CORPO E DISCURSO: a noção de biopoder em Michel Foucault 1

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Revista Panorâmica Multidisciplinar Barra do Garças - MT nº 12 p. 78 a 88 2011 CORPO E DISCURSO: a noção de biopoder em Michel Foucault1

o poder é um nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada Michel Foucault Deyvisson Pereira da Costa2 Augusto Flamaryon Cecchin Bozz3 RESUMO: Na sociedade contemporânea o corpo se tornou um objeto privilegiado de cuidados individuais e sociais e até mesmo tema de inúmeros estudos acadêmicos, em especial no campo da Comunicação que o abordam como um fenômeno cultural. Este trabalho representa o procedimento inicial de uma pesquisa mais ampla que pretende mapear discursos, saberes e poderes constituintes dos modos de subjetivação produzidos a partir da midiatização das práticas de cuidado com o corpo na atualidade. Assim, neste momento, apresentamos a discussão da noção de biopoder como é definida pelo filósofo Michel Foucault, especialmente a partir da História da Sexualidade I: a vontade de verdade. Valemos-nos de uma pesquisa bibliográfica que inclui parte de suas obras e de outros comentadores procurando definir o biopoder a partir de suas relações as noções de discurso e corpo. Ao final, apontamos a pertinência desta noção para a compreensão dos modos de exercício do poder constituintes dos modos de subjetivação no mundo contemporâneo, especialmente oriundos das técnicas corporais midiatizadas.

PALAVRAS-CHAVE: Corpo, Discurso, Biopoder

INTRODUÇÃO

O corpo é um objeto que se sugere como automaticamente definido e delimitado: objeto real e vivo, no entanto ele parece escapar continuamente às objetivações. Em determinados campos, o corpo, como um sintoma, reaparece depois de séculos de ostracismo, esquecimentos e, para alguns, até mesmo de recalques. Em nossa sociedade ocidental contemporânea, o corpo se tornou um alvo privilegiado de cuidados individuais e

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Artigo submetido à Revista Panorâmica, Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Universitário do Araguaia, dezembro de 2010.

2 Doutorando em Comunicação UFMG/UFMT, mestre em Comunicação UFG/2009, professor no curso de Comunicação Social habilitação Jornalismo e líder do grupo de pesquisa Limiar: Estudos de Linguagem e Mídia, na UFMT - Campus Universitário do Araguaia.

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Aluno do curso de Comunicação Social, habilitação Jornalismo, vinculado ao Programa Institucional de Iniciação Científica e integrante do grupo de pesquisa Limiar: Estudos de Linguagem e Mídia, linha de pesquisa: Corporeidades em tempos de biopoder; UFMT, Campus Universitário do Araguaia.

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sociais e tema de inúmeros estudos acadêmicos, em especial no campo da Comunicação. Qualquer tentativa de compreender fenômenos sociais que têm o corpo como nó problematizador exige cuidados para não resvalarmo-nos para uma vontade de verdade inconseqüente desvinculada das próprias condições de produção discursivas deste objeto empírico e de conhecimento. Como tentativa de apontar caminhos para a compreensão do corpo no mundo contemporâneo, valemo-nos de determinados pressupostos. O primado inicial define que o corpo não é uma realidade a priori à sua definição, mas constituído pelos discursos e pelas práticas culturais que o delimitam enquanto objeto de saber. Enfim, compreender o corpo como um fato de cultura constituído por práticas discursivas e não-discursivas.

Pretendemos, neste trabalho, apresentar os resultados parciais de uma pesquisa mais ampla que pretende mapear discursos, saberes e poderes constituintes dos modos de subjetivação produzidos a partir da midiatização das práticas de cuidado com o corpo na atualidade. Entendendo o poder-saber como uma faceta do poder-cultura como principal legado arqueo-genealógico de Michel Foucault (O‟BRIEN, 1995) para debruçarmo-nos sobre o estudo da cultura e das práticas que a constituem, incluindo as práticas comunicativas, indagamos sobre como o poder é definido pelo o autor. Precisamente, como ele se exerce ou funciona? Ainda, como em determinado momento da investigação foucaultiana o autor atenta-se para um modo de exercício específico do poder sobre a vida? E finalmente, como a noção de biopoder poderá auxiliar na compreensão dos modos de exercício de poder no mundo contemporâneo, em especial nas práticas discursivas midiáticas sobre o cuidado com o corpo?

Apresentamos nos tópicos que se seguem uma discussão da noção de biopoder como é definida pelo filósofo e historiador Michel Foucault, especialmente a partir da História da Sexualidade I: a vontade de verdade (2005). Valemos-nos de uma pesquisa bibliográfica que inclui parte de suas obras como Arqueologia do Saber (2007a), Microfísica do Poder (2010), A ordem do Discurso (2007b) e Vigiar e Punir (2007c). Também são convocados comentadores com objetivo de relacionar esta noção poder/biopoder com outras, especialmente discurso e corpo. Podemos perceber a pertinência desta noção de biopoder para a compreensão dos modos de exercício do poder

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constituintes dos modos de subjetivação no mundo contemporâneo, especialmente oriundos das técnicas corporais midiatizadas, portanto, práticas discursivas e não-discursivas do dispositivo de cuidado com o corpo.

Estruturarmos esta apresentação, inicialmente discutindo a implantação do dispositivo da sexualidade e os pressupostos metodológicos da analítica do poder. Em seguida, apresentamos especificamente a noção de biopoder como um modo de exercício do poder característico da nossa sociedade a partir da Modernidade (XVII) já deslocada da sexualidade e rarefeita em outras práticas sociais. E em um terceiro e último momento, atermo-nos aos discursos como normalizadores e normatizadores do corpo social.

1. CORPO E DISCURSO: O DISPOSITIVO DA SEXUALIDADE

A proposta de Michel Foucault ao abordar o poder é analisá-lo a partir do seu funcionamento e dos efeitos que ele produz e não necessariamente das interdições a ele relacionadas. Sobre a concepção foucaultiana de poder é importante destacar três aspectos: o descentramento do poder, sua produtividade/positividade e seu alvo primordial e primeiro.

A aposta do autor é de que não se deve perceber o poder emanado de um centro, de um Estado soberano ou de seus aparelhos, pois estas seriam suas formas terminais. O poder, segundo ele, está ao nível da incitação, da proliferação, da produtividade; está ao nível do confronto, do combate, da guerra e do cotidiano. O poder é uma relação de forças, “é feito de forças, relações de força” (DELEUZE, 1996, p.115). Trata-se, então, de um poder polimorfo e onipresente: provém de todos os lugares e aparece em todas as situações de afrontamento e luta. Em suma, “o poder não é uma instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada” (FOUCAULT, 2010, p. 103).

Em segundo lugar, o poder é produtivo: produz verdades, saberes, prazeres e discursos. Para Foucault (2010), a verdade deve ser vista não como um conjunto de coisas verdadeiras a serem aceitas, mas sim o conjunto de regras com o qual se pode distinguir o verdadeiro do falso e atribuir efeitos específicos de poder ao verdadeiro. Por isso, a verdade não se encontra fora e nem antes do poder, mas é regulamentada, produzida, incitada, qualificada, classificada por ele. Em resumo, “a „verdade‟ está circularmente ligada a sistemas de poder,

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que a produzem e apóiam, e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem” (FOUCAULT, 2010, p. 14). Devemos considerar então que o poder produz verdades e saberes não devido a uma dominação ou interdição, mas através dos mais variados mecanismos incitadores dentro dos mais variados campos do saber sejam eles científicos ou não. Em outros termos, “o poder deve ser considerado como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social, e não apenas como uma força que diz não” (CALLIARI, 2001, p. 72).

Por fim, a materialidade primeira do poder é o corpo. O corpo é transpassado pelo poder e este é exposto pelo corpo. Através de discursos sobre o corpo e seu cuidado foram extraídos saberes que compuseram um conjunto de regras e condutas: a normalização e a patologização dos corpos a partir da Modernidade. E todos esses saberes e verdades extraídos produziram efeitos específicos nos indivíduos: regulação e disciplinarização dos corpos (FOUCAULT, 2007c).

A disciplina fabrica indivíduos. Ela é uma técnica específica de um poder que toma os indivíduos, ao mesmo tempo, como objetos e como instrumentos de seu exercício, constituindo-os como elementos correlatos de um poder/saber, ou seja, o corpo torna-se alvo de novos mecanismos de poder gerando, com isso, novas formas de saber (CAMPOS, 1996, p. 62).

Assim, é necessário entender o corpo não só como aquele ultrapassado pela biologia com seus processos psico-fisiológicos, e com sua mecânica, mas também aquele corpo social, aquele com processos de natalidade, mortalidade, incidência de doenças, fecundidade, forma de alimentação e habitat. Concentraremo-nos a seguir no corpo como alvo do poder, objeto de saber e produtor de subjetividades, enfim, no biopoder como uma forma privilegiada de exercício do poder sobre os indivíduos e populações a partir, prioritariamente, do século XIX.

2. BIOPODER: DISCIPLINA E REGULAÇÃO

Segundo Michel Foucault do século XVI ao século XIX houve uma proliferação e uma incitação aos discursos sobre o sexo em vários campos do saber através de uma estratégia que ligou o sexo e a produção de verdade como que para conhecer a si mesmo era necessário conhecer o seu próprio sexo. Essa produção de verdade sobre o sexo do

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indivíduo foi utilizada inicialmente nos domínios da confissão com a pastoral cristã que ligava o sexo à carne (o ato em si) e depois com a Reforma Protestante, que ligou o sexo ao desejo (verdade do sujeito). Assim, os poderes penetraram no sexo e dele produziram efeitos de reorientação espiritual. “O sexo foi aquilo que, nas sociedades cristãs, era preciso examinar, vigiar, confessar, transformar em discurso” (FOUCAULT, 2010, p. 230).

A confissão logo se disseminou no interior da ciência que se apoiou na primeira, tornando-se uma ciência-confissão. Os discursos deslocam-se do pecado e da salvação para o corpo e a vida através de uma codificação clínica do “fazer falar”. A ciência incorporou as perversões e especificou os indivíduos penetrando nas mais finas ramificações do ser e do sexo. A ciência constituiu então um saber rigoroso sobre o sexo e o indivíduo; normalizou umas condutas e desqualificou outras. Podemos dizer que o sexo foi envolvido por um regime de ordem e saber. E este discurso produzido sobre o sexo possibilitou, segundo Foucault (2005), através de táticas que são imanentes ao discurso, que se produzisse no sujeito uma verdade sobre si mesmo.

Temos no fim século XVII o nascimento do dispositivo de sexualidade que tem por finalidade a estimulação dos corpos, a intensificação do prazer, a incitação aos discursos, a formação do conhecimento e “é um precioso exemplo de como relacionam sujeito e poder, de como são criadas estratégias de sujeitar o indivíduo e, mais do que isto, fazê-lo sujeitar-se” (ELMIR, 1992, p. 27). O dispositivo é, segundo Foucault, um conjunto heterogêneo que abriga o dito e o não dito. Mais especificamente: “engloba discursos, instituições, organizações arquitetônica, decisões regulamentares, lei, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas” (FOUCAULT, 1998, p. 244). O dispositivo é de natureza estratégica, trata-se no caso de uma manipulação e intervenção destas relações de força, a tal ponto de sustentar tipos de saber e ser sustentado por eles. Em suma, o dispositivo “é uma espécie de novelo ou meada, um conjunto multilinear. (...) têm como componentes linhas de visibilidade, linhas de enunciações, linhas de força, linhas de subjetivação” (DELEUZE, 1990, p. 155).

No entanto, esse dispositivo da sexualidade se aplicou inicialmente ao corpo, aos órgãos, aos prazeres, às relações inter-individuais, e não ao sexo especificamente. Temos como efeito o sexo funcionando como dispositivo disciplinar, classificando o comportamento dos

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sujeitos como normal ou desviante. Desse modo, o sexo deve ser visto como estratégia do poder para controlar os indivíduos e mapear seus comportamentos. Seríamos mais precisos se disséssemos que o dispositivo de sexualidade serviu de controle e regulação da população, pois a população constituiu um grande problema e, conseqüentemente, um interesse de Estado, assim como a saúde se tornou uma questão tanto para o estado quanto para o indivíduo na atualidade. Logo, a forma como cada indivíduo utiliza seu sexo, ou corpo, é preocupante, ou seja, “através da economia política da população forma-se toda uma teia de observações sobre o sexo. Surge a análise das condutas sexuais, de suas determinações e efeitos, nos limites entre biológico e o econômico” (FOUCAULT, 2005, p. 32).

No século XVIII surgem outros problemas: a higiene dos indivíduos, as epidemias, as doenças, a saúde da população, o saneamento, as contaminações, etc. A administração da população passou a ser importantíssima. Era necessário garantir a saúde, a organização e o bem-estar da população para assegurar a regulamentação do sistema capitalista. E nesse eixo surgem as novas ciências, as chamadas ciências humanas como novas tecnologias e instrumentos de controle social. Enfim, foram criados novos mecanismos de poder e a vida se tornará seu alvo na era do bio-poder: poder que controla a vida da população. “Agora é sobre a vida e ao longo de todo o seu desenrolar que o poder estabelece seus pontos de fixação; a morte é o limite, o momento que lhe escapa” (FOUCAULT, 2005, p. 151).

Segundo o autor, esse bio-poder se desenvolve em dois grandes eixos que se interligam: a disciplina do corpo (seu adestramento, sua integração em sistemas de controle eficazes e econômicos) e controles reguladores da população (concentrou-se no corpo-espécie: a proliferação, a duração de vida, os nascimentos e a mortalidade, seu nível de saúde), em outras palavras, temos os pólos de “sujeição dos corpos e o controle das populações” (FOUCAULT, 2005, p.131).

Esse biopoder foi importante para a manutenção e a regulação do sistema capitalista. Essa regulação e esse controle tiveram início com medidas políticas, caracterizando assim a “bio-política”. A vida entra no domínio dos cálculos, da organização, da manutenção, do controle com uma proliferação das tecnologias políticas sobre o corpo, a saúde, a alimentação, a moradia, os espaços de existências, etc. Se agora o poder tem como alvo a

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vida isso trará outros efeitos. O poder tem a tarefa de assegurar a vida, conseqüentemente, terá necessidade de novos mecanismos que regulem a vida. Ou seja, a lei passará a funcionar como norma cuja função será a regulação, pois “uma sociedade normalizadora é efeito histórico de uma tecnologia de poder centrada na vida” (FOUCAULT, 2005, p.134).

Não precisamos mais repetir que o poder agora tem como foco a vida, sua regulação, seu controle, seu ajuste ao modo capitalista. Segundo Foucault, esse enorme interesse no sexo é porque ele se encontrava na articulação entre os dois eixos (disciplina dos corpos e regulação da população) em que se desenvolveu o bio-poder o qual participa tanto da disciplinarização dos corpos quanto da regulação das populações. O sexo foi “acesso, ao mesmo tempo, à vida do corpo e à vida da espécie” (FOUCAULT, 2010, p. 137). Através dele, obtêm-se as mais variadas vigilâncias, controles, ordenações, exames médicos ou psicológicos em um minucioso poder sobre o corpo. Eis o porquê de tanta incitação ao sexo, tanta proliferação de discursos, tantos exames minuciosos e capciosos sobre o sexo, tantas confissões. Em suma: “de um pólo a outro dessa tecnologia do sexo, escalona-se toda uma série de táticas diversas que combinam, em proporções variadas, objetivos da disciplina do corpo e o da regulação das populações” (FOUCAULT, 2005, p. 141).

3. DISCURSOS NORMALIZADORES E NORMATIADORES DO CORPO As práticas de cuidado contemporâneas nos permitem acessar os controles e regulações característicos do bio-poder em nossa sociedade. Além disso, a midiatização de tais práticas possibilita perceber sua capilarização incessante pelo corpo social. A construção da experiência subjetiva do indivíduo - seus valores, possibilidades, modelos, normas, argumentos - e da forma como ele percebe o próprio corpo e pode conduzir sua corporeidade encontram-se mediados, midiatizados e, ainda, espetacularizados, diante do fenômeno da Globalização. Fernanda Bruno (2006) nos oferece um exemplo da materialidade midiática desse fenômeno esclarecedor acerca da discursivização do biopoder nos meios de comunicação.

Domingo, o jornal. É um homem quem lê. Primeiro os esportes, a seguir política, economia, rápida olhada nos classificados, e eis que em uma seção que não costuma se deter – o enfadonho e já extinto caderno Jornal da Família – encontra uma espécie de „jogo-teste‟ que o convida a calcular sua expectativa de vida. Uma mistura de

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Revista Panorâmica Multidisciplinar Barra do Garças - MT nº 12 p. 78 a 88 2011 ceticismo e curiosidade molda o seu humor. Não resiste e faz o teste. O primeiro tópico é desanimador: „Se você é homem, subtraia 3 pontos‟. E assim segue ... O exemplo é risível; contudo, contém alguns dos principais aspectos da forma como hoje figura, nos meios de comunicação, a relação dos indivíduos com a saúde e a doença, com seus hábitos e comportamentos, com o tempo de suas vidas (2006, p. 64).

Desse modo, Bruno (2006) aponta para uma virtualização no campo da saúde e da doença sustentada pela medicina genômica e pela epidemiologia dos fatores de risco. Segundo a autora, trata-se de transformações nos modos como os indivíduos são incitados a zelar pela própria saúde, hoje caracterizada em especial pela gestão permanentes dos riscos de desenvolver doenças virtuais. A gestão da vida, entendida como uma regulação população, é o principal objetivo difuso de uma sociedade marcada pela biopolítica que tem nas práticas discursivas da mídia um dos mais importantes sustentáculos. É justamente pelas redes de enunciados (FOUCAULT, 2007a) que os indivíduos podem se reconhecer como sujeitos da sua vida. Os meios de comunicação como produtos discursivos da midiatização das práticas de auto-cuidado permitem perceber os processos de objetivação do sujeito (razões, probabilidades, cálculos, porcentagens) e de subjetivação de si (comportamentos normatizados, práticas de auto-cuidados assumidas).

Além disso, a vida deve ser compreendida não simplesmente como oposição à morte, mas como “as necessidades fundamentais, a essência concreta do homem, a realização de suas virtualidades, a plenitude do possível‟ (FOUCAULT, 2005, p. 136). A vida torna-se alvo não somente de suas virtualidades de adoencimento biológico, mas de adestramento e auto-controle subjetivo com a possível condução das condutas humanas nas interações comunicacionais.

Apesar das transformações no pensamento foucaultiano que podem ser apontadas ao longo de sua obra: a arqueologia dos saberes, a genealogia das relações de poder e o cuidado de si, Ferraz (2005) salienta que essa tripartição didática “não corresponde a mudanças radicais, mas, antes, a deslocamentos de perspectiva em um pensamento poroso às inquietações de seu tempo, também elas em contínuo processo de deslocamento” (p. 70). Desse modo, as análises discursivas das materialidades midiáticas não devem desconsiderar o conceito fundamental para a descrição arqueológica que é o enunciado, definido pela

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função enunciativa: o fato de ele ser produzido por um sujeito, em um sujeito, em um lugar institucional, determinado por certas regras sócio-históricas que definem e possibilitam que ele seja enunciado. Descrever um enunciado é descrever a “função que deu a uma série de signos (...) uma existência, e uma existência específica” (FOUCAULT, 2007c, p. 123) a partir de uma questão primordial: “como apareceu um determinado enunciado e não outro em seu lugar” (FOUCAULT, 2007b, p. 30).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Debruçar-se sobre as práticas discursivas e não discursivas que caracterizam a sociedade contemporânea, especialmente as práticas de produção de corpos e subjetividades, não pode de maneira alguma ser caracterizada como uma tarefa secundária. Compreender os fenômenos da contemporaneidade exige definições precisas sobre os objetos de conhecimento e empíricos. Neste trabalho buscamos nos ater à noção de biopoder em Michel Foucault para nos subsidiarmos nos enfretamentos de questionamentos futuros. Para o autor, o corpo deve ser compreendido como objeto de saber, alvo do poder, constituído pelo discurso e constituinte do que se pode chamar de sujeito. Estas três balizas do pensamento foucaultiano nos permitem compreender de maneira produtiva a centralidade do corpo no pensamento ocidental moderno, assim como sua centralidade nas produções midiáticas atuais. Trata-se de uma compreensão produtiva, assim como a concepção do poder produtivo como defendida pelo autor. Reconhecendo as transformações históricas dos mecanismos de poder a partir da Modernidade para o biopoder, podemos perceber novas formas de exercício do poder, poder este constituinte daquelas formas de produção de subjetividades. Desse modo, acreditamos ter construído parte do alicerce das indagações sobre as redes de saber, poder e subjetividades a serem exploradas em um momento futuro.

REFERÊNCIAS

BRUNO, Fernanda. O biopoder nos meios de comunicação: o anuncio de corpos virtuais. Comunicação, Mídia e Consumo, São Paulo, v. 3, n. 6, 2006. pp. 63-79.

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CALLIARI, Neiva. Aspectos do poder segundo Michel Foucault. In: Revista RATIO, Jí-Paraná Canoas, Instituto Luterano de Ensino Superior de Ji-Jí-Paraná: Editora da ULBRA, n. 4, jan/dez 2001. pp. 71-76.

CAMPOS, Gínez. A anatomia do poder em Foucault: a funcionalidade e a mecânica do poder disciplinar. Revista de Filosofia e Ciências Humanas, Passo Fundo, v. 12, n. 1 e 2, pp. 55-70, jan/dez. 1996.

DELEUZE, Gilles. O que é um dispositivo? In: O mistério de Ariana. 1ª ed. Lisboa: Editora Vega – Passagens, 1996. pp. 115-161

______. Conversações. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

ELMIR, Cláudio. Notas sobre o conceito de „poder‟ e a perspectiva teórico-metodológica no pensamento de Michel Foucault. Revista Logos, Canoas, Unisinos, v. 4, n. 2, pp. 25-29, jul/dez. 1992.

FERRAZ, Maria Cristina Franco. As contribuições do pensamento de Michel Foucault para a Comunicação. In: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, Usp, v. 28, n. 2, pp. 69-83, jul/dez. 2005.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do Saber. 7ª ed. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2007a.

_______. A ordem do discurso. 15ª ed. Petrópolis: Edições Loyola, 2007b. _______. Vigiar e Punir. 34ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2007c.

_______. História da sexualidade: a vontade de saber. 16ª ed. São Paulo: Edições Graal, 2010.

_______. Microfísica do poder. 1ª ed. Organizações e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2010.

O‟ BRIEN, Patrícia. A história da cultura de Michel Foucault. In: HUNT, Lynn (org). A nova história cultural. 1ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p. 33-62.

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