CURSO DE MEDICINA VETERINÁRIA
ENRIQUECIMENTO
AMBIENTAL
DE
PRIMATAS EM CATIVEIRO
ENVIRONMENTAL
ENRICHMENT
OF
PRIMATES IN CAPTIVITY
Ludmila Nogueira de Moraes
José Lopes Lima
Rafael Prange Bonorino
Resumo: O Bem-Estar Animal está vinculado à condição corporal, fisiológica e psicológica dos animais, associado a reflexos
ambientais, biológicos, sanitários, nutricional, dentre outros. Diante da proximidade dos centros urbanos em relação às áreas de vegetações naturais, dos constantes processos de degradação do meio ambiente e dos intermináveis e continuados mecanismos de tráfico de animais, resta a estes viverem em instalações de cativeiros públicos ou privados. Para que se possa mimetizar as condições do habitat natural de cada espécie, são avaliadas e implementadas técnicas de enriquecimento ambiental, através de métodos: físico, social, sensorial, alimentar e cognitivo. No caso dos primatas, através de avaliação do Etograma, foi comprovado que o método físico foi mais eficiente, obtendo ao final um resultado satisfatório, culminando na melhoria das condições de vida desses animais em cativeiro.
Palavras-Chave: Bem- estar animal, Enriquecimento ambiental, Cativeiro.
Abstract: Animal Welfare is linked to the physical, physiological and psychological condition of the animals, associated with
environmental, biological, health, nutritional, and other reflexes. In view of the proximity of urban centers to areas of natural vegetation, the constant processes of degradation of the environment and the endless and continuous mechanisms of animal trafficking, they are left to live in public or private captive simulate. In order to mimic the conditions of the natural habitat of each species, environmental enrichment techniques are evaluated and implemented through physical, social, sensorial, food and cognitive methods. In the case of the primates, through evaluation of the Etogram, it was proven that the physical method was more efficient, obtaining in the end a satisfactory result, culminating in the improvement of the living conditions of these animals in captivity.
Keywords: Animal welfare, Environmental enrichment, Captivity.
Contato:[email protected]
1- Introdução
O bem-estar animal pode ser definido
como a condição fisiológica e psicológica na qual o animal é capaz de adaptar-se confortavelmente ao entorno, podendo satisfazer suas necessidades básicas e desenvolver suas capacidades conforme a sua natureza (Calderón Maldonado, 2009).
Através da avaliação da saúde física e dos padrões comportamentais da espécie é possível avaliar o estresse e o bem-estar psicológico de um animal cativo. Recentes estudos examinaram categorias de parâmetros endócrinos na tentativa de avaliar o bem-estar psicológico, tendo nas variações dos níveis de cortisol um indicador indireto da intensidade da resposta a estímulos estressantes (Sgai, 2007). Já em relação aos padrões comportamentais, alguns aspectos nos permitem medir a baixa qualidade de vida dos animais, como distúrbios comportamentais, estereotipias, automutilação) e supressão de padrões comportamentais normais (Young, 2003).
A preocupação com o bem-estar em
animais não humanos é antiga (Volpato, 2007). Há muito tempo, bem-estar é um termo de uso comum presente nas sociedades humanas e a ligação com os animais encontra-se onipresente na história da humanidade, onde a ideia de que os animais sentem, e que seu sofrimento deve ser evitado, é bastante aceita e fundamentada (Saad et al., 2011). Em 1967, o Conselho de Bem-Estar de Animais de Produção (Farm Animal Welfare Council - FAWC), na Inglaterra, estabeleceu um conjunto de “estados” ideais, denominado “cinco liberdades” dos animais, onde a finalidade é manter os animais:
Livres de fome, sede e desnutrição Livres de desconforto
Livres de dor, injúrias e doenças
Livres para expressar o comportamento natural da espécie
Livres de medo e estresse
Tabela 1. As cinco liberdades. (Saad et al., 2011)
Como citar esse artigo:
Moraes LN, Lima JP, Bonorino RP. ENRIQUECIMENTO AMBIENTAL DE PRIMATAS EM CATIVEIRO. Anais do 14 Simpósio de TCC e 7 Seminário de IC da Faculdade ICESP. 2018(14); 1524-1534
O bem-estar físico está relacionado com a condição corporal do animal, expressa o seu funcionamento biológico e reflete tanto as doenças e o estado nutricional como também os cuidados dispensados a ele. Igualmente, está relacionado com o nível de conforto existente, sua adaptabilidade e a possibilidade ou não da expressão do comportamento natural nesse ambiente. Estresse crônico por ambientes inadequados com pouco espaço e sem estímulos sensoriais apropriados podem afetar a saúde, o comportamento e a qualidade de vida do animal (McMillan, 2005).
O interesse pela área de bem-estar vem crescendo intensamente nos 12 últimos anos, nos quais cientistas e instituições se dedicam em buscar melhoria no bem-estar de animais em cativeiro (Pizzutto et al., 2009). Um dos problemas comportamentais relacionados ao cativeiro são as estereotipias, definidas comumente como comportamentos repetitivos e sem função (Mason, 1991, Shepherdson et al.,1993).
Com a crescente expansão da degradação ambiental, a consequente destruição de habitats e a ameaça de extinção a espécies, a manutenção de animais em cativeiro passou a ser uma importante ferramenta para a conservação das espécies (UFAW, 1997). Existem duas abordagens para a conservação: in situ, caracterizada pela manutenção dos animais no ambiente natural, com foco na manutenção desse ambiente e ex situ, que consiste em manter animais em instituições como zoológicos e criadouros conservacionistas, onde devem ser realizados estudos sobre comportamento alimentar, treinamentos para possível reintrodução e reprodução orientada, mantendo-se a variabilidade genética (Andriolo, 2007).
A Lei Federal 7173/83, dispõe que é considerado jardim zoológico qualquer coleção de animais silvestres mantidos vivos, em cativeiro ou semiliberdade expostos à visitação pública (Brasil, 1983).
Os animais que atualmente estão mantidos em cativeiro são na grande maioria oriundos de apreensões ou doados. Os que possuem melhor aparência, saúde e mais atrativos, são direcionados para exposição nos zoológicos. Como zoológicos e ambientes cativos, o espaço físico é limitado, geralmente há uma alta densidade populacional, o acesso à comida é fácil, não tem muitos estímulos e isso pode ocasionar comportamentos atípicos da espécie (Barbosa e Mota, 2004; Carlstead;
Shepherdson, 1994; Young, 2003; Garner et al., 2003).
Em 20 de fevereiro de 2008 foi instituída a Instrução Normativa nº 169, que normatizou as categorias de uso e manejo da fauna silvestre em cativeiro em território brasileiro, visando atender às finalidades socioculturais, de pesquisa científica, de conservação, de exposição, de manutenção, de criação, de reprodução, de comercialização, de abate e de beneficiamento de produtos e subprodutos, constantes do Cadastro Técnico Federal (CTF) de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Naturais do IBAMA (Augusto; Nassar, 2015).
O ambiente em cativeiro tende a ser monótono, previsível e sem desafios, bem diferente do ambiente natural, o que pode acarretar ao indivíduo uma resposta adaptativa ruim, ocasionando, por exemplo, aumento de peso ou obesidade, diminuição da capacidade reprodutiva, má alimentação, automutilação e estresse, no qual recebe o nome de comportamento estereotipado (Jonhson et al., 1991).
No contexto de animais cativos, o cativeiro impõe aos animais selvagens um ambiente diferente daquele no qual a espécie evoluiu (Sgai, 2007). O cativeiro é tipicamente caracterizado por alta densidade populacional, espaço limitado, baixa pressão predatória, fácil acesso à comida e barreiras físicas prevenindo a dispersão e a imigração (Newberry, 1993). Desta forma, as condições ambientais às quais os animais cativos são submetidos podem afetar o bem-estar dos mesmos. Situações adversas desencadeiam respostas das adrenais, resultando em um aumento da secreção de glicocorticóides e/ou catecolaminas. Este é o primeiro mecanismo de defesa do organismo contra as condições estressantes (Moberg, 2000).
O cativeiro pode levar também a desenvolvimento de estresse crônico, geralmente associado à ausência de reprodução e a problemas de imunossupressão (Munck, 1984). Nesse cenário, a saúde e o bem-estar de animais cativos vêm recebendo maior atenção nas últimas décadas (Ekkel et al., 1996). A identificação dos fatores estressantes e do seu efeito no bem-estar de animais cativos contribuiu à compreensão dos efeitos biológicos e psicológicos do cativeiro (Acco et al., 1999).
As causas de estresse para os animais selvagens mantidos em cativeiro são variadas
(Pachaly et al., 1993). O animal encontra-se geralmente em um ambiente restritivo, com variedade de substratos, plantas, alimentos e temperatura diferentes das oferecidas na natureza (Mader, 1996)
O estresse deve ser entendido como um processo fisiológico, neuro-hormonal, pelo qual passam os seres vivos para enfrentar uma mudança ambiental, na tentativa de se adaptar às novas condições e, assim, manter a sua homeostasia, tratando-se de um estado manifestado por um conjunto de respostas específicas do organismo e desencadeado por diferentes tipos de agentes, que são denominados estressores (Selye, 1965). Limitado, como é o caso de cativeiros, podem apresentar alterações significativas em seu comportamento (Barbosa & Mota, 2004).
A resposta fisiológica ao estresse constitui-se da liberação de glicocorticóides (corticosterona e cortisol, dentre outros) pela glândula adrenal, em virtude da ativação do eixo Hipotálamo-Hipófise (pituitária) -Adrenal (HPA). A ativação da glândula adrenal decorre da liberação do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) pela hipófise, que é controlada pela liberação do Fator Liberador de Corticotropina pelo hipotálamo (e. g. Koob, 2009 apud Silva, 2011). A produção de glicocorticóides é importante para a sobrevivência do animal, fazendo-o reagir a situações adversas. Porém a liberação contínua desses hormônios, decorrente de estresse crônico, pode ser prejudicial, causando os problemas apontados por Sapolsky (1990). Por esta razão, a quantificação de cortisol é uma importante medida de avaliação de bem-estar (e. g. Montanha et al, 2009; Silva, 2011; Muehlenbein et al, 2012).
Medir o nível de cortisol no sangue pode ajudar a diagnosticar essas condições.
Por isso, é de extrema importância e dever ético se preocupar com o bem-estar físico e psicológico do animal quando se opta por mantê-lo em cativeiro, proporcionando as melhores condições possíveis de vida, diz Furtado (2006). Neste contexto, a disponibilidade futura de muitas espécies poderá depender totalmente do sucesso da manutenção e criação dos primatas em cativeiro, salientando-se o controle de vários governos para a exportação de animais (Martin, 1986).
Os primatas são mamíferos placentários, que possuem como características evolutivas, a preservação de propriedades rudimentares, além da fácil adaptação aos diferentes habitats e a capacidade de adquirirem hábitos de acordo com
o ambiente (Ferrari, 1996).
O primata assim que ingressa no cativeiro, inicia o processo de adaptação a esta nova condição, sendo definido como má adaptação a inabilidade de um animal superar efetiva e eficientemente as dificuldades por um longo período durante sua ambientação. A síndrome da má adaptação corresponde à inanição, emagrecimento mesmo se alimentando, fragilidade tecidual, susceptibilidade às infecções, infecções por saprófitos, úlceras gastrointestinais e desenvolvimento de parasitas, dentre outras. (Fowler, 1986)
A adaptabilidade é uma característica não morfológica presente nos primatas, e ela é provavelmente a responsável pelo sucesso evolucionário do grupo. Apesar de que cada família varie neste particular, todos possuem a capacidade de poder adaptar-se perante grandes mudanças do meio (Diniz, 1997).
Condições constantes e ideais de manutenção em cativeiros podem apresentar ausência de compensadores fisiológicos e morfológicos de proteção. Um exemplo é o pelame insuficiente para prevenir a hipotermia quando expostos às condições de frio no pós-soltura. Semelhante problema pode ocorrer em virtude do fornecimento adequado de alimento e água em cativeiro, acompanhados de pouca atividade física, podendo deixá-los obeso e com baixa capacidade cardiovascular e muscular, podendo causar exaustão, desidratação, fome, e inanição quando em vida livre, devido à incapacidade física para fuga de predadores e para procura constante de alimento (Diniz, 1997).
Um dos grandes objetivos da conservação de espécies selvagens em cativeiro, especificamente em zoológicos, é a educação ambiental. A pesquisa científica conservacionista e a formação de um banco de dados genéticos também são importantes argumentos para a manutenção dos animais em ambiente distinto do natural (Saad et al., 2011). Tendo como propósitos a pesquisa, recreação e lazer, educação, conservação da fauna regional e global, além de dar suporte à reprodução, criação e reintrodução de espécies ameaçadas em seu ambiente natural, os zoológicos vêm se estruturando cada vez mais para permitir aos animais condições mais adequadas de sobrevivência, conferindo maior longevidade e menores situações de estresse aos animais cativos, bem como aumentando o sucesso reprodutivo. Deste modo, os zoos deixam de ser simples centros de visitação de animais e lazer e
passam a colaborar ativamente com a manutenção e perpetuação da espécie.
2-Objetivo
O objetivo desse trabalho é revisar e discutir as técnicas de enriquecimento ambiental de forma a mimetizar as condições naturais do habitat e elevar os níveis de bem-estar dos primatas em cativeiro.
3- Materiais e Métodos
O Trabalho foi realizado com a precípua preocupação de demonstrar as condições em que vivem os primatas em cativeiro, procurando de certa forma explicações e conhecimento para identificar as causas que os levam ao enfadonho e triste sentimento de privação de liberdade. Para tanto nos detivemos à busca de bibliografias, artigos ou qualquer outro tipo de contribuição que discorram sobre o tema em comento (rol de referências citadas). Aliado a isso, nos detivemos em tentar compreender essa relação do animal em cativeiro com o meio que o cerca, através de visita realizada ao Zoológico de Brasília, onde pudemos presenciar a grande variedade de elementos de enriquecimento ambiental lá implantados, ratificando sobremaneira a efetiva eficiência do método físico, não só pela aplicação de equipamentos e instrumentos de baixo custo ou mesmo de uso reciclado( mangueiras, troncos de árvores, pneus, etc), mas por mimetizar as condições naturais que permitam ao arborícola circular, pular, subir, descer, enfim, propiciar um deslocamento espacial promovendo uma idéia de plena liberdade.
Os índices comportamentais relacionados ao pós-enriquecimento apresentados para justificar o referido método, foram extraídos da pesquisa promovida pelo Instituto Mata Ciliar, Jundiaí – SP,2012, complementados pelos dados fornecidos pelo Criadouro Conservacionista do Cesmac-Maceió,2013.
4- Enriquecimentos Ambiental
O CFMV, através da Resolução nº 1178/2017, em seu artigo 2º, incisos abaixo, reafirmou a competência dos responsáveis técnicos quanto a:
“VIII – recomendar e orientar a manutenção de programas de enriquecimento ambiental, quando não houver restrições;
X – Acompanhar parâmetros comportamentais essenciais no reconhecimento de sinais de desconforto, dor e sofrimento e adotar procedimentos adequados e estabelecidos para o ponto final humanitário. ”
A Médica Veterinária Paloma Bosso, integrante da Comissão de Ética, Bioética e Bem-estar Animal (CEBEA) do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), afirma que a falta de desafios e a restrição comportamental comprometem a qualidade de vida dos animais. O enriquecimento ambiental consiste em oferecer estímulos que promovam comportamentos naturais aos animais, respeitando as características da espécie e reduzindo o estresse do cativeiro, que está presente em diversos cenários: zoológicos, aquários, baias, currais, gaiolas, laboratórios e até mesmo em ambientes residenciais, onde estão os animais de estimação.
A redução de distúrbios comportamentais, do estresse, intervenções clínicas, mortalidade e o aumento das taxas reprodutivas são outros
importantes benefícios do enriquecimento
(Carlstead & Shepherdson, 2000). O
enriquecimento são modificações no ambiente social e físico onde os animais estão inseridos, que combinados com o habitat e comportamento típico, aumentam a qualidade e prevalência do bem-estar, a partir da saúde, comportamento e desempenho reprodutivo (Boere, 2001).
A elaboração de um programa de enriquecimento ambiental deve partir de um estudo sobre a espécie envolvida, considerando aspectos do histórico do indivíduo e avaliando as possibilidades a fim de minimizar os riscos oferecidos. No entanto, por melhor que seja o planejamento, as observações comportamentais são essenciais para assegurar que os itens oferecidos não serão utilizados de forma inadequada pelos animais. Além disso, uma das premissas do enriquecimento ambiental é o acompanhamento comportamental, que deve ser realizado antes, durante e após as intervenções, com objetivo de mensurar os comportamentos apresentados em cada etapa (UFAW, 1997).
O estudo do comportamento dos primatas teve, inicialmente, um forte viés antropocêntrico, pois o foco central de interesse era a obtenção de dados sobre a organização social e o comportamento de nossos parentes mais próximos a fim de dar subsídios para a
compreensão de nossos próprios padrões sociais e comportamentais. Strier (2003), ao apresentar uma visão histórica do desenvolvimento primatológico, ressalta que os primeiros estudos do comportamento dos primatas eram fortemente descritivos e etnográficos, centrados na catalogação de repertórios comportamentais, também chamados Etogramas. Não existia, em princípio, qualquer forma de quantificação do comportamento ou de padronização dos métodos de amostragem, o que tornava difícil a comparação entre diferentes estudos e diferentes espécies.
O Etograma é utilizado como ferramenta para o estudo do comportamento animal, pois é uma representação da qualificação e quantificação dos comportamentos exibidos por uma espécie, podendo ser apresentado na forma de um inventário escrito ou, geralmente, também de maneira gráfica (Del-Claro, 2004; Schlindwein & Nordi, 2013). É a descrição detalhada dos tipos ou categorias comportamentais junto à quantificação e frequência de ocorrência. O levantamento dessas categorias permite a necessária padronização para estudos quantitativos e comparativos (Souto, 2003). Os primeiros registros da utilização de técnicas de enriquecimento ambiental datam de 1911, com a colocação de brinquedos para ursos polares, mas sua importância só foi reconhecida por Robert Yerkes, que em 1925 observou que a invenção e instalação de aparatos que pudessem ser utilizados para brincadeiras e trabalho proporcionariam um enriquecimento para primatas cativos. No entanto, na maioria dos zoológicos, os recintos eram construídos com vistas na praticidade para higienização e manutenção, características que tornavam o espaço adequado do ponto de vista físico, porém não consideravam o aspecto psicológico do animal, que passou a ser considerado apenas na década de 90, sinalizando uma nova mudança na relação entre o homem e os animais (UFAW, 1997).
2.1- Métodos de Enriquecimento Ambiental
Conforme o CFMV, Ambientes ricos em estímulos promovem bem-estar de animais domésticos ou mntidos em cativeiro.
Segundo Furtado (2006), temos um dever ético, ao manter animais em cativeiro, de lhes proporcionar saúde física e mental e o enriquecimento ambiental contribui significativamente para o bem-estar destes animais. Primatas apresentam comportamentos agrupados nas classes de manutenção,
locomoção, alimentação, alerta, sonora, social, agonístico e estereotipado.
Esta prática consiste na introdução de variedades em alimentos, objetos, etc. nos recintos, permitindo que os animais usem a curiosidade, a criatividade , desperte seu instinto, ocupem seu tempo, sempre adequando estas práticas à espécie em questão, garantindo a segurança dos animais, dos tratadores, assim como do público, fazendo parte da rotina dos animais, e podemos classificá-las de cinco formas: físico, sensorial, cognitivo, social e alimentar:
4.1.1– Enriquecimento físico: Está relacionado
com a estrutura física do recinto, onde poder-se-á introduzir elementos como brinquedos, cordas, redes, vegetação para o animal se esconder, se sentir seguro, poleiros, troncos, tanques de água, etc.
Figura 1. Enriquecimento físico: Com cordas,
redes, troncos tocas, vegetação Zoo de Sorocaba
Fonte: https://agendasorocaba.com.br/zoologico-municipal-quinzinho-barros
4.1.2– Enriquecimento sensorial: Está
relacionado com o estímulo através do olfativo, visual, auditivo, gustativo e tátil, colocando nos recintos sons de água em movimento, vozes de animais, introduzindo ervas aromáticas, panos com cheiros de outros animais e até urina e fezes estimulando a proteção de território.
Figura 2. Enriquecimento sensorial: Estímulos
através dos cinco sentidos
Fonte: http://g1.globo.com/sc/santa- catarina/nossa-terra/2013/noticia/2014/02/projeto- bugio-realiza-estudos-para-preservacao-de-macacos-no-vale.html
4.1.3- Enriquecimento cognitivo/ ocupacional: São dispositivos que estimulam os
animais a “resolver problemas”, com isso desenvolvendo a motivação exploratória e ocupando o tempo do animal, como exemplo temos, uso de bolas, alimentos colocados em caixas, alimentos escondidos no recinto, móbiles, forçando o animal a buscar sua “recompensa”.
Figura 3. Enriquecimento cognitivo/ocupacional:
Objetos escondidos em caixas
Fonte: http://bvsvet.blogspot.com.br
4.1.4– Enriquecimento social: Consiste na convivência com outros indivíduos quando a espécie tiver a característica gregária (viver em grupos) sendo da mesma espécie ou de espécies diferentes como seria de seu convívio na natureza.
Figur.4
https://umaincertaantropologia.otg/tag/macacos
4.1.5– Enriquecimento alimentar: Consiste na utilização de alimentos alternativos da dieta do animal, porém que sejam nutritivos para a espécie. Os alimentos também podem ser apresentados de várias formas: inteiros, com cascas, batidos, congelados, em forma de sucos,
dentro de objetos etc.
Figura 5. Enriquecimento alimentar: oferta de
alimentos alternativos e de forma criativa Fonte: http://www.catanduva.sp.gov.br
Segundo BARBOSA & MOTA (2004) o ambiente físico ao qual os animais estão submetidos na condição de cativeiro pode influenciar de forma marcante a expressão de comportamentos típicos da espécie. Segundo NEWBERRY (1993) o enriquecimento ambiental é um melhoramento no funcionamento biológico do animal, através do aumento no sucesso reprodutivo e melhora na saúde física, como resultado das modificações do seu ambiente.
A falta de estímulos novos no meio ambiente pode afetar principalmente primatas que são fortemente predispostos a continuamente selecionar e responder a novidades (Boere, 2001). Há vários fatores que potencialmente
promovem o bem-estar de primatas cativos, sendo que o mais usado e estudado são os enriquecimentos ambientais, que consistem de uma série de procedimentos que modificam o ambiente físico ou social, melhorando a qualidade de vida dos animais em cativeiro por satisfazer as suas necessidades etológicas (Boere, 2001; Frajblat, Amaral & Rivera, 2008; Yerkes Primate Research Center, 2000). O enriquecimento ambiental físico é um equipamento que pode ser introduzido a um conjunto de outros já existentes ou a serem desenvolvidos e adaptados às condições específicas de cativeiros diferentes, para um melhor bem estar dos animais.
Ao levar-se em consideração as fases pré e pós enriquecimento ambiental pelo método físico, foram apresentados os resultados pelo Instituto Mata Ciliar em 2012 constantes da tabela 2 (Etograma) a seguir indicada. Os comportamentos objetos de avaliação foram: locomoção, forrageio, observação, catação, coçar e ameaçar/atacar. As ferramentas foram confeccionadas e introduzidas no recinto animal: cama de descanso, troncos de passagem, balanços, plataformas, escadas e poleiros para forrageio e locomoção. foram avaliados por porcentagens relativas cada comportamento, onde procurou-se aferir quanto aos resultados apresentados na implantação das ferramentas (aumento ou diminuição), com a introdução dos objetos no cativeiro animal.
TABELA 2- Etograma dos primatas em cativeiro, Método Físico. Comportamen-to Pré- Enriquecime n- to.. Pós- Enriquecimen-to.( Após 7 dias). Locomoção Andando pelo recinto. Aumento de 8,4% (apud Van Roosmalen & Klein, 1988). Forrageio Morder, Lamber,in – gerir. Alimento, Diminuição de 30,6% (apud Souza & Pontes, dentro e fora do recinto. 2008). Observação Observar outro indivíduo ou algo fora do recinto. Aumento de 12% % (apud Van Roosmalen & Klein, 1988). Catação Indivíduo realizando, recebendo grooming Diminuição de 15,2%. Coçar Esfregar ou roçar unhas no corpo. Diminuição de 10,4% Ameaçar/Ata-car Mostrar os dentes, gritar ou perseguir outro indivíduo. Diminuição de 1%.
Fonte: Enciclopédia Biosfera (CCC).
Tal como referem Honess & Marin (2005),
é então altamente sugestivo que o
enriquecimento físico implementado venha levar à adoção de comportamentos mais arborícolas e menos terrestres, sendo este um comportamento mais semelhante ao verificado no estado selvagem e que induz maior bem-estar aos primatas. Produzir ambientes que estimulam o animal a adotar os comportamentos naturais da espécie, irá resultar em animais que são
significativamente mais saudáveis a nível
psicológico do que os que vivem em ambientes limitados.
Segundo pesquisas realizadas pelo Criadouro Conservacionista do CESMAC- Centro de Ensino Superior de Maceió, os resultados demonstram que dentre as atividades diárias os primatas se dedicam mais aos comportamentos de locomoção (53, 94%) e de Alimentação (30, 29%), apresentando diferenças estatisticamente significativas quando comparados aos outros
comportamentos. O enriquecimento físico está relacionado com a estrutura física do recinto, com o ambiente onde os animais estão inseridos (Silva & Macedo 2014), e tem como objetivo estimular comportamentos naturais através da disposição de objetos no interior do recinto.
5- Conclusão:
Conclui-se, portanto, que o conjunto dos métodos de enriquecimento ambiental aplicados aos animais que se encontram em cativeiros são eficientes ferramentas de estímulo a manejos nutricionais alternativos, reduz as situações estressantes do habitat artificial, fortalece a capacidade adaptativa social, minimiza as condutas estereotipadas do dia a dia, além de possibilitar a manifestação natural do comportamento e do bem-estar físico e mental dos primatas.
Muito embora todos os métodos conjuntamente contemplem uma variedade de técnicas originais, criativas e de grande importância para a manutenção da espécie, objetivando a socialização, a motivação exploratória, a redução do estresse e de comportamentos estereotipados, fortalece o entendimento da grande contribuição promovida pelo enriquecimento físico, no instante em que todos os elementos que se agregam ao ambiente são de baixo custo e podem ser materiais reciclados da própria localidade.
Os dispositivos instalados podem ser reordenados e instalados em distintos locais e em
variados períodos, de forma a promoverem uma movimentação espacial dos animais, a exemplo do que ocorre na natureza, além de facilitar toda e qualquer alteração que se faça necessária para o melhor convívio dos primatas em cativeiros.
.
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