada época, que ela é capaz de viver nesta época [...] Rompido esse vínculo, ela cessa de existir, pois deixa de ser apreendida como ideologicamente significante. (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 1929/1975, p. 119).
Nesse sentido, apresentamos primeiramente os textos midiáticos(artigos, reportagens, entrevistas) de acordo com a ordem cronológica em que foram veiculados e, em seguida, os textos científicos (artigos, dissertações e teses).
Os sujeitos envolvidos no discurso da mídia são agentes sociais considerados intelectuais, reconhecidos por sua participação na vida social, política e cultural brasileira, e, portanto, autorizados a falar. São eles:
Cota para negros embala polêmica, reportagem de Noéli Nobre, publicada no jornal Correio Braziliense, em abril de 2002, destaca que a proposta de criação de cotas para negros, defendida por professores do Departamento de Antropologia da UnB, gera polêmica entre os próprios alunos, muitos dos quais consideram que o problema mais grave está centrado no ensino básico e fundamental a que os negros têm acesso. A jornalista menciona que tal proposta, de autoria dos professores José Jorge de Carvalho e Rita Sagato, estava sendo discutida na UnB por professores, alunos e “curiosos”, desde 2001, mas que só seria votada em agosto de 2002, por
um Conselho de professores e “notáveis” da UnB, que teriam autonomia para dar a palavra final, independente de outras decisões, sobre o tema, tomadas no
Congresso Nacional”. Esclarece a articulista que, se aprovado pela comissão, o sistema de cotas seria implantado no primeiro vestibular de 2003.
33
sistema de cotas. A estudante considera que “as cotas não resolvem um problema
que está na educação básica: as vagas deveriam ser reservadas para alunos
pobres”.
No final do texto, a autora enumera “pontos polêmicos do projeto”: falta de objetividade na definição de quem é negro no Brasil; as cotas seriam racismo às avessas: o ingressante conseguiria a vaga pela sua cor da pele e não por mérito pessoal; o benefício seria apenas para a classe média, já que os pobres continuariam excluídos.
Cotas para negros não resolvem desigualdades, é o título de um texto publicado no Jornal O Estado do S.Paulo, em fevereiro de 2003, em que a jornalista Sandra Sato expõe argumentos do então ministro da Educação, Cristovam Buarque,
o qual afirma que “cotas ajudam apenas a mudar a cor na universidade, não a
classe social”.
O ministro considera “uma vergonha” a elite brasileira ser composta apenas
por brancos e não ter afrodescendentes entre embaixadores e turistas brasileiros no exterior. Defende que as cotas não deveriam ser impostas à sociedade de uma vez: primeiramente, deveriam ser testadas e, só depois, adotadas de forma geral. Entretanto, enfatiza que a desigualdade entre as classes só será resolvida quando houver investimento em uma escola pública, gratuita e de qualidade para todas as crianças. Considera que, se assim fosse feito, em quinze anos o problema estaria sanado e a discussão sobre as cotas perderia o sentido. O ministro relata que, por ocasião da instalação do Fórum Brasil de Educação - do Conselho Nacional de Educação - ele lançou um desafio aos participantes para que pensassem uma forma de reduzir a desigualdade no Brasil, mas advertiu para o perigo de as entidades representarem mais os interesses dos seus segmentos do que os da coletividade. Solicitou que lembrassem da criança, do jovem e do analfabeto e buscassem medidas que reduzissem a desigualdade entre homens e mulheres, pobres e ricos, negros, índios e brancos, e entre o Nordeste e o Norte, e o Sul e o Sudeste.