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A REFORMA POMBALINA: NO LIMITE DA AUTONOMIA DO ESPAÇO: ALDEAMENTOS, VILAS E LUGARES PARA O CAMINHO DO BEM COMUM DO
ESTADO PORTUGUÊS NA AMAZÔNIA DO SÉCULO XVIII
Adison da Silva Furtado*
Dos muitos conflitos estudados pela historiografia sobre a reforma pombalina, o mais complexo e emblemático fora a expulsão dos Jesuítas de Portugal e de suas colônias. Estes e muitos outros religiosos que serviram de arcabouço ideológico em todo o processo colonizador, e que na segunda metade do século XVIII seriam essenciais ao projeto pombalino do bem comum de toda a colônia, teriam sido um empecilho ao novo modelo? Ressalvando que um estudo sobre os motivos da expulsão seguem linhas bastante complexas, o objetivo deste artigo é analisar as várias vertentes da autonomia do espaço colonial amazônico na administração portuguesa sob a ótica da contradição ideológica do bem comum sem a presença e ação dos Jesuítas, procurando enfatizar como as ações políticas inserem-se no âmbito social, e como as percepções deste último causam mudanças na atuação política.
Em pleno auge do erguimento dos Estados Nacionais e a configuração dos limites da fronteira, o objetivo principal da coroa portuguesa e de seu recente monarca Dom José I era o de ter o domínio e a soberania sobre toda a região amazônica.1 As trocas de informações entre a coroa Espanhola e a Portuguesa expressam a preocupação em estabelecer a fronteira definitiva entre as duas coroas, o que é evidenciado nos documentos de números 5 e 6, do Arquivo Histórico do Itamarati – Documentação Joaquim Nabuco, o Plano Secreto de Portugal e Espanha contra os Holandezes da Guiana.
Já para o Cabo Norte se delineia uma preocupação com os Franceses, e também com a porta de entrada do vale amazônico. No plano de bem comum homogeneizado, profundamente econômico e caracterizado por caminhos livres e estratégicos, o projeto pombalino enveredava em duas frentes: O militar e o econômico. No entanto, é necessário analisar algumas tipologias de fronteira que, apesar de atuais, podem ser utilizadas como
*
Bacharel em Turismo pelo Instituto de Ensino Superior do Amapá – IESAP. Graduando do curso de Licenciatura em História pela Universidade Federal do Amapá – UNIFAP. Pós-Graduando do Curso de Especialização lato sensu em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amapá – UNIFAP.
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forma de se aproximar de uma compreensão específica do que se convencionou chamar de bem comum.
Segundo Raynal,2 existem cinco tipologias de interação fronteiriças chamadas de margens, sinapse, zona-tampão, frentes, e capilar. Dentre estas, as três últimas são interessantes na análise deste trabalho. Com a zona-tampão compreende-se o espaço em que há uma tensão militar e uma preocupação em acumular uma população fixa. As frentes buscam unir a ocupação civil e militar. E não obstante, está a capilar em que a interação, principalmente do Estado, é espontânea.
Nas vezes em que estas tipologias citadas acima se confundiam, era uma forma de unir o útil ao agradável. Segundo Reis, 1993, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Governador do Grão-Pará e Maranhão, tinha a real intenção de privilegiar o Povoado de Macapá com um projeto agrário como forma de ocupação que ligaria o homem a terra, como também militar por conta de estar situado no delta do Rio Amazonas, tão cobiçado por holandeses e ingleses nos séculos XVI e XVII, e depois também por franceses. O que de fato ocorreu com a elevação do povoado à Vila de São José de Macapá em 04 de Fevereiro de 1758, e a chegada de colonos dos açores, como também com a construção da Fortaleza de São José de Macapá anos mais tarde.3 Nota-se, assim, que a estratégia de povoamento adquiriu características de uma zona-tampão e também de frentes, o que, a priori, resolveria o problema fronteiriço com os franceses.
No que tange às companhias religiosas, o que os Jesuítas tinham de tão especial que o diferiam de outras companhias? Nas instruções escritas pelo Marquês de Pombal à Mendonça Furtado, constam que, para se estabelecer os limites do Estado Português, prefira-se os padres da companhia de Jesus pelo melhor trato destes com os índios e cuidados de conservação com as aldeias, ressalvando a devida restrição ao poder temporal dos mesmos.4
A recusa dos jesuítas em fazer parte deste novo projeto está exatamente ligada à destituição do poder temporal5 dos religiosos por parte dos portugueses. Este poder tão amplamente conquistado por comodidade espontânea da coroa portuguesa por quase três séculos de colonização, e que deu à companhia autonomia do espaço usual como também política, não poderia resultar em outro fardo que não fosse o do conflito de uso. O arcabouço ideológico da colonização confrontava-se com os interesses do Estado Nacional que procurava homogeneizar o espaço.
Para um bem comum homogeneizado, igualar juridicamente os índios aos portugueses era primordial na criação de aldeamentos,6 na transformação destes em povoados, na elevação destes em vilas, e da criação de lugares que servissem de ligação entre os
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caminhos da colônia, estando os índios “livres”, mas sob o controle do Estado. O problema é que, para alcançar tal empresa, necessitava-se do arcabouço ideológico que agora confrontava com os interesses do Estado que, por sua vez, passou a destinar duras críticas à ação dos jesuítas durante o início do reinado de Dom José I.
Nas cartas do governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado ao seu irmão e primeiro ministro, o Marquês de Pombal, várias reclamações aos jesuítas foram descritas. Dentre elas, a de serem contrários à demarcação de limites e de não aceitarem participar da fundação de aldeias sem o poder temporal, principalmente no Cabo Norte, onde era primordial a participação dos religiosos.7
De fato o conflito com os Jesuítas se alastrou por muitos anos no reinado de Dom José I, do qual só tomou uma decisão definitiva em 1759 com a lei que expulsou a Companhia de Jesus de Portugal e suas colônias. Embora a Companhia de Jesus tenha sido necessária ao Projeto Pombalino e ao mesmo tempo ter causado certo embaraço na autonomia do espaço, muito do projeto já estava em curso.
Com a criação da Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão, em 1755, a Coroa Portuguesa promoveu a vinda de famílias das ilhas dos açores, das quais foram deslocadas para a Amazônia, em especial para o Cabo Norte, e a despeito desse deslocamento, também vieram os escravos africanos. A prática de descimentos de índios para os aldeamentos também continuou, o que de certa forma reavivou demograficamente as vilas, atingidas pela varíola.8
A preocupação no adensamento de aldeamentos, vilas e lugares proporcionara ainda a vinda de famílias da cidade de Mazagão, no Marrocos, sitiada pelos Mouros, e que, ao chegarem a Belém, foram alocadas na região do Cabo Norte exatamente numa vila homônima a que viviam no norte da África, construída com o propósito de que os moradores devessem trabalhar a agricultura. O deslocamento foi executado em forma de aviamento9 proporcionado por outra estratégia Pombalina: a de canalizar a economia Portuguesa através da Companhia Geral do Comércio do Maranhão e Grão-Pará.
Segundo Flávio Gomes no período pombalino nota-se um aumento da população negra em relação à indígena por uma série de fatores, dentre os quais se elencam a conduta de crédito proporcionada pela Companhia Geral de Comércio do Maranhão e Grão-Pará ao colono para a aquisição da mão-de-obra escrava negra, e também na dificuldade de adensar a população indígena nos aldeamentos, vilas e lugares, função que a Companhia de Jesus desempenhava há quase três séculos.10
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As particularidades dos espaços da Amazônia colonial que se tentara homogeneizar com a reforma pombalina não eram determinadas pela pretensão política desta última. Ainda segundo Flávio Gomes, no início do século XVIII já existiam africanos trazidos por ingleses e franceses para trabalharem em feitorias, principalmente na Região do Amapá, como também se tem notícias que dos aldeamentos dos jesuítas fugia-se índios, assim como a existência da formação de mocambos antes da reforma de pombal. Esta, por sua vez, proporcionou não só uma mudança de hábito de sua população, mas também percepções próprias a favor ou a desfavor do processo colonizador, e até mesmo de conveniência.
Apesar de toda a economia extrativista amazônica estivesse centrada na mão-de-obra indígena, na segunda metade do século XVIII, houve um decréscimo dessa população nas vilas e lugares, e até mesmo superada por africanos escravos. Com a Companhia do Comércio, a quantidade de negros aumentou no Grão-Pará em relação com a indígena, mas com exceção das epidemias, o fim dos aldeamentos jesuíticos dificultou a fixação da população nativa em determinado espaço, mesmo com a lei que dava uma série de privilégios ao índio e ainda o transformava em vassalo do Rei. De forma alguma isso quer dizer que os índios não entendiam estas mudanças políticas, pois não só entendiam como também, convenientemente, provaram das dificuldades a exemplo do trabalho compulsório a que eram submetidos, e criaram seus focos de resistência.
O processo de emancipação portuguesa na segunda metade do século XVIII, no caso das vilas de Macapá, Madre Deus e Mazagão, fora incrementado sob a égide militar e econômica, no que tange à construção da Fortaleza de São José de Macapá e a economia do arroz. No entanto, fora problemático, sobretudo ao colono que necessitava de mão-de-obra, tanto indígena como africana, e tinha que dividir espaço com as obras da fortaleza, servir de engrenagem para a produção de alimentos aos trabalhadores e moradores, como também exportar o excedente, já que estavam todos amarrados à Companhia Geral do Comércio do Maranhão e Grão-Pará.11
Nos documentos de números 49, 50, 51 e 52, do arquivo Público do Pará, citados na obra A presença africana na Amazônia Colonial: Uma notícia histórica,12 nota-se que os administradores das vilas, neste caso a de Macapá, preocupavam-se com as constantes fugas que atrasavam o andamento da obra da Fortaleza por falta de mão-de-obra. Tinham notícias de que os locais de fugas ficavam na periferia da vila, o que logo resultava no resgate de fugitivos. Portanto, era o trabalho penoso na fortaleza e a pouca vigilância que propiciava as fugas, contribuindo para a formação de mocambos, e também a inter-relação destes últimos com vilas e lugares, na maioria das vezes clandestina. Vale ressaltar que a criação destes
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espaços, também livres e estratégicos, não ocorreu de maneira paralela à reforma, mas recebeu influência suplementar desta última em correlação com aquelas já ocorridas anteriormente à administração pombalina. Muito antes da reforma, já existiam casos de fugas de escravos e formação de mocambos na região do Amapá, mas, indubitavelmente, foi aumentada pelo penoso trabalho na construção da Fortaleza de Macapá. E neste caso, anota-se também a fuga de índios.
Dentro da perspectiva elencada acima, a região do Amapá se tornou local de constantes fugas, principalmente para a fronteira com a Guiana Francesa, onde se tinham notícias da formação de mocambos, não só de negros, mas também de índios, além de mocambos de índios junto de negros.13 Está claro que com a destituição dos jesuítas as fugas que existiam em menor escala passaram a ser constantes, anotando também outro elemento: a criação do Diretório.14 Coincidência ou não, a criação do Diretório, que procurava, entre outras coisas, tornar o nativo um vassalo do Rei, estava envolto às disputas travadas entre a Coroa Portuguesa e os Jesuítas, aos quais foram expulsos dois anos depois. Segundo Belloto,15 o Diretório tinha como principal propósito retirar da tutela da companhia a mão-de-obra indígena e passá-la para o Estado, como também de ter o domínio de toda a região amazônica, objetivo precípuo de Dom José I.
É sobre o pretexto de paz e união que o Estado justifica a destituição dos jesuítas, ao qual até então se tornara superficial, principalmente no que concerne à instrução dos índios e o pouco ou nenhum combate às condutas aversivas dos nativos ao trabalho. Assim, o Estado português procurou abrir os caminhos sob o seu interesse, fomentando uma participação mais efetiva indígena, no que concerne às estratégicas localizações de vilas e lugares como rotas necessárias às minas da Capitania do Mato Grosso, no caso das fronteiras com a coroa espanhola16.
No caso de índios aldeados fugirem e formar mocambos eram maneiras de resistir às imposições dos aldeamentos. A grande verdade é que índios influenciaram e ajudaram negros no conhecimento da floresta, e negros influenciaram índios na formação de mocambos. Segundo Flávio Gomes, índios e negros criaram seus espaços e caminhos para a construção da própria autonomia. Porém, nem sempre tudo foi harmônico, pois há também relatos de conflitos entre índios e africanos no mesmo espaço territorial, reinventando as fronteiras que neste caso eram móveis.
Esta mesma fronteira móvel fazia mudanças na condução de políticas da administração colonial, principalmente no que concerne às possíveis insurreições ocorridas no caribe, e o intenso comércio no platô das guianas, na fronteira com a Espanha, a Guiana
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Inglesa, a Holandesa e a Francesa, que constantemente faziam alianças com grupos indígenas e indígenas amocambados juntos ou não de negros. Foram justamente tais preocupações que intensificaram a necessidade de ocupação militar e comercial por parte dos portugueses (GOMES, 2005; FARAGE, 1991).17 A intensificação militar proporcionada pelos temores de insurreições provocou também descontentamento e consequentemente deserções de militares.
No que tange à circulação de ideias, as influências destas e as percepções de negros, índios, e agora também desertores, brancos pobres e africanos livres, faziam com que estes, de acordo com a conjuntura, tivessem suas próprias concepções como aponta Gomes, 2005. No entanto, a mesma lógica é verificada nos administradores locais em contato com as tensões de moradores, e destes com os primeiros, e destes com a coroa portuguesa que, por sua vez, delineava políticas de instrução de metas a serem cumpridas na Amazônia colonial, as quais novamente eram percebidas e reinterpretadas por negros, índios, desertores, brancos pobres, africanos livres, administradores locais e colonos. Mais que um bumerangue indo e vindo, era também a relação entre o fazer e o querer político com a vivência social, onde autonomia, espaço e fronteira se confundiam.
Para tanto, basta compreender a título de exemplo o conceito de Homogeneidade apontado por Sbardellini, em sua tese de Doutorado em Filosofia, apresentado à Universidade de Campinas – Unicamp.18 Segundo este autor, as magnitudes19 variam continuamente, e se existe determinada continuidade consequentemente existe subdivisões infinitas, e que tal relação é homogênea.
Grosso modo, pode-se inferir que a relação do Estado Português com o espaço amazônico era homogênea porque a ação Estatal era influenciada por concepções europeias da época (iluminismo) e reinterpretadas pela condição da colônia, o que na essência era o Projeto Pombalino, o qual causou impacto nas vivências sociais que, por sua vez, reinterpretou seu próprio espaço, muitas vezes de forma condicional, circunstancial e temporária. Isso não quer dizer que nas vivências sociais não existam sujeitos históricos, sendo que, esta relação é heterogênea, mas é a relação política e social que é homogênea. Muito mais que o ir vir do bumerangue, acrescenta-se um elemento novo: a ação do Homem, ser político e social, pois, sem a intervenção deste último, os movimentos de ir e vir seriam infinitos, tomando como exemplos o início e fim da administração pombalina, o início do império de Portugal e Brasil, a Independência do Brasil, a abolição da escravatura, e a proclamação da república, das quais todas são políticas heterogêneas.
No mesmo campo das vivências sociais e políticas, no que concerne aos militares, estes que trabalhavam na guarda e vigilância das vilas, e também nas capturas de negros e
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índios fugidos, reclamavam, sobretudo do pagamento do soldo e das condições de trabalho. Também estavam propensos a desertar e fugir para melhores paragens, principalmente em áreas adjacentes da vila de Macapá como as ilhas do Marajó, onde podiam plantar as suas roças, ou então se ajuntarem com negros e índios em mocambos nas cabeceiras de rios, principalmente do Rio Araguari, na região de fronteira com a Guiana Francesa. Vale ressaltar que entre os militares já estavam lotados, em quantidade razoável, africanos livres (Gomes, 2005).
Na mesma fronteira com a Guiana Francesa, em 1791, relatos de um escravo chamado Miguel demonstram a existência de um padre de companhia religiosa entre os quilombolas, e que este missionário falecera, tendo os franceses, com quem tinham comércio, lhes enviado outro Padre, e que este era quem os governava.20 No entanto, não se pode afirmar ao certo de qual companhia seria os religiosos, mas nota-se a presença do arcabouço ideológico na relação acima que tanto faltara no projeto pombalino.
Segundo relata Ciro Flamarion Cardoso, a existência de uma economia própria de escravos, foi evidenciada pela relação entre senhores e escravos na região da Guiana Francesa.21 Nesta parte da Amazônia, os escravos tinham tempo, no caso dos sábados e domingos, e espaço, no caso dos lotes de terras para o cultivo de subsistência, ao qual passou a ser excedente, proporcionando a formação de um mercado interno. De qualquer forma, este pequeno campesinato negro mantinha relação de influência com quilombos e mocambos na região do Tumucumaque, aumentando o espaço de relações e propiciando cada vez mais autonomia. Grosso modo, a participação religiosa pode ter grande influência na relação um tanto quanto harmoniosa entre senhores e negros, haja vista que as trocas comerciais entre negros e índios que já existia há pelo menos dois séculos de colonização, fora suplementada por trocas com colonos e missionários, como aponta Howard.22
Contudo, evidenciar apenas a destituição do poder temporal dos jesuítas como o ponto fundamental do conflito com a coroa portuguesa, é desprezar as percepções dos jesuítas, ou seja, como percebiam as mudanças políticas que tanto os afetavam e quais as concepções que tinham de espaço, autonomia e fronteira. Muito provavelmente as respostas estejam nos documentos jesuíticos na torre do tombo em Portugal, ou também na história colonial de franceses, holandeses, ingleses e espanhóis. Afinal, os Jesuítas foram expulsos apenas de Portugal e suas colônias. No entanto, os jesuítas jamais poderiam ter sido um empecilho ao Projeto Pombalino, haja vista que tal modelo estava regido pelas mudanças que ocorriam na Europa, e, de certa forma, influenciaram nas decisões políticas de Portugal para as suas colônias, principalmente para a Amazônia. As companhias gerais de comércio, as
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construções de fortalezas e as demarcações de limites de fronteira são exemplos disso, excetuando a lei de liberdade dos índios e a criação do Diretório, que segundo autores citados neste trabalho, foi a maneira mais abrangente de tirar da tutela dos Jesuítas a mão de obra indígena e passá-la para o Estado.
Sem os religiosos da Companhia, foi notório o distanciamento da mão de obra indígena para distantes lugares ao mesmo tempo em que a mão de obra africana adentrava com o apoio incondicional da Companhia do Comércio. Se a Companhia de Jesus não foi um essencial entrave, era extremamente necessária no controle efetivo desta mão de obra. Evitando qualquer tipo de aspecto negativo da administração pombalina na Amazônia, não se pode afirmar que não funcionou, e sim inferir que foi incipiente, não só pela ausência dos Jesuítas, mas também pelo caráter homogeneizado que estava em voga: o erguimento dos Estados Nacionais. Este sentido tinha como prerrogativas a obediência das mesmas leis, uma língua única, costumes iguais e uma única religião (ARRUDA, 1996),23 sem, no entanto dimensionar particularidades.
Para concluir, a reforma pombalina, assim como muitos outros projetos de desenvolvimento econômico de determinada região, neste caso a Amazônia, tem caráter heterogêneo porque é influenciado pelo meio socioeconômico. Desta forma, forjam-se planos capazes de direcionar e alavancar um novo sistema econômico em detrimento do que vigorava até então, e que pese para tanto a condição econômica de Portugal com o declínio da economia açucareira e o esgotamento das minas de ouro no início do século XVIII no Brasil, antes da reforma de Pombal. No que tange à execução do projeto correlacionado com as vivências sociais e administrativas da colônia, a relação é homogênea porque está dentro do espaço do projeto reformador em que as fronteiras são bem definidas e as dinâmicas são recíprocas, mas também simbólicas, ou seja, uma força maior “tenta” subjugar uma menor que aceita, recusa, e até mesmo toma formas próprias de acordo com andamento dos acontecimentos políticos. No caso exemplar de índios e negros e a criação de rotas de fugas, comércio próprio e inter-relações, solidariedade e conflitos, esta última relação é heterogênea por emergir de particularidades. Para René Rémond, 2003, a História Política é uma História Social, e vice-versa, pois estão condicionadas às vicissitudes dos acontecimentos históricos. Grosso modo, o conceito de homogeneidade é um conceito sociopolítico, pois afirmar que o Marquês de Pombal não percebera as particularidades da colônia é no mínimo irreal, porque em meio a conflitos de fronteira como conflitos internos e percepções socioeconômicas, a reforma pombalina ocorrera no limite da autonomia do espaço, tentando homogeneizar e tornar a Amazônia um bem comum para o Estado Português.
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1
SILVA, José Manuel Azevedo. O modelo Pombalino de Colonização da Amazônia. Universidade de Coimbra – CHSC, 2002.
2
NOGUEIRA, Ricardo José Batista. Fronteira: espaço de referência identitária? - Artigo: ateliê geográfico, Vol. 1, nº 2, Dez. de 2007, p. 27-41.
3
REIS, Arthur Cézar Ferreira. Limites e Demarcações na Amazônia Brasileira: A fronteira colonial com a
Guiana Francesa, Volume 1. 2ª edição. Belém: SECULT, 1993.
4
Ibidem.
5
Além do poder espiritual, exerciam sobre os indígenas o poder temporal político-administrativo, isto é, nas suas aldeias e fazendas, eram senhores absolutos dos índios, que, na realidade, eram seus súbditos e não vassalos do Rei de Portugal. Cf. Silva, José Manuel Azevedo, Op.Cit.
6
Existe uma distinção entre aldeia e aldeamento, qual seja que a primeira refere-se ao povoado indígena existente anterior à colonização, e o segundo faz referência ao agrupamento indígena organizado por missionários. Cf SANTOS, Fabricio Lyrio. Aldeamentos e política colonial no século XVIII: A propósito da
expulsão dos jesuítas. Resultados parciais da pesquisa “os jesuítas e os sertões no século XVIII: aldeamentos e
políticas missionárias” – Programa de Iniciação Científica da Universidade do Estado da Bahia. Disponível em: <http://www.uesb.br/anpuhba/artigos/anpuh_II/fabricio_lyrio_santos.pdf.> Acesso em 27.02.2013. Obs:. Outros autores usam a nomenclatura “aldeia” para aldeamento.
7
Silva, José Manuel Azevedo, Op.Cit.
8
Ibidem.
9
A Companhia Geral de Comércio do Maranhão e Grão-Pará concedeu empréstimos aos colonos como forma de incentivar a vinda de colonos de Portugal e fixá-los na terra por tempo determinado em contrato.
10
GOMES, Flávio dos Santos. A Hidra e os Pântanos: Mocambos, quilombos e comunidades de fugitivos no
Brasil (séculos XVII – XIX). 1ª Edição. Editora Unesp: Ed. Polis, São Paulo – SP, 2005.
11
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo. Prosperidade e Estagnação de Macapá Colonial: as experiências dos
colonos. In: Nas Terras do Cabo Norte: fronteira, colonização e escravidão na Guiana Brasileira (séculos XVIII
– XIX). Gomes, Flávio dos Santos (Org); BICALHO, Maria Fernanda B. (et al.). – Belém: Editora Universitária/UFPA, 1999.
12
VERGOLINO-HENRY, Anaíza; FIGUEIREDO, Arthur Napoleão. A presença africana na Amazônia
Colonial: uma notícia histórica. Belém: Arquivo Público do Pará, 1990.
13
GOMES, Flávio. Op. Cit. 2005.
14
Conjunto de regras que impunham, principalmente, uma língua geral, escolas e professores, estilos e costumes portugueses como uma vida familiar, integração econômica, pagamentos de dízimos, e moralidade e civilidade. Cf. Ibidem.
15
Ibidem.
16
1ª Carta da obra de Marcus Carneiro de Mendonça – A Amazônia na era pombalina: Correspondência do Governador e Capitão-General do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1751-1759), TOMO I, p. 109.
17
GOMES, Flávio. Op. Cit. 2005. Ver também FARAGE, Nádia. As muralhas dos sertões: os povos indígenas
do rio branco e a colonização. Ed. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1991, pp. 15-53.
18
SBARDELLINI, Luís Augusto. O continuum, os reais e o conceito de Homogeneidade. Tese de doutorado apresentada, defendida e aprovada pelo Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas- UNICAMP, 2005.
19
Conceito matemático grego de comprimento, áreas e volumes.
20
GOMES, Flávio. Op. Cit. 2005.
21
CARDOSO, Ciro Flamarion. Economia e sociedade em áreas coloniais periféricas: Guiana Francesa e Pará (1750-1817). Rio de Janeiro: Graal, 1984.
22
Citado em GOMES, Flávio. Op. Cit. 2005.
23
ARRUDA, José Jobson. História Integrada: da idade média ao nascimento do mundo moderno. 2ª Edição, volume 2. Editora Ática, São Paulo-SP, 1996.
REFERÊNCIAS
ARRUDA, José Jobson. História Integrada: da idade média ao nascimento do mundo moderno. 2ª Edição, volume 2. Editora Ática, São Paulo-SP, 1996.
CARDOSO, Ciro Flamarion. Economia e sociedade em áreas coloniais periféricas: Guiana Francesa e Pará (1750-1817). Rio de Janeiro: Graal, 1984.
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FARAGE, Nádia. As muralhas dos sertões: os povos indígenas do rio branco e a colonização. Ed. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1991.
GOMES, Flávio dos Santos. A Hidra e os Pântanos: Mocambos, quilombos e comunidades de fugitivos no Brasil (séculos XVII – XIX). Editora Unesp: Ed. Polis, São Paulo – SP, 2005.
GOMES, Flávio dos Santos Gomes; QUEIROZ, Jonas Marçal de; COELHO, Mauro Cezar Coelho (Organizadores). Relatos de Fronteiras: Fontes para a História da Amazônia (séculos XVII e XIX). Belém: Editora Universitária/UFPA. 1999.
MENDONÇA, Marcos Carneiro de. A Amazônia na era Pombalina: correspondência do Governador e Capitão General do Estado do Grão Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1751-1759). 1º Tomo, 2ª Edição. Edições do Senado Federal – Vol. 49 – A, 2005.
MENDONÇA, Marcos Carneiro de. A Amazônia na era Pombalina: correspondência do Governador e Capitão General do Estado do Grão Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1751-1759). 2º Tomo, 2ª Edição. Edições do Senado Federal – Vol. 49 – C, 2005.
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo. Prosperidade e Estagnação de Macapá Colonial: as experiências dos colonos. In: Nas Terras do Cabo Norte: fronteira, colonização e escravidão na Guiana Brasileira (séculos XVIII – XIX). Gomes, Flávio dos Santos (Org); BICALHO, Maria Fernanda B. (et al.). – Belém: Editora Universitária/UFPA, 1999.
REIS, Arthur Cézar Ferreira. Limites e Demarcações na Amazônia Brasileira: A fronteira colonial com a Guiana Francesa, Volume 1. 2ª edição. Belém: SECULT, 1993.
RÉMOND, René; Tradução: Dora Rocha. Por uma História Política. 2ª Edição. Editora FGV, Rio de Janeiro-RJ, 2003.
SBARDELLINI, Luís Augusto. O continuum, os reais e o conceito de Homogeneidade. Tese de doutorado apresentada, defendida e aprovada pelo Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas- UNICAMP, 2005.
NOGUEIRA, Ricardo José Batista. Fronteira: espaço de referência identitária? Ateliê Geográfico, Vol. 1, nº 2, Dez. de 2007.
SANTOS, Fabricio Lyrio. Aldeamentos e política colonial no século XVIII: A propósito da expulsão dos jesuítas. Resultados parciais da pesquisa “os jesuítas e os sertões no século XVIII: aldeamentos e políticas missionárias” – Programa de Iniciação Científica da
Universidade do Estado da Bahia. Disponível em:
<http://www.uesb.br/anpuhba/artigos/anpuh_II/fabricio_lyrio_santos.pdf.> Acesso em 27.02.2013.
SILVA, José Manuel Azevedo. Artigo: O modelo Pombalino de Colonização da Amazônia. Universidade de Coimbra – CHSC, 2002.