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A FORMAÇÃO E A AÇÃO PROFISSIONAL DE LICENCIADOS EM MÚSICA.

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Academic year: 2021

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Caroline Pozzobon Xisto1 - UFSM Cláudia Ribeiro Bellochio2 - UFSM

RESUMO - A formação de educadores musicais tem envolvido discussões, sobretudo nas atuais

reformulações dos cursos de formação de professores de música. Constatam-se insatisfações com os modelos de formação, assim como a busca de alternativas na construção de currículos para estes cursos que ofereçam mudanças significativas na formação de professores de música. Neste pôster, apresento relatos parciais da pesquisa, onde busco investigar como professores licenciados em educação artística e/ou licenciados em música, compreendem as relações entre a formação acadêmica e sua ação profissional: se foi coerente com as reais necessidades escolares, verificando se a formação acadêmica determina e fundamenta suas ações. Até o momento, identificam-se insatisfações com relação à formação acadêmica, denunciando principalmente a dicotomia entre a teoria nos cursos de formação e a prática no espaço escolar. A abordagem utilizada nesta investigação é qualitativa, através de estudos de caso. A coleta de dados tem sido realizada através de entrevistas semi – estruturadas e observações, investigando a relação apontada acima. Os critérios de seleção dos sujeitos são relativos ao tempo de atuação na educação musical (mais de um ano) e à formação acadêmica (sujeitos que tiveram formação em licenciatura em educação artística e em licenciatura em música).

Atualmente, as discussões sobre o ensino musical e a formação dos professores de música brasileiros têm-se tornado constante, refletindo na atual situação de reformulações dos currículos dos cursos de licenciatura na área de música no Brasil. Estas reformulações nos cursos de formação de professores de música permitem-nos entender a insatisfação da área com relação aos modelos de formação existentes, além de levantar alguns questionamentos: a formação acadêmica dos professores de música está sendo coerente com as necessidades reais da educação musical no Brasil? A constatação da necessidade de reformulações está apontando para uma busca concreta de alternativas que viabilizem a construção de programas para os cursos de licenciatura na área musical que realmente ofereçam mudanças significativas, e, sobretudo, positivas na formação de professores de música?

Este texto consiste em um relato parcial de pesquisa sobre a questão da relação entre a formação acadêmica de professores de música e a sua ação profissional frente à educação musical, que busca investigar a ação prática de professores licenciados em música e licenciados em educação artística, verificando se a formação acadêmica determina e fundamenta as ações destes professores.

CONCEPÇÃO METODOLÓGICA

Para a realização desta investigação está sendo utilizada a abordagem qualitativa, através de estudos de caso. A investigação sobre a formação e a ação profissional de professores licenciados em música e educação artística, implica na necessidade de uma abordagem qualitativa como método da pesquisa. Na pesquisa

1

Professora Substitua do Departamento de Música - UFSM; mestranda do PPGE/UFSM.

2

Professora Adjunto 1 do Departamento de Metodologia do Ensino/CE/UFSM; professora orientadora do PPGE/UFSM.

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qualitativa os dados são obtidos no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatizando mais o processo do que o produto, com a preocupação em retratar a perspectiva dos participantes. (LÜDKE e ANDRÉ, 1986). Para dar voz a estes professores, buscando verificar se sua formação universitária determina e fundamenta suas ações, acredito que a abordagem qualitativa através de estudos de caso seja a metodologia mais adequada, por ser “(...) uma categoria de pesquisa cujo objeto é uma

unidade que se analisa aprofundadamente” (TRIVIÑOS, 1987: 133), e por determinar

que a obtenção de dados se realize através da inserção direta do investigador no meio pesquisado. A coleta de dados está sendo realizada através de entrevistas semi – estruturadas, partindo de questionamentos básicos relativos ao tema da investigação. A entrevista semi – estruturada possibilita a obtenção de informações através de novas hipóteses que podem surgir durante sua realização. Neste tipo de entrevista, “(...) a

relação que se cria é de interação, havendo uma atmosfera de influência recíproca entre quem pergunta e quem responde”.(LÜDKE e ANDRÉ, 1986: 33). Os critérios de

seleção dos sujeitos envolvidos na pesquisa são relativos ao tempo de atuação na educação musical (mais de um ano) e à formação acadêmica (sujeitos que tiveram formação em licenciatura em educação artística e sujeitos que tiveram formação em licenciatura em música).

O CONTEXTO DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE MÚSICA

A formação de professores de música vem acontecendo em cursos de Licenciatura em Educação Artística e, mais recentemente, em cursos de Licenciatura em Música. A polivalência das Artes, nos cursos de formação de professores de Educação Artística, concebe uma abordagem integrada das linguagens artísticas específicas (artes plásticas, artes cênicas e música). Estes cursos, repletos de problemas, foram muito questionados nas décadas de 1980 e 1990, e tomados como insuficientes para a formação de professores com consistente domínio dos conteúdos específicos de cada área. Essas deficiências na formação do professor de música em decorrência da precária formação musical no interior de grande parte dos cursos de Educação Artística “(...)

reforçaram a adoção de práticas pedagógicas que enfatizam o espontaneísmo expressivo, desconsiderando os conteúdos da linguagem”.(PENNA, 1995: 13). Devido

a esta problemática, a LDB 9394/96 determina que o ensino de arte deverá sem componente curricular obrigatório e os PCN - Parâmetros Curriculares Nacionais - indicam que esse ensino deverá contemplar Artes Visuais, Música, Teatro e Dança, cada um como área específica. Desde então, muitos cursos estão reformulando seus currículos; antigos cursos de licenciatura em Educação Artística estão sendo substituídos pelas licenciaturas em cada área artística específica.

Em Santa Maria, foi extinto o curso de Licenciatura em Educação Artística, cujo ingresso da última turma foi em 1994, e está em funcionamento a Licenciatura em Música, desde 1996. Atualmente, frente às Diretrizes curriculares para os professores de Educação Básica, estão ocorrendo novas discussões, com relação ao curso, sobre possíveis reformulações, de acordo com a preocupação com a busca de uma maior coerência entre a formação do professor de música e a realidade escolar. Portanto, na cidade e na região, temos profissionais licenciados em Educação Artística e licenciados em Música atuando na rede regular de ensino, ou em outras atividades de educação musical, em escolas e conservatórios de música, aulas particulares de instrumentos e canto, ou como regentes de corais. Pensando no contexto da cidade de Santa Maria, tenho feito alguns questionamentos: Será que a formação recebida na universidade está

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de acordo com a atuação dos egressos? Será que a formação acadêmica destes professores foi eficiente e coerente com as necessidades reais da educação musical?

É muito comum ouvirmos depoimentos de professores, nos mais diversos campos de conhecimento, onde se identificam algumas insatisfações com relação à própria formação acadêmica. Quem nunca ouviu afirmações do tipo: “tudo o que sei fazer hoje aprendi na prática”, ou “aprendi fazendo”, ou ainda “a teoria não serve na hora da prática”? Há ainda a afirmação de professores que dizem ter aprendido o que é necessário para a sua prática pedagógica participando em cursos de férias, seminários, oficinas, encontros com outros professores, já que “na universidade o que se aprende é teoria, e na escola é que se aprende a prática.” Considerando esta realidade é que me questiono quanto à verdadeira situação dos professores de música de Santa Maria, que tiveram sua formação acadêmica nos cursos de Licenciatura em Educação Artística ou em Música. O que estes profissionais estão fazendo? Onde estão atuando? Como se caracterizam as suas atuações profissionais? E, finalmente, dentro de suas próprias concepções e experiências profissionais, a formação recebida na universidade está adequada às necessidades e exigências do mercado de trabalho?

DISCUSSÕES SOBRE A FORMAÇÃO DO PROFESSOR

Sabe-se que há um consenso sobre as diferentes realidades encontradas pelo educador em duas etapas da sua vida profissional: o momento da formação acadêmica – na universidade – e o momento da atuação pedagógica – na escola. Estas diferenças entre as realidades acadêmica e escolar são amplamente discutidas entre professores e alguns autores, na busca das causas destas diferenças e das possíveis soluções que pudessem aproximar a formação acadêmica do professor com a realidade escolar.

Segundo Pereira (1998), um dilema enfrentado pelos cursos de formação de professores é a desarticulação entre a formação acadêmica e a realidade prática: pouca integração entre as universidades (formadoras dos educadores) e redes de ensino fundamental e médio (que recebem estes educadores posteriormente), o que evidencia a dicotomia entre teoria e prática na formação do educador. A teoria e a prática no processo de formação acadêmica de professores, geralmente são vistas como pólos separados, onde quase sempre se percebe uma maior ênfase na teoria e uma concepção de prática como momento da aplicação da teoria. Isto se evidencia na estruturação dos cursos de formação de professores, onde os conhecimentos teóricos antecedem às atividades práticas. Os cursos de licenciatura vêm seguindo uma mesma estrutura há anos, onde as disciplinas de conteúdo específico precedem e pouco se articulam com as disciplinas pedagógicas, sendo que as disciplinas encarregadas da transmissão dos conhecimentos teóricos ocupam uma carga horária bastante superior, no total do curso, do que as disciplinas direcionadas às atividades práticas. Geralmente, a disciplina destinada à prática de ensino – o estágio – acontece apenas no último ano da graduação, de acordo com a concepção de que num primeiro momento se aprende a teoria e somente depois o licenciando estará “apto” a pôr em prática o que aprendeu nos três primeiros anos de faculdade. De acordo com Tourinho (1995), o estágio supervisionado, que é a situação escolar na qual o futuro professor de música deve-se inserir para conhecer e aprender sobre seu funcionamento e possibilidades, assim como é a situação final de sua aprendizagem universitária, não tem sido encarado com a devida atenção.

“Tanto esta pretendida inserção para conhecimento e aprendizagem do ‘ofício’ como a finalização das competências do professorado via estágio, não têm sido seriamente tratadas”.(TOURINHO, 1995: 36).

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Fuks (1994) também discute a distância entre a universidade e a realidade escolar nos cursos de formação de educadores musicais. De acordo com a autora,

“A formação do professor de música equilibra-se precariamente entre objetivos, estratégias, conceitos e práticas musicais e educacionais que se baseiam, geralmente, em metodologias importadas, na maioria das vezes distante da realidade da escola onde este professor irá trabalhar. A preocupação com este tipo de formação impediria o professor graduado de escutar e enxergar o que iria encontrar na escola de 1º e 2 º graus”.(FUKS, 1994: 170).

Descortinar e perceber esta problemática na formação de professores de música é indispensável para clarificar a maneira como ocorrem as práticas musicais nas instituições.

Beineke (2001) investiga a ação prática de professores de música, abordando a questão da relação entre teoria e prática nos cursos de formação. Aponta questionamentos de alunos de cursos de formação de professores de música relativos à “aplicação” ou à “transposição” da teoria para a prática. Afirma que:

“Por um lado, pode-se perceber uma descrença dos professores em relação aos conhecimentos produzidos na academia, sendo questionada a sua ‘aplicabilidade’, pois muitas vezes as ‘teorias’ não respondem as suas necessidades pedagógicas imediatas. Por outro lado, os professores muitas vezes são criticados por não saberem aplicar corretamente as teorias.” (BEINEKE, 2001: 64)

Evidencia-se a problemática da relevância dos conhecimentos adquiridos nos cursos acadêmicos de formação de professores em função da dificuldade de sua aplicação na prática de ensino.

Ao ingressar no sistema escolar, o professor licenciado passa de uma insegurança inicial na sua prática, pois é o segundo momento em que entra em contato com a realidade escolar, para um processo de reorganização do seu saber e da sua atuação pedagógica, buscando práticas de ensino condizentes com as necessidades reais da escola. Parece concluir que a formação universitária que recebeu está muito distante do contexto escolar, por isso afirma que “aprende na prática, onde a teoria pouco ou nada serve”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando os depoimentos que tenho escutado, e as conclusões de autores que se dedicaram a estas questões sobre a formação de professores, é que investigo sobre o contexto acadêmico e escolar dos professores licenciados em Educação Artística ou Música que atuam em Santa Maria e região. Segundo estes professores, que estão em contato com a realidade em nossa comunidade, quais são as falhas do nosso sistema de formação de professores? E o que tem feito eles para suprirem estas falhas? Para mim, como professora substituta do Departamento de Música da UFSM, portanto atuante na formação de futuros professores de música, parece ser relevante a busca das respostas destes questionamentos, visando o compromisso da universidade, de professores acadêmicos e de professores das nossas escolas com a melhoria da qualidade do ensino de música. Neste momento de reformulações dos cursos de licenciatura em Educação Artística e licenciatura em Música, é importante o conhecimento sobre a ação prática destes professores, assim como saber se a formação recebida por eles na universidade determina e fundamenta suas ações.

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Percebo que professores de música parecem demonstrar o desejo de espaço para falar sobre o seu fazer pedagógico musical. Eles buscam a troca de experiências, querem falar sobre problemas encontrados na realidade escolar, talvez decorrentes da falta de preparo para enfrentá-los durante a sua formação acadêmica, assim como também desejam falar sobre suas experiências bem sucedidas, na busca da sua valorização enquanto profissionais do ensino de música. Acredito que ninguém melhor do que estes professores de música que atuam na nossa cidade, muitos deles licenciados em Educação Artística (Habilitação Música) ou em Música pela UFSM, para contribuir na discussão e reflexão sobre estes questionamentos e na busca de respostas que nos levem a possíveis soluções, senão de todos os problemas, pelo menos de alguns dos problemas que enfrentam os cursos de formação de professores.

Professores de música com as mais diversas formações estão atuando em escolas regulares, conservatórios, regendo coros, levando a educação musical para a comunidade. Mas de que forma? Como eles fundamentam sua prática pedagógica musical? Acredito que estes questionamentos e a busca de suas respostas são significativos para que se possa fazer um mapeamento da formação e da atuação dos profissionais da educação musical na nossa cidade. Refletir sobre que tipo de formação nossos professores de música estão recebendo e que tipo de formação deveriam receber é fundamental em uma área que vem sofrendo uma carência de valorização como a educação musical, e muito importante num momento de conquista de espaço em que esta área se encontra. A valorização e a conquista do espaço da educação musical depende muito do profissional que atua na área e, conseqüentemente, da formação que recebe na universidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEINEKE, Viviane. O conhecimento do professor de música: uma questão teórica ou

prática? In: Anais do IV Encontro Regional da ABEM Sul e do I Encontro

do Laboratório de Ensino de Música / LEM – CE – UFSM. Santa Maria,

Maio / 2001.

FUKS, Rosa. A formação da identidade do professor de música: do passado ao

presente, linhas de continuidade e de descontinuidade. In: Anais do III

Encontro Anual da ABEM - Associação Brasileira de Educação Musical.

Salvador, Junho / 1994.

LÜDKE, Menga; ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens

qualitativas. São Paulo: E.P.U., 1986.

PENNA, Maura. Para além das fronteiras do conservatório – O ensino de música

diante dos impasses da educação brasileira. In: Anais do 4º Simpósio

Paranaense de Educação Musical. Londrina: Gráfica da Universidade

Estadual de Londrina, 1995.

PEREIRA, Júlio Emílio D. A formação de professores nas licenciaturas: velhos

problemas, novas questões. In: Anais do VII Encontro Anual da ABEM –

Associação Brasileira de Educação Musical. Universidade Federal do

Pernambuco, Outubro / 1998.

TOURINHO, Irene. “Atirei o pau no gato mas o gato não morreu...” Divertimento

sobre Estágio Supervisionado. In: Revista da ABEM - Associação Brasileira

de Educação Musical, n. º 2, Ano 2. Junho / 1995.

TRIVIÑOS, Augusto N. S. Introdução à pesquisa em ciências sociais: A pesquisa

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