Homilia para Quinta-Feira santa 24 de março de 2016

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Homilia para Quinta-Feira santa 24 de março de 2016

Muitas vezes e em diversas ocasiões a Igreja tem manifestado sua indignação e preocupação pastoral a respeito do estado de violência instalado em nossa sociedade. Repetimos que a sociedade cultiva, insistentemente, uma cultura de violência. Eu mesmo já por ocasião da Festa de Nossa Senhora da Penha, a Senhora das Alegrias, convoquei a Assembleia Celebrante, durante a homilia, para que erguêssemos a mão e disséssemos juntos: "não à violência"! "Basta de violência"!

Hoje, Quinta-Feira santa, povo de Deus convocado e reunido em Assembleia Litúrgica, presbitério reunido e presidido pelo arcebispo desta Igreja particular, para celebrar a Sagrada Eucaristia e benção solene dos Santos Óleos, matéria dos Sacramentos da Igreja!

Nesta quinta feira dois gestos chamam a minha atenção e sugerem-me uma possível resposta à dura e permanente realidade que vivemos no Brasil e especialmente no Estado do Espírito Santo. O gesto do lava pés e a bênção dos Santos Óleos.

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Tenho para mim que o combate à cultura da violência muitas vezes tem sido através de denúncias, passeatas pela paz, esforço muito positivo, mas que ainda permanece na periferia do problema da violência. Colabora sim com a cultura da paz, mas não chega às causas da cultura da morte pela violência. Precisamos ir às causas dos nossos problemas pessoais e sociais que se não forem enfrentados transformam-se em pecados pessoais e sociais.

Contra a opção pela violência, a cultura da morte, Jesus nos deu o antídoto para este perigoso veneno. Jesus nos ensinou um novo caminho para que iniciássemos uma nova cultura: o caminho ou a cultura do lava-pés. Ele não lava os pés de uma grande multidão, mas lava os pés de cada apóstolo, ensinando-nos a lavar os pés de cada ser humano, de cada pessoa, criatura e filha de Deus.

Onde surge o ato violento senão na pessoa humana, senhora de suas escolhas e decisões? De onde vem a pessoa e como ela aprende a ser pessoa, senão primeiramente na família? O casal que gera o ser humano precisa aprender o mistério do Lava-pés. Se o casal é violento, seja ele culto ou não, produz violência. Se o casal deixa-se lavar os pés e aprende a lavar os pés um do outro fará com

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que seus descendentes entrem na escola do Lava-pés.

O que notamos hoje na sociedade? Muita gente sem educação cristã. Podem até saber ler e escrever e ter uma profissão liberal ou outra qualquer, mas suas atitudes podem ser violentas, mal-educadas e desrespeitosas nas relações humanas e, consequentemente, em suas relações enquanto cristãos.

A cultura do Lava-pés ensina-nos o respeito e a reverência para com o nosso semelhante. O humano e o divino começam no casal cristão que constitui a sua família. Se a pessoa não aprendeu em seu lar o respeito sobre seu semelhante, na sociedade plural assumirá um caminho diferente, entrará na cultura da violência e da morte.

O mistério do lava pés atinge o nosso coração. E aí está o apelo à misericórdia. Lava-pés é gesto de misericórdia. Misericórdia é mais do que uma palavra. É uma atitude constante, uma cultura cristã que pode modificar e transformar a sociedade.

Meus irmãos e irmãs, hoje toda a Igreja que está reunida e convocada como Assembleia Litúrgica, convocada pelo Espírito Santo, cada um de nós, nossas famílias, nossas Comunidades Eclesiais, a Vida consagrada religiosa e leiga, os diáconos, os presbíteros e

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bispos, todos nós precisamos avaliar nossas atitudes do coração humano nas nossas diversas relações. O coração do cristão é santificado pelo Coração Divino, em Cristo e pelo Espírito desde o santo batismo.

Deveríamos e devemos ser sinais e promotores de uma cultura da paz, do amor e da justiça. Qualquer infidelidade desde o coração humano e divinizado por Cristo torna-se escândalo, pecado que clama aos céus, porque fomos consagrados pelo Espírito Santo no Sacramento do batismo para sermos promotores de uma cultura que vem do Alto, da Justiça que vem do Alto, do Pai Misericordioso.

A primeira e a terceira leitura da Sagrada Escritura que acabamos de ouvir ilumina-nos e dirigi-nos para esta verdade de convertidos: "O Espirito do Senhor está sobre mim porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos, e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor" (Lc 4, 18).

Os Santos Óleos expressam quem somos diante da sociedade plural em que vivemos: ungidos para a cultura do Lava-pés, dirigidos e formados pelo Espírito Santo que nos

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santifica, nos orienta e nos dá coragem para sermos diferentes. No meio onde ainda vale o egoísmo destruidor da pessoa que gera a violência; nós, sob o poder do Espírito que está sobre nós, ungidos para missão, testemunhamos e trabalhamos por uma nova cultura cristã, a cultura do Lava-pés. Novos céus e nova terra é a esperança dos ungidos para a missão!

Os Santos Óleos e o Lava-pés expressam a novidade pascal de Jesus Cristo, nosso libertador e Senhor que se fez servo de todos e se revelou como Caminho, Verdade e Vida! Quinta feira Santa, exigência de avaliação e conversão para toda Igreja desde o simples leigo à mais alta hierarquia. Todos convertidos e, por isso, bebendo da Misericórdia Divina, comprometidos em ser misericordiosos estejamos onde estivermos.

Saúdo a todas as comunidades Eclesiais, diversos ministérios não ordenados. Saúdo todos os diáconos e Presbíteros e Bispo. Que todos sejamos simples e servos.

A todos muito obrigado pelo bem que fazem a Igreja. Cada um, no seu lugar, dentro do mistério da Igreja.

Muitas vezes tenho dito a todos, especialmente, aos presbíteros, sobre o vínculo profundo que nos une na santificação

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da porção do povo de Deus que nos foi confiada. O mistério da Igreja nos envolve através de um chamado misericordioso, ungidos pelo Espírito Santo, sejamos "outro Cristo", Servos e santificadores da Igreja. Por isso, eu insisto com muito carinho: Sejamos Santos!

Tenho certeza queridos presbíteros, que cada um dos senhores tem no seu coração um desejo sincero e profundo de ser santo, mesmo que experimente, na dureza do seguimento de Jesus, dificuldades e fragilidades.

Tenham consciência diária de que os senhores devem ser dirigidos pelo Espírito do Senhor, para isso a prioridade absoluta para os senhores deverá ser: servos de todos e reservar tempo para o diálogo pessoal com Deus além da missa diária, estejam onde estiverem. Deus os abençoe. Agradeço-lhes todo empenho e amor dedicado à Igreja.

Que o Coração Misericordioso de Jesus os console, fortaleça e faça de cada um dos senhores, luz de esperança para todo o povo de Deus a nós confiado.

O mesmo digo aos diáconos, servidores da Caridade, da Palavra e do Altar. Que bela

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vocação! Sejam todos santos diáconos. Sei que alguns dos senhores estão desanimados e ausentes dos deveres da formação permanente. A Igreja os quer como verdadeiros diáconos, evangelizados e evangelizadores. Ânimo, coragem! Eu os ordenei diáconos da Igreja com muito amor, confiando na responsabilidade de cada um dos senhores diante de suas famílias e servidores da Comunidade Eclesial.

A Igreja quer e tem direito que nós, bispos, presbíteros e diáconos sejamos exemplos na busca da santidade.

Aos religiosos (as) e consagrados leigos além de lhes ser muito agradecido pelo testemunho e serviço evangelizador nesta Igreja Particular, também, com maior ênfase peço-lhes: empenhem-se na busca da santidade, da perfeição, porque faz parte da opção vocacional de radicalização evangélica desta pequena grei do Senhor, sendo sinal e exemplo, sendo estímulo para a vida de toda a Igreja.

Uma palavra de carinho aos seminaristas: a cultura do Lava-pés deve ser essencial na formação tanto para o diaconato como para o presbiterado. A unção batismal e da crisma quando recebemos a imposição das mãos pelo sucessor dos apóstolos deve suscitar

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entusiasmo em cada um para a resposta pessoal ao chamado de Deus, para fazer a experiência do encontro com Deus diariamente. Deus não pode ficar na reserva de nossa vida. Seminaristas, empenhem-se na busca da santidade!

Caríssimos, cultivemos todos a comunhão Eclesial, a Comunhão do Presbitério, como sinal do empenho por uma Nova cultura cristã, a cultura da paz e do amor que vem do alto.

Assim seja!

Dom Luiz Mancilha Vilela, sscc

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