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1847. \ n m \ E A m n ailiaaça LISBOA : S c ^ a / c / / V «\ \ \. / / í\^r< >>.-' B u a do A lm ada n. 5 A. POR

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E.^í ij: I S « i s um anligo liberal ? p — Pergunlais-in’() ? — Ouvi-nie! — iNão posso.

— Sig;o-vos iiievilavelmenle. Escutai ! não A'ou fal­

lar em meu nome.

— Então em nome de quem ? i

— I)’um povo que brada. Não ouviste ao longe, com o e u , essa appellação á consciência de lodos os poros

cirilisados e da França em p;irticular ? lisse brado at-

Iravcssou os mares, c as montanhas. Em vez d eseen - fra([ue<’er pela distancia, lornou-se ainda maior.

— De que me faJlais? d o rançoso acontecimento de Portugal ! E’ lun povo que tlesceu ao luinulo,: rezai- lhe por alma.

— A iniquidade é palpitante. E’ uma nação que se esmaga !

— Toca a comer e n helier: talvez que amuuliã a luorle nos batta ú porta.

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— Fostes vós t(ue auclorisasles o aitentado, e que o consuiiimastes !

— Ora essa! isso é unia ninharia para uni lioniein politico.

— Ajudais os assassinos ! — One loucura !

— A'ós , que durante a restauração, sabieis tie cór tantas palavras nobres — de justiça, e liberdade! vós, que assististes ao enterro do general F o y , e que cin ­ gistes o luto dos poi o s , não sentis uni remorso, quan­ d o condeninais á servidão um povo amigo, que erguia supplicante os braços?

— Que tolice! Ninguém melhor d o que n ós, sabe esse vocabulario : fi/.enios uso delle , quando os nobres nos opprimiam. Hoje intriiicheira-m’o-nos nos seus lo­ gares : ponhamos de parte essa rhetorica.

— Não : é impossível que um attentado tão monstruo­ so , commettido á luz do d ia , não vos falle ao cora­ ção. Não quereis de certo renegar, abolir o direito da

vo&sa revolução.

— Santo Deos ! com o essas phrases estão gastas : se­ rá possivel que exista um povo tão parvo que nos pe­ ça que obretnos segundo as maxinias , que expendemos na tribuna? Um povo assim, c redondamente tolo.

— Caluniniaes o vosso jiroprio carácter : não vos lembra que em 1830...

— Demos de mão a essa comedia.

— A indignação é que me obriga a fallar. — Não vos intende.

— O vasso interesse... — Isso entendo eu. Continuai.

— A probidade mais elementar, o juram ento, a honra...

— .lá com eço a não tomar pé : voais para as regiões da niethafysica.

— Os acontecimentos d o Porto prendem mais de perto com vosco do que pensais. Portugal não está tão

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longe, com o iinaginaes d o vosso escrijiiorio, c da vossa hurra.

— O que dizeis? Isso muda a questão. Possuis d o ­ cumentos secretos? Posso aflirmar-vos, que me vou revestir ila mais escrupulosa altenção.

— Fallai, fallai sem receio : o u ço-vos, com os meus cinco sentidas.

— Havia no inundo um povo que se chamava P or­ tugal , e (jue apparentemcnte fraco executara as mais atrevidas emprezas, encetara o caminho ao conuner- cio , inaugurara a historia d o mundo moderno , com a época da industria, pela descoberta do Caho-da-Boa- Esperança, e a coiKiuista dos extremos da terra. Ne­ nhum , com menos recui^sos , fizera tantos beneficios ao genero humano. Abriu primeiro do que ninguém as porias do Oriente e d o Occidente. No tempo em que a França e a Inglaterra sabiam apenas navegar nas suas costas , descobria , augmentava a iimuensidade •, rei dos oceanos , as suas frotas sem rivais então, dominavam um mundo de que se ignoravam os limites. Depois de ha­ ver devassado todo o glolxi á humanidade m oderna, esse povo creador , cansado de gloria , tie heroisiuo, e de engenho, pertleti-se no caminho. Fincalhado no por­ to , dormitava com a esperança de que havia resusci- lar para elle o dia da íalvação.

A revolução de 1830 íbra o signal da sua resurrei- ção: saudara a vela que lhe annunciava o soccorro : a da­ tar d ’esse momento o povo naufragado fazia esforços para se alevantar. A preço d o mais puro do seu san­ g u e , nós vi-m ’o -l’o fraternisai' com a França de 1830, repellir, pelonossti exem plo, uma antiga dynastia , re­ cuperar a sua soberania , reconquistar o throno jiara 1). Maria, a qual se empenhara com juramentos de fideli­ dade e eterno reconhecimento. Filando confiado a es­ trella da Fnm ça, seguia-a de longe, e cria n’ella c o ­ mo se lhe marcasse o seu proprio destino.

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ásti-pi'eficie (las cousas. Portugal, com o pensant, não sell- inilava a unta iinilacito estéril: o renascimento politico linha por Itase o renascimento d o espirito porluguez. Nesse paiz eni cpie durante clous séculos, sc Cessara de pen­ sar , rebentava uma vida inesperada em obras alleridas pelo amor e pelas iradicçõcs da patria. Surgiam innú­ meros escriptores C{ue todos bebiam inspirações fio sen­ timento da rcnovat'âo nacional. Uma sombra de inde­

pendencia bastara para dar ás almas um rasgado víkj :

a civilisa(;ão morta alevanlava-se. Quem o acreditaria , se não ibsse notorio ? os últimos quinze annos jirorlu- ziram mais obras originaos d o (pie os doits Ultimos sé­ culos , e , ligando-me á expressão d ’um h om em , cuja auctoridade é insuspeita (1) mthca sC vira no espirito publico um movinicnlo tão p rofu n d o, utn iittpulso tão sincero, uma esperança tão v iv a , unta commoção Ião real, uma inspiração tãoindigena — desde apublicaç-ão dos I.iisiadas.

Quem produzii'a um milagre assim ? A piedade pa­ ra com a terra natal, para essa patria ([ue lora tão p o­ derosa , eque era miserável agora, hias que ao menos, no centro da miseria , cria de veras em si mesma. Era o mesmo ardor que , entre nós, se manifeslára cm 182" c 1828, cont lunctspirito patriótico mais exclusivo. Tra­ tavam de pensar c d ’escrever conto se por ventura a patria, a (juem dedicavam tu d o , estivesse a ponto de lhe serarr. batadii. Interpretavam cOm angustia aSObro- nicas da gloria portugueza : compunham, oq u e lhe fal­ tara sem pre, utti tbcálro propriamente nacional. Eu observei pcssoalmente esse trabalho dos e.spirittís. Sem (|ue fosse mister ser um grande prOplieta (2) annuncici (¡ue esta conspiração de todos os corac-ões, e de todas as íntelligencias, havia dò produzir grandes fructos: que uma vontade tão firme de renascer, havia

manifestar-(1) Almeida Garrett.

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se nos aetris piiblîcos: qire esta littcratiita nãoera imia obra d ’acAtlóiníhv mas nni giãlo d ’esperança, que es­

tava coinbinada'de sóbrá com os instinctoS das ttirbas para’ ajudar a rcañirtiar este p o v o , senão houveSse'an­ tes algum grande facinora que o assassinasse. Dièse isto antes que um acontecimento exterior o confirmasse — e quando essa terra parecia morta. Mas l)astava olba- la de perto para perceber que todos possiiiam o segrei d o tio qtie se preparava. Sc tem havido por ventura algum movimento nacional, ei’a o que se contáimmava ii’aquèlle momento Ss claras. O auctor conspirava nos seus liv m s , o deputado na sua cadeira , o posvy nas pro- vincihs. Oiiando se estabelece uma tal concordancia en­ tra a intelligencia do pequeno nuiiVefo, ea Consciência d e tod os, advinham-se facilmente as Consequências.

' Arcrescentai a isto, que Portugal, n ’este seuan-ojo, nadíf possuia fie conforme com a Hespanba. Se estuda­ rem os flous p o v o s , bão-de vèr ({ne o ixmascimento d ’um e d ’outio sé fazia, seni que nCnbum d ’elles ce- fleSèe um'apicé da sua naciohalidarle. Aniltos tinham os ollios oraVadoS na Franca, C ambos se dcseonbeciam mutuamente. Portugal, mais fra co , denunciava tun es- j)irit() ‘desconfiado;' de m odo' que o mais miserável fie tixlos kis jiOvos da Eurajta, é o que guardara melbOr no in'tilno d o coração a religião da patria. \ sombra d(i estrangeiro,' sobre tiido d(t luispanhol, era-lbc insu- jioritivel. O respeito de si mesimi, e da sua leCta', tal era o principio de qire se devia es{terar a regeneração portugueza. Em quanto se conservasse essa religião, pos- ■suia a semente d o futuro: tirai-lha, e tudo desapjwrc- cC; é um j)ovo a qtiem roubam o coração.

■\ haver um dever para os governos das grandes {fotencias fpte se declaram as salvas-guardas da civili- saeão-, era d ecerto, am|>arar, respeitar, salvar , no seu j)rincipio, esta sociedade inoffensiva , (pie se flefendia apenas com asna gloria passada. Contava.a{)cnas alguns milhões de hom ens, mas o principio que a fazia

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sub-sistir era tão grandioso com o o mundo moderno. To­ dos os amigos da liumanidade 6C alegravam de vér es­ ta nação saliir d o abysm o, fortalecida pela memoria dos seus varões assignalados. Porque — finalmente — o q u e vos pedia essa nação? Um soccorro, com o a Grecia de 1825? Pião: queria que a deixásseis aquen­ tar ao seu glorioso sol. Abraçara a vossa causa; e tinheis medo que vos mendigasse sangue, ou ouro ? Não : que­ ria apenas subsistir modesta e livremente alliada á re­ volução de 18-30. 3Ias nem isso lhe consentistes ; assas­ sinastes a esse jíaiz a única força que o sustinha — a nacionalidade. Triumphai a vosso sabor; a esperança de tantos homens generosos que se esforçavam em con­ quistar uma patria— já hoje é uma illusão. Já não é uma sociedade v iv a , que possue em si o seu principio d e a cçã o; fizestes d ’esse povo — um jx»vo servo— que pód m calcar aos pés; apunhalastes Lazaro quando sc erguia d o sepulchro !

Mas não t Dizeis que era um ]X )v o pequeno, uma

criança que se não podia em ancipar.. . . .\h I entendo, sois o carrasco de Sejano; violaes a virgem jiara a poderdes depois assassinar !

Em recompensa dessa acção gloriosa adquiristes por ventura esse p aiz, esse feudo cuja vontade degra­ dastes? Indemnizastes-vos pelo ganho — da vilesa? Oh ! admiravel poli tica 1 Essa terra, sobre quem exer­ cestes o direito de conquista, dais-la d e presente á Inglaterra. Partilhais o opprobrio : mas é ella que fica com os lucros.

Ao passo que o povo |)ortuguez tentava renascer, o governo de D. Maria dava-se a perros para atalhar es­ sa resurreição. E tão maravilhoso reinar sobre um povo morto ! que paz soberana ! que magestoso socego I La­ mentavam o tranquillo defunto d o antigo absolutismo, e não desesperavam deamortalhar mais uma vez no su­ dario o |H)vo <[ue prudentemente ahi se sepultára dous séculos 1 Disto nasce a situação extraordinaria d o paiz.

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aonde tod o o signal de vida se avalia rom o nina re­ volta. A nação quer reviver: A ... suppõe mais le­ gitimo reger uin cadaver. Como se podem comiiinar estas duas vontades’ li este o enigma que resolve o táhos de revoltas, depcrjiiizos, i-econciliações mentiro­ sas, falsos juramentos, aonde se perde o olhar mais pempicaz.

Ji mister que o confesse para vergonlia d o meio dia da Europa ; esta desgraçada parte d o glolxi nada en­ tende d o m odo de conduzir delicadamente um povo á servidão, conservando as formas, e as conveniencias d ’uina carta jurada. Apesar dos exemplos dados de

bem alto a este respeito, elles pouco aproveitam. Pa­

ra que me vai opprimir, se o não posso confessar á btK'a cheia ? Arremessar o reino para a fogueira , eis o que chamo reinar.

Imaginai, se poderdes, uma tyrannia fantástica, con­ vulsiva , com o um ataque de nervos. Eu vi com os meus olhas deputados que eml>araçavam a discussão, apanhados com o malfeitores, arrancados d e seus ban­ co s , e mandados para os pontoes d ’uma fragata amar­ rada no Tejo jiara este u.so parlamentar. Sabiamos, sem outra advertencia, que estava suspensa a consti­ tuição, suspensas as garantias — porf[ue... tinha dorm ido mal de noute, e (|ue é de uso imme­ morial naquelle jiaiz que quando os... tem dores de ca b eça , os povos soifram o supplicio da golilha. Nem iribunaes, nem julgamentos-, em vez d isto, um .simples edital annunciantlo que qualquer suspeito seja pas.sado ]X‘las armas, sem processo nem sentença , sem

culpa formada. Esfregavam-se os olhos -, parecia um

sonho. Dejxiis, quando o sonho se rcalisava cada qual partia para a provincia, ou se acoutava no sitio m e­ nos perigoso.

Aconteceu ser toda a nação uma vez consideraila su.speita. Ei-a no anno de 18ití. Nesse dia rebenta unià primeira insurreição ; n ’um relámpago ella corre das

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e,\-Imiiidíulos do paiz até bater ás |iortaS de Jãsboa. Nào era um nurtim, era ii voz d ’uin povo inflig-nadd: esta­ va em armas: <2abral, oihiiiistro das violencias,

n ’um brigue franeez. A ..., essc an j« de innoeeii-eia , conhece a verdade , apenas viu fugir-lhe a força. l'i en» assim ! ignorava tpie Portugal não dormia n ’um leito de rosas; acreditava que um ministerio de rapi­ na , d ’opj)refesão , de concussão, e de perjurio era a id;»de d ’<niro d ’um paiz : que nada havia de melhor jKira um povo d o que viver sem l e i , sem garantias, chupando-lhe até a medulla cfuu im postos, e por ul­ timo ser passado pelas armas sem processo. Mas já que este povo tinha a inconcebivel mania de não se ale­ grar vendt) a forca , já que cabia na extravagancia de- não presar os eareerCs e os pontões, nem d ’enconirar ])razer na fo m e , segurança na privação dos seus dirtn- • los, nem mesmo orgullu) em ser considerado besla-tle- carga. D. M .. ; . . , depois de muito deliberar, conf. r- mando-se por delicado arbitrio d ’ahua , a uma tão in- crivel exigencia, consentia em disjwusar o seu minis­ tro que fugira. Nomeava outro, que não ¡lossuia só a sua eonfiahça — mas a de todo o paiz — o d n q u e d c ' l*almella. Promeitia mais, á fé <le soberana, convocar iiniiHxliafamente cõrtes , feito o que, pedia , o ([tie era justo, ([ue as provincias revoltadas deseantjassein ntt sua magnanimidade, [tara dar a felicidade ao paiz. (') ipie mais (¡ue tudo a affligia era vér bomens armados' em (lefezn das leis. () seu coracão maternal doia-se dé similbante expeetaeulo. Oue fossem todos p;ira casa [ta- cilicamenle traclar dit vida , e desfazendo-se sobretu­ d o de armati ollénsivas e defensivas era esse o seu úni­ co desejo. Sellou com lagrimas o juramento. ( ) jxtvo cnterneceu-se : relirou-se, com a fronte inclinada, clio- rando também a bondade da sua rainha , ídolo da stia

adotação,

.\])enas o [taiz se desarmou, e as juntas cortaram a si mesmas as ga n as: apenas viu que não existia um

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único liomem arm ado, u na noulc mais escu" ra <l’OiUuhro de 1 846, convoca um novo ministerio* O improprio da hora, os preptiros sinistros, Italo e d e máii ag;ouro. O ministro Palmella apj>arece meio a d o r­

mir com 08 seus coilcg’as. Sem outro ])reambulo orato-

rif), S . . . . lhe diz seceamente ; Senhores, demiUi-cos ,

senão não sahis deste palacio. Jira clara a idéa , a inlo-

nação sem réplica, não carecia commentario. Não sald­

réis deste palacio — por outras palavras — tenho ao pó

de mim pessoas assalariadas: fazei o que vos dij^t), se­ não este palacio será para v()s a torre de IN’ esle. Conde de Uomfim, que me prestais popularidade, convocai no mesmo instante as tropas, no seio das trévas pmra simularem mii apoio liberal á restauração d o absolutis­ mo , poi-quo (icai seiente, é deste mo<lo (pio devieis interpretar o juramento tpie prestei outro dia ás lilx*r- dades publicasi, disse: — Contam que o general conde, de Homíim , ao vèr a cilada, levara a mão ao jumlio da espada. Prcndem-n’o c desterram o duque de Pal­ mella. Portugal, livre na véspera, adormecido na ié dos juramentas , amanhece de ferros lançados aos |»és e ás mãos. O regimen siuidoso da Tunpiia se res­ taurara para felicitar este povo tão presado, (/ir le s , constituição, leis, direitos — tudo proscripto : a idade, d ’oun) dos cárceres e da forca organisada permanente­ mente. A felicidade publica foi deste m odo exaltada até ás nuvens ! '

Se a França fez. bem insurgindo-se em 1 830, P or­ tugal fez cem mil vezes melhor pronunciando-se em 18-i(i*, porque não ha ninguém que ouse comparar as ordenanças de Carlo.s X á louca tyrannia d e . > . . que já f(Va perdoada duas vezes pelo seu povo : devendo notar-se que (ii rlos X , rei de direito divino, sagrado pelos estranhos, nada devia á liberdade, em quan­ to. . . . , rainha ¡icio direito das revoluçfies, devia-lhe tu d o , pelo contrario. Ou torfas as revoluçfies são cri­ minosas— e illegitimas em si mesmas — (e ém

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isteren-tão chamar os estrangeiros para esmagar a d e 1830 ) ou o movimento que fez armar Portugal, nascia não só d o direito — mas o que é mais — d ’um d e v e r, sem o qual não jmdia existir h on ra, vida , ou consciencia. Se ha factos que comprovem ser esta nação um cor|>o cheio de vida, e não um corj)o morto a<jnde se podem enterrar os pés com desprezo, é quando elles denun­ ciam uma tal sensibilidade pelas injurias recebidas, um tal impeto para as castigar, ou desvanece-las. Suppon- de que se consummára o perjúrio socegadamente, que se acceilára sem contestação a violencia, que a carta portugueza fòra despedaçada sem que ninguém arran­ casse a espada, ouvir-se-ia logo d iz e r , que aquelle p o­ vo perdera a consciencia, que lhe haviam imposto uma constituição bastarda, e que elle se resignara a suppor- ta-la, que só tractava de se aquecer aos raios d o seu sol, que o sentimento dos seus direitos se lhe apagara de t o d o , que era um simulacro de n ação, que linha por único refugio a servidão. Haviam de armar-se contra elle coin a indiífercnça ,^como hoje com a indignação.

Temos a denunciar duas cousas : primeiro que a

insurreição era nacional; segundo que nunca foi crush i

A ... .. tinha ás suas ordens um exeirito orga-nisado, e todos os recursos financeiros de que Portu­ gal , endossado pela França e Hespanha , |}óde ainda disjiòr. Sem tropas, nem armas — a insurreição c o ­ berta de farrapos parecia dever ceder logo no primei­ ro dia. Qual é pois o m otivo, porque esteve a ponto de alcançar a victoria ? Porque a guerra tomara um aspecto único até alli nas dissensões da Peninsula. Se vos não cegais pelo espirito de partid o, sois obrigado a reconhecer que antes desta insurreição, as guerras civis eram , com o na America d o S u l, méras revoltas de soldados, o que lhe faltava até então era o povo. As violencias d e . . . . tiveram a vantagem de acordar a resistencia e a vida polilica no coração das povoa­ ções : |x>r isso o expeclaculo tomou uma fa ce , que não

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era conhecida. Quantas vezes alcançaram victorias as tropas da rainha sem que por isso a sua causa melho­ rasse ? Entre os exercitos alevantára-se um novo com ­ batente, o povo portuguez, não reunido em tropas nas grandes cid ad es. mas emboscado no rochedo, no bos­ que , nas mattas, nas quebradas, que interceptando os com bois oílerecia em todos os jxtntos um refugio aos am igos, e um perigo aos inimigos.

As barricadas não se faziam com o , entre n ó s, na capital, as choupanas transformavain-se nesse meio de defeza. Por isstt os triunfos da corte apenas defendiam Lisboa; os revezes da junta ajienas compromettiain o Porto.

Facto ainda mais importante que tudo o m ais, e que não foi considerado bastantemente para honra de Portugal ! a insurreição foi clemente. Em vez das san­ guinolentas represalias que todos os partidos, em Hes- panha , exercem uns apoz_outros, a guerra não ultra­ passou os limites da que se trava entre as nações civi- lisadas. Aonde apparecem n ’esse povo insurgido, os su­ plicios , as torturas, a carnificina , as matanças, os pri­ sioneiros fusilados aos milhares? A vossa humanidade consentie tudo isto por oito annos ; quando o melhor destes crimes secommettiam em nome da legitimidade: ntas apenas apparece na estacada um povo que com ba­ te pelos seus direitos n ’uma guerra regular, sem exces- sas, nem barbaridades, com menos violencias d o que praticaes na Africa ou na ín d ia , a vossa nervosa sen­ sibilidade vos incita a esmagar, ]>ara seu b e m , uma nação que tracta de alcançar a sua existencia !

Ciom efteito, o circulo da insurreição crescia de dia para d ia , e a ... cercada, bloqueada na capital pela colera , e bom direito d o reino em p e s o , mostra­ va com o o drama se desenlaçaria ; não ¡x>dia tardar. A juneção d o conde das Antas e Sá da Bandeira tinha por infallivel resultado a victoria das leis. Üm gover­ no iniquo era obrigado a dar garantias ao futuro d o

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p ovo pomígnez ; ludil>i iado, enganado, e sempre pres­ tes a 'rahir nos mesntos laeps, o p o v o , na sna supers­ tição monaiThiea , não (jiieria castigar a realeza senão o1)rig^ndo-a a cumprir os seus juramentos. A revolução laz, um esforço decisivo : concentra as suas melliores tropas n’ uma corveta, n ’alguns vapiVes, e oiKnos na­ vios de traiis|K)rte. Inn brado d ’entluisiasmo stiúda a jiartida dos soldados, a pequena frota singra com se­ gurança. (xmtarei o re.sto? As estjuadras da França de .tnllio, as d e ' Inglaterra , as da Ilespanba revoluciona­ ria, concitadas com ordem expre.ssa de aprisionar , met­ ier a pique, espedaçar se tanto fosse mister, a frota da revolução de Portugal, o pequeno exercito cerrado, sem p rovocação, sem declaração , apanhado , involvi- d o , e arremessado de pés e mãos aladas nos cárceres de .S. .Tulião , debaixo das sacadas d o palacio da rai­ nha ! ! !

. . . . « K uma nodoa elcrua no nome inglez,, — » exclama um orador de Londres. , . . Eque me imjwr- ta a mim niítisesse ferrete? Sou en responsável dacons- eieocia de Inglaterra? Mas a França! mas o meu paiz. melter a mão n ’estas infamias!

Talvez, se deva lamentar que o conde das Antas não se deixasse morrer, com os seus quatro ntil homens. Era bello vèr a França de .hilhoespicaçar humildemen­ te , é em segundo logar os poucos infelizes qne o o r­ gulho inglez houvesse por hem dar de presente ao .st*u rutel lo. E de eertò pertencia-nos essa gloria; assim o qiitria a lógica. Esses homens perdidos não eram ae- eiisados , e não haviam sido convencidos de haver imi­ tado o nos.so exemplo de 1830, abraçado, fortificado a nossa causa , alçado a nossa bandeira , frateniísado com o nosso principio, combatido pelo direito da Fran­ ça ? Na verdade, era fraquesa contentar-nos com j>on- tõètd,' e cárceres jjara similhantes malvados. Se o san­ gue fosse derrama<lo por nossas inãos^' com o nos oliri- gámos pehi convenção de 22 de Maio , p tr ventura a

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vista dits cariu>s pisadas, da camifuiina, dos coiivezes de uossos navios avermelhados de sangue, leria leito o milagre de penetrar a nossa eonscieneia petrificada ; por ventura houvéramos eon heoido, discernido o crime, o o iMmiem moral sacudiria talvez as vestes do mer­ cenario. A França /e g »/, adormecida com o Machclh, ((uem sabe se {pieivria lavar as mãos : ao passo (¡ue essa ignominia sem sangue, esse paiz amigo conduzido me­

ramente á servidão, cssíi morte m oral, esse assassinin

d ’uma nacionalidade, essa punhalada u ’um jx>vo irmão, esse ]>apel deClaim sem victima sanguinolenta, essa im­ piedade, essa traição, essa covaixlia , essa deshonra , são cousas ahslradas para n ós, cousas muito subtis, íjue não são vistas por nossos olh<xs, e que a nossa par­ va consciencia nem com pn-hende, nem reprova. Os inglezes denunciaram um momento de admiração, e <(uasi de remorso : perguntaram , na camara dos com ­ muns, que garantias se deviam dar a esse, povo — pri­ sioneiro. A palavra tla... replicou o ministro,

l-is-la-s paliivras Ibram saudadas com uma gargalhada es- trepiU)sa : ou a justiça de Deos é uma quimera, ou essa inlernal gargalhada hade merecer algum dia uma re- comiiensa !

Notastes, cm tudo isto, o estranho papel represen­ tado pelas tribunas constilucionaes ? Se é iorça provar com o as instiluiwcs da liberdade degeneram cm re­ creações de servidão, quando a opinião está encadea- <la , escusamos de ir mais longe, hissa Irilnma 1'rance- za, oceupada na restauração por cinco ou seis homens, mas altiva, sonora então, revelando o inimigo quando elle estava ainda allãstado — a<mdeexiste? ãkxlitaima­ duramente nc'sse phenoiiHîno. Km quanto os aœnleci- mentos se não desenlaçam, em quanto se prepara o cri­ me., isto é — quando a palavra pckle ser u iil, não se pronuncia uma sillaha. Mas apenas .se cfmsumraa a ini­ quidade-— o milagre aj)|)areee-—solta-se a lingua , (os

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á irrisão a instituição da palavra publica.

Havia , nesse tem po, um tribunal que funccionava perante a multidão, e os seus decretos não tinham ap- pellação. Do alto d o seu tribunal, um juiz divisou por acuso um bomem preparando-se para matar o seu vi- siu h o; porque — derrubando-o — já estava sobre elle com uma faca, e a victima pedia soccorro. — Que ides fazer ? disse o juiz. Kxplicai-me o vosso intento clara­ m ente.— Ó juiz sem par! redarguiu o matador, é ain­ da cedo. Agora com eço ; deixai-me despachar este ho­ mem para o outro m u n d o, feito o que , entregar-vos-

hei fielmente as peças d o processo. — E justo, disse o juiz; continuai, e dai cabo delle depressa; masquan d o acabardes, achar-me-heis nesta cadeira, aonde te­ rei o gosto d c pronunciar uin discurso improvisado. Passaram-se muitos dias até que se apresentou o assas­ sino perante o tribunal : tingia nas mãos alguns massos de papeis, e entre estes uin pergaminho sanguinolento, um excellente pi-ocesso-verbal declarando haver dado no seu visinho trinta e cinco facadas no peito, e só­ mente sete ou oito no pescoço. — Agora espero poder fallar, disse o juiz. — Estaes no vosso direito , tanto vós com o os vossos collegas. O ju iz , fazendo uma re­ verencia, começou immetliatamente um discurso admi­ rável. Mas conta-se que o assassino ainda fallara me­ lh o r , de m odo que as senhoras diziam ouvindo-o : — Santo D eos, com o este réo tem um fallar tão d o c e , e maneiras tão distinctas! Deveis confessar que é uma injustiça fragrante cpie um talento assim d e ^ e 1830, não fosse dar comsigo á academia.— Vou tratar disso, replicou o réo ; e foi logo inscrever-se com o candidato. Nomearam-no im mediatamente, porque sendo má a sua causa, era força empregar muito estylopara a fazer va­ ler. Entretanto, a viuva e os filhos d o morto enterravam- no difficilmente n ’uma cova emprestada. Eram pobres, e ignoravam a rhetorica, ninguém lhes dava attenção.

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t Hoja que sahü’ani î'i luz as pecas d o processo, va* iiios dar o seu a seii dono, ü governo ingiez — desde O' principio ala (jueslão — sempre mostrou a maior aver* s io pai'u commetler o assassínio que se lhe propunha. Parecia diriicil com eçar outi-a v e z , sem disfai-ce, ain- 1'umia ile Parga. Depois lembra-se <(ue nasceu d ’uma révoiiKito; .começa por estalxílecer claramente c[ue «as qnestõÇs que se ventilam em Portugal são verdadeira- mente dcHtiesticas ainda no seu maior alcance, e que

(IS potencies es!rangeiras 7ião podem lomar parte nellas ; »

destas prcmissiis tiram-se as consequências perfeitamente lógicas, de que é mister tomar immediatamente parte nos negocios de Portugal. Este raciocinio, com o se v<5, irão'lem réplica. Expostos os principios liheraes, e fir­ me no rosto a mascara da !iy|X)crisia, resta só arre- messarem-se á revolu ção, (juando a toptirem n ’algum sítio uílíistado. Sobre tu d o , não est¡ueeeram uma plau­ sível desculpa. Em quanto a Inglaterra se achon só em cam p o, a sua consciencia ainda vii-gem a aconselhou. Mas t[ue iníluencia não possue sobre um coração puro a má companhia ? A Fi-ança m echia-se, e queria só para si a gloria desta empresa. Filha d ’uma revolução compi-azia-se naturalmente em assassinar a sua irmã. Era licito deixar-lhe executar este glorioso papel ? T o ­ dos se hão de pronunciar pela negativa. Se houve no facto -, com o todos concordam , appartíncias de pirata­ ria , a Inglaterra está desculpada por innúmeras cir- cumstancias atténuantes — p orq u e, se a dei.xassem li­ vre, não violára ao mesmo tempo as leis divinas e hu­ manas-, porque resistiu por muito tempo á serpente que a tentava ; jiorque a culpada, a Eva corrompida sobre quem deve recahir o verdict e a maldição d o m u n d o, é a França, a França que sem um rasto de incerteza ou de p u d or, concebeu, preparou, organisou o crime para ser commettido de meias ! A pura Albion apenas s<; associou por necessidade 1

E , de fa cto , o partido tomado pelo governo de

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Julho conrel)Cu-se desde logo sem uma sombra dedu> vida. Apenas rebenta a revolução de Portugal, a im­ paciencia de a esmagar se denuncia sem besilação, O mibisterio inglez, menos precipitado, finge examinar a questão de d ireito; simula pesar maduramente a d i­ gnidade , a legalidade , o direito das gentes.. . Pelo c'ontrario, a primeira palavra que a França pronuncia é uma ameaça de força material.

Um irtcrivel dialogo começa então ás claras, dos tlois ladt)s do estreito, em presença d o universo.

— Tenho escrúpulos, disse a Inglaterra , pesa-me dar esse golpe.

— (kuuo assim! Tendes escrúpulos quando se trata fie esmagar uma revolução, replica em França o g o ­

verno nascido da ultima revolução. A força ! a força I

a intervenção armada ! digo-vos que o mais são miserias. — -Todavia a convenção de 1834 não tem valor al­ gum legíd.

■— Dar-lho-hemos.

*— Sejamos francos; havemos de entender-nos me­ lhor. O quequereis? (iovern o filho da liberdade, que­ reis abafar a liberdade em Portugal, com o n ’outro qualquer paiz, aonde possuirdes iníluencia ; jwis bem ! — estamos scientes.

— K vós haveis de contentar-vos de possuir esse paiz com o um fe u d o , e de lhe arrancar das veias at» o seu ultimo grão d ’ou ro ?

— K assim.

— Entregai-me a alma desse povo.

— iÇá para mim não serve. Ficarei com o corpo. ■ — É vf)Sso, e toca a ir á festa de mãos dadas.

— Mas o que diremos nós ao mundo, que costuma ser curioso ?

— One tolice! Então d e que valem as canta­ ras?

— Apesar disso; é necessário meclier n’alguin prin­ cipio.

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— Vamos iffleclii’ ! Se dissessemos (¡ue era um mo- \iniento legitimista, e que viiihamos cm soccorro da revolução ?

— Não ! é muito calva a mentira. E de mais a mais, obrigais-me a contradizer a minlia nota de 5 d ’A b r il, aonde declaro positivamente o contrario.

— Então 1 rallamos cm nome da humanidade 1 — E o melhor m eio; cá para nós convém-nos para pilhar as sociedades hihlicas e para vós — para deixar de hocca ahcrla a liga dos bispos.

— G)m o se ha-de fazer a cousa ?

— Ora vá ! se dissessemos sermos inspirados pela caridade christã ?

— -\praz-ine esse com eço, ainda que seja um pla- giato da santa alliança !

— Que queremos curar as feridas desse pequçno jm v o—^ás bomba rdadas ?

— As mil maravilhas; a expressão é sublime. — Acreditais que não seja esta a linguagem parla- lamentar ?

— Ora essa 1 — Evangélica ? — Não tem que vèrl

— Que queremos malar essa nação, para a livrar do flagello da guerra?

— Devagar. Isso tem que se lhe diga. Apesar dq paiz legal não possuir boa vista, é tão gro.sse|ro esse sopbisma , que talvez o lobrigue. Porque — para que havemos de estar com cousas — nós traclamos d ’inter- v i r , e de chegar a tem p o, porque a guerra está a fi­ nalisai' , poixjue o absolutismo da. . . . está nos paroxis­ mos da morte, porque a liberdade e as leis vão alcan­ çar a victoria, porque — em summa — vamos impedir tão medonho desfecho. Eu cabi mesmo na arara de dizer e publicar isto muito detalbadamente na minha nota d e lÿ de Maio a Palmerston.

— pena. Pois bem enredemos tudo : lomenios o

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pró, e o conlra, o branco e o negro, niisHircnios fiiclo -, íalsifu[iiemos liulo ; oilusqncmos a luz do dia. Comece­ mos o discurso com uma opinião, e acabemos com ou­ tra ; ailronlemos , insultemos , destruamos ao mesmo tempo o senso commum hum ano, e a justiça divina , já ([ue é tão dilficil conservar o p rim eiro, quando se aberra d o segundo, c qliando a final de contas, temos por nós a maioria.

— Isso é que se chama fallar : sois um orador de mão cheia. Tóca a embuscar.

— ,Iá cá estou. — Escorvastes ? — Tendes o ])unhal ?

— A h l já os vejo sabir do amarradouro. Pobres innocentes! nada pescam da cilada. Vós ([uinboais,|>elo menos, metade d o assassinato, e da cólera d o Céo ?. . . .

— Isso não tem duvida. Estamos ligados? — Eu temo o remorso.

— Recordai ([uc esses homens são infames inimigos da liberdade.

— Então! fóra os escrúpulos!

— Ora vá ! Cetlo-vos com o a um superior, o logar mais honroso. Estaesmais jterto, correi sobre elles sem os avisar ; dai-lhe sem niedó ; não ha jterigo.

— 5Iata ! niata ! morte ! morte ! entregai corpos , o bens.

— Que é isso ! São piratas ? — Pertencemos á velha Inglatm a. — Não temos ouro, senhores !

— Piendam-sc, ou não escapam com vida !

— Fóra a c a r t a , a revolução, e a liberdade do mundo !

— Victoria ! victoria ! Te Deum Laudamm ! Peço perdão aos leitores de lhes repetir esta lin­ guagem de corsarios. Mas ha a notar nesta questão o despreso insultante da consciencia humana. O mais for­ te lança a culpa sobre o mais condescendente.

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AIngla-21

terra empurra jtara a Franca o crime : a França cni- purra-o para allespanlia. Quo quereis? essa Hespanha, j)oderosa , temivel no exterior, tranquilla no interior, possuia uma superabundancia de v id a , c queria lan- çar-sc sobre o mundo. Os sous excrcitos ñumerosos, alimentados durante muitos séculos, por um tliesouro incxiíjotavel, ameaçavam concjuislar a terra. No seu amor iF ordem , a França e a Inglaterra quereriam en- l'rear a nova frota invencivcl ; mas o que podiam fa/.cr estas duas pequenas nações — diante da monarehia c o ­ lossal de Isabel II? Representar. Attendcriam elles isso! Isabel II decidira-sc a conquistar o univcrs<í, começan­ do pelo reino das Hespéridos, o q u e se bavia de fa/.er ! Navegar na stia alheta, e apanhar o que ella houves­ se ¡)or bem desprezar.

Aonde existem essas representações feitas ao terri- vel gabinete de Madrid? quem ouviu fallar nisso? e não lemos nós o contrario nas notas? Rasta que duas grandes potencias contrariem a verdade, para que ce­ guemos logo dos olhos d o co rjm , e dos do cs[)irito ? 1'ãi tenho rasões para dizer (pie esse pcxpieno jxivo ipie pizacs aos p é s , com o um insecto, é , aos olhos da providencia, tão precioso na sua causa, tão n o­ bre no seu direito , com o as magnificas nações (pie alimentam, com tanta deslealdade, a impostura, c a calumnia !

Ao menos era esse o interesse da França. Deveras, podia haver para todos um interesse, menos jiara a França. Q u e, se cravarem o punhal no coraç-ãodo po­ vo portuguez, a llespanha herde o cadaver, nãohatiada que d izer; melhor o entendo a respeito de Inglaterra. Para cpie Portugal se constitua uma jierfeilura inglcza, nma segunda Irlanda , é mister impedir que não nasça ahi um espirito nacional, que lhe não rebente um c o ­ ração. Fazei delle uma presã sem vontade propria —

uma mercadoria avariada, tarada, marcada com o sel­ lo de Londres. Tudo isso é eviden te, com o o é

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tam-bem que o inlei’cssc material, positivo da França que­ ria positivamente o contrario — isto é, que o reino de D. Manoel conservasse uma nacionalidade independen- te, uma von ta d e, uma vida propria. O nosso interesse era não reduzir a patria dos Vascos da Gama, dos Ma- {,mlhães, dos Albiupierques, dos D. João de Castro, dos Gunões, a ser meramente uma escola de grumetlcs pa­ ra a marinha ingleza. ãlas nós ; fomos magnânimos n ’esta oceasião , é necessário convir, que o nosso fim loi unicamente moral -, abafámos a libeixiade , im po­ semos a servidão , sem que ganbasseinos um seitil no presente ou no futuro, cedendo todos os lucros aos nossos inimigos. Fomos os enviados da injustiça c da oppressão, sem alcançar o niinimo quinhão na presa. Dizeis que a Fi-ança não possue unicamente interetses

rtrolucionarios ; e eu pergunto agora , se ella possue

unicamente interesses contra revolucionarios. Basta es­ magar no mundo um direito , uma consciência, para que o nosso povo nade em abundancia ? Escarneceram muito por abi dodon-quichottism o da liberdade: ago­ ra deveis rir também do don-quicbottlsmo da servidão. Nadá ha mais respeitável para um homem tpie cuida dos interesses materiaes !

Ora b e m , se nos obrigais a declarar todo o nosso proposito — ahi o tendes, sem reticencias. A violencia e.vercida para com Portugal, é toda a seu favor. Eis disparado o ipse d ixil da alta política -, a utilidade , as vantagens, a glorificação da invasão. Agradeço-vos a n ovida de, e contava com ella. Ha duas cousas a con­ siderar : o interesse da... .. e o interesse do povo. Começarei humildemente portractar d o primeiro.

Antes de tu d o , pedirei cpie me expliquem aonde está a excel Icncia da situação da... , porque, só por m im , custa-me a descortina-la. Parecia-me que a res­ tauração d ’um tbrono pela mão dos estrangeiros, não fora seguida em França , d ’um desfeiebo muito feliz para o poder restaurado : julgo que a sombra das

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bayo-23

netas alhadas nau prulegèra çfficaíiuenle o mimto do mofiarcha. Ora examinai se a minha imaginação íleli- ra ! Ku alé caio em acreditar q u e , em consequência desta saudosa recordação das invasões, o ramo maia velho lòra expulso d o llirono. Hem sei que tudo isto é um sonho. Está tudo coniu d ’antes ; acordo.

Ü amor dos Hortiiguezes para com. , . . . , que se as­

senta cTesguelha no throno mal amparado^ liade de cer­

to reusssumir os seus encantos, apenas enxergareni de murrão acceso, apontadas permanentemente pelos in- glezes, francezes , e hespanhoes , sobre os golfos , os rio s , os ilh éos, as praias , as enseadas da terra natal, e antes de tu d o , sobre os caes, as j)rayas, as ruas do 1’ orlo e Lisboa, duas ou tres mil peças, prestes a sa- ipiearein , devastarem, inetralbarem caridosamente a povoação ao menor simptoma de amuo. Já , no in­ terior d o rein o, entrou o general Mendes Vigo amar- che-marclie com o em paiz conquistado. W de a procla­ mação : é da boa escola d o manifesto de Bruswicb. Ou eu avalio mal a nação porluguezu , e a sua aversão ao dotninio hespanhol, ou , esta franca e leal conquis­ ta deve fazer subir ás nuvens o seu reconhecimento. Abrir ao inimigo as portas d o paiz bacousa mais hon­ rosa e hospitaleira da ))arte d ’um sol>erano? Outr’ora o mundo conceituava este crime com o o uiaior dos cri­ m es, e punia-o com a morte. ¡Nós, dàmos-lhe as hon­ ras d ’uma das primeiras virtudes constiiucionaes.

Eu dava-me aperros ha muito para saber o quP nos

faltara em 1H30. Virei de todos os modos o aconteci­ do , para ver se resolvia o problema, h o je , dei no vin­ te: Jial lux\ o bem de que nos jmivaram, acertei com elle. Pela primeira vez — entendi-o , distingui-o per- fcilamente. Se a nos«a revolução de 1830 deu dem ão a muitas cousas é poi-que lhe faltou um milhão ou mais de boém ios, russos, balm ukos, allemães, prussianos, austriacos, inglezes, cjue d o cabeço de Montmartre, das alturas de Lbaillot, e da planicie de Grenelle, se dessem

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ao incomiiiodo de rodear Pariz, e de nos reroneiliar, depois dos 1res d ia s, pondo-nos o ])é no peseoeo, eoin

O ramo mais vcllio dos lîoiirlions. Como se nào dissi­

pariam os pequenos arrufos ! Que al)raeos romanescos ! a providencia foi muito barbara conmosco ; faltaram ‘OS inimigos ás nossíis barricadas. E’ este o peceado origi­ nal da nossa revolução de 1830-, c tenho meus receios de que nos não convenha principia-la de novo !

Esta felicidade, que não pudemos gosar, queremos jielo menos, endossa-lo aos nossos irmãos portuguezes. ISão sigaes o exemplo malévolo dos austríacos, dos rus­ sos , e dos inglezes, que largaram muito cedo o nosst) territorio. Deveis ser até ao (im caridosos. Para que a felicidade não can se, a invasão estrangeira não deve cansar tamljem. Plantai, enraizai as vo.ssas bayonetas cm todos os espíritos. Esmagai com amor esse |)ovo. Senão, se imitardes a coallisão de 93 , e a de 1 8 lã, talvez obrigueis Portugal a lembrar-se um pouco de

Luiz X Y I, e muito de Garlos X . ,

Toca-nos traclar da vantagem que alcançou o povo. Este ponto torna se sério, c confesso, que lí com es­ panto as palavras do governo franccz ; jiorqtie o sr. ministro dos negocios estrangeiros, alfimiando <juc v io ­ la a independencia de Portugal por humanidade, usou ein apoio da sua doutrina, da lógica í|ue acompanha um homem todas as vezes que as suas jialavras não diUércm das suas acções. O homem que se atreveu a dizer n ’uma eamara francesa — sem que a tribuna de­ sabasse com elle — que a patria estava em (land, quan­ d o a França combatia em ^^’aterloo -, aquclle (pie cha­ m ou , e serviu a invasão d ’um milhão c duzentos mil inimigos contra o seu paiz , e <jue — trinta annos de­ pois— faz con.sistir nisto o seu orgu lh o, esse, está perfeitamente no seu direito quando pensa que o re-, medio aos males que affligciU um jiovo pequeno reside na invasão do seu territorio por 1res ou quatro jtoten- cias. Tem rasão de dize-lo, porque a tribuna lho

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sente: e tie pratica-lo-, uma vez tpie o paiz lcp;al Ihe deposita ñas mãos o ffoverno. Como a suá vida e a sua tloiiU'ina tem mostrado que foi uma lelicidade pa­ ra a França servir de presa aos estrant^eiros, deve por isso querer applicar com o rem edio,. o ferro estran­ geiro, para cauterisar as feridas que sangrao no cora­ ção tl’um povo. A despeito d o meu asco a estas máxi­ mas , eu aprecio perl'eitaniente a segurança da cons­ ciencia daquellcs que hoje as applicam, depois fie as haverem professado toda a vida. O ¡irocedimento tlt> governo de Julho condizia exactamente com as ¡tafa- vras d o Alonitor de Gund : segue as indicações da ló­ gica. Neste p on to, estamos concordes.

Por isso, eu não sei o que deva admirar mais — se a prosapia tio govern o, se olethargo da opinião. Es­ magam , iazem prisioneira uma nacionalidade, e nin- guejii volve a cabeça ; apenas se toca tie leve esta con ­ sideração. De que se tpieixam ? Ila-de reinar a ordem em Lisboa! Um povo de mais ou menos na Euroj>a, é cousa que dá jnuito cuidado ! Nacionalidade ! Ü que é isso? Sonhos de homens exaltados — palanfrorio de revolucionarios I

Havemos mister d ’essas ninharias para jogar honra­ damente na alta, ena baixa da ren d a, traficar m ode­ radamente , agiotar modestamente n ’uma terra pacifica com o esta, e únicamente buliçosa tpiando se tract a de accrescimos , d ivid en d os, subvenções, aeções e coti-

jioiis ? Portugal não estará no sen tlireito fazendo tudo

isto — como n os, melhor d o que nós — com segurança — nas margens do T ejo? E não é n ’isst) que consiste a v id a , prudente, regular, c inteira? C om isto mata-se o estado. Que tem os ])articulares com isso ? Proscrc- ve-se a patria. Que interesse se oflemle com esta me­ d id a? .\hole-se aintlependcncia. Eque têm isso com a liberdade?

O peior é que elles faliam com sinceridade, e que ainda que eu quebre a cabeça — nunca lhes farei per­

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ceber os males que se causam — abulindu, proscrpTcn- (lo a patria. A final de contas, tratam Portugal como a mesina França, riscando abcrlanicnte no primeiro o «|uedegradam escondidainente no segundo. Crucificam, dos dons lados, a palavra. Não é esta uma |X)litica jwr- 1'eitamentc christã ?

Portuguezes de todos os partidos, já (jue tendes a loucura de acreditar que a patria vale alguma cousa , pelo m enos, o sangue derramado para a d elen d er, (jue é poderasí» a terra natal em quanto palpita o coração com orgulho pensando n ’ella, todos os ejue dizeis que a jialavra patria vos é cara , poi-que é o refugio , o lo­ co , o b e r ç o , o tumulo inviolado ’, p)rque mesmo abi a tyrannia é d o c e , comparada com a liberdade impos­ ta ; ¡torque, a b i, o rochedo é mais fecundo d o (¡ue a gordura da terra invadida; porque, em quanto nos per­

tence com o soberana, temos fé e crença no futuro; sa­ bei agora — pela nossa b ocea— que essa palavra até aqui sagrada , não tem sentido, (jue jxSde significar tan­ to o opj5ix)bfio, com o a honra, a servidão com o a inde¡)cndencia ; que no logar aonde se acouta a bolsa , é abi que e.xiste completa a patria , immaculada , de- Itaixo dos pés eá mercê dos estrangeiros. Sabei isso de neis I e oxalá que em paga destas lições, não caia ocas- ligo sobre aqueiles (jue vo-las dão !

Ku jtensava que paru legitimar um abuso tão atntz da força (jtorque cbega a ponto de soflbcar uma nacio­ nalidade) era mister, ao menos , observar certas regras d o direito das gentes : jxtr exem plo, que fosse mesmo o paiz que vos chamasse, que todos os poderes d o es­ tado se reunissem no mesmo prepósito : eu pensava que uma emjtreza tão extraordinaria, equ e suspende a vida d ’um J10V0, devia pelo menos ser auxiliada jK3las ga­ rantias , sem as quacs a minima le i, a mais reles orde­ nança sobre a cousa mais despresivcl, não tem valor, nem saneção.

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exigida pda Hespanlia em 1835. Esta eomparaeão é mais lima cilada -, jiorquc, finalmente , n’este ultimo ca­ so , a corAa e as dnas cainaras, estavam concordes pa­ ra chamar contra a legitimidade osoccorm d'um jxivo visinlio. As regras d o direito foram observadas ; havia- se pronunciado um governo regular ; podia-se di/.er que a Flespanha se pronunciara constitucionalmente; o es­ trangeiro podia dizer-se alliado. Na questão {xirlugueza ; a|xmtai-me alguma cousa que se pareça com isto. Aon­ de existem as caniaras que dessem q seu voto á . . . . : Aonde a concoi'dia dos ti*es poderes ? aonde as corles ? aonde o governo regular ? aonde a deliberação ? aon­ de o paiz ? Eu vejo ajienas u m a. . . . aceesa em colera, bloqueada pela sua propria lyrannia , e que vos convi­ da a violar tudo d o mesmo golpe ; o povo que lhe deu a co ro a , o direito das gentes, o direito constitucional, imica bastt da vo.ssa auctoridade.

A intervenção violenta, invasão, não questiono a palavra de que usais — é por ventura um b em ? Alfir- mam-no. E esse o voto da França ? ou um , dos raros momentos, em que a nação se tlivorcía com os homens que a dirigem ? Se existe no mundo um p aiz, que se não possa illudir na questão, é o nosso ; a Providen­ cia deu-lhe uma lição de tal ordem , que eu desafio os mais perversos sophistas de poderem corromper a sua consciência, embora a pesassem d ’antemâo a o u ro !

Não ha ninguém que conserve a noção da patria ? ninguém que se lembre de haver fe ito , pelo seu lado, a experiencia da doutrina da invasão? Ninguém que se lembre de haver visto sobre o seu teclo — um estran­ geiro trazer-lhe uma carta benigna na ponta da espa­ da ? Louvado D e o s, a memoria desta lição, não m or­ reu de to d o ; vive nos corações; e esses conhecem se. é dòce ser desapossado da sua propria vontade ! Sabem que embora fosse o governo instituido pelo estrangei­ ro o melhor — o mais santo — traz sempre comsigo o sello indelevel da desventura , e do opprobrio — de

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m odo (juc são injuriosas as suas concessões— c alrozes os seus lieneficios I Lma nação alada a um governo im]x>slo á fo rç a , é simillianle ao sup])licio que lia pou­ co, vos contavam d o escravo, a quem haviam pendu­ rado ao peito uma caheça de boi. K mister cpic se apar­ te delta, ou que veja a sua cai’ne viva apodrecer, e cahir com essíi carne moría. O governo estabelecido, é a morte d o direito; é a morte d o gen io, é a morte d o pensameiUo, é a morte da alma d ’ um p ovo. Eis o (pie sabem , em França , as jiedras da estrada. Eis o que bradam aos ouvidos dos reis— as pedras das ruas !

Tirai as consequências das confissões que fazeis. Ou­ sais por ventura dizer que os principios tla bumanida- de vos iinpellem a fazer para com um povo a m ig o, o que sujipondes o maior tios males ? Ousais ? Então se­ rieis os mais infames de todos os bypocritas ! Direis então que impondes atis jjorluguezes com segunda ten­ ção um g o v e rn o , para que elles o destruam ? ãlas isso seria o cumulo da imjnidencia ! Yejàmos então o que fizesleis. Ciollocastes a consciencia publica neste extre­ mo : — ou que o povo se i’csigne ás vossas violencias, o que, segundo o vosso pensamento, o mata para sem­ p re ; ou que siga o vosso e.xemplo — derribando o go­ verno que Ibe infligis. Por outras palavras — m orre, S C vos não imita — arranca-vos a mascara se o faz ; se segue o vosso exemplo , esmaga-vos para sempre. () que deve elle fazer então ? Seguir as vossas tradicções ? El­ ias jironunciam-se contra as vossas acções. Seguir as vos­ sas aeções? Elias desmentem os vossos jirincijiios. Seguir os vossos principios ? Elles bradam contra as vossas obras: para melbor dizer — as vossas acções destroem as vos­ sas acções — com o os vossos principios, os vossos prin­ cipios. E cbegúmos ao cabos d ’aposlasias, de impossibi­ lidades, d ’absurdos moraes , que a palavra bumana não pikle revelar, c cpie,'destruindo-se mutuamente, só dão por resultado a nodoa cynica de tantos embustes para senqire desvanecidos !

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A intervenção forçad a, é um crime da parle dos

governos. d i s s e isto? O vosso primeiro conselheiro,

(iasimir Périer. Porejue é que então coinmelleis esses crim es— de motii proprio? e se os ciiminetteis— por- (pie é cpie ficam impunes ?

D o centro destas eiiadas, ha ao menos líma visivel consequenCia. Ahi a tendes. Ha p in ico, dizieis, que os potencias absolutistas 1-asgavam em O acovia os tracta- dos de 181.ã: hoje o governo d é 1830 pi-oscreve a saneção de 1830. As barricadas condemnam as' barri-; cadas — destroem-se mutuamente. O Porto dá a ulti- nía de mão a Cracovia. 1815 e 1830 misturam-sc no mesmo proposito. K a santa alliança que apunhala a santa alliança; são os reis constituCionaes que apunha­ lam o direito constitucional; todos cortam as mãos — ou com ideas de orgulho— ou por uma vontade sobre­ natural que os obrigue a soltar as tempestades ; que elles tem querido tão cuidadosamente socegar.

■Julgais porventura cpie nos 1res dias de .Julho, a França assumindo a soberania, pudera firmar um g o ­ verno , filho da sua vontade. Desenganai-vos. O direi­ to ausente da França , emigrara em corpo e alma para os estados d o imperador da Piussia, da Austria, do rei da I^nissia. A elles só competia decidir as nossas questões; porque, durante o tumulto de .Julho, faltava liberdade ao nosso espirito, aucloridade ás nossas cons­ ciências , incapazes de destruir, e de edificar. A inter­ venção que esses principes adiaram , pésa aiisda .sobre n<ís ; já q u e , com o acaliámos de provar eiri Lisboa e no P orto, todo o povo revolucionado não possue von ­ tade propria, e deve solfrer vassalagem. Pesando, so­ bre e lle , um interdicto, é a nrão dos monarchas es­ trangeiros que deve restabelecer a sua soberania. P ri­ vado de seus direitos , com o ¡xideria elle delega-l’os ? Até esse momento, as instituições, estão de direito nul- las. O quô elle fez, d e v e ser destruido. Interpretai, torturai ; com o vos aprouver, o que acabais de fa ze r,

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e por mais voilas que lhe deis — haveis de ouvir duas palavras apenas : Usurpadores, largai a presa I

É verdade que neste suiciriío, as potencias cohsli- tucionaes, moslrarain-se amigas do liberalismo. Pensa­ ram porventura em acclamai' o absolutismo outra vez? Nem palavra. Primeiro, promettem uma amnistia-, con­ sentem em que se não córte a cabeça aos homens que defenderam as leis. S egu n do, não é a lyrannia pura que os exercitos alliados da França, Inglaterra e a lle s- panha querem restabelecer ; hão-de dar uma carta c o ­ mo em 184à...

A santa ailiança fallou nunca uma linguagem tão amena ? Não tivemos nós tam bém , nos dias felizes de Ney e Líibédoyère, a nossa benigna amnistia ? W elling­ ton e Blucher (içaram nossos irmãos por nos haverem ti'azido nas bayonetas, o perdão indulgente dos nossos erros ? Não , n ã o , não fazeis cair ninguém no laço. Se vos apraz degradar o titulo que recebestes dos p o v o s , nunca sereis capazes de adulterar a lingua que nós fal­ lamos. Não se tracta da ventura que trazeis na algibei­ ra, e das cartas com que embucháis as vossas bombar­ das : queremos saber com que d ire ito , reis e rainhas tlas barricadas, ides desfazer as barricadas porlugue- zas. E esse direito é q^da invasão, é o d a .santaailiança, é o da restauração, e o da contra-revolução, é o d i­ reito que espedaça , e proscreve todos os vossos direi­ tos 111

O que fica então ? a força !

O que fica então ? a força 1 S im , a fo rç a , c nada mais : a Europa politics cava um abysmo a cada passo. A pessoa morai dos povos já não tem garantias : e .são os proprios poderes conservadores que destruindo por suas mãos o antigo systcina das nacionalidades, inau­ guram em vez d o direito das gentes um eoumumis- mo barbaro, aonde o que tem inaLs fo rça , vem rei­ nar sobre o mais fra co, reveslir-se da sua soberania , da sua vontade, da sua le i, dando unicamente por

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liv e , ser o momento favorável! Âppareça pois aforra em toda a sua nudez! está preparado o seu reinado — nasça elle dos reis ou dos povos. A santa alliança, o congresso de V ienna, o direito divino , o direito das gentes, o direito das revoluções, está tudo morto e sepultado : os laços estão ròtos , e só estilo presos uquel- les que o quiserem estar. O absolutismo d o norte não nos póde ir ú mão se ultrapassitrmos o limite dos trac- tados : nada llie podemos d iz e r , se -elle o fizer ; todos lançaram por terra o seu direito.

E é n ’ksso que consiste o crime ! Se lodos estão su­ jeitos a estas con d ições, é para nós que existem os pe­ rigos. Defendida pelas ondas , a Inglaterra, faça o que fizer, subsistirá talvez ailãstada de qualquer principio, sem outra alliançn mais d o que as tempestades do ceu. A França, sem fronteiras, mutilada pela derrota , só lerá salvação na justiça. E ó por isso que cu brado do mtiino d o coração — jjor<iue o meu paiz — mais d o que nenhum — ha inyster d o direito para se salvar. Tomai- lhe o mais : o p ão., o sangue , a }>alavra ! Embora as .suas liberdades sejam illusorias ! Talvez consinta n’isso. ãla.s não lhe roubeis a consciencia ! não lhe roubeis a justiça, que é o seu único refugio! Arrancar-lhe o d i­

reito, é peior d o que escravisa-la, é entrega-la atada de pés e mãos!

Até aqu i, a França de 1830 contenlára-se ein re­ negar os p o v o s , que se alistavam nas suas bandeiras. Entrámos em nova ({aadra. ííao nos aceusem agora de inercia, entrámos na peleja. Não sómente não prote­ gemos os nossos am igos, mas somos nós que vamas esmaga-los ! A Polonia eslava longe para a irmos soc- correr ; Portugal está perto para o irmos apunhalar. A .Suissa livre está a nossos p és; basta-nos dar um pa.sso com a Austria para lhe despedaçarmos a c a l^ a . Por muito tempo a.ssisliinos em silencio ás execuções da santa alliança ; agora tomamos o papel de ajudantes dos seus carrascos !

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A isto basta rcspontîor que é nma cmisa horrivel osla que apontamos, mas que a cailjta é do ‘g o v e rn o , que !a nação nada tem com isso. O mundo diz-nos (pie c muito coinm odo o meici de nos livrarmos dárespon- •sabilidade da morte d ’iim povO ; que todas as nações são Çesptnsayeis dos actos di) seu governo ; que se des­ confiam delle com justiça devem accusa-lo , se ë cul­ pado deveni ctlindemna-lo, ou se não cjuinlioar com elle a culpa. Kü d igo mais, n’uma iniquidade tão fra­ grante todos são culpados : tanto eu qué esa-evo estas linlias , coiiio aqüefies qué as léem. E ë assim ; a nos.sa indiflérença , o nosso cansaço , a nossã ëbndéscenden- cia, a nossa friald a d e, são cúmplices eih ameiade dW mal. Se a consciencia jiublica se eéguesse terrivel,- nãct .seria tão" facilmente executado o crim e; ou temeriam as consequências, ou o castigo o teria remido !

Qualquer que seja a opinião que se aceeite ; é im- possivel não vér nisto um signal evidente de 'Catas- troplie. Nunca foi abalada uma sociedade, antes (pie os cabeças dessa ordem social não a tivessem entregue indefeza. Todas as vezes que acontecem destas cousas, a terra treme a final ; e é de certo vontade da Pro­ videncia que o mundo não descance, visto que em paz piVlre, sem jirovoeação , os poderes estabelecidos co r­ rem de todos os lados a rasgar os tratados, as con­ venções , os actos, os litulos , as origens, os juramen­ tos sobre os quaes-se funda a base da sua auctóridade.

No 1 século , a Italia olficial negou o direito :

caio dali a pouco. H o je , a líuropa official declara do mesmo m odo guerni á consciência humana — com a d ilferen ça -í-d e que os governos italianos se compin- ziam nas trevas-— em tpianto nos nossos dias — não se faz só o mal', apregoa-se em voz alta — ao mundo in­ teiro. Eu entendo a doutrina da fo rça — quando se en­ volve no sileiicio de Veneza, S. Petersburgo , e Vien­ na ; mas esta doutrina e.x¡)osta á luz dos governos eons- titucionaes , esses documentos cheios de traições

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sentados a lodos os o lh o s , ao exame d o m u n d o, nas tribunas das 1res potencias; esta immensa publicidade na immensa depraraçâo, esta luva lançada d o mesmo impulso a o cé o , e a terra — não é a maior das ousadias? Ou a consciencia humana tem de m orrer, ou esta ne­ gação cvnica d o direito hade abrir um abysmo desco­ nhecido.

O que quiz eu — escrevendo o que levo dito ? D e­ nunciar esta época nova e memorável em que não exis­ te direito para ninguém. Foi este o meu lim : alcancei

o , e callo-m e. '

Porque, para fallar áquellcs que disj.õtm hoje do poder , e dos n egocios, não sou tão louco , nem tão parvo que o ouse fazer. Conheço que existem épocas, em que se fecham os corações, e os ouvidos cm que qualquer verdade éiim sonho proprio de crianças, em que quaesquer palavras são tão inúteis para aquelles <pie opprimcm, com o para os que são opprimidos. São épocas em que a Providencia trabalha sozinha , occul- tamente, no intimo das cousas. Os homens não ouvem, porque teem muito que fazer. Mas a justiça espera em segredo e prepara as represalias ; porque , nem todo o ouro d o m u n d o , pôde ainda comprar, na sua origem, essa consciência soberana, que renasce d o cadaver de todas as consciencias. A sua obra não cansa pelo can­ saço dos homens ; nenhum facto é executado por suas m ãos, mas a iniquidade commellida é o principio da sua justiça. Pobres loucos! de que lhe hãode servir tantos esforços, para corrom per tudo? ainda não com ­ praram a Providencia.

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