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Verde que nasce da água cinza

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Academic year: 2021

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EcurSoS

H

ídricoS

Verde que

nasce

da água

cinza

Em Pernambuco, sistemas de

reúso das águas de banho

e lavagem de roupas irrigam

plantações e mantêm criação

de animais

Ana Mendes

(texto e fotos)

Um oásis de plantas verdes e ali-mento farto para os bichos: esta é uma das imagens, não tão raras hoje em dia, no semiárido brasi-leiro. Associada quase sempre às agruras do período de estiagem, a região, que abrange dez estados, é, ao contrário, riquíssima e dona de um patrimônio vegetal único. Composta por espécies de plan-tas que não são encontradas em nenhuma outra parte do mundo, tais como o umbuzeiro, a Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, é sinônimo de resistência. Tanto a flora quanto o povo que ali vive fazem jus a essa característica. Para não morrer, um umbuzeiro pode guardar até 1.500 litros de água em suas raízes. “A pessoa aprende muito com a natureza daqui. Quando se pensa que ela está morta, começa a ficar tudo verde com a primeira chuva. A gente tem de aprender com a

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natureza pra seguir em frente”, con-ta Nice, sercon-taneja da comunidade Gameleira, localizada no município de Itatim, no Sertão do Pajeú, em Pernambuco – quase divisa com o estado da Paraíba.

Nice e sua irmã, Nona, têm um vi-veiro com cerca de 25 espécies de plantas, entre frutíferas e ornamen-tais, que verdejam em meio aos ga-lhos secos de árvores nativas que esperam, do lado de fora do vivei-ro, a estação das chuvas, que dura de novembro a maio, para renascer outra vez mais. As duas irmãs fa-zem parte do grupo de 100 famílias do Sertão do Araripe e do Pajeú selecionadas para a implementa-ção do sistema de reutilizaimplementa-ção de águas cinzas. O RAC, como é cha-mado, reaproveita as águas usadas no banho, na lavagem de roupas e louça das casas de famílias que vi-vem da agricultura e da criação de animais. “Antes essa água era des-perdiçada, totalmente descartada. Descia aí num córrego e só juntava sapo e muita muriçoca. E hoje não, hoje eu consigo levar pra roça atra-vés do gotejamento”, conta Déa Solange, moradora da Comunidade Sítio Poço Grande, em Flores. Assim como o umbuzeiro, os sertanejos homens e mulheres que vivem no semiárido também aprenderam a armazenar água para atravessar os momentos de estia-gem. Com a colaboração de po-líticas públicas conhecidas como tecnologias sociais de convivência com o semiárido, eles ainda con-trolam todas as entradas e saídas e coordenam os tipos de uso de cada água.

Diferentemente de outros lugares, as fontes de água de uma casa sertaneja são diversas e cada uma serve a finalidades distintas. A água das chuvas capturada dos te-lhados, limpa e potável, é utilizada para beber e cozinhar. A água de

rios, poços e olhos d’água é mais salinizada, portanto é usada para outros fins, como banhos e limpe-za. A que é capturada pelas cister-nas-calçadão, que coletam água da chuva de uma grande calçada de concreto, mata a sede dos bichos e molha as plantas. Nem todas as famílias têm acesso a toda varieda-de varieda-de água, mas a maioria tem pelo menos as duas primeiras.

Implementado pelo Centro de De-senvolvimento Agroecológico Sa-biá e pelo Centro de Assessoria e Apoio a Trabalhadores e Institui-ções Não Governamentais Alterna-tivos (Caatinga), em parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu-ária (Embrapa), o RAC está sendo usado para irrigação de plantas forrageiras que servem para ali-mentação de animais de pequeno porte. A palma, a gliricídia, a leu-cena e a moringa são plantadas em sistemas agroflorestais (os chama-dos SAFs), combinadas com plan-tas nativas da Caatinga e algumas árvores frutíferas. “O RAC tem esse desenho. Ele é desafiador porque exige diversos aspectos da tecno-logia”, conta Rivaneide Almeida, assessora técnica do Centro Sabiá, que acompanha as famílias que vi-vem no Sertão do Pajeú. “Além do sistema de reúso de águas cinzas, o sistema de filtros, a gente ainda tem o desafio de fazer a implanta-ção dos sistemas agroflorestais”, complementa.

A reutilização de águas cinzas não é inédita na região, outras iniciati-vas pequenas, tocadas por organi-zações da sociedade civil e órgãos governamentais, se repetem pelo semiárido na tentativa de amenizar a perda de cerca de 53 mil litros de água por família ao ano. A es-timativa foi calculada a partir das medições feitas por Genival Barros

Na página seguinte, moradores na barragem do rio Pajeú, na comunidade de Poço Grande

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Junior, professor de Agronomia da UFRPE de Serra Talhada, respon-sável por avaliar a eficiência do sistema de irrigação e a perfor-mance das culturas que estão re-cebendo as águas cinzas. Genival calcula que, por semana, a coleta de água cinza de uma família seja de 1.100 litros. “Isso é uma média, porque tem família que passa 11 dias pra juntar esse volume de água”, explica.

Filtragem em duas

etapas

De maneira improvisada, as famí-lias sempre tentaram reaproveitar parte desse montante de água co-locando pequenos potes nas saí-das dos canos, que normalmente escoavam direto nos quintais. Mas o procedimento de recolher a água manualmente não era mui-to eficaz, porque ela continha

sa-bão, óleo, sódio e outras impure-zas. “Tinha planta que até morria, porque a gente tirava da pia e usa-va direto nas plantas”, conta Nice. Além disso, a água do semiárido é muito salina, por conta das formações rochosas da região, e os solos ou as culturas não são tolerantes a grande quantidade de sais. Para se livrar de parte dessas substâncias, portanto, o RAC é composto por duas eta-pas de filtragem. Primeiro, uma pequena caixa de gordura onde o óleo e a água são separados. Restos de alimento também fi-cam retidos ali. Depois, uma cai-xa d’água com camadas de brita, areia e carvão, na qual as outras substâncias são filtradas. Entre-tanto testes preliminares, feitos por Genival e sua equipe, apon-tam que o PH está entre 6 e 7, o que indica uma água ainda bas-tante salina.

O Sítio Poço Grande fica no município de Flores, no Sertão do Pajeú. Cerca de 30 famílias vivem na localidade. Quase todas têm cisternas. Já a água do rio Pajeú é puxada com bomba ou transportada em carroças. Durante parte do ano, o rio seca parcialmente. Uma barragem construída em 1982 deveria solucionar o problema, mas há conflitos: moradores da parte de baixo do rio reclamam que os da parte de cima não querem que a barragem seja aberta nos períodos mais secos

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O RAC está em funcionamento há quase dois anos e foi construído de modo que a sua eficácia seja analisada e os possíveis impactos minimizados. Genival conta que a baixa dispersão de água, que cai em gotas, combinada à orientação de colocação de matéria orgânica nos pés das plantas, ameniza os efeitos do sal no solo. “Diferen-temente se eu despejasse a água concentrada, porque aí estaria le-vando uma grande quantidade de sal pra um mesmo lugar”.

Genival lembra ainda as águas das chuvas, que voltam a cair no inver-no e neutralizam o sal dispersado no solo. A Embrapa está respon-sável por fazer a análise física dos solos, entretanto ainda não lançou dados, devido ao pouco tempo de implementação do sistema. Esse tipo de avaliação exige uma amos-tragem de terra que tenha sido

exposta às águas cinzas por um período maior. Tampouco a análise biológica das águas foi divulgada. Para aferir o desenvolvimen-to agrológico e biológico das plantas que estão recebendo as águas cinzas foi necessário que duas áreas idênticas fossem plantadas paralelamente – uma recebendo água e a outra não. “Nós fizemos duas áreas paralelas, 1.250 m² irrigados e 1.250 m² em sequeiro, sem aplicação de água alguma, exatamente pra gente ter a certeza de que a entrada da água no sistema estava fazendo diferen-ça”, explica Genival. As plantas no sequeiro ficam à mercê do tempo e as outras recebem água a cada sete dias, tal como recomendara o agrônomo. “Da dó de ver umas plantas murchando e as outras re-cebendo água, mas a gente sabe que tem que ser assim”, conta Cida,

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moradora da Comunidade Sítio La-goa de Dentro.

Genival denomina o seu trabalho como uma pesquisa-ação, pois a colaboração das famílias – princi-palmente das mulheres, que são as maiores responsáveis pelos quin-tais produtivos e pela alimentação dos animais – é fundamental para o resultado das suas avaliações. A água deve ser bombeada conforme suas recomendações e a quantida-de é controlada por um hidrômetro e anotada em uma planilha, que posteriormente é recolhida e ava-liada. As famílias devem manter o sistema limpo para evitar entupi-mento. Cada planta recebe sema-nalmente 1,3 litro de água. Uma quantidade bastante tímida, dados o intenso calor e a baixa umidade dos períodos de estiagem. No en-tanto as observações preliminares

de algumas frutíferas e forrageiras apontam aumento no índice de sobrevivência: nas áreas irrigadas, sete a cada dez sobrevivem; nas áreas de sequeiro, a metade morre. Mas o que chama a atenção mes-mo é o desenvolvimento das plan-tas. “Nós tivemos taxas de cresci-mento idênticas como se estivesse em uma área convencional de irri-gação com água de qualidade. Isso demonstra que, metabolicamen-te, essas plantas responderam à água”, afirma Genival.

Uma delas, porém, apresentou re-ações distintas. “A palma teve o mesmo índice de sobrevivência tanto na área de sequeiro como na área irrigada, porém nesta ela tem taxa de crescimento positiva, ao passo que na área do sequeiro a taxa é negativa”, diz o agrônomo, explicando o ponto em que a plan-ta murcha e começa a diminuir de tamanho.

A palma é uma das forrageiras mais importantes dos sertanejos. Exis-tem ao menos seis variedades dela, todas altamente resistentes ao pe-ríodo de estiagem, pois armaze-nam muita água. A espécie é uma das prediletas dos animais, devido ao seu valor nutritivo. “Parece que a vaca dá até mais leite quando ali-mentada com a palma”, conta Tei-xeira, um sertanejo de Poço Gran-de que também está irrigando sua plantação de palma com o RAC. A palma cumpre, portanto, um papel fundamental na segurança alimen-tar sertaneja para atravessar o pe-ríodo de estiagem “A criação dos pequenos animais é estratégica para a agricultura familiar aqui no semiárido. O desafio era como ali-mentar essas criações no período de estiagem”, observa Rivaneide. Quando o verão chegava, os supor-tes forrageiros eram os primeiros a deixarem de ser irrigados. Toda a água armazenada durante o

inver-Acima, Maria Uliane Alves da Silva, 24 anos, dá banho em Emanuele Beatriz, de 1 ano e 6 meses. A água usada no banho vai irrigar as plantações de forragem que servem de alimento aos animais (foto à direita)

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no era priorizada para consumo humano e uso doméstico.

Cisternas

Os sertanejos costumam poupar ao máximo às águas armazena-das, pois grandes estiagens são comuns no semiárido. “Nesse úl-timo período de seca, vivemos a reafirmação da importância de ino-vações que permitam sobretudo à população da zona rural ter acesso à água por meio das tecnologias sociais de captação e armazena-mento das chuvas”, enfatiza o bi-ólogo Alexandre Henrique Bezerra Pires, especialista em extensão rural e desenvolvimento local, co-ordenador geral do Centro Sabiá e coordenador executivo da Articula-ção do Semiárido Brasileiro (ASA) em Pernambuco.

A ASA reúne mais de 3 mil orga-nizações populares do Nordeste. Alexandre se refere à seca de 2011 a 2017, que marcou quase sete

anos de dificuldades na região. Esse período, contudo, não dei-xou os sinais dramáticos de outras épocas da história recente, como mortalidade infantil e fome, tão comuns há cerca de 20 anos. Os problemas eram então enfrentados com o que se chamou de “indústria da seca”, que estimulava a migra-ção como saída para a miséria e a fome, levando o sertanejo a morar perto de grandes centros urbanos em desenvolvimento, onde se tor-nava mão de obra barata.

Parte de um conjunto de iniciativas que mudaram a vida dos serta-nejos, as cisternas são o símbolo da qualidade de vida conquistada nos últimos 20 anos no Sertão. “Temos mais de 1 milhão de cis-ternas construídas com base em processos de formação e mobili-zação para a convivência com o semiárido, o que permite às famí-lias reconstruir práticas de armaze-namento de águas, sementes,

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ali-mentos para pessoas e animais, de modo a garantir que a água dispo-nibilizada seja utilizada da melhor forma e com o máximo possível de aproveitamento”, relata Alexandre Henrique.

As cisternas foram construídas para famílias rurais de baixa renda – populações tradicionais (indíge-nas e quilombolas), agricultores e agricultoras familiares – com o pro-pósito de guardar a água das chu-vas. Os próprios usuários são trei-nados para a construção de placas de cimento que formam paredes redondas com apoio de arame galvanizado. Dois terços da cons-trução ficam enterrados, e apenas um reboco é necessário para lhes garantir a sustentação. Essas tec-nologias sociais têm tamanhos que variam conforme o uso: doméstico, em escolas ou para produtores ru-rais.

“Nestes últimos 20 anos, foram construídos marcos legais que asseguraram recursos para a

im-Déa Solange: antes do RAC, a água era descartada e só “juntava sapo e muriçoca”

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plementação de iniciativas que contribuíram efetivamente para as políticas que estamos desenvol-vendo”, comenta o biólogo. Ele, no entanto, lamenta que a região se ressinta de alguns retrocessos nas políticas públicas que inquietam as famílias agricultoras e os profis-sionais envolvidos com os progra-mas de atendimento popular. “Há cortes de recursos que transfor-mam muitas ações em letra morta. Embora o povo tenha capacidade de resistência e solidariedade por meio do diálogo com setores em-presariais sensíveis, fóruns de se-cretários da agricultura familiar, o consórcio de governadores do Nor-deste e agências multilaterais, por exemplo, temos de garantir o que conquistamos com tanta luta. Não podemos voltar a figurar no mapa da fome. Vamos buscar formas para estarmos juntos em defesa do território, da água, da alimentação e dos bens comuns”, conclui Ale-xandre Henrique.

O que é a ASA

A Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) é uma rede de organizações que atua nos dez estados que compõem o semiárido (os nove do Nordeste e Mi-nas Gerais). Suas ações se pautam no estoque de água e também de sementes crioulas, com base em preceitos como agroecologia, economia popular e solidária, educação contextualizada, comunicação popular, segurança alimentar e nutricional, entre ou-tros temas. Para isso, a ASA integra espaços como o Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar e o Fórum de Mudanças Climáticas, bem como quase todas as instâncias nacionais que debatem temas como es-ses. O programa de estocagem de sementes crioulas foi lançado pela ASA em 2015 e valorizou famílias guardiãs de importante patrimônio genético, com o resgate de costumes que já existiam por gerações em comunidades tradicionais. Uma riqueza alimen-tar, com nutrientes não modificados, como é usual nos mercados das grandes cidades do mundo. Al-guns grupos comunitários criaram bancos ou casa de sementes coletivas para resguardar e difundir es-ses alimentos.

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