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(1)UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO. PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EXTENSÃO RURAL E DESENVOLVIMENTO LOCAL (POSMEX). JOÃO HENRIQUE DE MELO FERRAZ. POLÍTICAS PÚBLICAS E CAPITAL HUMANO PARA O DESENVOLVIMENTO LOCAL DA PESCA ARTESANAL EM PORTO DE PEDRAS – ALAGOAS (2003 – 2009). RECIFE 2011.

(2) JOÃO HENRIQUE DE MELO FERRAZ. POLÍTICAS PÚBLICAS E CAPITAL HUMANO PARA O DESENVOLVIMENTO LOCAL DA PESCA ARTESANAL EM PORTO DE PEDRAS – ALAGOAS (2003 – 2009). Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural e Desenvolvimento Local (POSMEX) da Universidade Federal Rural de Pernambuco, como requisito parcial para a obtenção do título de mestre em Extensão Rural e Desenvolvimento Local.. Orientador: Prof. Dr. Angelo Brás Fernandes Callou. RECIFE 2011.

(3) FICHA CATALOGRÁFICA Setor de Processos Técnicos da Biblioteca Central - UFRPE F374p Ferraz, João Henrique de Melo Políticas públicas e capital humano para o desenvolvimento local da pesca artesanal em Porto de Pedras - Alagoas (2003 – 2009) / João Henrique de Melo Ferraz. -- 2011. 91 f. : il.. Orientador: Angelo Brás Fernandes Callou Dissertação (Mestrado em Extensão Rural e Desenvolvimento Local) – Universidade Federal Rural de Pernambuco. Departamento de Educação. Inclui apêndice e referências. 1. Pesca artesanal 2. Políticas Públicas 3. Desenvolvimento local 4.Capital humano 5. Porto de Pedras (AL) I. Callou, Angelo Brás F., Orientador II.Título CDD 639.2. Inclui anexo, apêndice e bibliografia.

(4)

(5) Ao meu mestre acadêmico e amigo, Angelo Brás Fernandes Callou, que foi a luz para o desenvolvimento deste trabalho..

(6) AGRADECIMENTOS Aos meus queridos pais, João Paulo Leitão de Melo e Clarice Vanderlei Ferraz. À minha noiva, Larissa Perazzo, pelo carinho e apoio. Aos meus familiares, que sempre me ajudaram e sempre estiveram presentes nas horas mais difíceis Ana Veras, Iago Veras, Silvio Diniz, Cristina Ferraz, Conceição Leitão, Conceição Ferraz, Maria Carolina, João Marcelo, Josefa Ferraz (vovó), Joaquim Tito, Taciana Perazzo, João Guilherme e Luiz Felipe. Aos meus queridos colegas do Posmex (turma 2009), que compartilharam comigo, as situações mais adversas no cotidiano acadêmico. Ao Departamento de Educação, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, especialmente aos professores, Maria das Graças Ataíde, Maria do Rosário e Paulo de Jesus. E aos funcionários daquele departamento que sempre me atenderam de maneira cortês, simpática e paciente, expressos nas pessoas de Márcia Paraíso e Nádia Oliveira. Às professoras Irenilda de Souza Lima, Maria Luiza Lins e Silva Pires e Maria Salett Tauk Santos pelos relevantes conselhos acadêmicos e profissionais. Aos meus amigos professores da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Ademir Ferraz, Adierson de Azevedo, Cícero Souza e Marcelo Ataíde, pela atenção e pela contribuição a este trabalho. Ao professor João Pereira, do Instituto Federal de Pernambuco de Educação, Ciência e Tecnologia, pela amizade, generosidade e solidariedade. Ao Prof. Dr. Sérgio Macedo Gomes de Mattos, do Ministério da Pesca e Aquicultura, pela constante boa vontade em contribuir para minha formação acadêmica. Às bibliotecárias Déia, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Helena Lessa e Helena Pimentel, da Universidade Federal de Alagoas, pela ajuda e esmero no desenvolvimento deste dispendioso trabalho. À colônia de pescadores Z-25 do município de Porto de Pedras – Alagoas, especialmente a senhora Jovina Lopes e ao Sr. Pedro Luiz da Silva. À Superintendência Federal do Ministério da Pesca e Aquicultura de Alagoas, expressos nas pessoas de Célio Severo, Christian Berner e Maria do Socorro. À Secretaria de Agricultura e do Desenvolvimento Agrário do Estado de Alagoas, expresso na pessoa do Sr. Ricardo Nonô. E todos que contribuíram direta ou indiretamente para a realização deste trabalho..

(7) RESUMO. Este estudo objetivou identificar e analisar as políticas públicas de extensão pesqueira para o desenvolvimento local no Município de Porto de Pedras, Alagoas, entre 2003 e 2009, por meio dos projetos estabelecidos pelas organizações governamentais, tais como: Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e Secretaria de Agricultura e do Desenvolvimento Agrário do Estado de Alagoas (SEAGRI/AL). Especificamente, pretendeu-se analisar o capital humano da colônia de pesca Z-25, de Porto de Pedras, frente aos projetos tecnológicos ligados à pesca artesanal propostos pelas políticas públicas. Para tanto, o estudo contou com um aporte teórico no qual constam conceitos sobre Extensão Pesqueira, Desenvolvimento Local e Capital Humano. Embasamos este estudo na seguinte questão: de que forma o capital humano da pesca artesanal tem sido valorizado e contemplado pelo poder público na atualidade para apoiar o desenvolvimento local? A estratégia metodológica utilizada para o desenvolvimento deste trabalho foi a de identificar inicialmente as políticas públicas para o desenvolvimento da pesca artesanal em Porto de Pedras, entre 2003 e 2009, por meio de sítio eletrônico e material bibliográfico, tais como teses, dissertações, artigos, livros, editais, projetos e relatórios. Em seguida, realizaram-se entrevistas com técnicos do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e da Secretaria de Agricultura e do Desenvolvimento Agrário do Estado de Alagoas (SEAGRI/AL), além de pescadores associados à Colônia de Pescadores Z-25, que participaram ou participam de projetos sobre pesca artesanal, desenvolvidos por organizações governamentais em Porto de Pedras. A partir da análise dos dados, foi possível concluir que os projetos implantados pouco contribuíram para um processo de formação de um capital humano que busque através da atividade pesqueira um viés para o desenvolvimento local do município.. Palavras-Chave: Pesca Artesanal, Políticas Públicas, Desenvolvimento Local, Capital Humano..

(8) ABSTRACT This study aimed to identify and analyze public policies for Fishing Extension for local development in the city Porto de Pedras, Alagoas, from 2003 to 2009, through the projects established by governmental organizations such as Fishing and Aquaculture Ministry (MPA) and Agriculture and Agrarian Development Department of the State of Alagoas (SEAGRI/AL). We intended to analyze the human capital of the fishing community Z-25, from Porto de Pedras, within technological projects related to the fishing offered by public policies. The study has a theoretical base which shows concepts of Fishing Extension, Local Development and Human Capital. We based this study on the question: how has the fishing human capital been considered and contemplated by the government to support local development? The methodological approach to the development of this work was to initially identify the public policies for the development of fisheries in Porto de Pedras, from 2003 to 2009, using electronic site and bibliographic material such as theses, dissertations, articles, books, projects and reports. Then, interviews were conducted with Fishing and Aquaculture Ministry (MPA) and Agriculture and Agrarian Development Department of the State of Alagoas (SEAGRI/AL) technicians, and fishermen associated with the fishing colony Z-25 who took part in projects developed by governmental organizations in Porto de Pedras. From the analysis of the data, we concluded that the implemented projects had a little contribution to the process of human capital training, which provides the local development through the fishing activity.. Keywords: Fisheries, Public Policy, Local Development, Human Capital..

(9) LISTAS DE ABREVIATURAS E SIGLAS. AECID – Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento ATEPA – Plano Nacional de Assistência Técnica e Extensão Pesqueira e Aquícola BNC – Banco Nacional de Crédito BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento CONAPE – Conselho Nacional de Aquicultura e Pesca CPP – Conselho Pastoral dos Pescadores CPRM – Serviço Geológico do Brasil IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade IDH – Índice de Desenvolvimento Humano IABS – Instituto Ambiental Brasil Sustentável IFPR – Instituto Federal do Paraná IMA – Instituto do Meio Ambiente do Estado de Alagoas INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária MEC – Ministério da Educação MPA – Ministério da Pesca e Aquicultura ONG – Organização Não Governamental PESCART – Plano de Assistência à Pesca Artesanal.

(10) PIB – Produto Interno Bruto PNATER – Plano Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento SEAGRI/AL – Secretaria de Agricultura e do Desenvolvimento Agrário do Estado de Alagoas Seap/PR – Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca da Presidência da República SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SUDEPE – Superintendência do Desenvolvimento da Pesca UFAL – Universidade Federal de Alagoas.

(11) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 12 O PROBLEMA, SUA ORIGEM E IMPORTÂNCIA CAPÍTULO 1 ............................................................................................................... 23 POLÍTICAS PÚBLICAS DE EXTENSÃO PESQUEIRA E CAPITAL HUMANO PARA O DESENVOLVIMENTO LOCAL DA PESCA ARTESANAL CAPÍTULO 2 ............................................................................................................... 32 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A PESCA ARTESANAL NO MUNICÍPIO DE PORTO DE PEDRAS-ALAGOAS (2003-2009) 2.1. Caracterização da atividade pesqueira em Alagoas e em Porto de Pedras ..... 32 2.2. Políticas públicas para a pesca artesanal de Porto de Pedras-Alagoas.............40 2.2.1. As ações da Secretaria de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário do Estado de Alagoas (SEAGRI) ...................................................................................41 2.2.2. As ações do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) ...................................... 45 CAPÍTULO 3................................................................................................................ 52 CAPITAL HUMANO PARA O DESENVOLVIMENTO LOCAL DA PESCA ARTESANAL EM PORTO DE PORTO DE PEDRAS CONCLUSÕES............................................................................................................. 69 REFERÊNCIAS............................................................................................................ 74 APÊNDICES..................................................................................................................82 APÊNDICE A – ROTEIRO DE ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADO PARA GESTORES PÚBLICOS.............................................................83 APÊNDICE B – ROTEIRO DE ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADO PARA PESCADORES ARTESANAIS...................................................85 APÊNDICE C – FOTOS...............................................................................................87.

(12) 12. INTRODUÇÃO O PROBLEMA, SUA ORIGEM E IMPORTÂNCIA O objetivo deste trabalho é identificar e analisar as políticas públicas de extensão pesqueira para o desenvolvimento local no Município de Porto de Pedras, Alagoas, entre 2003 e 2009, por meio dos projetos estabelecidos pelas organizações governamentais. Especificamente, o que se pretende é analisar o capital humano da Colônia de Pesca Z-25, de Porto de Pedras, frente aos projetos tecnológicos ligados à pesca artesanal propostos pelas políticas públicas. As políticas de Extensão Pesqueira no Brasil surgem a partir de 1968 com o objetivo de desenvolver as atividades de pesca. O argumento principal dessa iniciativa era a “imensidão da costa nacional, a sua piscosidade de suas águas e o desamparo socioeconômico das comunidades pesqueiras artesanais” (CALLOU, 1986, p. 285-300). Essas políticas foram promovidas pela Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (SUDEPE), autarquia criada pela lei Nº 10 de 1962, vinculada ao Ministério da Agricultura, com o objetivo de desenvolver a pesca nacional (BRASIL, 1962). Ao longo da década de 1970, a Extensão Pesqueira teve como ação principal apoiar a modernização do setor pesqueiro nacional (CALLOU e TAUK SANTOS, 2003). Para isso, entre outras estratégias, implementou, a partir de 1974, o Plano de Assistência à Pesca Artesanal (PESCART), com o apoio do Ministério da Agricultura, do Banco Nacional de Crédito (BNC), do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e da SUDEPE. Entre os objetivos principais do PESCART estavam “modernizar a atividade pesqueira artesanal no intuito de promover inserção dos produtos da pesca no mercado a fim de facilitar e possibilitar que os pescadores artesanais vendessem seus produtos em melhores condições de competitividade [...]” (CARVALHO, 2007, p. 25). Para Callou (1995), o objetivo do PESCART era modificar as técnicas e as tecnologias de pesca utilizadas pelos pescadores artesanais através de políticas de desenvolvimento. Nesse sentido, o autor infere que esse segmento era visto como atrasado e primitivo pelo Estado, aspecto refletido no primeiro Plano Nacional da Pesca. Diz o documento:.

(13) 13. Se o pescador engajado nas pescas mais produtivas e industrializadas do Sul do país (...) atingiu (...) um nível aceitável de vida, a quase totalidade da pesca brasileira é primitiva e miserável [grifo do autor] (SUDEPE, I Plano Nacional de Desenvolvimento da Pesca, 1963, p.11 apud CALLOU, 2009, p. 2).. Essas estratégias de ação tecnológica para os pescadores artesanais, no entanto, foram consideradas insatisfatórias já que essa política resultou em impactos socioambientais e econômicos negativos (DIEGUES, 1983). Para Cunha (2009), o PESCART, por ter se voltado para difusão tecnológica, e não para o desenvolvimento dos pescadores artesanais, não conseguiu promover o desenvolvimento social desses trabalhadores. Nesse sentido, Callou (1994) também constatou poucos resultados a partir daquelas intervenções, isto é, daquelas políticas públicas para o desenvolvimento do setor pesqueiro no país. Callou e Tauk Santos (2001) corroboraram afirmando que em duas décadas a práxis extensionista pesqueira, pautada na modernização tecnológica, não atingiu os objetivos propostos para o desenvolvimento do setor pesqueiro artesanal. Aspecto igualmente observado por Carvalho (2007). Para a consolidação dessa prática de difusão tecnológica, Callou e Tauk Santos (2003) afirmam que a estratégia estava baseada numa comunicação persuasiva, na qual as comunidades “alvo” deveriam ser convencidas a adotarem os pacotes tecnológicos. À época, os gestores públicos e extensionistas pesqueiros acreditavam que ao aplicar esse modelo de comunicação voltada à difusão tecnológica nas comunidades de pescadores possibilitaria a utilização de novos processos produtivos que resultariam em uma maior produção pesqueira e uma melhoria de renda, proporcionando, para esse grupo de trabalhadores, uma vida confortável (CALLOU e TAUK SANTOS, 2003). Callou (1995) afirma também que, à época, tais estratégias persuasivas de comunicação na Extensão Pesqueira tinham uma perspectiva de obter rapidamente do setor pesqueiro artesanal respostas aos objetivos propostos pelas políticas públicas, através das ações coletivas. Esse modelo de Extensão Pesqueira aplicado pelas instituições alcança seu apogeu nos anos 1980. No entanto, começa a se exaurir com o desaparecimento da SUDEPE, em 1989, com a promulgação da Lei 7.735, que criou o Instituto Brasileiro.

(14) 14. do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA) (CALLOU e TAUK SANTOS, 2003). Diegues (1983) afirma que os resultados dessa política não foram animadores, tendo em vista os impactos socioambientais e econômicos negativos. O autor ainda avalia que foi a partir da década de 1960 que se verificou uma maior intensidade de poluição aos ambientes aquáticos, um decréscimo da produção gerada pelas unidades familiares dos pescadores artesanais, uma ênfase dada à pesca industrial com incentivos fiscais, que resultaram na criação de diversas empresas de pesca, que sobrepescaram os estoques marinhos e concorreram deslealmente com os pescadores artesanais (DIEGUES, 1995a). Além disso, outros pesquisadores também criticaram essas políticas de extensão pesqueira por historicamente não contemplar as demandas locais, já que negavam as culturas tradicionais na pesca, considerando-as “atrasadas”. Assim, não se levou em conta, as habilidades e os conhecimentos endógenos e peculiares de cada comunidade. Nesse sentido, Tauk-Santos e Callou (1995) assim se referem: fato é que pouco se conhecia (e pouco se considerava) os aspectos de ordem cultural das populações envolvidas com a pesca artesanal. A maneira como os pescadores catalogavam seu cotidiano, suas formas de aprendizagem, de conhecimento e difusão desse conhecimento no contexto familiar e social pesqueiro, não era considerada como variável fundamental na elaboração dos projetos governamentais de desenvolvimento. Esse fator, ao contrário, era percebido como empecilho ao desenvolvimento pretendido: a "ignorância", a "preguiça", o "despreparo técnico" e o "pessimismo" do pescador eram termos incorporados ao vocabulário extensionista (TAUK SANTOS e CALLOU, 1995, p. 43).. Essa concepção estatal também foi rebatida por Diegues (1995b), quando relata a importância desse conhecimento tradicional, afirmando que os oceanos deveriam ser compreendidos não só por sua realidade físico-biológica, mas também por sua realidade humana e seus símbolos. Especificamente sobre as comunidades pesqueiras, o autor afirma: essas populações têm uma percepção complexa do meio-marinho e seus fenômenos naturais. De um lado, há um vasto conhecimento empírico adquirido pela observação continuada dos fenômenos físicos e biológicos (ventos, marés, reprodução dos cardumes de peixes) que hoje começa a ser explorado pela chamada etnociência marítima. De outro lado as explicações para tais fenômenos também passam pela representação simbólica e pelo imaginário dos povos do mar (DIEGUES, 1995b, p. 5)..

(15) 15. Essa complexidade também é identificada em seu artigo Tradição e Mudanças nas Comunidades de Pescadores do Brasil: por uma socioantropologia do mar, no qual relata que os pescadores desenvolveram formas de apropriações socioeconômicas, culturais e tecnológicas e que essas se relacionavam ao saber-fazer e do conhecer. Ribeiro Neto apud Diegues (1995c) observou que com o domínio da arte da pesca o pescador desempenharia sua atividade profissional ainda preservando o ambiente aquático, já que esta não apresentava riscos de sobrevivência à atividade econômica, ou seja, não executavam uma pesca predatória como a pesca industrial fomentada pelo Estado. Quando se percorre o itinerário histórico a partir da promulgação da Lei nº 10 de 1962, que criou a Superintendência do Desenvolvimento da Pesca, passando pelo surgimento do Plano de Assistência à Pesca Artesanal, assim como pela promulgação da Lei 7.735, que extinguiu a SUDEPE para criar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), observa-se uma intervenção no universo social e econômico da pesca artesanal pelo poder público, através da imposição de novas tecnologias e da desvalorização do conhecimento e das tecnologias endógenas dos contextos sociais dos pescadores artesanais. Para Vasconcelos (2009), esse quadro se agrava com a extinção da SUDEPE. Diz ele que o setor Pesqueiro fragilizou-se ainda mais, já que houve um hiato de mais de uma década, até o surgimento, em 2003, da Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca da Presidência da República (Seap/PR), hoje Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA). Assim, a partir da promulgação da Lei 10.683/2003, que criou a Seap/PR, o governo reconheceu que “o segmento pesqueiro nacional encontrava-se ainda desassistido na concepção das políticas públicas no Brasil” (BRASIL, 2003, p. 12) e sinalizou que essa instituição estaria incumbida de formular políticas e diretrizes para o desenvolvimento e fomento da produção pesqueira e aquícola do País. Nessa perspectiva, a Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca concebe seu Projeto Político Estrutural para a Pesca, que se preocupa também em reparar a dívida histórica da Nação para com os trabalhadores do setor, especificamente para com os pescadores artesanais. Diz o documento:.

(16) 16. O Projeto Político estabelece os conteúdos centrais que deverão constituir um Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável. Trata tematicamente o setor, sem se esquecer da complexidade regional do Brasil. Aborda o desenvolvimento da pesca artesanal, a dívida social que o País tem com os trabalhadores desse setor, e o desenho das políticas necessárias para incentivar a pesca empresarial. Com a Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca, resgatou-se a dívida do País com a pesca brasileira, que durante os últimos anos esteve relegada aos escalões inferiores da política e da economia (BRASIL, 2003, p. 4-5).. Callou (2009) considera que essa dívida refere-se, historicamente, à intervenção direta da Marinha do Brasil na direção das colônias, até a década de 1970; também pelo fato de a Marinha ter negado a participação das pescadoras nas associações, a ausência dos pescadores artesanais na elaboração de políticas públicas para o setor, a negação da cultura tradicional da pesca artesanal e a tentativa de descaracterização dessa cultura, além do insuficiente investimento econômico para atender as demandas da pesca artesanal. Em sua análise sobre esses projetos propostos e executados pela Seap/PR, Carvalho (2007) chega à conclusão de que o Estado os executou de forma pontual, isto é, sem buscar compreender a complexidade empírica dos contextos sociais, nem buscou “articulação com outros projetos estruturadores locais, não apenas no campo da pesca, mas também com outros setores produtivos ou potencialmente produtivos” (CARVALHO, 2007, p. 67). Esse autor afirma ainda que isso se deve em parte aos problemas ligados ao analfabetismo, à degradação ambiental e aos estoques marinhos, à desigualdade social, à carência de linhas de crédito para o setor e de assistência técnica para as comunidades, que já foram “identificados em décadas passadas e encontram-se presentes no cotidiano da pesca e do pescador” e que precisam ser enfrentados para permitir o desenvolvimento local (CARVALHO, 2007, p. 13). No entanto, esses obstáculos não devem relegar a um segundo plano as diretrizes das políticas públicas estabelecidas pela Seap/PR para a pesca, já que estas ressurgiram noutra perspectiva, em que as políticas para a pesca artesanal no Brasil devem atualmente provocar e fomentar a participação dos trabalhadores da pesca no desenvolvimento da atividade..

(17) 17. Nessa perspectiva de fomento dos trabalhadores da pesca artesanal, a Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca apresentou seu Plano Nacional de Assistência Técnica e Extensão Pesqueira e Aquícola (ATEPA). Este plano, de abrangência nacional, busca assegurar e consolidar uma política de Assistência Técnica e Extensão Pesqueira e Aquícola que promova o desenvolvimento sustentável da aquicultura familiar e da pesca artesanal. Essas diretrizes da Seap/PR (consolidação de uma política de Estado para a pesca, inclusão social, territorialidade, sustentabilidade ambiental) encontram consistência e conformidade nos objetivos da própria ATEPA, que assim informa em seu objetivo geral: Promover e apoiar iniciativas de desenvolvimento local sustentável, que envolvam atividades pesqueiras e aquícolas ou a elas relacionadas, considerando a família do pescador artesanal, o aquicultor familiar e suas organizações, visando à inclusão social e a melhoria da qualidade de vida das comunidades pesqueiras e aquícolas, adotando os princípios da conservação, gestão ambiental e da aquicultura e pesca responsáveis (BRASIL, 2007b, p. 3).. Essa noção de desenvolvimento local abre possibilidades para o envolvimento dos contextos populares da pesca participar das políticas públicas do setor pesqueiro. Isso também fica explícito no Plano Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER), como se observa na citação a seguir: [...] abre o caminho para a participação e o controle social sobre as políticas públicas, de modo que se estabeleçam possibilidades concretas para que o aparato estatal e os serviços públicos em geral fiquem à disposição da população particularmente daqueles segmentos até então alijados do processo de desenvolvimento (BRASIL, 2004, p. 3).. Callou et al. (2006) afirmam que, ao ser incorporados pela Seap/PR, os princípios de desenvolvimento local sustentável e dos serviços de assistência técnica e extensão rural, pautados em metodologias participativas e na construção da cidadania, bem como na democratização da gestão da política pública, entre outros aspectos contidos na PNATER, passou a existir um novo marco histórico no setor pesqueiro, com significativa importância no cenário político-nacional. Essa versão contemporânea da extensão pesqueira em prol do desenvolvimento local poderá contribuir substancialmente para a concepção e implementação das políticas públicas em comunidades pesqueiras desfavorecidas. A Seap/PR, que em sua.

(18) 18. política de desenvolvimento, como já citado, possui essa nova vertente extensionista, poderá ser também um dos órgãos a apoiar iniciativas populares no campo da pesca. Consta, inclusive, no artigo11o de seu regimento interno, “Capítulo VIII- elaborar as diretrizes da ação governamental e propor convênios para assistência técnica e extensão da pesca artesanal, com vistas a instrumentalizar a política pesqueira artesanal” (BRASIL, 2003, p. 21). No plano teórico do desenvolvimento local, Oliveira (2001, apud CUNHA, 2009, p. 16) diz que este “não é a solução de todos os problemas socioeconômicos advindos da adoção dessa estratégia de desenvolvimento, porém ele poderá contribuir para o debate sobre os problemas de exclusão social no mundo contemporâneo”. Sobre o desenvolvimento local, Jesus (2003) afirma que este deve ser: um processo que mobiliza pessoas e instituições buscando a transformação da economia e da sociedade locais, criando oportunidades de trabalho e de renda, superando dificuldades para favorecer a melhoria das condições de vida da população local. [...] trata-se de um esforço localizado e concertado (JESUS, 2003, p. 72).. Tauk Santos (2002, p. 47) salienta que “o desenvolvimento local tem levado novos arranjos institucionais e o estabelecimento de parcerias com os atores sociais [...]”. Oliveira (2001) considera também que esse desenvolvimento local igualmente pode ser entendido como tendência contrária aos processos dominantes. Jara (2001) entende que para instaurar os processos de desenvolvimento local é de suma importância que se estimule o capital social e humano, através da implementação de políticas norteadas pela equidade e satisfação das necessidades humanas, pelo respeito aos recursos naturais, e que permitam o empoderamento dos atores sociais. Tendo em vista que o capital humano sob o viés das habilidades e conhecimentos empíricos não foi considerado historicamente pelas políticas públicas de desenvolvimento da pesca artesanal, pareceu-nos ser relevante como foco de análise desta pesquisa esse tipo de capital na elaboração e implementação das políticas públicas atuais de extensão pesqueira voltadas para o desenvolvimento local. Nestes termos, pode-se, por teoria, inferir que quaisquer políticas públicas para o desenvolvimento local da pesca artesanal que não vislumbrem o capital humano e que.

(19) 19. não valorizem essa dimensão em cada comunidade, poderão malograr as políticas públicas de desenvolvimento do setor pesqueiro. É nesse sentido que Jara (2001, p. 102) afirma. que. “o. investimento. em. capital. humano,. em. „agentes. de. desenvolvimento‟ – mulheres e homens educados, motivados e com habilidades para conduzir processos de mudanças, representa uma estratégia indispensável para alcançar uma sociedade sustentável”. Isto é, que tornem os atores sociais, no nosso caso, os pescadores artesanais, empoderados, já que estes vivenciam os problemas da atividade cotidianamente. Para entender o conceito de capital humano, é pertinente uma reflexão “sob uma perspectiva social e cultural, concebendo - e advertindo - o conhecimento como o saber e o entendimento prático, a arte ou a habilidade humana de discernir o que é conveniente e atuar de acordo com esses requisitos” (JARA, 2001, p. 103). Ou seja, o capital humano “corresponde aos recursos humanos em condições de resolver com adequação e eficácia a diversidade de problemas colocados pela sociedade e com capacidade de empreender processos produtivos integradores e equitativos” (JARA, 2001, p. 100). Iglesias (1997, apud KLINKSBERG, 2001) ainda diz que nos contextos onde houver um reexame das relações, entre a cultura local e o desenvolvimento, o próprio povo, apoiado em seus aspectos culturais, poderá solucionar os problemas existentes na localidade, favorecendo, por conseguinte, seu desenvolvimento econômico e social. A noção de desenvolvimento local e, portanto, de capital humano como uma das dimensões importantes a ser considerada nesse tipo de desenvolvimento, surge no setor pesqueiro após a implantação da Seap/PR. Carvalho (2007, p. 17) afirma que “os serviços públicos de Extensão Pesqueira ressurgem, no Brasil, vinculados à noção de desenvolvimento local”. Em 2009, com a promulgação da lei 11.958, que transformou a Seap/PR em Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), o Governo Federal manteve as diretrizes políticas estabelecidas pela Seap/PR. Isto significa dizer que, de um modo geral, ou no nível do discurso, as instituições relacionadas à atividade da extensão pesqueira entendem ser fundamental o diálogo com a sociedade civil, recebendo suas demandas para um tratamento político institucional como resposta. Com efeito, em seu Plano de.

(20) 20. Desenvolvimento Sustentável, Mais Pesca e Aquicultura (BRASIL, 2007a), a Seap/PR afirma vislumbrar “uma visão de gerenciamento por projetos que articula a tradicional cultura vertical (...), com os modernos conceitos de gerenciamento horizontal” (Brasil, 2003, p. 4). É nesse sentido que, em 2009, agora sob os auspícios do Ministério da Pesca, ocorreu, pela terceira vez, a Conferência Nacional de Aquicultura e Pesca, que buscou realizar um balanço das políticas públicas desenvolvidas para o setor e consolidar essa política de Estado para o Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura e Pesca. No Texto Base dessa 3ª Conferência Nacional, o Governo Federal se propôs a “trazer o desafio para o setor e o governo em apontar os eixos, diretrizes e ações para esse novo momento”, pois, segundo o Governo, esse evento já seria reflexo do diálogo permanente entre o Estado, a sociedade e o Conselho Nacional de Aquicultura e Pesca (CONAPE) (BRASIL, 2009a, p. 1). O contraponto da política de desenvolvimento da pesca e aquicultura da Seap/PR – MPA é a realização da I Conferência Nacional da Pesca Artesanal, realizada em Brasília, em setembro de 2009, pelos pescadores artesanais. Assentados no Estádio Mané Garrincha, centenas de pescadores desenvolvem reflexões que vão de encontro às políticas públicas do governo para o desenvolvimento da pesca. Os pescadores afirmam que o Governo “não considera as diversas necessidades da pesca artesanal e que privilegia as políticas voltadas para o economicismo e o negócio agroexportador” (Pescadores Artesanais, 2009, p. 1). Afirmam ainda que o MPA desconsidera as culturas e as identidades dos territórios, a justiça ecológica e a liberdade da pesca e dos pescadores e pescadoras artesanais do Brasil (Pescadores Artesanais, 2009). Ou seja, reivindicações semelhantes àquelas já registradas pela Extensão Pesqueira difusionista modernizadora. Frente a esses aspectos ligados às intervenções históricas de políticas públicas para o desenvolvimento do setor pesqueiro artesanal do Brasil e a atual perspectiva do desenvolvimento local na Extensão Pesqueira, é de se perguntar de que forma o capital humano da pesca artesanal tem sido valorizado e contemplado pelo poder público na atualidade para apoiar o desenvolvimento local das comunidades pesqueiras tradicionais..

(21) 21. Essa preocupação com o desenrolar dos projetos governamentais no âmbito do setor pesqueiro artesanal vem ao encontro dos objetivos do Projeto Casadinho (2006), voltados a mapear as políticas públicas desenvolvidas em alguns Estados do Nordeste do Brasil. O Estado de Alagoas, por possuir um grande potencial pesqueiro, tendo em vista suas dezessete lagoas, dentre elas, o complexo Lagunar-Mundaú-Manguaba, além do Rio São Francisco, do litoral e das áreas estuarinas, assumiu relevância nesta pesquisa. A problemática geral observada no contexto nacional da pesca também foi identificada no Estado de Alagoas, após o governo estadual ter lançado o Projeto de Desenvolvimento Sustentável da Pesca e Aquicultura (2008). Nesse projeto, promovido em parceria com a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, teve como finalidade diagnosticar as especificidades da atividade pesqueira naquele Estado, a fim de estabelecer diretrizes para reestruturar esse setor econômico. A partir desse estudo, constatou-se a falta de capacitações práticas e de políticas regulares e consistentes de Assistência Técnica e Extensão Rural, a precariedade dos canais de comercialização, a baixa capacidade gerencial e empresarial de grande parte dos produtores/pescadores, a desorganização e a pequena atuação das organizações sociais dos produtores/pescadores (ALAGOAS, 2008). Assim, a partir da conflituosa realidade dos pescadores artesanais de Alagoas e as diretrizes coordenadas pelo Ministério da Pesca e Aquicultura, que afirma promover o desenvolvimento local no seu novo planejamento da Extensão Pesqueira, (BRASIL, 2003), o Estado de Alagoas se revela como uma esfera de ação propícia para o desenvolvimento desta pesquisa. No Estado de Alagoas, foi escolhido o município de Porto de Pedras como unidade de análise desta pesquisa por ser um município que desenvolve projetos governamentais, em parceira com Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e com a Secretaria de Agricultura e do Desenvolvimento Agrário do Estado de Alagoas (SEAGRI). Ao lado disso, observou-se na pesquisa exploratória realizada que a Colônia de Pesca Z-25, de Porto de Pedras, conta com a participação efetiva de seus associados,.

(22) 22. seja nas discussões internas da colônia, seja nos encontros e debates acerca das políticas públicas para a pesca artesanal em Alagoas. Dessa maneira, ao propor a identificação e análise das políticas de extensão pesqueira artesanal em Porto de Pedras-AL, o presente trabalho alinhou-se aos estudos dos processos da temática da Extensão Pesqueira, que envolvem organizações governamentais que fomentam o desenvolvimento local. A estratégia metodológica utilizada para o desenvolvimento deste trabalho foi de identificar inicialmente as políticas públicas para o desenvolvimento da pesca artesanal em Porto de Pedras, entre 2003 e 2009, por meio de sítio eletrônico e material bibliográfico tais como: teses, dissertações, artigos, livros, editais, projetos e relatórios. Em seguida, realizaram-se entrevistas com três técnicos do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e o Diretor de Políticas Públicas para a Pesca da Secretaria de Agricultura e do Desenvolvimento Agrário do Estado de Alagoas (SEAGRI-AL), além de nove pescadores associados à Colônia de Pescadores Z-25, de Porto de Pedras, e o presidente dessa associação, os quais participaram ou participam de projetos sobre pesca artesanal, desenvolvidos por organizações governamentais. Tais entrevistas tiveram a finalidade de subsidiar um escopo de dados empíricos que auxiliem a análise do capital humano durante a execução de projetos na localidade e de como essas políticas de inovação tecnológicas são incorporadas ao cotidiano desses pescadores..

(23) 23. CAPÍTULO 1 POLÍTICAS PÚBLICAS DE EXTENSÃO PESQUEIRA E CAPITAL HUMANO PARA O DESENVOLVIMENTO LOCAL DA PESCA ARTESANAL. As políticas públicas são definidas, segundo Fernandes (2007), como ações sociais relacionadas ao processo decisório do Estado, o qual baliza suas escolhas em determinadas áreas sociais. Porém, o Estado observa os seguintes critérios: em que área atuar, onde atuar, por que atuar e quando atuar. Fernandes (2007) relata também que essas decisões são condicionadas a interesses de grupos sociais e que ao serem implementadas se traduzem em direitos ou garantias defendidos pela sociedade. E que, segundo o autor, cabe ao Estado “intermediar e negociar estes interesses, na busca de estabelecer critérios de justiça social visando um discernimento político sobre suas funções sociais e qual o alcance delas” (FERNANDES, 2007, p. 1). Segundo Lamounier (apud FERNANDES, 2007), para se entender o conceito de políticas públicas é necessário: um duplo esforço: de um lado, entender a dimensão técnicoadministrativa que a compõe, buscando verificar a eficiência e o resultado prático para a sociedade das políticas públicas; e, de outro, reconhecer que toda política pública é uma forma de intervenção nas relações sociais em que o processo decisório condiciona e é condicionado por interesses e expectativas sociais (LAMOUNIER, s.d., apud FERNANDES, 2007, p. 1).. Contudo, Tretin (2001) apud Carvalho (2007, p. 22) “alerta para a necessidade de se distinguir decisões, que são medidas simples e cotidianas que refletem uma determinada circunstância, das políticas públicas, que são produtos de planejamento”. Especificamente, neste trabalho, para identificar e analisar as políticas públicas de Extensão Pesqueira buscou-se delimitar a natureza, o conteúdo temático e seu segmento, isto é, a abrangência dos beneficiados dessas políticas públicas, conforme defende Teixeira (2002), e que nessa pesquisa são os pescadores artesanais. Em seus estudos, Mattos e Drummond (2005) concluem que, historicamente, as políticas públicas não abrangeram a perspectiva da participação da sociedade civil na discussão, formulação e execução das políticas públicas. Essa exclusão também foi.

(24) 24. observada por Callou (1986), quando analisou as políticas públicas direcionadas às comunidades pesqueiras, e afirmou que aquelas políticas foram realizadas verticalmente, sem a participação dos beneficiários, os pescadores artesanais. Teixeira (1997) afirma que ao passo da crise do aparelho de Estado os movimentos sociais começaram a surgir como novos atores sociais e políticos autônomos, que buscavam agir coletivamente a fim de conquistar suas aspirações e necessidades, as quais, não eram contempladas pelo poder público. A respeito dos objetivos desses movimentos sociais, Teixeira (1997) assim diz: Segmentos sociais se organizam não apenas em torno de necessidades materiais ou de realização de políticas públicas que atendam às carências, mas em busca de seu reconhecimento como sujeito, de construção e efetivação de direitos e de uma cultura política de respeito às liberdades, à equidade social, à transparência das ações do Estado (TEIXEIRA, 1997, p. 180).. Nesse sentido, as comunidades de pescadores artesanais tiveram no Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) uma entidade aliada que fomentou a organização desse segmento socioeconômico. Segundo Siry (2003), a CPP tinha o seguinte arranjo institucional e objetivo: A CPP é uma entidade de serviço e de assessoria, parceiro dos pescadores artesanais dos lagos, rios e mar em sua luta pelo resgate de sua dignidade, cidadania e humanidade plena, seja no campo da realização material, seja no campo de atualização de suas potencialidades espirituais. [...] a especificidade da CPP provém de sua metodologia, o trabalho de base, o cotidiano, de sua motivação [...] e de seu público alvo, o pequeno e pobre pescador. [...] seu objetivo imediato é a conscientização, a organização e a melhoria das condições de sobrevivência dos pescadores artesanais (SYRY, 2003, p. 33).. Assim, através dessa parceria entre a CPP e os pescadores, criou-se o movimento de pescadores cristãos, denominado de “O Leme”, que se propunha a buscar a “valorização da pessoa humana e a conscientização dos pescadores para solucionar parte de seus problemas” (SIRY, 2003, p. 32). Logo, os pescadores também tiveram a partir dessa prerrogativa a iniciativa de reivindicar a participação nos debates acerca das políticas públicas para o setor..

(25) 25. Callou (2003) indica que a reestruturação da concepção do desenvolvimento do setor pesqueiro partiu dessa organização do segmento, associada aos fatores econômicos e políticos. Entretanto, Tauk Santos (2000) afirma que o modelo difusionista não havia sido abandonado e que na verdade o Estado buscou ajustar seu discurso à democratização que permeava o país na década de 1980. Foi nesse cenário de abertura política no país, no qual as agências governamentais e ONGs incorporaram a pedagogia da participação, que se franqueou a “concertação”, a orquestração dos diferentes atores em nível local. Vale salientar que essa pedagogia foi apresentada no final da década de 1960 por Paulo Freire, no seu livro Extensão ou Comunicação?, no qual defendeu “a comunicação como prática dialógica, isto é, como forma de enfrentar a pobreza e a exclusão no campo” (TAUK-SANTOS; SPENILLO, 1997, p. 112). Assim, com o “espaço franqueado” para a concertação, permitiu-se a interlocução entre os diferentes atores sociais para realizarem o processo de desenvolvimento local, que é definido por Araújo (1997 apud TAUK-SANTOS, 2000, p. 293) como “processo de construção de oportunidades e de melhores condições de vida para as populações locais, mobilizando capacidades endógenas”. Desse modo, ao resgatarmos o conceito de Fernandes (2007) sobre política pública, observa-se que as políticas devem funcionar como instrumento para a construção do desenvolvimento local, que para Franco (2005a, p. 27), não é relativo ao “pequeno”, mas: O local é [...] produto do olhar. Do olhar que reconhece uma potencialidade quando está focado no subconjunto e esse reconhecimento é sempre relacional, quer dizer, faz sentido quando comparado a outros subconjuntos. A potencialidade, identificada e reconhecida aqui, faz referência à diversidade e diz respeito à vantagem comparativa. Se todos os locais fossem iguais, não faria sentido o conceito de desenvolvimento local e, a rigor, nem de local (FRANCO, 2000, p. 31-32).. Ainda no que concerne às políticas públicas, Jesus (2003, p. 72) defende que estas devem ser frutos da prévia concertação local, em que os próprios atores locais visam encontrar formas “que favoreçam mudanças nas condições de produção,.

(26) 26. comercialização de bens e serviços [...] a proporcionar melhores condições de vida aos cidadãos [...], partindo da valorização [...] das potencialidades e efetivos [...] locais”. Ou seja, a especificidade da comunidade no que tange ao seu comportamento (qualidade e defeito), também deve ser observada quando da construção dessas políticas públicas. Todavia, Tauk Santos e Spenillo (1997, p. 114) afirmam que essa concertação em parceria é complexa, pois “deixa-se de trabalhar apenas dentro de uma esfera de iguais, como outrora no âmbito governamental ou no âmbito dos movimentos sociais, ou ainda no setor da empresa privada, para trabalhar com diferentes”. Assim, como Cunha (2009), entendemos também que as políticas públicas devem ser elaboradas e implementadas a partir do modelo de concertação dos atores locais envolvidos, pois, mesmo que nesse espaço de complexidade surjam conflitos por opiniões divergentes, também é nesse espaço que surgem soluções para os problemas locais. Em suma, todo esse processo de participação política e social dos atores sociais proporciona como resultante o emponderamento dessa população e o fortalecimento do capital humano, tornando-os: capazes de intervir na escolha, na formulação, na implementação, no controle das políticas governamentais e em atitudes que combinam a defesa e a criação de direitos com propostas socioeconômicas no contexto de mudanças tecnológicas e mercados competitivos (JARA, 2001, p. 100).. Franco (2000, apud SARAIVA, 2000) enfatiza que o desenvolvimento, de fato, só é atingido quando se contempla os aspectos humano, social e sustentável. Jara (2001) defende que o Estado deve fomentar o capital humano através do fortalecimento da democracia e do emponderamento dos atores sociais, satisfazendo paralelamente também as necessidades do homem, da natureza e da economia. Assim, procuramos refletir neste estudo se o capital humano que exerce a pesca artesanal no município de Porto de Pedras é valorizado, fortalecido e como este tem sido contemplado pelas políticas públicas para o desenvolvimento local. Paiva (2001, p. 187) defende que esse capital humano deve ser fortalecido de modo que os atores sociais possam enfrentar “as novas características do capitalismo e.

(27) 27. do mundo moderno”, e Moretto (1997, p. 6) afirma também ser “imperiosa a necessidade de se investir em educação e treinamento”. Em seus estudos, Kliksberg (2001, p. 14) analisa que no cenário econômico deste século, o capital humano é essencial para a produtividade, competitividade e progresso tecnológico, afirmando que “o nível médio de qualificação de uma sociedade determinará suas possibilidades de gerar, absorver e difundir tecnologias avançadas”. No entanto, Lastres e Albagli (1999, p.15) abordam em seu artigo Chaves para o Terceiro Milênio na Era do Conhecimento, que não só as tecnologias avançadas, isto é, o conhecimento codificado, mas os “conhecimentos tácitos, os quais são enraizados socialmente em instituições específicas e em seus ambientes locais”, também são valiosos para o desenvolvimento social. Assim se referem apoiados em Cassiolato (1999): as novas formas de codificação do conhecimento mudam a fronteira entre o conhecimento tácito e o codificado. Entretanto, não reduzem a importância relativa do conhecimento tácito na forma de habilidades e capacitações etc. Ao contrário, o conhecimento tácito adquire um significado maior, acentuando a importância de processos locais de desenvolvimento tecnológico, de inovação e competitividade (CASSIOLATO, 1999, apud LASTRES e ALBAGLI, 1999, p. 15).. Jara (2001, p.100) parece ir ao encontro das ideias desses autores ao dizer que o capital humano “corresponde aos recursos humanos em condições de resolver com adequação e eficácia a diversidade de problemas colocados pela sociedade e com capacidade de empreender processos produtivos integradores e equitativos”. Nesses termos, Jara (2001) afirma também que é a partir desse empowerment, que surge a democratização da própria política de forma que esta esteja com sua finalidade voltada para os interesses dos cidadãos, isto é, quando estes propõem alternativas para os problemas por eles identificados. Vale salientar que essa prática também contribui para o estabelecimento de parcerias, compartilhamento e cooperação com o Estado nas resoluções das demandas da sociedade, apresentando-se, dessa forma, como alternativa na formulação de políticas públicas..

(28) 28. Nessa perspectiva, Pires (2005) afirma que o capital humano é um conceito presente e recomendado nas políticas públicas governamentais, nos organismos financeiros multilaterais e na economia da educação. Pires (2005) afirma ainda que os principais teóricos que abordam o capital humano são os laureados com o Prêmio Nobel, Schultz e Gary S. Baker, além de Mary Jean Bowman, que fundaram esse conceito nas décadas de 1960 e 1970. E que, na década de 1990, o principal teórico é Thomas O. Davenport, que tem uma concepção diferente sobre o conceito do capital humano, quando comparado à definição conceitual dos fundadores. Diz Pires a esse respeito: Em sua obra, Schultz define de muitas formas o capital humano e procura sempre relacioná-lo ao processo de crescimento econômico identificando os mecanismos que podem levar à sua ampliação, seja pela via do investimento público, seja pelo caminho da decisão individual de investir em capacitação, em busca de melhores remunerações. Com frequência recorre a dados da economia americana para argumentar a respeito da crescente importância que mais anos de estudos passa a ter junto à força de trabalho (PIRES, 2005, p. 75). Davenport chama a atenção para um fato que tem sido destacado nos últimos tempos: “Com o avançar dos anos, (...) as organizações acordaram para o fato de que o capital humano – a capacidade, o comportamento e a energia dos trabalhadores – não pode ser desconsiderado quando os gerentes procuravam de todos os modos conseguir vantagem competitiva [...]” (DAVENPORT, 1999: 9, apud PIRES, 2005, p. 77).. Embora Schultz (1971) afirme que o investimento na capacidade humana, técnica ou criativa é um dos tópicos mais cruciais da economia geral, dada a sua formidável implicação no campo financeiro competitivo e no desenvolvimento econômico, neste trabalho a compreensão de capital humano é baseada em elementos tanto de Jara quanto de Chiavenato, quando este afirma em seus estudos que: [...] as pessoas constituem o capital humano da organização. Esse capital pode valer mais ou valer menos na medida em que contenha talentos e competências capazes de agregar valor à organização e torná-la mais ágil e competitiva. Portanto, esse capital vale mais na medida em que consiga influenciar as ações e os destinos da organização (CHIAVENATO, 2009, p. 70-71).. Entendemos, neste trabalho, que tal conceito também é uma ferramenta para operacionalizar as organizações públicas, privadas e entidades de classe, tornando-as mais eficientes na elaboração das políticas públicas. Desta forma, consideramos o.

(29) 29. fomento do capital humano, a fim de que os atores sociais atuantes na pesca artesanal possam desenvolver com o Estado desde o planejamento até a execução das políticas públicas para a pesca artesanal. Jara (2001, p. 104) afirma que “o conhecimento converte-se. em. fator. de. sustentabilidade à medida que seres humanos [...] apliquem a um determinado contexto - território - em forma de decisões [...] e em pedagogias que vinculem atores e agentes”. Jara (2001) também considera que o acesso à informação e ao conhecimento é uma prerrogativa para os atores sociais em uma sociedade democrática. Noutra análise, Jara (2001) sugere que esse capital humano, ao conceber e implementar propostas de políticas públicas, possibilitará o desenvolvimento local, logo que ações integradoras e coletivas estarão sendo estimuladas. Esse conceito de desenvolvimento é antagônico ao modelo convencional de desenvolvimento, como crescimento econômico que, segundo Santos (2005, apud JESUS, 2003, p. 74), “promoveu processos de exclusão, desigualdades sociais, pois desconsiderava a complexidade do mundo e dava ênfase ao econômico, em detrimento do social, organizacional, ambiental, político e cultural”. A esse respeito, Milanez (2003) endossa, por assim dizer, essa afirmativa acima quando considera que: o conceito de desenvolvimento sempre esteve vinculado e até confundido com crescimento econômico, visão que parte do falso pressuposto, base do pensamento liberal de que é possível uma sociedade crescer indefinidamente e do pensamento mágico de que a ciência e a tecnologia terão sempre soluções para [...] nossas opções (MILANEZ, 2003, p. 76).. É nesse sentido que Oliveira (2001) afirma que o desenvolvimento local poderá corrigir a tendência concentradora de capital, e que afirma ser inerente ao processo capitalista. Oliveira (2001) afirma também que o desenvolvimento local pode dar conta dos processos de exclusão advindos do modelo hegemônico de desenvolvimento. Nessa perspectiva, Vecchiatti (2004, apud CUNHA 2009, p. 24) considera que “a equação que relaciona aspectos econômicos, sociais, ambientais, organizacionais, políticos e culturais é de difícil solução, mas tem que ser na atualidade enfrentada”. Neste mesmo sentido, Petitinga (200-) diz que atualmente o conceito de desenvolvimento local vislumbra também a qualidade de vida das pessoas e a.

(30) 30. conservação do meio ambiente e que esses fatores estão interligados e são interdependentes. Dowbor (2007) esclarece que grande parte do que se constitui o que hoje chamamos de qualidade de vida, apesar de sofrer os impactos de processos regionais, nacionais e até globalizados, depende principalmente da iniciativa local para sua melhoria. De acordo com Jara (1998, p. 305), “o local não pode ser reduzido ao espacial, ao geográfico, pois ele é bem mais abrangente e diz respeito a relações sociais e políticas dentro de uma fronteira, de um espaço territorial”. E mais, como pontua Carvalho (2006), baseado em diversos autores, o desenvolvimento local não está dissociado de um desenvolvimento global, e que na sociedade da informação a globalização faz com que as interações entre o local e o global se aprofundem. Dentro dessa concepção de desenvolvimento local, é imprescindível que as estratégias de políticas públicas sejam elaboradas para viabilizar o estabelecimento de parceria entre governo e sociedade, através de mecanismos para o emponderamento das populações locais e para o fomento e ampliação de seu capital humano. Para Jara (2001, p. 111), a parceria é refletida “no encontro de vários atores para realização de objetivo comum, compartilhando recursos, esforços, riscos e perdas”. Desta forma, esse autor considera que o terceiro setor, empresas, associações e organizações, atuantes naquele local, devem somar-se à comunidade e ao governo na proposição e resolução das problemáticas existentes. No que diz respeito ao emponderamento das populações, Franco (2000) e Jara (2001) concebem uma valorização da participação sociopolítica das pessoas e organizações. Nesse mesmo sentido, Dowbor (1999) salienta a importância da participação ao afirmar que quando o próprio cidadão é quem desenvolve as decisões para sua realidade, tais medidas tenderão a uma maior eficácia na simultaneidade do desenvolvimento econômico e social. E que esta participação solidifica a democracia. Estratégias estas, diferentes das observadas nas políticas públicas de Extensão Pesqueira implementadas historicamente, que se baseavam numa comunicação persuasiva (CALLOU; TAUK SANTOS, 2003). A importância dessa participação é destacada e fomentada também na publicação Gestão Participativa para o Desenvolvimento Local, produzida pelo Banco.

(31) 31. Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), quando afirma que: A participação da sociedade é que dá sentido à descentralização, pois favorece o controle social sobre o desenvolvimento, efetivando o espaço local como “locus” privilegiado na formação do cidadão. Participação significa tomar parte das decisões e responsabilizar-se pelas decisões tomadas numa relação de mão dupla. Os cidadãos são responsáveis pelo interesse público e, ao mesmo tempo, sujeitos do processo de mudanças. Trabalha-se uma nova concepção de administração pública que compreende a participação como uma possibilidade de aumentar a eficiência e a eficácia na prestação de serviços públicos, ao favorecer a oportunidade, a criatividade, a gestão de conflitos, a cooperação, a intersetorialidade, a integração e o controle social das ações no âmbito local (BNDES; PNUD, 2000, p. 41).. A relevância da participação também é vista neste trabalho como forma de evitar relações de dominação em qualquer esfera do processo do desenvolvimento para o setor da pesca artesanal. Quanto ao capital humano, a compreensão desse conceito está relacionada ao conhecimento adquirido pela educação formal, pela cultura, e quando os cidadãos são assegurados de uma assistência médica, alimentar e fatores como o empreendedorismo individual (FRANCO, 2005b; JARA, 2001). Segundo Vasconcelos (2009, p. 36), “no processo de desenvolvimento existem duas modalidades importantes para se compreender o êxito: o capital humano e o capital social”. Vasconcelos (2009) ainda afirma que esses elementos proporcionam o desenvolvimento; logo, é a partir deles que os cidadãos se organizam para reivindicar políticas públicas. Nesse mesmo sentido, Franco (2005b) adverte que o capital humano será o fator mais importante na transição para a sociedade do conhecimento. E afirma ainda que “do ponto de vista do desenvolvimento no século 21, o conhecimento é, sem dúvida, o elemento mais importante na composição desse capital humano” (FRANCO, 2005b, p. 3). É, portanto, dentro desse quadro teórico que este trabalho pretende identificar e analisar as políticas públicas de extensão pesqueira artesanal, bem como analisar o capital humano dos pescadores da colônia Z-25, no município de Porto de Pedras, em Alagoas..

(32) 32. CAPÍTULO 2 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A PESCA ARTESANAL NO MUNICÍPIO DE PORTO DE PEDRAS - ALAGOAS (2003-2009). 2.1. Caracterização da atividade pesqueira em Alagoas e em Porto de Pedras A cidade de Porto de Pedras, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e. Estatística (IBGE, 2007a), foi elevada à categoria de município no ano de 1921, decorrente da lei número 903. Esse município está situado nas coordenadas de Longitude 35º29‟ Oeste e Latitude 9º15‟ Sul, e enquadra-se na Microrregião Leste Alagoana e Mesorregião Leste Alagoana, possuindo a Mata Atlântica como bioma (PNUD, 2000). Ainda segundo o PNUD (2000), o município ocupa uma faixa territorial de 267,3Km² e dista 74,2Km de Maceió, capital do Estado. Figura 1 – Mapa do Estado de Alagoas. Fonte: Superintendência Federal de Pesca e Aquicultura – AL (2010).. O município de Porto de Pedras, segundo os dados do Atlas do Desenvolvimento Humano, possui uma população aproximada de 10.238 pessoas, das quais 50,77% residem na zona urbana e 49,23% residem na zona rural. Quando comparamos os dados do PNUD (2000) relativos à população rural e urbana entre os anos de 1991 e 2000, percebe-se um crescimento de 8,80% desta última. Logo, na última década, o percentual da população urbana era de 41,97% de pessoas. Vale salientar que a população de Porto de Pedras representa 0,36% da população do Estado de Alagoas (PNUD, 2000)..

(33) 33. Quanto aos indicadores educacionais dos jovens de Porto de Pedras, 84,4% da população entre 7 a 14 anos estão frequentando a escola; já entre a faixa etária de 10 a 14 anos 85,9% estão na escola; quanto aos jovens de 15 a 17 anos, 63,8% estão frequentando a escola (PNUD, 2000). Com a relação aos indicadores educacionais da população adulta, ou seja, com 25 anos de idade ou mais, 71,7% possuem menos de quatro anos de estudo, 90,6% possuem menos de oito anos de estudo, e a média de anos de estudo é de 2,3 anos (PNUD, 2000). Ainda segundo o PNUD (2000), o município de Porto de Pedras tem o Índice de Desenvolvimento Humano de 0,499, considerada uma região de baixo desenvolvimento (IDH menor que 0,5). Possui, dessa forma, o antepenúltimo pior índice no estado de Alagoas, e em nível nacional, apenas 20 municípios ou 0,4% do total de municípios brasileiros estão em situação pior ou igual a Porto de Pedras. O IDH, segundo o PNUD (2000), tem a finalidade de aferir o avanço econômico de uma população associado às características sociais, culturais e políticas que influenciam a qualidade de vida humana1. Em relação aos dados econômicos de Porto de Pedras, seu produto interno bruto (PIB) está estimado em 23.193.000 milhões de reais (IBGE, 2007b); o PIB per capita do município é de 3.103,28 reais (IBGE, 2007a), enquanto o salário médio gira em torno de R$ 150,13 reais (CPRM, 2005). Ainda segundo o Serviço Geológico do Brasil (CPRM, 2005), as principais atividades econômicas desenvolvidas no referido município são o comércio, que emprega 1,50% da população, através das 36 empresas registradas no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica, e a agropecuária. Na pecuária destacam-se a produção de bovinos, suínos e equinos, e na produção agrícola destacamse a produção de banana, coco da Bahia, laranja, manga, maracujá, arroz, batata doce, cana de açúcar, feijão, mandioca e milho. Quanto à renda per capita, segundo os dados do PNUD (2000), a população de Porto de Pedras possui uma renda de R$ 52,19 reais, valor 11,11% maior que o 1. O IDH é obtido pela média aritmética simples de três subíndices, referentes à Longevidade (IDHLongevidade), Educação (IDH-Educação) e Renda (IDH-Renda) (PNUD,2000)..

(34) 34. diagnosticado em 1991, quando se identificou o valor de R$ 46,97. Ainda segundo a constatação do PNUD (2000), o índice Gini2 do município passou de 0,45 em 1991 para 0,62 no ano de 2000, e que 86,5% da população do município são classificadas como pobres. Especificamente, sobre a atividade econômica da pesca, o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) divulgou que somadas as produções da pesca extrativa marinha e da pesca extrativa continental, o Estado de Alagoas foi responsável por 1,10% da produção nacional, isto é, contribuiu com quase 9.231 toneladas de pescado (BRASIL, 2010a). Sobre o conceito da pesca artesanal, compreende-se aqui como uma “atividade exercida por produtores autônomos, proprietários dos meios de produção, que exercem a pesca como atividade econômica prioritária, desenvolvendo relações de trabalho com base na parceria, com tecnologia de captura seletiva e não mecanizada” (MELLO, 1993 apud SARAIVA, 2008, p. 43). A esse respeito, Diegues (1983, p.181) considera que a “pesca artesanal ou de pequena escala parte de um processo de trabalho na unidade familiar, ou no grupo de vizinhança”. Diegues (1983) afirma também que na sua grande maioria, esses pescadores artesanais possuem seus próprios meios de produção, tais como: embarcações e apetrechos de pesca. Ainda no que se refere à caracterização da atividade pesqueira em Alagoas, ela configura-se, principalmente, pela captura de tainhas, de espécies pelágicas, tais como: serra (Scomberomorus brasiliensis) e cavala (Scomberomorus cavalla), de crustáceos, como os camarões branco, rosa, sete barbas, siri, caranguejo, lagostas verde e vermelha, além de moluscos como: maçunim (Anomalocardia brasiliana), sururu (Mytella falcata) e as ostras (ALAGOAS, 2008). Ao analisar os dados tabulados do diagnóstico propositivo do Estado de Alagoas (2008), observou-se que nesse Estado a área que sofreu maior esforço para captura de pescado foi a região estuarina, com um volume aproximado de 5.182,30 toneladas de 2. O índice Gini mede o grau de desigualdade existente na distribuição de indivíduos segundo a renda domiciliar per capita. Seu valor varia de 0, quando não há desigualdade (a renda de todos os indivíduos tem o mesmo valor), a 1, quando a desigualdade é máxima (apenas um indivíduo detém toda a renda da sociedade e a renda de todos os outros indivíduos é nula) (PNUD, 2000)..

(35) 35. pescado, que gerou uma receita de R$ 26.747.711,00 milhões. Esse esforço de captura teve como principais espécies capturadas (em toneladas): arabaiana (223,3t), arraia (21,1t), cavala (301,9t), camurim (68t), carapeba (259,5t), pescada (526t), manjuba (310,8t), sardinha (382,5t), serra (296,5t), tainha (2.576,7t) e xareu (216t). Segundo Schmiegelow (2004, p. 166), configura-se como região estuarina “uma região costeira parcialmente fechada, onde a água doce de um rio e a água do mar encontram-se e se misturam”. O autor ainda afirma que nos estuários localizados nas “regiões equatoriais e tropicais, há um tipo característico de vegetação denominada manguezal.” De acordo com o Projeto de desenvolvimento sustentável da pesca e aquicultura alagoana (ALAGOAS, 2008), alguns dos fatores contribuintes para a expressiva pesca nas regiões costeiras e de estuário, relacionam-se à configuração das embarcações serem predominantemente de pequeno porte e com baixa autonomia para translado. Também contribuiu para esse fato que algumas das espécies “alvo” para a pesca nessa região não necessitam de qualquer embarcação. Logo, reduz ainda mais os custos dos pescadores para a compra de apetrechos de pesca a fim de desenvolver tal pescaria. Contrário ao elevado índice de captura dos ambientes costeiros e estuarinos, os peixes pelágicos, como agulhões e afins, foram pouco capturados, dada a não existência de barcos industriais no estado de Alagoas (ALAGOAS, 2008). De acordo com o IBAMA (2007), 341 toneladas de pescados geraram uma receita global de primeira comercialização de R$ 1.965.107,00 milhões. As principais espécies capturadas foram (em toneladas): cações (202,1t), dourado (93,5t), atum (18,2t), agulhões (14,9t), bonito (12,3t). Em relação aos peixes demersais3, o Projeto de desenvolvimento sustentável da pesca e aquicultura alagoana (ALAGOAS, 2008, p. 116) relata que no referido Estado “as espécies demersais rochosas apresentaram maior volume de desembarque e geralmente foram capturadas com linhas de fundo”.. 3. Peixes demersais são os peixes que vivem a maior parte do tempo em associação com o substrato (ALAGOAS, 2008)..

Referências

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