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Jornal de Estudos Espíritas - Resumo - Art. N. 010201

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Jornal de Estudos Espíritas 6, 010201 (2018) - (6pgs.) Volume 6 – 2018

Parábola do Semeador: Revisitando Reflexões sobre o “Semeador”

Alexandre Fontes da Fonseca

1,a

1

Campinas, SP

e-mail:a[email protected]

(Recebido em 16 de Dezembro de 2017, publicado em 04 de Janeiro de 2018).

RESUMO

A Parábola do Semeador (MATEUS 13:1-9, MARCOS 4:3-9 e LUCAS 8:4-8) descreve com sabedoria a forma como recebemos os ensinamentos do Evangelho. Com palavras simples, Jesus apresenta a parábola e seu significado. Explica que a semente representa o ensina-mento do Evangelho e que os tipos de solo que a aco-lhem representam os perfis pessoais de recebimento e entendimento desses ensinamentos. Kardec aproveita essa parábola comparando os diferentes tipos de solo com as diferentes categorias de espíritas. Aqui,

apre-sento uma reflexão sobre a figura do "semeador" que, embora ligeiramente explorada em antigo sermão do Padre Antonio Vieira no século XVII, e destacadas por Emmanuel e Caibar Schutel em algumas de suas obras, necessita ser analisada de modo aprofundado dentro do contexto espírita. Em particular, analiso uma possível interpretação da primeira frase da Parábola do Semeador: Aquele que semeia saiu a semear. O que parece ser uma aparente redundância na frase, é aqui analisado em termos da importante questão do preparo e condições mínimas para que uma pessoa possa colaborar como um "semeador" de ensinamentos evangélicos e espíritas.

Palavras-Chave: Parábola do semeador; expositor; preparo espírita; estudo; Doutrina Espírita. DOI:10.22568/jee.v6.artn.010201

I

I

NTRODUÇÃO

A Parábola do Semeador (veja, por exemplo, MA-TEUS, cap. 13, vv. 1 a 9) encerra um dos mais bonitos e profundos ensinamentos cristãos. Ela é uma das poucas parábolas que foram explicadas pelo próprio Jesus como se pode ver em MATEUS, cap. 13, vv. 18 a 23. É tam-bém, uma fonte de orientação para todo espírita sincero e desejoso de satisfazer o seguinte lema do Espiritismo: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transforma-ção moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.” (Capítulo XVII de O Evangelho Se-gundo o Espiritismo (ESE) [1]).

Como o leitor pode facilmente encontrar a transcri-ção da parábola em fontes diversas, incluindo o próprio ESE (item 5, capítulo XVII), vamos aqui apenas resumir a parábola para lembrança do leitor: Jesus compara as pessoas que escutam os ensinamentos da boa nova com diferentes tipos de terrenos nos quais uma semente pode cair, germinar e crescer. O que escuta esses ensinamen-tos e não dá ouvidos é comparado à semente que cai ao longo do caminho e é comida pelos pássaros. Aquele que escuta a palavra do Evangelho com alegria e interesse no começo, mas que se torna motivo de escândalo quando lhe sobrevém os reveses e perseguições da vida, é compa-rado à semente que cai em terreno pedregoso, com pouca terra que permite a germinação e o crescimento inicial da plantinha mas logo enfraquece e morre por falta de

pro-fundidade de terra. Já a pessoa que ouve o Evangelho e o compreende mas não consegue se dedicar a ele por causa dos cuidados e interesses materiais da vida, é comparado à semente que caiu em terreno que continha, também, es-pinheiros que, então, abafam e prejudicam o crescimento da boa plantinha. Por fim, aquele que escuta a palavra de Jesus, presta atenção e estuda-a, dela “produz fru-tos”, isto é, põe-na em prática a benefício de si próprio e dos outros, é comparável à semente que caiu em terra boa, cresceu e produziu frutos. Recomenda-se a leitura integral do texto encontrado no ESE para identificar os detalhes e a forma como Jesus explica a parábola, ou as seguintes referências da Bíblia: MATEUS 13:1-9, MAR-COS 4:3-9 e LUCAS 8:4-8.

Kardec, no item 6 do referido capítulo XVII do ESE, comenta brevemente a parábola. Ele inicia dizendo que a “parábola do semeador exprime perfeitamente os matizes existentes na maneira de serem utilizados os ensinos do Evangelho.” A palavra matiz possui vários significados como “gradação de cor” e “diferença delicada entre coi-sas do mesmo gênero” [2]. Então vemos Kardec ressaltar que a parábola do semeador mostra “as diferenças deli-cadas”, muitas vezes sutis aos olhos dos neófitos, entre a forma de se utilizar os ensinos do Evangelho em nossas vidas. Pela descrição acima e pelas explicações dadas por Jesus, percebemos como Kardec foi feliz no seu comen-tário.

Kardec, entretanto, faz mais, e aplica a parábola do

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semeador na interpretação das diferentes categorias de espíritas [1, item 6, Cap. XVII]:

Não se acham simbolizados nela os que apenas aten-tam nos fenômenos materiais e nenhuma conseqüência tiram deles, porque neles mais não vêem do que fatos curiosos? Os que apenas se preocupam com o lado brilhante das comunicações dos Espíritos, pelas quais só se interessam quando lhes satisfazem à imaginação, e que, depois de as terem ouvido, se conservam tão frios e indiferentes quanto eram? Os que reconhecem muito bons os conselhos e os admiram, mas para se-rem aplicados aos outros e não a si próprios? Aqueles, finalmente, para os quais essas instruções são como a semente que cai em terra boa e dá frutos?

Kardec termina a análise com as afirmações acima. De fato, essa parábola é tão clara que não precisou de maiores esclarecimentos.

Aqui, entretanto, desejamos explorar um significado que se pode fazer da primeira frase da Parábola do Se-meador, com o objetivo de ressaltar um importante pa-pel que nós espíritas temos, cujo valor e responsabilidade nem sempre percebemos ao certo, que é o de semeado-res... Jesus inicia a parábola dizendo (de acordo com a tradução do ESE utilizada nesse estudo [1]): “Aquele que semeia saiu a semear”. Notem que Jesus não disse que qualquer um saiu a semear, ou que um comerciante saiu a semear, ou que um médico saiu a semear, que um pai de família saiu a semear, que um sacerdote saiu a semear, que o Senhor saiu a semear, que essa ou aquela figura da sociedade ou da religião, em particular, saiu a semear. Mas sim, aquele que semeia, isto é, quem tem o hábito de semear, quem realiza isso de modo frequente, quem conhece não somente a semente, mas as técnicas de como, quando e onde semear. Admitindo fidedignidade do texto evangélico citado, interpretamos que foi a uma pessoa assim que Jesus quis dizer ao se referir “aquele que semeia ...”

Nas seções seguintes vamos revisar algumas tradu-ções diferentes da Bíblia, de modo a nos certificarmos da forma como Jesus descreve o “Semeador”. Vamos, também, analisar estudos realizados sobre o tema, e al-gumas interpretações da figura do Semeador como sendo o próprio Jesus ou nós mesmos. Ao final, resumimos as principais conclusões deste estudo.

II

T

RADUÇÕES DIFERENTES

Antes de dedicar um estudo inteiro a respeito da pri-meira frase da Parábola do Semeador, verificou-se algu-mas traduções diferentes dos versículos: três do capítulo 13 do Evangelho de Mateus; três do capítulo 4 do Evan-gelho de Marcos; e cinco do capítulo 8 do EvanEvan-gelho de Lucas. Para não extender em demasiado o artigo, nem todas as traduções dos versículos acima serão transcritas aqui, embora elas tenham sido conferidas e comparadas à tradução transcrita por Kardec no item cinco do capítulo XVII do ESE. Os trechos do Evangelho usados por Kar-dec são da bíblia traduzida por Louis-Isaac Lemaistre de Sacy.

Por questões de limitações de espaço, escolhemos al-gumas traduções bíblicas diferentes que me pareceram representativas, para transcrever os respectivos versícu-los que abrem a Parábola do Semeador. Elas são:

1. O Novo Testamento - Tradução de Haroldo Dutra Dias [3].

2. A Bíblia de Jerusalém, Novo Testamento [4]. 3. Bíblia Online - https://www.bibliaonline.

com.br/[5].

4. Bíblia Sagrada - Tradução de João Ferreira de Al-meida [6].

A primeira frase da Parábola do Semeador foi apre-sentada da seguinte maneira pelos seguintes traduto-res/autores:

• Haroldo D. Dias: “Eis que o semeador saiu a se-mear” [3, Mateus 13:3, pag. 85]; “Ouvi! Eis que o semeador saiu a semear” [3, Marcos 4:3, pág. 177]; e “Saiu o semeador a semear sua semente” [3, Lu-cas 8:5, pag. 289].

• Bíblia de Jerusalém: “Eis que o semeador saiu a semear e, ao semear, uma parte da semente caiu à beira do caminho e as aves vieram e a come-ram.” [4, Mateus 13:4, pág. 68]; e “Escutai: eis que o semeador saiu a semear” [4, Marcos 4:3, pág. 122].

• Bíblia Online: “Então lhes falou muitas coisas por parábolas, dizendo: O semeador saiu a semear.” [5, Mateus 13:3, https://www.bibliaonline. com.br/nvi/mt/13/3]; e “Ouvi: Eis que saiu o semeador a semear.” [5, Marcos 4:3,https:// www.bibliaonline.com.br/acf/mc/4/3].

• João Ferreira de Almeida: “E de muitas coisas lhes falou por parábolas e dizia: Eis que o semeador saiu a semear.” [6, Mateus 13:3, pág. 1265]; e “Ouvi: Eis que saiu o semeador a semear.” [6, Marcos 4:3, pág. 1302].

As citações acima deixam bem claro que Jesus começa a Parábola do Semeador com uma frase que, embora es-crita com algumas pequenas palavras diferentes, tem o mesmo sentido entre si e com aquela que Kardec trans-creveu no item 5 do capítulo XVII do ESE [1]: “Aquele que semeia saiu a semear.”

Além de palavras ligeiramente diferentes, algumas traduções divergem um pouco sobre o conteúdo de cada versículo ou o número do versículo em si como mostrado, por exemplo, na tradução da Bíblia de Jerusalém que apresenta a frase inicial da Parábola do Semeador no ver-sículo quatro do cap. 13 do Evangelho de Mateus. Mas, em todas as traduções, percebe-se que Jesus se utiliza de uma frase que sugere, em princípio, uma redundância: um semeador que sai a semear. Vamos analisar essa frase na próxima seção.

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III

R

EFLEXÃO PROPOSTA

:

O QUE É SER UM

“S

EMEADOR

”?

Como mencionado na Introdução, Jesus não disse que qualquer pessoa com qualquer formação ou experiência saiu a semear, mas sim que aquele que semeia, isto é, aquele que sabe fazer a semeadura, que conhece a semente que vai semear, que sabe escolher e preparar o terreno e o momento certo de semear. A proposta desta reflexão se baseia nisso, isto é, aproveitar essa aparente redundância nas palavras de Jesus para chamar a atenção do Leitor para a questão do preparo e das qualificações necessárias para alguém que semeia, bem como das responsabilida-des de quem trabalha e contribui para a divulgação e disseminação dos conhecimentos espíritas e evangélicos. Afinal, ensinar é semear como se depreende das seguin-tes palavras de Jesus quando se refere à semente: “O semeador semeia a palavra” [6, Marcos 4:14].

No capítulo XXIV do Livro dos Médiuns (LM) [7], que trata da “Identidade dos Espíritos”, na questão nove do item 267 que fala a respeito da linguagem dos Es-píritos superiores, Kardec diz que eles “Têm a arte de dizer muitas coisas em poucas palavras, porque cada pa-lavra é empregada com exatidão.” Admitindo que o texto evangélico, nesse trecho, relata com fidedignidade o que Jesus enunciou e considerando que Jesus, como o Espírito mais elevado que já encarnou em nosso mundo, não teria dito a primeira frase da Parábola do Semeador, na forma como o fez, com a aparente redundância, sem intenção de incutir nela um ensinamento, nos perguntamos o que podemos, então, inferir da mesma. Por trabalharmos na seara de Jesus dentro do movimento espírita, somos todos semeadores em potencial, em maior ou menor escala, o que nos lembra a necessidade de estudar e aprender quais são, onde e como obter as sementes certas para dissemi-nar a valiosa árvore do Evangelho e do Espiritismo, e quando fazer isso.

III.1 Reflexões presentes na literatura

Gostaríamos de citar alguns importantes estudiosos do Evangelho que analisaram o papel do “semeador” com base nessa parábola de Jesus. Uma é Therezinha Oliveira que interpreta Jesus como sendo o semeador por excelên-cia [8,9]. Jesus, de fato, foi considerado pelos Espíritos o exemplo, modelo e guia da humanidade [10, Questão 625]. Coube a Jesus trazer, em pessoa, a boa nova ao nosso mundo, e por isso ele é o semeador maior do Evan-gelho, bem como, digamos assim, o “patrocinador” do Consolador Prometido. Clóvis Tavares também inter-preta Jesus como o semeador [11], assim como Emmanuel (mentor espiritual do médium Chico Xavier) o considera “o Semeador da Terra” [12] ou o “excelso Semeador” [13]. A reflexão proposta aqui não contesta essa interpreta-ção. Ela apenas procura, também, valorizar e chamar à responsabilidade todos aqueles que falam, escrevem e ensinam o Espiritismo e/ou o Evangelho em nosso movi-mento espírita. Para não nos compararmos com Jesus, podemos chamar todos esses (na verdade, muitos de nós) de semeadores em escala menor mas que, nem por isso,

deixam (deixamos) de colaborar com o Cristo na divul-gação do Evangelho, do bem e da Doutrina. A título de referência, outras interpretações diferentes para a figura do semeador são “os mentores espirituais” [14] e o próprio Evangelho [15].

Outro Autor que analisou a questão do “semeador”, conhecido da religião Católica é o Padre Antonio Vieira. No século XVII, ele escreveu uma série de sermões co-nhecidos como “O Sermão da Sexagésima” [16,17]. Num deles, Padre Vieira analisa o perfil do “pregador ideal” que não é aquele que apenas ensina com os lábios, mas que tem em si tanto o sentimento do Evangelho quanto a prática do bem. São dele as seguintes palavras [17]:

“Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras.”

“Se os ouvintes ouvem uma coisa e vêem outra, como se hão-de converter? (...) Se quando os ouvintes per-cebem os nossos conceitos, têm diante dos olhos as nossas manchas, como hão-de conceber virtudes? Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma cousa é o semeador e outra o que semeia, como se há-de fazer fruto?”

“Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam. (...) O pregador há-de pregar o seu, e não o alheio.”

“O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento.”

Se essas palavras tivessem sido apresentadas sem refe-rência ao seu autor, alguém poderia interpretá-las como um comentário espírita, tamanha sintonia com o que aprendemos no Espiritismo. Percebe-se, dessas palavras de Padre Vieira, importantes ensinamentos ou lembran-ças para nós espíritas. O ato de pregar, de ensinar, de divulgar e propagar a Doutrina Espírita e o Evangelho não pode ser vazio de sentimentos, nem ser apenas um discurso bonito, mas deve tornar-se uma extensão da vida e do bem proceder daquele que deseja colaborar na “se-meadura” do bem.

Um aspecto importante daquele que semeia é que só quem tem o conhecimento e a prática de semear é quem conhece tanto sobre a semente e a fonte de onde obtê-las, quanto sobre onde e quando semear. Sem semen-tes, um semeador é apenas uma pessoa que sabe como semear. Sem saber como semear, uma pessoa com se-mentes não vai saber ao certo o que fazer com elas, e a semeadura é prejudicada. Nisso, um ponto importante é descobrir como desenvolver o conhecimento e experiência em semear? Para responder isso, lembremos de algumas palavras do Padre Vieira. Ele destacou um ponto impor-tante para nós sobre o assunto, que reproduzimos aqui: “Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam. (...) O pregador há-de pregar o seu, e não o alheio.” Se notarmos a descri-ção de Lucas da primeira frase da Parábola do

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Semea-dor, “Saiu o semeador a semear sua semente” (LUCAS 8:5), percebemos que o comentário de Vieira nos remete à importante questão da vivência do Evangelho, antes de pregá-lo.

Mas, até onde pudemos investigar, Caibar Schutel e Emmanuel foram os primeiros a analisar a figura e o pa-pel do semeador em escala menor, como proposto acima. Schutel, em sua obra Parábolas e Ensinos de Jesus [18] afirmou:

Acresce ainda que nem todos os pregoeiros da pala-vra a apregoam tal como ela é, em sua simplicidade e despida de formas enganosas (...) Muitos a pregam por interesse, como o “mercenário que semeia”; outros por vanglória, e, grande parte, por egoísmo (...) Para pregar e ouvir a palavra é preciso que não a rebaixe-mos, mas a coloquemos acima de nós mesmos; porque aquele que despreza a palavra, anunciando-a ou ouvindo-a, despreza o seu instituidor (...) Que os seus adeptos [do Espiritismo], compenetrados dos deveres que assumiram, semelhantes ao se-meador, levem a todos os lares e plantem em todos

os corações a semente da fé que salva ... (Grifos em negrito, meus).

Embora redigidas há quase 90 anos atrás, essas pa-lavras de Schutel permanecem muito atuais. Emmanuel, no capítulo 64 da obra Fonte Viva [19], destaca que o semeador deve agir por si mesmo, isto é, não esperar nem transferir para outrem a sua tarefa de disseminar a boa semente. Ele diz: “... o servidor do Evangelho é compelido a sair de si próprio, a fim de beneficiar co-rações alheios.” E pede ao final do referido capítulo: “Afastemo-nos, pois, das nossas inibições e aprendamos com o Cristo a ‘sair para semear’.” O mesmo tipo de estímulo pode ser encontrado no capítulo 42, “Semeia, Semeia”, da obra Opinião Espírita [13].

Em uma belíssima mensagem intitulada “O Semea-dor saiu”, transcrita na obra coordenada por Saulo Cesar Ribeiro da Silva [20], Emmanuel descreve com bastante profundidade o trabalho do semeador, em comparação di-reta com as vicissitudes da tarefa. Ele diz: “Convém lem-brar, no entanto, que a semeadura não se realiza em ta-lhões recamados de ouro. O semeador lidará com a terra. Após arroteá-la, na maioria dos casos, precisará irrigá-la e, por isso, conviverá com o barro do mundo.” (Grifos em negrito, meus). Em seguida ele explica que “Idêntica situação no mundo ainda é a de todos os culti-vadores da seara do bem. Designados para o lançamento das ideias alusivas à renovação espiritual, quase sem-pre, são impelidos a suportar o contato das glebas difíceis da incompreensão humana.” (Grifos em ne-grito, meus). Essa mensagem demonstra, indiretamente, a importância do preparo prévio do semeador para que as dificuldades naturais da tarefa não o impeçam de exer-cer ou prejudiquem seu trabalho de semeadura. Nesse aspecto, Emmanuel deixa claro a importância de todos nós que cultivamos a seara do bem, mesmo em traba-lhos aparentemente de menor expressão. Ademais sugere que a produtividade no bem advém do conjunto desses pequeninos esforços do trabalho cotidiano.

III.2 Novas reflexões

Neste artigo, motivados pela aparente redundância nas palavras de Jesus que compõem a primeira frase da Parábola do Semeador, propomos a análise da impor-tância do preparo daquele que se dedica à divulgação do Evangelho e do Espiritismo em nosso movimento espírita. Vamos destacar dois pontos importantes, a prática do bem e o estudo da Doutrina Espírita, como indispensáveis para o preparo de um bom semeador espírita. Esses dois pontos estão em perfeita sintonia com a recomendação do Espírito de Verdade “amai-vos e instruí-vos” [1, item 5, cap. VI].

No ESE, encontramos vários comentários sobre a im-portância de darmos o exemplo daquilo que acreditamos. No item 31 do cap. V do ESE, São Luís esclarece a im-portância do exemplo daquele que se resigna dos seus sofrimentos. No cap. X do ESE, intitulado “Bem aven-turados os que são brandos e pacíficos”, ao analisar as passagens em que Jesus ensina a não julgarmos o pró-ximo, Kardec afirma que nessas passagens Jesus quis di-zer que “a autoridade para censurar está na razão direta da autoridade moral daquele que censura”, ou que “Aos olhos de Deus, uma única autoridade legítima existe: a que se apóia no exemplo que dá do bem.” (Grifos em negrito, meus). O Espírito Pascal, em mensagem trans-crita no item 12 do capítulo XI do ESE, afirma de modo simples e claro: “Começai vós por dar o exemplo; sede caridosos para com todos indistintamente; ...” Por fim, sobre a importância do exemplo na pregação, no capítulo XIX do ESE, “A fé transporta montanhas”, no item 11, sob o título “A Fé: mãe da esperança e da caridade”, o Espírito Jorge afirma quase que a mesma coisa que Padre Vieira:

A fé sincera é empolgante e contagiosa; comunica-se aos que não na tinham, ou, mesmo, não desejariam tê-la. Encontra palavras persuasivas que vão à alma, ao passo que a fé aparente usa de palavras sonoras que deixam frio e indiferente quem as escuta. Pre-gai pelo exemplo da vossa fé, para a incutirdes nos homens. Pregai pelo exemplo das vossas obras

para lhes demonstrardes o merecimento da fé.

Pregai pela vossa esperança firme, para lhes dardes a ver a confiança que fortifica e põe a criatura em condi-ções de enfrentar todas as vicissitudes da vida. (Grifos em negrito, meus).

O Espiritismo é a terceira revelação da Lei de Deus (item 6 do cap. I do ESE) e nos oferece uma forma inédita na Humanidade de refletir o aspecto religioso da vida: através da fé raciocinada [1, item 7 do cap. XIX do ESE] [21]. Sobre a fé raciocinada Kardec diz no re-ferido item: “A criatura então crê, porque tem certeza, e ninguém tem certeza senão porque compreendeu. Eis por que não se dobra.” (Grifos em negrito, meus). Isso significa que o espírita tem a razão em favor do seu esforço no bem. Isto é, o espírita tem, na fé raciocinada, um auxílio para melhor compreender a importância de se observar os ensinamentos cristãos no seu dia a dia. Como consequência, o espírita sabe onde encontrar orientação segura para formar um manancial de sementes a fim de

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se tornar um semeador: o primeiro passo é o estudo da Doutrina Espírita.

Há duas formas de semearmos a boa nova. Essas duas formas estão resumidas nas seguintes colocações de Em-manuel pela Psicografia de Chico Xavier na obra Estude e Viva [22], capítulo 40:

(...) Lembra-te deles, os quase loucos de sofrimento, e trabalha para que a Doutrina Espírita lhes estenda so-corro oportuno. Para isso, estudemos Allan

Kar-dec, ao clarão da mensagem de Jesus Cristo, e, seja no exemplo ou na atitude, na ação ou na pa-lavra, recordemos que o Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de caridade - a ca-ridade da sua própria divulgação. (Grifos em

negrito, meus).

Ao comentar sobre a importância do estudo do Es-piritismo, não estamos apenas falando da disseminação simples ou “mecânica” dos ensinamentos do Evangelho e do Espiritismo. Uma boa página da internet é capaz de divulgar ensinamentos, conceitos, textos e explicações. O que desejo ressaltar aqui é que o binômio “amai-vos e instruí-vos” [1, item 5, cap. VI] é muito importante para aquele que pretende contribuir para a divulgação do Evangelho e do Espiritismo. O estudo da Doutrina Espírita é relevante para nos orientar sobre como proce-der de modo cristão nas diversas situações e conflitos da vida. Só através “da transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más” [1, item 4, cap. XVII] é que o verdadeiro espírita desenvolve as sementes do amor e do conhecimento que poderão ser distribuídas ao próximo com segurança. Já a tarefa do crescimento dessas sementes, isso compete a cada um dos recebedores (“solos”), segundo o seu próprio livre-arbítrio estabelecido pelas Leis Morais de Deus (vide Terceira Parte do LE [10]). De modo a deixar claro a impor-tância de estudar Kardec, vejamos o que diz Bezerra de Menezes [23]:

Jesus, meus amigos, é mais do que um símbolo. É uma realidade em nossa existência. Não é apenas um ser que transitou da manjedoura à cruz, mas o exemplo, cuja vida se transformou num Evangelho de feitos, chamando por nós. Necessário, em razão

disso, aprofundar o pensamento na Obra de Allan Kardec para poder viver Jesus em toda a plenitude. (Grifos em negrito, meus).

Será apenas através do exemplo de atitude cristã, é que nos tornaremos semeadores verdadeiramente cristãos e espíritas. Aliás, tal análise remete-nos ao que Padre Vieira já percebera há mais de trezentos anos atrás! À medida que nos esforçamos por praticarmos o lema do Espiritismo, Fora da Caridade Não Há Salvação [1, item 5, Cap. XV], nos preparamos para a nobre tarefa de se-meadores seja através “do exemplo ou na atitude” cristãs, seja através “da ação ou na palavra” espíritas.

IV

C

ONCLUSÕES

Revisei antigas reflexões e propús uma nova reflexão em torno da frase que abre a Parábola do Semeador:

“Aquele que semeia saiu a semear” (item 5, cap. XVII do ESE). Embora a frase pareça redundante, ela encerra um importante ensinamento de Jesus que não costuma ser lembrado ou explorado no movimento espírita: o traba-lho de “semear”, ensinar e propagar a Doutrina Espírita requer preparo e vivência no bem, assim como estudo e preparação doutrinária prévia, pois ninguém ensina cor-retamente o que não aprendeu com um mínimo de pro-fundidade e coerência. Embora o semeador maior da boa nova em nosso mundo tenha sido Jesus, em escala menor somos todos semeadores no sentido de que temos sem-pre a oportunidade de exemplificar, propagar e ensinar o Evangelho e o Espiritismo. Curioso notar que essa ideia foi intuída séculos antes pelo Padre Antonio Vieira, que chegou ao ponto de relacionar a importância da prática do bem com a qualidade da pregação.

Há, por fim, que lembrar que para nos tornarmos bons semeadores na seara de Jesus temos que nos tornar, antes, a boa terra que Jesus menciona: a mensagem do Evan-gelho tem que ter encontrado em nós, solo fértil para se desenvolver e produzir frutos de amor e caridade “um cem, outro sessenta, outro trinta” [3, Mateus 13:23]. Pa-rafraseando o Padre Antonio Vieira, que possamos viver do que colhemos e possamos, igualmente, semear o que foi por nós trabalhado, para que nossa pregação ocorra, por fim, a partir de uma vivência pessoal e intransferível, pois como sabemos, “a cada um é dado conforme suas obras” [5, Mateus 16:27].

A

GRADECIMENTOS

O Autor agradece Sr. Sandro Cosso pela sugestão de estudo do Sermão da Sexagésima, e aos pareceristas pelas valiosas correções e sugestões sem as quais este manus-crito não estaria adequado para publicação no Jornal de Estudos Espíritas (JEE).

R

EFERÊNCIAS

[1] A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Editora FEB, 112aEdição, Rio de Janeiro - RJ, 1996.

[2] Michaelis, Dicionário de Português online. Link de acesso para o significado da palavra matiz: http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/ busca/portugues-brasileiro/matiz/, Acessado na data de 16/12/2017.

[3] O Novo Testamento, Tradução do Grego ao Português de Haroldo Dutra Dias, Conselho Espírita Internacional (CEI), Brasília - DF, 2010.

[4] A Bíblia de Jerusalém, Novo Testamento, Padre Tiago Gi-raudo, Edições Paulinas, São Paulo - SP, 1973.

[5] Bíblia Online - https://www.bibliaonline.com.br/, acessado em 16/12/2017.

[6] Bíblia Sagrada, Tradução de João Ferreira de Almeida, Soci-edade Bíblica do Brasil, 2aEdição, Baueri - SP, 2008. [7] A. Kardec, O Livro dos Médiuns, Editora FEB, 62a Edição,

Rio de Janeiro - RJ, 1996.

[8] T. Oliveira, Parábolas que Jesus Contou e Valem Para Sem-pre, Editora Allan Kardec, Campinas - SP, 2003.

[9] T. Oliveira, Coleção: Estudos e Cursos Volume 6, Estudos Espíritas do Evangelho, Editora Allan Kardec, Campinas -SP, 2005.

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[10] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76aEdição, Rio de Janeiro - RJ, 1995.

[11] C. Tavares, Histórias que Jesus Contou, Livraria Allan Kar-dec Editora (LAKE), 6aEdição, São Paulo - SP, 1982. [12] S. C. R. da Silva, O Evangelho por Emmanuel -

Comentá-rios ao Evangelho Segundo Marcos, Editora FEB, 1aEdição, Brasília - DF, 2014.

[13] F. C. Xavier e W. Vieira, pelos Espíritos de Emmanuel e André Luiz, Opinião Espírita, Editora Comunhão Espírita Cristã, 9aEdição, Uberaba - MG, 1998.

[14] P. A. Godoy, As Maravilhosas Parábolas de Jesus, Edições FEESP, 1aEdição. São Paulo - SP, 1983.

[15] E. Rigonatti, O Evangelho dos Humildes - O Texto de São Mateus Explicado à Luz dos Últimos Ensinamentos do Espi-ritismo, Livraria Allan Kardec Editora (LAKE), 6aEdição, São Paulo - SP, 1975.

[16] Sermão da Sexagésima,https://www.todamateria.com. br/sermao-da-sexagesima/acessado em 16/12/2017.

[17] Padre Antonio Vieira, Sermões Escolhidos. v.2, Edameris, São Paulo - SP, 1965.

[18] C. Schutel, Parábolas e Ensinos de Jesus, Casa Editora O Clarim, 1aEdição, Matão - SP, 1928.

[19] F. C. Xavier, pelo Espírito de Emmanuel, Fonte Viva, Editora FEB, 23aEdição, Rio de Janeiro, 1999.

[20] S. C. R. da Silva, O Evangelho por Emmanuel - Comentá-rios ao Evangelho Segundo Mateus, Editora FEB, 1aEdição, Brasília - DF, 2014.

[21] A. F. da Fonseca, “Fé Raciocinada: Segundo Jesus, a Maior Fé!”, Jornal de Estudos Espíritas 2, 010301 (2014). Acesso pelo link:10.22568/jee.v2.artn.010303

[22] Chico Xavier e Waldo Vieira, pelos espíritos Emmanuel e An-dré Luiz. Estude e Viva. Editora FEB, 1aedição, Rio de Ja-neiro - RJ, 1965.

[23] B. de Menezes, através do médium D. P. Franco, “Unificação paulatina, união imediata, trabalho incessante”, Reformador Fevereiro, p. 43 (1976).

Title and Abstract in English

Parable of the Sower: Revisiting Reflections about the “Sower”

Abstract: The Parable of the Sower (MATTHEW 13:1-9, MARK 4:3-9 e LUKE 8:4-8) wisely describes the way we receive the

teachings of the Gospel. With simple words, Jesus presents the parable and its meaning. He explains that the seed represents the teaching of the Gospel and that the types of soil that host it represent the personal profiles of receiving and understanding these teachings. Kardec takes advantage of this parable by comparing the different types of soil with the different categories of spiritists. Here, I present an interesting reflection about the figure of the “sower” which needs to be analyzed in depth within the context of the spiritist movement. Although slightly explored in an old sermon by Father Antonio Vieira in the seventeenth century, and highlighted by Emmanuel and Caibar Schutel in some of his works, these reflections are important for who works on the spiritist dissemination. In particular, I analyze a possible interpretation of the first sentence of the Parable of the Sower:

A sower went forth to sow. What seems to be an apparent redundancy in the phrase is analyzed here in terms of the important

question of the preparation and the minimum conditions for a person to collaborate as a “sower” of evangelical and spiritist teachings.

Referências

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