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Responsabilidade Civil no direito Brasileiro

No documento Rennan Danilo Seimetz Chagas (páginas 42-47)

Em esf´era c´ıvel, surgem diversas indaga¸c˜oes a respeito de como se dar´a a incorpo- ra¸c˜ao de ve´ıculos autˆonomos no Brasil do ponto de vista da responsabilidade. Para fins de defini¸c˜ao, lidaremos com a no¸c˜ao de Farias, Rosenvald e Neto (2017) que definem a responsabilidade civil como a repara¸c˜ao de danos injustos resultantes da viola¸c˜ao de um

dever geral de cuidado.

No campo da responsabilidade civil existem duas doutrinas concorrentes bastante aceitas no Brasil que ser˜ao postas em debate nos eventuais processos que envolvam danos relacionados a ve´ıculos autˆonomos e tecnologias dotadas de inteligˆencia artificial, s˜ao elas a teoria objetiva e a teoria subjetiva Nas palavras de Caio M´ario da Silva Pereira (2018), ”se n˜ao padece d´uvida a indaga¸c˜ao se o ofensor ´e respons´avel, travam-se de raz˜ao os autores quando enfrentam esta outra quest˜ao: por que ´e respons´avel o causador do dano? Os escritores, de maneira geral, e os escritores brasileiros, em particular, agrupam-se em campos inimigos ao desenvolverem a fundamenta¸c˜ao do princ´ıpio, distribuindo-se nas duas teorias que se combatem: de um lado, a doutrina subjetiva ou teoria da culpa, e, de outro lado, a doutrina objetiva, que faz abstra¸c˜ao da culpa (responsabilidade sem culpa) e se concentra mais precisamente na teoria do risco.”

A responsabilidade civil, tradicionalmente, baseia-se na ideia de culpa. O art. 186 do C´odigo Civil define o que entende por comportamento culposo: “a¸c˜ao ou omiss˜ao vo- lunt´aria, negligˆencia ou imprudˆencia”. Em consequˆencia, fica o agente obrigado a reparar o dano (art. 927). Nos ´ultimos tempos vem ganhando terreno a chamada teoria do risco, que, sem substituir a teoria da culpa, cobre muitas hip´oteses em que esta se revela in- suficiente para a prote¸c˜ao da v´ıtima. A responsabilidade seria encarada sob o aspecto objetivo: o agente indeniza n˜ao porque tenha culpa, mas porque ´e o propriet´ario do bem ou o respons´avel pela atividade que provocou o dano (GON ¸CALVES, 2017).

Ainda dentro do C´odigo Civil, temos um tipo de responsabiliza¸c˜ao que diz respeito as empresas que colocam seus produtos em circula¸c˜ao. Disp˜oe o art. 931 do C´odigo Civil: “Ressalvados outros casos previstos em lei especial, os empres´arios individuais e as empre- sas respondem independentemente de culpa pelos danos causados pelos produtos postos em circula¸c˜ao”. Nesses termos, a responsabilidade objetiva pelo produto transcende a pr´opria rela¸c˜ao de consumo, que passa a ser irrelevante, porque est´a presente em lei de aplica¸c˜ao geral, como ´e o C´odigo Civil. Essa responsabilidade existir´a independentemente da existˆencia de rela¸c˜ao de consumo. Desse modo, esse dispositivo deve ser visto e inter- pretado conforme os princ´ıpios estabelecidos no CDC no tocante `a responsabilidade pelo fato e pelo v´ıcio do produto (VENOSA, 2016).

Mas como bem aponta Carlos Roberto Gol¸calves, o dispositivo em quest˜ao no art. 931 do C´odigo Civil ter´a sua aplica¸c˜ao restrita aos pouqu´ıssimos casos em que a atividade

43 empresarial n˜ao configurar rela¸c˜ao de consumo. A legisla¸c˜ao especial ressalvada, que trata da responsabilidade pelo fato e pelo v´ıcio do produto, ´e o C´odigo de Defesa do Consu- midor. N˜ao havendo nenhuma incompatibilidade entre o referido diploma e o disposto no transcrito art. 931 do C´odigo Civil, permanecem v´alidas e aplic´aveis `as hip´oteses de responsabilidade pelo fato ou pelo v´ıcio do produto as disposi¸c˜oes da legisla¸c˜ao especial consumerista (GON ¸CALVES, 2017).

4.2.1

Responsabilidade subjetiva

A teoria subjetiva da responsabilidade civil consiste na repara¸c˜ao de danos injustos resultantes da viola¸c˜ao de um dever de cuidado. O crit´erio de imputa¸c˜ao da obriga¸c˜ao de indenizar reside na ocorrˆencia de um il´ıcito derivado de erro da conduta do agente. Os seus pressupostos foram precisamente delimitados: ato il´ıcito; culpa ou abuso do direito; dano injusto; nexo causal e de imputa¸c˜ao (FARIAS; ROSENVALD; NETO, 2017).

Do ponto de vista da responsabilidade subjetiva o fator determinante para verifica- la no envolvimento de um carro autˆonomo em uma situa¸c˜ao de dano ´e houve negligˆencia, imprudˆencia ou imper´ıcia por parte de algum dos agentes humanos. Neste caso, h´a de se falar em responsabilidade se o usu´ario do ve´ıculo tivesse negligˆenciado sua manuten¸c˜ao, ou ignorado alertas do ve´ıculo para situa¸c˜oes de emergˆencia, ou se, no caso de um carro semiautˆonomo, deixar de assumir o controle de ve´ıculo.

Na responsabilidade subjetiva, regra geral em nosso ordenamento, o dever de re- para¸c˜ao pressup˜oe o dolo ou a culpa do agente. De acordo com esta orienta¸c˜ao, se o dano foi provocado exclusivamente por quem sofreu as consequˆencias, incab´ıvel o dever de re- para¸c˜ao por parte de outrem. Igualmente se decorreu de caso fortuito ou for¸ca maior. Se ocorre o desabamento de um pr´edio, provocando danos morais e materiais aos seus moradores, devido ao erro de c´alculo na funda¸c˜ao, a responsabilidade civil ficar´a paten- teada, pois o profissional agiu com imper´ıcia. Se o fato jur´ıdico originou-se de um abalo s´ısmico, n˜ao haver´a a obriga¸c˜ao de ressarcimento pelo respons´avel pela obra. Cabe `a v´ı- tima a comprova¸c˜ao de todos os requisitos que integram os atos il´ıcitos, inclusive os danos sofridos (NADER, 2016).

Com a quantidade de dados que esses ve´ıculos coletam (necess´arios para o seu pr´oprio funcionamento) bem como as cˆameras embarcadas que proporcionam vis˜ao em 360 graus, seria razoavelmente simples demonstrar se o dono do ve´ıculo incorreu em il´ıcito

c´ıvel nos termos do art. 186 e sujeito as responsabiliza¸c˜ao do art. 927 do C´odigo Civil.

4.2.2

Responsabilidade objetiva

A lei imp˜oe, a certas pessoas, em determinadas situa¸c˜oes, a repara¸c˜ao de um dano cometido independentemente de culpa. Quando isso acontece, diz-se que a responsabili- dade ´e legal ou objetiva, porque prescinde da culpa e se satisfaz apenas com o dano e o nexo de causalidade. Essa teoria, dita objetiva ou do risco, tem como postulado que todo dano ´e indeniz´avel e deve ser reparado por quem a ele se liga por um nexo de causalidade, independentemente de culpa. Nos casos de responsabilidade objetiva, n˜ao se exige prova de culpa do agente para que seja obrigado a reparar o dano (GON ¸CALVES, 2017).

A teoria do risco, no ˆambito doutrin´ario, apresenta matizes diversos. A concep¸c˜ao mais radical ´e do risco integral, que dispensa n˜ao s´o o elemento culpa, mas tamb´em a prova do nexo de causalidade entre a conduta do agente e o preju´ızo material ou moral de outrem, tratando-se de situa¸c˜oes excepcionais em que as v´ıtimas tˆem grande dificuldade em comprov´a-lo, devido `a natureza das atividades desenvolvidas pelo agente e dos danos (NADER, 2016).

A teoria do risco favorece o equil´ıbrio social, a equidade nas rela¸c˜oes. N˜ao visa a excluir a culpa como crit´erio b´asico da responsabilidade civil; cumpre uma fun¸c˜ao de justi¸ca para a qual a teoria subjetiva se mostra impotente. Na ordem jur´ıdica, a teoria subjetiva e a objetiva se completam, favorecendo a distribui¸c˜ao da justi¸ca nas rela¸c˜oes sociais (NADER, 2016)

Podem ser lembrados como de responsabilidade objetiva, em nosso diploma civil, os arts. 936, 937 e 938, que tratam, respectivamente, da responsabilidade do dono do animal, do dono do pr´edio em ru´ına e do habitante da casa da qual ca´ırem coisas. E ainda: os arts. 929 e 930, que preveem a responsabilidade por ato l´ıcito (estado de necessidade); os arts. 939 e 940, sobre a responsabilidade do credor que demanda o devedor antes de vencida a d´ıvida ou por d´ıvidas j´a pagas; o art. 933, pelo qual os pais, tutores, curadores, empregadores e outros respondem, independentemente de culpa, pelos atos danosos de terceiros; o par´agrafo ´unico do art. 927, que trata da obriga¸c˜ao de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem (GON ¸CALVES, 2017). A legisla¸c˜ao do consumidor ´e outro

45 grande exemplo de aplica¸c˜ao da responsabilidade objetiva no ordenamento, mas isso ser´a aprofundado neste trabalho em sess˜ao pr´opria.

A doutrina objetiva tem o m´erito de deslocar o centro da responsabilidade da cul- pabilidade para a causalidade. Na obriga¸c˜ao objetiva indenizar elide-se a prova quanto `a atribui¸c˜ao a uma pessoa de um comportamento antijur´ıdico e reprov´avel. Todavia, ao agente somente ser˜ao trasladados os danos sofridos pela v´ıtima se o seu comporta- mento (l´ıcito ou il´ıcito) for a causa adequada dos danos injustos. O autor do fato n˜ao ser´a responsabilizado por ter agido com ou culpa, mas pelo simples fato de ter agido e necessariamente provocado a les˜ao (FARIAS; ROSENVALD; NETO, 2017).

A responsabilidade objetiva, assim, parece solu¸c˜ao razo´avel para os casos em que o ve´ıculo causar dano em decorrˆencia de decis˜ao tomada por seu pr´oprio algoritmo. Pode causar estranheza para muito o fato das a¸c˜oes n˜ao serem praticadas por pessoa humana diretamente, uma vez que quem toma as decis˜oes de dire¸c˜ao do ve´ıculo ´e software embar- cado sobre o qual o indiv´ıduo n˜ao tem ingerˆencia. Interpreta¸c˜ao anal´ogica para chegar a responsabilidade objetiva neste caso pode ser retirada do art. 936 do C´odigo Civil que da responsabilidade do dono do animal. A analogia pode parecer esdr´uxula a primeira vista, mas possui raz˜ao de ser considerada. Diz o texto da lei in verbis que ”o dono, ou detentor, do animal ressarcir´a o dano por este causado, se n˜ao provar culpa da v´ıtima ou for¸ca maior”.

A responsabilidade do dono do animal est´a inserida na teoria do guarda da coisa inanimada: ´e presumida, mas a presun¸c˜ao ´e venc´ıvel. Basta que a v´ıtima prove o dano sofrido e a rela¸c˜ao de causalidade com o fato do animal. Ao respons´avel incumbe afastar tal presun¸c˜ao, provando uma das excludentes mencionadas no referido art. 936: culpa da v´ıtima ou for¸ca maior (GON ¸CALVES, 2017). N˜ao temos, no C´odigo Civil, um dispositivo que contemple, de modo gen´erico, a teoria da guarda da coisa. Temos, no entanto, como veremos, a previs˜ao legal de situa¸c˜oes espec´ıficas (animal, coisas ca´ıdas ou lan¸cadas de pr´edios). Mesmo sem uma cl´ausula geral sobre a mat´eria, a teoria da guarda da coisa ´e invocada com frequˆencia pela jurisprudˆencia e se incorporou ao sistema jur´ıdico brasileiro (FARIAS; ROSENVALD; NETO, 2017).

Aplicando a teoria da guarda da coisa, a responsabilidade pelo dano causado a terceiro recai sobre o propriet´ario do ve´ıculo. Caberia ao dono em sua defesa comprovar que o dano decorreu de culpa exclusiva da v´ıtima, ou for¸ca maior. Importante frisar aqui

que a decis˜ao tomada pelo ve´ıculo que produziu o dano n˜ao pode ser irracional, como se um animal fosse. Todavia, existem situa¸c˜oes que mesmo tomando a decis˜ao ´otima os demais fatores imprevis´ıveis da situa¸c˜ao levem o ve´ıculo a causar um dano. Isso ´e importante para diferenciar um erro de julgamento que fa¸ca parte de um risco inerente do produto de um defeito do mesmo, algo que recairia numa situa¸c˜ao protegida pelo direito do consumidor como veremos a seguir.

No documento Rennan Danilo Seimetz Chagas (páginas 42-47)

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