Capítulo 1
A infância
Um novo amanhecer chegara ao mundo. Era uma linda manhã, o sol brilhava entre as nuvens e o perfume dos jasmins inundava os campos.
O vento soprando entre os galhos produzia um som que parecia uma prece para D’us. O cântico dos pássaros juntava-se ao som das árvores, numa melodia de louvor para o Criador que, a cada dia, renova a obra de Sua Criação.
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Na grande sinagoga de Córdoba onde os judeus estavam fazendo sua prece matinal, a música das preces emanava para o lado de fora e se juntava aos cânticos de todas as criaturas. Junto com os demais membros da congregação, rezava também o grande juiz Rabi Maimon. Seu local ficava na parede leste da sinagoga e de sua face emanava uma luz de amor e temor ao Criador.
“O Senhor concede sabedoria ao homem...” seus lábios se moviam, porém sua voz não se ouvia. Um profundo senti-mento vinha de seu coração.
Assim a cada dia, o santo homem suspirava, pois já se passaram vários meses e seu filho Moshé, o mais velho que completara sete anos, não era como as outras crianças. Seu intelecto estava fechado e ele não conseguia captar nada do que lhe ensinavam.
O pai, Rabi Maimon, dedicava muitas horas do seu pre-cioso tempo para tentar abrir a mente e o intelecto da criança, porém o garoto continuava ignorante. Ele se distraia facilmen-te e, num piscar de olhos, ele começava a prestar afacilmen-tenção para o que acontecia ao seu redor: os pássaros voando, galinhas correndo, ... Consequentemente ele não se concentrava nem sequer em uma palavra do que seu pai lhe dizia.
Todos os esforços que Rabi Maimon procurava fazer para conquistar o coração de seu filho e levá-lo a se entreter no estudo da Torá eram em vão. Nem os presentes e nem as pal-madas ajudavam. Era como se o garoto não tivesse nascido para estudar e isto enchia o coração do juiz de sofrimento.
O sonho
“Quem sabe?”, pensava às vezes Rabi Maimon com dor, “isto não seja por minha culpa”. Nesses momentos, Rabi Maimon refletia sobre os fatos ocorridos no passado até o nascimento deste seu filho.
Já havia passado um tempo, Rabi Maimon estava com mais de 40 anos e ainda não havia se casado. Ele frequentava a casa de estudos do grande Rabi Yossef ibn Migash na cidade de Lucena, onde o seu desejo pelos estudos da Torá era cada vez mais profundo. Passara-se um ano e depois outros, mas Rabi Maimon ainda se considerava jovem. Todas as propostas que lhe apresentavam para se casar eram em vão, apesar de virem de famílias honrosas. Para ele o mais importante era estudar e assim não sobrava tempo para se casar.
Certa noite ao deitar-se, já em sua cama, Rabi Maimon sonhou: na sua frente estava um senhor de muita idade com uma barba longa e uma voz de advertência dizendo: “Já chegou a hora de você se casar. Vá para a aldeia que fica próxima a Córdoba e lá você se casará com a filha do açou-gueiro. Assim foi designado pelos Céus”. Deste modo o velho conclui as suas palavras.
Ao acordar, Rabi Maimon recordava-se claramente do sonho, porém não deu a isto maior importância. Conforme está escrito no Talmud: “Os sonhos falam bobagens”. Assim, ele não ligou para o ocorrido. Porém, quando o mesmo sonho se repetiu e o mesmo senhor apareceu contando e com mais detalhe, Rabi Maimon passou a acreditar no que sonhara.
Assim, ele decidiu averiguar se as palavras do sonho eram verdadeiras e Rabi Maimon foi até a aldeia com a qual ele havia sonhado e perguntou para uma pessoa que estava pas-sando onde morava o açougueiro.
Quando chegou lá, logo reconheceu o lugar, pois era fielmente como se havia mostrado para ele em sonho.
Rabi Maimon ficou impressionado com a exatidão do seu sonho e assim, sem maiores introduções ele falou para o açougueiro quem ele era e quais as suas pretensões.
O açougueiro ficou muito emocionado. “Quem sou eu?”, pensou ele, “para ter o mérito de casar minha filha com um grande sábio e de uma ascendência tão ilustre?” O homem conhecia muito bem a grande ascendência da família à qual Rabi Maimon pertencia. Ele provinha de Rabênu Hakadosh, Rabi Yehuda Hanassi, o compilador da Mishná, e chegava até David, o rei de Israel, de abençoada memória.
Mas, para sua surpresa, o açougueiro relutou em aceitar o seu pedido. Porém, quando Rabi Maimon lhe contou sobre o sonho que tinha tido, o açougueiro passou a acreditar que
este era o par correto para sua recatada filha. Assim, naquele mesmo dia, foi celebrado o noivado na casa do açougueiro. Pouco tempo depois foi comemorado o casamento numa ce-rimônia realizada com formosura e beleza.
Após o casamento, Rabi Maimon retornara a Córdoba, sua cidade natal. Certo tempo depois, ele foi nomeado pelos grandes juízes da cidade como seu Juiz Supremo. Assim, Rabi Maimon dava sequência à linda herança de sua família, da qual saíram sete gerações de juízes e grandes sábios.
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Passou-se um ano esplendoroso. Rabi Maimon era a fi-gura central de sua cidade natal. Ele era querido e amado por todos.
Foi então que, com grande emoção e entusiasmo, o juiz e sua esposa, bem como todos em sua cidade, receberam a notícia de que eles teriam uma criança na primavera.
A Festa de Pessach batia à porta e nas casas judias já esta-va tudo preparado para a noite do Sêder que se aproximaesta-va.
Também na casa do Rabi Maimon tudo já estava prepara-do e os quartos limpos. Da cozinha podia se sentir o cheiro da comida gostosa que fora preparada pelas cozinheiras para a festa. Porém, uma preocupação pairava sobre o ambiente: desde o início da noite a esposa do Rabi havia entrado em tra-balho de parto e ainda não se tinha escutado qualquer notícia. Só que as coisas haviam começado progressivamente a se complicar: a parteira gritara pedindo a ajuda de um mé-dico, após ter feito várias tentativas frustradas, desde o início da manhã, para a Rabanit dar a luz. Rabi Maimon sentara-se pedindo misericórdia para o Criador. Ouvia-se, dos quartos por perto, a voz de súplicas das vizinhas que murmuravam
capítulos de salmos para que o nascimento se completasse da melhor forma.
Foi quando se escutou a voz do choro da nova criança que acabara de chegar ao mundo, nascida à uma e quinze da tarde. Contudo, juntamente com este choro, ocorrera o úl-timo suspiro de sua pobre mãe que entregara sua alma pura para os Céus.
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Como um trovão num dia claro, a desgraça se abatera sobre Rabi Maimon com a perda de sua esposa.
Esta criança foi assistida por mulheres misericordiosas. Após um curto período de tempo, Rabi Maimon casou-se com outra mulher que se tornou a madrasta do pequeno órfão.
E com o passar dos anos, nasceu de sua segunda esposa para Rabi Maimon mais um filho e uma filha.
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De vez em quando Rabi Maimon pensava em seu coração com sofrimento: “Talvez meu filho Moshé herdara da família de minha primeira esposa, que descanse em paz, suas caracte-rísticas. Apesar de serem pessoas íntegras e corretas, porém não estavam entre as mais sábias do povo. Talvez seja por isto que lhe falte a capacidade de captar o estudo da Torá...”.
A prece do órfão
Numa certa manhã, Rabi Maimon estava muito angustia-do. Na noite anterior ele revisara o Chumash com David, seu filho menor, e o menino soube responder as perguntas que lhe
foram feitas e ler o que estava escrito com muita astúcia. O sucesso do seu filho menor, com toda a alegria que isto lhe causava, não era o suficiente para conter a angústia e o sofri-mento que ele tinha com seu filho maior.
Quando ele retornou da reza, o café da manhã estava servido, na sala de jantar. Sentados, estavam a Rabanit e as três crianças. Rabi Maimon entrou no recinto lavou as suas mãos e fez a bênção de “hamotsi” sobre o pão, que acabara de ser assado.
A refeição não demorou para terminar e após o “bircat
hamazon”, Rabi Maimon se aproximou de seu filho Moshé,
imaginando que talvez desta vez ele teria sucesso em instilar nele um pouco de palavras da Torá.
“Venha meu filho, vamos estudar o Chumash” – disse o juiz ao menino.
Sem vontade, Moshé seguiu os passos de seu pai. Sobre a cômoda do quarto havia um Sêfer Torá pequeno e esplendo-roso, escrito com uma escrita a mão muito clara e bonita. O Rabi enrolou o pergaminho e começou a ler o Chumash pe-rante o garoto. Porém, mais uma vez, a cena já conhecida se repetira: Moshé virou-se em direção à janela, acompanhando o voo de um pássaro que estava pousando sobre o parapeito...
“Moshé, por que você não está prestando atenção para as minhas palavras?” perguntou Rabi Maimon com aperto no coração. O garoto voltou seu olhar para o Chumash, porém era nítido que ele ainda estava com os pensamentos em outros mundos.
Quando seu pai pediu para repetir suas palavras, ele não conseguiu e seus lábios permaneceram mudos. Desta vez Rabi Maimon não conseguiu mais conter seu sofrimento e disse: “Saia de minha casa, seu filho de açougueiro, não quero mais ver seu rosto...” gritou para o garoto.
Mal as palavras saíram da boca do pai, o menino saiu correndo de casa. Logo em seguida, Rabi Maimon saiu de sua casa atrás dele, porém o garoto já estava longe.
“Com certeza ele voltará logo”, pensou Rabi Maimon. Como ele estava muito atarefado e tinha assuntos im-portantes dos quais precisava cuidar, apressou-se para o fórum Rabínico.
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“Filho de açougueiro”, “filho de açougueiro”. As palavras pronunciadas por seu pai ressoavam em seus ouvidos e mar-telavam na cabeça de Moshé enquanto ele corria. “Não vol-tarei mais para casa”, pensou o menino consigo mesmo. “É melhor eu passear pelos jardins e pomares e nadar nas águas refrescantes do rio do que sentar e estudar palavras do
Chu-mash, do qual eu não entendo sequer uma palavra”.
O dia inteiro o garoto andou por fora da cidade, nadou no rio Guadalquivir, que banhava a cidade de Córdoba, e saciou sua fome com frutas deliciosas que cresciam abundantemente no local. Somente quando começou a anoitecer, o sol estava se pondo e o frio atingia seus ossos, foi que Moshé começou a procurar um lugar para dormir. “Não há lugar melhor para dormir do que na sinagoga” decidiu e voltou para cidade. Es-perou com paciência até que a última pessoa saísse da sinago-ga, o zelador fechasse o portão e seguisse o seu caminho. Aí, o garoto subiu por uma janela e pulou para dentro do salão de orações da sinagoga.
Quando Moshé viu-se sozinho ele sentiu uma profunda depressão e começou a pensar pela primeira vez em sua vida com muito sentimento e lágrimas em suas faces: “Por quê?”, começou se perguntando, “Por que eu, o filho mais velho da
família, causo tanto sofrimento para meu honrado pai e não tenho sucesso, enquanto meu irmão menor, David, já consegue ler o Chumash com afinco e explicar o que lhe foi ensinado com grande gosto, dando alegrias para meus pais?”.
Seu coração sofria, tamanha era sua dor e ele desejou com grande vontade mudar seu destino e provar que ele também poderia compreender assuntos difíceis, não obstante seu pro-blema de aprendizado. “Porém, como eu farei isso? Meu co-ração é como uma pedra e meu intelecto não consegue captar nada” – pensou triste.
Então, eis que lhe surgiu uma ideia, e a passos largos ele se aproximou do Aron Hakodesh (da arca sagrada) e abriu suas portas em toda largura, somente iluminado pela luz do ner
tamid (a vela que fica constantemente acessa) revelando à sua
frente os lindos e belos rolos da Torá que lá havia. Olhando à sua frente, com temor e sofrimento, explodiu em lágrimas.
“Por favor, D’us” – gritou com amargura em sua alma – “abra o meu coração para Sua Torá, e me agracie com sabe-doria e conhecimento para que eu possa entender o que está escrito nos Seus Santos Livros. Por favor, me ajude no empenho de Sua santa Torá, para que o meu pai não se envergonhe de mim neste Mundo e minha mãe, que descanse no Paraíso, tenha de mim satisfação no Mundo Vindouro”.
Durante muito tempo passou chorando e suas lágrimas se espalharam pelo chão da sinagoga até que suas forças se esgo-taram e ele deitou-se sobre um banco que havia lá. Mal se es-ticou e após alguns minutos o garoto caiu num sono profundo.
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Ao amanhecer, Moshé levantou-se, esfregou os olhos e se perguntou onde ele estava. Eis que, imediatamente ele se
lembrou do que havia ocorrido, se apressou em levantar-se, lavar suas mãos e recitar o “Modé Ani”. Enquanto ele murmu-rava as palavras, de repente, ele sentiu um novo espírito entrar nele e dava para sentir que o seu coração de pedra havia se transformado num coração vivo e de carne.
“De agora em diante eu santificarei minha vida para estu-dar a Sagrada Torá” – foi a decisão que tomou. Para pôr em prática este sentimento ele decidiu fazer o caminho para a grande yeshivá de Lucena, na qual seu pai havia estudado Torá junto ao grande sábio da geração, o Rabi Yossef ibn Migash.
Rabi Yossef ibn Migash
A yeshivá de Lucena naquela época era considerada como uma das melhores yeshivot.
Na geração anterior à do Rabi Yossef ibn Migash, quem tinha sido o Rosh Yeshivá (líder da academia) era o Gaon Rabi Yitschac Alfassi conhecido pelo apelido de “Rif”.
O Rif nasceu em Hammad, na Argélia, e estudou em Kairouan, na Tunísia. Após este período ele se mudou para Fez, capital do Marrocos (e foi por causa do nome desta cida-de que ele ficou conhecido como Alfassi). Devido à persegui-ção dos muçulmanos, Rabi Yitschac teve que fugir de lá e ir para a Espanha. Assim, os sábios da Espanha puderam desfru-tar de sua sabedoria.
O Rif foi o primeiro a compilar e organizar as leis que se encontram no Talmud num grande compêndio conhecido como “As leis do Rabi Alfas”. Ele é reconhecido mundialmen-te como o chefe dos legisladores. que foi capaz de solucionar perguntas sobre as quais haviam diferentes opiniões.
Ao chegar à Espanha, o Rif passou por um curto período de tempo em Córdoba, depois mudou-se para Lucena, onde havia uma grande comunidade judaica. Lá foi recebido com
alegria e honra e foi nomeado Rosh Yeshivá (líder da academia) trazendo a ele prosperidade e formando vários alunos que se tornariam os grandes líderes das futuras gerações.
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Um dos melhores discípulos da yeshivá de Lucena era o Rabi Yossef ibn Migash. Ainda muito jovem ele foi reconhe-cido pelo Rif devido ao seu talento e suas habilidades para o estudo da Torá. Assim, o mestre teve argumentos para conven-cer o pai, que era uma pessoa importante no governo, a deixar que seu filho se dedicasse integralmente aos estudos da Torá. Aos doze anos Rabi Yossef viera para a yeshivá de Lucena e aos quatorze ele já fazia parte da classe do Rabi Yitschac Alfassi.
O Rif admirava muito este aluno, a tal ponto que cuidou dele como se fosse um filho e, antes de falecer, o Rabi Alfassi o nomeou como seu substituto.
No início, aos olhos dos sábios da Espanha, a escolha do jovem Rabi Yossef como líder parecera um pouco duvidosa. Porém, num curto período de tempo deu para perceber o quão acertada fora a escolha do Rif.
Rabi Yossef revelou-se na plenitude em sua sabedoria e justiça. O nível dele estava acima de qualquer outro. Através de sua influência ele transformou Lucena em um centro de
Torá em plena evolução.
Milhares de alunos de vários cantos da terra vieram para estudar em Lucena. Da mesma forma, várias pessoas de dife-rentes comunidades vinham lhe fazer perguntas e lhe pedir conselhos. Suas profundas e esclarecedoras respostas eram recebidas por todos como uma lei homologada.
Rabi Yossef ibn Migash havia se transformado em um dos grandes da geração. Rabi Yehuda Halevi contou ao seus
amigos que ele encontrou consolo no Rabi Yossef, após o fa-lecimento do seu grande mestre o Rif e ele escreveu um po-ema sobre o Rabi Yossef:
“Estudou a Torá a qualquer preço, acima do Sinai e da Arca Sagrada.
Da boca de Yossef, da boca do escolhido, descendente de Moshé e Aharon,
As Tábuas da Lei não se quebraram e a Arca Sagrada com seus querubins não foram enterrados,
As águas dos meus olhos aumentaram e a sede de todo seden-to será saciada”.
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Rabi Avraham, filho de David, o primeiro (o Raavad), grande conhecedor da Cabalá, louvou sobre o milagre de ter um Rabi cujas virtudes eram tão elevadas e sobre isto escreveu as seguintes palavras:
“O seu valor se expandiu da Espanha até o Egito e todas as outras terras. Além de sua sabedoria excepcional, suas virtudes testemunham sobre si, que ele pertence à descendência de Moshé e Aharon de abençoada memória, que era o mais humil-de humil-de todos os homens. D’us concehumil-deu a ele um coração amplo e uma personalidade que releva àqueles que o ofendem”.
Também o seu mestre testemunhou de próprio punho que na geração de Moshé Rabênu, de abençoada memória, não se encontrou alguém como ele, pois Moshé buscou sábios e especialistas (navon) e é sabido que ele não encontrou e Rabi Yossef ibn Migash era tanto sábio como especialista no poder de compreensão.
Em Lucena
Este local maravilhoso de Torá que fica em Lucena, atraiu o jovem Moshé. Muito ele escutara do seu pai, o Rabi Maimon, sobre a grandeza na Torá, sobre a justiça e o bom coração do
Rosh Yeshivá, o líder da academia, e ele acreditava do fundo
de seu coração que ao lado desse gaon (sábio) ele teria sucesso no estudo da Torá.
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Depois de rezar a oração da manhã ele beijou a mezuzá e saiu na direção à cidade de Lucena, imbuído de uma nova esperança.
Da sinagoga o rapaz foi para o centro do mercado no local, onde as pessoas se reuniam. Os homens chegavam de Córdo-ba, a capital da Andaluzia, que ficava na Espanha, para fazerem negócios. Bem cedo de manhã a praça já se encontrava cheia, e várias carroças vinham de cá para lá e de lá para cá.
“Qual o caminho que leva à Lucena?” – perguntou Moshé para um dos judeus da cidade que estava preparando a sua carroça para a viagem.
“E por que você precisa saber isso?” – perguntou o homem. “É porque eu quero ir até a yeshivá do Rabi Yossef ibn Migash” – respondeu o garoto.
“Você tem uma boa sorte!...” – disse o aldeão, “... pois eu estou indo para lá e você pode vir comigo se quiser”.
Ver alunos que viajam para adquirir conhecimentos da
Torá na yeshivá de Lucena era algo comum na época. Assim,
o aldeão que era uma pessoa simples não fez muitas perguntas a respeito da idade do jovem Moshé.
Não passou muito tempo e os dois estavam sentados sobre a carroça com dois cavalos e indo rapidamente pelo caminho.
Aos poucos, os raios do sol começavam a aquecer o am-biente e dissipar o frio da manhã. Moshé olhou à sua volta e se despediu da cidade onde ele nascera. As oliveiras antigas pareciam estar balançando os seus galhos se despedindo dele...
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Durante o dia inteiro a carroça seguiu o seu caminho por entre planícies e só ao anoitecer é que se viram as luzes da cidade de Lucena.
“Aqui fica a yeshivá” – mostrou o aldeão apontando para uma construção grande que ficava no centro da cidade.
A emoção de Moshé estava aumentando. Com palavras de agradecimento calorosas ele se despediu da pessoa que lhe ajudara, desceu da carroça e caminhou na direção da yeshivá.
Ao chegar ao salão o jovem ficou muito surpreso: ele olhou com espanto para os diversos alunos que estavam dis-tribuídos em volta de mesas cumpridas e estudavam na ten-tativa de entender uma passagem difícil do Talmud. Encabe-çando todos estava o famoso Rosh Yeshivá encarregado dos estudos de todos eles.
“Quando eu terei o mérito de ser como eles?!” – pensou Moshé.
Ele ainda estava parado na entrada e um dos alunos per-cebeu a sua presença.
“O que você faz aqui menino, o que você deseja?” – per-guntou para Moshé. “A minha vontade é de me juntar a
yeshivá e estudar a Torá do sábio Yossef ibn Migash” –
respon-deu Moshé com uma voz emocionada.
“Aqui estudam rapazes mais velhos e não tão jovens como você”, disse-lhe o rapaz e acrescentou: “Você ainda é muito jovem e o seu local não é aqui”.
Moshé sentiu que o seu mundo estava desabando e com uma voz chorosa falou: “Por favor, me deixe ver a face do
Rosh Yeshivá!”
O choro do garoto interrompeu os estudos e também o Rabi Yossef queria saber o que estava acontecendo e por que esse menino estava chorando.
Moshé se aproximou com passos rápidos do local onde estava o tsadic (justo). Ao chegar a ele o menino abaixou a sua cabeça e beijou as suas mãos.
“Quem é você meu filho?”, perguntou Rabi Yossef com seus olhos bondosos cheios de piedade, olhando para o menino.
“Meu nome é Moshé e eu sou filho do Rabi Maimon, o juiz de Córdoba” – disse Moshé.
“Filho do meu aluno, o Rabi Maimon?!”, o tsadic dizia emocionado, “o que você faz aqui?”
Com voz interrompida pelas lágrimas, o garoto contou para o Rabi Yossef, o seu grande sofrimento por não conseguir entender nada das palavras da Torá, até o ponto que o seu pai o mandou embora de casa por causa disso. “Por favor, me abençoe Rabi para que eu tenha sucesso nos meus estudos” – disse Moshé com uma voz chorosa.
A piedade do Rosh Yeshivá aflorara, ele se aproximou do menino com afeto, enxugou suas lágrimas e o beijou com carinho sobre a sua fronte. “Que D’us te dê graça meu filho” – o sábio abençoou a Moshé com muita emoção.
No momento quando os lábios do tsadic tocaram na testa de Moshé, o garoto sentiu como se sua mente esti-vesse se expandindo, e as fontes de sabedoria se abrissem à sua frente.
“Eu vou estudar Torá com você” – escutava-se a voz do Rabi Yossef, e as suas palavras entraram no coração do menino como um orvalho capaz de ressuscitar, tão grande era a sua
alegria naquele instante! Eis que, ao lado de uma fonte de águas vivas, ele agora se encontrava lá de pé.
Foi então que ele decidiu que não decepcionaria o Rosh
Yeshivá e que ele iria se dedicar ao estudo da Torá com todas
as forças da sua alma.
Rabi Yossef cumpriu aquilo que tinha dito e, no dia se-guinte, ele começou a estudar com Moshé, dentro de perga-minhos antigos que estavam em seu poder. Moshé progrediu com passos de gigante, começando a entender a profundidade das coisas com uma compreensão impressionante.
Não passaram muitos dias desde que chegara na yeshivá e Rabi Yossef se surpreendeu com a dedicação e a compreensão que o menino tinha e falou a seus alunos: “Meus filhos, saibam que esse rapaz vai ser muito grande e à sua luz vai caminhar o povo de Israel desde o nascer até o por do sol”.
Ao ver o imenso carinho que o Rosh Yeshivá dedicava para Moshé, os alunos também começaram a aproximá-lo e a apre-ciá-lo. Assim, ele se tornou um dos mais importantes do grupo.
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Mas, não durou muito a alegria de Moshé. Alguns meses depois, desde quando ele se aproximou do Rabi Yossef ibn Migash, o tsadic sofreu uma doença repentina, da qual ele veio a falecer no mês de Iyar no ano 4901 (1141), com apenas 64 anos de idade.
Era um desastre pesado e muito difícil e todos da casa de Israel choraram a perda do grande da geração com muita dor.
Especialmente os alunos da yeshivá de Lucena e Moshé ben Maimon encabeçava este grupo. Eles haviam perdido o
Rosh Yeshivá que era querido para eles como um pai, e não
Após o falecimento de seu mestre, muitos alunos da
yeshivá resolveram ir cada qual para o seu local e, também
Moshé voltou para a sua cidade onde nascera: Córdoba.
Em casa
Moshé chegou à cidade na véspera de Shabat e decidiu que não iria se revelar imediatamente para as pessoas de sua família. Somente no dia seguinte durante o dia e de uma forma especial.
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Depois da oração da manhã, quando toda a congregação dos judeus de Córdoba se preparava para a leitura da Torá, um rapaz jovem foi para a mesa da leitura. Ele bateu na mesa e pediu para a comunidade escutar o que ele falaria em seu discurso.
Todos olharam para a face do menino, o silêncio se es-tabeleceu na sinagoga e Moshé abriu sua boca, da qual ex-plicações novas e maravilhosas sobre a parashá da semana saiam em um ritmo impressionante. Momento após momen-to, a voz dele ficava mais forte e a comunidade estava cada vez mais impressionada.
“Não seria este o filho do Rabi Maimon, o juiz?” – alguém ousou perguntar. Um ruído de fundo surgia da congregação que estava escutando: “Não pode ser o filho do juiz, ele nunca soube estudar, e da boca desse menino saem pedras preciosas!”
Depois que terminou a sua prédica o garoto falou: “Che-guei de Lucena, onde estudei Torá da boca do grande da ge-ração, o falecido Rabi Gaon Yossef ibn Migash, o tsadic de abençoada memória. E tive o mérito de receber dele uma bênção, que abriu para mim as fontes da sabedoria”.
Uma grande emoção se sentiu em toda a comunidade que estava rezando. Rabi Maimon que se encontrava entre eles se levantou do seu local e, depois que se recuperou da surpresa, o juiz foi rapidamente para a mesa da Leitura da
Torá, onde caiu sobre os ombros de seu filho. Ele o abraçou
com muita emoção e falou, com os olhos cheios de lágrimas: “Por favor, meu filho querido, eu pequei perante você, perdoe o meu pecado. D’us viu o seu sofrimento e lhe mostrou um caminho a seguir, agora o meu coração está confiante que você irá subir muito e muito no caminho de Hashem e você irá florescer como um gaon e vai se tornar uma glória para o povo de Israel”.
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Moshé voltou para a sua família e lá ele foi recebido com amor e muita alegria. Todos se esforçaram para esquecer o passado e abrir uma página nova em suas vidas.
Rabi Maimon estava muito feliz porque Hashem abriu o coração de seu filho para entender as palavras da Torá e agora ele queria dar a ele com uma mão plena de tudo aquilo que ele possuía.
Rabi Maimon, ele mesmo, era um grande talmid chacham (erudito), e escrevera novos comentários e diversas obras acerca das palavras da Torá. Ele fez um comentário da Torá, um comentário das leis de pureza e um comentário sobre Astronomia. Do mesmo modo, ele também fez um comentá-rio sobre as leis da oração e sobre as festas. Na posse de Rabi Maimon também se encontravam comentários inéditos da
Torá e tradições que vinham do seu mestre, Rabi Yossef ibn
Migash, que ele costumava anotar na época em que estudava com ele na yeshivá em Lucena. Da mesma forma, ele possuía
uma tradição antiga sobre o segredo da Redenção que fora transmitido por sua família, geração após geração.
Assim, todos os dias, Rabi Maimon se sentava com seus filhos, Moshé e David, e se ocupava com eles na Torá. Ele os levava junto consigo para o tribunal para que vissem como se faz para estabelecer a lei na prática. Na maioria das vezes, as suas determinações eram baseadas nos ensinamentos do seu mestre. Os seus filhos sentiram como se eles mesmos estivessem estudando Torá da boca do Rabi Yossef ibn Migash.
Rabi Moshé ben Maimon, o Rambam, via no Rabi Yossef ibn Migash o seu principal mestre, e assim se referiria a ele mais tarde em seus escritos. Isto, apesar de ter estudado Torá da boca dele só por poucos meses.
A apreciação que o Rambam tinha por seu mestre era imensa, a tal ponto que ao descrevê-lo dizia o seguinte:
“É assombroso o conhecimento de Talmud deste homem para aquele que observa com atenção a profundidade de seu raciocínio, a ponto de quase poder ser dito que como ele não havia um rei em sua conduta e em seus caminhos”.
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Rabi Maimon e seus filhos quiseram ficar tranquilos se ocupando na Torá e no serviço Divino, mas infelizmente re-caíram também sobre eles os sofrimentos difíceis que abateram sobre toda a Espanha.
Como se sabe, havia um grupo de muçulmanos fanáticos, chamados almóadas, que naquela época chegaram ao poder.