GONÇALO GOMES RIBEIRO SANDE SIMÕES
RELATÓRIO FINAL DE ESTÁGIO NA EQUIPA DE
FUTEBOL INICIADOS A DO SPORTING CP –
2016/2017: O TREINO DE GUARDA-REDES
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
Faculdade de Educação Física e DesportoLisboa 2018
Presidente: Professor Doutor Luís Fernandes Monteiro Orientador: Professor Doutor Luís Miguel Rosado da Cunha Massuça
GONÇALO GOMES RIBEIRO SANDE SIMÕES
RELATÓRIO FINAL DE ESTÁGIO NA EQUIPA DE
FUTEBOL INICIADOS A DO SPORTING CP –
2016/2017: O TREINO DE GUARDA-REDES
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
Faculdade de Educação Física e DesportoRelatório de Estágio apresentado para a obtenção de Grau de Mestre em Futebol – Da Formação à Alta Competição, defendido em prova pública na Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologias, no dia 06/06/2018, perante o júri nomeado pelo despacho de nomeação nº 191/2018, com a seguinte composição:
Presidente: Professor Doutor Luís Fernandes Monteiro
Orientador: Professor Doutor Luís Miguel Rosado da Cunha Massuça Arguente: Professor Doutor Jorge dos Santos Proença Martins
Agradecimentos
Para a realização deste relatório, tornou-se fundamental a cooperação e ajuda de algumas pessoas, sem as quais não teria sido possível elaborá-lo e às quais devo deixar uma palavra de agradecimento.
Ao professor Luís Massuça pela orientação e apoio na reta final deste processo. Ajudou-me a dar os últimos passos, mas talvez aqueles mais importantes.
À Universidade Lusófona e ao Sporting Clube de Portugal por me terem proporcionado um enriquecimento pessoal e profissional com a realização desta experiência num clube de referência nacional e internacional.
Ao meu colega, amigo e companheiro, Pedro Coelho, por me acompanhar em mais uma experiência e me obrigar dia-a-dia a ser cada vez melhor através da exigência, da qualidade e do rigor no trabalho realizado.
A toda a minha equipa técnica, e grandes amigos, Paulo Carvalho, Francisco Nobre, Marco Tavares e João Reis pela a amizade, cooperação, entreajuda e partilha de conhecimento ao longo da época desportiva.
A todos os meus amigos, que de forma direta ou indireta me ouviram e me motivaram para a realização das minhas tarefas. Quero agradecer ainda, a uma pessoa muito especial para mim que me apoiou nesta reta final e me faz olhar para o lado positivo das coisas.
À minha família, nomeadamente, aos meus pais, Carlos Simões e Ana Paula Simões, que me apoiam incondicionalmente em toda a minha vida e que me proporcionam todas as condições necessárias para alcançar o melhor das minhas capacidades. Aos meus irmãos, Carlos Simões e Sara Simões, por serem dois exemplos a seguir e por me ouvirem e apoiarem há mais de duas décadas.
Resumo
O presente trabalho visa a elaboração de um relatório final de estágio, realizado em função da conclusão final do curso e respetiva obtenção do grau de Mestre em Futebol - da formação à alta competição, ministrado pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.
O objetivo do presente relatório é analisar e refletir sobre o processo de estágio, desenvolvido com os guarda-redes de futebol nos Iniciados A do Sporting Clube de Portugal (SCP), na época desportiva 2016/2017.
O relatório encontra-se dividido em diversas fases: na primeira, que engloba os capítulos um, dois e três, é feita uma caracterização geral, que inclui o plano individual de estágio, a caracterização da instituição de estágio e da equipa e contexto competitivo. Posteriormente, nos capítulos quatro, cinco e seis, são explicitados os elementos mais operacionais do jogo e do treino, que inclui os modelos utilizados ao longo da época (jogo, treino e de observação). De seguida, a elaboração de um artigo no capítulo sete, que permitiu conhecer melhor sobre a temática desenvolvida e refletir sobre a forma como devem ser trabalhadas as diferentes capacidades motoras. Por último, nos capítulos oito e nove, são feitas as reflexões e conclusões finais, que expõem uma reflexão sobre as experiências vividas ao longo da época desportiva.
Palavras-chave: Futebol, Planeamento, Modelo de Treino, Treino de
Abstract
The present work aims at elaborating a final report of the internship, carried out as a result of the final conclusion of the course and the achievement of the Master in Soccer training - from youth to high performance, taught by the Lusófona University of Humanities and Technologies.
The objective of this report is to analyze and reflect upon the internship process, developed with the football goalkeepers of the Under-15 team of Sporting Clube de Portugal (SCP), throughout the 2016/2017 football season.
The report is divided into several phases: On the first, which is comprised chapters one, two and three, it provides a general insight, that includes the individual internship plan, the overview of the internship institution and the team as well as the competitive context. Then, in chapters four, five and six, the most operational elements of the game and training are explained, that includes the models used throughout the season (Game, Training and Observation). Subsequently, the elaboration of an article is presented in chapter seven, in which it allowed me to better understand the subject matter examined and to reflect upon how the different motor skills should be worked and developed. Finally, chapters eight and nine cover the final conclusions and furnish a reflection on the experiences lived throughout the sports season.
Keywords: Football, Planning, Game Model, Training Model, Goalkeeper
Lista de Abreviaturas
AUD – Ação como último defesa EAS - Escolas Academia Sporting ETD – Esquema Tático Defensivo ETO – Esquema Tático Ofensivo
FPF - Federação Portuguesa de Futebol GR - Guarda–Redes
MJ - Modelo de Jogo
MJGR - Modelo de Jogo Específico do Guarda–Redes MO – Modelo de Observação
MT – Modelo de Treino
SCP - Sporting Clube de Portugal TGR - Treinador de Guarda-Redes
ULHT - Universidade Lusófona Humanidades e Tecnologias UT - Unidade de Treino
ÍNDICE GERAL
Agradecimentos ... I
Resumo ...II
Abstract ... III
Lista de Abreviaturas ... IV
Introdução ... 9
Capítulo I - Plano Individual de Estágio ... 12
Capítulo II - Caracterização da Instituição de Estágio ... 15
2.1. Enquadramento Histórico ... 16
2.2. Recursos Estruturais ... 17
2.3. Recursos Humanos ... 18
2.4. Recursos Temporais ... 18
Capítulo III - Caracterização da Equipa e do Contexto Competitivo... 20
3.1. Caracterização Geral ... 21
3.2. Objetivos específicos para a equipa ... 22
3.3. Avaliação Inicial, Intermédia e Final Individual ... 23
3.4. Caracterização do contexto competitivo ... 24
3.5. Regulamento interno ... 25
Capítulo IV – Modelos de Jogo, Treino e Observação ... 26
4.1. Modelo de Jogo ... 27
4.1.1. Modelo de Jogo - Equipa ... 29
4.1.2. Modelo de jogo específico de GR (MJGR) ... 33
4.2. Modelo de Treino ... 42 4.2.1. MT – Enquadramento Teórico ... 42 4.2.2. MT – Enquadramento Teórico-Prático ... 45 4.3. Modelo de Observação ... 53 4.3.1. MO - Enquadramento Teórico ... 53 4.3.2. MO - Enquadramento Teórico-prático ... 56
Capítulo V - Processo de Treino ... 58
5.1. Pressupostos Fundamentais ... 59
5.2. Caracterização do Processo de Treino ... 60
5.3. Processo de Treino vs. Competição ... 61
Capítulo VI - Processo Competitivo ... 65
6.1. Campeonato Nacional Juniores “C” - 1ª Fase ... 66
6.2. Campeonato Nacional Juniores “C” - 2ª Fase ... 67
6.3. Campeonato Nacional Juniores “C” - 3ª Fase ... 68
6.4. Rotinas dia de jogo ... 69
Capítulo VII - Importância das Qualidades Físicas no Futebol ... 70
7.1. Caracterização do Jogo de Futebol ... 71
7.2. Importância das Qualidades Físicas no Futebolista ... 72
7.2.1. O Treino da Coordenação ... 73
7.2.2. O Treino da Força ... 73
7.2.3. O Treino da Resistência ... 74
7.2.4. O Treino da Flexibilidade ... 75
7.2.5. O Treino da Velocidade e Agilidade ... 76
7.3. Importância das Qualidades Físicas no GR ... 78
7.4. Considerações Finais ... 79
Capítulo VIII – Considerações Finais ... 80
8.1. Conclusões ... 81
8.2. Reflexão Crítica ... 85
Referências Bibliográficas ... 88
ÍNDICE DE FÍGURAS
Figura 1. Sistema de jogo em organização ofensiva. ... 29
Figura 2. Sistema de jogo em organização defensiva. ... 29
Figura 3. Planeamento Anual do Treino de GR. ... 46
Figura 4. Microciclo Padrão Escalão de Sub–14 a Sub-19 (exemplo). ... 48
Figura 5. Momentos das Ações vs. Campeonato. ... 62
Figura 6. Evolução das Ações ofensivas e defensivas ao longo do campeonato. ... 63
Figura 7. Tabela Classificativa da 1ª Fase do Campeonato Nacional Juniores "C". ... 67
Figura 8. Tabela Classificativa da 2ª Fase do Campeonato Nacional Juniores "C". ... 68
ÍNDICE DE TABELAS
Tabela 1. Academia Sporting – Infraestruturas desportivas e hoteleiras. ... 17
Tabela 2. Caracterização da Equipa Técnica. ... 21
Tabela 3. Objetivo geral e específicos a nível desportivo, formativo e metodologia usada pela equipa. ... 23
Tabela 4. Resumo do Campeonato Nacional de Juniores " C"... 25
Tabela 5. Decisões do GR associado ao momento de atraso. ... 34
Tabela 6. Decisões do GR associado ao momento de reposição. ... 35
Tabela 7. Decisões do GR associado ao momento de ETO. ... 36
Tabela 8. Decisões do GR associado ao momento de GR em posse de bola. ... 37
Tabela 9. Decisões do GR associado ao momento de ação como último defesa. ... 38
Tabela 10. Decisões do GR associado ao momento de remate. ... 39
Tabela 11. Decisões do GR associado ao momento de 1x1. ... 40
Tabela 12. Decisões do GR associado ao momento de cruzamento. ... 40
Tabela 13. - Decisões do GR associado ao momento de ETD. ... 41
Tabela 14. Tipos de Exercícios de Treino - Exercício Técnico-Tático Fechado Simples. ... 50
Tabela 15. Tipos de Exercícios de Treino - Exercício Técnico-Tático Fechado Complexo. ... 51
Tabela 16. Tipos de Exercícios de Treino - Exercício Técnico-Tático Aberto Simples. ... 52
Introdução
O presente documento tem como objetivo descrever, fundamentar, analisar e refletir o processo de estágio desenvolvido ao longo da época desportiva 2016/2017 nos Iniciados A do Sporting Clube de Portugal (SCP), clube que represento há duas épocas desportivas.
O meu estágio foi realizado no treino de guarda-redes (GR) de futebol, uma área com pouca exposição, mas que nos últimos anos tem tido um aumento na procura de um conhecimento fundamentado e científico sobre o tema. Porém, continuam a existir poucos profissionais nesta área devido às poucas condições financeiras dos clubes e ao pouco conhecimento existente. A formação do treinador de guarda-redes (TGR) de Futebol em Portugal começou a dar os primeiros passos nos últimos anos, sendo impulsionada por alguns cursos destinados especificamente ao treino do guarda-redes (GR). De destacar dentro desses cursos, um curso de TGR desenvolvido pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) em 2009 e outro curso promovido pela mesma entidade em 2010. Desde essa data, a FPF não promoveu outro curso nesse sentido e apenas em 2016 começou a desenvolver um projeto intitulado como “Projeto 1”, que visa a melhoria das condições de treino do GR português, com o objetivo de formar mais atletas para essa posição. Para cumprir com este objetivo, a FPF convidou alguns TGR para participar em colóquios e debates sobre as temáticas de GR. Na minha opinião, estas ações são importantes, mas devem ser um auxílio aos cursos de TGR, para que haja uma evolução na profissão destes treinadores específicos, e para que os mesmos possam caminhar para a profissionalização.
Com a existência de poucos trabalhos realizados na área, e com o compromisso de trabalhar num clube que acarreta responsabilidades desportivas e sociais, tenho a noção que dia após dia tenho de procurar atualizar-me com o intuito de me manter sempre informado neste meio. Com esse objetivo, propus-me a realizar este mestrado de forma a manter uma formação constante, que sempre foi referida como fundamental ao longo da minha formação inicial (Licenciatura e Mestrado em Educação Física nos Ensinos Básicos e Secundário). Assim, torna-se essencial a capacidade de análise e reflexão, tentando sempre questionar e avaliar se o trabalho realizado vai de acordo com as nossas expectativas e o que podemos melhorar para torná-lo mais benéfico para o atleta/equipa. Na condição de estagiário tracei como principal objetivo dar continuidade à minha formação e aprendizagem acerca da complexa atividade de um treinador de
Futebol, especializado no treino de GR. Como objetivos específicos defini focar-me em diversas áreas como a liderança técnica (auto-motivação e envolvimento do grupo, gestão e utilização dos recursos, ensino do jogo, gestão do tempo de prática do treino e da competição, planeamento do treino e da competição, análise e avaliação do treino e da competição); no relacionamento interpessoal com todo o staff e com os atletas; na observação e avaliação dos jogadores de acordo com o perfil do clube; e no compromisso com os valores do clube.
As funções desempenhadas como estagiário incidiram na preparação, elaboração e coadjuvação do treino técnico, tático e físico, em tomar decisões de natureza técnica e tática respeitantes naturalmente à equipa em questão, e em adotar e promover junto dos jovens atletas uma conduta caracterizada pela disciplina e pela adoção de hábitos que promova a saúde e imagem sócio-atlética dos mesmos. Transmitindo os valores fundamentais do desporto e da prática da desportiva da modalidade do futebol.
De acordo com o guião de estágio de 2016 da Universidade Lusófona Humanidades e Tecnologias (ULHT), este relatório está estruturado de acordo com os seguintes pontos:
• Introdução, a qual apresenta uma abordagem da temática do relatório, descrevendo as tarefas base a desenvolver bem como os objetivos a alcançar na instituição acolhedora;
• Caracterização Geral, que inclui a descrição do plano individual de estágio (Capítulo I); o enquadramento histórico do clube e dos seus recursos estruturais, materiais e humanos (Capítulo II); e a caracterização da equipa e do seu contexto competitivo (Capítulo III);
• Planificação Estratégica, que contém os pressupostos para a preparação dos GR em função da equipa e da aquisição e aperfeiçoamento do modelo de jogo a adotar, de treino e de observação (Capítulo IV);
• Abordagem ao processo de treino, caraterização e definição dos pressupostos fundamentais do treino (Capítulo V);
• Considerações finais (Capítulo VIII), que além da conclusão expõem uma reflexão sobre as experiências vividas ao longo da época desportiva.
O estágio foi realizado no clube Sporting Clube de Portugal, sendo o local de trabalho habitual as instalações na academia do clube, situada em Alcochete.
Com a realização deste estágio, pretendo atingir os objetivos estabelecidos pelo mestrado em futebol: da formação à alta competição. No final do mesmo, pretendo ter uma formação especializada e um conhecimento científico num contexto de futebol de formação.
O mestrado, no seu programa, tem definido como objetivos gerais três pontos distintos, sendo eles:
• Aprendizagem e construção de um conhecimento atualizado e reflexivo necessário à intervenção do treinador, considerando os saberes da teoria e metodologia do treino, as novas tecnologias da informação e observação, a investigação científica e a análise sócio-histórica do Futebol.
• Procurar corresponder à necessidade de um conhecimento atualizado e cientificamente fundado na área específica do futebol, a partir do saber acumulado e em constante construção de um edifício teórico/prático específico da teoria e metodologia do processo de treino, nas novas tecnologias de informação e observação e na investigação científica. • Aquisição de conhecimento e desenvolvimento de competências inerentes
ao desempenho das funções de treinador desde a formação ao alto rendimento. Contribuir, no plano nacional e internacional, designadamente nos países de língua portuguesa para a formação científica e pedagógica de treinadores competentes e especializados, capacitando-os para refletir, avaliar e inovar as práticas do ensino/treino de futebol, perspetivando as como meio de desenvolvimento pessoal e social.
Relativamente aos objetivos específicos de formação para o meu ano de estágio defini os mesmos em quatro áreas diferentes.
As áreas e os objetivos específicos que defini foram:
• Na Liderança Técnica: (i) a auto motivação e envolvimento do grupo, (ii) a gestão e utilização de recursos, (iii) o ensino do jogo, (iv) a gestão do tempo de pratica do treino e da competição; (v) a gestão do clima no treino e na competição, (vi) o planeamento do treino e da competição, e (vii) a análise e avaliação do treino e da competição;
• No Relacionamento interpessoal, com o Staff e com os atletas;
• Na observação e avaliação de jogadores: (i) observando e avaliando de acordo com o perfil de jogador do clube, e (ii) ter coerência e ponderação na avaliação dos jogadores;
• Compromisso com os valores do clube fazendo e cumprindo os mesmos. De forma a promover a minha formação pessoal enquanto treinador defini algumas estratégias para serem realizadas ao longo da época desportiva. Estas estratégias têm como objetivo ajudar-me a desenvolver um conhecimento constante e atualizado sobre a minha atualidade profissional. Essas medidas foram:
• Observação de treinos específicos de outros escalões dentro do clube; • Discussão e partilha de conhecimento sobre o trabalho realizado com os
restantes TGR e o coordenador de treino de GR;
• Participar em seminários (e workshops) com temáticas pertinentes da área. • Formação interna;
• Conhecimento das ferramentas existentes no clube;
• Filmagem e respetiva análise de momentos de treino e competição.
De realçar que todas as medidas anteriormente explícitas são importantes, mas fundamentalmente é necessário existir uma formação contínua, de modo a que me permita estar constantemente atualizado a nível dos conhecimentos teóricos e práticos.
A minha função, na qual paralelamente realizei o meu estágio, foi de treinador de GR da equipa de Juniores “C”, escalão de Sub-15. Assim sendo, as minhas funções no clube cingiram-se a:
• Preparar, elaborar e coadjuvar na tomada de decisões do plano de desenvolvimento do treino técnico dos GR respeitante à equipa de Juniores “C”;
• Elaboração do plano de desenvolvimento do treino físico dos GR de formação;
Neste capítulo irei começar por um enquadramento histórico da instituição onde realizei o meu estágio, o SCP. Posteriormente, irei abordar de forma mais pormenorizada os recursos Estruturais, Humanos e Temporais em que desenvolvi as minhas funções.
2.1. Enquadramento Histórico
O SCP é um dos principais clubes nacionais, sendo que ao nível do palmarés conta com mais de catorze mil títulos conquistados, vinte e duas taças europeias em quatro modalidades distintas, cento e nove atletas olímpicos com oito medalhas e um vasto conjunto de recordes nacionais, europeus e mundiais ainda em vigor. É, portanto, um clube eclético, que é constituído por modalidades desportivas que vão desde o Futebol à Ginástica, Ténis de Mesa, Natação, Xadrez, Atletismo, Pesca Desportiva, Corfebol, e muitas outras.
Pelo prestígio que representa tanto a nível nacional como internacional é sem dúvida uma das maiores potências desportivas nacionais.
Relativamente ao Futebol de Formação, o Sporting é uma referência mundial, tendo formado jogadores como Cristiano Ronaldo, Paulo Futre, Luís Figo, Nani, William Carvalho, entre muitos outros. É também o único clube no mundo que formou dois jogadores considerados como os melhores do mundo, Luís Figo e Cristiano Ronaldo.
Sendo o meu estágio na Academia Sporting, no escalão de Sub-15, darei ênfase aos objetivos da formação do SCP. No que diz respeito à visão, pretende ser reconhecido como líder mundial no futebol de formação. A sua missão é produzir jogadores para o mais alto nível competitivo, capazes de integrar as equipas profissionais do SCP, promovendo uma sólida formação, baseada em valores desportivos, pessoais e socias. Os valores que estão presentes são a competência, o profissionalismo, o espírito de equipa, a responsabilidade, a ética e o rigor.
A academia é a escola de formação desportiva do SCP. É uma escola, pois no desporto, como na vida, deve-se aprender de forma planificada, organizada e metódica.
o grande propósito, ou seja, detetar, formar, desenvolver e projetar jovens jogadores que possam integrar a equipa profissional.
A formação do SCP, começa nos Sub-7, sendo nestas idades que se começam a detetar os principais talentos nacionais, até ao escalão de Infantis A Sub-13, que treinam e jogam no Estádio Universitário de Lisboa. A partir dos Sub-14 começam a treinar e a jogar na Academia em Alcochete, centro da formação leonina, em que o grande objetivo, como citado anteriormente, é a formação de atletas para as equipas profissionais.
Para além das equipas de competição do SCP existem pelo país diversas Escolas Academia Sporting (EAS), sendo vinte e nove escolas espalhadas de Norte a Sul do país com cerca de seis mil jovens. Existe ainda em termos internacionais oito EAS – Canadá, Cabo Verde, Guiné Equatorial, África do Sul, Johannesburg, Grécia e Espanha. Estas têm como principais objetivos: a formação desportiva, pois permitem a promoção da prática desportiva junto dos jovens; a expansão e a fidelização, através das escolas que permitem um reforço da marca Sporting junto dos jovens e famílias; e descobertas de talentos, porque com estas escolas também se pretende recrutar jovens talentos para as equipas de competição do SCP. De referir que já ultrapassaram quase as cinco dezenas o número de jovens recrutados para as equipas de competição através das EAS.
2.2. Recursos Estruturais
Relativamente ao Futebol, as suas instalações estão localizadas na cidade de Lisboa (Estádio José Alvalade e Polo EUL) e em Alcochete (Academia Sporting).
A academia Sporting dispõe de infraestruturas desportivas e hoteleiras (Tabela-1).
Tabela 1. Academia Sporting – Infraestruturas desportivas e hoteleiras.
Infraestruturas desportivas Infraestruturas hoteleiras
5 campos de relva natural (110x70m) Edifício Principal (91 quartos / 18 duplos) 2 campos de relva sintética (90x70m) 2 Refeitórios
Recinto coberto com sintético (60x40m) Salas de estar Balneários Sala de estudo e biblioteca Centro médico Esplanadas e espaços de convívio
2 ginásios Cozinha e rouparia
Banho turco Auditório (70 lugares)
2.3. Recursos Humanos
Sendo um clube de referência a nível nacional, o SCP, envolve muitos recursos humanos na sua atividade regular, bem como, diversos departamentos que se interagem entre si na dinâmica das diversas equipas.
Os principais recursos humanos das diversas equipas são os treinadores que pertencem à área técnica, os quais organizam todo o processo de treino e de competição, um diretor que acompanha a equipa para os jogos, que representa oficialmente o clube, um enfermeiro, responsável pela parte médica, um secretariado técnico que organiza e resolve todos os aspetos burocráticos; e os elementos que integram o gabinete psicopedagógico, que fazem o acompanhamento escolar, social, pessoal e familiar de todos os atletas, e em específico dos atletas que residem na academia.
A equipa técnica foi constituída por dois treinadores adjuntos, um treinador estagiário, um treinador de GR e um preparador físico, que reporta diretamente ao diretor técnico.
Os pais/encarregados de educação são também um elemento fundamental neste processo, sendo a primeira base de educação, de sustentação da estrutura mental do indivíduo, e se esse pilar falhar poderão existir dificuldades no seu processo de formação.
2.4. Recursos Temporais
A unidade de treino (UT) é o momento mais importante para a aprendizagem dos jogadores. Como tal, importa referir que tínhamos quatro treinos semanais, incluindo sessões de ginásio. De terça a sexta-feira, dispúnhamos de meio campo ou campo inteiro, com a duração máxima de duas horas de treino. Em cada UT, os primeiros trinta minutos destinavam-se ao treino específico dos GR e posteriormente estes integravam o treino com os restantes colegas de equipa. O tempo do treino especifico dos GR podia ser mais alargado consoante as necessidades da restante equipa sobre a utilização dos atletas.
técnicos / táticos específicos que com a equipa não é possível (por existirem limitações espaciais), e para discussão e análise dos TGR sobre algumas temáticas da posição.
O jogo também é um momento crucial do processo, tendo-se realizado habitualmente ao domingo de manhã. Nos dias de jogo, o local da concentração dependia se o jogo era em casa ou fora. Em casa, os jogadores concentravam-se na Academia, noventa minutos antes da hora do jogo. Fora, a concentração era feita na Academia ou em Lisboa, num local previamente definido. A hora de concentração, neste caso, dependia de onde iriamos jogar e do tempo do trajeto, partindo do principio que teríamos de chegar ao local do jogo, noventa minutos antes do mesmo.
Relativamente ao material a usar, detínhamos de todas as condições que nos permitiam realizar um trabalho consistente e sustentado na identidade e valores do clube. Detínhamos, também, de uma câmara de filmar para registar filmagens dos treino e jogos, permitindo uma melhor análise e avaliação da evolução de todos os atletas em termos individuais e coletivos.
Capítulo III - Caracterização da Equipa e do Contexto
Competitivo
Neste capítulo irá ser feita uma caracterização geral do contexto em que decorreu o estágio (3.1.). Irei apresentar posteriormente os objetivos específicos definidos para a equipa (3.2.), a forma como é realizada as avaliações dos atletas (3.3.), uma breve descrição do contexto competitivo em que a equipa participou (3.4.) e o regulamento interno do clube (3.5.).
3.1. Caracterização Geral
A equipa técnica foi constituída por elementos com diferentes funções e de distintos departamentos (Tabela-2).
Tabela 2. Caracterização da Equipa Técnica.
Treinador Principal Área Técnica
Treinador Adjunto Área Técnica
Treinador Adjunto Área Técnica
Treinador Guarda Redes Área Técnica
Scout Gabinete Observação e Análise
Preparador Físico Laboratório de Otimização de Rendimento
Enfermeiro Área Médica
Técnico de Equipamentos Área Logística
Diretor de Equipa Área Administrativa
Psicólogo Gabinete Psicopedagógico
Alguns elementos da atual equipa técnica transitaram da última época, existindo uma alteração no escalão com que trabalhavam anteriormente. O treinador principal, os dois treinadores adjuntos e o treinador de GR integravam a estrutura técnica do escalão de infantis A (Sub-13), transitando para o escalão de Iniciados A (Sub-15). Os restantes elementos da equipa técnica também pertenciam à estrutura do clube com a exceção do treinador estagiário da faculdade (que é atribuído anualmente). Esses elementos já pertenciam ao escalão de iniciados.
Apesar da especificação da função de cada elemento, a transversalidade e interligação de todos os intervenientes no processo da equipa no seu quotidiano, contribuiu para que todos os elementos da equipa técnica colaborassem no planeamento,
operacionalização e reflexão de todas as tarefas inerentes à construção e organização da época desportiva promovendo assim uma evolução quer individual, quer coletiva.
O nosso plantel foi constituído por trinta jogadores sendo que vinte e sete eram jogadores de campo e três GR. A nossa equipa foi constituída maioritariamente por atletas que estavam no clube há várias épocas e apenas três atletas integraram o clube vindo de outros clubes. Tivemos dez jogadores que residiam na Academia do clube e os restantes moravam nos concelhos de Lisboa e Setúbal.
Os nossos jogadores tinham idades compreendidas entre os treze e os catorze anos (iniciados de primeiro e segundo ano). Integraram na equipa vinte e nove jogadores que são iniciados de segundo ano, nascidos em 2002 e um jogador iniciado de primeiro ano, nascido em 2003.
3.2. Objetivos específicos para a equipa
Os objetivos específicos para a equipa foram definidos segundo documentos orientadores que o clube detém e com uma reflexão de toda a equipa técnica sobre esses mesmos documentos e a forma como iriamos alcançar os objetivos definidos.
Os objetivos que a equipa técnica definiu para a equipa e que consequentemente incluíram os GR são apresentados na Tabela-3.
Tabela 3. Objetivo geral e específicos a nível desportivo, formativo e metodologia usada pela equipa.
Objetivo Geral
• Formar jogadores de futebol mediante um processo que os ajude na sua formação integral sociocultural e desportiva.
Objetivos Específicos desportivos
• Apuramento para a Fase Final do Campeonato Nacional de Juniores C (escalão Sub-15), procurando vencer a competição;
• Procurar ser a equipa com melhor ataque e defesa das várias fases da competição;
• Atingir do ponto de vista individual e coletivo, os índices competitivos que permitam ao plantel vencer todos os jogos das varias fases do seu campeonato;
• Evitar ter jogadores admoestados com cartões amarelos ou vermelhos por protestos; • Introdução de variantes ao sistema de jogo definido;
• Desenvolver e compreender os diferentes métodos de jogo ofensivo (Ataque Posicional, Ataque rápido e contra-ataque);
• Procurar ser a equipa mais representada na seleção nacional do escalão de Sub-15;
• No final da época, os jogadores deverão estar preparados do ponto de vista competitivo (Técnico, tático, físico e mental) para integrar o plantel de Juvenis Sub-16 do SCP.
Objetivos Específicos
• Aumento progressivo da velocidade de execução das ações técnico-táticas, em situação de jogo;
• Apropriação de ações táticas individuais e coletivas mais complexas;
• Desenvolvimento dos princípios específicos do ataque: progressão, cobertura ofensiva, mobilidade e espaço;
• Desenvolvimento dos princípios específicos da defesa: contenção, cobertura defensiva, equilíbrio, concentração;
• Desenvolvimento de combinações simples e complexas. Metodologia
• Ensino do jogo centrado nos princípios gerais e específicos de jogo; • Utilização de formas jogadas e ações técnico-táticas encadeadas;
• Ações técnico-táticas combinadas, aumentando progressivamente a velocidade de execução; • Trabalho desenvolvido por grupos reduzidos, sectores, corredores e equipa, sempre com mapeamento dos diversos espaços;
• Diminuição progressiva dos espaços desenvolvendo e complexando cada vez mais a tomada de decisão;
• Muitas repetições, definição de lateralidade, utilização frequente de reforço positivo e corretivo, utilização frequente de questionamento e apelo à memória motora, recurso à demonstração quando necessário.
3.3. Avaliação Inicial, Intermédia e Final Individual
Sendo um clube formativo e com rigor no trabalho desenvolvido, o SCP efetua avaliações quantitativas e qualitativas individuais ao longo de cada época desportiva, a fim de averiguar o estado atual de cada atleta e verificar a existência, ou não, da evolução de cada um. Todas as avaliações ficam registadas para consulta das equipas técnicas, possibilitando um conhecimento alargado de cada jogador ao longo do tempo que
permanece no clube e para ajudar o treinador a ter uma base de avaliação inicial quando o mesmo transita de escalão.
As avaliações são realizadas em todas as vertentes do jogador, ou seja, na componente técnica, tática, psicológica e componente física.
Existe uma plataforma interna, onde cada equipa técnica deve realizar as avaliações individuais, que tem como objetivo, realizar um acompanhamento da evolução do atleta. Os dados que são necessários para esta avaliação são o número de jogos e de minutos realizados e os resultados dos testes físicos.
3.4. Caracterização do contexto competitivo
O contexto competitivo em que a equipa participou foi o campeonato nacional de juniores “C” (para atletas nascidos até 2002). Este campeonato nacional foi composto por três fases distintas, i.e.:
• A primeira fase era a nível distrital, em que existiram seis séries de doze equipas e todas jogavam entre si, apenas a uma volta. As quatro primeiras equipas de cada série qualificaram-se para a segunda fase. As equipas que não se qualificaram, disputaram posteriormente um campeonato de manutenção.
• A segunda fase foi mais abrangente do que a primeira e era composta por três zonas (Norte, Centro e Sul) em que cada uma foi uma série. Cada série tinha oito equipas e todas jogaram entre si, a duas mãos. Transitaram para a terceira fase o primeiro classificado de cada série e o segundo melhor segundo de todas as séries.
• A terceira fase, sendo a fase final para apuramento de campeão, englobou equipas de todas as zonas do país (das três series anteriores) e foi uma série constituída por seis equipas, na qual todas as equipas se defrontaram a duas voltas. No final, a equipa que acabou em primeiro foi a campeã nacional.
Tabela 4. Resumo do Campeonato Nacional de Juniores " C".
3.5. Regulamento interno
No início da época foi entregue aos jogadores um regulamento interno, em vigor na academia, que visa reger comportamentos e atitudes dos mesmos em todas as vertentes do seu trabalho.
Neste regulamento estão previstas todas as situações e o mesmo deve ser do conhecimento do jogador, da equipa técnica e da direção. Como já foi referido anteriormente, o regulamento foi implementado pelo clube para todas as equipas de formação e todo o staff que colaborava na academia. O regulamento interno não se encontra em anexo por não ter autorização do clube para apresentá-lo.
Segundo Leal e Quinta (2001), qualquer clube deverá ser baseado numa filosofia que contemple a existência de um Modelo de Jogo (MJ), o qual, por sua vez, orientará a conceção de um Modelo de Treino (MT) e de um conjunto complexo de exercícios.
O treinador, enquanto principal responsável do processo de treino, deve assumir o protagonismo na construção do MJ da sua equipa, elaborando os princípios que pretende ver respeitados pelos jogadores. Posteriormente, o TGR deve construir o MJ especifico do GR e definir quais os princípios inerentes a cada momento.
Torna-se assim fundamental a elaboração destes modelos que estão interligados e que em conjunto visam atingir os objetivos estabelecidos pela equipa técnica para a equipa e os seus atletas.
De seguida, irei abordar na vertente teórica e teórico-prática, os modelos definidos para a época desportiva em que realizei o meu estágio de TGR.
4.1. Modelo de Jogo
Segundo Frade (1985), a conceção de jogo de um treinador está relacionada com a forma como este entende o próprio jogo, com a forma como pretende que a sua equipa jogue, estando assim relacionado com o futuro a que aspira. Não basta ter uma ideia de jogo se a mesma não for realista e possível de operacionalizar com o contexto que se tem. Desta forma torna-se necessário adaptar essa ideia de jogo.
Para Garganta (1997), relativamente à organização de jogo, só se conseguirá que esta seja realmente coletiva se as ações técnico-táticas a empreender por cada um dos onze jogadores forem perspetivadas em função de uma ideia comum (MJ), isto é, respeitando um referencial coletivo. As tarefas individuais de cada jogador devem estar relacionadas umas com as outras, de forma a que todas juntas constituam o MJ pretendido. É possível afirmar de acordo com algumas fontes bibliográficas consultadas (Queiroz, 1986; Pinto & Garganta, 1989; Silva, 1989; Bompa, 1990; Castelo, 1994; Leal & Quinta, 2001), que o modelo de jogo consiste no mapeamento de um conjunto de referências necessárias para delimitar a organização dos processos ofensivos e defensivos da equipa, nomeadamente no que respeita aos princípios, aos métodos e aos sistemas de jogo.
Podemos assim afirmar que o MJ deve constituir-se como o núcleo fundamental de ideias que o treinador pretende que sejam adotadas pela sua equipa. Assim, o MJ deve
ter como base os princípios de jogo relacionados com os comportamentos táticos defensivos, ofensivos e de transição defensiva e ofensiva que o treinador pretende que sejam realizados pelos seus jogadores, bem como todo um conjunto de atitudes, comportamentos e valores que permitem caracterizar a organização desses processos, quer em termos individuais, quer fundamentalmente em termos coletivos da equipa.
Os elementos integrantes da equipa, os jogadores, podem ser associados em diferentes escalas. Uma escala mais individual, uma grupal e uma coletiva (sectorial e intersectorial). Juntando cada uma destas escalas a princípios orientadores dos comportamentos em jogo, surgem os princípios (micro, meso e macro). Todas estas escalas, bem como os princípios que lhes estão associados, não podem ser vistas ou desenvolvidas de forma isolada. A interdependência entre escalas e a formação de sinergias positivas entre elas, concorrem para uma coordenação coletiva mais coesa e eficiente. As indicações do treinador ao nível individual devem estar coerentes com as solicitações a um nível grupal/sectorial que por sua vez, devem estar enquadradas a um nível intersectorial, concorrendo para os padrões coletivos desejados.
Podemos assim afirmar e conforme Ramos (2009), afirma o MJ deve ser constituído por diferentes níveis de estruturas. Um nível macro, onde se define a estrutura da equipa, o sistema tático e formas de organização e os grandes princípios orientadores coletivos em cada momento de jogo. Ao nível meso, devem ser estabelecidas as dinâmicas sectoriais e intersectoriais desejadas em cada contexto e momento de jogo. Em termos micro, surgem as funções individuais na dinamização do sistema tático, nas diferentes ações no ataque e na defesa.
A elaboração do MJ não pode estar só associada às ideologias do treinador. Existem muitos fatores que concorrem para este processo e a capacidade do treinador em adaptar as suas conceções, às necessidades e possibilidades contextuais da equipa. Este é um fator diferenciador da competência de planeamento, como refere Faria (1999, citado por Falcão, 2014). Para a elaboração de um MJ é fundamental conhecer: (i) estruturas e objetivos do clube; (ii) a equipa e o seu nível de jogo; (iii) o nível e as características individuais dos jogadores; (iv) o calendário competitivo; (v) as ideias de jogo do treinador; (vi) cultura do país e clube; (vii) os momentos do jogo; e (viii) os princípios e
encontro com as expectativas criadas, se está a ser operacionalizado de forma correta / possível e se existe a necessidade de executar alterações ao mesmo.
4.1.1. Modelo de Jogo - Equipa
Relativamente ao modelo de jogo adotado pela equipa, apenas explicito o sistema tático-base utilizado em organização defensiva e ofensiva, bem como o macroprincípio associado a cada uma das fases do jogo. Apresento apenas esta parte do modelo da equipa por ter influência no modelo de jogo de específico do GR, servindo também para uma introdução da forma de jogar da equipa e das ideias gerais da mesma.
Organização Ofensiva
Sistema Tático Base: GR-4-3-3 Sistema Tático Alternativo: GR-4-2-3-1
Macroprincípio Privilegiar o ataque planeado praticando um futebol apoiado e assumindo o controlo do jogo
através da posse de bola
Figura 1. Sistema de jogo em organização ofensiva.
Organização Defensiva
Sistema Tático Base: GR-4-3-3 Sistema Tático Alternativo: GR-4-2-3-1
Macroprincípio Defesa zonal pressionando onde procuramos o constante equilíbrio e rigor defensivo
Após observação das figuras acima demonstradas podemos identificar que a equipa utilizou dois sistemas, preferencialmente o 4-3-3 mas também o 4-2-3-1. Com bola a equipa procurava ter a bola, jogando de forma apoiada assumindo o controlo do jogo perante o adversário. Para isso atacava com largura e profundidade máxima, utilizando os três corredores e todos os sectores. Quando não tinha a bola, a equipa procurava aproximar todos os seus jogadores, defendendo de forma coesa e com constante equilíbrio.
De seguida irá ser desenvolvido o modelo de jogo específico do GR definindo os princípios (macro e micro) associados a cada momento do jogo que está relacionado a esta posição especifica.
Modelo de Jogo Específico do GR
O modelo de jogo específico do GR (MJGR) está em sintonia com o modelo adotado pela equipa, mas com os seus momentos específicos do jogo e os comportamentos que estão subjacentes aos mesmos.
Irão ser definidos e desenvolvidos, do ponto de vista teórico, (i) os momentos gerais do jogo, e (ii) os seus momentos de jogo específicos do GR, de forma a existir um enquadramento sobre as denominações utilizadas. Posteriormente irão ser descritos os comportamentos adotados pelo GR em função da equipa, bem como do momento do jogo que se encontra.
Momentos Gerais do jogo e os Momentos Específicos do GR
Organização Ofensiva
Diz respeito ao momento em que a equipa se encontra na posse da bola. Neste momento também o GR tem grande importância, uma vez que em muitas situações é ele
• Atraso - Sempre que algum jogador da própria equipa passa a bola ao GR. É fundamental que um atleta do SCP consiga jogar curto e longo bem como utilizar os dois pés. A utilização dos dois pés possibilita uma eficiência do movimento e do gesto técnico para melhorar a sua performance neste momento.
• Reposição - Sempre que o GR tem a bola na mão e vai efetuar a reposição da mesma, em que a equipa já se encontra organizada para atacar;
• Esquemas Táticos Ofensivos - Momento de estratégia estática da própria equipa. Dentro deste momento especifico existem o pontapé de baliza (de acordo com o modelo de jogo da equipa idealizado para a primeira fase de construção) e os livres efetuados pelo GR.
Transição Ofensiva
Coincide com o momento no desenrolar do jogo e no qual o GR pode ser fundamental, uma vez que é um momento em que a equipa adversária está a atacar e perde a posse da bola. Neste sentido o GR desempenha um importante papel, uma vez que pode aproveitar a desorganização defensiva do adversário, se esta existir, para efetuar uma transição rápida caso a leitura de jogo e a tomada de decisão for propícia (sem colocar em risco a posse da bola e a equipa).
Momentos específicos do GR associado a este momento:
• GR em Posse de bola - Sempre que o GR tem a bola na mão e vai efetuar a reposição da mesma de forma rápida aproveitando o desequilíbrio / desorganização da equipa adversária.
Transição Defensiva
Corresponde ao momento em que a nossa equipa perdeu a posse da bola e tem a necessidade de defender e de recuperar a posse da bola.
Neste sentido, e como o GR do SCP tem um posicionamento alto, após uma adequada leitura e análise da situação deve perceber a mesma e tomar uma decisão. Perceber se com a sua intervenção direta há possibilidade de recuperar rapidamente a posse da bola, e perceber se tal não for possível que deve intervir indiretamente através da comunicação com os colegas.
Momentos específicos do GR associado a este momento:
• Ação como último defesa (AUD) - Sempre que o GR intercepta uma bola colocada nas costas da nossa equipa tentando aproveitar o desequilíbrio / desorganização da nossa equipa. Importante acompanhar o posicionamento da bola e da linha defensiva da equipa.
Organização Defensiva
Momento no qual a equipa se encontra organizada e a defender uma vez que a bola está na posse do adversário.
É um momento em que deve existir muita comunicação entre o GR e a linha defensiva, de forma a responsabilizar cada um com as suas ações e potenciar a defesa de zonas centrais e ações de cobertura, para que exista sempre superioridade numérica.
Momentos específicos do GR associado a este momento:
• Remate - Momento no qual existe principalmente eminência de remate. É um momento em que o GR deve ser muito eficaz e no qual deve transmitir segurança à equipa. O GR deve dominar os conceitos de remate em jeito e em potência, e dentro e fora da grande área. Devem ser fortes a ler e a ajustar a sua posição, sempre em função da bola e ter com isto um adequado jogo de ângulos (ângulo efetuado pelos dois postes e a bola. O GR deve posicionar-se no meio do angulo formado).
direta ou indireta. Para isso tem de conhecer as zonas de cruzamento, para tomar as decisões adequadas perante os diferentes contextos de jogo, igualdade, inferioridade e superioridade numérica. Para tal, o GR deve ter uma excelente leitura de jogo, de forma a estar sempre no posicionamento adequado, perceber que tipo de cruzamento é (bola rápida, bola balão) e para que zona é vai ser direcionado (1º poste, zona central, 2º poste, dentro pequena área e fora pequena área), e por último, qual a disposição dos colegas, uma vez que tudo isto influencia a sua tomada de decisão.
• Esquemas Táticos Defensivos - Momento de estratégia estática adversária. Devem dominar a formação de barreiras e a o posicionamento da equipa e a as suas marcações definidas no MJ da equipa.
4.1.2. Modelo de jogo específico de GR (MJGR)
Após ter sido descrito quais momentos do GR associado a cada momento geral do jogo irá ser desenvolvido o MJGR com os seus princípios, meso e micro, e um exemplo figurativo desse momento.
Organização Ofensiva
De seguida, irá ser apresentado todos os princípios (meso e micro) associados a cada momento de jogo específico de GR relativos à organização ofensiva (Tabelas-5, 6 e 7).
Tabela 5. Decisões do GR associado ao momento de atraso.
Momento Específico GR - Atraso -
Mesoprincípios Microprincípios
• Posicionamento consoante a pressão do adversário (média ou alta);
• Posicionamento em triângulo com os defesas centrais;
• Variação do centro de jogo.
Com pressão média/baixa:
- Posicionamento mais em largura do que em profundidade;
- Formação de um triangulo equilátero com os defesas centrais;
- Variação do centro de jogo a um ou dois toques consoante a força e direção da bola; - Caso seja possível jogar no defesa lateral, se não joga no defesa central.
Com pressão alta:
- Posicionamento em profundidade máxima e em largura (fora da baliza); - Formação de um triangulo escaleno com os defesas centrais;
- Variação do centro de jogo a dois toques caso o GR não seja pressionado;
- Jogar no mesmo corredor caso seja pressionado por um adversário.
Imagem Representativa
Tabela 6. Decisões do GR associado ao momento de reposição.
Momento Específico GR - Reposição -
Mesoprincípios Microprincípios
• Repor a bola em jogo com a visão de “longe para perto” consoante os jogadores melhores posicionados;
• Repor a bola em jogo com a mão até ao meio campo defensivo;
• Repor a bola em jogo com o pé depois do meio campo defensivo.
Repor a bola em jogo consoante as seguintes opções (caso exista igualdade ou superioridade numérica):
-1ª opção – Ponta de Lança / Extremos -2ª opção – Defesa Lateral
-3ª opção – Defesas Centrais
4ª opção – colocar a bola no chão e decidir consoante a pressão adversária.
Imagem Representativa
Tabela 7. Decisões do GR associado ao momento de ETO.
Momento Específico GR - ETO -
Pontapé de Baliza
Mesoprincípios Microprincípios
• Privilegiar o jogar curto em detrimento de jogar longo;
• Para jogar curto, Defesas centrais colocados à largura da área nos vértices da mesma;
• Para jogar longo, compactar a equipa num só corredor.
Jogar pelas seguintes opções de acordo com a pressão da equipa adversária: -1ª Opção – Defesas Centrais; -2ª Opção – Defesas Laterais;
-3ª Opção – Referência mais ofensiva (PL ou extremo).
Imagem Representativa
Livres
Mesoprincípios Microprincípios
• Privilegiar o jogar curto em detrimento de jogar longo;
• Jogando curto a equipa posiciona-se em largura e profundidade;
• Jogando longo a equipa compacta e posiciona-se em um ou dois corredores (consoante o posicionamento da bola, no
corredor central ou lateral
respetivamente).
Jogar pelas seguintes opções de acordo com a pressão da equipa adversária: -1ª Opção – Defesas Centrais;
-2ª Opção – Extremo do lado da bola.
Transição Ofensiva
De seguida, irá ser apresentado todos os princípios (meso e micro) associados a cada momento de jogo específico de GR relativos à transição ofensiva (Tabela-8).
Tabela 8. Decisões do GR associado ao momento de GR em posse de bola. Momento Específico GR
- GR em posse de bola -
Mesoprincípios Microprincípios
• Chegar rapidamente ao limite da área (o mais vertical possível)
• Repor a bola em jogo com a visão de “longe para perto” consoante os jogadores melhores posicionados;
• Repor a bola em jogo com a mão até ao meio campo defensivo;
• Repor a bola em jogo com o pé depois do meio campo defensivo.
Repor a bola em jogo consoante as seguintes opções (caso exista igualdade ou superioridade numérica):
1ª opção – Ponta de Lança / Extremos 2ª opção – Defesa Lateral
3ª opção – Defesa Central
4ª opção – colocar a bola no chão e decidir consoante a pressão adversária.
Imagem Representativa
Transição Defensiva
De seguida, irá ser apresentado todos os princípios (meso e micro) associados a cada momento de jogo específico de GR relativos à transição defensiva (Tabela-9).
Tabela 9. Decisões do GR associado ao momento de ação como último defesa. Momento Específico GR
- Ação como Último Defesa -
Mesoprincípios Microprincípios
• Posicionar-se verticalmente, entre a linha de golo e o meio do meio campo defensivo, consoante o sector da bola; • Posicionar-se horizontalmente, entre a linha dos postes, consoante o corredor da bola.
-Atacar a bola caso o GR sinta que consegue chegar ao mesmo tempo ou mais cedo que qualquer outro jogador;
- Jogar a 1 ou 2 toques consoante a pressão da equipa adversária;
- Retirar a profundidade para a baliza caso não consiga intercetar a bola.
Imagem Representativa
Organização Defensiva
De seguida, irá ser apresentado todos os princípios (meso e micro) associados a cada momento de jogo específico de GR relativos à organização defensiva (Tabelas-10, 11, 12 e 13).
Tabela 10. Decisões do GR associado ao momento de remate. Momento Específico GR
- Remate -
Mesoprincípios Microprincípios
• Ter a posição base bem definida com os pés fixos;
• Atacar a bola em diagonal; • Jogo de Ângulos bem definido;
• Optar pela técnica que seja mais segura para o momento.
Dentro da Grande Área:
- Aproximar o mais possível do portador da bola, reduzindo o espaço / angulo de remate;
Fora da Grande Área:
- Remate em jeito - retirar a profundidade; - Remate em potência - aproximar o mais possível até ao momento do remate.
Imagem Representativa
Tabela 11. Decisões do GR associado ao momento de 1x1.
Momento Específico GR – 1x1 -
Mesoprincípios Microprincípios
• Atacar a bola de forma a reduzir o espaço sobre a mesma.
Bola no espaço:
- Atacar a com em desarme.
Bola controlada:
- Reduzir o espaço sobre a bola e no momento do remate efetuar o ataque em parede.
Imagem Representativa
Tabela 12. Decisões do GR associado ao momento de cruzamento.
Momento Específico GR – Cruzamento -
Mesoprincípios Microprincípios
• Atacar a bola no seu ponto mais alto; • Levantar o joelho correto para a sua proteção e equilíbrio.
- Agarrar a bola caso dispute a mesma sozinho ou só com um jogador;
- Socar a bola caso estejam na zona da bola mais do que um jogador.
Imagem Representativa
Tabela 13. - Decisões do GR associado ao momento de ETD.
Momento Específico GR – ETD -
Mesoprincípios Microprincípios
• Após a falta ser marcada fazer a barreira junto ao poste;
• Indicar os jogadores da barreira e coloca-los corretamente;
• Posicionar-se em função da linha defensiva e da bola.
- Caso seja uma barreira formada por 3 jogadores ou menos coloca-los em “escadinha”;
- Caso seja uma barreira formada por 4 jogadores ou mais coloca-los em “v invertido”;
- Atacar a bola caso a mesma seja colocada no alcance do GR;
- Retirar a profundidade máxima para a baliza caso a bola seja batida para fora do alcance do GR.
Imagem Representativa
4.2. Modelo de Treino
4.2.1. MT – Enquadramento Teórico
De acordo com Garganta (1991), dá-se o nome de periodização, à divisão da época em períodos, em função das características do calendário competitivo e de acordo com as leis e princípios do treino desportivo.
A definição de diferentes estruturas ao longo da época desportiva em períodos de treino com características e objetivos específicos assume um papel central no processo de treino, ajudando na realização de um planeamento eficaz tendo em conta as carências individuais e coletivas da equipa identificadas pelo treinador. Esta divisão ajuda a organizar o processo de treino, tornando mais efetivo o conteúdo da preparação, face aos objetivos e o tempo a gerir (Garganta, 1993).
Segundo Garganta (1991), a periodização diz respeito essencialmente aos aspetos relacionados com a dinâmica das cargas de treino e com a consequente dinâmica da adaptação do organismo a essas cargas, de acordo com os períodos da época que se atravessa. Podemos assim afirmar que a periodização está altamente vinculada com a dimensão física do planeamento.
Quando Garganta (1993), se se refere ao conceito de periodização do treino, perspetiva que esta se tem assentado numa base que predominantemente se reporta aos aspetos da adaptação morfológica, fisiológica ou bioquímica do organismo. Esta visão parcelar para o processo de treino (submetendo o conceito numa perspetiva de periodização física) pode-nos levar a desvalorizar a importância de efetuar uma periodização dos conteúdos específicos da modalidade. O mesmo autor defende ainda que o desenvolvimento da forma desportiva deve ser encarado segundo dois fatores que do seu ponto de vista são inseparáveis: o atleta como um todo e o conhecimento específico da modalidade. Partindo deste ponto de vista, a periodização do processo de treino deve promover um desenvolvimento constante das competências técnico/táticas dos jogadores, fator indispensável para uma performance competitiva elevada, sustentada por um
A necessidade de ter uma visão clara acerca do futuro, implica a existência de um processo de planeamento mais ou menos formalizado, para o futuro que se aspira (Pires, 2005). Neste sentido, os resultados desportivos têm de ser construídos com base num trabalho devidamente pensado e planeado, em função dos objetivos que foram definidos antecipadamente, procurando diminuir à mínima expressão os fatores que aumentam a incerteza e que rodeiam o resultado (Garganta, 2003).
É possível afirmar, e de acordo com Teodorescu (2003), que através do planeamento do treino torna-se possível a projeção do desenvolvimento qualitativo dos jogadores e da equipa, de acordo com as suas possibilidades.
Para Garganta (2001), o planeamento possibilita ao treinador controlar o trabalho desenvolvido, assim como avaliar os pontos fortes e fracos da sua intervenção. Servindo assim de orientação para o trabalho do treinador e foco do seu trabalho com a equipa. O planeamento assume assim um papel fulcral de toda a organização do processo de treino. Na planificação deve-se analisar, definir e sistematizar as diferentes operações inerentes à construção e desenvolvimento de uma equipa, organizando-as em função das finalidades, objetivos e previsões, escolhendo as decisões que visem a máxima eficácia e funcionalidade (Castelo, 2003).
As estruturas de periodização da época desportiva encontram-se divididas em três níveis fundamentais: a macroestrutura, a mesoestrutura e a microestrutura (Alves, 2016).
Segundo Alves (2016), os macrociclos são períodos de preparação nos quais se concretiza um efeito específico ou uma adaptação do treino de modo a realizar um desempenho competitivo significativo. Tem habitual uma duração de doze a quarenta semanas. Nas modalidades desportivas coletivas, onde normalmente se procura um prolongamento da forma desportiva ao longo de um período competitivo de grande duração, a tendência é a utilização de uma periodização simples (um macrociclo por época desportiva). A utilização desta macroestrutura está relacionada com os períodos competitivos serem muito longos e as interrupções do calendário competitivo serem, em geral, demasiado curtas para darem lugar a uma nova fase preparatória. Os mesociclos são períodos de dois a seis semanas onde se processa a organização e sucessão ótimas de microciclos de características diferenciadas, definindo as etapas próprias de cada período da época de treino. A duração do mesociclo pode ser definida segundo o calendário competitivo ou através da divisão mensal do calendário anual, sendo esta a forma mais comum no futebol.
Também Alves (2016), refere que o microciclo é a estrutura que organiza e garante a coerência das cargas ao longo de uma sequência determinada de sessões de treino, pode variar entre três a dez sessões, embora normalmente corresponda a uma semana de preparação. No microciclo devem estar bem identificados os objetivos de preparação para um determinado momento da época, sendo estes a base para a elaboração das sessões de treino.
O microciclo normalmente é encarado como a estrutura base da periodização porque é no quadro deste período temporal que se organizam e combinam os diferentes tipos de preparação que, em cada fase do macrociclo, constituem o processo de treino. De acordo com Frade (2003, citado por Martins, 2003), e tendo em conta a especificidade do calendário competitivo da modalidade, o que define estruturalmente os microciclos são os jogos. A existência de um, dois ou três jogos semanais é que determina a duração do microciclo tornando-se evidente a necessidade de se proceder a adaptações aquando da elaboração dos mesmos. A elaboração do microciclo pressupõe o planeamento dos diferentes conteúdos a abordar numa determinada fase, bem como a manipulação da curva de forma através do estabelecimento das dinâmicas de carga, procurando o equilíbrio entre a carga, fadiga e recuperação. Os conteúdos a abordar ao longo do microciclo devem ser definidos de acordo com a hierarquização/necessidades de desenvolvimento dos aspetos técnico-táticos que concorrem, a um nível mais individual ou mais coletivo, para alcançar a forma de jogar idealizada para a equipa. A dinâmica da carga existente ao longo do microciclo deve ter em consideração o acumulativo do nível de carga solicitado em cada sessão de treino. Conforme afirma Alves (2016), a manipulação do volume e da intensidade da carga de treino por sessão determinam um nível diferenciado de stress físico e mental sobre o atleta, que vai desde o microciclo de fraca solicitação, até ao microciclo de elevada concentração de carga, promovendo níveis controlados e transitórios de sobre-solicitação.
A sessão de treino compõe o elemento mais micro de estruturação do processo de periodização do treino. Segundo Castelo (2009), a duração média será de duas horas, tempo considerado suficiente para que as interações pretendidas sejam consistentes, não se ultrapassando o tempo habitual de concentração e focalização do praticante ou que
exercícios com o objetivo de promover o desenvolvimento e a preparação dos jogadores para a competição.
O treinador deverá avaliar e corrigir permanentemente o percurso adaptativo que o praticante está a seguir para que este possa efetivamente alcançar os objetivos previstos, segundo Silva (1998). Para Garganta (1991), a sua concretização só se torna possível se este puder ser alterado e reformulado. Existem sempre aspetos que fogem ao controlo do treinador, por muita experiência que tenha, podendo eles ser as alterações ao nível da competição, do local de treino, lesões de atletas, castigos, entre outros. Podemos assim afirmar que o ato de planear não termina com o início da execução do plano e deve ser composto com uma reflexão e análise constante.
Para Garganta e Pinto (1998, citado por Gonçalves, 2005), um bom jogador ajusta-se não apenas às situações que vê, mas também aquelas que prevê, decidindo em função das probabilidades de evolução do jogo.
O treino, segundo Ferreira e Queirós (1982), deverá prosseguir os objetivos de desenvolvimento das capacidades, utilizando formas de cuja natureza constem os restantes elementos do jogo e sob a atmosfera o mais próxima possível da que impera na atividade competitiva. Daí a importância de nas sessões de treino se tentar replicar ao máximo o ambiente e as condições de jogo, para que durante a exploração do contexto, os jogadores possam descobrir soluções para ultrapassar os problemas encontrados.
4.2.2. MT – Enquadramento Teórico-Prático
No SCP, o treino de GR está definido num MT elaborado pelo departamento de GR do clube. O documento do MT serve como um documento orientador para o TGR, respeitando os objetivos que o departamento definiu para cada escalão e o que deve ser desenvolvido segundo várias premissas. A existência deste documento tem como objetivo promover o rigor do trabalho desenvolvido por cada TGR e uma verticalidade no processo de treino desde os Sub-7 até aos Sub-19. De seguida, irei apresentar algumas partes, que acho fundamentais no processo de treino e que compõem esse documento orientador.
Planeamento do Treino
Tal como foi referido na revisão da literatura torna-se fundamental realizar um planeamento com diferentes estruturas para o trabalho desenvolvido com qualquer equipa e atleta, e os GR não são exceção. O planeamento do treino de GR tem o mesmo intuito daquele que é realizado para a equipa, mas com a particularidade de ser direcionado para uma posição especifica. O que na minha opinião, torna um planeamento mais incisivo e pormenorizado no desenvolvimento individual de cada atleta sempre balizado com os objetivos da equipa e o desenvolvimento da mesma.
O treino específico de GR tem assim diferentes estruturas, começando pelo planeamento anual e acabando na sua unidade mais micro que é a unidade de treino (UT).
Planeamento Anual
A primeira estrutura do planeamento, como já foi referido, é a composição de um plano anual de acordo com cada etapa de formação, o inicio/fim da época desportiva e as suas paragens ou interrupções.
Este planeamento anual irá permitir a definição dos diferentes microciclos padrão (explicados no próximo tópico) em cada semana ao longo do mesmo (Figura-3).
1 Quinta-Feira 1 Sábado 1 Terça-Feira 1 Quinta-Feira
2 Sexta-Feira 2 Domingo 2 Quarta-Feira 2 Sexta-Feira
3 Sábado 3 Segunda-Feira 3 Quinta-Feira 3 Sábado
4 Domingo 4 Terça-Feira 4 Sexta-Feira 4 Domingo
5 Segunda-Feira 5 Quarta-Feira 5 Sábado 5 Segunda-Feira
6 Terça-Feira 6 Quinta-Feira 6 Domingo 6 Terça-Feira
7 Quarta-Feira 7 Sexta-Feira 7 Segunda-Feira 7 Quarta-Feira
8 Quinta-Feira 8 Sábado 8 Terça-Feira 8 Quinta-Feira
9 Sexta-Feira 9 Domingo 9 Quarta-Feira 9 Sexta-Feira
10 Sábado 10 Segunda-Feira 10 Quinta-Feira 10 Sábado
11 Domingo 11 Terça-Feira 11 Sexta-Feira 11 Domingo
12 Segunda-Feira 12 Quarta-Feira 12 Sábado 12 Segunda-feira
13 Terça-Feira 13 Quinta-Feira 13 Domingo 13 Terça-feira
14 Quarta-Feira 14 Sexta-Feira 14 Segunda-Feira 14 Quarta-feira
15 Quinta-Feira 15 Sábado 15 Terça-Feira 15 Quinta-feira
16 Sexta-Feira 16 Domingo 16 Quarta-Feira 16 Sexta-feira
17 Sábado 17 Segunda-Feira 17 Quinta-Feira 17 Sábado
18 Domingo 18 Terça-Feira 18 Sexta-Feira 18 Domingo
19 Segunda-Feira 19 Quarta-Feira 19 Sábado 19 Segunda-feira
20 Terça-Feira 20 Quinta-Feira 20 Domingo 20 Terça-feira
21 Quarta-Feira 21 Sexta-Feira 21 Segunda-Feira 21 Quarta-feira
22 Quinta-Feira 22 Sábado 22 Terça-Feira 22 Quinta-feira
23 Sexta-Feira 23 Domingo 23 Quarta-Feira 23 Sexta-feira
PLANEAMENTO ANUAL - MICROCICLOS
5 1 4 5 4 3 4 3 2 3 Férias do Verão 2 1 Microciclo
Dia Microciclo Dia Microciclo Dia Microciclo Dia