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(2) 2. THIAGO SOUZA MOREIRA. “VAI TU E FAZE O MESMO” – A SUPERAÇÃO DOS CONFLITOS ENTRE JUDEUS E GENTIOS NOS ESCRITOS LUCANOS POR MEIO DA VISÃO DO ESTRANGEIRO COMO MODELO DE FÉ: UM OLHAR A PARTIR DE LUCAS 10.25-37. Dissertação apresentada no Programa de Pós-Graduação à Universidade Metodista de São Paulo, Escola de Comunicação, Educação e Humanidades para conclusão do Mestrado em Ciências da Religião. Orientador: Prof. Dr. Paulo Roberto Garcia .. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2019.
(3) 3. FICHA CATALOGRÁFICA. M813v. Moreira, Thiago Souza “Vai tu e faze o mesmo”: a superação dos conflitos entre judeus e gentios nos escritos lucanos por meio da visão do estrangeiro como modelo de fé: um olhar a partir de Lucas 10.25-37 / Thiago Souza Moreira -- São Bernardo do Campo, 2019. 148 p. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) --Escola de Comunicação, Educação e Humanidades, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo. Bibliografia Orientação de: Paulo Roberto Garcia. 1. Estrangeiros 2. Etnicidade 3. Conflitos étnicos 4. Bíblia – N.T. – Crítica e interpretação I. Título CDD 226.406.
(4) 4. A dissertação de mestrado intitulada: “VAI TU E FAZE O MESMO” – A SUPERAÇÃO DOS CONFLITOS ENTRE JUDEUS E GENTIOS NOS ESCRITOS LUCANOS POR MEIO DA VISÃO DO ESTRANGEIRO COMO MODELO DE FÉ: UM OLHAR A PARTIR DE LUCAS 10.25-37”, elaborada por THIAGO SOUZA MOREIRA, foi apresentada em março de 2019, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Paulo Roberto Garcia (Presidente/UMESP), Prof. Dr. Paulo Augusto de Souza Nogueira (Titular/UMESP) e Prof. Dr. Marcelo da Silva Carneiro (Titular/FATIPI).. _______________________________________________ Prof. Dr. Paulo Roberto Garcia Orientador e Presidente da Banca Examinadora. ________________________________________________ Prof. Dr. Helmut Renders Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Ciências da Religião. Área de Concentração: Linguagens da Religião. Linha de Pesquisa: Literatura e Religião no Mundo Bíblico.
(5) 5. À Celina Moreira, esposa amada e companheira em todos os momentos.. Aos gêmeos Timóteo e Daniela, filhos amados, fontes de alegria..
(6) 6. AGRADECIMENTOS. Primeiramente, agradeço a Deus, motivo final desta pesquisa, que me sustentou durante mais este projeto. À minha esposa Celina Moreira, pelo suporte, apoio e companheirismo nesta jornada. Sem o seu auxílio, nada disso seria possível. Aos meus filhos Timóteo e Daniela, motivadores contagiantes que forneceram momentos alegres em meio às dificuldades no trajeto. Aos meus pais, Edilberto e Kézia, por todo o investimento em minha vida que possibilitou essa caminhada. Também à minha tia Elda, pelo exemplo de dedicação nos estudos e no ensino. Ao meu professor e orientador Dr. Paulo Roberto Garcia, pela orientação fundamental no desenvolvimento da pesquisa. Também aos professores Dr. Paulo Augusto de Souza Nogueira e Dr. Marcelo da Silva Carneiro, pelos apontamentos necessários para o aperfeiçoamento da pesquisa. E aos demais professores com quem tive o prazer de conviver e aprender. Ao querido companheiro de ministério, Pr. Carlos Alberto dos Santos Bacoccina, amigo e incentivador nesta jornada. Aos amados membros da Igreja Batista Regular em Jardim Tremembé, apoiadores deste projeto através da amizade e vivência ministerial. Aos meus queridos mestres, hoje companheiros de ministério, que despertaram em mim o desejo de se aprofundar nos estudos da Bíblia: Carlos Bacoccina, Wagner Amaral, Pedro Evaristo, Joseph Arthur, Fernando Ferreira, entre tantos outros. Aos queridos seminaristas Adalberto Oliveira, João Neto e João Capputi, que continuem trilhando o caminho da dedicação no estudo teológico. Ao Seminário Batista Logos, ferramenta divina na minha formação, onde hoje tenho prazer de compartilhar o que tenho aprendido. Soli Deo Gloria.
(7) 7. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
(8) 8. RESUMO. O estrangeiro é uma figura que recebe atenção especial em todo o escrito bíblico. O Antigo Testamento contém diversos trechos nos quais a preocupação com o estrangeiro é revelada, principalmente pelo fato do próprio povo de Israel ter sido estrangeiro no Egito (Êxodo 22.21; 23.9; Deuteronômio 10.19). O Novo Testamento também apresenta trechos que defendem o cuidado com os estrangeiros e o valor destes. Assim, esta pesquisa tem como objeto a figura do estrangeiro nos escritos lucanos, partindo do texto de Lucas 10.25-37, a conhecida parábola do bom samaritano. Entretanto, mesmo diante dos textos acima citados, a literatura bíblica também demonstra os conflitos que existiam entre os judeus e os estrangeiros e a dificuldade de aceitação destes estrangeiros como membros de iguais direitos no cristianismo primitivo. Por essa razão, o objetivo desta pesquisa é analisar como a comunidade lucana foi desafiada a superar o problema da aceitação do estrangeiro. Essa análise considerará a influência dos estrangeiros na formação do cristianismo primitivo, verificará as tensões existentes quanto à aceitação destes estrangeiros e demonstrará como a questão da aceitação do estrangeiro é crucial no entendimento da parábola do bom samaritano e dos escritos lucanos como um todo. Portanto, esta pesquisa tem o intuito de demonstrar que a comunidade lucana apresentava dificuldades na aceitação do estrangeiro e que, por essa razão, o evangelho de Lucas e o livro de Atos dos Apóstolos apresentam, por diversas vezes, uma defesa desses estrangeiros ao propor que seguir a Cristo implica em amar e acolher o estrangeiro.. Palavras-chave: Estrangeiro. Etnicidade. Conflitos étnicos. Comunidade lucana. Lucas 10.2537..
(9) 9. ABSTRACT. The foreigner is a character who receives special attention throughout the biblical writing. The Old Testament contains several passages in which the concern for the foreigner is revealed, mainly because the people of Israel themselves were foreigners in Egypt (Exodus 22.21; 23.9; Deuteronomy 10.19). The New Testament also presents passages that advocate care for foreigners and their value. Thus, the foreigner in the Lucan writings is the object of this research, starting from the text of Luke 10: 25-37, the well-known parable of the Good Samaritan. However, despite the passages cited above, the biblical literature also demonstrates the conflicts that existed between Jews and foreigners and the difficulty of accepting these foreigners as members of equal rights in early Christianity. For this reason, the objective of this research is to analyze how the Lucan community was challenged to overcome the problem of foreign acceptance. This analysis will consider the influence of foreigners in the shaping of early Christianity, check existing tensions regarding the acceptance of these foreigners and demonstrate how the foreigner acceptance issue is crucial to the understanding of the Good Samaritan parable and of the Lucan writings as a whole. Therefore, this research is intended to demonstrate that the Lucan community had difficulties in accepting the foreigner and, for this reason, the Gospel of Luke and the book of the Acts of the Apostles present, several times, a defense of these foreigners by proposing that to follow Christ implies loving and embracing the foreigner.. Keywords: Foreigner. Ethnicity. Ethnic conflicts. Lucan Community. Luke 10.25-37..
(10) 10. SUMÁRIO. INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 12 CAPÍTULO 1 – JUDEUS E GENTIOS, UMA RELAÇÃO CONFLITUOSA: UM OLHAR A PARTIR DA COMUNIDADE LUCANA ......................................................... 16 1.1 Introdução ......................................................................................................................... 16 1.2 Questões sobre etnicidade ................................................................................................ 17 1.3 Identidade judaica no mundo do cristianismo primitivo .............................................. 22 1.4 Conflitos étnicos no mundo do cristianismo primitivo ................................................. 27 1.4.1 A relação conflituosa entre judeus e cristãos................................................................... 29 1.4.2 A relação conflituosa entre judeus e samaritanos ............................................................ 39 1.5 Conflitos étnicos na comunidade lucana ........................................................................ 47 1.6 Conclusão .......................................................................................................................... 50 CAPÍTULO 2 – O ESTRANGEIRO COMO MODELO DE FÉ: UMA ABORDAGEM EXEGÉTICA EM LUCAS 10.25-37 ..................................................................................... 52 2.1 Introdução ......................................................................................................................... 52 2.2 Aspectos introdutórios ao evangelho de Lucas .............................................................. 53 2.2.1 Escrita do evangelho de Lucas ........................................................................................ 53 2.2.2 Data do evangelho de Lucas ............................................................................................ 53 2.2.3 Origem do evangelho de Lucas ....................................................................................... 54 2.2.4 Composição e estrutura literária do evangelho de Lucas ................................................ 56 2.2.5 Propósitos e temas do evangelho de Lucas ..................................................................... 60 2.3 Aspectos introdutórios à análise de parábolas ............................................................... 62 2.4 Tradução de Lucas 10.25-37 ............................................................................................ 66 2.5 Estrutura de Lucas 10.25-37 ............................................................................................ 69 2.5.1 Estrutura dos diálogos ..................................................................................................... 70 2.5.2 Estrutura da parábola ....................................................................................................... 71 2.6 Análise de Lucas 10.25-37 ................................................................................................ 73 2.6.1 O primeiro diálogo (Lc 10.25-28) ................................................................................... 73 2.6.1.1 A pergunta do doutor da lei (v.25) ............................................................................... 73 2.6.1.2 A pergunta de Jesus (v.26) ........................................................................................... 75 2.6.1.3 A resposta do doutor da lei (v.27) ................................................................................ 76.
(11) 11. 2.6.1.4 A resposta de Jesus (v.28) ............................................................................................ 77 2.6.2 O segundo diálogo (Lc 10.29-37) .................................................................................... 78 2.6.2.1 A pergunta do doutor da lei (v.29) ............................................................................... 78 2.6.2.2 A parábola do bom samaritano (v.30-35) ..................................................................... 81 2.6.2.2.1 Os ladrões (v.30)........................................................................................................ 81 2.6.2.2.2 O sacerdote (v.31)...................................................................................................... 82 2.6.2.2.3 O levita (v.32) ............................................................................................................ 84 2.6.2.2.4 O samaritano (v.33) ................................................................................................... 85 2.6.2.2.5 O samaritano e o ato dos ladrões (v.34a)................................................................... 87 2.6.2.2.6 O samaritano e a omissão do sacerdote (v.34b) ........................................................ 88 2.6.2.2.7 O samaritano e a omissão do levita (v.35)................................................................. 89 2.6.2.3 A pergunta de Jesus (v.36) ........................................................................................... 90 2.6.2.4 A resposta do doutor da lei (v.37a)............................................................................... 91 2.6.2.5 A resposta de Jesus (v.35b) .......................................................................................... 92 2.7 Conclusão .......................................................................................................................... 93 CAPÍTULO 3 – SENTADOS À MESMA MESA: A PROPOSTA DE SUPERAÇÃO DOS CONFLITOS ENTRE JUDEUS E ESTRANGEIROS NO CRISTIANISMO LUCANO ................................................................................................................................. 95 3.1 Introdução ......................................................................................................................... 95 3.2 Proposta de superação dos conflitos no evangelho de Lucas ........................................ 95 3.2.1 Lucas 17.11-19: Um samaritano como modelo de fé e conduta ..................................... 97 3.2.2 Lucas 7.1-10: Um centurião romano como modelo de fé e conduta ............................. 103 3.2.3 Lucas 7.36-50: Uma mulher pecadora como modelo de fé e conduta .......................... 108 3.3 Proposta de superação dos conflitos em Atos dos Apóstolos ...................................... 114 3.3.1 Atos 8.4-8; 14-17; 25: A recepção dos samaritanos na comunidade cristã ................... 114 3.3.2 Atos 10.1-16; 44-48: A recepção dos gentios na comunidade cristã............................. 119 3.3.3 Atos 6.1-6: A recepção dos judeus helenistas na comunidade cristã ............................ 124 3.4 Conclusão ........................................................................................................................ 129 CONCLUSÃO....................................................................................................................... 131 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 135 ANEXO: TRADUÇÃO DETALHADA DE LUCAS 10.25-37..........................................144.
(12) 12. INTRODUÇÃO A comunidade lucana foi uma comunidade marcada por conflitos étnicos, em especial com os estrangeiros. O escrito lucano, em sua construção, busca superar estes conflitos. Para isso, em muitos textos os estrangeiros ocupam papel de destaque. O objetivo desta pesquisa é a partir do texto em Lc 10.25-37, conhecido como “a parábola do bom samaritano”, mostrar como o estrangeiro é apresentado como modelo de fé, e a partir disso apresentar caminhos de superação destes conflitos étnicos fronteiriços. O título da pesquisa, “Vai tu e faze o mesmo”, surge do último dito de Jesus no texto de Lucas 10.25-37. Com esta frase final, Jesus exorta o doutor da lei a agir da mesma forma que o samaritano da passagem. Assim, o samaritano considerado pior do que o gentio torna-se um modelo de fé a ser seguido. O problema principal que a pesquisa visa tratar diz respeito aos conflitos étnicos que existiam entre judeus e gentios no mundo do cristianismo primitivo, conflitos que partiam dos conceitos de pureza que os judeus criam e que impossibilitavam a comunhão com os estrangeiros que se convertiam à fé cristã. Portanto, a pesquisa parte do entendimento que os escritos lucanos propõem a superação destes conflitos ao destacar que o estrangeiro, tido como impuro e inferior, pode ser um modelo de fé para o judeu, devendo ser aceito como membro da comunidade cristã com os mesmos direitos. Para atingir os objetivos, será realizado um estudo bibliográfico, tratando sobre os conceitos de etnicidade e conflitos étnicos, abordando a respeito de como era o mundo no cristianismo primitivo e na comunidade lucana, e fazendo um estudo exegético da passagem chave para esta pesquisa, Lucas 10.25-37. Além disso, a fim de demonstrar que este não é um texto isolado, também será realizada uma breve análise em outros textos, tanto do evangelho de Lucas quanto do livro de Atos dos Apóstolos, visando comprovar que estes textos também fornecem destaque ao estrangeiro como uma forma de superar os conflitos existentes na comunidade lucana. Portanto, os resultados esperados desta pesquisa são: a demonstração de como os escritos lucanos destacam a figura do estrangeiro e como esse destaque serve de estratégia para superar os conflitos que existiam na comunidade lucana entre os judeus e os estrangeiros. Assim, essa pesquisa visa comprovar a hipótese de que existiam conflitos étnicos no meio da.
(13) 13. comunidade lucana e que estes conflitos seriam superados por meio da aceitação do estrangeiro como alguém que poderia ser visto como um referencial de conduta e fé, promovendo adaptação e possibilidade de convívio entre os primeiros cristãos. A relevância desta pesquisa encontra-se no estudo referente à realidade do cristianismo primitivo. Pesquisas têm sido realizadas, fornecendo auxílio na compreensão das peculiaridades presentes nas primeiras comunidades cristãs, dessa forma, esta pesquisa se junta às demais, concentrando seus esforços na relação da comunidade cristã primitiva com os estrangeiros que aderiam à fé cristã. Outro aspecto relevante presente nesta pesquisa é a análise exegética do texto de Lucas 10.25-37. Esta análise é relevante porque fornecerá auxílio aos estudiosos da religião e teologia bíblica e aos interessados no exercício exegético, sejam cientistas da religião, teólogos ou demais estudiosos. Além disso, pode-se notar que apesar de diferente, a sociedade do século XXI também apresenta diversos conflitos e dificuldades no relacionamento com o estrangeiro. Os conflitos étnicos e a xenofobia ainda são fortemente evidenciados em diversos lugares do mundo. Diante dessa realidade, a pesquisa ganha importância, pois além de auxiliar na identificação e proposta de superação dos conflitos com o estrangeiro no cristianismo primitivo, também serve como um auxílio para lidar com esses conflitos nos dias atuais. A pesquisa será divida em três capítulos. O primeiro capítulo terá como objetivo discutir os conflitos entre judeus e estrangeiros e seu impacto na comunidade lucana. Para atingir este objetivo, serão abordadas algumas definições teóricas relativas aos conceitos de etnicidade que nortearão a abordagem no restante da pesquisa. Os principais conceitos analisados estarão relacionados às questões de fronteiras e conflitos étnicos. O primeiro capítulo também tratará a respeito da identidade judaica no mundo do cristianismo primitivo. Será demonstrado que a identidade judaica deve ser vista de maneira plural e não singular. Por isso, muitos estudiosos preferem classificar como judaísmos e não como judaísmo, devido aos diversos grupos distintos presentes dentro do que é considerado judaísmo. Além disso, será notada a influência da cultura greco-romana e das circunstâncias da época na formação desta identidade judaica..
(14) 14. Ainda no primeiro capítulo, será realizada uma análise dos conflitos étnicos presentes no mundo do cristianismo primitivo. Essa análise se concentrará em duas relações conflituosas: a relação entre judeus e cristãos e a relação entre judeus e samaritanos. Será demonstrado que os conflitos existentes entre judeus e estrangeiros, e judeus e samaritanos estavam fortemente presentes no mundo do cristianismo primitivo, tendo forte influência nas comunidades cristãs. Por fim, o primeiro capítulo se encerrará através de uma breve análise das evidências que demonstram a presença destes conflitos étnicos nos escritos lucanos, demonstrando brevemente como os escritos lucanos propõem a superação de conflitos visando o benefício e sobrevivência da comunidade lucana. O segundo capítulo terá como objetivo realizar uma exegese em Lc 10.25-37, verificando de que maneira o estrangeiro é apresentado como modelo de fé. Como auxílio à compreensão da passagem, primeiramente serão abordados alguns aspectos introdutórios ao evangelho de Lucas, como: escrita, data, origem, composição, estrutura literária, propósitos e temas do evangelho. Também serão abordadas algumas diretrizes para a análise de parábolas, visando auxiliar na interpretação da passagem em Lucas 10.25-37. Após tratar destes aspectos introdutórios ao terceiro evangelho e à análise de parábolas, será apresentada uma proposta de tradução do texto em Lucas 10.25-37, a partir do texto grego. Esta tradução visa encontrar elementos nos termos e estruturas gramaticais que geralmente se perdem na tradução. Em seguida, a pesquisa analisará a estrutura da passagem, destacando tanto os diálogos entre Jesus e o doutor da lei, quanto a estrutura da parábola do bom samaritano, visando facilitar a compreensão do texto. Por fim, o segundo capítulo será encerrado com a análise pormenorizada do texto em Lucas 10.25-37. Essa análise seguirá a estrutura anteriormente destacada e fornecerá comentários elucidativos ao texto, visando demonstrar como a passagem traz destaque ao estrangeiro samaritano como um modelo de fé e conduta a ser seguido. E como dito, a pesquisa entende que tal destaque é uma estratégia para superar os conflitos étnicos existentes na comunidade lucana. O terceiro e último capítulo da pesquisa terá como objetivo demonstrar como os escritos lucanos, como um todo, propõem a superação dos conflitos étnicos existentes na.
(15) 15. comunidade lucana. Dessa forma, este capítulo visa demonstrar que o texto em Lucas 10.2537 não é uma passagem isolada, mas corrobora a visão lucana que destaca o estrangeiro como modelo a ser seguido. Para atingir tal objetivo, o terceiro capítulo analisará brevemente outras seis passagens nos escritos lucanos; três no terceiro evangelho e três no livro de Atos dos Apóstolos. As primeiras passagens de cada livro tratarão sobre a aceitação do samaritano, as segundas passagens tratarão sobre a aceitação dos gentios e as terceiras passagens tratarão sobre a aceitação de outras pessoas que eram alvo de exclusão por práticas e costumes distintos, demonstrando que o alvo de preconceito nem sempre é apenas o estrangeiro, mas o diferente, que também deve ser acolhido na mesma comunidade de fé. Assim, este capítulo demonstrará evidências de como os escritos lucanos se posicionam nas questões referentes aos conflitos étnicos, propondo uma mudança de visão aos membros de sua comunidade, pois através destas passagens, aquele que era visto como impuro e separado, deve ser considerado como modelo de fé e pertencente à mesma comunidade. Portanto, tendo exposto os objetivos, metodologia, estrutura e aspectos introdutórios que serão abordados, a presente pesquisa partirá agora para o desenvolvimento de sua proposta no primeiro capítulo..
(16) 16. Capítulo 1 Judeus e gentios, uma relação conflituosa: um olhar a partir da comunidade lucana 1.1 Introdução O conceito de identidade étnica tem sido objeto de pesquisa e debate, inclusive no campo religioso. Discernir quem eram as primeiras comunidades cristãs e as diversas influências que ajudaram em sua formação é uma tarefa fundamental para o entendimento da questão. Porém, essa definição identitária não é simples de ser realizada. Como afirma Carneiro: Determinar quem sou é tão complexo quanto determinar o mundo ao meu redor. Deste modo, as crenças, gostos, pertença a grupos ou agremiações, hábitos, profissão, linguagem, o gestual, costumes, tudo isto está vinculado a fatores determinantes como etnia, região geográfica, educação, que por sua vez são condicionados historicamente de maneira dialética. 1. Além disso, outra dificuldade da questão quando relacionada aos escritos bíblicos se encontra na leitura romantizada dos textos sobre as origens cristãs. Paulo Nogueira descreve essa visão otimista das primeiras comunidades cristãs que partilhavam da mesma doutrina, espiritualidade e até do mesmo pão, que vendiam suas propriedades para socorrer os necessitados, exercendo solidariedade e persistência em meio às perseguições (At 2.42-47; At 4.23-35).2 Entretanto, Nogueira demonstra como Lucas fornece algumas informações destoantes, que indicavam contenda entre os discípulos e entre grupos distintos dentro da própria comunidade cristã. Em Atos 6, a narrativa relata a murmuração dos helenistas contra os hebreus devido ao fato das viúvas deste grupo serem esquecidas na distribuição diária de alimentos. Dessa forma, o texto demonstra uma discriminação dos helenistas por parte dos hebreus, realçando o relacionamento conflitivo que havia entre esses grupos na origem da comunidade cristã3.. 1. CARNEIRO, Marcelo. Os evangelhos sinóticos: origens, memória e identidade. São Paulo: Fonte Editorial, Edições Terceira Via, 2016, p.99. 2 NOGUEIRA, Paulo. Experiência religiosa e crítica social no cristianismo primitivo. São Paulo: Paulinas, 2003, p.96-101. 3 NOGUEIRA, Paulo. Idem. São Paulo: Paulinas, 2003, p.100-101..
(17) 17. Portanto, nota-se que os conflitos, inclusive étnicos, estavam presentes desde a origem das primeiras comunidades cristãs. Assim, este capítulo tratará sobre questões a respeito da identidade étnica e dos conflitos étnicos existentes nas comunidades cristãs, especialmente no relacionamento entre judeus e estrangeiros.. 1.2 Questões sobre etnicidade Como dito acima, para que haja um entendimento sobre os conflitos existentes entre diversos grupos no cristianismo primitivo faz-se necessário examinar alguns conceitos relacionados às questões identitárias, como a etnicidade. Philippe Poutignat e Jocelyne StreiffFenart, na obra Teorias da etnicidade, apresentam seis concepções distintas a respeito do conceito etnicidade, mostrando as diferenças existentes entre os teóricos sobre o tema. Essas abordagens são apresentadas da seguinte maneira: (1) a etnicidade como dado primordial; (2) a etnicidade como extensão do parentesco: o paradigma sociobiológico; (3) a etnicidade como expressão de interesses comuns: as teorias instrumentalistas e mobilizacionistas; (4) a etnicidade como reflexo dos antagonismos econômicos: as teorias neomarxistas; (5) a etnicidade como sistema cultural: as abordagens neoculturais; e (6) a etnicidade como forma de interação social.4 Fredrik Barth é um dos grandes referenciais teóricos a respeito do assunto, abordando questões e perspectivas importantes sobre fronteiras étnicas e o funcionamento das interações entre grupos étnicos. Ele defende a visão da etnicidade como forma de interação social, e em seu livro Ethnic groups and boundaries, o autor demonstra que, na literatura antropológica, grupo étnico é definido como uma população que: (1) perpetua-se amplamente de forma biológica; (2) compartilha valores culturais fundamentais, realizados em evidente unidade nas formas culturais; (3) integra um campo de comunicação e interação; e (4) integra um grupo de membros que se identifica e é identificado por outros como uma categoria distinguível de outras categorias do mesmo tipo.5. 4. POUTIGNAT, Philippe & STREIFF-FENART, Jocelyne. Teorias da etnicidade. Seguido de grupos étnicos e suas fronteiras de Fredrik Barth. São Paulo: Editora da UNESP, 1998, p.85-121. 5 BARTH, Fredrik. Ethnic Groups and Boundaries: the social organization of culture difference. Boston: Little, Brown and Company, 1969, p.10-11..
(18) 18. Entretanto, o autor faz uma crítica a essa visão, mostrando que essa definição impede de entender adequadamente o fenômeno dos grupos étnicos e o seu lugar na sociedade humana e na cultura. Mais grave do que isso é o fato que essa visão permite assumir que a manutenção das fronteiras não é algo problemático e é decorrente dos fatores listados acima, limitando assim os fatores utilizados para explicar a diversidade cultural, e conduzindo ao pensamento que cada grupo desenvolve sua forma cultural e social em relativo isolamento. Segundo Barth, essa visão produziu um mundo de povos separados, cada um com sua própria cultura e organizado em uma sociedade passível de isolamento legítimo, descrevendo-a como se fosse uma ilha.6 A crítica de Barth era realizada a uma visão objetivista que havia prevalecido nos estudos antropológicos a respeito da etnicidade. “Os objetivistas enxergam os grupos étnicos como entidades sociais e culturais com fronteiras distintas caracterizadas por um relativo isolamento e falta de interação”.7 Entretanto, após a pioneira obra de Barth, uma nova perspectiva a respeito das questões étnicas foi desenvolvida, essa perspectiva ficou conhecida como abordagem subjetivista. De acordo com Siân Jones, os subjetivistas consideram os grupos étnicos como categorizações culturalmente construídas que expressam a interação social e comportamento, definindo grupos étnicos com base nas próprias categorizações subjetivas das pessoas estudadas.8 Assim, boa parte dos estudos recentes sobre etnicidade partilha da premissa que a identidade étnica manifestada pelos diversos grupos deve ser entendida como algo mutável e relacional, e não mais aprendida como algo essencial, como afirmavam os estudos anteriores. Como afirma Mônica Selvatici: Trata-se de um elemento relacional porque depende das relações entre o grupo em questão e os grupos ao seu redor; e é mutável porque estas relações são, por sua vez, também mutáveis e dependentes da ação e da interação entre diferentes aspectos sócio históricos e culturais.9. 6. BARTH, Fredrik. Idem, p.11. SELVATICI, Mônica. Os judeus helenistas e a primeira expansão cristã: questões de narrativa, visibilidade histórica e etnicidade no livro dos Atos dos Apóstolos. Tese (Doutorado em História) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006, p.16. 8 JONES, Siân. The Archaeology of Ethnicity: constructing identities in the past and present. London & New York: Routledge, 1997, p.57. 9 SELVATICI, Mônica. Os judeus helenistas e a primeira expansão cristã: questões de narrativa, visibilidade histórica e etnicidade no livro dos Atos dos Apóstolos. Tese (Doutorado em História) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006, p.16. 7.
(19) 19. Além da tensão entre a visão objetivista e subjetivista, Siân Jones descreve outra dificuldade em relação às definições de etnicidade: a tensão entre especificidade e generalidade. Segundo o autor, algumas definições são tão amplamente genéricas que dificultam o uso analítico de casos particulares, por outro lado, algumas definições são tão estreitas que torna sua função meramente descritiva.10 Todavia, mesmo diante dessas tensões, o próprio Jones conclui que as definições e discussões dos conceitos relacionados às questões de etnicidade facilitaram a análise das dimensões sociais dos grupos étnicos e preencheram um vazio teórico na análise das relações intergrupais.11 Um desses conceitos importantes que facilitam a análise das questões relativas à etnicidade é o conceito de fronteiras étnicas. Izidoro ressalta a importância do conceito para a formação da identidade étnica da seguinte maneira: Os sujeitos articulam-se e interagem nas fronteiras geográficas, como também nas fronteiras étnicas, em função de necessidades naturais ou exigências socioculturais de mobilidade física, como é o caso da diáspora judaica e cristã; assim se forjaram e constituíram os elementos e valores que irão caracterizar e determinar suas identidades e diferenciá-las de outras.12. O conceito de fronteiras étnicas se tornou relevante justamente devido a essa visão mais subjetiva e relacional da etnicidade, pois uma vez que se coloca a ênfase nos critérios sociais e subjetivamente construídos de filiação a um grupo, então se torna necessário o afastamento da visão objetivista baseada no conteúdo de um grupo étnico e faz-se necessário, em vez disso, a consideração de suas fronteiras que auxiliam na formação da identidade de determinado grupo através de suas relações.13 Como afirma Sanders, “as fronteiras étnicas são, portanto, melhor compreendidas pelos meios sociais através dos quais a associação entre grupos transparece, e não como demarcações territoriais”14 Dessa forma, a noção de fronteiras étnicas proposta por Fredrik Barth se tornou um elemento central no estudo da etnicidade, pois são as fronteiras étnicas que possibilitam a 10. JONES, Siân. The Archaeology of Ethnicity: constructing identities in the past and present. London & New York: Routledge, 1997, p.57. 11 JONES, Siân. Idem, p.64. 12 IZIDORO, José Luiz. Fronteiras e identidades fluidas no cristianismo da Galácia. Tese (Doutorado em Ciências da Religião). Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2010, p.20. 13 HALL, Jonathan M. Ethnic Identity in Greek Antiquity. Cambrigde/New York: Cambrigde University, 1997, p.24. 14 SANDERS, Jimy M. M. Ethnic boundaries and identity in plural societies. Annual Review of Sociology. South Carolina: University of South Carolina, v. 28, 2002, p.327. [Tradução nossa].
(20) 20. distinção entre grupos étnicos, resultando em uma organização de grupos distintos que destacam a diferença “nós x eles”. Segundo Philippe Poutignat e Jocelyne Streiff-Fenart, o caráter inovador da proposta de Barth: Liga-se à ideia de que são em realidade tais fronteiras étnicas e não o conteúdo cultural interno que definem o grupo étnico e permitem que se dê conta de sua persistência. Estabelecer sua distintividade significa, para um grupo étnico, definir um princípio de fechamento e erigir e manter uma fronteira entre ele e os outros a partir de um número limitado de traços culturais. 15. Essa identificação social também é uma das bases para o conceito de identidade, pois um grupo social é um conjunto de indivíduos que compartilham a visão de que são membros de uma mesma categoria social.16 Assim, os que possuem semelhanças são caracterizados como membros de um grupo, contrastando com outros que possuem diferenças e por isso são caracterizados como pessoas que estão fora daquele grupo. Por isso, possuir uma identidade social específica significa ser como os outros no grupo e ver as coisas da perspectiva do grupo.17 Diferentemente do que alguns estudiosos pensavam, a interação com outros grupos fronteiriços é fundamental na formação da identidade de determinado grupo. Como afirma Izidoro: A identidade étnica constrói-se a partir das diferenças e da alteridade que caracterizam os grupos sociais, a partir do processo dinâmico de interação entre fronteiras. Não é o isolamento ou a abdicação à interação com outros grupos sociais que irá criar a consciência de pertença e identificação do sujeito com seu grupo, mas sim a comunicação das diferenças das quais os indivíduos se apropriam para estabelecerem fronteiras étnicas.18. Denis Cuche também ressalta que “não há identidade em si, nem mesmo unicamente para si. A identidade existe sempre em relação a uma outra. Ou seja, identidade e alteridade são ligadas e estão em uma relação dialética. A identificação acompanha a diferenciação”.19 Portanto, podemos concluir que essa interação por meio das fronteiras fortalecia o sentimento de pertencimento e o conceito identitário de determinado grupo. As diferenças se tornam mais evidentes quando contrastadas em uma região fronteiriça, realçando os sentimentos étnicos e gerando conflitos entre os grupos opostos.. 15. POUTIGNAT, Philippe & STREIFF-FENART, Jocelyne. Teorias da etnicidade. Seguido de grupos étnicos e suas fronteiras de Fredrik Barth. São Paulo: Editora da UNESP, 1998, p.153. 16 BURKE, Peter J.; STETS, Jan E. Identity Theory and Social Identity Theory. Social Psychology Quarterly. Washington: Washington State University, American Sociological Association, v. 63, n. 3, 2000, p.225. 17 BURKE, Peter J.; STETS, Jan E. Identity Theory. New York: Oxford University Press, 2009, p.114. 18 IZIDORO, José Luiz. Fronteiras e identidades fluidas no cristianismo da Galácia. Tese (Doutorado em Ciências da Religião). Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2010, p.21. 19 CUCHE, Denis. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru: EDUSC, 1999, p.183..
(21) 21. Porém, não se pode esquecer que essas identidades e fronteiras não eram estáticas, mas fluidas, pois as pessoas possuem múltiplas autorrepresentações, comportam-se de diferentes maneiras em contextos diversos, em constante mutação20 em uma sociedade que é dinâmica. Essa diferença se dá na forma de interagir com as fronteiras de acordo com as necessidades do grupo. Como afirma Carneiro, essa interação se dá “ao se negociar ou resistir, buscando assim manter a existência do grupo. Nos dois casos se dá a luta de poder, pelo qual os grupos são socialmente percebidos como dominantes ou minoritários”.21 A respeito disso Denis Cuche afirma que: Em uma situação de dominação caracterizada, a hetero-identidade (identidade definida por outro grupo) se traduz pela estigmatização dos grupos minoritários. Ela leva frequentemente neste caso ao que chamamos uma "identidade negativa". Definidos como diferentes em relação à referência que os majoritários constituem, os minoritários reconhecem para si apenas uma diferença negativa. 22. Em seu artigo sobre fronteiras culturais, Simon Harrison destaca que existem dois tipos principais de imaginários de fronteiras culturais utilizados para a formação da identidade étnica: a ameaça de invasão das formas culturais estrangeiras (poluição cultural) e o consumo ou apropriação indevida das formas culturais locais por parte dos estrangeiros (apropriação cultural). Segundo ele, o que ambos possuem em comum é a utilização da ameaça de extinção destas fronteiras culturais para a formação deste imaginário.23 É justamente neste contexto em que os conflitos étnicos se evidenciam. Em situações de tensão e de luta pelo poder as diferenças são realçadas e utilizadas para desprezar e diminuir o outro grupo étnico fronteiriço, na busca da exaltação do grupo a que se pertence. As diferenças podem ser realçadas em diversas áreas: sexual, racial, religiosa, etária, social, intelectual, entre outras. Peter Burke também descreve a relação entre os conflitos, o estresse e o processo identitário ao demonstrar que “uma ampla variedade de situações que se mostram provocadoras de ansiedade ou angústia tem um mecanismo em comum: todas envolvem rupturas ou interrupções de processos identitários”.24. 20. NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza; FUNARI Pedro Paulo A; COLLINS, John J. (Orgs.). Identidades fluidas no judaísmo antigo e no cristianismo primitivo, São Paulo: Annablume/Fapesp, 2010. p. 14. 21 CARNEIRO, Marcelo. Os evangelhos sinóticos: origens, memória e identidade. São Paulo: Fonte Editorial, Edições Terceira Via, 2016, p.104. 22 CUCHE, Denis. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru: EDUSC, 1999, p.184. 23 HARRISON, Simon. Cultural boundaries. Anthropology Today. London: Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, v. 15, n. 5, Oct. 1999, p.10. 24 BURKE, Peter J. Identity processes and social stress. American Sociological Review. Nashville: American Sociological Association, v. 56, n. 6, Dec. 1991, p.846. [Tradução nossa].
(22) 22. Diante disso, a presente pesquisa utilizará esses conceitos teóricos relacionados à questão da etnicidade para aprofundar o conceito da identidade judaica no mundo do cristianismo primitivo. Assim, serão vistos a seguir alguns elementos formadores da identidade judaica no período o século 1 d.C., bem como a influência desta identidade na formação das primeiras comunidades cristãs.. 1.3 Identidade judaica no mundo do cristianismo primitivo Tendo como base as definições consideradas anteriormente, essa pesquisa abordará a identidade judaica no período do primeiro século. “O judaísmo do I século deve ser visto como um fenômeno plural, multifacetário e marcado por diversos movimentos que conviviam em tensão político-teológica”.25 Essa pluralidade que formava a identidade judaica do primeiro século era reflexo da influência fornecida pelas fronteiras geográficas e socioculturais com o mundo greco-romano e também com o surgimento das primeiras comunidades cristãs. Por isso, alguns autores, preferem falar sobre judaísmos e não judaísmo, destacando justamente essa pluralidade de identidade dentro do que é conhecido como judaísmo. Como afirma Jacob Neusner, não podemos definir o judaísmo, mas judaísmos que se definem a partir da identificação da comunidade judaica particular que está por trás de um conjunto de escritos que revelam seus valores.26 Evidentemente, esse fenômeno não traz implicações apenas sobre o judaísmo, mas também no que ficou conhecido como helenismo e na própria formação do cristianismo, como será discutido posteriormente, pois nenhuma destas categorias deve ser analisada de maneira isolada e imutável, mas por meio desse processo dinâmico de interação com outros grupos na cultura em que estão inseridos.27 Martin Hengel, em sua obra Judaism and Hellenism destacou as diversas influências que existiram na relação entre o judaísmo e o helenismo. Ele traça essas influências em diversas áreas, como: o comércio, a política, questões militares, a economia, a estrutura social,. 25. GARCIA, Paulo Roberto. Sábado: a mensagem de Mateus e a contribuição judaica. São Paulo: Fonte Editorial, 2010, p.17. 26 NEUSNER, Jacob. Three Questions of Formative Judaism: history, literature, and religion. Boston, Leiden: Brill Academic Publishers, Inc. 2002, p.8. 27 CHEVITARESE, André Leonardo; CORNELLI, Gabriele. Judaísmo, cristianismo, helenismo: ensaios sobre interações culturais no Mediterrâneo antigo. Itu: Ottoni, 2003, p.16..
(23) 23. a linguagem, a educação, a cultura e a religião.28 Segundo o autor, o helenismo deve ser tratado como um fenômeno complexo que não se limita a aspectos puramente políticos, socioeconômicos, culturais ou religiosos, mas engloba todos eles. Portanto, o encontro entre judaísmo e helenismo só pode ser descrito de uma maneira complexa.29 De acordo com Sampley, não é possível fazer uma separação plena entre judaísmo e helenismo no contexto do primeiro século, pois “todos os judaísmos na época do início do cristianismo já estão helenizados; já estão marcados até certo ponto pelo onipresente influxo do mundo greco-romano e por seu ethos”.30 Além disso, Louis Feldman demonstra que existe uma tendência de generalização a respeito dos judeus em diversos escritores, porém, segundo o autor, as diferenças nas sinagogas escavadas na diáspora dependem do contexto geral da situação local. 31 Assim, essas diferenças moldavam o judaísmo presente naquela localidade, formando vertentes que mantinham elementos centrais, mas que ao mesmo tempo se distanciavam de outros elementos ao se relacionar com a sociedade em que estava inserido. Ao mesmo tempo em que a fluidez das fronteiras permite que se enxergue o judaísmo de maneira plural, a presença de características básicas permite sua distinção. Como afirma Stegemann, “apesar de todo o pluralismo, o judaísmo do período do segundo templo sempre foi marcado por uma série de características e instituições constantes, cujas raízes remontam ao período pré-exílico e suas tradições”.32 Segundo o autor, a principal destas características é o monoteísmo, pois este constituía o sinal incontestável e distintivo da religiosidade judaica. Além do monoteísmo, ele destaca a importância da Torá, do sábado, do calendário festivo, do templo, da circuncisão, das leis dietéticas e de pureza, das sinagogas e dos costumes religiosos das famílias.33 Wayne Meeks também destaca esta questão ao demonstrar essa relação ambígua dos judeus com a cultura circundante, principalmente em relação aos judeus da diáspora. Ele afirma que:. 28. HENGEL, Martin. Judaism and Hellenism: studies in their encounter in Palestine during the early hellenistic period. Philadelphia: Fortress Press, 1974. 29 HENGEL, Martin. Idem, p.3. 30 SAMPLEY, J. Paul. Paulo no mundo greco-romano: um compêndio. São Paulo: Paulus, 2008, p.XVI. 31 FELDMAN, Louis H. Jew and Gentile in the Ancient World: atitudes and interactions from Alexander to Justinian. New Jersey: Princeton University Press, 1993, p.65. 32 STEGEMANN, Ekkehard W; STEGEMANN, Wolfgang. História social do protocristianismo. São Leopoldo, RS: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2004, p.164. 33 STEGEMANN, Ekkehard W; STEGEMANN, Wolfgang. Idem. p.164-165..
(24) 24. Por seu turno, os judeus sabiam que sua verdadeira identidade dependia de eles conseguirem manter alguns limites distintos entre eles próprios e “as nações”. Contudo, também experimentavam fortes pressões para se conformarem com a cultura dominante das cidades, devido a razões de conveniência. Além disso, muitos deles experimentavam forte atração pelos valores dessa cultura, que, sob tantos aspectos, parecia harmonizar-se com seu próprio ethos e com suas tradições bíblicas.34. Entretanto, Feldman demonstra que algumas destas práticas também eram encontradas em outros povos. Ele exemplifica isso por meio da circuncisão, que também apresenta relatos no povo egípcio e etíope. Ainda assim, o autor afirma que quando os pagãos se referem às práticas judaicas mais distintas (circuncisão, observância do sábado e das leis dietéticas), eles o fazem deixando implícito que estas são características universalmente observadas pelos judeus.35 Mesmo dentro destas características distintivas, existiam diversos movimentos que conflitavam na busca por uma identidade judaica. Paulo Roberto Garcia destaca que a destruição “do Templo – espaço sagrado institucional – provocou desorientação geral na maioria do povo judaico e levou cada grupo existente a reivindicar para si a verdadeira identidade do judaísmo”.36 Segundo o autor, a existência destes movimentos que buscavam espaço no judaísmo do primeiro século “fornecia uma diversidade de posições teológicas que não admite o uso do singular para designar a fé judaica”.37 Dessa forma, constata-se que até nos elementos identitários do judaísmo existiam diversas correntes distintas, pois mesmo diante da utilização da Torá como texto norteador, existiam interpretações diferentes que proporcionavam a formação de grupos que conflitavam entre si na busca por identidade. Pearson demonstra essa diversidade ao listar seis posicionamentos diante da Torá: (1) aqueles que a interpretavam e seguiam literalmente; (2) aqueles que a interpretavam alegoricamente e seguiam suas interpretações; (3) aqueles que a interpretavam alegoricamente e abandonavam a prática dela; (4) aqueles que eram zombadores; (5) aqueles judeus que apostatavam; e (6) aqueles gentios que aderiam, tornando-se prosélitos.38 Como Nickelsburg conclui, “a interpretação não foi uniforme; um 34. MEEKS, Wayne A. Os primeiros cristãos urbanos: o mundo social do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulinas, 1992, p.64. 35 FELDMAN, Louis H. Jew and Gentile in the Ancient World: atitudes and interactions from Alexander to Justinian. New Jersey: Princeton University Press, 1993, p.48-49. 36 GARCIA, Paulo Roberto. Sábado: a mensagem de Mateus e a contribuição judaica. São Paulo: Fonte Editorial, 2010, p.20. 37 GARCIA, Paulo Roberto. Idem, p.22. 38 PEARSON, Birger A. Christians and jews in first-century Alexandria, In: George W. E. NICKELSBURG e George W. MACRAE (Eds.), Christians Among Jews and Gentiles. Philadelphia: Fortress, 1986, p.208..
(25) 25. dado texto ou conjunto de textos foi entendido de maneiras radicalmente diferentes por diferentes pessoas e comunidades religiosas”.39 Logo, pode-se notar que a definição da identidade judaica no mundo do cristianismo primitivo não é uma questão tão simples de ser tratada, pelo contrário, ela sofria diversas adaptações de acordo com suas relações socioculturais. Essa realidade é realçada na sociedade do Império Romano. Como afirma Izidoro: O Império Romano comportava em sua geografia uma variedade de povos e etnias, como também uma pluralidade de concepções religiosas, de tradições nacionais e locais judaicas, gregas, latinas, célticas, africanas e outras, o que possibilitava um grande leque de identidades que fluíam e interagiam entre si.40. Diante dessas relações com outros grupos no contexto do Império Romano, pode-se observar que a identidade judaica vivia em constante desenvolvimento através das interações com os costumes da cultura em que a população judaica da época estava inserida. Porém, Marcelo Carneiro destaca que houve um marco gerador de um afastamento do judaísmo palestinense em relação ao helenismo. Ele afirma que: O marco para um afastamento do judaísmo palestinense em relação ao helenismo, pelo menos da parte do povo, foi a tentativa de reformas helenísticas em Jerusalém pelos Tobíadas (séc. 3 a 2 a.C.). Por causa da tentativa de inserir elementos estranhos ao culto judaico, a revolta em defesa da religião tradicional de Israel gerou uma sensibilidade extrema dos judeus palestinenses contra qualquer tentativa de anular a lei e o santuário, o que se refletirá decididamente nos grupos judaicos no período romano, especialmente no séc. 1 d.C., com o surgimento da ideologia da apostasia. A partir daí o judaísmo palestinense, mas não só ele, procurará definir melhor suas fronteiras em relação aos demais grupos étnico-religiosos.41. Como citado acima, a destruição do Templo (um dos pilares da identidade judaica) gerou uma desorientação na maior parte do povo judeu, provocando a necessidade de ressignificação da religiosidade judaica à margem do Templo. Neste processo, a Torá se torna um elemento ainda mais importante, sendo utilizado como alternativa religiosa e como sustentação de poder para o grupo dos fariseus, que reclamavam para si o direito de interpretação da Torá.42. 39. NICKELSBURG George W.E. Ancient Judaism and Christian Origins: diversity, continuity, and transformation. Mineápolis: Fortress Press, 2003, p.21. [Tradução nossa] 40 IZIDORO, José Luiz. Fronteiras e identidades fluidas no cristianismo da Galácia. Tese (Doutorado em Ciências da Religião). Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2010, p.30-31. 41 CARNEIRO, Marcelo. Os evangelhos sinóticos: origens, memória e identidade. São Paulo: Fonte Editorial, Edições Terceira Via, 2016, p.110. 42 GARCIA, Paulo Roberto. Sábado: a mensagem de Mateus e a contribuição judaica. São Paulo: Fonte Editorial, 2010, p.47-48..
(26) 26. Neste período inicia-se o que fica conhecido pelos escritos de Jacob Neusner como judaísmo formativo, um período de produção literária organizado principalmente por integrantes do movimento dos fariseus, mas também por outros grupos, como o dos escribas.43 Os escritos vão desde o primeiro século até o sexto século d.C., e se tornam a “principal fonte que governa a forma como o judaísmo define o sistema da lei e da teologia da religião judaica, ultrapassando o conceito do sacrifício e da religião sacerdotal para práticas e crenças que já existiam no seu cotidiano e passaram por uma ressignificação”.44 Dessa maneira, pode-se notar que este importante processo de tensão no povo judeu gerou novas marcas identitárias para o judaísmo do primeiro século e dos anos posteriores. Como foi descrito nas teorias acima apresentadas, as relações conflituosas com outros grupos étnicos e as crises geradas influenciaram e incentivaram as questões étnicas e identitárias do judaísmo, formando novos conceitos e práticas como resultado destes conflitos. Como demonstra Garcia: O judaísmo formativo é uma resposta de fé a um momento crucial da história do povo judeu. Esta resposta já estava em gestação durante o período em que o Templo ainda existia e desenvolveu-se como uma forma de piedade que acontecia à margem da religiosidade do Templo. Com sua destruição, uma parte dos fariseus e integrantes de outros movimentos forjaram uma nova piedade que ofereceu ao povo, como alternativa ao Templo, orientação quanto às expectativas do serviço religioso e da expiação de pecados. Este movimento buscou fortalecer sua posição diante das outras respostas de fé que existiam e isso gerou conflitos que permearam todo o período do I e II século, de forma especial, e marcou todo o período de consolidação do judaísmo rabínico, o qual durou até o VI século. 45. Portanto, este período se torna fundamental no desenvolvimento da identidade judaica diante dos conflitos que a cercavam, afetando tão profundamente a mentalidade dos judeus, a ponto destes escritos se tornarem uma referência para a religiosidade e identidade do povo até os dias de hoje. Como diz Stegemann: O estudo da Torá, central na doutrina dos fariseus e sobretudo dos mestres da lei, a sua aplicação ao cotidiano, a observância do sábado e do dízimo, a fé na ressurreição e no juízo constituíam os fundamentos da existência judaica depois de 70 – mesmo sem culto no templo e sem Sinédrio. Parece, pois, que os fariseus desenvolveram, após a catástrofe da guerra judaico-romana e em conexão com a tradição doutrinária dos assim chamados mestres da lei e outros grupos sociologicamente relevantes (proprietários de terra e comerciantes), as bases de um judaísmo de orientação nova.. 43. GARCIA, Paulo Roberto. Idem, p.48. CARNEIRO, Marcelo. Os evangelhos sinóticos: origens, memória e identidade. São Paulo: Fonte Editorial, Edições Terceira Via, 2016, p.111. 45 GARCIA, Paulo Roberto. Sábado: a mensagem de Mateus e a contribuição judaica. São Paulo: Fonte Editorial, 2010, p.49. 44.
(27) 27. Paulatinamente, as convicções compartilhadas por essa “coalização” se estenderam a Israel como um todo.46. É justamente neste contexto em que se expressam as relações e conflitos entre os judeus e estrangeiros no mundo do cristianismo primitivo e dentro das próprias comunidades cristãs que estão em formação. Assim, essa pesquisa apresentará a seguir algumas características destes conflitos étnicos, demonstrando como esta questão foi relevante na formação identitária das primeiras comunidades cristãs.. 1.4 Conflitos étnicos no mundo do cristianismo primitivo Além do conceito de fronteiras étnicas, outra questão importante na análise da relação entre grupos étnicos é o conceito relacionado aos conflitos étnicos. Como visto anteriormente, a identidade dos grupos é realçada em meio às trocas que existem em suas fronteiras, e nesta relação, muitas vezes surgem os conflitos. Segundo Tope Omoniyi, os conceitos de mudança, acomodação e conflito são fenômenos sociais que tanto caracterizam como definem as relações entre dois contextos, pessoas ou grupos. Dessa forma, conflito e acomodação são respostas prováveis a essas relações, uma resistindo e divergindo, a outra abraçando e convergindo.47 A existência de diversos grupos em conflito no mundo do cristianismo primitivo revela a importância desta questão para as definições identitárias destes grupos. Ao ler os quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), é fácil identificar a linguagem de conflito existente. Como afirma Carneiro: Na “inclusão” e na exclusão”, situadas por meio das metáforas “nós” e “eles” que estão presentes nas narrativas evangélicas, percebe-se que a formação da identidade do grupo se faz em oposição e conflito com os grupos que são considerados ameaçadores à sobrevivência do “meu” grupo.48. Todavia, essa legitimação por meio dos conflitos não era exclusividade das primeiras comunidades cristãs em oposição ao judaísmo, mesmo porque não existia uma corrente única do judaísmo, como foi explicado acima. Assim, estes conflitos também ocorriam entre várias 46. STEGEMANN, Ekkehard W; STEGEMANN, Wolfgang. História social do protocristianismo. São Leopoldo, RS: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2004, p.254-255. 47 OMONIYI, Tope. The Sociology of Language and Religion: change, conflict and accommodation. New York: Palgrave Macmillan, 2010, p.1. 48 CARNEIRO, Marcelo. Os evangelhos sinóticos: origens, memória e identidade. São Paulo: Fonte Editorial, Edições Terceira Via, 2016, p.116..
(28) 28. vertentes do judaísmo49, e também com outros grupos além das primeiras comunidades cristãs. Louis Kriesberg, em seu livro The Sociology of Social Conflicts, faz uma análise sociológica dos conflitos entre grupos, destacando diversos elementos úteis para o entendimento dos conflitos existentes no mundo do cristianismo primitivo. O autor destaca que os conflitos sociais são inerentes às relações humanas, mas que nem toda relação de conflito é expressa com o mesmo grau de hostilidade ou violência, havendo variações de acordo com as diversas características de um conflito, como: as bases que o originaram, a duração de tempo do conflito, o modo de resolução utilizado para o conflito, e os resultados e consequências que o conflito produz.50 Outro autor que aborda a questão sociologicamente, Lewis Coser, define o conflito social como uma luta por valores, status, poder e recursos, tendo como objetivo neutralizar, ferir ou eliminar seus oponentes.51 Entretanto, essa questão não deve ser vista apenas por um viés negativo, pois o conflito é uma forma de socialização, e certo grau de conflito é um elemento essencial na formação e manutenção da vida em grupos.52 Como visto acima, os conflitos também servem para legitimar ideias e práticas de determinados grupos, estabelecendo fronteiras com outros grupos e defendendo sua visão como a correta em detrimento da visão do grupo fronteiriço. Por isso, os conflitos devem ser analisados como questões fundamentais na formação da identidade de um grupo. Além disso, Louis Kriesberg também destaca cinco dimensões que devem ser consideradas nos conflitos sociais: (1) a consciência – segundo o autor, a consciência de que existe uma incompatibilidade entre os grupos relacionados é um aspecto fundamental dos conflitos sociais, evocando emoções fortes e profundas e ações intensas; (2) a intensidade – outra dimensão destacada é a intensidade do conflito que pode variar de acordo com os sentimentos e comportamentos dos envolvidos, e também dos objetivos que se deseja atingir por meio dos conflitos; (3) a regulação – Kriesberg demonstra que a terceira dimensão do conflito se demonstra no grau em que ele é regulamentado ou institucionalizado por meio de regras e procedimentos que são estabelecidos para delimitar os comportamentos esperados 49. CARNEIRO, Idem, p.90. KRIESBERG, Louis. The Sociology of Social Conflicts. New Jersey: Prentice-Hall, Inc. 1973, p.12. 51 COSER, Lewis A. The Functions of Social Conflict. New York: The Free Press, 1956, p.8. 52 GAGER, John G. Kingdom and Community: the social world of early christianity. New Jersey: PrenticeHall, Inc. 1975, p.80. 50.
(29) 29. nesta relação de conflito; (4) a pureza – esta dimensão é avaliada por meio da avaliação da relação entre os grupos conflitantes, verificando se esta relação é puramente de conflito; e por fim, (5) a desigualdade de poder – a última dimensão destacada pelo autor é o grau de poder que cada grupo exerce sobre o outro, ou seja, a força coercitiva que um grupo pode exercer sobre o outro nesta relação de conflito.53 O autor também destaca que existem meios não coercitivos para alcançar os objetivos no conflito social. Ele afirma que existem outras duas formas de exercer influência sobre o outro grupo: a persuasão e as recompensas. Por meio da persuasão, o objetivo de um grupo é convencer o outro de que deve aderir aos seus objetivos, não por medo, mas por causa dos valores e interesses. Por outro lado, por meio de recompensas, um grupo oferece determinado privilégio desejado em troca de uma concessão que permite atingir o seu objetivo.54 Portanto, chega-se a conclusão que os conflitos não só existiam, como foram fundamentais para as distinções identitárias e étnicas nos diversos grupos presentes no primeiro século. Os diversos grupos existentes tentavam se legitimar por meio da distinção e do conflito com outros grupos, buscando demonstrar a superioridade de sua visão, discurso e prática. Como o objetivo desta pesquisa é analisar a relação entre judeus e estrangeiros no mundo do cristianismo primitivo (particularmente na comunidade lucana), e isso a partir do texto em Lucas 10.25-37, que realça a figura do samaritano; serão destacadas a seguir duas relações conflituosas que terão destaque na pesquisa: a relação entre judeus e cristãos e a relação entre judeus e samaritanos.. 1.4.1 A relação conflituosa entre judeus e cristãos Antes de tratar sobre os conflitos entre judeus e cristãos, faz-se necessário esclarecer que o judaísmo e o cristianismo não foram movimentos opostos desde o surgimento do cristianismo, e que este não deve ser visto simplesmente como uma ruptura com o judaísmo. A respeito deste assunto, Paulo Garcia, em sua pesquisa referente ao evangelho de Mateus, declara que: 53 54. KRIESBERG, Louis. The Sociology of Social Conflicts. New Jersey: Prentice-Hall, Inc. 1973, p.14-21. KRIESBERG, Louis. Idem. p.26..
(30) 30. Uma parte do cristianismo nascente, exemplificado por Mateus, deve ser visto como continuidade do judaísmo. Deste modo, os relatos de conflitos não representam uma ruptura, mas uma disputa pelo espaço religioso. O pressuposto, para reler o evangelho de Mateus, é o de que muitos cristãos do primeiro século permaneceram ligados ao judaísmo com uma identidade religiosa judaica e, entendendo-se a si mesmos como judeus que pertenciam a um movimento de renovação do judaísmo: o cristianismo.55. Paulo Garcia ainda afirma que boa parte da literatura bíblica do mundo ocidental foi calcada nessa visão de que a ruptura com o judaísmo foi um fenômeno fundante do cristianismo. Segundo o próprio autor, essa perspectiva teológica está enraizada em um antissemitismo histórico.56 Em seu livro sobre esse assunto (The Origins of Anti-Semitism), John Gager defende que os primeiros grupos que seguiam a Jesus devem ser vistos como movimentos religiosos dentro do próprio judaísmo, pois observavam os mandamentos da lei mosaica, adoravam no templo de Jerusalém e viram na pessoa de Jesus a concretização da promessa do profeta, mestre e messias que iniciaria os tempos finais da história.57 Gerd Theissen corrobora esta perspectiva ao afirmar que a visão que interpreta a ética de Jesus como uma superação da ética judaica da Torá é equivocada e anacrônica, pois “somente a partir da perspectiva dos cristãos posteriores, que há muito se tinham afastado do judaísmo, é que Jesus pode ser percebido dessa forma, como um contraste ao judaísmo. No contexto de seu próprio tempo, sua ética pertence ao judaísmo”.58 Isso não significa que não existiam conflitos entre as primeiras comunidades cristãs e as demais correntes presentes no judaísmo do primeiro século. Os conflitos existiam, porém, eram vistos como controvérsias dentro do próprio círculo do judaísmo, assim como existiam outros movimentos judaicos como a comunidade de Qumran, os zelotes, os fariseus, entre outros.59 David Flusser também destaca que as diversas noções comuns presentes nos Manuscritos do Mar Morto ajudam a compreender alguns aspectos importantes do. 55. GARCIA, Paulo Roberto. Sábado: a mensagem de Mateus e a contribuição judaica. São Paulo: Fonte Editorial, 2010, p.19. 56 GARCIA, Paulo Roberto. Idem, p.18. 57 GAGER, John G. The Origins of Anti-semitism: attitudes toward Judaism in pagan and Christian antiquity. London: Oxford University Press, 1985, p.113. 58 THEISSEN, Gerd. A religião dos primeiros cristãos: uma teoria do cristianismo primitivo. São Paulo: Paulinas, 2009, p.49. 59 GAGER, John G. The Origins of Anti-semitism: attitudes toward Judaism in pagan and Christian antiquity. London: Oxford University Press, 1985, p.113..
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