ACIDENTES DE TRÂNSITO DECORRENTES DA INFLUÊNCA DO USO DO ÁLCOOL
Glaucea Maciel de Farias1 Karolina de Moura Manso da Rocha2
Mirna Cristina da Silva Freitas3 Isabel Karolyne Fernandes Costa4
Rodrigo Assis Neves Dantas5 RESUMO
Trata-se de uma revisão bibliográfica realizada na Biblioteca Virtual em Saúde, com o objetivo de identificar e analisar os artigos científicos sobre a influência do álcool, nos acidentes de trânsito no período de 1997 a 2009. Para tanto, enfocamos bases de dados, delineamento, tipo de estudo, países de origem, idiomas, ano de publicação e caracterização das vítimas. Foram encontrados 82 artigos e selecionados 19. Desse total, 73,6% utilizaram o delineamento quantitativo; 83,0% de origem brasileira; 100% dos artigos caracterizaram as vítimas em relação à idade; e 85,0% ao sexo. Concluímos que é fundamental ações preventivas que visem adoção de comportamentos adequados pela população junto ao trânsito, bem como de políticas de fiscalização quanto cumprimento das normas que regulamentam o trânsito.
Palavras-Chaves: alcoolismo; acidentes de trânsito; enfermagem. TRAFFIC ACCIDENTS RESULTING FROM ALCOHOL USE ABSTRACT:
Bibliography revision performed in Biblioteca Virtual em Saúde, aiming to identify and analyze the scientific articles on the influence of alcohol on traffic accidents in the 1997-2009 period. To that end we focused on databases, outlining, study type, countries of origin, languages, publication year and victim characterization. 82 articles were found and 19 selected. From this total, 73.6% used quantitative outlining; 83% of Brazilian origin; 100% of the articles characterized victims relative to age, and 85% to gender. We conclude that it’s essential to take preventive measures that assure the population will practice an appropriate behavior in traffic, as well as policies for ensuring traffic laws are upheld.
Key-words: Alcoholism; Accidents, Traffic; Nursing.
1. Glaucea Maciel de Farias - Enfermeira. Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP). Professor Associado dos Cursos de Graduação e Pós-Graduação em Enfermagem do Departamento de Enfermagem da UFRN. Rua Jerônimo de Albuquerque, 3621, Candelária, CEP: 59064-650, Natal/RN – Brasil. Telefone: (84) 3215-3840 / 9983-6159. Endereço eletrônico: [email protected].
2. Karolina de Moura Manso da Rocha - Enfermeiranda, Bolsista de Iniciação Científica pelo CNPq da UFRN. Rua Praia Jardim de Alá, 8832, Ponta Negra, CEP: 59094250. Natal/RN - Brasil. Endereço eletrônico: [email protected] Fone: 84 – 3236.4657.
3. Mirna Cristina da Silva Freitas - Enfermeiranda, Bolsistas de iniciação científica pela PROPESQ da UFRN. Endereço eletrônico: [email protected].
4
. Isabel Karolyne Fernandes Costa - Aluna Especial do Mestrado da UFRN. Endereço eletrônico: [email protected].
5. Rodrigo Assis Neves Dantas - Enfermeiro. Mestrando e Professor Substituto da disciplina de Semiologia e Semiotécnica da UFRN. Endereço eletrônico: [email protected]
INTRODUÇÃO
Os Acidentes de trânsito (AT’s) são eventos que envolvem os veículos destinados ao transporte de pessoas nas vias públicas. Estes eventos estão incluídos no XX Capítulo da Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, (CID) da 10ª revisão, entre V01 a V 89, que adota um código alfa-numérico composto por uma letra e até quatro caracteres numéricos na identificação dos diversos quadros dos quais é formada (BRASIL, 2003).
O Ministério da Saúde (MS) publicou, em junho de 2009, que os acidentes de transporte terrestre matam anualmente mais de um milhão de pessoas em todo o mundo, resultando um grande número de feridos e sequelados (BRASIL, 2009).
A partir da implantação da Lei Seca de 20 de junho de 2008, dados do MS, em 2009, ressaltam que houve uma diminuição considerável dos AT’s no Brasil (BRASIL, 2009). Ao mesmo tempo, as hospitalizações decorrentes dos AT’s foram em menor número de 24.545, representando uma queda de 23%, comparando ao ano de 2007. Em relação aos óbitos, constatou-se que no segundo semestre de 2008 foram registradas 2.723 óbitos relacionados aos acidentes de trânsito, contrapondo aos 3.519 registrados no segundo semestre de 2007, com uma redução de 22,5% (ABRAMET, 2009a).
Nessa perspectiva, os AT’s podem gerar perdas de vidas humanas, incapacidades físicas devido as lesões cerebrais e na medula espinhal. Além desses fatores, o custo anual do evento nas rodovias brasileiras alcançou em torno de 22 bilhões de reais, o que equivale a 1,2% do PIB brasileiro. A maior parte refere-se à perda de produção associada à morte das pessoas ou interrupção de suas atividades, seguido dos custos de cuidados em saúde além daqueles associados aos veículos (BRASIL, 2006).
Em junho deste ano corrente (2009), foi criado o Plano Emergencial de Combate ao uso nocivo de Álcool e Drogas (PEAD), que contará com um investimento de R$ 117,3 milhões em ações de prevenção e tratamento de pacientes. Como também em dezembro de 2008, houve repasse 04 milhões de reais para 16 cidades que implantaram o “Projeto de Redução da Morbimortalidade por Acidentes de Trânsito” criado em 2002 (ABRAMET, 2009a).
O crescimento expressivo do número de veículos circulantes e a alta frequência de comportamentos inadequados, aliados a uma vigilância insuficiente, tornaram os acidentes de trânsito, envolvendo veículos a motor, uma causa importante de traumatismos na população
mundial, que passaram, assim, a se constituírem entre os fatores que mais contribuem para os AT’s (BASTOS; ANDRADE; SOARES, 2005).
Outro fator preocupante que contribui para que esses eventos ocorram é a privação do sono, tempo de trabalho, duração da viagem, escuridão, visão diminuída e consumo de álcool que potencializam o estado de sonolência, levando o motorista dormir ao volante, induzindo, assim, a ocorrência dos AT’s (ABRAMET, 2009b).
Ainda sobre essas ocorrências, cerca de 30% do total são provocadas pela sonolência onde as pessoas mais vulneráveis são as que desenvolvem o ronco e apnéia do sono, elevando sete vezes mais o número desses eventos (ABRAMET, 2009b). Modelli, Pratesi, Tauil (2008) acrescentam que a imprudência associada ao uso de álcool possuem a mesma probabilidade, em números percentuais, do sono de produzirem AT’s com vítimas fatais, quando comparadas à pessoa sóbria.
Duailibi; Pinsky; Laranjeira (2007) ressaltam que esses eventos acontecem pelo fato do álcool gerar uma sensação de confiança nos condutores de veículos a motor, porém produz perda nas suas habilidades de tempo de reação e coordenação.
Sendo assim, estudos mostram que quando os níveis de álcool sanguíneo atingem uma média de 0,6 g/L já provocam alterações neuroquímicas e funcionais cerebrais, modificando o comportamento, favorecendo o sentimento de violência (ABREU; LIMA; SILVA, 2007).
Estudos realizados no Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e Austrália mostram que 64% dos acidentes com vítimas fatais, os motoristas tinham concentração de mais de 1 grama de álcool por litro de sangue. Quando os níveis de álcool atingiram o valor entre 0,9 a 1,5 g/L de sangue o risco de provocar AT’s subiu para 35 vezes a mais do que um motorista sóbrio (PEDROUZO, 2004).
No que se refere aos AT’s isoladamente, Barros et al. (2003) afirmam que os indicadores de mortalidade e morbidade permanecem estáveis durante os últimos anos, resistindo às mudanças impostas pelas leis governamentais que visam melhorar a segurança dos veículos, fiscalização eletrônica e população.
Reconhecendo os danos físicos, emocionais e materiais provocados pelos AT’s como consequências desse evento, foi feita uma alteração no Código de Trânsito Brasileiro no âmbito que se refere aos níveis de álcool no sangue e as penalidades ao desrespeitar a lei (PINSKY; PAVARINO FILHO, 2007).
O artigo 165 da Lei 9.503/97 do Código Brasileiro de Trânsito considera como infração gravíssima dirigir alcoolizado, com níveis de álcool superiores a 0,06 g/dl de sangue (DUAILIBI; PINSKY; LARANJEIRA, 2007).
Substituindo a lei citada anteriormente, foi publicada em 20 de julho de 2008, sob o Nº. 11.705/08, a lei denominada Lei do Álcool Zero, com o objetivo de estabelecer o nível de álcool sanguíneo a 0 (zero) e de impor penalidades mais coercitivas para o condutor que dirigir sob a influência do álcool (ABRAMET, 2008).
Segundo o artigo 165 da Lei do Álcool Zero, dirigir sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa, que cause dependência, leva a uma infração gravíssima sancionando pena de multa no valor de 957,70 reais e suspensão do direito de dirigir por doze meses; retenção do veículo até a apresentação de um condutor habilitado, recolhimento do documento de habilitação e detenção de 06 a 36 meses. Ou seja, qualquer concentração de álcool por litro de sangue o condutor estará sujeito às penalidades já mencionadas (ABRAMET, 2008).
Preocupadas com o aumento do uso de substâncias psicoativas, em especial o álcool, pelos motoristas de veículos automotores antes de dirigir e o número de AT’s questionamos: como se encontra as produções científicas na área de urgência no que se refere à influência do uso do álcool e os acidentes de trânsito? Quais as bases de dados que estão publicando essas pesquisas? Quais os delineamentos e tipos de estudo utilizados nessas pesquisas? Quais os Países que estão publicando pesquisas científicas sobre essa temática? Quais os idiomas mais publicados nessas pesquisas? Qual o ano que houve maior publicação dessas pesquisas? Quem são as vítimas?
Para responder a esses questionamentos, elaboramos os seguintes objetivos: identificar nas bases de dados as produções científicas entre os anos 1997 a 2009 que abordem a influência do álcool nos acidentes de trânsito; identificar quais as bases de dados que publicam essas pesquisas, os delineamentos e tipos de estudos utilizados nas pesquisas, os países que estão publicando sobre esse tema, os idiomas que essas pesquisas são publicadas, o ano com maior número de publicação e quem são as vítimas desses eventos.
MATERIAL E MÉTODO
Trata-se de uma pesquisa bibliográfica que, segundo Cervo; Bervian (2007), procura explicar um problema a partir de referenciais teóricos publicados em documentos, podendo ser realizada independentemente ou como parte da pesquisa descritiva ou experimental.
A busca do material bibliográfico ocorreu entre os meses de dezembro de 2008 e Março de 2009. Para tanto, utilizamos o Portal da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) como a Base de Dados de Enfermagem (BDENF), Literatura Internacional em Ciências da Saúde (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Domínio Público, Saúde na Adolescência (ADOLEC); Domínio Público e Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (ABRAMET) com os seguintes descritores: acidente, acidentes de trânsito, consumo de bebidas alcoólicas, abuso de álcool, segundo a classificação dos descritores em ciências da saúde (DECS).
Os critérios de inclusão dos artigos foram: textos completos, em inglês, português e espanhol, publicados de 1997 a março de 2009. O ano de 1997 foi tomado como referência como ponto de coorte, devido à publicação do Novo Código de Trânsito Brasileiro Lei nº 9.503, de 23 de setembro do citado ano.
Para que a coleta de dados acontecesse, seguimos um roteiro pré-estabelecido, com questões condizentes com os nossos objetivos. Após a identificação do artigo, fizemos uma leitura cuidadosa e vimos a possibilidade de sua utilização.
Os dados foram coletados a partir de um formulário estruturado incluindo bases de dados, método de estudo, tipo de estudo, regiões que mais publicaram sobre a temática, idioma, ano de publicação, qualidade da vítima.
Após a coleta do material, fizemos uma categorização e agrupamos os dados de acordo com as variáveis do estudo. Os dados foram analisados através da estatística descritiva e apresentados em forma de figuras.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Iniciaremos apresentando os resultados a partir da Figura 01, referente às distribuições dos artigos de acordo com as bases de dados BDENF; MEDLINE; LILACS; SciELO; ADOLEC; Domínio Público; ABRAMET e fazendo em seguida a discussão.
BASE DE DADOS ]PESQUISADA* Nº DE ARTIGOS ENCONTRADOS Nº DE ARTIGOS EXCLUÍDOS (RESUMOS) Nº ARTIGOS SELECIONADOS MEDLINE 53 44 09 LILACS 22 17 05 BDENF 01 01 00 ADOLEC 48 48 00 DOMÍNIO PÚBLICO 04 00 04
ABRAMET 02 01 01
TOTAL 82 63 19
FIGURA 01 - Distribuição dos artigos publicados de 1997 a 2009 por base de dados. Natal/RN, 2009.
Como mostra a Figura 01, foram encontrados 82 artigos, dos quais apenas 19 se encaixaram nos critérios de inclusão, sendo desprezados 63 artigos. O MEDLINE foi a base de dados que mais contribuiu para o desenvolvimento dessa revisão de literatura, com 09 artigos, seguida pelo LILACS com 05 artigos selecionados; Domínio Público com 04 artigos e por último a ABRAMET com 01 artigo. Ressaltamos que o SciELO não apresentou nenhum artigo que se encaixasse nos nossos critérios de inclusão, sendo assim retirado da figura anterior.
Dados semelhantes foram identificados por Rosário e Landgraf (2006), no seu estudo sobre as produções científicas em pediatria do período de 1993 e 2004 no Brasil, identificaram que ocorreu importante indexação dessa temática no MEDLINE.
Uma justificativa para que o MEDLINE divulgue um número maior de artigos, é que esta congrega a publicação da literatura em nível internacional na área da saúde. Atualmente, este site contém artigos completos e resumos de 4.579 títulos de revistas biomédicas publicadas nos Estados Unidos da América (EUA) e em outros 70 países. O primeiro volume/número foi publicado no ano de 1879, tendo sua primeira interface em português publicada em 1966. A partir deste ano (1966) até 2003, foram publicadas aproximadamente 11 milhões de artigos neste site (PELLIZZON; POBLACIÓN; GOLDENBERG, 2003).
DELINEAMENTO DA PESQUISA N %
Quantitativo 14 73,6
Qualitativo 05 26,4
TOTAL 19 100,0
FIGURA 02 - Distribuição dos artigos publicados de 1997 a 2009, de acordo com o delineamento da pesquisa. Natal/RN, 2009.
*Fonte: BDENF; MEDLINE; LILACS; SciELO; ADOLEC; Domínio Público; e ABRAMET
De acordo com os dados representados na Figura 02, o delineamento da pesquisa mais utilizado foi o quantitativo, com o percentual de 73,6%. O método quantitativo possibilita a coleta sistemática de informações numéricas, através de condições de muito controle e de uma análise das informações a partir da estatística (POLIT; BECK; HUNGLER, 2004).
Dados semelhantes aos nossos foram encontrados por Kovacs et al. (2004) em sua pesquisa sobre a confiabilidade dos resultados das pesquisas científicas. Os autores
constataram que em 81,4% dos artigos o delineamento do estudo era o quantitativo, superando o qualitativo com 18,6% do total.
A abordagem quantitativa é uma forte tradição acadêmica que considera os números como representativos de opiniões e conceitos. Nos últimos anos, os debates relacionados ao método quantitativo se tornaram mais representativos, devido a sua validade e confiabilidade (KOVACS el al., 2004).
A análise de dados quantitativos propicia uma informação que não pode ser diretamente visualizada a partir de uma massa de dados, no entanto será possível, através da transformação desses dados, permitindo uma melhor observação do fenômeno estudado (GATTI, 2006).
Kovacs el al. (2004) afirmam que, para ocorrer uma evolução da pesquisa científica, é fundamental que os pesquisadores tenham consciência da importância dos métodos empregados nas suas investigações, pois a credibilidade e a repercussão dos seus estudos dependem fortemente da adequação e do rigor do método de pesquisa escolhido. A escolha do método deve ser feita através da relação de significância das contribuições metodológicas, adequação e aderência da base conceitual do estudo e da estratégia metodológica.
As abordagens metodológicas, juntamente com os problemas de pesquisa, determinam a forma mais adequada para conduzir a pesquisa. Para a escolha das abordagens é necessário experiência do pesquisador e rigor no desenvolvimento do estudo (SILVEIRA; ZAGO, 2006).
TIPO DE ESTUDO N %
Descritivo e exploratório 15 79,0
Revisão de literatura 02 10,5
Editorial 02 10,5
TOTAL 19 100,0
FIGURA 03 – Distribuição dos artigos publicados de 1997 a 2009, por tipo de estudo. Natal/RN, 2009.
*Fonte: BDENF; MEDLINE; LILACS; SciELO; ADOLEC; Domínio Público; e ABRAMET
A Figura 03 mostra que o tipo de estudo mais utilizado nas pesquisas científicas dos artigos analisados foi o descritivo exploratório com 79% do total dos artigos.
O estudo descritivo se caracteriza por apresentar os dados exatamente da forma em que se encontram. Tem por objetivo determinar a distribuição de doenças ou condições relacionadas à saúde, segundo o tempo, o lugar e as características dos indivíduos. Neste tipo de estudo, em geral, é descrita a ocorrência de doenças segundo variáveis individuais, geográficas e temporais (KOVACS el al., 2004).
A pesquisa exploratória tem a pretensão de encontrar elementos necessários que permitam, em contato com determinada população, obter os resultados desejados. O propósito deste tipo pesquisa é formular questões ou problemas com a finalidade de desenvolver hipóteses, aumentar a familiaridade do pesquisador com o ambiente, fato ou fenômeno, modificar ou clarificar os conceitos (MARCONI; LAKATOS, 2007; MUCK; SOUZA, 2001).
Kovacs el al. (2004) complementam essa informações citadas dizendo que este tipo de estudo visa fornecer ao pesquisador um maior conhecimento sobre o tema ou problema de pesquisa em perspectiva. Por isto, é apropriado fazer uma pesquisa exploratória nos primeiros estágios da investigação, quando a familiaridade, o conhecimento e a compreensão do fenômeno por parte do pesquisador são insuficientes ou inexistentes. Porém, é de suma importância que o pesquisador tenha os objetivos do estudo firmemente estruturados.
FIGURA 04 – Distribuição dos artigos publicados de 1997 a 2009, por país de produção da pesquisa. Natal/RN, 2009.
*Fonte: BDENF; MEDLINE; LILACS; SCielo; ADOLEC; Domínio Público; e ABRAMET
Identificamos, na Figura 04, que a maioria dos artigos encontrados nas bases de dados, referente à temática, foi produzida no Brasil (83%), com destaque para o Estado do Paraná, com 27% do total de artigos, seguido por São Paulo, com 21%.
Diferente dos nossos achados, Ventura; Ventura e Santos (2008) identificaram que mais de 80% da produção nacional foram desenvolvidas na região Sudeste, seguidos pela região Sul. Isso provavelmente ocorre pela maior concentração de instituições de Pós-Graduação nessa localidade, além do que é no Sudeste que se centraliza a economia nacional, havendo possibilidade de mais subsídios direcionados à pesquisa.
Os mesmos autores observaram também que 95,7% dos artigos, encontrados nos Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, eram nacionais e 4,2% eram internacionais, semelhantes aos nossos achados (VENTURA; VENTURA; SANTOS, 2008).
A influência do uso do álcool nos acidentes de trânsito está sendo bastante discutida em nível nacional devido ao aumento dos AT’s em vítimas com idade entre 18 e 24 anos que estavam alcoolizados no momento do acidente. Esse panorama tão preocupante por parte das
PAÍS N % Canadá 01 05,7 Cuba 01 05,7 Uruguai 01 05,7 BRASIL 16 83,0 TOTAL 19 100,0
autoridades governamentais e profissionais de saúde tem levado a grandes investimentos na prevenção do evento. Como consequência, se faz necessário uma produção de pesquisas sobre a temática que incluam sua epidemiologia, para que possa contribuir na promoção e prevenção desses eventos (RAMOS, 2008).
Outro motivo, que também pode ter favorecido para o aumento das publicações brasileiras, foi a aprovação da Lei nº. 11.705, de 20 de Julho de 2008, proibindo qualquer nível de álcool sanguíneo para o condutor de veículos com multa no valor de 957,70 reais. O condutor terá ainda como penalidades a suspensão do direito de dirigir pelo período de doze meses, retenção do veículo até a apresentação de um condutor habilitado, recolhimento do documento de habilitação e detenção de seis a 36 meses (ABRAMET, 2008).
IDIOMA N %
Inglês 02 10,5
Português 15 79,0
Espanhol 02 10,5
TOTAL 19 100,0
FIGURA 05 - Distribuição dos artigos publicados de 1997 a 2009, por idioma e produção da pesquisa. Natal/RN, 2009.
*Fonte: BDENF; MEDLINE; LILACS; SCielo; ADOLEC; Domínio Público; ABRAMET
Observa-se na Figura 05, que 79% dos artigos encontrados nesta pesquisa são escritos em língua portuguesa. Resultados semelhantes foram encontrados por Ventura, Venturos e Santos (2008), em um estudo bibliográfico sobre as características evolutivas dos artigos científicos publicados nos Arquivos Brasileiros de Oftalmologia entre os anos de 1986 e 2000. Os autores detectaram que 94,7% dos estudos foram publicados em português, seguidos pelo inglês com 4,6% do total dos artigos.
Pellizzon (2007) destaca também que existe uma desvantagem na publicação de artigos em português mesmo que internacionalmente, uma vez que a maioria população internacional não domina esse idioma. Sendo assim, os artigos publicados em português são menos utilizados pelos estudiosos e pesquisadores estrangeiros. Por esta razão, dizem Ventura, Venturos e Santos (2008), que os países europeus valorizam pouco os artigos publicados na língua portuguesa, citando-os menos, quando comparados àqueles em inglês que é o idioma da globalização e do mundo científico atual.
Mesmo tendo que passar por esse obstáculo, as produções brasileiras, cada vez mais, melhoram sua qualidade e os autores procuram desenvolver maneiras de superar esse empecilho, como por exemplo, traduzir para o inglês antes de submeter os artigos, facilitando
sua indexação. A indexação nas bases internacionais favorece ao aumento da propagação e exposição das produções científicas (VENTURA; VENTURA; SANTOS, 2008).
Mansur; Abud e Albuquerque (2000) afirmam que o idioma escolhido também está diretamente relacionado ao fator de impacto, influenciando a dinâmica da publicação. Os periódicos que publicam em diferentes idiomas tendem a perder o poder de concentração de citações, e do fator de impacto. Além disso, acrescentam mais etapas na editoração como: aumento no número de horas trabalhadas e de custos devido à publicação de dois exemplares do mesmo periódico. ANO DE PUBLICAÇÃO N % 1997 a 2000 03 16 2001 a 2004 07 37 2005 a 2008 09 47 TOTAL 19 100,0
FIGURA 06 - Distribuição dos artigos publicados de 1997 a 2009, por período, em anos Natal/RN, 2009.
*Fonte de dados: BDENF; MEDLINE; LILACS; SCielo; ADOLEC; Domínio Público; e ABRAMET De acordo com os dados apresentados na Figura 06, constatou-se que entre os anos de 2005 a 2008 foram publicados 09 artigos, seguidos pelos anos de 2001 a 2004, com a publicação de 07 artigos e apenas 03 artigos foram indexados entre os anos de 1997 a 2000.
Dados diferentes aos nossos foram encontrados por Lima; Gomes e Braga (2006) em sua pesquisa sobre a frequência das publicações sobre a asma em periódicos de enfermagem, constatando que 27 dos seus 56 artigos foram publicados no período entre 2002 a 2004. Apesar do período entre 1997 a 2000 ter sido o que menos publicou artigos sobre a temática em questão, ocorreu um evento de suma importância para o trânsito brasileiro: a regulamentação da Lei Nº 9.503 de 23 de setembro de 1997, que instituiu o Novo Código de Trânsito Brasileiro que objetivava o estabelecimento de diretrizes da Política Nacional de Trânsito com vista às seguranças, fluidez, conforto e educação no trânsito (BRASIL, 1997).
No entanto, o período que teve o maior número de publicações de artigos sobre AT’s e o abuso do álcool foi entre 2005 a 2008. Um dos motivos para a elevação dessas taxas pode ser atribuído ao fato de ter ocorrido um aumento da divulgação da mídia em propagandas pró-álcool, aumentando o consumo dessa substância principalmente entre os jovens, consequentemente, aumento dos índices de morbimortalidade decorrentes dos AT’s (PINSKY; PAVARINO FILHO, 2007).
Levando em consideração essas drásticas consequências, entre outros fatores, alguns órgãos governamentais nacionais enfatizaram de maneira mais intensa a criação de novas leis e fiscalizações mais eficientes do trânsito. Um exemplo disso foi a criação, no ano de 2008, da Lei Nº 11,705 de 19 de Junho de 2008, conhecida como “Lei do Álcool Zero”, que alterou a Lei Nº 9.503 do ano de 1997, o Código de Trânsito Brasileiro, que visa inibir o consumo de bebida alcoólica por condutor de veículo automotor (ABRAMET, 2009).
Quanto à distribuição dos artigos publicados de 1997 a 2009, 19 (100,0%) caracterizaram as vítimas de AT’s na seguinte ordem: 19 (100,0%) analisaram quanto à idade; 16 (85,0%) quanto ao sexo, 19 (100,0%) em relação ao consumo de bebidas alcoólicas; 06 (32,0%) em relação ao estado civil; 04 (21,0%) quanto à renda e 04 (21,0%) quanto à escolaridade.
Em relação a estes dados, Andrade e Mello-Jorge (2000) e Pinsky; Pavarino Filho (2004) observaram que um número considerável de vítimas de AT’s era menores de 18 anos e estavam sob a influência de álcool. Beirness e Davis (2007), em estudo realizado no Canadá, também encontraram que jovens menores de 15 anos conduziam veículos automotores sob a influência do álcool.
Barros (2008) e Ramos (2008), em seus estudos sobre acidentes de motocicleta e AT’s em um hospital de urgência em Natal-RN, evidenciaram que a faixa etária com maior frequência foi entre 18 e 24 anos e a maioria dessas vítimas havia ingerido álcool.
Leitão, (1997); Pinsky; Labouvie; Laranjeiras (2004); Duailibi; Pinsky e Laranjeira (2007), que realizaram os seus estudos em São Paulo; Bordignon; Arruda (2002); Liberatti (2003); Bastos; Andrade e Soares (2005), no Paraná; Sauer; Wagner (2003); Modelli; Pratesi e Tauil (2008) que desenvolveram suas pesquisas em Brasília; Barros et al. (2003), no Rio Grande do Sul; e Pedrouzo (2004), no Uruguai, identificaram que a população mais atingida pelos AT’s tinham a idade entre 20 e 30 anos e grande parte dessa população estavam sob o efeito de alguma bebida alcoólica.
Diferente dos autores citados anteriormente, Abreu; Lima e Silva (2007) detectaram, em seu estudo, que a faixa etária que mais se destacou entre as vítimas de AT’s e estavam sob a influência álcool foi a de 26 a 40 anos. No entanto, essa faixa ainda é mais alta quando analisamos os estudos de Scalassara; Souza e Soares (1998) e Garcell et al. (2003), quando identificaram a prevalência de pessoas com idade entre 40 a 60 anos.
Andrade; Mello-Jorge (2000) concluíram que, ao longo dos anos, as pesquisas constatam que os adultos jovens são as principais vítimas, devido ao excesso de autoconfiança na condução do veículo e a imaturidade na detecção e prevenção dos conflitos no trânsito.
Em relação ao sexo, a pesquisa ora desenvolvida identificou que 16 artigos (85,0%) caracterizaram as vítimas de AT’s decorrentes da influência do álcool, e, em todos os estudos, o sexo masculino se destacou.
Esses dados levam a constatar a superioridade do sexo masculino nesses eventos, sinalizando mais uma vez o fato da maior exposição do homem, além do comportamento mais agressivo desse grupo no trânsito. Há de se considerar também que determinantes sociais e culturais, cristalizados na noção de gênero, os expõem a maiores riscos na condução dos veículos, como velocidade excessiva, manobras arriscadas e consumo de álcool (ANDRADE; MELLO JORGE, 2000).
Detectamos, no nosso estudo, que 19 artigos (100,0%) caracterizaram as vítimas de acordo com o consumo de bebidas alcoólicas. Segundo Duailibi; Pinsky; Laranjeiras (2007), a prática de dirigir sob a influência do álcool, constituindo-se em pesado fardo socioeconômico pela soma dos prejuízos materiais, médicos, perda de produtividade da vítima e consequências físicas emocionais e financeiras.
Os resultados de vários estudos apontam que a bebida alcoólica é uma substância psicotrópica bastante conhecida pelos adolescentes, com uma idade média de início do uso de pouco mais de 12 anos de idade, ou seja, bem antes da idade legal para consumo(PINSKY, PAVARINO FILHO, 2004). Abreu; Lima; Silva (2007) comentam que 70% dos AT’s causados pelo consumo de bebidas alcoólicas tendem a ser bastante violentos, levando o condutor e passageiros à morte.
Em documento publicado pela ABRAMET, em 2009, ressalta que as ações dos produzidas pelos condutores alcoolizados são consideradas crime enquadrado na Lei de 20 de julho de 2008 sob o Nº. 11.705/08, denominada Lei do Álcool Zero, leva a uma infração gravíssima sancionando pena de multa no valor de 957,70 reais. Terão também suspensão do direito de dirigir por doze meses; retenção do veículo até a apresentação de um condutor habilitado, recolhimento do documento de habilitação e detenção de 06 a 36 meses (ABRAMET, 2009).
Quanto ao estado civil, na revisão de literatura realizada na nossa pesquisa, 06 artigos caracterizaram as vítimas a partir dessa variável. Vários autores contataram que a maioria de suas vitimas era solteira (ABREU; LIMA; SILVA, 2007; DUAILIBI; PINSKY;
LARANJEIRA, 2007; PINSKY; LABOUVIER; LARANJEIRA, 2004; MODELLI; PRATESI; TAUIL, (2008).
Diferente aos dados desses autores, Ramos (2008) e Barros (2008) identificaram, em seus estudos, que a grande maioria dos sujeitos pesquisados era casado.
Segundo Ramos (2008), a mortalidade em pessoas consideradas solteiras acontece com mais frequência, pois a ausência de uma companheira ou filhos influencia no comportamento masculino se expondo mais aos riscos, tornando-os mais imprudentes na condução do veículo.
Em relação à renda salarial, identificamos em 04 artigos o estudo desta variável. Duailibi; Pinsky e Laranjeira (2007); Pinsky; Labouvie; Laranjeiras (2004) constataram que o as vítimas de AT’s que haviam ingerido álcool antes do evento, recebiam em torno de três salários mínimos mensais. Diferente desses autores, Ramos (2008) e Barros (2008) identificaram que a média salarial dos sujeitos de suas pesquisas era em torno de 02 salários mínimos. Este dado é importante de ser citado, uma vez que estes dois últimos estudos foram desenvolvidos na região Nordeste, e que grande parte dos indivíduos que participaram destas pesquisas tinha baixo nível de escolaridade e consequentemente remuneração condizente com a atividade que desenvolviam.
Porém, diz Ramos (2008), essa baixa remuneração deixa-os desprovidos após um acidente, acrescentando que muitas vezes necessitam se afastar do trabalho, complicando a sua situação econômica.
Liberatti (2003) chama a atenção para a baixa renda da população, porém condiz com a realidade da maioria da população brasileira, onde a remuneração mensal chega até 02 salários mínimos. Neste sentido, a Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que a maioria dos AT’s ocorrem em países de baixa e média renda. Por esta razão, tende a ter maior dificuldade de acesso aos serviços de saúde e aquisição de recursos, consequentemente maior dificuldade na sua recuperação.
Em relação ao grau de escolaridade, em 04 artigos os autores caracterizaram as vítimas por essa variável e, dentre eles, Barros(2008) constatou que a maioria da população estudada possuía o ensino fundamental incompleto. Abreu; Lima e Silva (2007) identificaram que a maioria dos sujeitos tinha o ensino fundamental completo e Pinsky; Labouvier; Laranjeira (2004) e Ramos (2008) que, a da sua população estudada, possuía ensino médio completo.
Ramos (2008) comenta que grande parte das vítimas de AT’s, que reside nas grandes cidades brasileiras, apresenta-se nas camadas menos favorecidas da população, com uma baixa escolaridade, sem qualificação profissional.
CONCLUSÃO
Concluímos que os artigos analisados nesta pesquisa, em sua maioria, estavam indexados no MEDLINE, prevalecendo a abordagem quantitativa do tipo descritiva exploratória. O Brasil como país e o Paraná como o Estado se destacaram com maior número de publicações sobre essa temática. O idioma mais utilizado pelos autores dos artigos foi o português, seguido pelo inglês e espanhol. O período que houve mais publicações foi entre 2004 a 2009.
Em relação à caracterização das vítimas dos AT’s, todos os artigos trouxeram dados sobre as vítimas de acidentes de trânsito decorrentes da influência do álcool e a idade. Além dessas variáveis, 16 artigos caracterizaram a vítima de acordo com o sexo; 06 estudos em relação ao estado civil; e apenas 04 artigos mencionaram a renda familiar e escolaridade.
Todos os estudos analisados abordaram as consequências dos AT’s associados ao consumo de bebidas alcoólicas, sendo considerado um dos principais problemas de saúde pública no Brasil. Por esta razão, é fundamental conscientizar a população de que a associação entre o álcool e direção é fatal, sendo um importante passo para mudar as estatísticas de morbimortalidade em adultos jovens do sexo masculino.
Percebe-se, então, que há necessidade de um trabalho de conscientização e orientação da população por parte das autoridades de trânsito, professores de escolas a partir da mais tenra idade da criança, continuando em todos os níveis e profissionais de saúde, sobre os riscos dessa associação letal e a importância de respeitar as leis de trânsito.
Além do que, ressaltamos a importância de continuar realizando estudos que abordem essa temática, contribuindo, assim, com a formulação de estratégias de enfrentamento desses agravos, minimizando tanto o acidente, em si, como as suas drásticas consequências.
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