22º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 14 a 19 de Setembro 2003 - Joinville - Santa Catarina
III-005 – INFLUÊNCIA DO LODO TÊXTIL NA PRODUTIVIDADE DO MILHO
Arminda Saconi Messias(1)
Doutora em Engenheira Ambiental pela Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-CRHEA/USP; Profa Titular do Dep. Química - UNICAP, Pesquisadora do NPCIAMB – UNICAP e do IPA.
Rita de Cássia Rodrigues da Silva(2)
Mestranda em Agronomia–Ciência do Solo na UFRPE, bolsista CAPES.
Bruno Esteves Távora(3)
Aluno de Engenharia Ambiental da UNICAP, Bolsista PIBIC/FACEPE.
Endereço(1): Rua do Príncipe, 526 - Bloco D, 60andar – Boa Vista - Recife - PE - CEP: 50050-900 - Brasil - Tel:+55 (81) 3216-4188/4017 -
e-mail: [email protected]
RESUMO
O res íduo da indústria têxtil, por ser portador de elementos potencialmente tóxicos, é considerado danoso ao meio ambiente. Assim sendo, o objetivo deste trabalho foi caracterizar e avaliar este resíduo, bem como determinar o seu potencial agronômico em campo, para que possa ser reaproveitado na agricultura, ao invés de ser descartado em solos não preparados adequadamente. O experimento foi realizado no campo experimental da sede da Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária - IPA, Recife, PE, utilizando-se doses equivalentes a 40, 80 e 120 Mg ha -1 de lodo têxtil associadas ou não a uma outra fonte de matéria orgânica - o pó-de-côco - em dose única correspondente a 40 Mg ha-1. De
acordo com os resultados obtidos, conclui-se que as fontes de matéria orgânica lo do têxtil e pó-de-côco favoreceram a produção de matéria seca do milho.
PALAVRAS-CHAVE: resíduos industriais, solos, ciência do solo, reuso, adubação orgânica.
INTRODUÇÃO
Atualmente, há uma grande preocupação com o destino final de vários tipos de resíduos, principalmente com aqueles que contêm elementos potencialmente tóxicos, por serem considerados danosos ao meio ambiente e, conseqüentemente, podendo passar a integrar a cadeia alimentar em altos teores, o que causaria danos à saúde dos animais e do homem. Com essa finalidade, vários estudos estão sendo realizados com lodo de esgoto, lodo de curtume, composto urbano e escórias de siderúrgicas, visando avaliar e, se possível, minimizar o impacto de seus descartes em solos não preparados, adequadamente, para recebê- los, o que acarretaria a contaminação dos lençóis freáticos, lagos, mares e rios. A aplicação desses rejeitos em solos considerados agricultáveis e a sua utilização na recuperação de áreas degradadas demandam uma expectativa científica e econômica. Todavia, o uso racional desses resíduos vai depender das suas características,
principalmente do seu potencial contaminador, e das características químicas, físicas e biológicas do solo e da cultura a ser explorada. O sucesso com o tratamento dos resíduos têm sido freqüentemente observado, na utilização como fertilizante para culturas produtoras de fibras e essências florestais, as quais não são usadas como alimento (Messias, 1998). Diante dessa expectativa, a aplicação desses rejeitos em solos agricultáveis e a sua utilização na recuperação de áreas degradadas estão sendo consideradas. Todavia, o uso racional desses resíduos vai depender das suas características, principalmente o seu potencial contaminador, e das características químicas, físicas e biológicas do solo e da cultura a ser explorada, prestando-se com sucesso como fertilizante para culturas produtoras de fibras e essências florestais, as quais não são usadas para alimentação. Das alternativas para o reuso de lodos, a reutilização agrícola, desde que feita com critério, figura como possibilidade eficiente e viável economicamente. O lodo é rico em matéria orgânica, possui bons teores de fósforo assimilável e demais nutrientes (Morel (1978), Bettiol e Carvalho (1982) citados por Fernandes et al., 1993).
Algumas práticas agronômicas – como adubação, correção da acidez e cultivos – afetam significativamente a atividade da fração orgânica. A intensidade do contato dos resíduos orgânicos com as partículas do solo deve contribuir para o acúmulo diferencial de matéria orgânica no perfil. O manejo do solo e da cultura, portanto, deve ter influência decisiva na qualidade e na quantidade da matéria orgânica (Vasconcellos et al., 1998).
Assim, o objetivo deste trabalho foi caracterizar e avaliar o resíduo da indústria têxtil, assim como determinar o seu potencial agronômico em campo, utilizando-se como variável a produtividade do milho.
MATERIAL E MÉTODOS Solo
O experimento foi conduzido na sede do IPA – Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuá ria, Recife, Pernambuco, em solo com textura franco argilosa.
Lodo Industrial
Amostra de lodo ou lama a ser testada, foi coletada no tanque de decantação proveniente da linha de confecção de tecidos da Suape Têxtil, Rodovia PE 60, s/n, município do Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, com uma geração de resíduos em torno de 100 kg por dia, sendo enterrados, na sua totalidade, no aterro industrial localizado no espaço físico da Empresa, conforme NBR 10.157 (ABNT, 1987).
A amostra de lodo coletada para os testes foi seca ao ar , triturada e passada em peneira de malha de 2 mm, para análise química (pH, nitrogênio, fósforo, potássio, magnésio, sódio, matéria orgânica, zinco, cobre, ferro, manganês) determinadas pela metodologia descrita em Brasil (1983), encontrando-se na Tabela 1.
Pó-de-côco
O pó-de-côco utilizado neste trabalho foi proveniente do município de São José da Coroa Grande, Pernambuco. Ele foi seco ao ar e, em seguida, passado em peneira de 5 mm de abertura. As características químicas do pó-de-côco encontram-se na Tabela 1.
Milho Utilizado
A cultivar São José - BR 5026 é indicada para produção de milho verde em região de boa distribuição de chuva ou com possibilidade de uso de irrigação. A principal vantagem dessa cultivar para consumo como milho verde reside no fato do seu cultivo poder ocorrer sem o uso de agrotóxico. As suas espigas apresentam bom tamanho (média de 18 cm de
comprimento), são bem granadas e sadias. Dados experimentais obtidos na zona Litoral - Mata mostraram que essa cultivar apresentou 8,28 e 4,31 t ha -1 para pesos de espigas verdes com palha e sem palha, respectivamente, correspondendo a 96,28 e 97,29 % da produção do híbrido duplo C-525, respectivamente. Essa cultivar também se presta à produção de forragem, uma vez que dados experimentais obtidos na zona Litoral - Mata indicaram uma produção de 37,72 t ha-1 de biomassa, sendo a produção de matéria seca total igual a 10,40 t ha-1, com produção de grão de 2,52 t ha -1 (Tabosa et
al.,1995).Algumas características da cultivar São José - BR 5026 encontram-se na Tabela 2. Procedimento Experimental
No campo experimental da sede da Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária-IPA, Recife, PE, foi escolhida uma área que correspondeu a um solo de textura franco argilosa, a fim de ser preparada adequadamente, mediante capinação, para receber os oito canteiros experimentais. Cada parcela experimental constituiu-se de canteiro com 2m de
comprimento por 1m de largura por 0,30m de altura, sendo composto de 2 fileiras
espaçadas de 0,80m, com 10 covas por fileira, distanciadas a cada 0,20m . Utilizou-se um delineamento experimental inteiramente casualizado com arranjo fatorial 4x2 (4 doses de lodo têxtil e 2 doses de pó-de-côco), com oito tratamentos correspondentes às doses equivalentes a zero, 40, 80 e 120 Mg ha-1 de lodo têxtil na presença e na ausência de uma dose correspondente a 40 Mg ha-1 de pó-de-côco. A incubação do pó-de-côco durou 10 dias e a do lodo têxtil 45 dias, conforme o experimento de incubação realizado
anteriormente.
Após a incubação, plantaram-se cinco sementes de milho, cultivar São José - BR-5026 (seleção IPA), sugerida por Tabosa et al.(1995), por cova e, depois de sete dias da
germinação fez-se o desbaste, deixando-se duas plantas por cova, totalizando-se 40 plantas por canteiro, até o final do experimento (100 dias).
Neste experimento foram avaliados os seguintes parâmetros: peso seco da parte aérea (folhas, panícula, palha e grãos) e peso de 100 grãos, amostrados no terço médio das espigas de milho.
Os dados obtidos foram submetidos à análise da variância, utilizando-se o programa estatístico SANEST ( Zonta et al., 1984).
Tabela 1: Atributos físico-químicos do lodo têxtil e do pó - de - côco
DETERMINAÇÕES LODO TÊXTIL1 PÓ-DE-CÔCO2 N (g kg-1) 0,80 0,90 P (g kg-1) 0,02 0,25 K (g kg-1)
0,95 5,64 Na (g kg-1) 0,60 4,35 Ca (g kg-1) 0,32 6,38 Mg (g kg-1) 0,11 7,38 MO (g kg-1) 168,00 131,90 Zn (mg kg-1) 38 90 Cu (mg kg-1) 36 47 Fe (mg kg-1) 620 58
Mn (mg kg-1) 30 34 pH (H2O) - 1: 2,5 9,36 6,20
Fonte: 1LAGRI -Laboratório de Análises Agrícolas Ltda; 2Laboratório de Química do Solo da UFRPE
Tabela 2: Características da cultivar de milho São José - BR 5026 (Seleção IPA), utilizada no experimento
Número de dias para florescimento masculino 55(49 - 63)
Altura de planta (cm) 227(163 – 264) Altura de espiga (cm) 123(88 – 158)
Número de espiga por plantas 1,07(1,00 - 1,29)
Número de espiga mal empalhada 0,11( 0,00 - 0,80)
Danos da lagarta-do-cartucho (S.frugiperda)1 2,51(1,89 - 3,05)
52(1,14 - 3,90)
Produtividade experimental (kg ha-1 ) 6284(3175 - 9012)
Produtividade à nível de produtor (irrigado) (kg ha -1 ) 5511
Produtividade à nível de produtor (sequeiro) (kg ha-1 ) 3500(3500 - 3950)
Tipo de grão Meio dente Cor de grão Amarela
Peso médio de 100 sementes (g) 36,00
Fonte: Tabosa et al. (1995).
1 Escala de nota de 0 – 5, onde nota 0 = planta com folhas não danificadas e nota 5 = plantas com
cartucho destruído (Carvalho,1970); 2Escala centimétrica de nota, onde nota 0 = espiga sem dano
e n + 2 = dano entre n e n+1 cm abaixo da ponta da espiga (Widstrom,1967)
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A Tabela 3 apresenta a produção de matéria seca das partes do milho e o peso de 100 grãos. Para a palha da espiga e a panícula as maiores produções foram obtidas com a dose 40L40C (1406,25 e 47,64 kg ha-1 , respectivamente). Para a folha e espiga encontrou-se os maiores valores para a produção de matéria seca com as doses 40L (42,49 kg ha-1) e 40L40C (8399,64 kg ha-1), respectivamente. O valor encontrado para a espiga ficou bem superior ao encontrado por Tabosa et al. (1995), para esta mesma cultivar (6284 kg ha-1). Andreotti et al. (2000), citam que a concentração do potássio no solo interfere no teor deste elemento
na planta e na produção de matéria seca e grãos. O peso médio de 100 grãos de milho foi favorecido pela presença do pó-de-côco (26,26g) na dose equivalente a 80L40C, apesar do valor estar abaixo do valor médio (36 g) encontrado por Tabosa et al. (1995). Segundo Carvalho (1988), a disponibilidade de nutrientes influi na boa formação do embrião e do órgão de reserva, assim como na sua composição química e conseqüentemente no metabolismo, no vigor e por fim na produção de grãos.
Tabela 3 Produção de matéria seca das partes do milho e peso de 100 grãos do milho cultivado por 100 dias. Médias de três repetições
Doses Folha Panícula Palha da Espiga Espiga 100 Grãos ...Mg ha-1... ... ...kg ha-1.... ... ... ... g ... 0L 39,48d 35,34d 739,03c 4360,47c 20,74d
40L 42,49a 43,86c 931,52c 4181,65c 20,82d 80L 40,25c 32,82e 1148,31b 5942,72b 23,20c 120L 38,54d 41,79c 540,06d 2492,79d 22,15c Média 40,19A 38,45B 839,73B 4244,41B
21,73B 0L40C 37,41e 36,92d 694,35d 3879,67d 22,73c 40L40C 35,09f 47,64a 1406,25a 8399,64a 24,48b 80L40C 29,57g 35,17d 747,39c 4324,26c 26,26a 120L40C 41,63b 45,92b 900,05c 5104,29b
22,18c Média 35,93B 41,41A 937,01A 5426,97A 23,91A CV % 13,62 2,08 15,09 23,17 2,04
Médias seguidas da mesma letra minúscula não diferem estatisticamente entre doses, e maiúscula entre médias, pelo teste de Tukey a 5 % de probabilidade. L= lodo têxtil; C= dose correspondente a 40 Mg ha-1 de pó-de-côco
CONCLUSÕES
De acordo com os dados obtidos no experimento, pode-se observar que:
a dose 40C40L (1406,25 kg ha -1 , 47,64 kg ha-1 e 8399,64 kg ha -1 respectivamente) foi a que apresentou uma melhor produtividade para palha da espiga, panícula e espiga;
na produção de matéria seca das folhas a dose que apresentou um melhor resultado foi a equivalente a 40L (42,49 kg ha -1);
para o peso de 100 grãos de milho a dose que se mostrou mais eficaz foi a dose equivalente a 80L40C (26,26 g);
a utilização de uma fonte de matéria orgânica juntamente com o resíduo testado favoreceu o desenvolvimento do milho, em comparação ao uso do lodo têxtil individualmente;
a perspectiva de utilização do lodo têxtil como fertilizante orgânico é muito promissora, desde que se leve em consideração as propriedades do lodo, dos solos e das plantas.
AGRADECIMENTOS
Ao PNEPG/CNPq, UNICAP, IPA, FACEPE, UFRPE, SUAPE TÊXTIL
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDREOTTI, M.; SOUZA, E.C.A.; CRUSCIOL,C.A.C.; RODRIGUES,J.D.; BÜLL,L.T. Produção de matéria seca e absorção de nutrientes pelo milho em razão da saturação por bases e da adubação potássica. Revista de Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.35, n.12, dezembro / 2000.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS – ABNT. NBR. 10.157 – Aterros de Resíduos Perigosos: Critérios para projeto, construção e operação. São Paulo, 1987. 22p.
BRASIL. Ministério da Agricultura. Secretaria Nacional de Defesa Agropecuária. Análise de corretivos, fertilizantes e inoculantes: métodos oficiais. Brasília, Laboratório Nacional de Referência Vegetal. 104p, 1983.
CARVALHO,N.M.; NAKAGAWA,J. Sementes: ciência, tecnologia e produção. 3.ed., Campinas, Fundação Cargill,p.96-127,1988
CONCHON, J. A. Tratamento de Efluentes na Indústria Têxtil. Revista Base Têxtil, n.123, p.1-6, 1999.
EMBRAPA. Serviço Nacional de Levantamento e Conservação de Solo. Manual de métodos de análise de solo. Rio de Janeiro, 1997, 211p.
FERNANDES, F., PIERRO, A. C., YAMAMOTO, R. Y. Produção de fertilizante orgânico por compostagem de lodo gerado por estações de tratamento de esgotos. Revista Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.28. n.5, 1993, 27p.
GOMES, F. P. Curso de estatística experimental. Piracicaba, Universidade de São Paulo. 1970, 430p.
MESSIAS, A. S. Reaproveitamento agronômico de um lodo proveniente de indústria têxtil. Recife: s.ed., 1998, 85 p.(Processo 000400189/98).
MOTA, S. Introdução à Engenharia Ambiental. Rio de Janeiro, ABES, p.59-63, 1997. TABOSA, J.N.; LEMOS, M.A.; FILHO,J.J.T.; GAMA,E. E.G,; ARCOVERDE,A.S.S.; SANTOS,J.P.O; OLIVEIRA,S.A.A. São josé – BR 5026 (Seleção IPA) Cultivar de milho desenvolvida para Pernambuco selecionadas contra lagartas-do-cartucho e da espiga. Agosto, (Comunicado Técnico,61), 1995.
TEDESCO, M. J.; SELBACH, P. A.; GIANELLO, C.; CAMARGO, F. A. O. Resíduos orgânicos no solo e os impactos no ambiente. In: SANTOS, G. A.; CAMARGO, F. A. O. (Eds.). Fundamentos da matéria orgânica do solo: ecossistemas tropicais e subtropicais. Porto Alegre: Gênesis, p.15-196, 1999.
VASCONCELLOS, C. A. , FIGUEIREDO, A. P. H. D, FRANÇA, G. E. Manejo do solo e a atividade microbiana em latossolo vermelho-escuro da Região de Sete Lagoas, MG. Revista Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.33, n.11, 1998, p.13-18.
ZONTA, E. P.; MACHADO, A.A.; SILVEIRA JUNIOR, P. Sistema de análise estatística para microcomputadores (SANEST). Pelotas, Universidade Federal de Pelotas.