PARTEIRAS TRADICIONAIS
E SUAS PRÁTICAS
NA ÁREA RURAL DE PERNAMBUCO – 1996
Islene Carvalho Alessandra Sampaio Chacham Paula Viana
1 INTRODUÇÃO
No Brasil, assim como em outros países Latino America-nos, desde os anos setenta, os cuidados pré-natal e obstétricos do segmento mais pobre da população se tornou o objeto de diversos programas de saúde pública. Um dos principais objetivos destes pro-gramas foi encorajar médicos a atender partos ao invés das parteiras tradicionais, (PTs), como um modo de aumentar a segurança no parto. Os resultados destas iniciativas foram satisfatórios no sentido de que elas expandiram a cobertura dos exames pré-natais e aumentaram o número de partos hospitalares. Mas estes programas não alcançaram completamente os objetivos propostos dado as ainda muito altas taxas de mortalidade e morbidade perinatal e materna, partos prematuros e cesáreas desnecessárias prevalecentes no Brasil e também em outros países da América Latina. Alguns destes efeitos, como a taxa alta de cesáreas, são diretamente relacionados com a substituição das partei-ras tradicionais e hospitalares por médicos.
Não há dúvidas de que a obstetrícia moderna deu uma grande contribuição para melhorar a saúde das mulheres e crianças, mas o sistema de atendimento centrado no médico também trouxe alguns efeitos negativos, como a iatrogênia causada pelo excesso de intervenções médicas, o grande número de cesáreas e o uso de drogas durante o parto, e também custos elevados e tratamento impessoal. Muitos países com taxas baixas de mortalidade materna e perinatal conseguiram resolver estes problemas através da promoção de um retorno ao parto humanizado. Entre estes países há alguns como a Alemanha e a Holanda onde as parteiras são profissionais respeitadas,
treinadas e que trabalham independentemente. Entre as vantagens do atendimento ao parto por uma parteira estão o baixo custo, o uso mínimo de drogas, práticas menos intervencionistas, que encorajam a mulher a escolher a melhor posição durante o trabalho de parto e o parto, amamentação imediata, o que conseqüentemente conduz a um parto mais natural e centrado nos interesses da mulher. A própria Organização Mundial de Saúde recomenda que a formação de obste-trizes e parteiras profissionais deve ser encorajada, pois a tarefa de assistir à gestação e ao parto e ao puerpério normais deve ser delegada a esses profissionais, pois “a pessoa com habilidades de parteira parece ser a profissional de saúde mais adequada e custo-efetiva para prestar assistência à gestação e nascimentos normais” (OMS, 1996).
No Brasil, o conceito de parteiras atuando como profis-sionais independentes é ainda uma matéria muito polêmica. Nós não temos uma posição oficial em relação à legalização ou regula-mentação da profissão e a parteira certamente não é vista como uma profissional de saúde independente. As Associações Brasileiras de Medicina, na mesma linha da Associação Americana de Medicina, não reconhecem a parteira como profissional legítima (Bourgeault, Fynes, 1997). A atual percepção que a maior parte dos brasileiros tem sobre parteiras é como uma alternativa inferior às práticas da medicina moderna. Devido à esta visão e ao fato de que não há reconhecimento legal da parteira como profissional, não existem mais escolas ou treinamento formal para parteiras. Os conceitos de parteira tradicional e da parteira profissional estão misturado nas mentes das pessoas e esforços recentes para se reintroduzir a profissão de enfermeira-parteira falharam.
Mesmo assim, há ainda muitas parteiras tradicionais pra-ticando em algumas regiões do país sem nenhum apoio do sistema público de saúde. De acordo com a Pesquisa Estadual de Saúde e Nutrição em Pernambuco (PESN – 1991), 40% dos partos na zona rural do estado foram atendidos por parteiras. É estimado que haja 5.000 parteiras tradicionais atuando em Pernambuco, apesar de que a Secretaria Estadual da Saúde, em seu programa de treinamento de parteiras tradicionais, registrou apenas cerca de 2.000 mulheres tra-balhando com tal, e somente 38% delas receberam qualquer tipo de treinamento formal. O isolamento das parteiras e sua falta de treina-mento formal traz algumas dúvidas sobre a adequação dos cuidados que elas dão às mulheres.
Mas apesar da perseguição sutil ainda presente e a falta de apoio, as parteiras tradicionais continuam atuando e estão se organi-zando em grupos e associações em diversos estados brasileiros hoje, com a assistência de organizações não-governamentais, como o Grupo Curumim. O CURUMIM é uma ONG que não visa ao lucro, fundada em l989, para tratar de questões na área da saúde reprodutiva usando de uma perspectiva feminista. O grupo promove os direitos de cidada-nia da mulher e busca melhorar as condições de vida e saúde das mulheres. Em 1991, o grupo participou com outras ONGs e funcioná-rios do Ministério da Saúde no estabelecimento do Programa Nacional para Parteiras Tradicionais. Este programa procurou reforçar e apoiar as práticas das parteiras em suas comunidades, para fornecer cuidados de saúde primários para as mulheres durante a gravidez, parto e puerpério; melhorar a segurança das mulheres e das crianças através da humanização do nascimento com o objetivo de reduzir as taxas de morbidade e mortalidade maternas. Infelizmente, o programa não foi implementado. Hoje é parte do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher, o qual também não foi implantado.
O Grupo Curumim agora trabalha basicamente com par-teiras tradicionais que vivem na zona rural de Pernambuco. O grupo oferece cursos na forma de oficinas, com o objetivo de treinar as parteiras para atenderem partos normais com segurança e serem capazes de reconhecer fatores de risco ao mesmo tempo que se respeita suas práticas e conhecimentos. O grupo busca promover um atendi-mento ao parto que seja humano e seguro para mulheres e bebês (Curumim, 1997).
As parteiras que participam nas oficinas do Curumim, foram solicitadas a contribuir com esta pesquisa, respondendo a um questionário onde descrevem suas condições de vida, trabalho, práti-cas no atendimento ao parto e os problemas que elas encontrão. Nosso propósito era descrever seu perfil e avaliar as práticas por elas decla-radas do ponto de vista da segurança e do grau de intervenção no processo de nascimento. Esta pode significar uma importante contri-buição para a literatura, desde que as informações sobre as práticas de parteiras em Pernambuco ou em qualquer outra região do país são muito limitadas ou inexistentes.
2 AMOSTRAGEM E MÉTODOS
Esta pesquisa foi realizada durante o anos de 1996 por membros do Grupo Curumim, que entrevistaram 85 porcento das participantes em suas oficinas para parteiras tradicionais da zona rural do Estado de Pernambuco. As oficinas também atraíram muitas mulheres das áreas rurais que não se identificavam como parteiras. Algumas mulheres que trabalhavam como enfermeiras ou auxiliares de enfermagem também participaram das oficinas, mas várias delas tinham sido parteiras antes de ir trabalhar no hospital.
O estudo usou de uma perspectiva descritiva empregando um método quantitativo. Questionários fechados foram aplicados pelas pesquisadoras nas mulheres que se auto-identificaram como parteiras. As entrevistas tiveram lugar no mesmo local onde os cursos eram ensinados, em geral no início do curso, buscando minimizar o viés da entrevistada. O número total de mulheres entrevistadas foi 127. Nenhum outro método foi usado para validar os dados devido à limitações de tempo e recursos.
Os dados coletados de cada parteira incluíram informação de caráter pessoal e sócio-econômica e as práticas declaradas em relação aos partos. Nove indicadores foram usados para determinar o grau de intervenção no processo do nascimento: parto domiciliar, posição da mulher no parto, raspagem do pelo púbico (tricotomia), ruptura artificial das membranas, exames vaginais, tempo que espe-rou para o cordão umbilical, uso de massagem para ajudar a placenta a ser expelida e amamentação imediata.
As entrevistas foram feitas somente com parteiras que participaram dos cursos de treinamento oferecidos pelo Curumim, então esta amostra pode não ser representativa de todas as parteiras tradicionais de Pernambuco. Mesmo assim, a amostra incluía mulhe-res de regiões onde a pmulhe-resença das parteiras é ainda muito significati-va. Já que estes cursos foram oferecidos em várias regiões das regiões mais pobres de Pernambuco e as mulheres foram localizadas em geral através dos agentes de saúde locais (empregados pelas Secretarias de Saúde municipais), não há razão para acreditar que este grupo de mulheres difere significativamente da típica parteira tradicional de Pernambuco.
Nenhum problema foi encontrado na aplicação dos ques-tionários; as mulheres concordaram em ser entrevistadas sem proble-mas, e houve muito poucas respostas incompletas, apesar de que algumas delas tiveram dificuldades de compreender alguns dos termos usados pelas pesquisadoras, como placenta.
3 RESULTADOS
A maioria das mulheres entrevistadas (85%) tinham 34 anos ou mais de idade, era casada ou em uma união estável (72%) (Tabela 1). O nível educacional era baixo: 25% delas não tinham nenhuma educação formal e mais de 50% tinha somente alguma educação de nível elementar. Um terço trabalhava fora de casa em trabalhos pagos. A renda pessoal era também muito baixa: 57% não tinha renda pessoal e somente 3% ganhava mais do que 2 salários mínimos. A maior parte delas tinha uma família grande, 27% delas tinha de 4 a 6 criança e 38% com 6 ou mais crianças (Tabela 1).
Uma grande proporção das mulheres entrevistadas tinha dado a luz em um hospital: 34% tinha tido todos os seus filhos em um hospital e 29% tinha tido pelo menos um bebê em um hospital. Isto significa que a maior parte delas foi exposta à cultura e às atitudes médicas, com mais de 50% das entrevistadas tendo tido pelo menos um de seus partos assistidos por um médico ou enfermeira em hospi-tais. Entre as mulheres entrevistadas, 44% teve uma ligação tubária, o que está próximo da média regional (DHS, 1996) (Tabela 2).
As experiências pessoais de parto das parteiras entrevista-das foram positivas para 59% delas que declararam ter gostado de parir (Tabela 2). O quanto maior o número de crianças, maior a proporção das que declararam ter gostado das suas experiências de parto: 76% das mulheres com 10 filhos ou mais, disseram que elas gostaram de dar à luz, enquanto que somente 35% daquelas com de 1 a 3 crianças responderam positivamente. Ter tido seus filhos em casa com uma parteira também pareceu ter uma relação positiva com uma boa experiência de parto: 67% das mulheres que tiveram seus filhos em casa disseram que elas gostaram de parir contra 48% que tiveram seus filhos no hospital (este dado não está nas tabelas).
Tabela 1 CARACTERÍSTICAS DE 127 PARTEIRAS TRADICIONAIS ENTREVISTADAS PERNAMBUCO, 1996 Características % Idade
34 anos ou mais nova 15,0
35 a 54 56,0 55 a 64 22,0 65 e mais 7,0 Estado Civil Casada 67,0 Solteira 14,0 União Consensual 5,0 Outro 14,0 Nível Educacional Nenhuma 26,0 Elementar 52,0 2º Grau 20,0 Universitária 2,0 Tipo de trabalho Parteira 37,0 Fora de casa 33,0 Em casa 5,0
Sem trabalho pago 25,0 Nível de renda
Nenhum 57,0
Menos do que 1 salário mínimo 17,0 1 a 2 salários mínimos 23,0 3 a 5 salários mínimos 3,0 Número de crianças Nenhuma 5,0 1 a 3 30,0 4 a 6 27,0 6 a 9 21,0 10 ou mais 17,0 Fonte: Curumim, 1997.
Em relação aos serviços de saúde, 57,5% declararam ir freqüentemente ao médico e 46,5% disseram que tinham algum pro-blema de saúde. Pressão alta foi o propro-blema mais comum citado, seguido por fadiga e dores nas costas (dado não mostrado nas tabelas). A maioria das parteiras aprenderam a atender partos sozinhas enquanto faziam ou ajudando outra parteira da comunidade, sendo que um terço delas (32%) aprendeu em salas de parto de hospitais (Tabela 3). Apesar de formarem um grupo de mulheres mais velhas agora, 90% delas tinha menos de 35 anos quando elas atende-ram seu primeiro parto. Idade não foi um fator significativo em relação ao modo que elas aprenderam a atender partos. A maioria tinha uma
Tabela 2
SAÚDE PESSOAL E EXPERIÊNCIA DE PARTO DAS PARTEIRAS ENTREVISTADAS
PERNAMBUCO, 1996
Experiência %
Local que teve seus partos
Casa 35,0
Hospital 34,0 Casa e hospital 29,0
Outro 2,0
Quem atendeu aos partos
Parteira leiga 34,0 Médico 31,0 Parteira e médico 15,0 Enfermeira 7,0 Ninguém 6,0 Amiga/Madrinha 3,0 Ligação Tubária Não 56,0 Sim 44,0
Gostou de dar a luz
Sim 59,0
Não 41,0
clientela relativamente pequena, com mais da metade delas auxiliava em menos de 10 partos por ano. A maioria das parteiras declarou que não recebia nenhum pagamento direto por atender partos domicilia-res, e somente 4% delas declararam ter sido pagas com dinheiro (Tabela 3).
Tabela 3
TREINAMENTO E PRÁTICAS DAS PARTEIRAS TRADICIONAIS
PERNAMBUCO, 1996
Variável %
Treinamento
Aprendeu enquanto fazia 41,0 Acompanhando uma parteira 38,0 Acompanhando médicos em salas de parto 18,0 Acompanhando uma enfermeira em salas de parto 17,0
Outro 10,0
Atendendo cursos 4,0 Idade quando primeiro atendeu a um parto
20 anos ou mais jovem 40,0
21 a 35 49,0
36 a 45 9,0
46 a 55 2,0
Número de partos que atende ao ano
1 a 9 53,0
10 a 50 35,0
51 a 100 8,0
101 a 300 3,0
301 ou mais 1,0
Pagamento recebido por atender partos domiciliares
Nada 82,0
Pagamento em dinheiro 4,0 Comida, roupas, presentes 11,0 Não atende partos domiciliares 3,0 Fonte: Curumim, 1997.
Com referência às suas práticas de assistência ao parto, 57% declararam que elas fazem o parto com a mulher deitada de costas, com 26% usando de qualquer posição para o parto (Tabela 4). Em relação à higiene e segurança, e ao uso de material e instrumentos cirúrgicos esterilizados, 40% delas disseram que elas nunca usam instrumentos cirúrgicos, enquanto que 53% declararam que usam material cirúrgico esterilizado. Luvas e tesouras eram o material mais usado comumente. Entretanto, 37% declararam que elas nunca usam luvas e 15% usam o mesmo par várias vezes. Em relação à esteriliza-ção, 69% declararam esterilizar seus materiais em casa com água fervendo e/ou álcool, enquanto 21% esterilizava seus materiais no hospital. Devemos ainda observar que o uso de luvas, material cirúr-gico e esterilização não mostrou correlação com idade, grau de educa-ção e modo que aprendeu a atender partos (dado não mostrado nas tabelas).
Tabela 4
DESCRIÇÕES DE PRÁTICAS USADAS NO ATENDIMENTO AO PARTO POR PARTEIRAS TRADICIONAIS
PERNAMBUCO, 1996
Descrição %
Posição da mulher
Supina 57,0
Variada, não importa 26,0
Sentada 11,0
Cócoras 6,0
Freqüência do uso de instrumentos cirúrgicos
Nunca 40,0 Raramente 7,0 Sempre 53,0 Esterilização de Materiais Nunca 7,0 Raramente 3,0 Sempre no hospital 21,0 Sempre em casa com água e álcool 34,0 Sempre em casa com água fervendo 35,0 Freqüência do uso de remédios farmacêuticos
Nunca 61,0
Raramente 30,0
Sempre 9,0
Quando perguntadas sobre o uso de drogas farmacológi-cas, somente 39% das entrevistadas disseram que as utilizavam. Em contraste, 51% delas declararam que elas sempre usavam ervas ou remédios domésticos, como café forte (sem açúcar) misturado com manteiga, chá de manjericão e de pimenta do reino, usados para aumentar as contrações e acelerar o trabalho de parto. Óleo de amêndoa doce e leite de gergelim também eram usados para ajudar o bebê a sair (dado não mostrado nas tabelas). Basicamente elas usavam de comidas e ervas consideradas “quentes”, de acordo com a dicotomia entre alimentos quentes e frios, também presentes no folclore em outras partes da América Latina, onde se acredita que comidas “quen-tes” ajudem durante o trabalho de parto (Camey et al. 1996).
Um dos principais objetivos do estudo foi de avaliar as práticas que as parteiras usavam para atender partos e o grau de intervencionismo destas práticas comparadas às práticas usados por médicos e enfermeiras. O modo pelo qual as parteiras aprenderam a atender partos pareceu ser a variável que melhor predizia o tipo de práticas que elas usavam (Tabela 5). As parteiras que aprenderam de outras parteiras da comunidade e aquelas que aprenderam sozinhas parecem ter as práticas menos intervencionistas, fazendo mais partos domiciliares, e evitando práticas como episiotomia, exames vaginais, raspagem do pelo púbico e ruptura artificial das membranas. Elas também esperavam mais tempo para cortar o cordão umbilical do que parteiras que aprenderam em salas de parto.
Entre as mulheres entrevistadas, 58% declararam sempre fazer partos domiciliares enquanto que 35% raramente o fazem. Mas 78% das parteiras que aprenderam a atender partos sozinhas e 60% daquelas que aprenderam com outra parteira declararam que elas sempre atendiam partos domiciliares, em contraste com somente 3% das que aprenderam a atender partos em salas de partos (Tabela 5).
Apesar de não serem estatisticamente significativas, ou-tras variáveis como o uso da posição deitada para o parto eram menos freqüentes entre parteiras treinadas na comunidade ou na prática, do que entre aquelas que aprenderam com médicos e enfermeiras. Por outro lado, não foi encontrada diferença entre aquelas que esperavam pela expulsão espontânea da placenta, ou permitiram amamentação imediata (Tabela 5).
A Tabela 6 mostra que entre as dificuldades mais comuns declaradas pelas parteiras, em primeiro lugar veio a falta de materiais, mencionada por 67%, seguida por partos difíceis (27%), baixos salá-rios, trabalhar sem a ajuda de médicos, discriminação, falta de prote-ção contra doenças, falta de transporte, trabalhar sem uma ajudante, problemas com patrões (para aquelas que trabalhavam em hospitais) e falta de comida e descanso.
O problema mais comum que elas declararam ter com os partos que elas atendem foi hemorragias antes e depois do parto, men-cionado por um terço delas, seguida por apresentação anômala do feto, mencionado por 20% delas, com circular de cordão e mulheres com pressão alta aparecendo em terceiro e quarto lugar respectivamente. Se um problema ocorre durante um parto, 50% das parteiras tentam primeiro resolver sozinhas e somente então levam a mulher para o hospital se não conseguem. Quase um terço leva a mulher diretamente para o hospital quando confrontada com uma complicação.
Tabela 5
PRÁTICAS DE PARTEIRAS TRADICIONAIS DE ACORDO COM O MODO QUE ELAS APRENDERAM
A ATENDER A PARTOS (em percetagem) Práticas Modo de aprendizado Acompanhando PTs (n=38) Sozinhas (n = 41) Em hospital (n = 35) % RR** % RR* % RR* Nem sempre faz partos domiciliares 40 1,0 22 0,56 69 1,74 Usa posição deitada 47 1,0 54 1,13 69 1,45 Episiotomia 3 1,0 15 5,56 46 17,37 Raspa pelo púbico 58 1,0 44 0,76 83 1,43 Amniotomia 29 1,0 44 1,52 66 2,27 Exame vaginal 66 1,0 73 1,11 91 1,39 Massagem para soltar placenta 66 1,0 66 1,00 69 1,04 Corta corda antes da placenta sair 21 1,0 24 1,16 94 4,48 Atrasa amamentação 63 1,09 66 1,04 51 0,81 Fonte: Curumim, 1997.
* 95% IC. ** Referência.
4 DISCUSSÃO
Em Pernambuco, a maioria das parteiras vivem em zonas rurais, tendo aprendido a atender partos muito jovens, sem nenhum tipo de apoio, ajudando outras mulheres a ter filhos. A experiência
Tabela 6
DIFICULDADES EXPERIMENTADAS DURANTE O ATENDIMENTO AO PARTO, EM PERCENTAGEM DAS PARTEIRAS TRADICIONAIS
QUE AS MENCIONAREM PERNAMBUCO, 1996 Dificuldades como PTs % Falta de material 67,0 Partos difíceis 27,0 Pagamento baixo 26,0 Trabalha sem a ajuda de médicos 19,0
Discriminação 19,0
Falta de proteção contra doenças 16,0 Falta de transporte 15,0 Trabalha sem ajudantes 11,0 Problemas com empregadores 9,0
Falta de comida 8,0
Trabalha sem descanso 4,0
Outros 4,0
Dificuldades durante o parto
Hemorragia antes e depois do parto 33,0 Apresentação fetal anômala 20,0 Corda em volta do pescoço 10,0 Mulher com pressão alta 8,0
Outras 17,0
Como a parteira resolve os problemas durante o parto
Tenta resolver por conta própria 18,0 Tenta resolver e então leva a mulher para o hospital 50,0 Leva a mulher para o hospital 32,0 Fonte: Curumim, 1997.
pessoal descrita pela maior parte delas foi de aprender fazendo, lutando contra a falta de serviços de saúde, prevalecendo o desejo de servir, a necessidade de trabalhar, curiosidade e esforço próprio. A maioria das parteiras rurais não tem educação formal e algumas mal sabem ler. Estas características são típicas das mulheres de suas regiões, mostrando que elas dividem as mesma características sócio-econômicas da maior parte das mulheres da zona rural de Pernambu-co, que são na sua maioria pobres e pouco escolarizadas.
Elas trabalham isoladas, enfrentando vários problemas, como caminhar distâncias muito longas e também trabalhar sem nenhum pagamento financeiro. Elas são marginalizadas, ao ponto de que suas práticas são ignoradas ou reprimidas, e apesar de terem suas inadequações e deficiências, elas tem em seu favor um modelo de atendimento ao parto menos invasivo, e mais fisiológico, que não pode ser desconsiderado. Elas tendem a evitar exames vaginais, ruptura artificial das membranas, episiotomia, o uso da posição deitada duran-te o parto, entre outras práticas que são caracduran-terísticas da obsduran-tetrícia moderna, mas cuja a validade tem sido questionada (OMS, 1996).
Considerando que o uso apropriado de material cirúrgico e da esterilização são a melhor prevenção contra infecções puerperais, a falta desses materiais e de sua esterilização apropriada, e também da possibilidade de pronta referência em caso de complicações, traz algumas preocupações sobre a segurança da prática das parteiras. Elas mesmas declararam que a falta de materiais era o seu problema mais recorrente.
Em ordem de resolver alguns destes problemas e aumen-tar a segurança, a assistência que a parteira provê para as mulheres e seus bebês deveria tornar-se uma preocupação do sistema oficial de saúde. Desde muito tempo, especialmente em áreas rurais, mulheres demonstram confiança e respeito pelas parteira tradicionais. Esta interrelação facilita o trabalho das parteiras durante todo o cuidado pré-natal, parto e puerpério. A integração entre as parteiras tradicio-nais e os serviços de saúde pode trazer benefícios valiosos para a saúde pública e abrir caminho para um número de atividades relacionadas com a medicina preventiva, contribuindo conseqüentemente, para um declínio gradual da morbi-mortalidade materna e infantil. Um apoio apropriado da parte dos serviços de saúde, suprindo as parteiras com material esterilizado e as treinando para seu uso, teria um impacto positivo para minorar estes problemas.
Uma série de recomendações ao governo brasileiro, no nível Federal, Estadual e Municipal, derivam dos resultados deste estudo:
• Adotar políticas que não usem de coerção, mas sim legitimem e reconheçam a prática das parteiras tradicio-nais e as integre dentro de programas específicos de saúde.
• Estruturar hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) para servirem como referência para a prática das partei-ras, incluindo acesso livre às maternidade e facilitar o contato com serviços de emergência em cada hospital quando elas referirem casos de alto risco ou com compli-cações.
• Apoio dos serviços de saúde municipais para integrarem suas atividades aos programas de saúde materno-infan-tis e aos programas de agentes comunitários.
• Criar uma legislação clara a respeito da profissão, in-cluindo salário.
• Providenciar material adequado para atendimento ao parto e meios de continuar a suprir estes materiais.
• Apoiar a organização profissional das parteiras.
• Facilitar a educação primária formal para as parteiras, como um modo de aumentar o acesso delas ao treinamen-to, uso de materiais e hospitais.
• Abrir escolas para ensinar parteiras, no nível técnico e profissionalizante, oferecendo cursos para treinamento de parteiras tradicionais e periodicamente reciclando suas práticas, enquanto buscando aproximar a lingua-gem científica às expressões técnicas próprias das partei-ras.
Nós pensamos que as parteiras tem uma importante con-tribuição a dar ao movimento na humanização do parto, buscando um parto mais centrado na mulher. Este é um conceito de parto baseado em um profundo respeito pela dignidade e autonomia da mulher, como
aonde, como e com quem ela quer ter seu filho. Já é largamente reconhecido, que o ambiente humano e material do parto influencia no seu resultado, e pode contribuir para um parto mais saudável, sem violência, simultaneamente prevenindo a morbidade e mortalidade materna e neonatal.
De acordo com a Confederação Internacional de Parteiras, a definição de parteira não depende da sua formação acadêmica, mas sim do tipo de prática que ela tem, incluindo o local do parto e uma prática menos intervencionista. A parteira representa um conheci-mento sobre a saúde centrado na mulher, e também representa a sobrevivência de práticas como um parto mais personalizado, domici-liar, o uso de ervas medicinais, e oferecem uma assistência mais integral durante e após o parto. A prática da parteira também respeita a cultura de cada região e tem a confiança e o respeito das mulheres que elas atendem. Estas características podem ser usadas como um mecanismo para aumentar o acesso das mulheres a um melhor cuidado durante a gravidez e o parto.
5 REFERÊNCIAS
BEMFAM. Sociedade Civil Bem-Estar Familiar do Brasil and DHS – Demographic Health Survey. Macro International, Inc. Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde – 1996. Rio de Janeiro, mar. 1997.
BOURGEAULT, I. L., FYNES, M. Integrating lay and nurse-midwi-fery care into the US and Canadian health systems. Social Science and Medicine, v. 44, p. 1051-1063, 1997.
CAMEY, X. C. Traditional birth attendants in Mexico: advantages and inadequacies of care for normal deliveries. Social Science and Medicine, v. 43, p. 199-207, 1996.
CURUMIM. Trabalhando com parteiras tradicionais. Recife, 1997. OMS. Organização Mundial de Saúde. Giving Birth Normally. Safe