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Rennan Danilo Seimetz Chagas

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Academic year: 2021

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(1)

Faculdade de Direito

Curso de Gradua¸

ao em Direito

Rennan Danilo Seimetz Chagas

Estudo da Responsabilidade Civil por Danos de

Ve´ıculos Autˆ

onomos

Niter´

oi – RJ

2019

(2)

1 Rennan Danilo Seimetz Chagas

Estudo da Responsabilidade Civil por Danos de Ve´ıculos Autˆonomos

Trabalho de Conclus˜ao de Curso apresentado ao Curso de Gradua¸c˜ao em Direito da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obten¸c˜ao do Grau de Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Dr. S´ergio Gustavo de Mattos Pauseiro

Niter´oi – RJ 2019

(3)

Bibliotecária responsável: Josiane Braz de Assis - CRB7/5708

S457e Seimetz chagas, Rennan Danilo

Estudo da Responsabilidade Civil por Danos de Veículos Autônomos / Rennan Danilo Seimetz chagas ; Sérgio Gustavo de Mattos Pauseiro, orientador. Niterói, 2019.

57 f. : il.

Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Direito)-Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Direito, Niterói, 2019.

1. Direito civil. 2. Responsabilidade civil. 3. Inteligência artificial. 4. Produção intelectual. I. Pauseiro, Sérgio Gustavo de Mattos, orientador. II.

Universidade Federal Fluminense. Faculdade de Direito. III. Título.

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-iii Rennan Danilo Seimetz Chagas

Estudo da Responsabilidade Civil por Danos de Ve´ıculos Autˆonomos

Trabalho de Conclus˜ao de Curso apresentado ao Curso de Gradua¸c˜ao em Direito da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obten¸c˜ao do Grau de Bacharel em Direito.

Aprovada em 9 de Julho de 2019.

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. S´ergio Gustavo de Mattos Pauseiro - Orientador Universidade Federal Fluminese - UFF

Profa. M.a Verˆonica Batista do Nascimento Universidade Federal Fluminese - UFF

Prof. Dr. Rubens de Lyra Pereira Universidade Federal Fluminese - UFF

Niter´oi – RJ 2019

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Agradecimentos

Muitas pessoas participaram direta ou indiretamente para que eu chegasse ao fim dessa gradua¸c˜ao. N˜ao teria espa¸co para dizer aqui todos aqueles a quem devo algum reconhecimento, mas sem d´uvida alguma existem aqueles que merecem maior destaque e considera¸c˜ao.

Aos meus pais, Zulmira e Danilo. Por todo o incentivo que sempre me deram com rela¸c˜ao aos estudos, permitindo que me dedicasse apenas a isso at´e hoje e pela forma¸c˜ao que me deram para ser o homem que sou. Sempre do meu lado nos momentos dif´ıceis e nos de vit´oria. Se tivesse apenas uma linha, seria para eles.

Ao meu professor e orientador S´ergio Pauseiro, pelos conselhos e orienta¸c˜ao na elabora¸c˜ao deste trabalho. Empreitada que surgiu de uma id´eia dele enquanto tom´avamos um cafezinho na faculdade.

Aos professores Verˆonica Batista e Rubens de Lyra por aceitarem participar da banca de avalia¸c˜ao deste trabalho.

A todos que direta ou indiretamente fizeram parte da minha forma¸c˜ao, o meu muito obrigado.

(6)

v

Resumo

Nos ´ultimos anos diversas tecnologias recentes tˆem tido um papel relevante no de-senvolvimento de novos neg´ocios por seu car´ater disruptivo, com destaque para o mercado automotivo. Algumas empresas tˆem avan¸cado ainda mais, criando ve´ıculos autˆonomos que podem dirigir-se em estradas existentes e podem navegar em muitos tipos de vias e con-textos ambientais com quase nenhuma a¸c˜ao humano direta. O presente trabalho tem como objetivo analisar os desafios das novas tecnologias de ve´ıculos autˆonomos dentro do campo do direito. O objeto de estudo ser´a delimitado `as quest˜oes de direito concernentes civil brasileiro sobretudo a responsabilidade civil. Apresentaremos, ao fim, uma conclus˜ao sobre a condi¸c˜ao atual da legisla¸c˜ao p´atria e um conjunto de teses de como se lidar com situa¸c˜oes de danos relacionados `a ve´ıculos autˆonomos.

Palavras-chave: Direito Civil. Responsabilidade. Inteligˆencia Artificial. Carros Autˆonomos

(7)

Abstract

In recent years, several recent technologies have played a significant role in the development of new businesses because of their disruptive nature, especially in the au-tomotive market. Some companies have advanced even further by creating autonomous vehicles that can drive on existing roads and can navigate in many types of terrains and environmental contexts with almost no direct human action. The present work aims to analyze the challenges of new technologies of autonomous vehicles in relation to law. The object of study will be delimited to issues concerning Brazilian civil law, especially civil liability. We will present, at the end, a conclusion on the current condition of the nati-onal legislation and a set of theses on how to deal with situations of damages related to self-driving Cars.

(8)

vii

Lista de Figuras

1.1 Evolu¸c˜ao das publica¸c˜oes sobre ve´ıculos autˆonomos de 2001 a 2019 . . . 12 2.1 Extrato do jornal The Milwaukee Sentinel de 8 de dezembro de 1926

noti-ciando uma demonstra¸c˜ao de um carro sem motorista . . . 16 2.2 Modelo Firebird II de 1956. Fonte: GM Heritage Center . . . 17 2.3 Carro Boss da Carnegie Mellon University vencedor da DARPA Urban

(9)

1 Introdu¸c˜ao 10

1.1 Justificativa e relevˆancia do tema . . . 11

1.2 Objetivos e delimita¸c˜ao do objeto de estudo . . . 12

1.2.1 Objetivos espec´ıficos . . . 12

1.3 Metodologia e Forma de An´alise dos Resultados . . . 13

1.4 Organiza¸c˜ao da monografia . . . 14

2 Hist´orico do desenvolvimento de ve´ıculos autˆonomos 15 2.1 Prim´ordios e futurismo: 1920 - 1980 . . . 16

2.2 Ressurgimento nos anos 80 . . . 17

2.3 D´ecada de 90 e o advento do uso de inteligˆencia artificial como nova abor-dagem . . . 18

2.4 Anos 2000 e a era p´os internet . . . 19

2.5 Per´ıodo de 2010 aos dias atuais . . . 20

3 Tecnologias disruptivas e quest˜oes legais no mundo 24 3.1 Responsabilidade jur´ıdica e Inteligˆencia artificial . . . 24

3.2 Debates legais envolvendo ve´ıculos autˆonomos pelo mundo . . . 25

3.2.1 Sobre a responsabilidade civil . . . 27

3.2.2 O efeito inibidor das leis de responsabilidade . . . 30

3.2.3 Responsabilidade Criminal . . . 31

3.3 Como carros autˆonomos vˆem sendo recepcionados juridicamente em alguns pa´ıses . . . 34

3.3.1 Para o teste de ve´ıculos autˆonomos . . . 34

3.3.2 Per´ıodo p´os-experimenta¸c˜ao e uso comercial . . . 37

(10)

ix 4 Uma an´alise sobre a situa¸c˜ao no Brasil 39

4.1 Legisla¸c˜ao de Trˆansito . . . 40

4.2 Responsabilidade Civil no direito Brasileiro . . . 41

4.2.1 Responsabilidade subjetiva . . . 43

4.2.2 Responsabilidade objetiva . . . 44

4.3 Direito do Consumidor . . . 46

5 Considera¸c˜oes finais 48

(11)

Introdu¸

ao

Tecnologia disruptiva ou inova¸c˜ao disruptiva ´e um termo cunhado por Christensen (1997) em seu livro The Innovator’s Dilemma que descreve qualquer tecnologia aprimo-rada ou completamente nova que provocam uma ruptura com os padr˜oes, modelos ou tecnologias j´a estabelecidos no mercado tornando-os obsoletos.

Em trabalho mais recente, o mesmo autor defende que o termo disruptivo descreve um processo pelo qual uma empresa menor com menos recursos ´e capaz de desafiar com sucesso as empresas estabelecidas. Atores de mercado tradicionalmente estabelecidos tendem a concentrar esfor¸cos em melhorar seus produtos e servi¸cos para seus clientes mais exigentes (e geralmente mais lucrativos), suprindo com vigor as necessidades de alguns segmentos e ignorando as necessidades dos demais. Os novos entrantes desse mercado com atua¸c˜ao disruptiva come¸cam atingindo com sucesso esses segmentos negligenciados, ganhando terreno fornecendo funcionalidades mais atrativas - frequentemente a um pre¸co mais baixo. Atentos apenas a consumidores tradicionais, os executivos das empresas que ainda dominam o mercado tendem a n˜ao responder vigorosamente. Com o tempo, os novos participantes se movimentam para o mercado de ponta, proporcionando o desempenho que os clientes tradicionais e mais lucrativos exigem, ao mesmo tempo em que preservam as vantagens que impulsionaram seu sucesso inicial. Isso ´e o que vem sendo chamado de ”modelo de inova¸c˜ao disruptiva”(CHRISTENSEN et al., 2015).

Nos ´ultimos anos diversas tecnologias recentes tˆem tido um papel relevante no de-senvolvimento de novos neg´ocios por seu car´ater disruptivo, com destaque para o mercado automotivo. As ind´ustrias automobil´ısticas e tecnol´ogicas deram saltos significativos ao trazer a informatiza¸c˜ao para o que, por mais de um s´eculo, foi exclusivamente uma fun¸c˜ao

(12)

11 humana: dirigir. Os novos modelos de carros incluem cada vez mais recursos como siste-mas de controle de cruzeiro adaptativo e assistˆencia ao estacionamento que permitem que os carros se direcionem para vagas de estacionamento. Algumas empresas tˆem avan¸cado ainda mais, criando ve´ıculos autˆonomos que podem dirigir-se em estradas existentes e podem navegar em muitos tipos de vias e contextos ambientais com quase nenhuma a¸c˜ao humano direta (FAGNANT; KOCKELMAN, 2015).

Em dezembro de 2008, a Rio Tinto Alcan come¸cou a testar o Sistema de Transporte Autˆonomo da Komatsu, o primeiro sistema de transporte autˆonomo de minera¸c˜ao comer-cial do mundo, na mina de min´erio de ferro de Pilbara, na Austr´alia Ocidental. A Rio Tinto relatou benef´ıcios em sa´ude, seguran¸ca e produtividade (BELLAMY; PRAVICA, 2011). Estima-se que, em m´edia, cada caminh˜ao autˆonomo tenha operado cerca de 700 horas a mais do que os caminh˜oes de transporte convencionais durante 2017 e cerca de 15% a menos de custos unit´arios de carga e transporte. ´E importante ressaltar que houve zero les˜oes atribu´ıdas a caminh˜oes de transporte autˆonomos desde a implanta¸c˜ao, desta-cando suas significativas vantagens de seguran¸ca. Com mais de 80 caminh˜oes autˆonomos operando em 2017 o planejado ´e aumentar para mais de 140 at´e o final de 2019 (Rio Tinto Media, 2018).

1.1

Justificativa e relevˆ

ancia do tema

Para demostrar a relevˆancia do tema proposto, apresentamos a seguir um levan-tamento bibliom´etrico de trabalhos internacionais que orbitem a tem´atica de ve´ıculos autˆonomos. Para realiza¸c˜ao do presente estudo optou-se pela base de dados Scopus. Ava-liamos o per´ıodo que vai do ano de 2001 at´e o que se tinha de dispon´ıvel em maio de 2019. O recorte de 2001 foi escolhido por ser o per´ıodo p´os bolha da internet, fase em que a euforia com tecnologias digitais e de internet ficou mais contida e para contar com pesqui-sas que abordassem tem´aticas que se relacionam com tecnologias de inteligˆencia artificial numa era p´os dissemina¸c˜ao da internet. Al´em disso, selecionamos apenas trabalhos que fossem artigos completos ou reviews.

Para tentar evitar a abundˆancia de trabalhos com enfoque na t´ecnica de engenharia e computa¸c˜ao - que fogem completamente do escopo de uma proposta para estudo do direito - limitamos a busca a algumas ´areas espec´ıficas da base Scopus. Selecionamos

(13)

2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 Ano 0 50 100 150 200 250 Artigos publicados

Figura 1.1: Evolu¸c˜ao das publica¸c˜oes sobre ve´ıculos autˆonomos de 2001 a 2019 apenas trabalhos das categorias Social Sciences, Business, Management and Accounting e Arts and Humanities. Ap´os o ´ultimo filtro foram encontrados 1.074 registros.

O gr´afico da figura 1.1 mostra como a quantidade de publica¸c˜oes vem crescendo nos ´ultimos anos em ritmo acelerado. Isso demonstra a relevˆancia do tema, bem como sua atualidade no debate p´ublico internacional.

1.2

Objetivos e delimita¸

ao do objeto de estudo

O presente trabalho se pautar´a pela busca de um determinado conjunto de objeti-vos. Pretende-se analisar os desafios das novas tecnologias de ve´ıculos autˆonomos dentro do campo do direito. Com os principais desafios e questionamentos em mente espera-se, ao fim, construir uma an´alise espec´ıfica da situa¸c˜ao com respeito a legisla¸c˜ao brasileira.

Pela limita¸c˜ao do tempo dispon´ıvel para se realizar um trabalho de conclus˜ao de curso, o tema n˜ao ser´a, evidentemente, exaurido em suas possibilidades. O objeto de estudo ser´a delimitado, portanto, `as quest˜oes de direito concernentes civil brasileiro sobretudo a responsabilidade civil.

1.2.1

Objetivos espec´ıficos

Para atingir o objetivo geral apresentado, metas ou objetivos espec´ıficos foram delineados. Espera-se que a partir da conclus˜ao dos mesmos, o arcabou¸co necess´ario para responder a hip´otese levantada. S˜ao eles:

(14)

13 • Levantar bibliografia abrangente sobre o tema tanto por artigos quanto livros; • construir uma evolu¸c˜ao hist´orica da tecnologia para compreender como se chegou

ao paradigma atual;

• levantar por meio de bibliografia quais os problemas sendo enfrentados em diferentes na¸c˜oes relacionados ao campo do direito e regulat´orio;

• estabelecer uma revis˜ao consideravelmente abrangente de como a tecnologia est´a sendo recepcionada juridicamente pelo mundo;

• fazer uma an´alise de como a legisla¸c˜ao atual pode impactar a chegada da tecnologia ao brasil, com foco na responsabiliza¸c˜ao civil;

• do ponto de vista do direito comparado, identificar maneiras de preencher poss´ıveis lacunas com a tradi¸c˜ao de outros pa´ıses;

• apresentar uma conclus˜ao sobre a condi¸c˜ao atual da legisla¸c˜ao p´atria e apresentar uma tese de como se lidar com situa¸c˜oes de danos relacionados `a ve´ıculos autˆonomos.

1.3

Metodologia e Forma de An´

alise dos Resultados

Visando ao cumprimento dos objetivos e `a obten¸c˜ao de resultados condizentes com as demandas acadˆemicas concernentes `a pesquisa, ser˜ao selecionados os seguintes procedimentos metodol´ogicos e fontes de conte´udo:

De acordo com os aspectos metodol´ogicos considerados por Gil (2008), pode-se classificar a pesquisa adotada das seguintes maneiras:

• Do ponto de vista de sua natureza – Pesquisa Aplicada: tem como caracter´ıstica fundamental o interesse na aplica¸c˜ao, utiliza¸c˜ao e consequˆencias pr´aticas dos conhe-cimentos. No caso em estudo proposto, as quest˜oes jur´ıdicas e seus desdobramentos em decorrentes do advento de ve´ıculos autˆonomos no Brasil;

• Do ponto de vista de sua natureza de abordagem do problema – Qualitativa: N˜ao h´a uma preocupa¸c˜ao com medidas, quantifica¸c˜oes ou t´ecnicas estat´ısticas de qualquer natureza. Busca-se compreender, com base em dados qualific´aveis, a realidade de determinados fenˆomenos;

(15)

• Do ponto de vista de seus objetivos – Pesquisa Explorat´oria: estas pesquisas tˆem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema com vistas a tom´a-lo mais expl´ıcito ou a construir hip´oteses. S˜ao desenvolvidas com o objetivo de proporcionar vis˜ao geral, de tipo aproximativo, acerca de determinado fato. Este tipo de pesquisa ´e realizado especialmente quando o tema escolhido ´e pouco explo-rado e torna-se dif´ıcil sobre ele formular hip´oteses precisas e operacionaliz´aveis; • Do ponto de vista dos procedimentos t´ecnicos - Bibliogr´afica: envolve o estudo

profundo a partir de material j´a elaborado, principalmente livros e artigos cient´ıficos. Estudo e leitura dos textos de fundamenta¸c˜ao filos´ofico-jur´ıdico consignados na Bibliografia B´asica, al´em daqueles indicados pelo orientador e outros que se tornem ade-quados `a medida que a pesquisa se desenvolva.

1.4

Organiza¸

ao da monografia

Ap´os esse cap´ıtulo introdut´orio esta monografia est´a estruturada e mais quatro cap´ıtulos. No cap´ıtulo 2, ser´a apresentada narrativa hist´orica do desenvolvimento da tecnologia de ve´ıculos autˆonomos subdividida em cinco fases. No terceiro cap´ıtulo ser´a discutido como tecnologias disruptivas, em especial a de carros autˆonomos, movimenta debates no campo do direito, seus impactos legais e como a legisla¸c˜ao pode influenciar o avan¸co da tecnologia.

No quarto e pen´ultimo cap´ıtulo ser´a estudado o caso brasileiro. Mostramos como a legisla¸c˜ao de trˆansito e c´ıvel da maneira como est˜ao hoje podem ser aplicadas a esta nova tecnologia, suas limita¸c˜oes e quais os desafios no campo do direito para quando tais ve´ıculos se disseminarem no mercado brasileiro.

Por fim, no quinto e ´ultimo cap´ıtulo ser˜ao apresentadas as considera¸c˜oes finais e sugest˜oes para trabalhos futuros.

(16)

Cap´ıtulo 2

Hist´

orico do desenvolvimento de

ve´ıculos autˆ

onomos

Embora seja um assunto bastante em voga nos anos recentes, a ambi¸c˜ao de se desenvolver ve´ıculos capazes de se locomover sem a necessidade de um condutor ´e quase t˜ao antiga quanto a pr´opria industria automobil´ıstica. O que observamos hoje, empresas disputando mercado e apresentando carros com cada vez maiores n´ıveis de automa¸c˜ao, ´e o resultado de decadas de pesquisa e desenvolvimento.

Neste cap´ıtulo ser´a apresentado um panorama hist´orico do desenvolvimento da tecnologia de ve´ıculos autˆonomos. Como ficar´a exposto, ´e poss´ıvel perceber que tanto a nomenclatura como a concep¸c˜ao de um sistema rodovi´ario com ve´ıculos auto conduzidos ir´a mudar com o tempo. Obviamente isso se deve em grande parte ao advento de novas tecnologias, em especial a eletrˆonica e computa¸c˜ao que permitiram o projeto de sistemas digitais.

Durante muitas d´ecadas o que se concebia como ve´ıculo autˆonomo era um carro dentro de um contexto integrado ao sistema rodovi´ario, tanto ´e que n˜ao se falava em carros autˆonomos, mas sim em ”sistema rodovi´ario automatizado”. Os projetos concebiam integra¸c˜ao anal´ogica, por pe¸cas mecˆanicas ou magn´eticas dos ve´ıculos `as rodovias.

Com o advento da eletrˆonica e da computa¸c˜ao, aos poucos o enfoque passou a ser no ve´ıculo e na integra¸c˜ao de sensores e computadores capazes de produzir decis˜oes sobre como o ve´ıculo deveria se comportar para um determinado fim.

(17)

Figura 2.1: Extrato do jornal The Milwaukee Sentinel de 8 de dezembro de 1926 noticiando uma demonstra¸c˜ao de um carro sem motorista

2.1

Prim´

ordios e futurismo: 1920 - 1980

Carros capazes de se deslocar sem o aux´ılio de um condutor s˜ao um desejo antigo da ind´ustria automotiva. Existem registros de experimentos com pretensos carros autˆonomos desde pelo menos a d´ecada de 1920 (figura 2.1).

Em 1953, a GM e a RCA desenvolveram um prot´otipo do que se chamava a ´epoca de sistema rodovi´ario automatizado em escala realista, o que lhes permitiu come¸car a experimentar como a eletrˆonica poderia ser usada para orientar o ve´ıculo (WETMORE, 2003).

Logo depois, a GM desenvolveu uma s´erie de carros conceito conhecidos como os Firebirds. Estes ve´ıculos de estilo dram´atico serviram tanto como camas de teste em execu¸c˜ao como ve´ıculos promocionais para a ideia de condu¸c˜ao automatizada. Em 1956,

(18)

17

Figura 2.2: Modelo Firebird II de 1956. Fonte: GM Heritage Center

a General Motors demonstrou o Firebird II 2.2 em seu Motorama, um show itinerante criado para apresentar ao p´ublico produtos e id´eias da GM. Na verdade, o Firebird II n˜ao tinha nenhuma capacidade de se autoguiar. O conceito proposto era que o Firebird II seria controlado eletronicamente por torres de controle de tr´afego colocadas em v´arios pontos ao longo das principais rodovias (WETMORE, 2003).

2.2

Ressurgimento nos anos 80

Os primeiros carros verdadeiramente autˆonomos apareceram na d´ecada de 1980, com os projetos Navlab 1 e ALV da Carnegie Mellon University em 1984 (KANADE;

THORPE; WHITTAKER, 1986) e o Projeto Eureka Prometheus da Mercedes-Benz e da Universidade Bundeswehr de Munique em 1987 2.

Em 1986, um grupo de engenheiros de transportes (p´ublicos e privados) que se sen-tiam compelidos a resolver os problemas relacionados ao transporte rodovi´ario formaram uma iniciativa conhecida como “Mobilidade 2000”. Depois de fazer lobby e obter apoio do Departamento de Transportes dos EUA, esses funcion´arios e engenheiros de transporte convenceram o Congresso a inserir uma se¸c˜ao especial na Lei de Eficiˆencia de Transporte Terrestre Intermodal de 1991 (ISTEA). A se¸c˜ao pediu `a Secretaria de Transporte que “de-senvolva, submeta ao Congresso e inicie a implementa¸c˜ao de um plano para o programa

1https://www.cs.cmu.edu/afs/cs/project/alv/www/ 2http://people.idsia.ch/ juergen/robotcars.html

(19)

de sistemas inteligentes de rodovias de ve´ıculos” (WETMORE, 2003).

Na mesma d´ecada, o projeto de Ve´ıculo Terrestre Autˆonomo (ALV) financiado pela Agˆencia de Projetos de Pesquisa Avan¸cada de Defesa (DARPA) nos Estados Uni-dos fez uso de novas tecnologias desenvolvidas pela Universidade de Maryland, Carnegie Mellon University, Instituto de Pesquisa Ambiental de Michigan, Martin Marietta e SRI International (BIMBRAW, 2015). O projeto ALV chegou a primeira demonstra¸c˜ao de um sistema de acompanhamento de estrada que utilizou vis˜ao computacional e controle autˆonomo de dire¸c˜ao para guiar um ve´ıculo rob´otico a velocidades de at´e 19 milhas por hora (31km/h). Em 1987, a HRL Laboratories demonstrou o primeiro mapa off-road e a navega¸c˜ao autˆonoma baseada em sensores no ALV. O ve´ıculo viajou se deslocou por 610 m a 3,0 milhas por hora (3,1km/h) em terrenos complexos com encostas ´ıngremes, rochas e vegeta¸c˜ao. Em 1989, a Universidade Carnegie Mellon foi pioneira no uso de redes neurais para dirigir e controlar ve´ıculos autˆonomos, formando a base das estrat´egias de controle contemporˆaneas (BIMBRAW, 2015).

2.3

ecada de 90 e o advento do uso de inteligˆ

encia

artificial como nova abordagem

Em 1991, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a lei de Autoriza¸c˜ao de Trans-porte ISTEA, que instruiu o Departamento de TransTrans-portes a ”demonstrar um sistema automatizado de ve´ıculos e rodovias em 1997”. A Administra¸c˜ao Federal de Rodovias (FHWA) assumiu essa tarefa, primeiro com uma s´erie de An´alises Precursoras de Siste-mas e depois estabelecendo o Cons´orcio Nacional do Sistema Rodovi´ario Automatizado (NAHSC) (WETMORE, 2003; BIMBRAW, 2015).

Esse projeto de custo compartilhado foi liderado pela FHWA e pela General Motors, com a Caltrans, a Delco, a Parsons Brinkerhoff, a Bechtel, a UC-Berkeley, a Carnegie Mellon University e a Lockheed Martin como parceiras adicionais. O extenso trabalho de engenharia de sistemas e pesquisa culminou numa demonstrados na Demo ’97 em San Diego, Calif´ornia. A demonstra¸c˜ao foi concentrada em um trecho de 11 quilˆometros da Interstate-15, ao norte de San Diego. ´Im˜as enterrados na estrada, fita magn´etica na superf´ıcie da estrada e todos os tipos de sistemas de reconhecimento ´optico e dispositivos de radar, guiaram uma frota de mais de vinte ve´ıculos diferentes em um esfor¸co para

(20)

19 mostrar o progresso feito na aplica¸c˜ao de id´eias de AHS para viagens interestaduais . Empresas como a Delco Electronics argumentaram que finalmente criaram “um sistema integrado de controle de ve´ıculos que est´a ajudando a mover rodovias automatizadas da fic¸c˜ao cient´ıfica para a realidade (WETMORE, 2003).

Os novos ve´ıculos autˆonomos tornaram-se cada vez mais eficientes com o tempo. Os ve´ıculos VaMP e Vita-2 da Daimler-Benz e Ernst Dickmanns da Universidade Bundeswehr de Munique, em 1991, dirigiram mais de 1.000 km em uma rodovia de trˆes faixas em Paris em tr´afego pesado a velocidades de at´e 130km/h, mas com interven¸c˜oes humanas (BIMBRAW, 2015)

Em 1995, o projeto Navlab da Carnegie Mellon University completou uma viagem de 5 mil quilˆometros, dos quais 98,2% foram autonomamente controlados, apelidados de ”No Hands Across America”. Este carro, no entanto, era semi-autˆonomo por natureza: ele usava redes neurais para controlar o volante, mas o acelerador e os freios eram controlados pelo homem, principalmente por raz˜oes de seguran¸ca (THORPE et al., 1991). Tamb´em em 1995, a Mercedes-Benz autˆonoma e reprojetada da Dickmanns fez uma jornada de 1.590 km de Munique, na Bav´aria, Alemanha, at´e Copenhague, na Dinamarca, usando a vis˜ao computadorizada sac´adica e os transputers para reagir em tempo real. O robˆo atingiu velocidades superiores a 109 milhas por hora (175 km/h na Autobahn Alem˜a, com 95% de condu¸c˜ao autˆonoma. Dirigia no trˆansito, executando manobras para passar outros carros. Apesar de ser um prot´otipo sem ˆenfase na confiabilidade de longa distˆancia, chegou a operar 158 km sem interven¸c˜ao humana (BIMBRAW, 2015).

Um ve´ıculo autˆonomo avan¸cado foi exibido por Alberto Broggi, Bertozzi e Fascioli (2000) com o Projeto ARGO, que trabalhou em permitir que um Lancia Thema modificado seguisse as marca¸c˜oes de pista pintadas em uma rodovia n˜ao modificada. O ´apice do projeto foi uma viagem de 1.900 km durante seis dias nas auto-estradas do norte da It´alia, apelidado Mille Miglia em Automatico (”Mil milhas autom´aticas”), com uma velocidade m´edia de 90 km/h.

2.4

Anos 2000 e a era p´

os internet

O governo dos EUA financiou trˆes esfor¸cos militares conhecidos como Demo I (Ex´ercito dos EUA), Demo II (DARPA) e Demo III (Ex´ercito dos EUA). O projeto Demo

(21)

III (2001) demonstrou a capacidade de ve´ıculos terrestres n˜ao tripulados para percorrer quilˆometros de dif´ıcil terreno off-road, evitando obst´aculos como rochas e ´arvores (BIM-BRAW, 2015).

Agˆencia de Projetos de Pesquisa Avan¸cada de Defesa (DARPA) organizou um primeiro Grande Desafio para ve´ıculos terrestres autˆonomos fora de estrada em mar¸co de 2004. Os ve´ıculos tiveram que percorrer um trajeto de 175 milhas atrav´es do Deserto de Mojave definido por uma s´erie densa de cerca de 2000 marcos de percurso evitando obst´aculos est´aticos. Nenhuma equipe conseguiu concluir o curso e a maior distˆancia percorrida foi de cerca de 7 milhas (BENGLER et al., 2014).

O segundo DARPA Grand Challenge em 2005 teve uma configura¸c˜ao similar com um trajeto definido por cerca de 3000 marcos de percurso ao longo de 150 milhas atrav´es do deserto. Todos os finalistas basearam seu trabalho em scanners a laser de alta qualidade, juntamente com sistemas GPS de alta precis˜ao e radares para detec¸c˜ao de longo alcance. Novamente os ve´ıculos tiveram que evitar obst´aculos est´aticos apenas no campo fechado para o p´ublico. Cinco equipes lideradas pela Stanford Racing Team terminaram o percurso (BENGLER et al., 2014).

Em 2007, a DARPA patrocinou mais uma competi¸c˜ao o Urban Challenge, desta vez o desafio foi realizado em um ambiente urbano. Esta competi¸c˜ao ocorreu em uma cidade simulada com estradas pavimentadas. Onze robˆos e cerca de trˆes d´uzias de ve´ıculos convencionais navegaram em um labirinto de estradas da cidade. Quando os ve´ıculos se encontravam, tinham que obedecer `as regras de trˆansito da Calif´ornia. O robˆo Boss (figura 2.3), da Carnegie Mellon University ficou com o primeiro lugar, e o robˆo de Stanford, “Junior”, ficou em segundo lugar. O Urban Challenge adicionou o desafio de outro tr´afego. As capacidades de resolu¸c˜ao de problemas exigidas no Urban Challenge tamb´em foram mais exigentes do que no Grand Challenge, pois os robˆos tiveram que fazer escolhas sobre a maneira como se deslocar (THRUN, 2010).

2.5

Per´ıodo de 2010 aos dias atuais

At´e ent˜ao, boa parte do investimento em ve´ıculos autˆonomos vinha sendo restrita a projetos militares ou cient´ıficos onde a automa¸c˜ao completa do ve´ıculo n˜ao era um fim e si mesma. Na segunda d´ecada do s´eculo XXI come¸ca uma verdadeira corrida industrial de

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21

Figura 2.3: Carro Boss da Carnegie Mellon University vencedor da DARPA Urban Chal-lenge com seus sensores. Fonte:<www.cmu.edu/news/archive/2007/November/nov4 tartanracingwins.shtml>

grandes montadoras tradicionais e empresas do ramo de tecnologia para desenvolvimento de carros autˆonomos com interesse comercial.

Em 2010, o VisLab da It´alia, da Universidade de Parma, liderado pelo professor Al-berto Broggi, conduziu o Desafio Autˆonomo Intercontinental VisLab (VIAC), uma prova de 15.900 milhas (15.900 km) que marcou a primeira viagem terrestre intercontinental completada por ve´ıculos autˆonomos. Quatro vans el´etricas fizeram uma viagem de 100 dias, saindo de Parma, na It´alia, em 20 de julho de 2010, e chegando `a Expo de Xangai na China em 28 de outubro (BROGGI et al., 2012).

Em 2012, a Volkswagen come¸cou a testar um sistema Temporary Auto Pilot (TAP) que permitir´a que um carro se dirija a uma velocidade de at´e 130km/h na estrada. Ele possui v´arias fun¸c˜oes de assistˆencia ao motorista, como controle de cruzeiro adaptativo e monitoramento lateral para uma troca de faixa mais segura, com um sistema de radar, scanner a laser e sensores ultrassˆonicos. Quando no modo TAP, o carro mant´em uma distˆancia segura do ve´ıculo em frente, verifica os marcadores de pista para manter o carro no centro e diminui automaticamente quando se aproxima de uma curva na estrada. Com essa tecnologia motorista ainda mant´em o controle e pode sobrepor as a¸c˜oes do carro a qualquer momento (BIMBRAW, 2015).

(23)

Em janeiro de 2013, a Toyota demonstrou um carro parcialmente autˆonomo com in´umeros sensores e sistemas de comunica¸c˜ao3. A Toyota usou algo que chama de

tecno-logia ITS (Intelligent Transport Systems). O sistema do carro foi projetado de tal forma que qualquer falha no sistema n˜ao causa a colis˜ao do carro. Lasers e radares foram usados para ter um know-how eficaz dos arredores. O carro ´e semi-autˆonomo, o motorista pode ganhar o controle do carro a qualquer hora que desejar (BIMBRAW, 2015).

Em 2013, em 12 de julho, o VisLab realizou outro teste pioneiro de ve´ıculos autˆono-mos, durante o qual um ve´ıculo rob´otico dirigia o centro de Parma sem controle humano, navegando com sucesso por desvios, sem´aforos, cruzamentos de pedestres e outros perigos comuns (BROGGI et al., 2013).

Em agosto de 2013 a Nissan anunciou seus planos de lan¸car v´arios carros sem motoristas at´e 2020. A empresa est´a construindo no Jap˜ao um campo de provas autˆonomo dedicado a ser conclu´ıdo em 2014. A Nissan instalou sua tecnologia de carro autˆonomo em um carro el´etrico Nissan Leaf para fins de demonstra¸c˜ao. O carro foi demonstrado no evento Nissan 360 test drive realizado na Calif´ornia em agosto de 20134.

Em setembro de 2013, a Nissan equipou um prot´otipo do Leaf com Advanced Driver Assistance System. Foi concedida uma placa especial que permitiu conduzi-lo em estradas p´ublicas japonesas. O carro de teste foi usado pelos engenheiros da Nissan para avaliar como o seu software de condu¸c˜ao autˆonomo interno funciona no mundo real 5.

Em outubro de 2014, a Tesla Motors anunciou sua primeira vers˜ao do AutoPilot. Os carros modelo S equipados com este sistema s˜ao capazes de controlar a pista com dire¸c˜ao autˆonoma, frenagem e ajuste de limite de velocidade com base no reconhecimento de imagem de sinais. O sistema tamb´em oferece estacionamento autˆonomo e ´e capaz de receber atualiza¸c˜oes de software para melhorar as habilidades ao longo do tempo 6.

Em fevereiro de 2015, a Volvo Cars anunciou seus planos de alugar 100 SUVs XC90 equipados com a tecnologia de automa¸c˜ao Drive Me N´ıvel 3 para os moradores de

3Toyota sneak previews self-drive car ahead of tech show em <www.cmu.edu/news/archive/2007/ November/nov4 tartanracingwins.shtml> acesso em 28/05/2019

4Nissan Announces Plans to Release Driverless Cars by 2020. Em <https://wheels.blogs.nytimes. com/2013/08/29/nissan-announces-plans-to-release-driverless-cars-by-2020>acesso em 29/05/2019

5Nissan’s Autonomous LEAF Granted License for Public Roads in Japan <https://www.plugincars. com/nissan-first-advanced-driver-assistance-leaf-hits-roads-japan-128415.html> acesso em 29/05/2019

6This is Tesla 's D: an all-wheel-drive Model S with eyes on the road <https://www.theverge. com/2014/10/9/6955357/this-is-tesla-s-d-an-all-wheel-drive-car-with-eyes-on-the-road> acesso em 29/05/2019

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23 Gotemburgo em 20177. Os Drive XC90s ser˜ao equipados com o supercomputador Nvidia

Drive PX 2 e ser˜ao dirigidos autonomamente em determinadas condi¸c˜oes meteorol´ogicas condi¸c˜oes e em uma estrada que circunda a cidade. Como parte do projeto Drive Me da Volvo, os 100 carros no teste da Su´ecia ter˜ao uma interface chamada IntelliSafe Auto Pilot, um recurso que permitir´a que os motoristas ativem e desativem o modo autˆonomo por meio de p´as especialmente projetadas no volante. A interface foi desenvolvida para supervisionar como os motoristas transferir˜ao o controle para o modo de dire¸c˜ao autˆonoma de um carro nos futuros carros. A Volvo considera os sistemas de dire¸c˜ao autˆonoma como a ferramenta que ajudar´a a cumprir a meta da empresa de n˜ao ter ningu´em seriamente ferido ou morto em um novo Volvo at´e o ano 20208.

Em abril de 2015, um carro projetado pela Delphi Automotive tornou-se o primeiro ve´ıculo automatizado a completar uma viagem de costa a costa pela Am´erica do Norte. Viajou de S˜ao Francisco a Nova York, sob controle de computador por 99% daquela distˆancia 9.

No final de 2016, a Tesla anunciou que a nova gera¸c˜ao do seu Modelo S incluiria hardware totalmente autˆonomo. Os avan¸cos em rela¸c˜ao ao modelo anterior inclu´ıam oito cˆameras surround oferecendo visibilidade de 360 graus em torno do carro a at´e 250 metros de alcance. Doze sensores ultrassˆonicos atualizados complementam essa vis˜ao, permitindo a detec¸c˜ao de objetos duros e macios a quase o dobro da distˆancia do sistema anterior. Para entender todos esses dados, um novo computador de bordo com mais de 40 vezes a capacidade de computa¸c˜ao da gera¸c˜ao anterior utiliza a nova rede neural desenvolvida pela Tesla para software de processamento de vis˜ao, sonar e radar. Juntos, esse sistema fornece uma vis˜ao do mundo que um condutor sozinho n˜ao pode acessar, vendo em todas as dire¸c˜oes simultaneamente e em comprimentos de onda que v˜ao muito al´em dos sentidos humanos. 10

7Volvo will run a public test of self-driving cars with 100 real people in 2017 <https://www.theverge. com/2015/2/23/8091455/volvo-drive-me-self-driving-car-test-2017> acesso em 29/05/2019

8Volvo Expands Its Self-Driving Car Experiment to China <http://fortune.com/2016/04/06/ volvo-self-driving-china/> acesso em 29/05/2019

9Driverless car finishes 3,400 mile cross-country trip <https://money.cnn.com/2015/04/03/autos/ delphi-driverless-car-cross-country-trip/> acesso em 29/05/2019

10All Tesla Cars Being Produced Now Have Full Self-Driving Hardware <https://www.tesla.com/it IT/ BLOG/ALL-TESLA-CARS-BEING-PRODUCED-NOW-HAVE-FULL-SELF-DRIVING-HARDWARE> acesso em 29/05/2019

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Tecnologias disruptivas e quest˜

oes

legais no mundo

Tecnologia disruptiva ou inova¸c˜ao disruptiva ´e um termo cunhado por Christensen (1997) em seu livro The Innovator’s Dilemma que descreve qualquer tecnologia aprimo-rada ou completamente nova que provocam uma ruptura com os padr˜oes, modelos ou tecnologias j´a estabelecidos no mercado tornando-os obsoletos.

As mudan¸cas repentidas promovidas por tecnologias disruptivas imp˜oem desafios legais a legisladores e profissionais do direito. Numa era de fortes avan¸cos em rob´otica, internet e inteligˆencia artificial. Recentemente tais desafios s˜ao levantados com rela¸c˜ao a tecnologias como blockchain(CASTELL, 2018; MILLARD, 2018), uso de drones civis (CLARKE; BENNETT, 2014; VOLOVELSKY, 2014), inteligˆencia artificial (DAVIES, 2011; ˇCERKA; GRIGIENE; SIRBIKYTE, 2015; SCHERER, 2015; ˇCERKA; GRIGI-ENE; SIRBIKYTE, 2017) e no que ser´a mais explorado neste trabalho os carros autˆo-nomos (SCHELLEKENS, 2015; ZOHN, 2015; GLESS; SILVERMAN; WEIGEND, 2016; LOHMANN, 2016; GREENBLATT, 2016; VELLINGA, 2017; MACKIE, 2018).

3.1

Responsabilidade jur´ıdica e Inteligˆ

encia artificial

Partindo da premissa de que quando o software ´e defeituoso, ou quando algu´em sofre um dano como resultado do uso de software, o processo legal resultante se baseia na culpa do r´eu por negligˆencia, Gerstner (1993) discute os trˆes elementos que devem ser demonstrados para que uma reivindica¸c˜ao de negligˆencia logre ˆexito: O r´eu tinha um

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25 dever de cuidado; O r´eu violou esse dever; Essa viola¸c˜ao causou preju´ızo ao demandante. Para Kingston (2016) sistemas de inteligˆencia artificial podem ser considerados legalmente dependentes de pelo menos trˆes fatores: As limita¸c˜oes dos sistemas de inteli-gˆencia artificial, e se estes s˜ao conhecidos e comunicados ao comprador; Se um sistema de inteligˆencia artificial ´e um produto ou um servi¸co; Se a ofensa requer uma mens rea1 ou

´e uma ofensa de responsabilidade estrita.

Kingston (2016) alerta que no contexto das defesas contra a responsabilidade por sistemas de inteligˆencia artificial, ´e importante mencionar v´arios casos em que um r´eu acusado de ofensas de cibercrime ofereceu com ˆexito a defesa de que seu computador havia sido invadido por um trojan ou programa de malware semelhante, que estava cometendo ofensas usando o computador do r´eu, mas sem o conhecimento do r´eu.

A defesa trojan ´e usada para negar as alega¸c˜oes da acusa¸c˜ao de que o r´eu cometeu o crime acusado. Ou seja, a defesa d´a ao j´uri uma teoria alternativa do crime, uma teoria ”n˜ao fui eu, foi ele”. O r´eu nega qualquer envolvimento no crime e afirma que foi cometido por outra pessoa. Os jurados podem, portanto, absolver o acusado sem sentir que deixaram um crime ”sem solu¸c˜ao”; eles podem absolver sem remorso porque est˜ao confiantes de que algu´em que n˜ao seja o r´eu cometeu os crimes cometidos (BRENNER; CARRIER; HENNINGER, 2004).

Existem diversas nuances envolvendo a responsabiliza¸c˜ao civil e criminal em fatos que envolvam equipamentos com algum tipo de inteligˆencia artificial. Nas pr´oximas se¸c˜oes iremos restringir os estudos bibliogr´aficos `a tecnologia de ve´ıculos autˆonomos.

3.2

Debates legais envolvendo ve´ıculos autˆ

onomos pelo

mundo

Apesar da falta de clareza na demanda e da confian¸ca do consumidor neste pro-duto, muitos estados americanos e diversos pa´ıses no mundo est˜ao come¸cando a reconhecer sua inevitabilidade. O potencial de ter carros autolocomovendo-se abre uma infinidade de quest˜oes de seguro e responsabilidade que s˜ao diferentes de tudo o que a sociedade j´a viu

1A tradi¸c˜ao do Common Law n˜ao trabalha com a distin¸c˜ao entre dolo e culpa, mas sim em mens rea, que ´e a exigˆencia de um elemento subjetivo do crime. A mens rea se divide em quatro esp´ecies: purpose, knowledge, recklessness e negligence, sendo que tais hip´oteses n˜ao coincidem com dolo direto, eventual, culpa consciente e inconsciente.

(27)

antes. At´e o ano de 2015 pol´ıticos em vinte e sete estados e no Distrito de Columbia propuseram pelo menos uma legisla¸c˜ao sobre ve´ıculos autˆonomos, sendo que quatro estados -Nevada, Calif´ornia, Fl´orida, Michigan - haviam legalizado o teste de ve´ıculos autˆonomos em suas estradas (ZOHN, 2015).

Hoje, a lei est´a lutando para acompanhar a tecnologia, que est´a avan¸cando em um ritmo alucinante, gra¸cas aos esfor¸cos da empresas como Apple, Audi, BMW, Ford, General Motors, Google, Honda, Mercedes, Nissan, Nvidia, Tesla, Toyota e Volkswagen. Os prot´otipos de carros autˆonomos da Google, com motoristas de teste sempre prontos para assumir o controle, j´a est˜ao nas ruas da cidade de Mountain View, na Calif´ornia, e em Austin, no Texas. no segundo semestre de 2015, a tesla Motors come¸cou a permitir que os propriet´arios (n˜ao apenas os pilotos de teste) ligassem seu modo de piloto autom´atico (GREENBLATT, 2016).

Em geral A lei ainda pressup˜oe que um ser humano est´a no banco do motorista, e ´e por isso que os motoristas profissionais e os propriet´arios de ve´ıculos Tesla s˜ao aconselhados a sempre manter as m˜aos perto do volante e dos olhos na estrada. Para alguns isso tem atrapalhado o lan¸camento de ve´ıculos totalmente autˆonomos (GREENBLATT, 2016).

Existe muita confus˜ao com rela¸c˜ao ao arcabou¸co legal. Leis na Calif´ornia e em Nevada, por exemplo, permitem carros autˆonomos em estradas p´ublicas, desde que um motorista humano esteja sentado ao volante em alerta, enquanto outros estados america-nos permitem testes em apenas estradas designadas. Os reguladores europeus permitiram testes limitados de carros autˆonomos e at´e de tratores-reboques (GREENBLATT, 2016). O Reino Unido autorizou testes a partir do ano de 2015 e come¸cou a rever as regu-lamenta¸c˜oes rodovi´arias para descobrir como, eventualmente, permitir um ˆonibus total-mente autˆonomo. O Jap˜ao permitiu seu primeiro teste de estrada de um carro autˆonomo em 2013, embora grande parte das pesquisas que est˜ao sendo feitas por empresas auto-mobil´ısticas japonesas esteja acontecendo nos Estados Unidos (GREENBLATT, 2016).

Responsabilidade e inova¸c˜ao n˜ao s˜ao isolados uns dos outros, mas influenciam uns aos outros. Por um lado, a legisla¸c˜ao de responsabilidade pode influenciar a decis˜ao dos fabricantes de produzir determinados produtos. Se os riscos de responsabiliza¸c˜ao forem considerados altos demais, os fabricantes podem adiar a introdu¸c˜ao de carros automa-tizados at´e que a tecnologia permita um n´ıvel mais alto de seguran¸ca. A legisla¸c˜ao de responsabilidade tamb´em pode ter um efeito positivo na confian¸ca que o p´ublico deposita

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27 em certos produtos. O conhecimento de que a responsabilidade est´a pendurada como espada de Dˆamocles na cabe¸ca do fabricante, pode imbuir a confian¸ca do p´ublico de que o fabricante n˜ao economizar´a em seguran¸ca. Por outro lado, na determina¸c˜ao da respon-sabilidade, a inova¸c˜ao pode ser levada em considera¸c˜ao. Um produtor pode, por exemplo, escapar da responsabilidade pelo produto se demonstrar que o estado do conhecimento cient´ıfico e t´ecnico no momento em que colocou o produto em circula¸c˜ao n˜ao era tal que permitisse a descoberta do defeito (SCHELLEKENS, 2015). Nos pr´oximos t´opicos, dis-cutiremos como vem sendo tratada a quest˜ao da responsabilidade civil e criminal com rela¸c˜ao `as inova¸c˜oes em ve´ıculos autˆonomos.

3.2.1

Sobre a responsabilidade civil

Apesar da confian¸ca dos fabricantes de ve´ıculos autˆonomos de que os produtos s˜ao extremamente seguros, incertezas ineretens ao comportamento de outros motoristas, pedestres e ao pr´oprio ambiente tornam acidentes eventuais e muitas vezes inevit´aveis.

Geralmente, a quest˜ao-chave em um processo de responsabilidade pelo produto (uma forma de responsabiliza¸c˜ao das empresas no common law ) ´e se o produto tinha uma “condi¸c˜ao defeituosa” que era “excessivamente perigosa”. Isso geralmente envolve determinar se o projetista do produto poderia ter desenvolvido um produto mais seguro a um custo aceit´avel. Mas o que ´e ”razo´avel”para uma nova tecnologia? ´E “razoavelmente seguro” definido pelo motorista humano m´edio, o motorista humano perfeito ou o piloto de computador perfeito? (GREENBLATT, 2016)

Uma quest˜ao muito importante na justi¸ca americana diz respeito aos punitive da-mages2. Punitive damages est˜ao geralmente dispon´ıveis nos Estados Unidos por conduta

ultrajante na concep¸c˜ao ou fabrica¸c˜ao de um produto defeituoso. O caso de Liebeck vs. McDonald’s de 1994 envolveu uma indeniza¸c˜ao por punitive damage de US$ 2,7 milh˜oes por conta queimaduras de caf´e quente causadas a uma senhora de 79 anos ´e um exem-plo famoso do dispositivo. Na ocasi˜ao foi provado que o McDonald’s conservava o caf´e em temperaturas muito mais elevadas que os demais concorrentes, proporcionando risco maior de queimaduras.

2Punitive damages ao s˜ao danos avaliados a fim de punir o r´eu por conduta ultrajante ou impedir o r´eu e outros de se engajar em conduta semelhante `aquela que formou a base do processo. ´E presta¸c˜ao indenizat´oria simimlar ao dano moral brasileiro pois, embora o objetivo dos punitive damages n˜ao seja o de indenizar o demandante, o autor receber´a todo ou parte do prˆemio de indeniza¸c˜ao punitiva.

(29)

Por conta deste tipo de indeniza¸c˜ao, os potenciais custos legais enfrentados pelos fa-bricantes de ve´ıculos autˆonomos s˜ao maiores do que os custos enfrentados pelos motoristas humanos ao adquirir um carro. Nos estados unidos, a maioria dos acidentes automobil´ıs-ticos resultam em acordos pr´e-julgamento, e os 4% dos casos que v˜ao a julgamento tˆem custos legais e indenizat´orios relativamente baixos, se comparados com os de uma a¸c˜ao por defeito de projeto/produto. O Departamento de Justi¸ca dos EUA informou que os danos m´edios em casos de acidentes de autom´ovel foram de US$ 16.000, em compara¸c˜ao com US$ 748.000 para casos de responsabilidade pelo produto. Esses custos legais criam desincentivos injustos para ve´ıculos autˆonomos (GREENBLATT, 2016).

Uma preocupa¸c˜ao ´e que a responsabiliza¸c˜ao em do fabricante possa desincentivar os fabricantes a produzir ve´ıculos automatizados. Tendo em vista os benef´ıcios gerais da automa¸c˜ao de ve´ıculos para a seguran¸ca rodovi´aria, a produ¸c˜ao de ve´ıculos automatizados parece socialmente desej´avel. Os fabricantes devem tomar uma decis˜ao comercial, quer estejam ou n˜ao investindo nesse tipo de inova¸c˜ao veicular. Se o fizerem, ´e seu dever forne-cer a seguran¸ca esperada, ou ent˜ao eles ser˜ao confrontados com reclama¸c˜oes e processos. A possibilidade de um recurso contra o fabricante n˜ao o impede de escapar da respon-sabilidade se ele provar que n˜ao foi capaz de detectar o defeito em conformidade com o estado da arte no momento de colocar seu produto no mercado (LOHMANN, 2016).

Zohn (2015) prop˜oe trˆes formas de se encarar a quest˜ao da responsabilidade civil com rela¸c˜ao aos ve´ıculos autˆonomos: i) trat´a-los como carros convencionais; ii) trat´a-los como produtos novos; iii) trat´a-los como tecnologias similares mas n˜ao automobil´ısticas. Tratamento como ve´ıculos convencionais

A lei norte americana normalmente avaliar´a se a causa do acidente foi (1) um defeito de fabrica¸c˜ao, (2) um defeito de projeto ou (3) negligˆencia do motorista (ZOHN, 2015).

Primeiro, um defeito de fabrica¸c˜ao ocorre quando o produto se afasta do design pretendido. A responsabilidade ´e imposta se os esfor¸cos de controle de qualidade do fabricante satisfazem ou n˜ao os padr˜oes de razoabilidade. Isso ´e responsabilidade estrita no verdadeiro sentido. O conceito por tr´as disso ´e incentivar os fabricantes a investir mais em seguran¸ca do produto do que de outra forma o faria (ZOHN, 2015).

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respons´a-29 vel, os tribunais considerar˜ao se existe um defeito de projeto. Um defeito de projeto ocorre quando os riscos previs´ıveis de dano causado pelo produto poderiam ter sido reduzidos ou evitados pela ado¸c˜ao de um projeto alternativo razo´avel; a omiss˜ao de tal projeto torna o produto n˜ao razoavelmente seguro. Muitos fatores podem ser considerados ao avaliar se um projeto alternativo ´e razo´avel e se a omiss˜ao tornou o produto excessivamente seguro (ZOHN, 2015).

Em terceiro lugar, a condu¸c˜ao negligente ou imprudente ocorre quando o acidente n˜ao ´e causado por uma falha do autom´ovel, mas sim por infrac¸c˜ao do operador do ve´ıculo. Exemplos disso est˜ao dirigindo pelo lado errado da rodovia, acelerando ou desobedecendo sem´aforos, sinais ou sinais. Erro do motorista ´e o motivo mais comum para que acidentes de carro ocorrem hoje (ZOHN, 2015).

Pensando nos custos que grandes indeniza¸c˜oes podem gerar aos fabricantes e o consequente desestimulo aos investimentos Greenblatt (2016) defende essa abordagem de equipara¸c˜ao aos ve´ıculos convencionais. Em vez de aplicar leis de defeitos de projeto a pilotos de computador, bastaria usar leis de negligˆencia ordin´arias. Ou seja, um motorista de computador deve ser responsabilizado somente se um motorista humano que realizou as mesmas a¸c˜oes nas mesmas circunstˆancias seria responsabilizado. As circunstˆancias incluem a posi¸c˜ao e a velocidade dos ve´ıculos, condi¸c˜oes clim´aticas e assim por diante.

Por exemplo, um motorista de ve´ıculo autˆonomo que ultrapassa o sinal vermelho e causa um acidente seria considerado respons´avel. Os danos impostos `a montadora (que ´e respons´avel pelas a¸c˜oes do motorista do computador) seriam iguais aos danos que seriam impostos a um motorista humano. Os custos de contencioso seriam semelhantes e os altos custos de uma a¸c˜ao de defeito de projeto poderiam ser evitados. A montadora ainda teria um incentivo financeiro para melhorar a seguran¸ca. Na verdade, o fabricante teria maiores incentivos do que com um ve´ıculo movido por humanos, por causa de preocupa¸c˜oes com publicidade. A corre¸c˜ao de problemas sistˆemicos poderia ser implementada por meio de um mecanismo previs´ıvel, como um programa obrigat´orio de revis˜ao de falhas com supervis˜ao do governo, sem risco excessivo para o fabricante (GREENBLATT, 2016). Tratamento como produtos novos

Outra op¸c˜ao dispon´ıvel para como a lei deve lidar com responsabilidade civil em acidentes causados por ve´ıculos autˆonomos ´e criar leis e precedentes inteiramente novos,

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permitindo que cada estado (de um ponto de vista federalista) escolha como quer lidar com eles de forma independente. O arcabou¸co de responsabiliza¸c˜ao pode vir jurispruden-cial ou legislativamente. Para Zohn (2015) O arcabou¸co legislativo ´e prefer´ıvel porque provavelmente fornecer´a maior seguran¸ca aos desenvolvedores de tecnologia durante as etapas de pesquisa e desenvolvimento. O arcabou¸co de responsabiliza¸c˜ao para ve´ıculos autˆonomos que resulte da compila¸c˜ao de v´arias decis˜oes judiciais ao longo do tempo s´o po-der´a ser desenvolvido se os tribunais forem for¸cados a lidar com demandas que surgiriam apenas quando os carros j´a estivessem permitidos na estrada (ZOHN, 2015).

Por outro lado, a cria¸c˜ao de um sistema inteiramente novo para ve´ıculos autˆonomos poderia ser apressada e falha, j´a que a demanda pelo produto est´a come¸cando a aumentar, enquanto existem poucas leis em prepara¸c˜ao para eles. Al´em disso, com um produto t˜ao revolucion´ario, a promulga¸c˜ao de novas leis estaria muito pautada por suposi¸c˜oes. N˜ao h´a como antecipar como os ve´ıculos ser˜ao utilizados e qual ser´a sua fun¸c˜ao no futuro. Criar um conjunto inteiramente novo de leis para essa tecnologia ´e muito proativo e arbitr´ario, pois ´e dif´ıcil realizar a pesquisa necess´aria. Como os ve´ıculos autˆonomos est˜ao quase prontos para uso do consumidor, n˜ao haveria tempo suficiente para fazer a pesquisa necess´aria sem atrasar o avan¸co tecnol´ogico (ZOHN, 2015).

Tratamento como tecnologias similares mas n˜ao automobil´ısticas

Uma terceira op¸c˜ao ´e usar a lei precedente estabelecida sobre tecnologias que n˜ao s˜ao autom´oveis, mas podem servir de fonte por analogia. Duas tecnologias an´alogas s˜ao elevadores e o piloto autom´atico em avi˜oes e navios. O operador informa a m´aquina o destino e a a mesma automaticamente e sem mais assistˆencia humana transporta-o para o destino determinado (ZOHN, 2015).

3.2.2

O efeito inibidor das leis de responsabilidade

Se os carros autˆonomos s˜ao estatisticamente mais seguros do que os carros conduzi-dos por humanos, ´e de se supor que n˜ao haveria resistˆencia em colocar tais equipamentos em circula¸c˜ao. No entanto, por medo de responsabiliza¸c˜ao ou danos `a imagem, os fa-bricantes podem n˜ao querer correr o risco de introduzir carros automatizados at´e que atinjam um padr˜ao mais elevado de confiabilidade. Assim, pode-se esperar um atraso na introdu¸c˜ao dessa inova¸c˜ao por medo de publicidade negativa e responsabiliza¸c˜ao jur´ıdica

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31 decorrentes de eventuais defeitos nos ve´ıculos. ´E esse cen´ario que caracteriza o efeito inibidor das leis de responsabilidade (SCHELLEKENS, 2015).

Schellekens (2015) argumenta que o efeito inibidor da responsabiliza¸c˜ao pode ser superado sem grandes mudan¸cas em legisla¸c˜oes sobre responsabilidade civil. Para tal, lan¸ca m˜ao de dois pressupostos: i) carros autˆonomos s´o seriam introduzidos no mercado uma vez que o fabricante tenha certeza de que eles s˜ao estatisticamente mais seguros; ii) ´e do interesse das seguradoras que o n´umero de acidentes diminua.

Um desafio consiste em elaborar um sistema em que o fabricante n˜ao sofra um ˆonus exagerado em rela¸c˜ao `a responsabilidade, mas tamb´em n˜ao seja subexposto. O se-guro pode fornecer parte da solu¸c˜ao, assegurando que a v´ıtima seja parcial ou totalmente compensada. Na maioria dos pa´ıses, o condutor ou titular de um ve´ıculo que participa no tr´afego tem o dever de garantir a responsabilidade ou os custos de acidentes. Se as seguradoras estiverem interessadas em uma redu¸c˜ao de acidentes, elas podem fazer uso de seu poder jur´ıdico para recorrer contra o fabricante. Isso diminui seu interesse em segurar fabricantes que construam carros autom´aticos com mau desempenho, em benef´ıcio dos fa-bricantes dos carros que proporcionam redu¸c˜ao do n´umero de acidentes (SCHELLEKENS, 2015).

Sob os regimes de v´arios pa´ıses europeus j´a est´a em vigor um entendimento do titu-lar do ve´ıculo sendo estritamente respons´avel pelo risco operacional, incluindo o decorrente de a¸c˜oes do pr´oprio ve´ıculo. A indemniza¸c˜ao da v´ıtima ´e assegurada pela possibilidade de agir contra o titular do autom´ovel autˆonomo ou, de preferˆencia, contra a seguradora mandat´aria (LOHMANN, 2016).

3.2.3

Responsabilidade Criminal

Mas e se um passeio em um carro autˆonomo terminar em um acidente fatal? No t´opico anterior vimos debates que se levantaram mundo afora relacionados a responsabi-lidade civil e obriga¸c˜ao de indenizar por danos causados por ve´ıculos autˆonomos. Neste t´opico ser˜ao trabalhadas as considera¸c˜oes sobre responsabilidade criminal, principalmente em casos de acidentes fatais.

Gless, Silverman e Weigend (2016) ponderam que carro autˆonomo pode ser incapaz de reagir adequadamente a uma crise imprevista, ou sua tecnologia pode simplesmente fracassar em tomar a melhor decis˜ao e causar um acidente envolvendo danos, ferimentos

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ou at´e a perda da vida humana. Quando isso acontece, ´e prov´avel que haja um clamor p´ublico associado `a demanda por uma determina¸c˜ao de responsabilidade, incluindo a aloca¸c˜ao de danos civis e responsabilidade criminal.

Se as fun¸c˜oes dos motoristas forem reduzidas com a cria¸c˜ao de um sistema semi-autonomo o ou totalmente sem motorista, o regime de responsabilidade penal ter´a que mudar significativamente para acomodar a nova tecnologia. Embora algumas infra¸c˜oes de trˆansito e crimes veiculares sejam baseadas em responsabilidade objetiva, outras tˆem requisitos de inten¸c˜ao ou dependem de uma pessoa estar “no controle” de um ve´ıculo automotor (DOUMA; PALODICHUK, 2012).

Douma e Palodichuk (2012) faz a distin¸c˜ao de duas situa¸c˜oes que podem se con-difgurar pela maneira como a tecnologia vem se desenvolendo. Na primeira os humanos dentro do ve´ıculo s˜ao apenas passageiros sem nenhuma capacidade de interferˆencia nas a¸c˜oes praticadas pelo ve´ıculo. J´a na segunda existe a possibilidade do motorista humano assumir o controle do autom´ovel se sobrepondo aos controles autom´aticos.

Na mesma linha, Hallevy (2010) discute como, e se, entidades embuidas de inte-ligˆencia artificial podem ser responsabilizadas criminalmente. As leis criminais normal-mente requerem tanto um actus reus 3 (uma a¸c˜ao) quanto uma mens rea (uma inten¸c˜ao

mental), e Hallevy classifica as leis da seguinte forma: Aqueles onde o actus reus consiste de uma a¸c˜ao, e aqueles em que o actus reus consiste de uma falha na a¸c˜ao. Aqueles em que a mens rea exige conhecimento ou ser informado; aqueles em que o mens rea exige apenas negligˆencia (“uma pessoa sensata saberia”); e ofensas de responsabilidade estrita, para as quais nenhum mens rea precisa ser demonstrado.

Considere o cen´ario onde o ve´ıculo funciona de forma totalmente autˆonoma, como um carro sem motorista. Nesse cen´ario, as leis para tratar de infra¸c˜oes simples, como excesso de velocidade e parada de sinais de parada, s˜ao bastante simples: programar ve´ıculos autˆonomos para cumprir todos os estatutos e regulamentos relativos `as regras da estrada. Qualquer viola¸c˜ao de regra, neste caso, seria um mau funcionamento da parte do ve´ıculo. Isso tamb´em seria verdade nos casos em que a inten¸c˜ao ´e a base de um crime de trˆansito - desde que o operador estivesse apenas agindo como passageiro, a negligˆencia n˜ao poderia ser encontrada no sentido tradicional (DOUMA; PALODICHUK, 2012).

3No common law, actus reus representa a antijuricidade, atrav´es de elementos externos (ou objetivos) de um delito. Quando provado al´em de uma d´uvida razo´avel em combina¸c˜ao com a mens rea, ”mente culpada”, produz responsabilidade criminal

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33 A quest˜ao urgente para Douma e Palodichuk (2012) diz respeito `a responsabilidade de um motorista em rela¸c˜ao `a op¸c˜ao de desengate. Por um lado, a op¸c˜ao de desengate poderia servir como um recurso de seguran¸ca onde o usu´ario ´e capaz de assumir o controle de um carro com defeito. Aqui, a quest˜ao ´e se o usu´ario tem o dever de monitorar continuamente o comportamento do carro, estar pronto para assumir a qualquer momento, ou se o usu´ario ´e obrigado apenas a responder aos alertas de seguran¸ca gerados pelo ve´ıculo. Em ambos os casos, san¸c˜oes criminais podem surgir se uma pessoa falhar em ignorar quando for obrigada, ou agir de forma inadequada. Por outro lado, a lei tamb´em precisar´a antecipar as viola¸c˜oes em movimento, onde o motorista substitui as tecnologias autˆonomas que funcionam corretamente, de modo que possam conduzir o ve´ıculo como um ve´ıculo motorizado padr˜ao (DOUMA; PALODICHUK, 2012).

Lohmann (2016) aponta que os Event Data Recorders ou EDRs certamente desem-penhar˜ao um papel crucial no fornecimento de provas em um julgamento e na comprova¸c˜ao da ocorrˆencia do acidente e de sua causa. Ao mesmo tempo, a instala¸c˜ao de EDRs ´e al-tamente cr´ıtica `a luz de legisla¸c˜oes de privacidade de dados, bem como do direito penal e seu princ´ıpio de que n˜ao h´a obriga¸c˜ao legal de auto-incriminar-se. Em geral, os proble-mas de privacidade e prote¸c˜ao de dados ter˜ao um papel importante no desenvolvimento e na personaliza¸c˜ao de carros autˆonomos, j´a que ve´ıculos totalmente automatizados de-pendem da coleta de dados diretamente relacioandos a vida privada do usu´ario. Esses aspectos devem ser considerados em um est´agio inicial no desenvolvimento da legisla¸c˜ao (LOHMANN, 2016).

Gless, Silverman e Weigend (2016) defendem que tanto na Alemanha como nos Es-tados Unidos, os propriet´arios de carros autˆonomos podem ser condenados por negligˆencia ou homic´ıdio se um carro causar ferimentos ou morte decorrentes de um mau funciona-mento previs´ıvel. Nesse caso, a responsabilidade criminal pode ser imposta aos usu´arios de acordo com as regras gerais, mesmo que a sua negligˆencia consista apenas na incapaci-dade de reagir adequadamente aos relatos de incidentes perigosos. Mas prever e controlar a conduta de robˆos autˆonomos pode se tornar t˜ao dif´ıcil para os operadores humanos que pode ser necess´ario aumentar os requisitos para responsabilidade por negligˆencia criminal.

(35)

3.3

Como carros autˆ

onomos vˆ

em sendo

recepciona-dos juridicamente em alguns pa´ıses

Um olhar geral sobre os desenvolvimentos legais em diferentes jurisdi¸c˜oes revela que as jurisdi¸c˜oes soberanas tˆem escolhido seu pr´oprio caminho para um futuro de carros autˆonomos. Tanto a Uni˜ao Europeia como o governo federal dos EUA reconhecem isso como algo indesejado. A Model State Policy of the US Federal AutomatedVehicles Policy deve impedir o surgimento de tal colcha de retalhos de diferentes legisla¸c˜oes em diferentes jurisdi¸c˜oes (U.S. Department of Transportation, 2016). Sob a presidˆencia da Holanda (janeiro-junho de 2016), os estados membros da UE assinaram uma Declara¸c˜ao sobre mais coopera¸c˜ao no campo da condu¸c˜ao conectada e automatizada. Com esta Declara¸c˜ao, os Estados-Membros reconhecem a importˆancia de uma abordagem coordenada para facilitar a utiliza¸c˜ao transfronteiri¸ca de ve´ıculos conectados e automatizados (VELLINGA, 2017).

3.3.1

Para o teste de ve´ıculos autˆ

onomos

Como debatido em se¸c˜oes anteriores, uma das preocupa¸c˜oes dos reguladores no mundo todo ´e que a regula¸c˜ao n˜ao gere desincentivos `a inova¸c˜ao. Nesse sentido, v´arios pa´ıses tˆem se preocupado em estabelecer parˆametros legais e regulat´orios espec´ıficos para o per´ıodo de avalia¸c˜ao e testes da tecnologia de ve´ıculos autˆonomos.

Nos Estados Unidos a Cˆamara dos Representantes aprovou o Safely Ensuring Lives Future Deployment and Research in Vehicle Evolution Act ou a Lei ’SELF DRIVE’ em setembro de 2017. A Lei visa garantir a seguran¸ca de ve´ıculos altamente automatizados em testes de implanta¸c˜ao. A lei tamb´em exige que os fabricantes estabele¸cam planos de seguran¸ca cibern´etica, bem como um plano de privacidade, que deve descrever como as informa¸c˜oes dos propriet´arios de ve´ıculos ou de seus ocupantes s˜ao coletadas, usadas, com-partilhadas e armazenadas. Al´em disso, a Lei SELF DRIVE permite que os fabricantes obtenham isen¸c˜oes de seguran¸ca para usar at´e 25.000 ve´ıculos autˆonomos sem cumprir os padr˜oes de seguran¸ca existentes (os Padr˜oes Federais de Seguran¸ca de Ve´ıculos Automo-tores) no primeiro ano. Este limite pode subir at´e 100.000 ve´ıculos por ano durante trˆes anos. No entanto, esta isen¸c˜ao s´o pode ser obtida se os fabricantes puderem demonstrar que os seus ve´ıculos fornecem um n´ıvel de seguran¸ca global, que ´e pelo menos igual ao n´ıvel de seguran¸ca global dos ve´ıculos n˜ao isentos (BRUYNE; WERBROUCK, 2018).

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35 Um dos Estados dos EUA na vanguarda dos desenvolvimentos legais ´e a Calif´ornia. Desde 2012, a Calif´ornia tem legisla¸c˜ao para acomodar o teste de carros autˆonomos. A Divis˜ao 16.6, Se¸c˜ao 38750 do California Vehicle Code ´e dedicada a ve´ıculos autˆonomos. Esta se¸c˜ao inclui defini¸c˜oes, requisitos sobre seguro, o operador, como agir em caso de falha, etc. Como segue o C´odigo de Regulamentos da Calif´ornia, a chamada Licen¸ca de Teste do Fabricante ´e necess´aria para testar ve´ıculos autˆonomos em vias p´ublicas. Uma Permiss˜ao de Teste s´o ser´a emitida quando todos os requisitos estabelecidos no C´odigo de Regulamentos da Calif´ornia e no C´odigo do Ve´ıculo da Calif´ornia forem cumpridos e todos os testes forem conclu´ıdos para satisfazer o Departamento de Ve´ıculos Motoriza-dos, os ve´ıculos s˜ao seguros para operar em vias p´ublicas. O formul´ario que precisa ser apresentado ao Departamento de Ve´ıculos Automotores envolve os detalhes do testador do ve´ıculo, os ve´ıculos a serem testados e o motorista / operador. No entanto, as estradas nas quais o ve´ıculo ser´a testado e as condi¸c˜oes meteorol´ogicas sob as quais o ve´ıculo ser´a testado n˜ao s˜ao solicitadas no formul´ario (VELLINGA, 2017).

O estado vizinho, Nevada, limita o teste de carros autˆonomos a vias de trˆansito espec´ıficas. Al´em disso, para obter uma licen¸ca de teste em Nevada, um requerente deve fornecer prova de que tal ve´ıculo autˆonomo ou ve´ıculos do solicitante foram conduzidos em v´arias condi¸c˜oes por um n´umero de milhas que demonstra a seguran¸ca do ve´ıculo ou ve´ıculos nessas condi¸c˜oes. Tais condi¸c˜oes incluem operar o ve´ıculo autˆonomo em v´arias condi¸c˜oes clim´aticas, em v´arios tipos de estradas e durante v´arias horas do dia e da noite (VELLINGA, 2017).

O Departamento de Transportes dos EUA e a NHTSA (National Highway Traf-fic Safety Administration) formularam uma Pol´ıtica Federal de Ve´ıculos Autom´aticos. Esta Pol´ıtica est´a dividida em quatro se¸c˜oes. A primeira se¸c˜ao consiste na Orienta¸c˜ao de Desempenho do Ve´ıculo para Ve´ıculos Automatizados, que se destina `a fase de pr´e-implanta¸c˜ao de projeto, desenvolvimento e teste de ve´ıculos automatizados. Embora a orienta¸c˜ao da NHTSA n˜ao seja obrigat´oria, ela deve ser considerada por todos os en-volvidos na fabrica¸c˜ao, no planejamento de testes e possivelmente na venda de ve´ıculos autˆonomos. O NHTSA Guidance estabelece expectativas para os fabricantes que desen-volvem e implantam tecnologia automatizada de ve´ıculos (VELLINGA, 2017).

No n´ıvel da Uni˜ao Europ´eia, o GEAR 2030 High Level Group abordou v´arios as-pectos relacionados a ve´ıculos autˆonomos e conectados. Em seu Relat´orio Final, o grupo

(37)

concluiu que s˜ao necess´arios testes de larga escala para avan¸car nos aspectos tecnol´ogicos para os ve´ıculos esperados para al´em de 2020. Esses testes tamb´em s˜ao importantes para desenvolver regras relevantes, aumentar a aceita¸c˜ao p´ublica e aprimorar a coopera¸c˜ao en-tre os atores envolvidos. O High Level Group reconheceu que muitas atividades relativas a ve´ıculos autˆonomos j´a est˜ao a ocorrendo em diferentes Estados-Membros e dentro da Co-miss˜ao Europeia. V´arios Estados-Membros tˆem uma estrat´egia nacional para a condu¸c˜ao automatizada ou permitem testes em grande escala com ve´ıculos autˆonomos (BRUYNE; WERBROUCK, 2018).

O Departamento de Transporte do Reino Unido emitiu um C´odigo de Pr´aticas para fornecer orienta¸c˜ao para qualquer pessoa que queira realizar testes de ve´ıculos au-tomatizados em vias p´ublicas. O C´odigo de Pr´aticas ´e n˜ao-estatut´ario 4 e, embora o

n˜ao cumprimento do C´odigo de Pr´aticas possa ser relevante para a responsabilidade, n˜ao garante a imunidade de responsabilidade em processos judiciais. O C´odigo de Pr´aticas tamb´em trata dos requisitos relativos ao piloto de teste - o C´odigo declara que um piloto de teste ou operador de teste devidamente licenciado e treinado deve supervisionar o ve´ı-culo o tempo todo e estar pronto para encerrar a opera¸c˜ao automatizada se necess´ario (VELLINGA, 2017).

Os holandeses escolhem outra rota. Em vez de elaborar novas leis extensivas ou formular regulamentos n˜ao vinculativos, a Autoridade de Ve´ıculos Holandeses (RDW) foi concedida a competˆencia para conceder isen¸c˜oes de certas leis se essas isen¸c˜oes forem ´uteis para o teste de fun¸c˜oes de ve´ıculos automatizados. Podem ser concedidas isen¸c˜oes relati-vas aos cap´ıtulos 3 e 5 do Regeling voertuigen e, se necess´ario, ao Reglement Verkeersregels en verkeerstekens 1990 (RVV 1990). Os cap´ıtulos 3 e 5 do Regeling voertuigen contˆem regras relativas `a homologa¸c˜ao e a determinados requisitos t´ecnicos, enquanto o RVV 1990 define as regras de trˆansito (por exemplo, limites de velocidade, ultrapassagem, etc.). O RDW decidir´a onde e sob quais circunstˆancias o teste pode ser realizado. Primeiro, o RDW analisar´a o aplicativo, o plano de teste e os resultados do teste que est˜ao dispo-n´ıveis naquele momento. Se esta an´alise for satisfat´oria, todas as funcionalidades que o candidato deseja testar em vias p´ublicas ser˜ao testadas em uma pista de teste fechada. A isen¸c˜ao s´o ser´a concedida se esses testes forem aprovados tamb´em. As condi¸c˜oes da isen-¸c˜ao ser˜ao decididas pelo RDW. As condi¸c˜oes poss´ıveis s˜ao o tipo de estrada e as condi¸c˜oes

4No common law, s˜ao normas que s˜ao formadas por resolu¸c˜ao ou a¸c˜ao executiva, ou seja, n˜ao derivam de atos do parlamento

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37 meteorol´ogicas nas quais o teste ´e permitido, mas uma condi¸c˜ao da isen¸c˜ao tamb´em pode ser um seguro adicional (VELLINGA, 2017).

Na B´elgica o governo decidiu recentemente investir 3 milh˜oes de euros num projeto de teste para carros autˆonomos. At´e 2019, esses ve´ıculos dever˜ao circular nas estradas p´ublicas da B´elgica. Para esse fim, a infraestrutura rodovi´aria ser´a adaptada em breve em certas partes da rodovia (BRUYNE; WERBROUCK, 2018).

3.3.2

Per´ıodo p´

os-experimenta¸

ao e uso comercial

Os Termos do Expresso Autˆonomo de Ve´ıculos da Calif´ornia contˆem uma cl´ausula, declarando que o fabricante dever´a ter em vigor e comprovar sua capacidade de responder a uma senten¸ca ou julgamento por danos pessoais, morte ou danos materiais resultantes de colis˜oes ou acidentes causados pelos ve´ıculos autˆonomos produzidos pelo fabricante na forma de um instrumento de seguro, uma cau¸c˜ao ou uma prova de auto-seguro (VEL-LINGA, 2017).

Nos Pa´ıses Baixos a ciˆencia de responsabiliza¸c˜ao jur´ıdica e a contrata¸c˜ao de seguros s˜ao necess´arias para operar com ve´ıculos autˆonomos. ´E poss´ıvel, por´em, que isen¸c˜oes sejam concedidas para testes se vinculadas a certas condi¸c˜oes. Por exemplo, um seguro adicional pode ser uma condi¸c˜ao da isen¸c˜ao. A opini˜ao geral expressa na literatura jur´ıdica holandesa ´e que o atual regime de responsabilidade ´e suficiente, pois uma v´ıtima de um acidente ser´a capaz de obter uma indemniza¸c˜ao. No entanto, algumas observa¸c˜oes s˜ao feitas. Por exemplo, uma preocupa¸c˜ao foi expressa de que pode ser que, embora o fabricante possa recorrer a justificativa de que usa o estado da arte em projeto de ve´ıculos para evitar a condena¸c˜ao, o possuidor do carro autˆonomo n˜ao pode invocar essa defesa. O propriet´ario seria, ent˜ao, estritamente respons´avel pelos riscos de desenvolvimento, mesmo que o propriet´ario n˜ao esteja envolvido no desenvolvimento (VELLINGA, 2017).

O Departamento de Transportes do Reino Unido e o Centro de Ve´ıculos Conec-tados e Autˆonomos deram o pr´oximo passo em dire¸c˜ao a carros autˆonomos, emitindo propostas para atualizar a estrutura legal e consultar o p´ublico. Estas propostas est˜ao divididas em trˆes categorias, uma das quais ´e seguro. Depois de consultar o p´ublico, a resposta do governo foi publicada. O projeto de lei, no entanto, cont´em a extens˜ao dos requisitos de seguro obrigat´orio para ve´ıculos automatizados. Prop˜oe-se um modelo ´unico de seguradora, em que uma seguradora cobre o uso do motorista do carro autˆonomo e a

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tecnologia de autocontrole. Uma v´ıtima inocente, independentemente de estar dentro ou fora do ve´ıculo, pode reivindicar dessa seguradora se, no momento da colis˜ao, a tecnolo-gia autˆonoma estiver ativa. A seguradora pode recuperar os custos do fabricante, se o fabricante for considerado respons´avel. O objetivo do projeto ´e garantir que as v´ıtimas de uma colis˜ao n˜ao fiquem em pior posi¸c˜ao se forem feridas por um ve´ıculo automatizado do que se forem feridas por um ve´ıculo convencional (VELLINGA, 2017).

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